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terça-feira, agosto 11, 2026

Um jardim à maneira para ver se me acalma depois de mais um dia do piorio

 

Dias complexos que me deixam exausta e, à noite, com vontade de descansar a cabeça. Aquela de que não há duas sem três deve ser alterada para não há seis sem sete, quiçá nove sem dez. Sempre a somar..

E, para complicar, vimos finalmente o que se passa com a cauda do pobre cãobeludo. Tirou o colar isabelino, não sei como, e dei com ele freneticamente agarrado à cauda. Fui chamar o meu marido pois eu sozinha nem pensar em conseguir agarrá-lo e voltar a pôr-lhe aquele horrível funil. E, então, vimos uma ferida enorme na parte de baixo, na parte interior, digamos assim, a sair de dentro do pelo, uma ferida horrível, assustadora, grande, gorda e rubra como uma grande ameixa em carne viva. Se nos aproximamos e desconfia que lhe vamos tocar lá, vira-se e rosna, nitidamente apavorado. E não fazemos ideia de como arranjou isto. Só espero que não seja outra pragana. Supostamente um cão resistente, do campo, e, afinal, sempre com mazelas do caraças. E, a ajudar, este feitiozinho de cão. A cãzinha, a nossa saudosa boxer, era uma santa. Nunca tivemos quaisquer problemas destes com ela. Nunca.

Um stress do caraças, isto.

E nós sem carro. Fui ver a questão do uber pet friendly mas não são carros com divisórias para animais, são carros normais em que os motoristas consentem que os clientes transportem os seus animais de estimação. Ora é uma situação impossível, o nosso cão não é motorista friendly. Cravei a minha filha para vir buscar-nos à hora de almoço e nos levar à clínica veterniária. Felizmente está de férias por cá, consegue. Mas é um programa com o qual não estava a contar e eu destesto cravar quem quer que seja, mesmo numa emergência como esta. Detesto mesmo. 

E vai ser um pesadelo no veterinário, temo que tenha que ser sedado. E não sabemos como fazer nos dias seguintes. Tem certamente que desinfectar todos os dias e pôr pomada ou sei lá o quê e não deixa, vira-se imediatamente e tenta defender-se como pode, rosnando e ameçando atacar. Já aconteceu antes e levávamo-lo à escola de treino em que as tratadoras o continham enquanto uma enfermeira veterinária o tratava. Mas isto tendo nós carro para andar nisto. Poderíamos alugar um carro mas ele tem outra particularidade: quando passa por nós uma mota ou alguém a pé que não lhe parece de confiança, salta no banco de trás e desforra-se no que pode, temos os bancos e as portas todas espatifadas. Não podemos arriscar que dê cabo de outros carros.

Podem dizer que está mal ensinado. Sim, sim. Já andou em não sei quantas escolas. Obediente e tal e coiso mas, quando lhe parece que deve ser guardião, cão-pastor, é possessivo, territorial e implacável. É sair da sua alçada.

O nosso carro já é um caso perdido... e pior é que não sabemos quando o teremos...

Um stress. Isto causa-me um stress do caraças. 

Pelo meio ainda veio cá um senhor tirar medidas para uns trabalhos em volta da casa e por dentro, o que, obviamente, obrigou o meu marido a andar com a fera de um lado para o outro pois um homem desconhecido a circular pela casa deixa-o ainda mais reactivo do que ele já está e, se o apanhava, a coisa não ia correr bem. Agora imaginem o senhor a fazer perguntas e o cão aos saltos e a ladrar furiosamente e nós quase sem conseguirmos ouvir o senhor.

O meu filho, quando ligou, estava a pensar trazer os meninos amanhã. Mas, com este cenário de termos que ir para o veterinário, não dá. Não sabemos quanto tempo lá demoramos e, de qualquer maneira, mesmo que fosse rápido, não íamos deixá-los cá sozinhos. Que impotência com tudo isto. Não ter carro para nos deslocarmos, em particular quando há a necessidade de levar o cão ao veterinário e quando ele anda incomodadíssimo, quase não come, anda desorientado com o funil na cabeça e com o incómodo que tem e não dá para adiar, é uma sensação de impotência... E só de pensar que os múdos deveriam estar a contar passar cá o dia e que, afinal, não é possível... Que chatice.

E em cima disto mais não sei quantos contratempos. Às tantas já só me apetecia virar costas, desistir. Talvez, até, chorar.

