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quarta-feira, maio 20, 2026

Em terra de Más Influências, ya, tipo, tás a ver, viro as costas às famosas Bruna Magalhães e Mia Fernandes e junto-me aos cotas Luís Osório e Violante Saramago Matos que falam devagar e usam um vocabulário tão decente que talvez haja quem já o considere vintage

 

Aqui no campo, podemos ver todos os canais através da internet, mas, por preguiça, por vezes deixamo-nos estar nos básicos. Eu estava com o computador a ver a conversa que mais abaixo partilho e, na televisão, numa daquelas viagens rápidas em zapping, o meu parido parou no 5 para a Meia Noite no momento em que duas jovens convidadas conversavam com uma outra que nos pareceu residente. As duas, que nunca tínhamos visto nem ouvido falar, foram apresentadas como tendo um Podcast muito famoso. Até já foram ao programa (ou ao podcast?) da Júlia Pinheiro, disseram como sendo a inegável coroa de glória... e, por toda a conversa, parecia que meio mundo corre para não perder o que elas dizem. Isto tudo no meio de risos, conversas sobrepostas, tontices. O meu marido virou-se para mim: 'Já tinhas ouvido falar nelas?'. Nunca. Ele pediu: 'Procura lá aí, para ver se se percebe'. Fui ao youtube e procurei. Abri um vídeo e, ao fim de um minuto, o meu marido sentenciou: 'Pronto. Já chega.' e acrescentou: 'Porra.'

Se eu quiser reproduzir o que elas disseram naquele minuto não sou capaz. Não estou com défice de memória pelo que admito que não consigo porque elas, simplesmente, não disseram nada. Só me ficou que, em cada três palavras, aparece a palavra 'tipo' pelo menos quatro vezes. Pelo meio, 'ya'. Tipo, ya, tipo, ya, tás a ver, tipo.

Riem, interrompem-se, comem -- e não dizem nada.

Para ter a certeza de que não estou a ser injusta, voltei agora a ver mais um pouco e nem um minuto voltei a aguentar. Palavrão da pesada, mas ponham da pesada nisso. Uma vulgaridade, asneiras a granel misturadas com tipo e com ya e com tás a ver. E não passa disso, uma cansativa indigência. A todos os títulos, uma miséria.

E, uma vez mais, parece que há muita gente a consumir uma porcaria sem ponta por onde se pegue. Sinceramente, não sei que retrocesso civilizacional é este. 

Elas são a Bruna Magalhães e a Mia Fernandes e o podcast chama-se Más Influências -- uma coisa que, se vivêssemos tempos normais, ao fim do primeiro episódio, por falta de audiência, deixaria de ver a luz do dia. Agora não. Nestes tempos em que reina a estupidez, estas duas criaturas têm audiência e são convidadas para programas de televisão como se fossem pessoas com alguma coisa para dizer. E não têm. 

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Felizmente, há o reverso. Foi de gosto que vi e ouvi a conversa entre o Luís Osório e a Violante Saramago Matos, a filha de José Saramago. Ele faz uma pergunta e deixa-a falar, dá-lhe espaço e tempo, ela escuta-o, pensa -- e nós podemos respirar, escutá-los, olhá-los. Há todo um tempo, uma história, um vocabulário, memórias intelectuais e emocionais, um saber pensar, um saber falar.

Claro que, ao olhá-la, me ocorre o lugar comum de que 'o tempo passa a correr'. Aqui está a filha de Saramago já com 78 anos, já com mais 2 anos do que o pai tinha quando recebeu o Nobel... Ainda o tenho presente, as suas palavras, e aqui está a sua filha já a pensar que o fim se aproxima. Inclemente, o tempo. 

Falam no Ensaio sobre a Cegueira, livro que ela tem na cabeceira. Para mim também um livro fundamental, daqueles momentos em que se cava um buraco sob os nossos pés para que a literatura desenhe uma nova fundação.

Não é daquelas conversas que se ouça em dois ou três minutos -- não, é para se ouvir com tempo. Falam de muita coisa, incluindo da demagogia do Durão Barroso, para mim uma alforreca com que nunca pude, e da sua mulher, muito melhor que ele e que por ele se apagou, a Margarida Uva por quem sempre tive muita simpatia.

"Vencidos" com Violante Saramago Matos | Antena 1 /  Luís Osório

José Saramago só tem uma filha e dois netos. A filha chama-se Violante e é uma mulher extraordinária e discreta. À conversa com Luís Osório. Saramago como nunca o ouviu.


Desejo-vos um bom dia

domingo, abril 12, 2026

Peace over war!

 

O Boss entra e, com o seu vozeirão, grita as palavras que unem os que resistem ao crescente e demencial fascismo de Trump. 

Com todo o seu eletrizante power, o Boss solta as palavras que todos querem ouvir, o grito que traz a esperança de que o bem vingará sobre o mal, de que os tempos felizes avançarão sobre estes tempos de chumbo. Quando, no fim, grita que a paz vencerá sobre a guerra é uma descarga de adrenalina que incendeia a multidão. 

Trump, naqueles seus posts nocturnos, quando a demência aperta e os filtros desaparecem, incitou ao boicote aos seus concertos, apelidou Bruce Springsteen de medíocre, de perdedor, de ameixa seca e de toda a espécie de parvoíces que a sua bílis decadente verteu. 

Claro que isso motiva ainda mais o Boss e os muitos que se reveem no seu grito de guerra ao fascista, ao pretenso rei cor-de-laranja, ao demente que, a um ritmo alucinante, tem vindo a minar a democracia americana e a lançar o mundo num estado caótico. É como se todos fossem um só corpo a afirmar a força da resistência.

Gostava muito de estar num daqueles concertos para também poder gritar a plenos pulmões: 

Democracia sobre o autoritarismo

Estado de direito sobre a ilegalidade

Ética sobre corrupção

Resistência sobre a complacência

Verdade sobre a mentira

Humanidade sobre a divisão

Paz sobre a guerra

 

Bruce Springsteen & The E Street Band   -- Introdução e War

sábado, março 28, 2026

Mulheres palestinianas e israelitas descalças, de mão dada, pedindo a paz -- para que os seus filhos não matem nem sejam mortos
E que este sábado, 28 de Março, as ruas americanas transbordem de millions and millions a protestar contra Trump

 

Todos os países que desencadeiam guerras são governados por homens. Não que todos os homens sejam belicistas, claro, claro que não. Muito menos se pode inferir que todos os homens têm tendências imperialistas, que são insensíveis ao sofrimento, que são assassinos. Nem pensar. Tenho a certeza que, felizmente, são uma minoria. Mas, nos que pertencem a essa minoria, há com certeza alguma correlação entre terem esses traços e a testosterona. Putin, Netanyahu, Trump -- são disso exemplo, e só para referir casos recentes, cujos actos bélicos estão a desestabilizar o mundo.

No meio deste ambiente frenético em que os mísseis e os drones cruzam os céus, com tanta gente a morrer e tantas cidades a serem destruídas, com a economia alterada e o futuro ameaçado, quase nos esquecemos que a maioria da população é feminina. 

E, enquanto ainda dura a chacina que se verifica em Gaza (e que não vai acabar enquanto Israel não dispuser do território limpo para poder começar a construir a Riviera idealizada por Trump, Jared Kushner e amigos, e, com tudo devidamente higienizado e produtivo, anexado a Israel), eis que mulheres da Palestina e de Israel se juntam em Roma e, descalças, marcham e cantam pela paz.


