Música, por favor
Beethoven, Sonata nº 8 - Ruben Reina no violino e Paulo Brasil no piano
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Os meus dias aqui são dias de paz e felicidade. A minha recuperação vai andando a bom ritmo e, estando cada dia mais próxima da normalidade, tudo são prazeres a que não viro as costas. Hoje fui às compras ao supermercado (ou melhor, fui transportada, pois ainda não me aventurei a conduzir) e que bom é andar por ali, escolhendo o peixe para o almoço, escolhendo a fruta, os legumes. A mobilidade ainda não é perfeita mas, apesar das limitações, tudo isto são pequenas vitórias e grandes alegrias.
Aqui em casa continuam as limpezas e, claro, tal como ontem, quando o período de pé é mais longo e sinto que preciso de descansar, pego na máquina fotográfica e entretenho-me a fotografar a casa, depois sento-me, passo as fotografias para o computador, depois recomeço já pronta para mais faxina.
Hoje foi dia de leitura do Expresso - grande artigo o do Miguel Sousa Tavares!, grande artigo o da Clara Ferreira Alves! (porque não me apetece indispor-me nem indispor-vos, não falo da Perella e de outras empresas que, sob recomendação do ministro-fantasma Borges, e, ao que parece, também do Gaspar, por aí andam ganhando dinheiro e dando dinheiro a ganhar, e vamos ver se não de forma ilícita, enquanto nós vamos descontando e pagando mais e mais impostos para lhes pagar).
A seguir peguei num livro que andava com vontade de ler há algum tempo mas, como tenho alguns mixed feelings em relação à autora, fui protelando. Não se pode dizer que o livro seja extraordinário em termos literários mas é uma escrita corrida e o tema desperta curiosidade pelo que já li quase metade. Trata-se de 'A menina é filha de quem?' da Rita Ferro, um livro autobiográfico.
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Rita Ferro lendo uma parte do seu livro, em cuja capa se encontra uma fotografia sua em menina |
Transcrevo um pouco para dar 'um cheirinho' a quem ainda não o leu:
(Falando das duas avós, a materna, viscondessa, e a paterna, a poetisa Fernanda Castro)
"Dava gosto observar as duas sogras: a cultura a concorrer com o berço, a qual, quando se esmera, leva a taça de olhos fechados, embora ali o nível se tenha equilibrado até ao fim. Em todo o caso, uma linha marcava subtilmente a distância: a minha avó materna jamais permitiu, até ao fim da vida, que o meu pai, seu genro, a tratasse se não fosse por senhora viscondessa, numa época em que o senhora dona e o tia eram alternativas.
- Chamar mãe à sogra é um bocadinho povo - ouvia-se lá por casa.
Já a minha avó Fernanda - lá está - pediu à minha mãe no próprio dia em que a viu casar-se com o filho:
- Não quero cá tias nem senhoras donas, Pó, trata-me por Fernanda.
A poetisa morou no prédio em que viria a morrer e se tornou histórico, onde antes vivera o político Joaquim Pedro Oliveira Martins e a mulher, e onde muitos nomes ligados às artes tinham, noutros andares, escrito ou desenhado: o escritor Ramalho Ortigão, o grande gráfico suíço Fred Kradolfer, o poeta José Gomes Ferreira e a mulher, Ingrid, e ainda os pintores Bernardo Marques e Ofélia, sua primeira mulher, que viriam a suicidar-se. A todos estes acrescenta-se ainda uma história de fadas: no andar superior, tinham também residido as senhoras Campos, já muito idosas, antigas aias dos príncipes D. Luís Filipe e D. Manuel.
O prédio ficou conhecido como o Soviete dos Caetanos, por ficar na Calçada dos Caetanos, nº6, e os meus pais, depois de deixarem Cascais como morada permanente, alugaram uma casa na mesma rua, no nº7, na rampa onde se instalara, para as décadas vindouras, o Conservatório de Música, mesmo em frente aos Estúdios Cor, hoje famosos por terem empregado Saramago, figura que eu seguia, já nessa altura, industriada à janela por meu pai:
- Aquele senhor que vai ali também escreve, como o pai, mas pensa de modo diferente. É comunista.
