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quinta-feira, novembro 09, 2017

Noite de histórias





Benedita foi tomar um duche. Apanhou o cabelo, vestiu uma roupa leve. Jantaram. Benedita e Filipe. Meninha acompanhou-os, bebendo chá e petiscando bolachas marinheiras com compota de laranja. 

De vez em quando o semblante de Benedita toldava-se. Por vezes, dizia em voz baixa: 'Preocupada...' Mas logo os outros diziam: 'Não penses nisso, descansa' Não sabiam mas intuíam que o problema da mãe não devia ser grave. Talvez não soubessem que as doenças da alma anulam a alegria de quem as vive e de quem lhes está próximo. Mas Benedita estava esgotada e qualquer palavra de ânimo lhe servia de âncora ou para a fazer sentir menos culpada por não passar vinte e quatro horas por dia tentando retirar a mãe do poço de angústias em que insistentemente tentava afogar-se.

No fim do jantar, voltaram para a sala. Filipe falava, contava histórias, tentava aligeirar o ambiente. Meninha levantou-se, pediu para ir lavar a louça, depois pediu para ir buscar um pente e pentear Benedita. Explicou: 'Mexer na cabeça, acalma. Deixa eu pentear, fazer trança, escovar'. Benedita, que antes de jantar, chegou a dar uma animada, tinha-se ido abaixo e já não conseguia argumentar. 

Meninha chegou da casa de banho com uma braçada de material. 'Senta numa cadeira'. Pôs-lhe uma toalha pelos ombros e começou a penteá-la. Apanhou o cabelo, soltou, fez tranças, escovou. Benedita deixou. Sentia-se mais tranquila.


Depois Meninha lembrou: 'Queria que eu contasse história, não era, Beny? História eu não tenho pr'a contar, não, mas Filipe que é vivido deve ter. Porque não pede a ele que lhe conte história?'

Filipe não percebeu mas Benedita gostou da ideia. 'Senta-te aqui à minha frente, Filipe, conta-me de ti'.

Filipe obedeceu. Pegou numa cadeira e sentou-se. Os seus joelhos quase tocavam os joelhos de Benedita.

E, então, em voz baixa, de vez em quando fechando os olhos, começou: 'Já vivi muito, sim. Já tive muitas ideias e achava que era especial por ter tantas ideias. Já ganhei muito dinheiro e achava que era rico e que sempre me sentiria motivado a ter mais. E já tive muitos ideais e convicções e achava que isso era um rumo de que nunca me desviaria. Até que percebi que vivia melhor se aceitasse não saber nada. E que vivia melhor se não tivesse que me preocupar com as aplicações do dinheiro. E que vivia melhor se aceitasse que o rumo se fosse desenhando a cada dia. Fui muito bom aluno e tinha orgulho disso. Agora reconheço que pouco me lembro do que aprendi. E era muito ambicioso a nível profissional. Fiz uma carreira internacional. Sacrifiquei tudo, muitas vezes mudei de casa, mudei de país. E mudei de mulher. Cheguei a estar casado e a achar que estaria casado para sempre. Mas tudo foi perdendo relevância. Desabituei-me do afecto. Desabituei-me da mulher por quem me tinha apaixonado ainda adolescente, desabituei-me da minha filha, desabituei-me dos meus pais. Seduzir mulheres passou a ser um hobby. Olhar para elas e pensar: 'De quanto tempo vou precisar para a ter nos meus braços?' e o tempo ia sendo cada vez menor porque fui aperfeiçoando a técnica. Por fim trabalhava em Paris onde tinha um apartamento. Fiz coisas de que hoje me arrependo. Excessos. Abusos. De vária ordem. Depois, um dia, sozinho, senti-me mal. A custo, cheguei ao hospital. Fiquei internado. Não recebi visitas. Longe da família, sem querer ligar a amigos, conhecidos ou namoradas. Os médicos mandaram-me parar com os excessos. Mas não foram os médicos. Fui eu. De repente, parecia-me que estava a fazer tudo mal. Despedi-me. Estive uns meses sem trabalhar. Depois resolvi criar esta minha pequena empresa de consultoria em patentes e marcas. E dedicar-me à fotografia. Calhou, um dia, ver numa esplanada uma figura conhecida do mundo da moda. Pedi para fotografá-la. Foi o princípio. Tenho tido sorte. Sinto-me livre. Reaproximei-me dos meus pais, já tão velhos, reaproximei-me da minha filha. É mais velha que vocês. Está grávida. Vou ser avô.'

