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domingo, janeiro 24, 2021

Ela faz o que pode e pode muito.
Mas nada de tão sério que nos leve a deixá-la assinar por baixo disto.

 



Não é grande altura para se andar em locais mais frequentados. Contudo, creio que todos os cuidados estarão assegurados e obviamente irei votar. Votar é uma conquista civilizacional, um dever cívico. Isto ainda antes de ser um direito. 

Este domingo, portanto, irei votar. 

Li um texto e fiquei a sorrir. 

Se calhar também deveria aproveitar a ocasião para me produzir como in the good old days. Sempre gostei de me pôr toda em pendant, o que se vê e o que não está à vista de todos, desde a lingerie, à maquilhagem, aos adereços, ao perfume. 

Agora, vivendo praticamente em casa, essas frescuras vão-se esbatendo. Claro que me arranjo para as reuniões mas é sempre coisa mais aparente do que real, mais à superfície e muito concentrado no que se vê no ecrã. Poderia aqui fazer aquelo gestozinho irritante dos dedinhos a encolherem-se esticarem-se, fazendo aspazinhas palermas e, ao mesmo tempo, dizer: é o novo normal. Mas é coisa gasta, não o direi. O novo normal está a ser tão duradouro que qualquer dia fará esquecer o que era o velho normal.

Mas isto para dizer que acho que não vou seguir o exemplo. Muitas vezes, na vida real, o meu pragmatismo sobrepõe-se àquele meu gosto pela rêverie que, ao escrever, tantas vezes tão gostosamente me envolve. Não usarei batom. Numa das vezes que fui trabalhar, por hábito, pus um brilhozinho com cor de framboesa nos lábios. Antes de sair do carro para subir ao meu gabinete coloquei a máscara. Só quando a tirei e vi que estava tingida é que percebi: batom com máscara só se for por uma razão psicológica ou por melancolia. Caso contrário, não vale a pena.

Quanto às canetas também tenho uma coisa. Gostava muito de canetas. Era presente que recebia sempre com agrado. Tenho canetas muito bonitas. O prazer com que as recebia, as experimentava... Lindas. Uma, talvez das primeiras canetas boas que recebi, soube há algum tempo que é agora disputado objecto de colecção. Eram lindas as canetas, eram lindas as caixas em que vinham. Por vezes, as caixas ocupavam muito espaço e vinham com manuais que nem eram manuais, eram verdadeiros livros. Contavam a história, contavam o amor com que eram feitas. Ficava sempre com pena de deitar fora as caixas, os livros. E depois, lá está, por causa daquele meu lado que, na prática, é anti-glamour, ficava com receio de as estragar se as usasse dentro da carteira, ficava com receio de as perder e, no final das contas, tudo sopesado, deixava-as ficar bem guardadinhas, inúteis. Quando agora nos mudámos, foi com agrado que, ao abrir as portinhas interiores da escrivaninha, as voltei e rever. E agora, nesta casa, ali continuam arrumadas, bonitas, elegantes, quase virgens. Portanto, amanhã provavelmente usarei uma bic normal.

Perfume, sim, perfume usarei. Não sei ainda qual. Logo verei qual se adequará melhor à minha disposição. Depois contarei.

Quanto ao meu dia de sábado foi, uma vez mais, daqueles dias que se esvaem sem história. Fomos fazer a nossa caminhada e vimos uns homens a trabalharem no arranjo de uma vedação e de um portão. Estavam encostados uns aos outros, concentrados nas mesmas peças -- e sem máscara. Ontem tínhamos visto, num dos programas de culinária com que agora nos entretemos, fazer uma feijoada. Lembrámo-nos que há séculos não comemos nada assim, feijoada, rancho, sopa da pedra. Então, sabendo da existência de um pequeno talho que também vende alguns legumes e fruta, pensámos esticar a caminhada higiénica até lá, a ver se tinham repolho e entrecosto. Tínhamos ideia de ser um estabelecimento pequeno, aberto para a rua. Contudo, ao chegar lá, reparei que o homem estava sem máscara. Fiquei à porta. Perguntei se tinha repolho. Não tinha. Desisti do entrecosto. Mas ele continuou a mexer nas carnes, sem máscara, completamente à vontade. Portanto, não percebo. Numa situação como a que atravessamos, pelos vistos há ainda quem não esteja a perceber a gravidade da situação.

Perto da hora de almoço estivemos todos em videoconferência. Todos, incluindo a minha mãe. Já está autónoma. Tem aulas remotas na universidade sénior, participa em conferências com médicos, com psicólogos, com historiadores. Os meninos ficaram contentes por ver a bisa, toda fresca. Estava com um echarpe branca. Diz ela que ouviu dizer que uma echarpe branca é melhor que um lifting. E, de facto, estava mesmo bem. 

Interrompeu para dizer que tinha morrido o vizinho da ponta da rua, um que estava mal, em internamento domiciliário. Era esperado. No prazo de menos de um ano, é a quarta pessoa que morre naquela pequena rua de meia dúzia de moradias. Nenhum com covid, nenhum de morte inesperada. Qualquer deles era idoso, qualquer deles não estava famoso. Mas parece que, de repente, todas as fragilidades se tornam fatalidades. A nenhum deles faltaram os cuidados. Simplesmente, nestes estranhos tempos, a linha do tempo tem estado a encurtar-se. Não sei explicar. Talvez alguma coisa, antes, os fizesse agarrar à vida e, agora, nada os agarra. No entanto, em qualquer dos casos, estou em crer que nem se aperceberam de covides ou pandemias que os deixassem deprimidos, com pouca vontade de viver -- já estavam noutra. Não é isso, deve ser outra coisa qualquer. E não foram os únicos. Uma ou duas ruas mais acima, morreu uma outra idosa. Isto que eu saiba. Uma coisa estranha. Uma ceifa que um dia a história ou a ciência hão-de explicar. 

Mas não falámos disto tudo na videoconferência, só que ele tinha morrido. E a conversa seguiu naquela animação do costume. Aliás acho que os meninos, entretidos a fazerem maluquices uns para os outros, nem deram por isso. Uns rebolando-se no chão, outros fazendo cambalhotas no sofá. Estas videoconferências com todos são um desatino, não se percebe nada, não param sossegados, falam ao mesmo tempo, uma barafunda. Adorei vê-los. Tão lindos. Só me apetece voltar a abraçá-los, a beijá-los, a puxá-los para o meu colo quando estou sentada. Quando será que poderei fazê-lo?

De tarde, dormitei enquanto vi qualquer coisa de que não me lembro na televisão, talvez um filme, não sei bem. Depois fui apanhar uma laranja, passear um pouco, apanhar camélias caídas. Depois reentrei, trabalhei. O meu marido toda a tarde recebeu telefonemas. Parte da equipa está contagiada ou de quarentena. Tenta desencantar quem possa ir compor a equipa, telefona, recebe telefonemas. Um sufoco. Felizmente, a seguir jogou o seu sporting e, quando isso acontece, todos os problemas do mundo desaparecem. Eu fiz o jantar, depois voltei a falar com os meus ao telefone. E depois jantámos. 

