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segunda-feira, março 16, 2026

Pessoas com QI extremamente elevado...?


Não que eu sofra demasiado do chamado síndrome do impostor mas, com alguma frequência, ainda me surpreendo ao constatar que pessoas que se sentem extremamente autoconfiantes e que exibem grande conhecimento e à vontade oratório, quando postas à prova, vêm a revelar-se, afinal, bem mais limitadas do que ostentavam, não tão mais intelectualmente superiores que eu como, à primeira vista, se poderia pensar.

Um exemplo disso, que ficou muito marcado em mim, tem a ver com a minha entrada na faculdade. Uma das cadeiras daquele horroroso 1º ano era um pesadelo, uma coisa difícil de descrever. Pelo menos para mim era. A sala era enorme e não era em anfiteatro. Imagino que haveria lá, à vontade, para cima de cem pessoas. Só se devia ver bem na primeira ou na segunda fila. Mas eu não me sentia bem ali à frente, no meio de gente tão marrona. A professora era baixinha, mal se via das últimas filas, e falava muito depressa, tinha péssima dicção. E enchia quadros gigantes a grande velocidade. Para conseguir transcrever tudo o que ela dizia, eu não tinha tempo para processar. Se me atrasava, perdia-me de todo pois o quadro estava pejado de gatafunhos despejados a granel. Ela não contextualizava, não enquadrava. Limitava-se a despejar. E eu não conseguia acompanhar aquela enxurrada permanente de matéria. Vinha de ser a melhor aluna do meu ano na minha escola e, ali chegada, sentia-me a mais burra das criaturas. Parece que quase toda a gente percebia tudo, menos eu. No início da aula, havia uma dúzia de alunos que iam, muito íntimos da professora, colocar questões sobre trabalhos que tinham feito em casa. E pareciam dominar tudo de trás para a frente. Eu vinha também de um ambiente de convivência permanente, de muitas festas de aniversário e tardes dançantes, idas ao cinema e passeios à beira mar, muita amizade, namoros, alegria e irreverência. Pois ali ninguém queria saber de nada disso. Todos pareciam bem comportados, só queriam saber de engraxar os professores e estudar, e, mal acabavam as aulas, todos se evaporavam. Pensei seriamente em desistir. Parecia não me enquadrar ali. Nas outras cadeiras não era tão grave mas, ainda assim, o padrão era o mesmo: matéria despejada aos baldões, sem enquadramento, sem que os professores explicassem o interesse, a utilidade ou a beleza do que ali se ensinava. Mas parece que só eu me incomodava com aquilo e me sentia desajustada e, sobretudo, sem conseguir captar e assimilar quase nada do que ali se passava.

Vieram os primeiros exames. Salas gigantes, mesas individuais, completamente separados uns dos outros. Nunca antes eu tinha feito um exame, tinha dispensado sempre. Estava enervada e com a sensação que ia ter a pior nota de entre aquele batalhão de gente iluminada. Ia humilhada por antecipação. Achava que os resultados confirmariam que tinha que mudar de curso.

Fiz o que pude com a sensação de aflição de ver ali coisas que não sabia ou para as quais não tinha tempo para conseguir pensar e resolver. Nunca antes tinha passado por essa sensação. Saí de lá a pensar que se reprovasse não me admiraria nada. Apenas a uma cadeira fui com confiança, com a consciência de que sabia apenas uma pequena parte do que havia para saber mas com a sensação que tinha conseguido tocar o véu que envolvia aqueles assuntos que me pareciam tão fascinantes.

Quando saíram as notas, ia com o coração aos saltos, mentalizada para o pior. Naquela cadeira horrível, em que me sentia a mais burra da sala, vi uma pauta cheia de números encarnados à frente dos quais se escrevia 'reprovado'. Até que cheguei ao meu nome. 12. Nunca tinha tido uma nota tão baixa em toda a minha vida... mas, caraças, não sabia como mas tinha conseguido passar... Em contrapartida, quase toda aquela gente que exibia despudoradamente sapiência e à vontade tinha reprovado. Uma razia. Fiquei espantada, nem conseguia perceber. 