Meninha ia entrançando o cabelo de Beny. Pôs-lhe uma fita a fazer de gargantilha, pintou-a, Beny parecia nem sentir. Estava alheada. A mente de novo fora do corpo. E foi deixando que as pernas de Filipe se encostassem às suas, aconchegada e encantada. Tinha, outra vez, vontade de chorar, agradecida por Filipe estar ali, contando a sua vida.

Meninha quebrou a emoção do momento: 'E nunca mais teve vontade de fazer neném, não, Filipe?'

Beny zangou-se: 'Que é isso, Meninha...?'

Mas Filipe respondeu, rindo: 'Ah, isso tenho sempre, Meninha. E se estou perto de mulher bonita não posso dizer que a vontade não espreite. Mas estou mais selectivo. Dantes cada mulher era um desafio pois não descansava enquanto não a sentia rendida. Hoje não, hoje quero sentir afecto de verdade. Respondi...?'

'Não leve a mal, Filipe, mas não acredito em si, não. Não leve a mal mas olho pr'a você e vejo alguém que está sempre pronto pr'a facturar'

'Não, Meninha, estou ficando mais velho, já perdi a pressa. Agora quero vagares. Mas, então, agora conte você'

Meninha se furtou: 'Nada pr'a contar, não, Filipe. Vida de pobre não tem história, só míngua. Não gosto de falar. Me faz regressar e eu isso não quero, não. Conta tu, Beny.'

'Vida de pobre não tem história e vida de mulher bonita também não. Não é míngua mas é fartura, que vai dar no mesmo', disse Beny. 'Mas quero continuar a ouvir a tua voz; Filipe. Sinto que a tua voz me abraça. Pode ser?'. Depois, percebeu: 'Era a tua melhor arma de sedução, não era, Filipe? A voz...?'

Filipe disfarçou, fez ar sério, compenetrado e falou como se estivesse a brincar, 'Não sei. Talvez. Mas mais pelo picante que sei pôr nela. Ou o olhar, diziam que o meu também, mas só quando mostro que quero conhecer a intimidade daquelas a quem olho. Ou a língua, o jeito como, quem querer, molho os lábios, deixando perceber que estão a precisar da outros -- de outros lábios, quero eu dizer.'

Benedita e Meninha ouviam-no, fascinadas. Mas logo Filipe fez género: 'Mas isso era dantes. Agora não gosto de me arriscar, agora prefiro ser seduzido. E já estou velho para isso...'

Sem querer, Beny deixou sair: 'Mostra como é, Filipe. Seduz-me. Melhor: seduz às duas, a mim e a Meninha ao mesmo tempo. Tenta ver se a gente cai nos teus braços.'

Mas Meninha, gemendo: 'Ai... Beny... que é isso...? Sou moça comprometida.... Faz isso, não...'

E, então, Beny: 'Chata que é, Meninha, não quer nada. Não ligues, Filipe. Ou, então, espera, para começar, diz-me um poema. E aviso já: é meio caminho andado'

E, então, Filipe, olhando Benedita nos olhos, disse: 'Para ti, wild rose, minha princesa, para que me deixes depois fazer a outra metade do caminho'. Mas depois sentiu-se indelicado e corrigiu, fingindo que sorria: 'Para vocês, para as duas donzelas do meu coração'. Depois acrescentou: 'Assim de repente, acho que é o único de que me lembro...'