Seria bom que em todo o mundo -- em todo o mundo, repito -- houvesse manifestação de mulheres pela paz. As mulheres todas na rua, marchando pela paz. Milhões de mulheres. Para que os nossos filhos não matem nem sejam mortos. Sem bandeiras, sem símbolos territoriais ou religiosos. Apenas as mulheres, com vestes simples, com uma echarpe que simbolize a harmonia e a união entre os povos. 

Não sei quem pode convocar manifestações assim mas penso que seria importante que alguém conseguisse fazê-lo. Aqui fica o meu humilde apelo. Contra o belicismo de uns e a cobardia de outros, que as mulheres descessem à rua e fizessem ouvir a sua voz.

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Mães israelitas e palestinianas marcham descalças por Roma num apelo conjunto à paz

As mães israelitas e palestinianas caminharam lado a lado por Roma, na terça-feira, num poderoso apelo conjunto à paz, liderado pelas nomeadas para o Prémio Nobel da Paz, Yael Admi e Reem Al-Hajajreh. Centenas de pessoas juntaram-se à marcha descalça, atravessando o centro da cidade, desde o Ara Pacis até ao Terraço do Pincio.

A "Caminhada Descalça: Apelo das Mães pela Paz" contou com o apoio da administração da cidade de Roma, com uma apresentação coral realizada na Piazza del Popolo. Admi disse que as mães de Israel, Palestina, Líbano e Irão partilham uma exigência: que os seus filhos não morram nem matem.

As duas activistas deverão reunir-se com o Papa Leão XIII na quarta-feira, no âmbito da sua visita a Roma, acrescentando uma importante dimensão diplomática à sua missão de paz.


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Já agora:

Desejo também que, nos Estados Unidos, este sábado seja marcado por uma enchente nunca vista, muitos milhões de pessoas nas ruas de todas as cidades (mais que os 7 milhões da última manif), na manifestação NO KINGS


E cá está o Boss, Bruce Springsteen, a fazer o apelo. E com que intensidade o faz. Vejam até ao fim, ok? 


E vejam também o grande Robert de Niro, o respeitabilíssimo Robert de Niro, a fazer o mesmo apelo

Robert De Niro convoca o maior protesto da história americana para 28 de março: "NO KINGS"


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Um bom sábado

Saúde. Paz.

sexta-feira, fevereiro 27, 2026

OMG, how stupid they are...

 

Não foi tanto o chorrilho de mentiras, os disparates sucessivos, a infantilidade da conversa, a descarada provocação aos adversários políticos - foi, sobretudo, a atitude dos correlegionários.

De 10 em 10 segundos levantavam-se para aplaudir, sorrindo em êxtase, abanando aquiescentemente a cabeça. Como marionetas enfeitiçadas, assim eles. Dissesse Trump as alarvidades que dissesse, aldrabices sem ponta por onde se lhes pegasse, proferisse as afirmações que proferisse algumas delas de arrepiar a consciência de quem respeite o civismo, o conhecimento, a verdade, e logo os deus patetas atrás, J. D. Vance e Mike Johnson, se levantavam, desfeitos em sorrisos e aplausos. Ao mesmo tempo a plateia fazia o mesmo. 

Ora não é possível que entre toda aquela gente não houvesse um ou outra com dois dedos de testa. Não se pede muito mais. Não se pede uma boa dose de escrúpulos, de conhecimento da história, nomeadamente da história económica do país, de bom senso, de respeito alheio. E, no entanto, ali estiveram, durante quase duas horas, a levantarem-se e a sentarem-se, a babarem-se perante um burro, um demente, um estúpido, um alarve.

Que raio de mundo é este? 

Não creio que este comportamento acéfalo seja específico dos americanos. Podemos vê-lo nos cultos e nos regimes ditatoriais. Mas, mesmo aí, não sei se o grande líder tem o despudor de dizer tanta mentira, de ser tão aberrantemente provocador, mal educado. Salazar, Mussolini, Hitler e toda essa estirpe de gente, e reportando-me apenas, aos idos, despertaram grandes manifestações de apreço e gáudio.

Ou seja, é a raça humana que é mesmo assim. Quase metade de nós é para esquecer: uns ignorantes, estúpidos, acéfalos, maldosos, vingativos, invejosos, cruéis. Somos nós, ou melhor: alguns de nós, que elegemos os piores, os mais perigosos, os fascistas, os nazis, que os mantemos no poder, que lhes damos a força de que necessitam para darem cabo de parte da população.

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Felizmente, Jimmy Kimmel ainda consegue dizer das suas. E que bem que as diz. Haja alegria.

Jimmy Kimmel reage ao discurso de Donald Trump - State of the Union Address 2026

Jimmy reage ao discurso sobre o Estado da União de Donald Trump. O discurso estendeu-se por muito tempo, a popularidade de Trump está no ponto mais baixo do seu segundo mandato, todo o tempo sentado e de pé deixou o vice-presidente JD Vance entusiasmado, a equipa masculina de hóquei dos EUA compareceu após visitar a Casa Branca, a equipa feminina de hóquei dos EUA recebeu uma oferta melhor de nada mais nada menos que Flavor Flav, as pessoas estavam a apostar no que Trump diria esta noite, e temos a réplica oficial dos democratas ao discurso de Trump, feita por nada mais nada menos que o governador da Califórnia, Gavin Newsom (Josh Meyers).

quinta-feira, janeiro 22, 2026

O notável discurso de Mark Carney, Primeiro-Ministro do Canadá, em Davos

 

Presumo que já toda a gente tenha lido e/ou ouvido o discurso, escrito pelo próprio Mark Carney e que espantou toda a gente -- uma lufada de ar fresco, uma janela aberta para um mundo que pode ser melhor, um murro na mesa (ou na cara de Trump), um pensamento escorreito e uma escrita limpa -- mas, até para memória futura, faço questão de o ter aqui. 

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É um prazer — e um dever — estar convosco neste momento crucial para o Canadá e para o mundo. Hoje, vou falar sobre a rutura na ordem mundial, o fim de uma bela história e o início de uma realidade brutal, na qual as relações entre grandes potências se fazem sem quaisquer limites à sua atuação.

Mas também quero dizer-vos que os outros países, em particular as chamadas potências médias, como o Canadá, não são impotentes. Têm a capacidade de construir uma nova ordem que incorpore os nossos valores, como o respeito pelos direitos humanos, pelo desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos Estados. O poder dos menos poderosos começa com a honestidade.

Todos os dias alguma coisa nos lembra de que vivemos numa era de rivalidade entre grandes potências, que ordem mundial sustentada por regras está a desvanecer-se e que os fortes fazem o que querem, e os fracos sofrem o que têm de sofrer.

Este aforismo de Tucídides é apresentado como inevitável, apenas a lógica natural das relações internacionais a reassumir-se. E, perante esta lógica, há uma forte tendência para os países se acomodarem, de forma a evitarem problemas. Esperam que essa aceitação lhes traga segurança.

Mas não trará. Então, quais são as nossas opções?

Em 1978, o dissidente checo Václav Havel escreveu um ensaio chamado “O Poder dos Impotentes”. Nele, faz uma pergunta simples: como é que o sistema comunista se sustentava?