Agora estou aqui na sala, enquanto ele está deitado aqui ao pé de mim. Mas de vez em quando estremece, agita-se. Deve doer-lhe à brava, coitadinho. 

Para ver se me distraio, viro-me para vídeos 'bonitos', tranquilos, com temas que me agradam, que me distraem e descansam a cabeça. É o caso deste que partilho. Espero que também gostem.

Por dentro da restauração do jardim de Coco Chanel na Riviera Francesa | Architectural Digest

A AD acompanha o arquiteto Peter Marino numa exploração da restauração dos lendários jardins de Coco Chanel em La Pausa, a sua icónica villa na Riviera Francesa. Dos arquivos históricos à plantação mediterrânica, a paisagem foi cuidadosamente reimaginada para honrar a visão original de Chanel, celebrando a beleza do sul de França.


Desejo-vos um dia bom

segunda-feira, maio 12, 2025

A campanha eleitoral, o meu sentido de voto -- e o consolo que é estar num jardim

 

Não tenho acompanhado a campanha eleitoral pois, se calha o canal em que passamos estar a dar alguma coisa, só se veem parvoíces e, como é óbvio, desandamos rapidamente. Portanto, temos optado pelo condensado de parvoíces que o Ricardo Araújo Pereira prepara diariamente.

Não posso pronunciar-me, pois, sobre se, no geral, é mesmo tudo uma treta, sacos de vento, chachadas que até as crianças acharão infantilizadas ou palermas, ou se tem havidos bons momentos informativos ou reflexivos. 

Contudo, temo que o panorama geral seja mesmo inaproveitável. Duvido que alguém fique verdadeiramente a perceber qual o programa eleitoral a partir do que as televisões e as redes sociais mostram. Acabamos por aceitar tudo isto com naturalidade mas, na verdade, se pensarmos bem, é uma autêntica aberração. A vida do País depende, em grande parte de quem nos governa e, para nos explicarem porque devemos votar neles, os partidos fazem cartazes parvos, arranjam iniciativas apalhaçadas, uns tocam tambores, outros correm, outros dançam com idosas, outros andam de mota, outros jogam voleibol de praia, quase todos andam pelas tascas... e é isto.

Pelo meio, o Marcelo, que tem arranjado caldinho atrás de caldinho -- a ele devemos toda esta instabilidade --,  aparece-nos a dizer vacuidades a que já ninguém liga.

Uma desilusão. Dá ideia que a inteligência, a decência, a exigência está em acelerado processo de rarefacção na política -- e não é só por cá, aliás, com anormais como o Trump, tudo tende a acanalhar-se ainda mais. Estão a ser criados standards que deveriam envergonhar-nos. Gostava de poder dizer: 'Caraças, também não é bem assim, aproveita-se fulano de tal que tem sabido manter a cabeça no lugar e que tem mostrado estar à altura do cargo a que se propõe'. Mas, lamentavelmente, parece que a bitola está toda a querer alinhar-se por baixo. Claro que há algumas diferenças. De vez em quando, naqueles rápidos relances, enquanto o canal não é mudado, vejo algum peixe fora de água e imagino o sacrifício que deve estar a fazer. Mas, tirando as excepções, é a indigência total. Digamos que, se quisermos votar com alguma coerência o máximo que podemos fazer é fugir daqueles em que a bitola consegue estar ainda mais baixa do que noutros. Mas é uma tristeza. Confesso que me tem ocorrido votar em branco. Mas nunca o fiz. Só de pensar nisto me sinto arrependida, como se estivesse a trair o meu direito de cidadania, como se estivesse prestes a dar uma facada nas costas da democracia. Mas é o que me tem ocorrido.

Caraças. Ao que chegámos.

Consolo-me a ler. Mas também só leio livros mais ou menos marginais. A dificuldade está em descobri-los. Sempre que pego num livro badalado, hiperconceituado, só sai treta. No outro dia pensei que um certo, com tanta recomendação, tantas mediatização, e que já vai na n-ésima edição, talvez se aproveitasse. Folheei, folheei. E deixei ficar. Treta e da grossa. Como é que é possível?

E depois há a natureza, o jardim, os campos por onde passeamos. Isso, sim, é uma alegria. Estão lindos, os campos, a chuva hidratou a terra, as flores nascem que dá gosto. E a passarada, os chilreios, uma festa.

Vi um vídeo de que gostei bastante. Uma pessoa que desenha paisagens. Quando pergunto aos meus netos que profissões gostariam de ter, ficam-se pelas mais tradicionais. Gostava que tivessem acesso a tantas outras. Há tantas profissões fantásticas. Quem as exerce deve viver num permanente estado de motivação, de surpresa, de vontade de aprender e de experimentar. 