A drowning swimmers dream


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O episódio que acabaram de ler e que acabei de escrever, o sétimo, vem na sequência de:
Sexto episódio: Noite de juízo
Quinto episódio: A solidão das mulheres bonitas
Quarto episódio: Actos falhados, sentimentos desencontrados 
Terceiro episódio: Uma wild rose com red carnations nos seios 
Segundo episódio: Beny e Meninha numa tarde especialmente quente
Primeiro episódio: Wild Rose

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terça-feira, novembro 07, 2017

A solidão das mulheres bonitas





Ao fim do dia, Benedita telefonou à mãe a perguntar se podia lá ir jantar. Sentia falta de conversa de mãe. Não que alguma vez tivesse tido grandes conversas com a mãe mas gostava de pensar que sim.  Inventava memórias com essas inexistentes conversas.

Naquele dia em particular, gostava de poder estar à mesa com a mãe e gostava que ela lhe perguntasse o que se passava para ela lhe dizer que nada, mas, depois, perante o olhar interrogador da mãe, confessar que andava sem rumo. Mas a mãe atalhou o devaneio: que devia ter comido alguma coisa que lhe tinha caído mal, que não ia jantar, só beber chá. Benedita ainda lhe perguntou se queria que ela lá fosse mas Iolanda disse que não, que estava quase a ir meter-se na cama, que ficava bem.

Benedita ficou triste. Pensou que sentir-se carente seria aquilo. Depois, a recordação da irmã. Tão diferente a irmã, tão, tão diferente. Depois de mil aventuras, tinha ido para Barcelona. Pensou, com um sorriso no pensamento, que, àquela hora, andaria ela envolta na bandeira da Catalunha, mais independentista que o mais independentista dos catalães. Como estranhas, pareciam nada ter a ver uma com a outra. Nunca se telefonavam. Viria, talvez, passar o Natal. Contudo, a verdade é que Benedita sentia falta da leveza de espírito e da alegria da irmã. Sempre que pensava nela, recriminava-a: insconsciente, irresponsável. E, no entanto, tanto que gostava de ter herdado um pouco dessa alegre leviandade.

Os avós moram longe. Nunca foram próximos. São pessoas simpáticas mas as afinidades são poucas. Do pai pouco se lembra. 

A verdade é que Benedita tem poucos amigos. De resto, também prefere ficar sozinha, deitada, de olhos fechados, ouvindo palavras na sua cabeça, ouvindo dizer poesia na internet, música, divagações assim.


Outras vezes põe-se à janela a ouvir os pássaros nas árvores ao fim da tarde, ou, mais esporadicamente, vai ao cinema. Não vai muito às aulas nem dedica muito tempo ao estudo. Chama-na da agência para trabalhos e ela vai. Cada vez é mais requisitada e cada vez lhe pagam melhor. Mas é-lhe indiferente. Na verdade, quase tudo lhe é indiferente.

Uma vez, na agência, disseram-lhe que devia mostrar mais empenho. Não percebeu. Não quer mostrar mais empenho, não quer arranjar mais trabalhos, já tem que lhe cheguem. E sabe que, quando a objectiva aponta na sua direcção, alguma coisa acontece porque o seu corpo ganha vida de uma forma que a transcende e os resultados são surpreendentes. Não precisa de se preparar, muito menos de se esforçar. Não quer saber e, talvez por isso, o desconhecimento de si transparece através da sua inocente e total entrega. 

