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segunda-feira, janeiro 28, 2019

Casas: as minhas, as dos outros





Quando eu era pequena, quer os meus pais, avós, tios ou quase todos os demais conhecidos viviam em casas que eu achava normais. Entrava-se e toda a casa ficava relativamente à vista. Mas havia uma casa que eu achava misteriosa e da qual nunca percebi os contornos. Tinha divisões em baixo, depois uma escada sempre a meia luz e, em cima, um corredor comprido com muitas divisões de portas sempre fechadas. Lembro-me de algumas vezes estar numa das divisões com a amiga da minha mãe, uma mulher da mesma idade que era modista. Tenho ideia de que estava também a meia-luz embora me tenha ficado a ideia de janelas altas, com portadas de madeira. Essa mulher era a mãe de um menino um ano mais velho que eu, o meu primeiro amigo, o meu grande e inseparável amigo até eu ter dez anos. Tal como a mãe, ele era reservado, silencioso. A minha mãe era muito loura, de olhos muito azuis, muito alegre. A amiga tinha o cabelo escuro, olhos escuros e parecia viver sem prazer. No entanto, isto pode ser a impressão de uma criança pequena. A casa era como ela, sombria, silenciosa e eu gostava sempre de ter oportunidade de lá ir, em especial lá acima, para tentar perceber o que lá se escondia.


Mais tarde, conheci uma outra casa fascinante. Teria eu onze ou doze anos. Uma das minhas colegas de turma era muito rica. Vivia numa casa extraordinária. Vivia no último piso de um dos prédios mais emblemáticos da cidade, prédio que pertencia aos pais. Nos outros andares havia direito, esquerdo e centro e todos enormes; mas, no último piso, onde ela morava, estava tudo ligado. Tinha apenas um irmão. Uma casa imensa para dois adultos e duas crianças. E as criadas. E tinha um terraço enorme e uma estufa e um solário. Eu adorava ir para lá. Tinha uma vista espantosa de toda a cidade. Por dentro, a casa era tão grande que havia uma central com botões correspondentes a cada divisão. Quando alguém queria uma água ou um sumo, tocava uma campainha que soava na central que havia na copa. As empregadas andavam fardadas e, na realidade, eram as verdadeiras chefes da casa. A mãe ou nunca estava em casa ou nunca saía dos seus aposentos. Tinha perdido um filho, anos atrás, e parece que nunca tinha recuperado. O pai era um homem de negócios e também nunca o vi em casa. O irmão dela levava amigos lá para casa e ela também. Mas cruzávamo-nos apenas vagamente pois a casa era francamente gigante. Lembro-me de uma sala que ficava a meio da casa, uma esquina em redondo como redondo era o ângulo do prédio. Nunca eu tinha estado numa sala daquele tamanho. Sempre vi aquela sala sem pessoas, só móveis muito bonitos e bibelots fantásticos que vinham de outros países. E nós por ali andávamos à vontade, usando a casa como se não tivesse dono. Por volta das quatro ou cinco da tarde, não sei, tocava uma campainha e nós interrompíamos o que estávamos a fazer e íamos lanchar à copa. Havia uma mesa grande mas havia também um balcão alto com bancos altos. Era aí que preferíamos lanchar.


Uma outra nossa amiga, que morava entre a minha casa e esta casa gigante, vivia numa casa muito grande de tipo solar, numa quinta também enorme onde havia um extenso laranjal. Aí não íamos tanto. Havia lá muitos cães e eu tinha um bocado de medo. A quinta estava toda murada. A casa grande dava para um grande pátio para o qual davam também as casas dos empregados. Aí havia sempre bulício. Nunca vi o pai. Quer o pai quer a mãe eram bem mais velhos que os meus pais. Tinham seis filhos, todos irreverentes, mal comportados, bem dispostos. Se bem me lembro, a mãe tinha sido deputada na antiga assembleia nacional. Não sei se nessa condição ou na condição de aristocrata e rica, só se fazia deslocar com motorista. Só me lembro de a ver a chegar ou a sair com motorista. Em casa, não me lembro de a ver. Era uma casa em dois pisos, com muita patine, e também aqui, eram as empregadas que tomavam conta da casa e das crianças. Tinha bancos de pedra junto às portadas, tinha grandes tapeçarias, mobílias que deveria ser valiosas. Lembro-me de um grande louceiro, mesmo grande, grande, imponente, com pratos de louça e peças de prata e de uma mesa enorme nessa casa de jantar. Passava-se de umas divisões para outras, parecendo que não acabavam e isso para mim era um grande motivo de curiosidade e interesse.