E assim o tempo vai passando. 

E custa-me habituar a esta falta de ritmo.

Daqui a nada vou votar, perfumada, sem batom, com uma bic. 

Espero que a abstenção não seja perigosamente alta, espero que o resultado seja claro e bom para a democracia. 

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"Tudo o que a dança grega nos ensina
é a nudez
nas posições terrenas,
é quebrarmos
pelo plexo solar
onde o vigor
de toda a criatura
permanece"
Isadora não disse tudo isto
mas disse parte.
(...)
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Pinturas de Noronha da Costa ao som de Rita Payés & Elisabeth Roma interpretando Melodia Sentimental. O excerto obviamente não tem nada a ver com o post mas esse era, de facto, o objectivo: é parte de Otherwise de Acidentes de Hélia Correia, livro do qual também é o poema H.H. 23/3/15 do qual extraí o título deste post que, espero eu, também não tenha nada a ver com nada.

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

segunda-feira, janeiro 18, 2021

Um pouco menos de dinheiro na família e tê-los-iam internado a todos

 



Devo dizer que as notícias da pandemia são péssimas mas não me deixam admirada. Quando a curva avança empinada -- leia-se: aos pinotes -- há que ter-lhe respeito. Facilmente a gaja fica desencabrestada, difícil de a pôr com dono. Isto é matemática mas a matemática é temperada pelas circunstâncias. Quando as circunstâncias fazem de mortas, uma pandemia é matemática pura e aí, santa paciência, qualquer previsão só traz más notícias. 

Ora falou-se na 1ª onda, na 2ª e agora na 3ª como se o vírus tivesse comportamentos diferentes. Não. A menos que deixe de ser um vírus para passar a ser um vírus mais uns quantos clones não exactamente iguais, e aí a coisa piora, o pensar-se que há ondas só revela o mau entendimento que as pessoas têm disto. De cada vez que há maior exposição ao contágio, a curva sobe. Se se refrear, ela desce. Ou seja, o que muda é o comportamento das pessoas. Mas não se pode esperar grande coisa do comportamento das pessoas quando sabemos que parte da população não sabe informar-se, bebe das redes sociais e de uns e outros, e outra parte raciocina com as patas. Portanto, quem tem que conduzir o rebanho em que parte são asnos, parte são carneiros, parte são galinhas, parte são onças e apenas uma minoria é gente que sabe ler e escrever, é o governo. E, sendo o caso um caso grave, há que dirigir o rebanho com mão pesada. 

Em Março e Abril conteve-se a coisa pois estava com valores baixos e pôs-se maioritariamente a malta em casa. Na prática, o Governo quebrou as cadeias de transmissão. Depois veio o pré-verão e o verão. Quando o tempo está bom, a malta junta-se mais ao ar livre, nas praias, em picnics, em caminhadas, em esplanadas, em espaços fechados as janelas estão abertas -- e aí o corona está diluído no infinito e, portanto, as probabilidades de contágios são diminutas. A partir do momento em que se manda regressar a malta às lojas e escritórios, às escolas, e à medida que se fecham as janelas porque está frio e chuva, branco é, galinha o pôs: a curva volta a subir. E à medida que escasseiam as campanhas de sensibilização, a malta convence-se que o bicho neles não pega, que só as meninas é que têm medo, que homem que é macho não quer cá saber da máscara para nada, ou malta que é amiga confia uma na outra, não quer cá a desconfiança das máscaras... e depois a malta farta-se da monotonia de sempre covid, covid, covid, e quer é voltar a curtir, e bora mas é beber um cafézinho ou um copo, e bora mas é beber uma meia de leite quentinha e pôr a conversa em dia, e bora lá almoçar uns com os outros... e, quando se dá por ela estamos como estamos: não há camas nos hospitais, não há ambulâncias, não há médicos nem enfermeiros... e doentes com mais de oitenta pois, coitados, azarinho... E os doentes não-covid que aguentem mais um bocadinho que agora a gente não tem tempo para frescuras mesmo que as frescuras sejam coisas bem graves.

Por isso, a coisa basicamente entregue à consciência e ao entendimento de cada um dá nisto. Ou seja, o aumento que se desenhou em Setembro e a ligeireza com que se encarou a coisa, só podia dar nisto. Lembro-me que, por esses dias, recebi um mail de um Leitor a dizer-me para não me preocupar tanto. Pois, pois.

Além disso, há isto de parecer não querer ver o óbvio: espaços fechados, sem ventilação regular e sem um caudal adequado de ar fresco, é uma ratoeira, é só até aparecer alguém infectado. Quem respirar esse ar, fica infectado (a menos que seja daqueles sortudos em quem a bala faz ricochete). Não haverá lar de idosos, escritório, sala de fábrica, clínica, loja sem porta aberta para a rua ou o que seja que não tenha as janelas sempre abertas ou um ar condicionado que retire ar respirado e injecte ar novo que, mais cedo ou mais tarde, não atire com a malta toda para casa (ou para o hospital; isto, claro, quando não para o lado de lá, o lado do já foste).

Solução? Travão às quatro rodas à força toda. Partir as pernas às cadeias de transmissão que estão por todo o lado, descontroladas. Fiscalização à séria. E comunicação com fartura. Formação, explicação, ilustração.

Vou dar um exemplo. A minha mãe preparava-se para ir hoje fazer dois exames de rotina. Não há qualquer suspeita de nada, é mera rotina. Quando lhe disse que me parecia opção arriscada, ficou toda incomodada. Iria e viria de táxi, estaria de máscara, disse-me ela. Respondi-lhe: uma clínica fechada com ar condicionado que sabe-se lá como funciona. Um táxi em que sabe-se lá quem lá andou antes. Disse-lhe que a opção teria que ser dela, conhecendo os riscos de cada situação mas que os dados de como isto é são públicos. Suspirou, aborrecida. Apetece-lhe cirandar, está farta de estar fechada em casa, sem programas. Ia à clínica, aproveitava para ir aqui e ali. Perguntei-lhe se não tem visto os noticiários. Ontem à noite lá me disse que ia desmarcar. Que, se calhar, ia marcar lá para o início de fevereiro. Disse-lhe que não está a ver bem. Até ao fim de janeiro vai ser uma desgraça pegada. Fevereiro é para ver se se achata a bandida da curva. Quanto muito, talvez lá para Março e é se tudo correr bem e se o tempo ajudar. Suspirou. Percebo-a. Fala-me de uma amiga que vai todos os dias passear à Baixa, buscar o almoço a um restaurante, diz que ela vai e vem de autocarro e que nada lhe acontece. Pois, não sei. Talvez seja daquelas pessoas que é geneticamente imune. Ou tem tido sorte e um dia destes terá uma má surpresa. Mas é isto. A minha mãe já quase nos noventa, a amiga com noventa e tais. A minha mãe tem medo, critica os abusos, mas depois, quando é para ela, acha que passará sempre ao lado do perigo. E acredito que o que se passa com ela e com a amiga passa-se com muito mais gente. Um misto de saturação, de vontade de aproveitar melhor o tempo, uma esperança de que com elas não aconteça nada, uma coisa já na base do 'que se lixe'.