A resposta começa com um vendedor de hortaliças. Todas as manhãs, este merceeiro coloca um cartaz na sua montra: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” Ele não acredita naquilo. Ninguém acredita. Mas coloca o cartaz na mesma, para evitar problemas, para sinalizar conformidade, para se acomodar. E, porque todos os lojistas em todas as ruas fazem o mesmo, o sistema persiste.

Não apenas através da violência, mas através da participação de pessoas comuns em rituais que sabem, no seu íntimo, serem falsos.

Havel chamou a isto “viver dentro da mentira”. O poder do sistema não vem da sua verdade, mas da disposição de todos a representá-lo como se fosse verdade. E a sua fragilidade vem da mesma fonte: quando uma pessoa, uma pessoa que seja, deixa de representar, quando o vendedor de hortaliças retira o seu cartaz, a ilusão começa a quebrar-se.

Está na altura de empresas, países, retirarem os seus cartazes.

Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob aquilo a que chamávamos ordem internacional baseada em regras. Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios e beneficiámos da sua previsibilidade. Pudemos implantar políticas externas sob a proteção destas regras.

Sabíamos que a história desta ordem internacional era parcialmente falsa. Que os mais fortes se eximiriam quando lhes fosse conveniente. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variado, dependendo da identidade do acusado ou da vítima.

Esta ficção foi útil, e a hegemonia americana, em particular, ajudou-nos a ter acesso a rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva, e apoiou organismos que se ocupariam da resolução de conflitos. E foi por isso que colocámos o cartaz na montra. Participámos nos rituais. E evitámos, em boa parte, apontar as lacunas entre retórica e realidade.

Este acordo já não funciona. Deixem-me ser direto: estamos a meio de uma rutura, não de uma transição. Nas últimas duas décadas, uma série de crises nas finanças, saúde, energia e geopolítica revelou os riscos da integração global.

Mais recentemente, as grandes potências começaram a usar a integração económica como arma: tarifas como vantagem negocial, a infraestrutura financeira como coerção, as cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a serem exploradas.

Não se pode “viver dentro da mentira” de benefício mútuo através da integração quando a integração se torna a fonte da vossa subordinação.

As instituições multilaterais de que os poderes médios dependiam — a OMC [Organização Mundial do Comércio], a ONU, a COP [Conferência das Partes] — e a arquitetura de resolução coletiva de problemas estão muito diminuídas.

Como resultado, muitos países estão a tirar as mesmas conclusões, que devem desenvolver maior autonomia estratégica: em energia, alimentação, minerais críticos, nas finanças e cadeias de abastecimento. Este impulso é compreensível. Um país que não pode alimentar-se, abastecer-se ou defender-se a si mesmo tem poucas opções. Quando as regras já não vos protegem, é preciso que se protejam a vocês mesmos.

Mas sejamos realistas sobre o lugar onde isto nos leva: a um mundo de fortalezas, mais pobre, mais frágil e menos sustentável.

E há outra verdade: se as grandes potências abandonarem até a aparência de regras e valores pela busca desimpedida do seu poder e dos seus interesses, os ganhos do “transacionalismo” tornam-se mais difíceis de replicar. As potências hegemónicas não podem retirar lucros eternos das suas relações, e os aliados vão diversificar para se protegerem contra a incerteza: contrair seguros, multiplicar opções. E tudo isto traz de volta a soberania, só que é uma soberania que antes estava ancorada em regras, mas que estará, a partir de agora, cada vez mais ancorada na capacidade de resistir à pressão.

Como disse, esta gestão de risco clássica tem um preço, mas esse custo de autonomia estratégica, de soberania, também pode ser partilhado. Investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que cada a conta de cada um construir a sua própria fortaleza individualmente. Padrões partilhados reduzem a fragmentação, as complementaridades são de soma positiva.

A questão para as potências médias, como o Canadá, não é se devemos adaptar-nos a esta nova realidade. Devemos. A questão é se nos adaptamos simplesmente construindo muros mais altos, ou se podemos fazer algo mais ambicioso. O Canadá esteve entre os primeiros a ouvir o alerta, o que nos levou a modificar fundamentalmente a nossa postura estratégica.

Os canadianos sabem que a antiga e confortável suposição de que a nossa geografia e o nosso sistema de alianças conferiam automaticamente prosperidade e segurança já não é válida.

A nossa nova abordagem assenta no que Alexander Stubb [Presidente da Finlândia] chamou “realismo baseado em valores”, ou, por outras palavras, termos princípios e, ao mesmo tempo, sermos pragmáticos.

Devemos manter o princípio do nosso compromisso com valores fundamentais: soberania e integridade territorial, a proibição do uso da força exceto quando consistente com a Carta da ONU, respeito pelos direitos humanos. E devemos ser pragmáticos ao reconhecermos que o progresso é frequentemente incremental, que os interesses divergem, que nem todos os parceiros partilham os nossos valores. Podemos envolver-nos amplamente, estrategicamente, mas com os olhos abertos. Devemos participar ativamente no mundo com ele é, e não esperar por um mundo como desejamos que seja.

O Canadá está a calibrar as suas relações para que a profundidade das mesmas reflita os seus valores. Estamos a dar mais importância a um envolvimento amplo para maximizar a nossa influência, dada a fluidez da ordem mundial, os riscos que isto representa e o que está em jogo para o que vem a seguir.

Já não estamos dependentes apenas da força dos nossos valores, mas também do valor da nossa força. Estamos a construir essa força em casa.

Desde que o meu Governo tomou posse, cortámos impostos sobre rendimentos, mais-valias e investimento empresarial, removemos todas as barreiras federais ao comércio interprovincial e estamos a acelerar mil milhões de dólares de investimento em energia, inteligência artificial, minerais críticos, novos corredores comerciais e muito mais. Até 2023, vamos duplicar as nossas despesas na Defesa e estamos a fazê-lo de forma a desenvolver as nossas indústrias nacionais.

Estamos também a diversificar no estrangeiro, e recentemente acordámos uma parceria estratégica abrangente com a União Europeia, incluindo a adesão ao SAFE [Ação de Segurança para a Europa], os acordos europeus de aquisição e adjudicação de material de Defesa.

Assinámos outros doze acordos comerciais e de segurança em quatro continentes nos últimos seis meses. Nos últimos dias, concluímos novas parcerias estratégicas com a China e o Catar. Estamos a negociar pactos de comércio livre com a Índia, a ASEAN, a Tailândia, as Filipinas e o Mercosul.

Para ajudar a resolver problemas globais, estamos a prosseguir geometria variável: diferentes coligações para diferentes questões, baseadas em valores e interesses.

Na Ucrânia, somos um membro central da Coligação de Vontades e um dos maiores contribuintes per capita para a defesa e segurança do país.

Sobre a soberania do Ártico, estamos firmemente ao lado da Gronelândia e da Dinamarca e demos pleno apoio ao seu direito de determinar o futuro da Gronelândia. O nosso compromisso com o Artigo 5º é inabalável.

Estamos a trabalhar com os nossos aliados da NATO (incluindo os Nórdicos-Bálticos) para robustecer ainda mais os flancos norte e oeste da aliança, incluindo através dos investimentos sem precedentes em radares de longo alcance, submarinos, aeronaves e tropas no terreno. O Canadá opõe-se fortemente a impostos alfandegários sobre a Gronelândia e apela a conversações focadas em alcançar os nossos objetivos partilhados de segurança e prosperidade para o Ártico.