Depois disso tenho conhecido outras casas fantásticas. De uma, em Sintra, um belíssimo palacete, já uma vez falei num daqueles folhetins que, volta e meia, me dá para escrever. É uma casa de família e ali poderia ser feito um belo filme. De facto, é uma casa tão extraordinária que poderia ser a personagem central de um romance, de um drama, de uma série de televisão. Aí, uma vez mais, passa-se de umas divisões para outras como se fosse uma casa infinita. Quando sou convidada para lá ir, encanto-me. Por minha vontade pedia carta branca para passar lá um dia inteiro por minha conta.

Mas, enfim, escuso de continuar a falar de casas que, de alguma forma, me impressionaram.


Mas, tenho que confessar, talvez por outros motivos, as minhas casas também me impressionaram. Esta, da cidade, foi assim: por causa dos livros, eu andava à procura de uma casa maior, de preferência com seis divisões. Pelos meus filhos, habituados a uma vida de cidade, com amigos e amores, com desportos e actividades sempre por perto, queríamos uma casa na cidade e não no campo. Procurámos procurámos, procurámos. Uma vez, estavam a fazer um prédio na rua onde eu morava. Um dia, ao chegar, estava um carro mal estacionado com indicação de que o dono estava na obra. Fui avisá-lo. Apareceu um homem mais ou menos da minha idade, com um bom ar, simpático. Percebi que era o construtor. Perguntei-lhe se as casas desse prédio em construção eram grandes. Disse-me que eram T4 normais. Perguntei-lhe se tinha ou sabia de casas grandes. Disse-me que sim, uma que tinha sido dele e que estava a reconstruir. Mais tarde haveria de me contar que era a casa onde tinha vivido com a primeira mulher e com a filha e que estava a reconstruir para que a mulher da altura, a segunda, não se importasse de ir para lá (mas que não sabia se nem mesmo assim ela quereria). Mas, naquele primeiro dia, não sei dizer bem porquê, interessei-me logo. Perguntei-lhe onde era. Disse-me e disse-me também que ia lá estar no dia seguinte à tarde. No dia seguinte, apareci lá. A casa estava em reboco, tudo a ser feito de novo. A casa tinha uma deslumbrante vista para o rio e era, realmente, uma belíssima casa. Senti imediatamente que era a casa pela qual eu estava à espera. O que tive que penar pela casa, as surpresas que tive, algumas muito boas, o inacreditável que foi todo o processo até que ele assimilou que a mulher jamais viria viver para aqui e aceitou vender-me a casa, é digno de outro filme. No dia da escritura, chorou ao vender-nos a casa. A mulher acompanhou-o mas não estava nem aí.


A casa no campo foi outra. Sempre tive vontade, ou melhor, necessidade, de ter uma casa no campo. O meu marido nem por isso. Durante anos procurámos. Ou eram caríssimas, ou horrorosas, ou a milhas, ou em lugares recônditos ou com vizinhança nula ou péssima. Já todos, o meu marido e os meus filhos, odiavam que eu persistisse, já nenhum deles tinha mais paciência para continuar a procurar. Até que um dia vi um anúncio. Chamou-me a atenção. Consegui convencê-los a ir ver. Estava de chuva, não queriam ir. Fomos ter com a dona da agência, uma pequena agência local. Quis mostrar-nos primeiro uma outra. Na verdade, um monte, literalmente um monte. Era vendido com o projecto de uma moradia que ela e o marido, que tinham também uma empresa de construção, fariam nascer. Mas eu estava com a ideia no tal anúncio. Lá fomos, num dia muito cinzento e muito molhado. E foi, de novo, amor à primeira vista. Era uma casa muito, muito antiga, com um acrescento recente e legal, uma casa no meio de pedras e mato rasteiro. Os miúdos entraram a correr e um disse: 'aqui é o meu quarto' e outro disse 'e aqui é o meu'. E eu comecei logo a pensar em desfazer-me daqueles móveis escuros e a pensar que tudo aquilo precisava de uma grande volta. E que ali, onde estavam pedras e mato rasteiro, haveria um dia um pequeno bosque. E foi outra luta. Papéis, papéis. Muito, muito tempo. Mas não desisti(mos). É agora o pedaço de terra que sinto como meu, como se tivesse nascido dele.