Enfim. 

Quanto ao meu dia, normal. Nada de culinárias a reportar, foi o básico: bacalhau com todos -- batata normal, batata doce, cenoura, cebola, feijão verde, ovo e grão. 

Ao jantar, comi iogurte, laranja em calda, dióspiro, queijo. Uma espécie de dieta.

E durante a tarde estive um pouco ao sol. E a ler os poemas da Hélia Correia, do livro Acidentes. Alguns agradam-me bastante.

Por exemplo este excerto de Poiêtikê dedicado a Maria de Sousa e a Anabela:

E ela quer saber exactamente onde está o poema,
quer tocar
no nervo do poema, sem que exista 
frieza ou impiedade,
sem que exista
golpe de bisturi.
Porque é um toque de delicadeza,
a materna leveza que há nos dedos
de quem levanta uma raiz, tremendo
com tudo o que há ali de irreparável,
de precioso, de finito, como o verso,
com tudo o que ali há de 
desumano,
enquanto algo de fino,
de espantoso na sua vibração,
atinge o peito
e deixa as criaturas que nós somos
sob o encantamento do que ignoram

Está a começar mais uma semana. Passam uma a seguir à outra, sem história. É isto. Parece que vivo num compasso de espera. Tem que ser mas é uma mudança tão grande na minha vida. Nem sei se voltarei a ser capaz de viver como vivia antes. 

Aliás é das grandes curiosidades: como vai ser a nossa vida quando esta treta estiver controlada? 

E como vão suportar a angústia as pessoas que estão sem trabalho, sem rendimentos, sem perspectivas? 

E cá estou eu, uma vez mais, em volta disto, nesta conversa chata, meio desalentada... Bem posso enfeitar o texto com flores dentro de bolas de vidro que, nem assim, a conversa vai soar animada. Ai...

O que me vale é que abro o youtube e o meu amigo algoritmo sabe o que há-de fazer para me animar. Só pode ser bicha. Já contei que alguns dos meus amigos mais dilectos são bichas ou abichanados...? São empáticos, simpáticos, cuidadosos, atentos, conversadores. Uns queridos. 

Desta vez, um pequeno vídeo delicioso do Chaplin. Vejo-o e esqueço-me de agruras, sorrio.

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O título deste post não terá muito a ver com o conteúdo (mas porque haveria de ter...?): é a parte final do poema Otherwise que Hélia Correia dedica a Lucinda Canelas.

O poema termina assim:

(...)
Eva, Penélope,
mulheres com um tal excesso de beleza
que isso as tornava intransigentes e as punha
a salvo de ternuras comezinhas,
atacando o trabalho de tear
não por fidelidade, como a outra,
mas numa guerra à Belle Époque e ao século
que estava a começar.
Um pouco menos de dinheiro na família
e tê-los-iam internado a todos

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Uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira
Saúde.

segunda-feira, janeiro 04, 2021

Essas palavras rolam humildemente pelo chão

 


Acabou-se este período de descanso. Noutros tempos teria sido bem aproveitado. E, noutros tempos, para mim, aproveitar bem era ir passear ou, pelo menos, ir para o campo. Desta vez, covid, recolher obrigatório e, sobretudo, estado de empenanço agudo, foram dias de desconforto. Hoje estava um pouco melhor das costas, quase sem dor da nuca mas com um torcicolo dos bons. É assim comigo: quando tenho destas, a coisa gosta de brincar comigo. Muda de sítio. Se falo nisto a quem quer que seja, ninguém leva muito a sério. São crises inflamatórias que parece que vão percorrendo os sítios mais frágeis a nível muscular. Ontem a minha filha também se lembrou: 'E tens feito tiro ao arco...'. Exacto. Gosto e gosto de atirar de longe, forço o arco ao máximo para a flecha sair com uma força danada para que, se acertar no alvo, faça aquele som compensador. Se vai à mouche, então, é um prazer. Mas também badminton. Não tanto como o arco mas também. E isto já para não falar em saltar à corda. A minha filha falou que tinha saltado à corda e já não tinha aquela elevação que antes lhe era tão espontânea. E foi exemplificar. A minha nora também foi saltar. E eu, que quando era miúda, passava horas a saltar, para a frente, para trás, cruzado, sozinha, a pares, sei lá..., fui também saltar. Por acaso, à posteriori, ao querer atribuir culpas a alguma coisa em concreto, lembro-me que, na altura, pensei: 'A ver se tanto exercício não dá cabo de mim'. Mas isto é complicado porque gosto imenso de fazer estas coisas e porque o faço sem esforço. Portanto, na altura não me sinto limitada nem me dói nada. Mas o que, pelos vistos, acontece é que, quando tudo se conjuga, alguns músculos estarem mais frágeis porque sujeitos a um esforço adicional, e alguma coisa no meu organismo, talvez o sangue, transportar alguma substância que faz com que seja como veneno sobre os músculos mais frágeis, dá buraco. Portanto, diria eu que o segredo está em descobrir o que é que, de vez em quando, aparece no meu sangue.

E aqui entra o que a minha mãe diz: cortisol (do stress?), ácido úrico por comer queijo a mais? comi carne demais? Não faço ideia.

Das vezes anteriores em que estive assim, se calhou fazer análises a seguir, aparece evidente que o indicador das inflamações ainda está muito acima do valor mas, para além disso, nada de mais. Até o cortisol me aparece normal. Mas isto quando faço análises que, em geral, nunca é nos dias em que estou mal pois é preciso preparação e mais não sei o quê e, além disso, quando estou com dores não tenho qualquer disposição para ir para o médico. Ele diz-me: se não passasse era pior, como passa, menos mal. Pronto. Arruma o assunto. É um prático, o meu médico, não tem qualquer veia de investigador.

Mas, resumindo: ao levantar-me percebi que isto não ia lá só com ben-u-rons e repouso. Portanto, comecei com brufen e hoje já tomei ao almoço e ao jantar e, assim sendo, espero que agora comece a melhorar. 

Espera-me uma nova semana das valentes. Não sei o que me passou pela cabeça achar que devia pegar o ano novo pelos cornos, reservando a primeira manhã de trabalho do ano com as três reuniões que mais preferia não fazer, de tal maneira que nem consigo pensar nelas. Não preparei nem vou preparar, vai ser na base do que me ocorrer. E não faço ideia do que vou ter pela frente. Se fosse nos tempos em que saíamos à rua para trabalhar, admito que talvez me passassem com o carro por cima. De tarde, não vai ser tão violento mas vai ser complexo e exigente. E, pior, de seguida. Três de seguida. Reuniões, bem entendido. Estes agendamentos foram quando não me doía nada e na base de o que tem que ser feito, deve ser feito o mais rapidamente possível. Mas, estar a começar o ano com tal programa de festas e o corpo a pedir tréguas, não é das melhores combinações. A ver como chego ao fim do dia.

E é isto, cá estou outra vez a falar das minhas maleitas. Só espero amanhã já nem me lembrar de tal coisa e já ter outro assunto.