No comércio plurilateral, estamos a liderar esforços para construir uma ponte entre a Parceria Transpacífica e a União Europeia, criando um novo bloco comercial de 1500 milhões de pessoas.

Nos minerais essenciais, estamos a formar grupos de compradores, ancorados no G7, para que o mundo possa diversificar-se da oferta concentrada.

Na inteligência artificial, estamos a cooperar com democracias para garantir que não seremos forçados a escolher entre empresas hegemónicos e hiperescaladores [fornecedor gere grandes redes de centros de dados, projetados para suportar computação, redes e armazenamento].

Isto não é multilateralismo ingénuo, nem é depender de instituições diminuídas, é construir as coligações que funcionam, questão por questão, com parceiros que partilham terreno comum suficiente para agirem em conjunto. Nalguns casos, será a grande maioria das nações. E é criar um teia densa de ligações através do comércio, investimento, cultura, nas quais nos podemos apoiar para futuros desafios e oportunidades.

As potências médias devem agir em conjunto, porque se não estão à mesa, estão no menu.

As grandes potências podem dar-se ao luxo de agir sozinhas. Têm mercado, capacidade militar, alavancagem para ditar termos. As potências médias não. Mas quando apenas negociamos bilateralmente com uma potência hegemónica, negociamos a partir da fraqueza. Aceitamos o que nos é oferecido. Competimos uns com os outros para sermos os que mais acomodam as suas exigências.

Isto não é soberania. É a representação de soberania enquanto se aceita a subordinação.

Num mundo de rivalidade entre grandes potências, os países no meio têm uma escolha: competir uns com os outros para cair “nas graças” ou unirem-se para criar um terceiro caminho, com impacto.

Não devemos permitir que a ascensão do poder nos cegue para o facto de que o poder da legitimidade, integridade e regras permanecerá forte se escolhermos exercê-lo em conjunto.

O que me traz de volta a Havel.

O que significaria para as potências médias “viver na verdade”?

Significa dizer as coisas como são na realidade. Parem de invocar a “ordem internacional baseada em regras” como se ainda funcionasse conforme anunciado. Chamem ao sistema o que ele é: um período de intensificação de rivalidade entre grandes potências, onde os mais poderosos prosseguem os seus interesses usando a integração económica como arma de coerção.

Significa agir consistentemente. Aplicar os mesmos padrões a aliados e rivais. Quando os poderes médios criticam a intimidação económica quando vem de um lado mas ficam em silêncio quando vem de outro, estamos a manter o cartaz na montra.

Significa construir aquilo em que alegamos acreditar. Em vez de esperar que a velha ordem seja restaurada, criar instituições e acordos que funcionem conforme o que fica escrito.

E significa reduzir a alavancagem que abre espaço à coerção. Construir uma economia doméstica forte deve ser sempre a prioridade de cada governo. A diversificação internacional não é apenas prudência económica; é a fundação material para uma política externa honesta. Os países ganham o direito a posições de princípio ao reduzirem a sua vulnerabilidade a retaliações.

O Canadá tem o que o mundo quer. Somos uma superpotência energética, temos vastas reservas de minerais, temos a população mais instruída do mundo. Os nossos fundos de pensões estão entre os maiores e mais sofisticados investidores do mundo. Temos capital, talento e um Governo com imensa capacidade fiscal para agir decisivamente. E temos os valores aos quais muitos outros aspiram.

O Canadá é uma sociedade plural que funciona, a nossa praça pública é barulhenta, diversa e livre. Os canadianos mantêm-se comprometidos com a sustentabilidade.

Somos um parceiro estável e fiável, num mundo que é tudo menos isso, um parceiro que constrói e valoriza relações a longo prazo.

O Canadá tem algo mais: reconhecemos o que está a acontecer e estamos determinados a agir em conformidade.

Compreendemos que esta rutura exige mais do que adaptação, exige honestidade sobre o mundo como ele é.

Estamos a retirar o cartaz da montra.

A velha ordem não vai voltar. Não devemos lamentá-la. Nostalgia não é uma estratégia. Mas a partir da fratura, podemos construir algo melhor, mais forte e mais justo. Esta é a tarefa dos poderes médios, que têm mais a perder com um mundo de fortalezas e mais a ganhar com um mundo de cooperação genuína.

Os poderosos têm o seu poder. Mas nós também temos algo, a capacidade de parar de fingir, de dizer as coisas como são, de construir a nossa força em nossa casa e de agir em conjunto.

Esse é o caminho do Canadá. Escolhemo-lo aberta e confiantemente.

E é um caminho amplamente aberto a qualquer país disposto a trilhá-lo connosco.

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Abaixo o vídeo. Não é exactamente o discurso integral pois falta a introdução, em francês, mas, enfim, está aqui mesmo quase tudo.

In full: Canadian Prime Minister Mark Carney's speech at the World Economic Forum in Davos

quarta-feira, janeiro 21, 2026

Anne Applebaum dixit

 

Gosto imenso de a ouvir e ler. É uma voz ponderada que fala de forma desajectivada, com uma racionalidade que se percebe vir do estudo e da compreensão exaustiva dos factos.

Para quem não a conhece, transcrevo a sua biografia do site da Bertrand: 

Anne Applebaum é historiadora e jornalista. Escreve sobre a Europa Oriental e a Rússia desde 1989, quando cobriu o colapso do comunismo na Polónia para a revista The Economist. Foi colunista do The Washington Post e editora-adjunta da revista The Spectator. É redatora da revista The Atlantic e senior fellow no Agora Institute da Universidade Johns Hopkins.

É autora de vários livros publicados pela Bertrand Editora, incluindo Gulag: Uma História, que ganhou o Prémio Pulitzer de não-ficção em 2004; A Cortina de Ferro, sobre a sovietização da Europa Oriental após a Segunda Guerra Mundial, distinguido com o Prémio Cundhill de Literatura Histórica de 2013; e Fome Vermelha, sobre a fome ucraniana de 1932-33, que fornece o pano de fundo para o conflito russo-ucraniano. Em 2020, publicou O Crepúsculo da Democracia, que analisava o carácter apelativo da autocracia para os intelectuais e políticos ocidentais.

Nestes dias em que a demência narcísica, compulsiva e descarada de Trump está ao rubro, é interessante ouvir o que ela pensa do que ela pensa ser a sua ausência de estratégia, o seu comportamento infantil, a sua eventual doença do foro mental.

Resta a questão: como se lida com isto? As forças militares mais poderosas do mundo e os códigos nucleares estão nas mãos de um doido varrido -- e ninguém parece saber como actuar.

A Ucrânia está debaixo de fogo russo, as pessoas congelando em casas sem aquecimento, e Trump, em vez de condenar Putin, convida-o para o absurdo e fantasmagórico Conselho da Paz onde ele (ele, Trump) será o presidente vitalício. Ninguém ousaria inventar um roteiro mais tresloucado para um filme tragicómico.

Vivemos tempos extraordinários, estamos a assistir a um momento crítico, subversivo, perigoso e surreal da história do mundo.

Trump Has ‘No Strategy’ On Greenland | Anne Applebaum

“Já ultrapassámos a fase da estratégia, e agora temos de falar da obsessão de um homem, talvez até da loucura.”

As ameaças de Donald Trump à Gronelândia reflectem “a obsessão de um homem” em vez de uma estratégia coerente de política externa, e correm o risco de desviar as atenções da intensificação da guerra da Rússia na Ucrânia, afirma a jornalista e historiadora norte-americana Anne Applebaum, vencedora do Prémio Pulitzer.