(Nas outras disciplinas tive notas um pouco mais altas e, naquela de que gostava mesmo, tive uma nota mesmo muito alta.)

Para mim foi uma lição. Assistindo ao comportamento das salas, eu não daria nada por mim. Certamente ninguém daria nada por mim. Sentia-me limitada, desajustada, burra. E, afinal, ao sermos avaliados, os resultados provavam o contrário do que parecia.

E ao longo de toda a minha vida constatei isto mesmo: nem sempre os mais exuberantes, os mais imediatistas, os mais extrovertidos, os mais autoconfiantes, os que sabem tudo e nunca se enganam, os que dizem que estão tão certos da sua razão que se fizessem a mesma coisa que fizeram há vinte anos, fariam exactamente da mesma maneira, são os que mais sabem. 

E não digo isto para me auto-valorizar pois estou muito longe de ser a última batata frita do pacote ou a última coca-cola do deserto ou porque o que eu sou ou deixo de ser não tem qualquer interesse nem para mim nem para ninguém. Digo isto porque estou farta de ver comentadores de tudo e mais alguma coisa, todos a falarem de qualquer assunto, todos a saberem de tudo, todos muito convictos das suas razões, todos a dizerem uma coisa e o seu contrário sem pestanejarem, picaretas falantes. Começa uma guerra aqui ou ali e eles sabem tudo, detêm o ex-príncipe André e lá estão eles, a saberem tudo sobre a Casa Real britânica, depois há um ataque a uma sinagoga e aí estão eles, a saberem tudo sobre religiões e história e geografia associada ao tema. Antes, na minha adolescente inocência, eu teria pensado que são todos tão inteligentes, tão sabedores, tão fantásticos, que nem dava para imaginar, e sentir-me-ia burra por não lhes chegar aos calcanhares. Hoje o que penso é que mais valia que não se desse tanto palco a tanto papagaio. A poluição que tanto comentário gera é atrofiante. E cansa. 

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Estou a ver a reportagem da entrega dos Oscares, mas como, até agora, está a ser muito sensaborona, com aquela minha mania de estar sempre com um olho no burro e outro no cigano (ditado popular que se calhar se tornou inconveniente...😏), estou, ao mesmo tempo, a ver o youtube. E apareceu-me um vídeo interessante, que fala um pouco nestes aspectos. 

Se V., meu Caro/a Leitor/a, quer saber se é muito inteligente ou se nem por isso, veja se se identifica com as características que aqui se enunciam (isto partindo do princípio de que quem fez o vídeo sabe do que fala).

Psicologia das pessoas com QI extremamente elevado

Já alguma vez se perguntou por que as pessoas extremamente inteligentes parecem, por vezes, um pouco diferentes?
Elas nem sempre são as mais barulhentas na sala.
E não sentem a necessidade de provar o quão inteligentes são.

Mas, se observar com atenção, vai notar pequenos sinais no seu comportamento que revelam como a sua mente funciona.

Segundo a psicologia e a neurociência, pessoas com QI muito elevado costumam desenvolver hábitos que refletem a forma como processam informações, analisam situações e entendem o mundo à sua volta.

Neste vídeo, exploram-se 10 hábitos que são comuns entre pessoas com inteligência acima da média.

Descubra:
• Por que pessoas inteligentes adoram passar tempo sozinhas
• Como a curiosidade se torna um motor mental poderoso
• Por que falar consigo mesmo pode melhorar o controlo da mente
• Por que dizer “Não sei” é algo natural para elas
• A ligação surpreendente entre pensar demais e inteligência
• Por que ter bom humor está ligado a um cérebro avançado
• Como a flexibilidade mental permite mudar de opinião com base em novas evidências
• Por que alguns se sentem mais alertas e criativos à noite
• O poder de observar mais do que falar
• E por que procuram sempre um significado mais profundo na vida

Este vídeo não é só sobre inteligência.
É sobre entender a psicologia humana, os padrões de pensamento e a forma fascinante como o cérebro interpreta o mundo.

A verdadeira inteligência nem sempre se faz ouvir.
Às vezes, é uma mente tranquila que continua a questionar, analisar e explorar.