Bem. Tinha dito que a ver se hoje, pelo menos, agarrava num livro. E agarrei. E estive a ler. Deitei-me no sofá. Durante o dia nunca consigo deitar-me na cama. No sofá, reclinada entre almofadas, com uma manta de veludo, tigresa, por cima, pus-me a ler 'Acidentes' de Hélia Correia. Na vez anterior que lhe tinha pegado não me convenceu especialmente. Desta vez, encontrei outro sentido, outra toada. Os livros também somos nós, leitores, que os acrescentamos (ou anulamos). Depois adormeci, um daqueles sonos que me tiram do sério. Não percebo de onde vem tanto sono. Em suma: terei que voltar ao livro com idêntica predisposição, passando adiante quando me parece que falta a toada ou quando encontrar alguma palavra que me parece indevida. Penso que este é o segredo quando não gostamos de alguma coisa (ou de alguma pessoa): em vez de persistirmos a tentar compreender e aceitar, não, é de fazer é o oposto: saltar por cima, deixar para trás. A gente às vezes parece que gosta de complicar. Perdemos tempo a tentar salvar o que não tem salvação possível. Mais vale isto: seguir em frente e ignorar o que não nos agrada.

Fiz isso hoje e só me detive naquilo que me soou bem. E, portanto, fiquei mais contente com o que li.

Por exemplo, gostei deste bocado de poema:

Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema


Fala de palavras, ela. E eu, que tanto gosto de palavras, esses misteriosos acasos que se acasalam, gosto de pensar que tudo o que fale de palavras encerra em si parte do mistério e, portanto, leio com atenção a ver se percebo porque gosto tanto delas. Mas não. Aquilo de que a gente gosta mesmo está acima da nossa capacidade de compreensão. Gosta-se por mil motivos, porque é aquilo mesmo de que se gosta mas, sobretudo, gosta-se porque se gosta. 


Por exemplo, gosto de ler isto:
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo fome.

mas seria incapaz de explicar porque gosto tal como me parece fútil e inútil querer encontrar explicação para o próprio poema. Não sei como é que se dá aulas de Poesia. Penso que a única maneira razoável é ler. Ler, ouvir ler, deixar que a toada nos invada o corpo. Atribuir significados ou querer enquadrar burocraticamente na gramática normal é abafar a poesia quando o que a poesia precisa é de oxigénio, ar puro. Mas isto, claro, sou eu, leiga, leiga, a falar. 


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E, por falar em palavras e em poesia, uma vez mais o Faz uma chave de Eugénio de Andrade, num vídeo muito bonito do Cine Povero

Faz uma chave, mesmo pequena,
entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.
 
Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.
 
Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.
 
Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.


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Pinturas de Laurits Andersen Ring na companhia de Jessye Norman - A Portrait - When I Am Laid In Earth (Purcell).
O título do post provém de um poema de Hélia Correia neste seu último livro, Acidentes

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

domingo, novembro 29, 2020

Acidentes, regressos e manuscritos de Felipa
[Ah...se eu pudesse trincar a terra toda]

 



Não há muito a dizer. O jardim está verde e florido e a chuva torna-o ainda mais viçoso. Mas a partir do princípio da tarde começou a chover, choveu, choveu, e escureceu de tal maneira que, para ler, só de luz acesa. 

Tenho um hábito: quando me levanto, dou a volta à casa, levanto os estores e vou pondo as janelas na posição basculante. Gosto que entre ar fresco. E, geralmente, gosto que fiquem assim todo o dia. O meu marido agora não concorda, diz que está frio demais para tanto ar fresco, diz que arrefece a casa. Por isso, geralmente, quando me apanha distraída, vai fechar as janelas. Se acordo a meio da noite vou, sorrateiramente, abrir a janela do quarto, gosto de sentir o ar fresco da noite. Se ele dá por isso, passa-se, diz que sou maluca. Mas gosto tanto.

De manhã não choveu. Fomos fazer uma caminhada. Mais de uma hora a bom passo. Uma caminhada bem mais longa do que o costume. Vamos conversando. Às tantas disse ao meu marido que ele sobretudo ouve e responde ao que pergunto. Ele respondeu: 'e não é preciso mais'. Ri-me. Sempre assim foi. Raramente é ele que puxa assunto. Ou tem assuntos de trabalho que o preocupam ou ouviu alguma notícia que achou relevante ou, então, alinha na minha conversa. E assim, nesta conversa solta, nem se dá pelo tempo a passar. 

Este domingo, que parece que vai chover todo o dia, não sei como vamos fazer. Já andámos muitas vezes com chapéu de chuva mas é uma maçada, em especial quando a chuva é forte ou faz vento. Mas ficar sem caminhar é que não.

Tinha ideia de ir fazer umas arrumações mas deu-me uma total preguiça. Estive a ler. Fui fazer a monda aos livros que trouxe no outro dia a ver os que tinham vindo para mim. E estive a ler parte de cada um. Enquanto lia, ia tentando descortinar quais as partículas elementares que ali se encontravam e que não encontro noutros autores. 

Mas não foi pacífico, devo confessar. Pensei que ia ficar rendida mas estou vacilante. Por exemplo, estranhei a linguagem deste Acidentes. Parece que lhe falta ali o sopro de deus. 

E, lá está, quem sou eu para falar em deus? A última pessoa a poder fazê-lo. Mas é o que penso: nos poemas que me parece conterem verdadeira poesia eu acredito que há ali mais do que apenas a inspiração ou a técnica do poeta, há uma qualquer transcendência, a mesma que encontro numa flor perfeita, numa música improvavelmente bela, numa pintura que sobrepõe sentimentos e luzes e sombras e inexistências. Penso: é um sopro divino. Um deus que reina sobre os acasos e se diverte a deixar que uns afoguem algumas coisas e outros elevem as coisas a um patamar tal que quem se apercebe deles tem vontade de se ajoelhar. Mais do que um patamar, um altar. 

O da Mónica Baldaque já cá estava em casa e o do Harari não é dos meus

Mas é isso: ainda não li tudo e talvez não com a devida concentração. Mas, do que li, sinto que há ali palavras destituídas de música ou de luz ou de não sei o quê. Tenho ideia que há palavras que não têm cabimento no reino dos céus que é o reino onde habita a poesia.

Da Adélia Prado parece que também não estou a encontrar nestas páginas a dose habitual de desalinho e a irreverência que nela tanto me cativam. Mas, de qualquer maneira, estou a gostar. Há sempre ali uma graça, um drible, um sorriso escondido por detrás da palavra. Para gostar de um livro tenho que sentir a inteligência mas sem exibicionismo, tenho que sentir o conhecimento profundo da natureza humana mas um conhecimento sem pergaminhos. Não sei explicar.

Do primo, ainda apenas espreitei. E ali encontrei a elegância do costume, a fluidez, o espírito. Lerei depois. Por enquanto, contento-me em folhear, apanhar fragmentos, deixar-me ir pela mão. Depois saltar, ler outro bocado. Há ali aquele saber escrever antigo, aquela prosa bem costurada, aquele saber contar. Não há futilidade, superficialismo. Há o prazer de escrever e partilhar ideias ou conhecimentos.