Anne Applebaum falou com John Pienaar no programa Times Radio Drive.

domingo, janeiro 04, 2026

Isto não está a começar bem...
E não sei se o que me incomoda mais é o crime de Trump se é a cobardia dos Europeus

 

Não simpatizo com Maduro, nada mesmo. Tenho sempre muita pena dos povos que não vivem em democracia, que não têm o privilégio de viver em plena liberdade, que não têm a sorte, que toda a gente deveria ter, de viver num país desenvolvido, humanista, inclusivo, moderno. Teria ficado muito mais animada se, em eleições livres, os venezuelanos escolhessem um verdadeiro democrata.

Contudo, nem de longe nem de perto, apoio ou percebo ou justifico a criminosa acção militar dos Estados Unidos de atacar alguns alvos e raptar Maduro e a mulher, indo buscá-los à cama e depois, algemando-o, vendando-o, transportando-o para os Estados Unidos, humilhando-o de forma vil, expondo-o ao mundo nessa condição de preso, vendado e humilhado.

Pelo contrário, revolta-me as entranhas saber que alguém pode fazer isto, que um país resolva promover uma acção destas para, de forma prepotente e desrespeitadora, pegar no presidente de um país e levá-lo à força para ser julgado num país estrangeiro.

Revolta-me o que, antes, Trump e o gang de anormais que o rodeia andaram a fazer, disparando mísseis contra barquinhos, matando as pessoas que lá iam. Não sei se transportavam droga se não. Mas, se suspeitavam que os barquinhos transportavam droga para os Estados Unidos, então que apreendessem os barcos e prendessem os seus tripulantes para que se averiguasse se era isso mesmo. Nunca, por nunca, que, sem mais, matassem as pessoas. Isso são crimes que a comunidade internacional deveria ter condenado veementemente.

Revolta-me a desfaçatez de Trump e da corja que o apoia que declaram às escâncaras que a partir de agora vão mandar na Venezuela. Revolta-me isso até mais não. Revolta-me que, sem se dar ao trabalho de disfarçar (por exemplo nem se deram ao trabalho de dizer que vão restaurar a democracia), confesse que vai explorar o petróleo venezuelano, que vai ficar com o que calhar à conta de uma qualquer compensação. É abjecto. Uma ladroagem à descarada.

Revolta-me, ou melhor, enoja-me, a descrição que Trump fez, dizendo que a operação parecia uma série de televisão e que foi uma acção espectacular, rápida e violenta, e reforçando a palavra violenta como se ser violento fosse uma boa coisa, e dizendo que não se via uma coisa assim desde a II Guerra Mundial, e incomoda-me que tenha feito acompanhar o vídeo do ataque de uma música, absurda e despropositada naquele contexto -- tudo ridículo, abastardado, sem noção. Revolta-me a palhaçada que é tudo o que Trump faz e diz. 

Mas revolta-me também muito, muito, muito, a reacção hipócrita e cobarde dos países europeus (do que ouvi, talvez com excepção para Espanha). 

Que cara, que voz, que coerência podem os europeus mostrar na defesa da Ucrânia contra o invasor Putin quando, perante Trump, se calam? E escrevo calam quando o que me apetece é dizer que abrem as pernas. Mas não digo. O que digo é que, perante um demente, um aldrabão compulsivo, um narcisista maligno, o que se tem visto aos europeus é fecharem os olhos, apaparicarem, passarem-lhe a mão pelo pelo. bajularem. Será uma atitude estratégica. Sei que sim. Mas sei também que a cobardia tem perna curta e, pior que isso, a cobardia é sinónimo de se pôr a jeito. 

Foi certamente com o engodo da Venezuela que Putin deu a volta a Trump com a Ucrânia, tal como é com a ganância e a sem-vergonhice, e, logo, com a conivência de Putin e Trump que Xi Jinping conta para um dia ficar com Taiwan. Parece que, de repente, constatamos que o fim da lei e da ordem é um facto, é o novo mundo, parece que este é o tempo dos chacais. E nós todos presas fáceis, insignificantes poeiras.

Raios os partam. 

Esquecem-se é de uma coisa, é que não há mal que sempre dure.

quarta-feira, dezembro 03, 2025

Estará a chegar a hora dos bravos de pelotão?

 

Não há muito éramos felizes e não sabíamos. A nossa Europa estava em paz, os Estados Unidos portavam-se amistosamente, a Rússia parecia relativamente contida e a China continuava, pacientemente e sem causar grandes ondas, a expandir-se. 

Até que a Rússia invadiu a Ucrânia, o instável equilíbrio entre a Palestina e Israel quebrou-se irremediavelmente e, para absoluto descrédito da racionalidade humana, um doido varrido, narcisista, corrupto e demente voltou a ganhar as eleições nos Estados Unidos. E o mundo virou um caldeirão em efervescência em que todos os valores que tínhamos por sagrados derretem a uma velocidade que dificilmente conseguimos acompanhar.

As ameaças de guerra sucedem-se -- e têm sorte os que não acompanham as notícias, vivendo na ignorância das ameaças que pairam sobre  a nossa existência. Preocupa-me, em especial, o que virá a ser a vida dos mais jovens. Queremos sempre que os que vêm depois de nós encontrem um mundo melhor e tenham uma vida mais auspiciosa mas eu receio que, se as coisas continuarem por este caminho, venham a ter pela frente tempos de incerteza e inquietação.

Contudo, perante o que parece uma força (do mal) difícil de combater, há quem se levante e, dando o peito às balas, enfrente todas as forças que estão a querer destruir a democracia.

O senador Mark Kelly, ameaçado por Trump e pelos fanáticos do culto MAGA, mostra de que fibra são feitos os heróis. Talvez inspire muita gente e abra a cabeça fechada dos que ainda se reveem nas trapalhices e infâmias de Trump.

Partilho dois vídeos sugestivos.

O senador Mark Kelly comenta a sugestão de Trump para que seja executado e a abertura de uma investigação por parte de Hegseth contra ele

O senador Mark Kelly fala dos ataques de Donald Trump contra si e da sugestão de que fosse executado por um vídeo em que dizia aos soldados que não tinham de obedecer a ordens ilegais, a questão da violência política no nosso país, a abertura de uma investigação contra ele por Pete Hegseth, a estratégia de Trump como forma de destruir democracias e o apoio dos seus colegas republicanos.


O senador Mark Kelly denuncia o 'bullying' do presidente Trump

O senador do Arizona, Mark Kelly, fez declarações na segunda-feira, criticando o presidente Trump pelo seu comportamento "intimidatório". O senador do Arizona foi um dos seis democratas que apareceram num vídeo na semana passada dirigido aos militares, dizendo-lhes que não têm de seguir ordens ilegais. O vídeo gerou uma grande polémica, com o presidente Trump a acusar os deputados de sedição e a afirmar que deveriam sofrer as consequências
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Dias felizes

segunda-feira, setembro 22, 2025

Just saying

 

Volto a um dos temas que me anda a preocupar por demais: a transição de regime nos Estados Unidos às mãos de um único homem.

Apesar de ser claro para toda a gente com dois dedos de testa que esse homem tem uma mente perturbada, a verdade é que o regime de um grande país como os Estados Unidos soçobrou em pouco tempo e que o resto do mundo assiste passivo e submisso, vergando as costas para agradar a esse narcisista maligno, psicopata, paranico, vingativo, demente, etc.