Mantenha-se curioso. A mente humana é muito mais fascinante do que imaginamos. 


Se gosta de descobrir a psicologia por trás do comportamento humano e entender como a mente funciona, inscreva-se no Psychology Insight para mais vídeos como este
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Desejo-vos uma boa semana

sábado, janeiro 05, 2013

O que é a inteligência? Sabe-se agora que o QI é muito enganador, é um indicador com falhas básicas. E, ainda, a inteligência emocional, sem a qual um génio erudito não passará de um pobre infeliz. E, de passagem, confesso algumas das minhas limitações.



O que é a inteligência? 




Debato-me frequentemente com essa dúvida quando vejo pessoas que tenho por inteligentes a fazerem coisas completamente estúpidas. Em contrapartida, surpreendo-me com as opções acertadas de pessoas que tenho por, de certa forma, intelectualmente limitadas.

Em relação a mim própria tenho dúvidas. Ponham-me à frente aqueles testes irritantes com progressões de triângulos, rectângulos, bolinhas meias pintadas para ver o que se segue, e acerto as que calharem pois não tenho paciência nenhuma para aquilo, a partir de certo ponto já respondo ao acaso, absolutamente ao acaso. 



Este é de caras...



Mas este já é daqueles que começa a chatear...


E, no entanto, deve haver quem consiga concentrar-se a tentar decifrar aquela parvoíce toda e responda acertadamente. Ora eu acho que só um totó é que desbarata o seu precioso tempo com uma palermice que não interessa ao menino jesus. Acho eu, pois com certeza os testes de QI declararão esse totó muito mais inteligente que eu - e não digo que não seja.

Um outro aspecto que, fosse eu moça para isso, me deixaria inferiorizada é a minha quase incapacidade de, a meio de conversas, fazer citações de cor, referir em catadupa nomes de livros e autores, invocar personagens literárias ou cinéfilas pelo nome, coisas do género. E, no entanto, até tenho uma memória razoável e até sei umas coisas, só que, estando a conversar, numa boa, elas não me aparecem com precisão académica, assim do nada (além disso, também tenho algum pudor, receio parecer que estou a armar ao pingarelho). Mas já, se estiver a escrever, as ideias fluem a bom ritmo e, se me falha algum pormenor, facilmente o repesco com a ajuda do Google. 

Mas tenho amigos e colegas que, a conversar, parecem enciclopédias falantes. Serão eles muito mais inteligentes ou intelectualmente aptos do que eu? Se calhar são.



Atenção que isto é conversa do Oscar Wilde, não minha...


Em contrapartida, o que dizer de pessoas que parecem inteligentes, umas sabichonas emproadas, transpirando semântica e erudição em geral por tudo o que é poro, e que, afinal, têm uma vida cinzenta, apagada, amargurada, ou seja, pessoas que, aparentemente, não têm a inteligência suficiente para gerir a sua própria vida?



Atenção que isto também não é coisa minha, é do Schopenhauer....
Eu não tenho nada contra gente erudita.


&

Parte da resposta a estas questões pode ser vista num estudo publicado há poucos dias na revista Neuron, Fractionating Human Intelligence, da autoria de Adam Hampshire, Roger R. Highfield, Beth L. Parkin, Adrian M. Owen e de que o site Ciência Hoje dá conta.

A investigação baseou-se num estudo de campo sobre mais 100 mil participantes de todo o mundo que foram submetidos a testes de memória, raciocínio, atenção e capacidade de planeamento. 

Este estudo revelou que a inteligência é, de facto, muito mais do que o que se consegue medir através de um indicador tal como o QI, o coeficiente de inteligência, coeficiente este que se costuma medir, justamente através de baterias de testes nos quais se incluem as acima referidas sequências e charadas. 

O que este trabalho nos diz é que a inteligência deve ser analisada, pelo menos, em três componentes distintos, a memória de curto prazo, o raciocínio e a habilidade verbal. 



As cores com que o nosso cérebro se ilumina


A cada um destes aspectos correspondem circuitos distintos no cérebro que foram mapeados e identificados através de scanners cerebrais.