Ao início da noite fiz encomendas online e falei ao telefone. Antes fui para debaixo do telheiro ver a chuva e fotografar. Também fotografei os livros e algumas coisas em volta. E respondi aos comentários atrasados e descansei. Não é fácil ocupar o tempo quando se está habituado a não o ter. Inconscientemente parece que me sinto ociosa. Dou por mim a pensar se tenho alguma coisa atrasada para fazer, como se não me fosse concedido o direito a estar sem nada que fazer. Geralmente, ou tínhamos a família cá em casa ou íamos visitar a família, ou íamos encontrar-nos com alguém a algum lado ou íamos para o campo onde há sempre mil coisas para fazer ou íamos às compras ou qualquer outra coisa. Agora aqui em casa, num dia de chuva, sem se poder sair, parece que fica aquela sensação estranha de não saber bem o que fazer com o tempo. Mas foi bom, então não...?



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E, de repente, ocorreu-me que há muito tempo aqui não tinha o Cine Povero, bateu a saudade. 

E cá está: vem com Alberto Caeiro na voz de Pedro Lamares


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E desejo-lhe, a si muito em especial, um bom domingo.
Descubra o que lhe traria felicidade e procure-o. 
Geralmente não é nada de transcendente, está certamente ao seu alcance.
Be happy

quinta-feira, setembro 20, 2018

Irresistíveis tentações




No primeiro dia fui logo a uma livraria. Estava sem tempo mas não consegui deixar de ir. Estava sem disponibilidade para passarinhar calmamente, para folhear, espreitar, tomar-lhe o pulso. Ao entrar, olhei o relógio e hesitei: entrar para quê, sem tempo? Mas foi mais forte. Ainda assim trouxe o livro do Manuel Alegre, 'Todos os Poemas são de Amor' e o da Hélia Correia, 'Um Bailarino na Batalha'. E trouxe-os só porque sim, só porque não podia deixá-los lá ficar e porque, de certeza, iria gostar mesmo que nem de tudo ou não muito de tudo. 

No dia seguinte, cruzei-me com a mulher com andar de passarinho em terra. Hélia Correia que, quando escreve, escreve como se desenhasse palavras no céu e que, quando fala, fala com assertividade e luvas de combate, quando anda, vai hesitante, o corpo pouco afirmado. Forço-me a pensar: 'Também já não é uma miúda, já vai para os setenta'. Mas não é isso, é mesmo aquela sensação de que não estará muito habituada a andar com os pés em terra, como se o seu mundo fosse o das brumas imateriais. Pensei: 'Hoje é que devia ter aqui o livro'. Mas fiquei a pensar: 'Se o tivesse, iria maçá-la? Teria o direito de ir interromper o seu caminho? Acho que não. Que futilidade absurda a minha se me achasse com o direito a interromper o seu andar para lhe pedir que escrevesse o seu nome...'

Regressei, pois, à minha vida na cidade, nas torres cristalinas, regressei àquele mundo em que os problemas se sucedem, em que há sempre coisas para decidir, assuntos para encaminhar, agendas para compatibilizar. Não há tempos mortos. Por isso não tenho tempo para pensar na aridez que são esses momentos quando comparados com os passeios no meu bosquezinho atapetado, tão perfumado, tão feliz para os pássaros que lá habitam e para mim.

Felizmente, de vez em quando, uma inesperada conversa sobre um poema ou sobre uma estranha opção na tradução de uma antiga expressão vem atenuar a falta de ar puro. Mas é insuficiente. E, então, fui de novo à livraria. Sempre com pouco tempo mas, desta vez, forçando-me a algum vagar, mesmo que breve vagar, para olhar com olhos de ver.

E vi 'Ru' de Kim Thúy. Não conheço, nunca tinha sequer ouvido falar. Foi a capa. Foi o que li na contracapa. Foi ter lido que Ru -- que em francês quer dizer 'riacho' ou 'torrente' -- significa 'canção de embalar' em vietnamita. E foi, ao espreitar-lhe a alma, ter gostado do que li. E ter gostado da paginação. Sou sensível a coisas assim. Como nos perfumes sou sensível ao nome ou ao desenho do frasco. Trouxe.

E também 'O regresso' de Hisham Matar. Ignorante, chegada do campo, sem conhecer autor, sem saber de novidades, só chegada a desenho de capa. Este tem passarinho abstracto e umas cores simples que logo puxaram por mim. E depois história real, coisa em cru. Gosto de coisas cruas. Trouxe.

E mais. Outro.
Um delírio. Só coisa imprevista, só coisa tentadora. Três semanas fora e tudo isto, assim. Surpresa atrás de surpresa. Não necessário novo de nascimento. Novo de coisa inusual ali no meio de tanta letra vazia. 
Desta vez  'Dicionário do Diabo' de Ambrose Bierce, prefaciado pelo casto abade de Belém, que Deus me perdoe que até gosto do que ele escreve, mas parece que quando lhe cheira a pecado, logo estende a sua platónica bênção. 'O Dicionário do Diabo é um manual de guerrilha contra o conformismo', escreveu Mexia. E a encadernação? E as ilustrações? Preciosas. Pois bem: trouxe.

E quando pensava que já estava saciada e que o melhor era parar de olhar já que, como se sabe, quem muito olha sempre acaba por ver, um outro: 'Confabulações' de John Berger. A capa: muito boa. E que não fosse. John Berger. Só ele vale um delíquio. Abri e aquela vertigem de quando estou à beira de ceder à tentação de me despenhar já se fazia sentir. Tudo o que li me fez amar este livro. Claro: trouxe.

Enquanto ia pegando neles, objectos preciosos, ia pensando que nunca conseguirei deixar de procurar novos livros. É um luxo supremo, o de nos rodearmos de palavras, de ideias, de mentes livres, da melodia misteriosa que se desprende das páginas, do gosto bom de ter um objecto material, um objecto que tem origem numa árvore. 

E trouxe ainda mais dois. Mas a conversa vai longa e eu estou cansada. A vida não é fácil e o dia que já entrou também não o será. Pode ser que me apareça alguém que me fale de poetas ou posso eu ver espaço para falar de silêncio, de bibliotecas, de luz. Seja como for, se calhar não faz muito sentido eu, em vez de ir descansar, continuar aqui a escrever como se não houvesse amanhã.


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Nós fomos noite e noite até ser dia
nós fomos noite e a noite fomos nós
fomos a noite e os corpos e esses nós
com que a noite se atava e desfazia

fomos a noite e o que sobrava dela
e o que sobrava dela foram luas
que circulavam à volta de uma estrela
ora nas minhas mãos ora nas tuas.

[de Manuel Alegre]


Houvera noites cheias de estrelas muito baixas, tão baixas que dir-se-iam ao alcance da mão. Depois, a lua regressara e, aos poucos, ia ocupando o céu com a sua luz. Fazia, pois, meio mês que vagueavam. E, como os homens tinham garantido que estavam sem semente para deitar, que a fadiga e a fome os transformavam em eunucos de toda a confiança, dormiam todos na frescura, desenhando, sem o saberem, uma flor, um girassol.