Este domingo, com as cerimónias fúnebres de Charlie Kirk, ficará na história como um dos marcos dessa perigosa viragem para um regime totalitário, obscurantista, persecutório, em que a bíblia, ou melhor, a sua interpretação desenquadrada e fundamentalista, substitui a Constituição. 

Uma multidão ululante, cega, avidamente transformou em mártir um influencer racista, xenófono, reaccionário, misógino que, não se sabe ainda porquê ou por quem, foi assassinado. Obviamente condeno este homicídio pois sou visceralmente contra o uso de armas e de violência para resolver diferendos ideológicos ou outros. Portanto, acho chocante que alguém faça o que foi feito, assassinando Charlie Kirk.

Mas condenar o seu assassinato não pode levar, de modo algum, à sua transformação num mártir nem ao branqueamento do que ele disse e fez.

Contudo, tudo o que aconteceu naquela tarde -- aquele disparo, um único tiro -- está tão cheio de contradições, de inexplicações e de impossibilidades que fico espantada por tanta gente achar normal uma narrativa que se desfaz a ela própria.

Não ouso alinhar-me com nenhuma das inúmeras teorias que irrompem mas, sem mais comentários, partilho vídeos que aparecem pela mão de ferrenhos MAGA's, amigos do peito de Charlie Kirk, que têm vindo a fazer saber que Charlie KIRK, nos últimos tempos, parecia estar a afastar-se de algumas linhas traçadas por quem parece mexer todos os cordelinhos da política americana. Por exemplo, estava a demarcar-se cada vez mais frontalmente de Netanyahu. Por exemplo, estava também a manifestar-se cada vez mais claramente sobre a possibilidade de Epstein ter sido um activo da Mossad ou da CIA ou sabe-se lá de quem. Por exemplo, estava a exigir cada vez mais abertamente a divulgação integral dos ficheiros Epstein, tema que, obviamente, deixa doido não apenas Trump como todos os envolvidos.

Sendo ele o ponta de lança do MAGA no recrutamento de jovens, o principal responsável em manter viva a chama  pró Trump e pró MAGA na camada universitária e junto dos jovens que vivem nas redes sociais, alguns dos mais ilustres e vocais MAGAs  (Megyn Kelly, Candace Owens e Tucker Carlson, por exemplo) sugerem, embora não o explicitem, que as inúmeras ameaças que Charlie Kirk vinha recebendo poderão ter alguma coisa a ver com o seu fim.

São mundos que me são estranhos, que me assustam, que me metem medo e sobre os quais nada sei. Apenas sei que gostaria que os meus filhos e netos vivessem sempre em democracias sãs, liberais, humanistas, livres, modernas. Gostaria que nunca no meu país se vivesse uma realidade diabólica, demente, disfuncional, distópica como aquela que se vive nos Estados Unidos.

Seria bom que os portugueses e os europeus em geral conhecessem um pouco melhor o que está ali a passar-se. Talvez só assim percebam o risco que é abrir as portas a movimentos populistas, anti-democráticos.

Partilho estes vídeos apenas porque penso que devemos ter um pensamento crítico, informado, que devemos questionar as narrativas que não nos parecem lógicas, que devemos olhar para o que se passa à nossa volta, para o que se passa atrás do que nos é mostrado.

Megyn Kelly Breaks Down the Controversy Surrounding Candace Owens, Ackman, Israel, and Charlie Kirk

Megyn Kelly breaks down the controversy surrounding Israeli Prime Minister Netanyahu’s comments on Charlie Kirk’s legacy, Candace Owens’ remarks about the letter and Kirk's views on Israel, Megyn and Charlie's conversation about Israel last month, and more.


Kirk on Epstein




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Desejo-vos uma boa semana a começar por esta segunda-feira

Que a paz, a democracia, a liberdade e o humanismo nunca nos faltem

sexta-feira, abril 04, 2025

E ele aí está.
Com 83 anos, uma lucidez assertiva, uma esperança indestrutível, uma energia contagiante, uma fantástica capacidade de comunicação.
Bernie Sanders contra o trumpismo (autoritarismo, oligarquia, estupidez)

 

Interrogo-me, com alguma frequência, quantos mais anos terei de vida útil, isto é capacidade de me manter autónoma, independente, lúcida, com a maneira de ser que hoje tenho. Faço contas, comparo com o percurso dos meus pais. Temo que surja algum acidente (como o AVC que quebrou o meu pai, que levou a mãe dele e vários outros dessa linha familiar) que intercepte o que, já de si, não é um período folgado. 

Mas, mesmo que nada de grave ou degenerativo me aconteça, imagino que daqui por uns quantos anos comecem a falhar algumas das minhas actuais faculdades. É a lei da vida: somos assim, efémeros, seres que resultaram dum acaso e que se vão aguentando, sabe-se lá como, no meio de condições muitas vezes completamente precárias.

Mas depois vejo um homem como o Bernie Sanders e penso que há pessoas que transcendem as expectativas. Tem 83 anos. Poderia pensar que já não será na vida dele que vai ter de volta uns Estados Unidos livres, democráticos, justos, inclusivos. Mas, em vez disso, aí está ele. Determinado, pujante. Dá entrevistas, grava vídeos, está nas redes sociais, participa em comícios. Está a querer que o povo se levante, se organize, lute. 

Acredita, do fundo seu seu coração, que não há lutas impossíveis.

Um exemplo que me comove.

Where Do We Go From Here?

Yes, the oligarchs are enormously powerful. They have endless amounts of money. They control our economy. They own much of the media.

But, from the bottom of my heart, I am convinced that if we are well-organized, they can be defeated.

My thoughts on the current moment:


Como destruir a democracia

 

Começou num sítio, surtiu efeito, começou a ser imitado, resultou, e já estava a fazer escola, e, em todo o lado, resulta, e, às tantas, já são as pessoas a querer disto. Votam no impensável. De sua livre vontade escolhem a pior opção possível, a mais nefasta.

Assim acontece um pouco por todo o lado. Talvez tenha sido a Rússia a espalhar a semente mas agora já está aquém e além mar.

O vídeo abaixo aborda a actual realidade americana mas vê-se e percebe-se que é isto.

HOW TO DESTROY A DEMOCRACY (1952)
Trump's five step plan for destroying a Democracy. 

quinta-feira, fevereiro 20, 2025

A malta do PCP agora já gosta dos americanos? Ou só gosta deste americano em particular (do Trump, quero eu dizer)?
Pergunto.
O Stephen King é que, há 40 anos, previu, bem previsto, o cúmulo de pouca sorte que aconteceu aos Estados Unidos e ao mundo

-- E, já agora, uma repetida recomendação em relação à empresa do Montenegro --

 

Mais uma vez o confesso: custa-me acreditar no que está a acontecer. É tudo mau demais. Parece daqueles pesadelos absurdos que acabam por ser desmascarados.

Por exemplo, há duas noites tive um pesadelo terrível. O meu marido teve, ou tem, uma sub-luxação do ombro. Agora está melhor, desde que anda a fazer reforço muscular mas, de vez em quando aquilo dói-lhe mesmo. Então, na véspera de começarmos com o pilates, talvez porque me preocupasse que aquilo lhe fizesse mal, sonhei que ele tinha um bico, um osso espetado. E estava com dores e dizia-me que o médico lhe tinha dito que se podia cortar com o corta-unhas e queria que eu o fizesse. E eu dizia que era impossível, que não apenas o corta-unhas não tinha abertura e força para cortar um osso como um osso não podia ser cortado assim. E ele estava cheio de dores e não queria que eu questionasse e me despachasse a cortar-lhe o osso.