Estava nestes pensamentos, enroscada no sofá, as pernas já tapadas com uma manta, quando o telefone tocou.
Meninha. 'Olhe, Beny, desculpe aquilo lá mas não gostei do avanço daquele abusado.' 
Benedita, seca: 'Não pareceu que não gostasse. Vi-a toda enlevada, fazendo pose, feita romântica'.  
Mas Meninha: 'Sabe, Beny, de início estava gostando sim, sempre sonhei de ser diva, mulher desejada, sempre sonhei que alguém ia descobrir meus méritos, minhas seduções ocultas. Seu Filipe leva tanto jeito, tira imagem mais linda das mulheres que fotografa, já estava me vendo feita primeira página. Mas depois ele veio com aquela proposta, não gostei, muito abusado, não sei se a querer tirar casquinha ou quê'.  
Benedita, quase sorrindo: 'Querer fotografar um corpo não significa que queira tirar casquinha. Um corpo é uma superfície onde a luz se reflecte, um bom campo de exposição. Mil vezes que fui fotografada e nunca nenhum fotógrafo pôs as mãos em mim. O que eles sentem ou pensam ou não quero saber'.  
Meninha: 'Disso eu não sei, não. Só sei que ver meu corpo não é qualquer um que vê. E quis lhe dizer isto porque sei que Filipe para si é especial, bem vejo como sua indiferença é mais forte com ele que com outros, bem vejo como ele se redobra no olhar para lhe pôr ainda mais linda. Não quero estragar essa coisa que vocês fingem que não é coisa.' 
Benedita, então, diz: 'Quer vir jantar comigo, Meninha? Peço um sushi. Quer?' 
Meninha diz: 'Mas depois faz tarde para voltar aqui pr'a espelunca... É perigoso. Nem Zezinho me ia querer atravessando o pedaço aí pela noite. Acho melhor não, Beny. Mas valeu. Obrigada'.  
Mas Benedita resolve o dilema: 'Pode dormir cá, Meninha'.  
Meninha hesita, há intimidades que não gosta de partilhar.  
Mas Benedita insiste: 'Vá, Meninha, venha, venha contar histórias de quando era menininha, conte-me de sua mãe, de seu pai, de seus irmãos'.  
Mas Meninha: 'Ui... isso não, Beny. Tempos tristes. Nem sabe o que isso é. Isso não. Posso contar de outras coisas mas desse tempo eu não vou contar, não.' 
Beny concorda: 'Venha na mesma.'
E logo se pôs a arrumar a sala, e logo encomendou sushi e logo procurou lençóis e mantas e logo viu se tinha chá e sumos. E foi numa ansiedade que esperou que Meninha chegasse.


Mais de uma hora depois chegou Meninha. Vinha numa produção que só vendo. Benedita teve vontade de rir mas não quis ofender. Apenas disse: 'Toda sexy, Meninha'. E ela: 'Ora, Beny, e logo você para dizer isso. Sexy não. Apenas tentando fazer bonito. Vinha em sua casa, bairro fino, vizinhança chique. É ocasião especial, não quis vir de um jeito qualquer.' 


Beny disse: 'E está muito bem, Meninha. Está chique, sim. E vá, entre logo. Venha. Se quiser, pode descalçar-se. Aí em cima desse salto tão alto, nem o sushi lhe vai saber bem. E bora, vamos jantar. Apetece-me ouvir as suas histórias. Conte-me coisas, Meninha'

Meninha sorriu e, abanando a cabeça, mostrou a sua incompreensão: 'Moça mais linda e mais doce... não se percebe porque não arranja namorado que encha suas medidas com as histórias que você quer... Olhe. Porque não dá bola para Filipe, Beny? O que ele daria pr'a estar aqui contando os troços lá dele'. 

Mas Beny não quer ser amada como acredita que Filipe sabe amar e também não sabe explicar as suas razões. 


Por isso, embrulha-se na resposta: 'Filipe e eu andamos em passo trocado. Convergimos numa vida passada e nos iremos encontrar numa outra vida. Nesta agora ele tem mais para dar do que eu posso aceitar. Mas não sei. A minha vida também anda trocada das minhas palavras. Por isso, não faça perguntas, Meninha, que não sei responder. Conte-me é de seus amores, de seus namorados, de sua vida.'