[de Hélia Correia]


Apesar de todas essas noites em que os nossos sonhos escorriam pelo soalho inclinado, a minha mãe continuou a ambicionar um futuro para nós. Arranjou um cúmplice. Ele era jovem e sem dúvida ingénuo, pois ousava exibir alegria e desenvoltura no meio do monótono vazio do nosso quotidiano.


[de Kim Thúy]


Ali estava ela, a terra. Cor de ferrugem e amarela. Da cor da pele acabada de sarar. Talvez eu pudesse finalmente ser libertado. a terra tornou-se mais escura. Rebentos de vegetação verdes cobrindo levemente as colinas. E, de repente, o mar da minha infância.Os exilados romantizam tantas vezes a paisagem do seu país natal! Eu preveni-me contra isso.


[de Hisham Matar]


Política, n. Um meio de subsistência a que recorre a franja mais degradada das nossas classes criminosas. Uma luta por interesses disfarçada de disputa por princípios. A gestão dos negócios públicos para obter vantagens privadas.

Político, n. Uma enguia no lamaçal basilar sobre o qual a super-estrutura da sociedade organizada é erigida. Quando se contorce, confunde a agitação da cauda com o estremecimento do edifício. Comparado com o estadista, tem a desvantagem de estar vivo.


[de Ambrose Bierce]


Na semana passada, quando te estava a ver e a ouvir atuar, Yasmine, tive um impulso de te desenhar. Um impulso absurdo, porque estava demasiado escuro; não conseguia ver o bloco de desenho nos meus joelhos. Houve momentos em que rabisquei sem olhar para baixo ou sem tirar os olhos de ti.


[de John Berger]

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Só um bocadinho de John Berger para eu matar saudades


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As pinturas que fui buscar para aqui ter entre os livros são de Hai Ja Bang e viémos ao som de Händel - Yet can I hear that dulcet lay - com Bejun Mehta

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quinta-feira, maio 11, 2017

Falar com eles...?
Não sei, não. Só se for com alguém que encaixe nos meus requisitos.





Gosto de ler sobre o processo de criação. Ler ou ouvir. Sejam escritores, pintores, escultores. Se calhar tabém músicos mas, não sei porquê, sobre música não me desperta tanto interesse.

Gosto de ler diários de escritores. Claro que não de quaisquer escritores. Nunca me passaria pela cabeça ler um diário do Valter Hugo Mãe, do Gonçalo M. Tavares, ou de grande parte das pessoas que podemos ver na Feira do Livro (é verdade... deve estar quase a abrir, não...?). Sou tão exigente no gostar de outras pessoas. Sendo eu pessoa em quem os outros vêem alguma simpatia, a verdade é que tenho alguma impaciência para com um grande número de pessoas. Pessoas agressivas: zero, não tolero. Pessoas secas, desinteressadas, inertes, indiferentes perante tudo: zero, não tolero. Pessoas que acham que sabem tudo e que, na prática, por serem pouco inteligentes, não sabem disfarçar a sapiência e, pior, maltratam aqueles que acham cultural ou intelectualmente inferiores: zero, não tolero. Pessoas que monopolizam qualquer conversa, egocêntricos e narcísicos: zero, não tolero. Pessoas que só vêem o lado mau da vida, que não acreditam em nada nem em ninguém, que acham que não vale a pena empenharem-se em nada, pessoas geralmente corrosivas: zero, não tolero. E etc.


Portanto, se eu pensar que gostava de conversar com um escritor que admire, logo dou um passo mental atrás pois quem me garantiria que, sendo bom de escrita, não seria um desastre no convívio?

Não há muitos escritores portugueses que ainda escrevam que eu admire. Se, em relação a essa minoria, imaginar como serão como pessoas, tenho que confessar que a lista fica tão exígua que eu agora só me lembro de uma pessoa, da Hélia Correia. Penso que poderia estar um dia inteiro a lidar com ela, na cozinha, no quintal, talvez à janela. Mas não me lembro de outro, imagine-se. Mas admito que é o de sempre: quando é fazer listas, tenho uma branca.


Aliás, agora ocorre-me que também gostaria de conversar com Pedro Támen. Gosto muito da poesia dele e das suas traduções, duas artes especiais. Acho que deve ser agradável falar com ele, tem ar de ser pessoa interessante. 

Um com quem eu teria adorado conversar era o Cesariny. Ou a Agustina. De resto... Tenho que dar uma volta pelas estantes e montes aqui da sala a ver se não haverá mais alguém. Ah, talvez o Mia Couto. Tem ar de ser silencioso e de falar das terras por onde anda com o olhar perdido nesses horizontes.

Bem, se continuar por aqui com esta conversa, talvez me vá lembrando de um ou outro.

De qualquer forma, nunca vou a Encontros de Escritores ou sequer me abeiro deles nas Feiras do Livro. Ali é tudo circunstancial, desligado da alma, toca e foge, um smile e já chega. Nem pensar. Uma conversa com alguém interessante (mesmo que não seja artista de nenhuma arte) tem que ser conversa com vagar.


Talvez para colmatar esse meu gosto que não consigo consumar, volta e meia ponho-me a ver videos com entrevistas. Deixem que partilhe convosco (enquanto na televisão dá o futebol e reparo que o Cristiano Ronaldo está ruivo e com a pele cor de laranja).

Ian McEwan fala do seu processo de escrita




Philip Roth fala de como é escrever sobre sexo



Já agora, a Hélia Correia a falar do livro da sua vida



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Entretanto já fui ali jantar. Tinha deixado o jantarinho a preparar-se e estava saboroso. Assei um lombo de peixe sobre cama de maçã aos gomos e, por cima, coloquei-lhe tomate maduro às rodelas largas. Um pouco de sal, orégãos, alecrim e azeite. Antes forno aquecido ao máximo. Quando o tabuleiro entrou, baixei para 150º e deve ter estado para aí 1 hora. Acompanhei com feijão-verde e brócolos cozidos e, para sobremesa, frutos vermelhos (framboesa. mirtilos).

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Apeteceu-me ter um vídeo dançante: um tango de Piazzolla Tango - Oblivion

As fotografias são selfies de Flora Borsi combinadas com fotografias de animais

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E um dia feliz a quem por aqui passa.
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sábado, agosto 22, 2015

Ela diz que se alguém lhe manda um mail é como uma agressão. [Ela é Hélia Correia]


Escreve à mão ou no computador?

Embora pareça uma contradição com a imagem que as pessoas têm de mim, sou extremamente competente em informática. Resolvo 90% dos problemas que aparecem aqui em casa com o meu namorado e com amigos. Gosto muito de máquinas, desde que estejam paradas porque num carro não entro por implicar perigo para outros seres.

Olho de gato
(fotografia de Andrew Marttila)



Relaciona-se bem com a máquina?

Tenho uma relação muito autoritária e muito arrogante com elas, é uma coisa que está ali para eu mandar nela. 
Quanto a escrever, faço-o no computador já há muitos muitos anos. Preguiçosa como sou, faço um esforço tremendo para escrever qualquer coisa à mão. 
Se tenho de tomar uma nota , comida para a Emily [a gata], por exemplo, faço só o "C" [de comida] e o desenho do gato. Só que depois não sei o que escrevi.