Felizmente acordei. Mas ainda fiquei ali a argumentar em pensamento, que um osso não é tecido morto, que não podia cortar assim, a sangue frio. Finalmente, lá consegui assimilar que tinha tido um pesadelo, que nada daquilo era real.

Mas, com o Trump a fazer disparates gravíssimos, impensáveis, em catadupa, e sem ver como é que se vai sair disto antes que ele faça estrago a sério, temo que não seja um pesadelo.

É bom para se dar largas ao sentido de humor e um manancial imenso para caricaturistas. Mas não vejo quem mais beneficie de tamanhas cavalices.


Curiosamente, bate muito certo com o personagem criado por Stephen King long, long ago. A realidade muitas vezes ultrapassa a ficção. Mas a ficção por vezes antecipa a realidade.

How Stephen King Predicted Trump's Rise Decades Ago | Opinions | NowThis

Author Stephen King predicted the rise of Trump 40 years ago — but he says the reality is scarier than anything he’s written.

In US news, Stephen King sat down with NowThis to talk about President Trump and the eerie similarities between Donald Trump and the Stephen King Dead Zone character 'Greg Stillson.' Dead Zone is a novel King wrote in 1979, it features a a politician Greg Stillson, Donald Trump like in many ways. The Greg Stillson Trump similarities include his outlandish behavior and rise to power that is similar to the rise of Trump and the rise of Trumpism. But according to Stephen King, Donald Trump in reality is even scarier than what he wrote. Stephen King adaptations are extremely popular in movies and TV these days, and he continues to write books like The Shining sequel of sorts Doctor Sleep. 


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A propósito da cena da empresa do Montenegro, cumpre-me continuar a recomendar que se analisem as contas durante os anos de actividade da empresa. Aparentemente pode haver ali um potencial conflito de interesses a vários níveis (o que o próprio Montenegro reconheceu poder haver no caso, idêntico, do Secretário de Estado que, com o acordo de Montenegro, se demitiu) mas, para além disso, seria interessante verificar se não é mais uma daquelas empresas que os habilidosos criam para pagar menos impostos (menos ou nenhuns). Os jornalistas e os partidos da oposição deveriam averiguar bem. Com olhos de ver. É uma sugestão. Dirão sempre que o que fizeram é legal. E é verdade. Há uma generalizada e descarada fuga ao fisco com o beneplácito dos governos e da máquina fiscal. São uns a usarem empresas (de fachada) para prestarem serviços, são outros a receber como ajudas de custo ou subsídio de transporte -- há de tudo. Até gente que teoricamente recebe o salário mínimo, para ficar isenta, e o resto vem por fora. Meio mundo a fugir aos impostos. E, como consequência, outros a pagarem pela medida grossa. Uma vergonha. Ora se, por acaso, se viesse a provar que o primeiro-ministro é praticante dessa habilidade, então, meus Caros, então o caso seria mais do que grave. Por isso, convém que as contas sejam auditadas.

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Desejo-vos uma bela quinta-feira

quarta-feira, fevereiro 05, 2025

Até custa a acreditar

 

Como foi possível que os americanos tivessem eleito um maluco, um déspota, um tresloucado que, ainda por cima, se apresentou assim, exactamente como é, um sujeito que deixou claro que levaria consigo o Musk, outro que tal, com a incumbência de dar cabo do que pudesse, é coisa que ainda custa a digerir.

O Valupi descreve bem a situação mas a verdade é que custa a aceitar que a democracia permita que se abram as portas, de par em par, a criaturas que se estão nas tintas para a democracia, para a lei, para tudo.

Poucos dias decorridos desde a tomada de posse e o que se tem assistido é uma avalancha de medidas impensáveis. 

Meia dúzia de putos entre os 19 e os 24 anos, uns com o curso do liceu, outro estagiário, sem qualquer experiência nestas ou noutras andanças, estão com um poder ilimitado a tomar decisões que têm impacto na vida de milhões de pessoas. Esta peça da CNN internacional dá bem conta disso (tem legendas):

Musk says naming 6 young men working for DOGE is a crime. 'Wired' journalist responds

CNN's Erin Burnett speaks to Katie Drummond, the global editorial director at WIRED, about the backgrounds of some of the young men working for Elon Musk to cut government agencies. WIRED reports that the men they identified are young and have little to no government experience. 


quarta-feira, janeiro 29, 2025

É suposto termos medo?

 

Dá vontade de classificar como palhaçada, como se estivessem armados em bons. Ou melhor: em maus. Como se quisessem que a malta se acagace com eles. 

Ele é o que se sabe, tem a mania que é o maior, o melhor, o único. E ela, pelos vistos, não lhe quer ficar atrás. 

Parece que querem que a malta pense que, lá porque eles querem parecer sinistros, o melhor é fazer-se tudo o que querem sem que ninguém solte um pio.



Tenho lido ou ouvido que a Melania está elegante e que quer mostrar-se empoderada. Sobre a elegância não me pronuncio mas sobre o empoderamento o que tenho a dizer é que detesto a palavra, detesto quem a usa, detesto tudo o que a rodeia. E seja isto a propósito de mulheres ou de homens.

O que vejo nas fotografias é gente fechada sobre si própria, fechada aos outros. Melhor dizendo: cagando-se para os outros.

Mesmo que, na realidade, nem um nem outro façam pessoalmente mal a uma mosca -- por exemplo, não deem murros na cabeça de crianças, não estrangulem velhinhos, não torçam o pescoço a pássaros, não andem ao pontapé a cães velhos que já não consigam morder de volta -- a verdade é que fazem muito mal ao mundo. Poluem o mundo, poluem o planeta, agridem o género humano, atentam contra a dignidade e a inteligência do ser humano, desprezam os mais frágeis.

De gente assim, devemos guardar distância. 

Mas quando acontece o impensável e milhões de pessoas votam neles e que, quando o veem a dar ordens estúpidas ou maldosas, ainda os aplaudem, então fica a dúvida: o que podem os outros fazer? Os que não se reveem em nada disto, os que não gostam disto, os que acham que ter gente assim na Casa Branca é um assustador retrocesso civilizacional -- o que podem fazer?

Creio que uma única coisa: não ter medo, não vergar, não ceder. 

A história avança aos soluços, umas para cima, outras para baixo, um passo para a frente, dois para trás, um para o lado, outro para a frente. Analisando a coisa, vê-se que a longo, longo prazo, não se avança muito. Se calhar... até se recua. Mas como se vai para o lado, se calhar, sendo a rota outra, talvez não seja tão dramático assim. Não sei (ou melhor, esforço-me para não ser pessimista)

Sei é que se agora estamos num torvelinho, o mundo aos coices e às patadas, um dia destes a malta vai perceber a asneira que é votar nos porcos que, lá por andarem em duas patas e se vestirem de fato e gravata se acham tão bons ou melhores que os homens, é um barrete dos valentes.

Por isso, há que suster um bocado a respiração porque este mau bocado há-de passar.

terça-feira, janeiro 28, 2025

Quando o mal se aproxima, é prudente não relativizar, não desvalorizar

 

É que, depois, pode ser tarde demais.