Meninha, tentando fugir ao tema: 'Não quer deixar isso pr'a lá, Beny? Minha vida é tão sem graça... Zezinho é meu primeiro namorado a sério. Antes, só mesmo coisas sem história. Lhe digo, Beny, uma vida meio sem graça '

Mas Beny sente que não, sente que, ao contrário da sua, a vida de Meninha é cheia de graça. E está doida para descobrir.

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O episódio que acabaram de ler, o quinto, vem na sequência de:
Quarto episódio: Actos falhados, sentimentos desencontrados 
Primeiro episódio: Wild Rose

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[E sobre a bela luz e sobre as belas cores de Outono in heaven, queiram descer um pouco mais]

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segunda-feira, novembro 06, 2017

Actos falhados, sentimentos desencontrados





Benedita telefona à mãe pela sexta vez e nada. A manhã vai alta e nem consegue sair da cama. Desde que acordou que está a tentar. Já está deveras preocupada. Tem um compromisso, não pode largar tudo e ver o que se passa e isso deixa-a ainda mais inquieta. Também não está a encontrar o número de telefone da nova empregada que vai lá tarde sim, tarde não. Lembrou-se de lhe ligar e pedir que fosse ver se está tudo bem com a mãe. Mas deve estar a fazer confusão com o nome, não o acha. Que preocupação. Quem veja a bela Iolanda sempre tão sorridente não adivinha o problema que ali está. É bem verdade que a passagem de uma vida de glamour com um excesso de solicitações para uma vida quase vazia não deve ser fácil. É também certo que o ver-se sozinha nesta altura da vida, o saber cada filha para seu lado, também não ajuda. E talvez haja alguma carga genética. As depressões sucedem-se. Ou talvez seja sempre a mesma. No outro dia, quando Benedita lá foi, eram duas da tarde e ainda a mãe estava na cama. Levantou-se a custo, o rosto inchado, olhos sem vida, o cabelo a precisar de lavagem. 


Se a sua fotografia aparecesse assim numa revista ninguém reconheceria nela a bela Iolanda que fazia primeiras páginas e que, até não há muito tempo, aparecia na televisão todos os dias em horário nobre.

Saber a mãe assim preocupa e traz tristeza a Benedita. Parece que, qualquer coisa dentro de si está sempre em alerta, com receio de uma outra recaída, sempre temendo uma má notícia.

Mas, então, toca o telemóvel e Benedita logo descontrai: 'Então, mãe? Já tinha ligado não sei quantas vezes. Onde é que estavas? Já estava preocupada. Bolas! Porque é que não atendes?'

A mãe explica que estava a tomar banho, depois a secar o cabelo; não tinha ouvido. E diz que tem que se despachar para não chegar tarde ao ginásio, que combinou com uma amiga irem, antes, beber um sumo, que já está atrasada. E parece sorrir enquanto fala. Mas mente. Não foi isso. Tinha tomado na véspera à noite uma dose tão forte que agora mal conseguia estar acordada, queria era voltar, o mais depressa possível, para a cama. Tão pedrada estava que nem se dava conta da inquietação da filha, queria apenas acabar a conversa para poder dormir em paz.

Contente por julgar a mãe bem, Benedita ficou instantaneamente mais leve, com vontade de festejar. Num instante toma um banho, apanha o cabelo, veste qualquer coisa.


Na véspera, tinha ficado de passar pela casa-estúdio de Filipe, à hora de almoço, para ver as últimas fotografias, para ajudar na escolha de algumas para o editorial da revista e para ver algumas impressões. Mas, nessa manhã, Filipe ligara-lhe e, num entusiasmo, dissera que tinha recebido uma encomenda para mais um trabalho para uma marca de produtos de maquilhagem, que fosse preparada que aproveitavam e faziam já uma breve sessão para testar umas ideias.