St. Florian Monastery, Austria



E a investigação?

É na internet, porque é uma coisa fabulosa. Eu continuo a apreciar as grandes enciclopédias na Biblioteca Nacional mas agrada-me ter as bibliotecas do mundo todas ao alcance da mão. É uma coisa extraordinária e maravilhosa isso. 
O que não pratico e nem nunca farei, porque odeio e assusta-me, é a interacção das redes sociais. Ter o espaço invadido por não sei quantas pessoas. 
Já os e-mails endoidecem-me, tanto que mudo frequentemente de endereço e deixo tudo esquecido no anterior. Se alguém me manda um e-mail é como uma agressão. E não lhes respondo.

E o fim do livro tradicional por causa do livro digital...

Herb garden book sculpture
(Julija Nėjė)

Não me faz impressão porque o texto é o texto e o livro é um suporte que tem poucos séculos. Se o suporte vai mudar não me preocupa. O texto é o texto, esteja onde estiver. O livro tem o tempo do Gutenberg, é muito recente. Gostaria imenso de folhear livros de papiro ou de pele de carneiro. 
Principalmente, gosto do grande livro imaterial -- esse está a desaparecer --, o livro oral que é quase aquele sonho de Fahrenheit do Bradbury: ter um livro na cabeça. Os actores têm Shakespeare na cabeça. Não é impossível a pessoa ter livros na cabeça.
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Extracto da entrevista concedida por Hélia Correia a João Céu e Silva no Diário de Notícias de 20 de Agosto de 2015


[Hélia Correia recebeu o Prémio Camões 2015. Escritora e com um livro de poemas que é um dos livros de poesia da Língua Portuguesa (A Terceira Miséria), Hélia Correia é também uma mulher que exprime as suas opiniões políticas de forma desassombrada]

As fotografias que usei para ilustrar o texto foram obtidas no Bored Panda.

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Já agora, por falar nisso,



A Book trailer made by High School Students for their AP English Literature class. This is an interpretation of Ray Bradbury's "Fahrenheit 451"

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No post abaixo poderão ver dois vídeos que espelham os contrastes gritantes da realidade angolana. Imagens chocantes que retratam uma realidade chocante. E focam apenas uma parte do que lá se passa.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo fim-de-semana. 
Que descansem, que se divirtam, que estejam bem - é o que vos desejo.

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quinta-feira, julho 09, 2015

Esta é a ditosa língua, minha amada - grande discurso de Hélia Correia ao receber o Prémio Camões. [E a mais recente sondagem que dá o PS a distanciar-se, e a Lagarde a defender a reestruturação da dívida da Grécia e, para aumentar a barafunda, nails de gel e sei lá que mais]


Eu conto. Cheguei a casa quase às dez da noite depois de um dia de trabalho em que nem tive tempo para pensar na morte da bezerra. Agora, aqui em casa, já estive a preparar a valise para amanhã de manhã me pôr a caminho. Dois dias fora. E acabei de ver que preciso de retocar o verniz. Retocar não, tenho é que retirar o anterior e aplicar uma camada nova. E agora arranjei um novo que tem um gel que se aplica por cima, para simular as nails de gel. Vamos ver se resulta. Vejo lá as raparigas todas com unhas enormes, super-coloridas, super-grandes, super-brilhantes -- e eu completamente banal. Então, no outro dia, li não sei onde que há estes conjuntos de verniz+gel e que isto seca rapidamente, não requer nada daqueles apetrechos das super-manicuras. Numa corrida à hora de almoço, dei um salto à Sephora. O difícil foi a côr. Só gosto de me ver com cores neutras e só lá tinham pink, verde, azul, cinzento, preto. Mas afinal isto era na marca que eu tinha dito. Pedi produto idêntico mas de uma marca qualquer desde que em tom nude. Trouxe l'Oréal e ainda me saíu mais barato. Bem, vou parar para me atirar ao assunto.

Pronto, já está. Parece igual aos outros mas se calhar é esta luz que não deixa ver bem. Pode ser que, daqui a nada, à luz do dia, me deslumbre com as minhas próprias maravilhosas nails.

Enquanto estou nisto, vejo as notícias na televisão: o PS finalmente numa rota ascendente nas sondagens. 


Pode ser que estejamos perante uma tendência estável e que, a partir de agora, seja assim, milho a milho, até que o eleitorado demonstre que acredita no PS. Pelo que ouço, o pessoal odeia o Passos Coelho e as suas políticas mas ainda não se revê nas políticas do PS.
É isso: o PS tem que sair da casca e começar a afirmar-se. Se arranjar uma mão cheia de gente qualificada e credível que saiba expôr o que defende, de uma forma clara e assertiva (vejam-se as excelentes prestações televisivas do Embaixador Seixas da Costa, como ontem referi), num ápice o distanciamento do PS face aos malfadados PaFs se acentua. 

Agora estou a ouvir outra coisa extraordinária: a sempre bronzeada (com ar quase esturricado) Lagarde afirma que a solução para a Grécia tem que, forçosamente, passar pela reestruturação da dívida. Oh la la.

Sempre quero ver o que vão agora dizer o Láparo, a Marilú e o Nuno Melo: que a Lacoisa é defensora dos relapsos desta vida? 
Ai, as cambalhotas que os seres destituídos se vêem forçados a dar. Mas nada garante que percebam que as dão, provavelmente cambalhotam, rebolam-se e pinoteiam sem sequer perceber que o estão a fazer. Tudo é possível. Ou então, dão por isso e acham que nós é que somos burros, pois, depois das cambalhotas trapalhonas, não é raro aparecerem a gabar-se de que fizeram um elegante pas-de-deux. Aliada à falta de inteligência vem neles a falta de vergonha.

Bem. Adiante. Tenho que ir ao que interessa que se faz tarde.

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Em primeiro lugar, quero dizer que recebi com grande tristeza a notícia da morte do meu professor de Grafologia, o querido Dr. Alberto Vaz da Silva de quem aqui falei no outro dia. Vão partindo. Vão voando para outro universo. Fica-nos a memória e o carinho que sentirmos quando nos lembrarmos deles.


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Em segundo lugar, quero aqui deixar o extraordinário discurso de Hélia Correia ao receber o Prémio Camões. 



Hélia Correia discursa ao receber o Prémio Camões - com um vestido azul e uma echarpe branca, as cores da Grécia


Σμυρνέικο Μινόρε - Σαβίνα Γιαννάτου - Primavera en Salonico - Smyraean Air 
Savina Yannatou


É um discurso longo e sei bem que a blogosfera é mais lugar de toca-e-foge do que de textos que nos envolvem como uma longa túnica. Não quero saber. O Um Jeito Manso é um lugar onde as palavras reinam, delas é todo o espaço que queiram ocupar. E as palavras de Hélia Correia merecem mais, muito mais do que todos os espaços onde a língua portuguesa seja amada e respeitada.





O peso destes nomes curvaria gente bem mais robusta do que eu, não fosse o caso de a leveza ser o primeiro atributo de um escritor. Aliás, quanto mais os frequentamos, menor pavor inspira a sua sombra.