A gente desvaloriza. É maluco. É o maluco a ser maluco. Está rodeado de malucos porque maluco atrai maluco.

Mas, o que se passa, é que, às tantas, estando os malucos no poder, não fazem outra coisa senão maluquices. E o pessoal, os 'normais', os que desculpam os malucos, começam a ser vítimas de tanta maluquice mas, aí, já é tarde de mais.

As ditaduras começam sempre de mansinho, alguém que diz 'as verdades', alguém que é 'contra o sistema', que fala o que os mais 'simples' percebem e gostam de ouvir. Alguém em quem esses mais 'simples' votam.

A história está farta de saber que é assim. Mas ainda não se aprendeu a combater de forma eficaz a cobra quando ainda está no ninho, fácil de ser neutralizada.

A vossa atenção para o vídeo abaixo (legendado).

The First Signs of Tyranny, From People Who Missed Them | NYT Opinion

Exile. Imprisonment. The end of elections. We know what tyranny looks like once it’s underway.

But how does it start?

In the Opinion Video above, you’ll meet people from around the world who missed the warning signs of tyranny taking root in their home countries.

They can see the red flags, in retrospect. And they have a word of caution: The rule of law doesn’t break down overnight, and checks and balances don’t collapse in an instant.

Tyranny takes time.


quinta-feira, novembro 21, 2024

O triunfo dos porcos

 

Há aquela cena que rematava os filmes do Hitchcock em que se via uma cabra a comer a 'fita' que estava na bobina e a dizer, com ar entendido: 'prefiro o livro'. Lembro-me desta cena com alguma frequência.

Neste caso, também vos digo que o livro é melhor. Imperdível. Um livro que toda a gente deve ler e a que se deve voltar com alguma frequência pois permite declinações diversas: seja a dos Estados Unidos do alucinado Trump, seja o trauliteiro e incompetente governo Mentenegro (ou as suas diferentes derivadas, como a tóxica equipa que está a dar cabo da nossa saúde), sejam muitas outras situações.

Se aqui partilho este vídeo é apenas porque é uma síntese visual de curta duração, supostamente como é indicado neste espaço. Mas, se não conhecem o livro, se puderem leiam-no, por favor.

Animal Farm trailer

Baseado no livro de George Orwell


terça-feira, outubro 29, 2024

O Ministro Sarmento para além de não gostar muito da verdade, de misturar alhos com bugalhos (confunde, por exemplo, gestão de tesouraria com gestão orçamental) e de dizer que as cativações dele não são bem cativações, tem uma outra particularidade: não sabe falar. Por exemplo, diz "póssamos". É abaixo de mau.
Para compensar, peço muita desculpa mas tenho mesmo que invocar Puttin' on the Ritz

 

Foi a minha filha que me chamou a atenção e, como eu não tinha visto, até me enviou um vídeo que fez. Só que, por nabice minha, não consigo aqui incorporá-lo. Mas é uma cena verdadeiramente badalhoca: o Sarmento parece dirigir-se a esse outro que, com o que tem feito e dito, tem evidenciado ser uma nódoa na nossa democracia. Às tantas, com aquele seu arzinho ladino de chico-esperto, Sarmento diz: 'Quando descobrirmos qual o programa eleitoral que o Chega defende, talvez póssamos falar de programas eleitorais'. Ventura ri-se.

E eu só tenho pena de não poder correr com ambos, um do Governo e outro da Assembleia. É que não se aguenta. É mau de mais.

Já houve um tempo em que o Governo era formado por gente culta, inteligente, competente, e em que os deputados eram gente de bem, os melhores representantes da população, gente digna, séria, bem educada, bem formada. Agora é isto. Claro que haverá gente de bem, claro, uns quantos que ainda se aproveitam (felizmente), mas depois há um rebotalho que é isto. 

O que as televisões nos mostram é uma dor de alma: uns são mentirosos, outros mentalmente desonestos, outros broncos, e agora até isto, gente que nem falar sabe. Caraças. E há casos em que a mesma pessoa consegue ser isto tudo ao mesmo tempo. Um desastre.

A democracia, ao contrário da tirania, é benevolente, inclusiva, tolerante, avessa a linhas vermelhas. Portanto, gentilmente fecha os olhos às violações, aos atentados contra os seus mais valiosos princípios, abre as portas a quem tudo faz para a desgastar e, talvez, devorar.

Um dia ainda se fará essa reflexão. 

Esta queixa-crime colectiva contra André Ventura e Pedro Pinto é um bom passo nessa direcção. Não deveríamos deixar passar actuações como as destes dois. Mas muito mais se deveria fazer. 

E deveria haver também uma qualquer acção pública de denúncia contra os crimes contra a língua portuguesa praticados por gente paga com o dinheiro dos nossos impostos e que supostamente nos representa e/ou governa.

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Como fico doente com isto, tenho que respirar outros ares.

Pode ser isto.

Morecambe and Wise - Puttin' On The Ritz (1960s)


quarta-feira, fevereiro 21, 2024

Coragem
- Dasha Navalnaya, a filha de seu pai, olha de frente os assassinos e os cobardes que, disfarçados de pombinhas da paz e enchendo a boca de adversativas, os desculpam

 

O vídeo que aqui partilho tem quatro meses mas mantém-se tristemente actual. Sem meias palavras, com a coragem intelectual física que o pai demonstrou até ao fim, a mesma que a mãe tem também demonstrado, a jovem Dasha, bela como os progenitores, é bem a menina de seus pais. O seu pai foi assassinado, depois de perseguido, envenenado, torturado, privado da liberdade. Mas Dasha não se calará.



Uma família corajosa, aqui em dias felizes

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Podem ser activadas as legendas em português

Lessons from My Father, Alexey Navalny | Dasha Navalnaya | TED

Dasha Navalnaya is the daughter of Alexey Navalny, the politician and leader of the Russian opposition to Vladimir Putin. Sharing the story of her father's poisoning, persecution and current imprisonment, she details what it was like growing up under the watchful eye of government surveillance as her father led a decade-long investigation into the corruption of Putin's regime — and shows why paying attention to what happens in Russia matters to everyone, everywhere.


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Um dia feliz

Saúde. Coragem. Paz.

terça-feira, fevereiro 20, 2024

Coragem

 

É preciso coragem para ser capaz de continuar a dar o peito às balas mesmo depois do seu amado ter sido assassinado. É preciso muito amor a um país para continuar a enfrentar os seus algozes.

Yulia Navalnaya: 'I will continue the work of Alexei Navalny'

Yulia Navalnaya has said in a video address that she will continue her husband's fight for a free Russia, and called on supporters to stand with her against Vladimir Putin. 

In the video posted on Navalny's YouTube channel, she said: 'We know exactly why Putin killed Alexei three days ago. We will tell you about it soon. We will definitely find out who exactly carried out this crime. We will name the names and show the faces.' 

sexta-feira, janeiro 13, 2023

Deu uma desanda ao Primeiro-Ministro, perguntou-lhe, em frente aos outros, porque é que estava a fazer-se de parvo e, ainda por cima, a humilhação é global pois o vídeo do momento circula por todo o lado.

 

O que não percebo é porque é que estas sessões são gravadas e vazam para a net. Ainda se as coisas lhe estivessem a correr bem... Agora isto. Uma barracada. Parece um filme cómico de quinta categoria. Uma cambada de totós que se prestam a levar na cabeça em público e, se calhar, sem razão.

Não percebo.

Ver para crer.