Antes de sair, já toda animada, liga a Meninha: 'Escuta, vou ao Filipe para ver umas provas e para ensaiar uma sessão. Pode vir, Meninha? É uma cena de make up, sem suas mãos não vai ter graça'. Meninha geme: 'Aiii... Tinha prometido ir mais logo dar um jeito na mulher de meu padrinho que eles vão numa tal de vernissage e devo tantos favores pr'a ele... A que horas seria isso, Beny?'. Benedita diz que era logo, logo, que ficariam despachadas num instante, que a seguir Filipe voltaria para as suas patentes, que daria mais que tempo pr'a ir pôr nova a velha. Meninha diz que então sim mas reforça que, logo, logo teria que sair pr'a não deixar pendurada a mulher de seu padrinho.

Quando lá chega, Filipe cumprimenta-a com aquela discrição pudica tão própria dos verdadeiros apaixonados e que bem pode passar por um simples cumprimento profissional. Está desfardado, todo na ganga, aspecto desconstruído, bom para pôr as mãos nele e voltar a construir, pensa, sem mostrar que pensa, Benedita. E mostra a sua admiração: 'Que é isto, Filipe? Não foste trabalhar?'. Filipe está contente: 'Estive a trabalhar em casa. Daqui a nada já me fardo. Vou para o escritório daqui a nada e fico lá até à noite. Pode ser, chefinha...?'

Pouco depois chega Meninha. Vem afobada, tanta pressa que tem. Filipe mostra algum enfado, não estava à espera, pensava que ia ter Beny só para si, mas logo se recompõe e, como se tivesse tido uma ideia, sorri (e sorri com aquele seu ar safado de quem já está a visualizar a cena na qual a sua imaginação ainda só meteu um pé): 'Beny, a tua assistente não quererá participar na sessão? É bonita, tem carisma. Capaz de se tirar muita coisa dela...'

Benedita não presta atenção. Está concentrada em Meninha: 'Menina! Nunca te vi assim... Mas onde vais, tão chique assim....?'

Meninha senta-se a descansar. Depois diz que veio já vestida toda prosa para dali ir directa para casa do padrinho, que naquela casa tem que entrar toda feita madame que padrinho é homem recto, não quer jeito de desaforo na casa onde a esposa exerce suas virtudes.

Benedita ri. 'Mas é que caprichaste mesmo, ninguém ousará dizer que não vais tu também para a vernissage, mesmo para um baptizado... Menina!'

Filipe olha Meninha com atenção. Depois começa a fotografá-la. Benedita espia o olhar de Filipe, quer perceber se é também olhar guloso, igual ao que faz para si. Mas não consegue perceber. Talvez seja olhar profissional, toda a gente diz que Filipe é um artista, mas Benedita não sabe ser isenta. Disfarça apenas.

A seguir, ela mesma, enquanto Meninha faz olhos cândidos e jeito inocente para a objectiva de Filipe, começa a pintar-se. Mas, talvez inconscientemente, decide exorbitar a ver se Filipe percebe que ela está ali, a ver de Meninha percebe que está ali para a ajudar e não para sobressair.


Mas Filipe e Meninha parecem esquecidos dela. Ele aproxima a lente, deixa que a luz incida no cabelo selvagem da morena, foca-a de lado, aponta ao jeito tímido dela. E ela deixa-se estar, gosta de ver como Filipe se interessa pela sua beleza. 

Espiando num canto, Benedita sente a frialdade da inquietação. Até que, com espanto e incómodo, ouve Filipe a dizer com aquela sua voz que se baixa até se tornar uma indecência: 'Gostava de fotografar o seu corpo. Não quer tirar a blusa?'. 