Ou seja, o estudo deixa claro que medir a inteligência unicamente segundo um dos aspectos ou através dos testes que conduzem à obtenção do QI é totalmente errado.

Com um número tão extenso de participantes no estudo foi também possível relacionar as respostas com idade, estado físico, hábitos, etc. as conclusões retiradas são inúmeras. Por exemplo, Hampshire diz que os fumadores têm um desempenho reduzido a nível de memória de curto prazo e de habilidade verbal enquanto as pessoas que sofrem frequentemente de ansiedade têm dificuldades a nível de memória de curto prazo.  

A estes aspectos deve ainda acrescer o aspecto do lado emocional do comportamento ou seja, aquilo a que se chama inteligência emocional e que é tão determinante como a inteligência dita racional.




Transcrevo da wikipedia uma possível definição de inteligência emocional: "...a capacidade de perceber e exprimir a emoção, assimilá-la ao pensamento, compreender e raciocinar com ela, e saber regulá-la em si próprio e nos outros." (Salovey & Mayer, 2000).

Daniel Goleman um dos mais conhecidos especialistas em inteligência emocional diz que para ele, a inteligência emocional é a maior responsável pelo sucesso ou insucesso dos indivíduos. Como exemplo, recorda que a maioria das situações de trabalho é envolvida por relacionamentos entre as pessoas e, desse modo, pessoas com qualidades de relacionamento humano, como afabilidade, compreensão e gentileza têm mais chances de obter o sucesso.

Segundo ele, a inteligência emocional pode ser categorizada em cinco capacidades:


  • Auto-Conhecimento Emocional - reconhecer as próprias emoções e sentimentos quando ocorrem;
  • Controle Emocional - lidar com os próprios sentimentos, adequando-os a cada situação vivida;
  • Auto-Motivação - dirigir as emoções a serviço de um objectivo ou realização pessoal;
  • Reconhecimento de emoções em outras pessoas - reconhecer emoções no outro e empatia de sentimentos; e
  • Habilidade em relacionamentos inter-pessoais - interacção com outros indivíduos utilizando competências sociais.

As três primeiras são habilidades intra-pessoais e as duas últimas, inter-pessoais.



Coloco esta imagem embora saibamos agora, preto no branco,
 que o  lado racional não se mede apenas pelo QI
(ou IQ, consoante seja em português ou inglês)


Ou seja, a falta de inteligência emocional explica porque, por exemplo, pessoas com boa memória, bom raciocínio e boas capacidades de exposição sejam depois umas inaptas na sua vida pessoal ou social. 

Quantas pessoas não conhecemos que, tendo tudo para ter uma vida bem sucedida, por incapacidade de compreensão dos outros, ou por incapacidade de controlo das suas próprias emoções, tomam atitudes precipitadas, desajustadas e, com isso, condicionam gravemente a sua vida?

Ou seja, para resumir, ou melhor, para atalhar - porque não sou especialista na matéria nem estou aqui para dar lições a ninguém, muito menos do que sei apenas pela rama - o que me parece importante é que tenhamos noção da diversidade dos aspectos intrínsecos que influenciam o comportamento das pessoas, não subestimando levianamente os outros, dando a cada uma a possibilidade de se valorizar naquilo em que é melhor e compreendendo o que as leva a não serem tão boas noutros aspectos, se possível ajudando-as a compreenderem os seus pontos fracos e a aproveitarem bem os seus pontos fortes.

A vida é plural e o nosso cérebro também. E, no fim de tudo, o que interessa é que, com mais ou menos limitações, nos sintamos felizes e façamos felizes os que estão à nossa volta.

(Conversa da treta?! Talvez. Ou então sou eu que sou pouco inteligente...)



Mas, se assim for,  isso não me tira a boa disposição e, para mim, está bem assim.

*

Se não for pedir de mais, gostaria ainda de vos convidar a irem até ao meu Ginjal e Lisboa. Hoje a minha voz atravessa o silêncio junto às palavras de Herberto Helder. A música é mais um momento feliz, Jorge Palma com Cristina Branco, num arranjo do maestro Rui Massena. Uma maravilha, verão.

*

E, por hoje, é isto. Tenham, por favor, um belíssimo sábado, está bem?