O paisagista Piet Oudolf fala sobre encontrar consolo no jardim

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De qualquer forma, desculpem lá o mau gosto de voltar ao tema da campanha eleitoral depois de estarmos no jardim mas o meu marido pediu para eu deixar a seguinte nota: o Ricardo Araújo Pereira, ao entrevistar este domingo o Montenegro, quis fazer-se passar pela Maria João Avillez?

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Uma boa semana

segunda-feira, abril 10, 2023

Pode ser que alguma coisa ressuscite

 



Parte da família está de férias fora do país pelo que este domingo tivemos brunch em casa de outra das partes, parte essa que, de seguida, também foi para uma escapadinha relaxante fora de Lisboa. 

Nós dois fomos primeiro buscar a minha mãe e, depois do brunch e do convívio, fomos com ela passear à beira Tejo. Calor, tempo de verão, imensa gente. Tempo de férias. Céu azul, rio quase azul, pessoas na relva, pessoas sentadas na muralha, outras de bicicleta, muitas a pé, a conversar, muitas sorrindo enquanto caminhavam, muitas em esplanadas. 

Depois, já aqui em casa, deu-me aquele sono que não admite um não. Só que na casa ao lado, aquela para a qual dão as janelas da sala em que eu estava a adormecer, andava o vizinho a regar o jardim. Não percebi o que lhe deu pois o jardim tem rega automática. Só se está avariada...  A verdade é que andava a regar e, nitidamente, estava com todo o tempo do mundo pois regava com vagar, muito tempo em cada centímetro quadrado. Ora isso e os cães dele desestabilizaram completamente o cãobeludo. Saltava e ladrava como um possuído, jogando-se contra as janelas. E eu perdida de sono, tentando abstrair-me do chinfrim. Não consegui. Não adormeci.

Pouco depois fomos fazer a nossa caminhada do fim da tarde. Entretanto iam chegando fotografias, uns na piscina exterior, depois no jacuzzi, depois na interior, e paisagens, e outros que já tinham aterrado. E a noite caindo cada vez mais tarde, um passeiozinho gostoso. Mas os dois cheios de sono. 

O que sei é que não dormi de tarde, dormi agora. Acordei há pouco. Na RTP  'O amor move montanhas' e a Emily Blunt a cantar Wild Mountain Thyme.

E com isto o Natal já lá vai, pelo Carnaval nem demos por ele, a Páscoa já está. Daqui a nada será o 25 de Abril com uns a desentenderem-se com outros e os comentadores a comentarem as irrelevâncias de uns e outros (e do 25 de Abril em si se calhar pouco se falará) e logo, logo, virá o 1º de Maio com os sindicatos conservadores e ultrapassados da CGTP, mais os inúteis da UGT e provavelmente com o STOP e outros sindicatos populistas à mistura e com os Raimundos e Catarinas e outras fracas figuras a porem-se à boleia de uma gente que já não representa ninguém. 

E quando dermos por ela estaremos nos santos. E eu, no meio disto, só espero é que, para não ser tudo mais do mesmo, pelo meio alguém apeie o Putin e que a Ucrânia volte a ser um país livre de guerra. Tenho esperança. E, na minha esperança, espero que a paz na Ucrânia ressuscite. Acredito nisso. Claro que gostaria que não apenas na Ucrânia mas em todo o mundo. Só que não sou tão optimista ou aluada quanto isso.

Tirando isso, só se for para dizer que os dois vídeos que abaixo partilho agradam-me muito. Não tenho amêndoas ou ovos da páscoa mas tenho vídeos para vos oferecer. Espero que vos saibam bem.

O poético apartamento de Suzi de Givenchy em Paris | Uma jovem, um estilo | Vogue Paris

Nascida em Hong Kong, Suzi de Givenchy morou nos Estados Unidos antes de se estabelecer em Paris. Companheira do sobrinho do famoso costureiro Hubert de Givenchy e mãe de 3 filhos, ela convida-nos para o seu apartamento, um espaço heterogéneo onde convivem objetos de design, vintage e memórias de uma vida itinerante. Uma alma criativa, apaixonada por desenhar e escrever, mas também por moda. Uma moda com elegância atemporal, que ela afirma usar em primeiro lugar para agradar a si mesma. É também com vontade de transgredir os códigos que ela conduz a carreira de modelo aos 50 anos e tal, desfilando em especial para a Off-White. Vogue Paris foi ao seu encontro para a rubrica Une fille, un style.