E talvez por ter esta ligação estreita a casas ou à recordação de algumas, sonho recorrentemente com casas. Sonho que chego a um lugar e que há uma casa fantástica que eu desejo que seja minha e que a vou visitar e que é enorme, sem princípio, meio e fim, com muitas divisões, que tudo ali me encanta, que me ponho à descoberta e que tem recantos maravilhosos e surpreendentes. Adoro ter este sonho. Nem quero acordar, para estar, maravilhada, a descobrir divisão após divisão, móveis lindos, louças e quadros magníficos, janelas grandes, muitas portas.

Mas, se hoje fizesse uma casa de raiz ou fosse escolher uma casa para iniciar uma vida nova, escolhia uma casa diferente das minhas. Talvez escolhesse ter casas como estas dos vídeos abaixo.





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As pinturas são de Gerhard Richter e acho que vão bem com Arvo Pärt, aqui com Pari Intervallo 

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Era para ter falado dos 'Livros Perdidos' mas cheguei tarde a casa, tive mil coisas para fazer, é tarde e espera-me um dia e pêras. Por isso, com vossa licença, vou já direitinha para a cama, apenas não rezando a todos os santos para isto não estar pejado de gralhas porque sei que não seria a reza a editar o texto.

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E uma boa semana a todos a começar já por esta segunda-feira.

sábado, novembro 18, 2017

Wes Goodman seria aprovado pelo presciente Dom Manuel Clemente.
Upssss....! Se calhar... não...



Já contei que tenho um amigo de quem muita gente diz que tem todo o ar de ter um piquinho a azedo. Isto dizem os subtis. Outros dizem outras coisas menos finas. Uns quantos, sem ele sequer imaginar, referem-se a ele como Madame Claudette. Eu não sei. Do que lhe conheço não o diria muito viril mas, quanto ao resto, não sei.

Agora uma coisa eu sei: não conheço ninguém que tenha maior reportório de anedotas de gays. Não há ocasião em que ele não se saia com uma. E é frequente, quando chega a um sítio onde estejam conhecidos, arranjar maneira de dizer piadas que metam gays. E, por ele, parece que meio mundo é gay. Tínhamos um colega, bem mais novo, que ele farejava como gay. E um dia veio contar-me que tinha visto o outro num bar com um amigo e que tinha a mão em cima da mesa, como que à espera que o outro a segurasse. Eu olhava para o rapaz e não lhe via jeito nenhum de ser gay mas o meu colega advertia-me que isso, na maior parte das vezes, não se vê. Ele lá sabe.

E vem isto a propósito de quê? Anda por aí um sururu sobre umas afirmações do Cardeal Patriarca Manuel Clemente que parece que prefere padres que gostem de mulheres (ainda que apenas platonicamente, I suppose). Não quer lá nos conventos padres que sonhem com marinheiros ou bombeiros ou que, à noite, quando estão com frio, saltem para as caminhas dos colegas e vão aquecer os pés no meio das pernocas peludas uns dos outros (isto admitindo que as depilações também são proibidas nos seminários).


Portanto, tivesse ele conhecido o bom do Wes Goodman -- casado e pai de família, todo machão, tdo militantemente anti-gays, todo só a favor dos casamentos naturais, homem-mulher, todo ele a boa consciência dos conservadores, cristãos, com uma mulher igual, organizadora de uma marcha anual anti-aborto -- e logo teria pensado que, não se tivesse o Wes casado, seria certamente um bom evangelizador da santa igreja católica, um caridoso e bom pároco, mas mesmo dos bons, daqueles viris certificados que dão uns padres a preceito.


A gaita é que o bom do Wes, afinal de contas, era um daqueles de tipo faz o que eu digo, não faças o que eu faço. E, para pasmo geral, um destes santos dias foi apanhado em flagrante a pinocar com outro homem. No gabinete. Truca-truca, anda cá que és meu.

Deputado republicano anti gays demite-se após ser apanhado a fazer sexo com homem

Surpresa, surpresa. 

Agora já veio pedir desculpa à comunidade e diz que se vai dirigir a um novo capítulo da sua vida, seja lá o que isso quer dizer. Claro que se se tratar (que essas maleitas tratam-se, não é?) e conseguir voltar a ser completamente anti-LGBT, pode sempre vir até Portugal a pedir asilo ao cardeal Clemente.


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A propósito disto de coiso e tal no gabinete, lembro-me sempre de um meu colega, casadíssimo, apaixonadíssimo pela mulher e, em simultâneo, um sedutor compulsivo, que conseguia que o mulherame se apaixonasse perdidamente por ele. Não têm conta as que lhe conheci. Namorava com elas à descarada e elas adoravam-no, perdoavam todas as suas traições. 