- O que é comunista, pai?
- Comunista é ires agora estudar com os teus irmãos!
No nº 6 da Calçada dos Caetanos, onde artistas bebiam de mais e gritavam versos ou ideias pela noite fora, a minha mãe arregalava os olhos com aquela chusma vestida à revelia da moda, cujos excessos a interditavam: muito gin a circular, certas liberdades de linguagem, uma grande intensidade em tudo o que se dizia e um teatro que a hipnotizava pelo contraste com o ambiente em que crescera.
(...)
A Natália [Correia], então, electrizava-nos. Pisava como uma imperatriz, tinha o timbre de uma soprano, falava como se declamasse no tom dos génios e das divas, e olhava para nós como se fôssemos larvas: não tinha filhos nem a menor paciência para crianças e confessava-o sem escrúpulos. Guardava uma raiva surda às mulheres exclusivamente domésticas e apontava-as a dedo, sem caridade, berrando para nosso sobressalto:
- Mulher imunda!
(...)
O Ary [dos Santos], caramba, que levava à minha avó presentes sofisticados, como lenços Hermès, marrons glacés ou flores tão raras que pareciam pássaros! Quando se cruzava connosco, perguntava-nos invariavelmente que ano frequentávamos, nas escolas ou liceus, para virar as costas antes da resposta - décadas mais tarde apanhá-lo-ia em flagrante a tentar catrapiscar-me um marido, e não escondo o que este me fez rir ao abrir muito os olhos para me rogar salvação."
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E, continuando a mostrar-vos o produto das minhas expedições fotográficas, e esperando não vos maçar para além da conta...
Mostrando ao Poeta como estão as minhas uvas que ou padecem de excesso de calor ou de alguma maleita que não foi tratada:
E agora voltando a entrar em casa. Ontem fiquei com pena de não se ver o prato das louças Fortuna e, por isso, hoje fotografei uma outra peça feita lá, também oferta dos meus pais: uma travessa que tenho em cima do aparador que está junto à mesa de jantar.
Como se vê, é uma travessa de barro pintado manualmente. É pesadíssima. É da Fortuna Ofícios. À frente, uma galinha das Louças Bordallo Pinheiro. Por trás, na parede, um grande espelho |
Ontem falei dos muitos galos que tenho pintado e mostro-vos um deles.
Mostro-vos também, de novo, a minha pequenina árvore renascida depois de a termos dado por perdida, quando uma rajada de vendo derrubou a árvore, uma grevílea, então já alta. Apesar deste calor e apesar de tão novinha agora que renasceu, cresceu imenso nestas semanas.
Está assim, vista de dentro da sala:
Como se vê, rebentou junto ao que resta do tronco da mãe Está entre duas pedras enormes que saíram aqui da terra e que agora usamos como bancos (e como elementos decorativos) |
E como num dos comentários ao post de ontem, foi referido que a minha casa parece uma casa de fantasia, de bonecas, provo que assim é, de facto.
Com vossa licença, voltamos a entrar numa das casas de banho, por sinal a mesma de ontem. No parapeito da janela que está junto à banheira e que tem uma cortina de linho com renda feita pela minha mãe, tenho duas meninas.
Esta menina está a tomar um banho de espuma, de espelhinho na mão, enquanto um gato a observa de cauda toda arrebitada (É uma figura em chapa metálica pintada) |
Esta outra menina prepara-se para ir apanhar um banho de sol lá fora, havaiana no pé, uma formosura (É de material sintético pintado) |
Ou seja, Ana, como vê, é mesmo uma casa de bonecas. Ontem, em cima da lareira, já estava uma, com as 3 de hoje, já faz 4. E comigo, já vai em 5...!
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E, por hoje é isto, meus Caros Leitores.
Já é domingo e o que vos desejo é que seja um belo dia, que o vivam com boa disposição e muitos sorrisos!