Visitando os encantadores jardins italianos de Paolo Pejrone | Visitors’ Book

The World of Interiors apresenta o Livro de Visitas com Paolo Pejrone. Um mestre no seu ofício como paisagista, Paolo Pejrone recebe-nos nos seus jardins isolados aninhados nas colinas do Piemonte, na Itália.

À medida que percorremos o paraíso botânico de Paolo, desenvolvemos uma compreensão profunda do seu retiro bucólico: “Com o passar do tempo, ano após ano, tornou-se uma espécie de berçário no qual experimento muitas plantas”. 

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Esperança. Paz.

quinta-feira, março 05, 2015

Love me like a river does


Há coisas que cansam, que desgastam, que causam asco. Parece uma peçonha que se cola a nós. Isto do Passos Coelho tal como a desfaçatez da Albuquerque e a incompetência de todos, e a alforrequice dos que os apoiam, tudo isso me enjoa, mas enjoa mesmo, quase enoja. Temos que os convencer que já chega, que têm que sair de cena. Urgentemente. A bem da higiene pública.

Mas isso é a seguir. Aqui, a conversa é outra.

Hoje vou ter que abreviar a minha veia porque sinto que preciso de dormir mais.



Love me like the earth itself





Temo o fogo que me incendeia. Sei que, quando a fúria ou a paixão se apoderam de mim, pouco mais sou do que um instrumento nas suas mãos.

Leio: Primeiro, o viandante pensa que o mais importante é enfrentar o tigre, caçá-lo e assim domar a natureza. Depois, convence-se de que o tigre não está fora mas dentro de si, que é aí, na natureza íntima, que é preciso matá-lo. Por fim, descobre que a única coisa a fazer é cavalgar o tigre, dançar com aquilo que o envolve e esquecer a caça, pois o tigre e o caçador são um e o mesmo.

Tigre e caçadora, talvez pudesse ser uma boa imagem de mim, mas isso seria eu a ficcionar-me. Uma vez um poeta descreveu-me como Artemis, chamou-me Artemis. Mas isso era porque também ele me ficcionava e, por causa disso, afastei-me dele. Só gosto de quem não me idealiza e adora, de quem me vê como uma mulher, uma pecadora.

Mas talvez por ser toda eu fogo e destempero, precise tanto de quem me traga moderação, paz, reflexão, de quem deslize na vida como um rio, mesmo que, por vezes, ganhe sal, força e nervo como um oceano embravecido.

Quando ando a caminhar rente ao rio, digo muitas vezes que vou abrir as asas e deixar-me levar, voar. Outras vezes, digo que vou descer as escadas da muralha e entrar nas águas e, no fundo, continuar a descer, a nadar em direcção ao centro da terra, o corpo enleado na frescura das algas, nos limos, nas rochas.

Mas isso sou eu a falar coisas sem explicação enquanto caminho junto ao rio pensando que queria que o rio me amasse como eu o amo a ele.

Love me like a river does
Cross the sea
Love me like a river does
Endlessly

Mas como pode um rio amar uma mulher?

Então, percebendo isso, imagino-me a caminhar em direcção ao campo, a recolher-me ao ventre da terra. Gosto de passear no campo, atravessar aldeias, olhar as serras, o céu. 




Sabes que os montes ficam dourados quando o sol desce sobre eles, mergulhando na terra ao fim do dia? Sabes como os rostos ficam também dourados e suaves quando banhados pelo afecto mais puro que é aquele que não tem nome?

Queres, um dia, caminhar comigo pelos montes, tu com um braço sobre os meus ombros, eu com um braço a envolver-te a cintura? Sentarmo-nos na terra coberta de verde, olharmos o horizonte que se desdobra em vales e montes, e cada vez mais azuis à medida que se vão perdendo para longe de nós?

Queres um dia, caminhar comigo ao longo de um arvoredo dourado? Quererás então contar-me contos que vêm do início dos tempos, falar-me de cavalos que atravessam a noite, de cavaleiros corajosos, de tigres azuis que não são tigres mas apenas sonhos? Quererás surpreender-me e dizer, fecha os olhos, sente apenas
E eu fecharia os meus olhos e sentiria os teus lábios quentes sobre os meus e tu dirias que os não abrisse e depois eu sentiria uma seda macia sobre os meus lábios e tu dirias que eu já podia abri-los e eu retiraria a seda e não seria, afinal uma seda, seria uma rosa azul, carregada de noite, e tu sorririas porque me provarias que sabes mistérios e adivinhas os meus sonhos. E eu sorriria tal como sorrio agora, porque afinal não existes, és um sonho que saíu do meu corpo, uma parte de mim, talvez o meu coração, talvez as minhas mãos que escrevem palavras assim.