Benedita sente-se ofendida,  tem vontade de o atacar, mas nada diz. E, então, ouve Meninha dizer com voz ríspida: 'Sou moça de me despir com essa facilidade não, viu? Homem que queira ver meu corpo tem que me conquistar muito, sabia? Não quero saber se isso é trabalho, se é arte, se quê, sei é que meu corpo é especial de mais para ser servido assim, com essa facilidade, viu?'. Põe-se de pé e, decidida, pega na bolsinha e sai batendo a porta.

Benedita, sem pensar, faz o mesmo.

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O episódio que acabaram de ler, o quarto, vem na sequência de:
Terceiro episódio: Uma wild rose com red carnations nos seios
Segundo episódio: Beny e Meninha numa tarde especialmente quente
Primeiro episódio: Wild Rose
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sexta-feira, novembro 03, 2017

Beny e Meninha numa tarde especialmente quente





A mãe queixa-se. Tem dores. É da mudança de tempo, diz. Mas, quando vê a filha preocupada, sorri, diz que também não é nada de mais, que já faz parte, que já se habituou. Sabe disfarçar. Sorri como se tivesse vontade de sorrir. Durante muitos anos, sorrir fez parte da sua actividade. O sorriso bonito ficou-lhe colado ao rosto e sempre a parecer um sorriso genuíno. 

A filha vai sentar-se ao seu lado, pergunta-lhe o que fez durante o dia. Iolanda diz que fez a mesma coisa de sempre e a filha diz que o problema dela é esse, o não ter nada que fazer. A mãe protesta: fez muitas coisas. E enumera: foi ao ginásio, leu, foi ao dentista, dormiu a sesta, orientou a rapariga, viu a lista de compras que ela tinha feito, deu-lhe dinheiro e depois orientou a arrumação, viu televisão. A filha diz: 'Mãe, isso não é nada. Quero estar descansada em minha casa e não consigo, sabendo-te aqui nesta fossa. Escreve. Porque não escreves? Arranja uma rotina, como se fosse um trabalho. Deves ter montes de histórias de quando trabalhavas na televisão'. A mãe faz-lhe uma festa ao longo do cabelo: 'Estou bem, não te preocupes.'. Depois acrescentou: 'Olha, se fosse contar as vezes que fui assediada, enchia um livro. Está na ordem do dia. Dizia o nome dos figurões que mexeram ou quiseram mexer. Mas cá ainda eles é que ficavam bem vistos. Não há paciência'. A filha encolheu os ombros. 'Nunca tens paciência para nada. Isso não é bom'. Mas a mãe parecia absorta. Ou desinteresse ou cansaço. Sem ter razões para se sentir cansada, a verdade é que geralmente mal se conseguia mexer, tanto o cansaço.

Depois pareceu acordar: 'Olha lá, tens estudado? Tu nunca descures os estudos, ouviste? E escuta lá, não gosto nada desse Filipe. Tem má fama, tem mau ar. Não gosto nada, nadinha mesmo, de te saber com esse galifão por perto.'

A filha, com aquele ar ausente que talvez tenha herdado da mãe, levanta-se e sossega-a: 'Tenho estudado, sim. E não tenhas receio: sei tomar conta de mim.'.

Beija a mãe. E fica, por uns momentos, a olhá-la. Tão bonita e sempre tão desmotivada, a mãe. Depressões profundas. Não há muito, um susto. No hospital tinha pedido desculpa, que nunca mais. Tristeza, vergonha e dizia que arrependimento. A recuperação tem sido lenta.

Quando ia já a sair da sala, a mãe chamou-a: 'Benedita'. Depois de um silêncio: 'Tens visto a tua irmã?'. Benedita disse: 'Se não estivesse bem, sabia-se, não é...?' e disse tudo.