Não venho aqui como parceira mas como íntima, como alguém mais ligado pelo amor do que por ambições identitárias. Com Luis de Camões passeio em Sintra, enquanto ele espera o jovem rei que anda pelos bosques, enfeitiçado, já um pouco ensandecido. E a ligação aos meus contemporâneos, Sophia e Saramago, Eduardo Lourenço, Maria Velho da Costa, Mia Couto, feita de encantamento e aprendizagem, toca-me infantilmente o coração quando me traz afinidades, uma flor de frangipani que esvoaça num jardim de Maputo, as palavras que não partiram com quem já partiu, uma tão querida voz ao telefone, uma carta enfeitada de papoulas. Estou com eles, não entre eles. E assim estou bem.

Devo falar de tripla gratidão: a gratidão aos promotores deste prémio ao qual foi dado o nome maior das nossas letras, a gratidão aos membros do júri que escolheram a minha escrita para tamanha dádiva, a gratidão a um acaso de nascimento que me deu como língua materna o português.

Também com gratidão evoco a tão citada, e mal, passagem escrita por Pessoa, aliás Bernardo Soares, pois que, achando-se escrita, e por ele escrita, me abre um certo caminho à ousadia: que amo mais a língua do que a pátria. Que me imagino armada, a defendê-la contra quem a quisesse aniquilar. As lutas pela independência que travámos deixam-me o arrepio de pensar que o português se perderia, se perdêssemos. Que morte há de ter sido a de Camões, julgando que morria com a pátria, isto é, com o lugar dos seus poemas!

Rodrigues Lobo formulou-lhe o elogio de maneira concisa e musical ("branda para deleitar, grave para engrandecer, eficaz para mover, doce para pronunciar, breve para resolver") durante a ocupação filipina. Os rumos da política eram uns, o castelhano em palácio havia muito que se fazia ouvir, mas essa língua da nação, tão acabada que sem esforço hoje a lemos, tão fadada para arrebatamentos de oratória como para a sátira, como para o lirismo, cultivando sem vénia a erudição para logo a seguir brincar com ela, essa língua era a grande resistente – não a expressão de um povo: a sua essência.

Faz agora oito séculos esta língua. É a prosa formal de um testamento que atesta a data. E prosas há tão belas naquele dealbar, tão saborosas ainda quando anónimas, que dir-se-iam um bom pressentimento sobre o tanto e o tão grandioso que depois ia ser escrito. Mas é na poesia que parece avistar-se um destino, no sentido não de fatalidade mas daquilo a que alguns chamam o talento colectivo e que talvez não passe de especial, convidativa variedade na fonética.

Fácil é para nós esta função de herdeiros de tesouro tão diverso e tão bem acabado, tão antigo e, no entanto, tão reconhecível. Enquanto noutras línguas a pronúncia se foi modificando, a ponto de uma rima do século XIX já não se efectivar passadas décadas, nós cantamos Camões sem que se torne necessária qualquer adaptação. Como se cada uma das palavras reconhecesse o seu momento de perfeição e nele se detivesse, porque o quis. O apetite pelos estrangeirismos, moderado que foi, não lhe fez mal. Incorporou-os elegantemente. Não me refiro às condições presentes, pois, do que ninguém sabe, ninguém fala. E ninguém sabe o que está hoje a acontecer.




Esta paixão pela língua portuguesa, que aqui confesso, cega não será, superlativa muito menos. Entendo-a rica, porque vem das boas famílias dos antigos e o que recebeu multiplicou. Mas nunca afirmarei que é a mais rica ou a mais bela do mundo. Cada povo verá no seu idioma mais virtudes que em idiomas alheios. Que a disputa, se a houver, seja festiva, pois que os idiomas não ocupam espaço e não geram rivais mas poliglotas. Anterior à festa, está, porém, aquilo que dizem História. E a História é bruta e territorial.

Para abordar o assunto do domínio da língua portuguesa sobre os povos são necessários delicadeza e conhecimento, inteligência e desassombro em dose máxima. Dou-me por incapaz e renuncio a uma tentativa de discurso. Sei, sim, que houve opressão e apagamento. Mas talvez não nos caiba desculparmo-nos pelos conceitos e acções de antepassados, visto que não nos assumimos legatários e o continuum moral já foi cortado. Algum dia teremos, quero crer, a congratulação como vingança.

As línguas são os únicos seres vivos que não têm origem natural. O erro humano pode prolongar-se, mesmo inocentemente, por descuido. O português carregará ainda alguma febre imperial no corpo e é natural que desconfiem dele. Mas acontece que a repressão é mecânica e a língua é biológica. Se chega às terras de outros povos na bagagem do colonizador, em breve sai e se desnuda e se alimenta, e adormece e procria. As armaduras ficam no chão, enferrujadas, podres. A formação orgânica progride.

Que desígnio será o seu, agora, se não o de trocar e conviver, isto é, integrar a plenitude, reconhecendo e respeitando a alteridade? Com os nossos instrumentos humanistas, seremos nós os capazes de "Medir", como escreve o Professor Eduardo Lourenço, "esse impalpável mas não menos denso sentimento de distância cultural que separa, no interior da mesma língua, esses novos imaginários"?

Como num pesadelo, não sabemos por que meio fomos dar a esta nova era de horror e de destruição. Umas são nossas velhas conhecidas, outras indecifráveis, por ausência de modelos anteriores. Não lhes antecipámos a chegada. Na Idade Média que nos ameaça não há cancioneiros nem reis-poetas. Na ditadura da economia, a palavra é esmagada pelo número. A matemática, que começou nobre, aviltou-se, tornando-se lacaia. Se a literatura salva? Não, não salva. Mas se ela se extinguir, extingue-se tudo.

O nosso mundo de sobreviventes está seguro por laços muitos finos. Eu vejo os fios que unem os textos nas diversas versões do português, leves fios resistentes e aplicados a construirem uma teia que não rasgue. Quando o angolano Ondjaki dedica um poema ao brasileiro Manoel de Barros, quando Mia Couto reconhece a influência que teve Guimarães Rosa na sua escrita transfiguradora e transfigurada pelas africanas narrativas do seu povo; quando a portuguesa Maria Gabriela Llansol  considera Lispector «uma irmã inteiramente dispersa no nevoeiro», vemos a língua portuguesa a ocupar - não como o invasor ocupa a terra, mas como o sangue ocupa o coração - um espaço livre, um sítio para viver, uma comunidade de diferenças elástica, simbiótica e altiva. Esta é a ditosa língua, minha amada.

Eu dedico este prémio a uma entidade que é para mim pessoalíssima, à Grécia, cuja voz ainda paira sobre as nossas mais preciosas palavras, entre as quais, quase intacta, a poesia. Dedico à Grécia, sem a qual não teríamos aprendido a beleza, sem a qual não teríamos nada ou, no dizer da Doutora Maria Helena da Rocha Pereira, "não seríamos nada".    

ζουν Ελλ?δα , zoun Elláda, viva a Grécia.



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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira. 
Desejo-vos tudo de bom, muitas alegrias, sonhos felizes.

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