Mas tu dir-me-ias que existes, dirias, põe a mão sobre o meu peito, sente como o meu coração bate. E, em vez de fazer o que me pedias, eu encostaria o ouvido ao teu peito e ouviria um bater de asas, a batida do oceano, o murmúrio de um tigre azul. E dir-te-ia, ninguém é assim, tu não és gente de verdade, tu és um sopro, uma mão cheia de palavras, um castelo longínquo, um anjo que atravessa a noite. Tu não és aquele que caminha ao meu lado, tu és o caminho, tu és as palavras que eu digo, tu és aquele que adivinha o que eu penso, tu és a noite que cai, tu és o adeus em cada dia.

E a noite cairia. E procuraríamos abrigo. E encontraríamos um refúgio à nossa medida. E ali estaríamos protegidos dos ventos, do frio, do medo.

Durante parte da noite, eu pedir-te-ia que me falasses de ti, que me dissesses de livros, que me contasses desejos, sonhos, viagens, longes, e eu falar-te-ia de mistérios, de coisas que acontecem sem explicação, de palavras que digo enquanto os outros as pensam e tu pensarias que eu sou mesmo uma mulher da floresta, daquelas que vivem no meio das árvores e dos bichos. e eu adivinharia que era isso que estavas a pensar.




E depois adormeceríamos abraçados mas não nos sentíriamos amantes abraçados contra a morte porque a nós é a vida que nos corre nas veias, a vida cheia de desconhecimento, a vida toda feita de segredos e mistérios.

E, de manhã, quando eu acordasse, tu não estarias lá porque, como sempre, te vais embora sem me dizer nada, nem adeus, sais, desapareces, esfumas-te na noite.

E eu levantar-me-ia e olharia o dia a amanhecer. E veria, como vejo todas as manhãs, que a floresta cheia de magia e palavras tinha desaparecido, que à minha frente teria um dia inóspito e que falar de beleza perante ramos mortos é pura rendição, que a aridez estava nua como nu o meu coração, e que uma neblina triste chorava sobre o meu corpo ainda quente dos teus abraços.




Caminharia, pois, sozinha, em direcção à cidade. Mas, sobre mim, e ao meu lado, voariam palavras, sonhos, segredos, sorrisos, rosas cor de noite. E, ao longo de todo o dia, eu esperaria que a tarde viesse para eu voltar a caminhar contigo pelos montes dourados, em direcção ao sol posto, em direcção à noite, sabendo que talvez aparecesses para me levar pelo braço até onde somos só nós dois, seres inventados, sem corpo, sem rosto, sem nome, sem futuro. Intangíveis e imateriais como mistérios azuis.

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Melody Gardot interpreta Love me like a river does.

As primeiras fotografias são de Alex Robciuc. As duas últimas são de Ellie Davies. Descobri-as todas no Bored Panda.
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Caso estejam outra vez numa de banho turco, é descerem até ao post seguinte: é a minha maneira de mostrar que acho que devemos correr com o láparo.

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E, sem rever e perdida de sono (e, pior, com a sensação de que os tempos verbais são muito bem capazes de não estarem consonantes), despeço-me.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira.


quinta-feira, abril 11, 2013

O Prémio Sir Goffrey Jellicoe, o 'Nobel' da arquitectura paisagista, foi atribuído a Gonçalo Ribeiro Telles e eu fico orgulhosa e enternecida


Se quiserem saber do Relvas e do camelo do Hollande que foi comido, é no post abaixo. Aqui, agora, a conversa é  sobre botânica e não sobre animais.

Gosto muito de jardins. Quando vou a uma cidade pela primeira vez, gosto de ver os jardins públicos. Aprecio a concepção, os caminhos delineados, os bancos estrategicamente colocados, os lugares para leitura à sombra junto às árvores de grandes copas, os repuxos, os lagos, os desníveis que simulam a natureza, os recantos reservados para a intimidade do namoro. E aprecio o trabalho dos jardineiros, carinhosos e cuidadosos tratadores. 

Quando a terra lá, in heaven, era apenas um terreno de mato bravio e eu, apesar do solo rochoso, sonhei ter ali árvores grandes, pequenos bosques onde os pássaros se acolhessem, frequentei muito os viveiros.