Um belo dia, pediu a um certo administrativo que lhe preparasse um apanhado qualquer e pediu urgência. O homem ficou a trabalhar fora de horas para lhe entregar aquilo. E ele, no gabinete, presumo que à espera. Mas, hiperactivo como era, ou não teve paciência para esperar sentado ou recebeu visita de admiradora -- o certo é que a coisa se deu logo ali mesmo, em cima da mesa de reuniões que tinha no gabinete. Pois bem, estava o meu colega no truca-truca com essa sua namorada, uma senhora também bem casada, quando o dito funcionário bate ao de leve e, na maior inocência, abre a porta, dando de cara com aquele forrobodó.

No dia seguinte, mal cheguei ao meu gabinete já um outro colega estava a vir atrás de mim a saber se eu já tinha ouvido da bronca. Nada. E ele 'O coxo apanhou o X. em cima da F na mesa do gabinete'. E eu espantada, ainda sem captar a essência da coisa: 'Em cima? Mas em cima como?'. E o outro 'Caraças. A papar a F.'  E eu de boca aberta. E ele 'Faça de conta que não sabe de nada. Foi o nosso Presidente que me contou mas pediu segredo'

Passado um instante, um telefonema da Secretária do Presidente, para eu ir ao gabinete dele. Mal lá chego: 'Já soube do X?' E eu: 'Não....' E ele, num stress e ao, mesmo tempo, divertido: 'O coxo apanhou-o em cima da F.'. E eu a fazer de conta que não sabia de nada: 'Não...'. E ele: 'Ouça. Já chamei o coxo e já lhe disse que não contasse a ninguém.' E eu : 'Mas como é que soube?'. 'Pelo próprio X. Mal aqui cheguei, apareceu-me com o rabo entre as pernas, a contar. Chamei logo o coxo. Acho que a coisa está controlada. Ninguém vai saber de nada. Já viu a barraca que seria...? Um director a ter relações com a tesoureira na mesa do gabinete...? Uma barraca...'. 

Pois, pelo menos entre os directores, não se falava noutra coisa. Tudo divulgado pelo Presidente. Perante o insólito da situação ninguém se detinha para se lembrar do nome do funcionário que dera com a cena. Sabia-se que era coxo e só por aí já toda a gente o identificava, não havia lá outro.

Anos depois, numa remodelação qualquer, aquela mesa veio parar ao meu gabinete. E era inevitável que alguém sempre dissesse: 'Se esta mesa falasse...'. Ou, se alguém desconfiava que alguma coisa se poderia passar fora de horas em algum gabinete, logo se dizia: 'Mais vale despachar já o coxo para casa, não vá ele lembrar-se de ficar a fazer horas'

Mas, lá está, gostando de mulheres como o meu amigo gostava, o Cardeal Clemente aceitaria, de bom grado, que ele ingressasse na carreira eclesiástica. Santinho como ele era, haveria de dar um bom conselheiro matrimonial.

[E se falo no passado é porque infelizmente foi um daqueles que partiu cedo de mais. Muito cedo. Não tenho tido muitos colegas brilhantes mas este foi, seguramente, um deles. No velório lá estavam todas as suas namoradas, entre elas a protagonista da célebre cena da mesa. Choravam tanto quanto a viúva. Era um homem que vivia a vida de uma forma gloriosa].

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Quanto ao Wes, ao Cardeal Clemente e a outros anti-gays encartados nada mais tenho a acrescentar. Podia dizer que desejo que sejam felizes e tenham muitos meninos mas, lá está, se calhar isto de terem muitos meninos ainda pode prestar-se a alguma confusão, mais vale ficar-me pelo 'muito felizes'.


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PS:

É verdade... Tenho uma dúvida. Só ouço falar na sexualidade desejável para os padres. Então e a das freiras? Quais as preferências do Cardeal? Podem ser das que são meiguinhas umas com as outras ou também devem ser das que gostam só de beijinhos de homens? 


Ah, este Cardeal Clemente gosta de uma polémica, ah gosta, gosta. Ora vejam bem o tema que ele trouxe para cima da mesa: Igreja vai fazer testes para proibir seminaristas gays. Então isso são lá testes que se façam, oh Senhor Cardeal...? Mas pronto, se insistir, não me importo de fazer parte do júri de avaliação. 


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Já agora.


É um cristão gay?  -- pergunta-lhe o Rowan Atkinson




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E um belo fim de semana a todos quantos estão a ler estas palavras.

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