Quando ia a sair de casa da mãe, tocou-lhe o telemóvel. Era Meninha. 'Ligou, não ligou, Beny? Estou respondendo'. Benedita: 'Sim. Separei umas roupas, lembrei-me que se calhar lhe assentam bem. Posso dar. Já não uso.' Meninha em silêncio, sem querer acreditar. Benedita: 'Se quiser posso levar a sua casa, estou sem nada que fazer'. Meninha aflita: 'Ui... Não venha não que aqui o bicho pega... Lugar mau, Beny, não vem não.' Benedita: 'Gostava de ir. Nunca fui para esses lados. Não incomodo. Posso nem entrar'. Meninha acabou por ceder, deu a morada.

Passado um bom bocado, Benedita tocou à porta de um prédio degradado, num bairro degradado, com pessoas com mau aspecto à porta. Como ninguém respondesse, subiu a pé pelas escadas e bateu à porta.

Meninha abriu. 'A campainha não funciona. Teve que vir na aventura, não foi não?'. Benedita estendeu um saco. Meninha disse: 'Entra Beny, não vai ficar aí na porta, né..?'.

Estava de shortinho bem curto, blusa sem mangas, cabelo solto, argolas grandes e baratas. Sentindo-se alvo de atenção, explicou: 'Tá calor, não dá p'ra botar muito agasalho, viu...?'. Benedita atrapalhou-se: 'Nada. Não estava a reparar. Também tenho calor.'

O apartamento era pequeno. Decorado à moda de Meninha, com xailes nas paredes, espelhos, luzes, plumas. Um sofá que se percebia ser velho com uma manta colorida e almofadas com missangas e lantejoulas. 

Benedita pensa na vida difícil de Meninha, vinda de tão longe, uma vida de pobreza e violência e agora cá, lutando, sempre falando num mundo melhor, sempre sonhando. Despeja as roupas no sofá. Meninha olha espantada. 'Tem a certeza, Beny? Tudo para mim?'. Benedita confirma: 'Já não uso. Não sei é se ficam bem a si.'.

Meninha disse: 'Se não ficarem, eu arranjo. Sou boa de costura, comigo não fica prega solta ou bainha pendida'

Beny sorriu, acha graça às expressões dela.

Depois disse: 'Experimenta este, acho que em si vai ficar bonito.' Meninha tímida: 'Logo experimento'

Depois, para mudar de assunto: 'Quer alguma coisa? Água?'. Benedita aceita, diz que está cheia de calor.

Depois de beber a água, volta a insistir: 'Gostava de ver como lhe fica. Não quer experimentar? Despe que eu ajudo depois a vestir. O corpete não é fácil de apertar. Mas deixa que eu aperto. E depois fica lindo com capa plissada, em si deve ficar bonito. Trouxe até colar'.

Meninha já nervosa: 'Então vá, eu visto. Mas vou lá dentro, não leva a mal, Beny, sou de pudores.'

Passado um bocado volta e vem radiosa, cabelo mais amansado, e vem fazendo pose, olhar profundo, andar de gazela dengosa.

'Pode fotografar, Beny? Gostava de ver se levo jeito. Quem sabe fico também com ar de wild rose', pede.

'Vou fotografar uma wild rose no seu habitat, aqui onde as wild roses grow', diz Benedita. Usa o telemóvel e fotografa Meninha. 'Para mostrar ao seu namorado, ele vai gostar de ver. Ajeite as maminhas para ficarem mais salientes'

Meninha meio-sorri. Está com ar de vício, de quem quer. 

Beny sente que há um clima no ar mas pensa que é de ter encarnado a personagem que Meninha olha assim para ela. Começa a sentir mais calor. O ar está quente no pequeno apartamento. Bebe água. Então, Meninha, diz: 'Não tem ar condicionado aqui, não. E janela também não tem vidro duplo. Para refrescar só mesmo despir e passar água fria na pele.'

Sem pensar, Benedita despe-se. Deita-se no sofá. E, com aquele seu ar de corpo do qual a alma se evadiu, diz: 'Deite água em mim, Meninha'


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Nick Cave and the Bad Seeds interpreta The Kindness of Strangers

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Este episódio vem na sequência de Wild Rose

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