Uma vez que ali é dificílimo abrir buracos e porque, dado o microclima extremado, há sempre muitas árvores que não vingam (já para não falar nos coelhos que roem os pequenos troncos), sempre achei melhor plantar árvores muito pequenas. Até porque, esta, é uma opção mais económica.

Assim, ia aos viveiros do Ministério da Agricultura ou aos da Câmara de Lisboa, ali aos Olivais. Nestes locais, as plantas são muito baratas porque são árvores ínfimas e porque apenas são vendidas as que não fazem falta aos serviços. Não sei quantas vezes lá fui. Um prazer que não imaginam.

Não sei porquê mas quem ali trabalha são mulheres, jardineiras. Andavam de botas, aventais, e eram simpáticas e falavam das pequenas árvores como as amas dedicadas falam dos bebés a seu cargo. E eu quase as invejava, imaginando a maravilha que deve ser o seu dia de trabalho. 

Sei que é trabalho árduo, andam curvadas, cavam, carregam árvores pesadas. Mas sei também que é um prazer plantar, ver crescer, cuidar. Eu via o orgulho que elas sentiam quando mostravam que sabiam o nome em latim, quando sabiam os truques para as pequenas árvores melhor resistirem à invernia.

Elas já me conheciam e vinham ter comigo com alegria, conversando com genuína afabilidade. Perguntavam pelas que tinha levado antes e eu contava como umas estavam grandinhas, outras tinham sucumbido, outras estavam frágeis e eu reparava na preocupação com que me aconselhavam ou na alegria pelas que cresciam saudáveis e resistentes. Dir-se-ia que falávamos de crianças.

Eu dizia quero seis pinheiros mansos, seis cupressos (e elas perguntavam: lusitânicos?), seis ciprestes, dois loendros (a que elas chamavam cevadilha), duas tipuanas, e elas escolhiam com cuidado e eu dali ia feliz, o carro cheio de pequenas plantas.

Depois, passado uns meses, metade desapareciam e lá ia eu outra vez. O meu marido passava-se, o carro sujo, a trabalheira. Anos disto. A plantar, a regar no verão, a tratar das pequenas árvores como se tratam os bebés.

Agora as árvores cresceram, os caminhos estão definidos, o mato continua a ter o seu lugar (aliás, alastra vigoroso e tem que ser arduamente contido), e, por onde se ande, ouvem-se os pássaros que dali fizeram também a sua casa. Um sonho que se constrói todos os dias.

Tenho muitos livros de jardins. Jardins japoneses, elegantes, desenhados com leveza, jardins mediterrânicos, floridos, simples, jardins ingleses, densos, verdes. Gosto muito porque gosto de natureza e gosto de apreciar o trabalho dos homens quando é um trabalho feito com amor - e os jardins são, justamente, os lugares onde os homens actuam com criatividade e desvelo sobre a natureza.



O fim de semana passado


Dos muitos jardins que conheço, há um que está ligado de forma muito vincada à minha vida: o Jardim da Gulbenkian.



Um jardim concebido para todas as idades


Nele namorei com o meu namorado poeta, nele namorei depois com o meu namorado parecido com Cristo  - parecido com Cristo excepto na santidade, diga-se (muito mais bonito e hot o meu que o da Oprah, o Diogo Morgado, que agora aí anda na boca das americanas, todas babadas com ele, coitado). 

Depois, nos jardins da Gulbenkian, muito brincaram os meus filhos, desde que nasceram até agora, em que lá vão com os seus filhos.



A darem pão aos peixinhos, aos patos e aos pombinhos, tal como os pais há tão pouco tempo faziam


Estes lindíssimos jardins são uma das várias obras de Gonçalo Ribeiro Telles que muito justamente viu a sua obra reconhecida com o Prémio  Sir Goffrey Jellicoe, o 'Nobel' da arquitectura paisagista: uma vida inteira dedicada a ser o jardineiro de Deus.

Uma vida de cabeça erguida, de luta, de palavras sábias, de compreensão perante a incúria e miopia da maioria, sempre uma expressão de bondade no rosto tranquilo, uma vida de integridade e uma cabeça cheia de sonhos verdes.

Volto aos Jardins da Gulbenkian: parece impossível jardins assim, tão variados, tão 'naturais', no meio de uma cidade, ali mesmo incrustados no meio de prédios e estradas.

Ir à Gulbenkian é ir ao Museu, às Exposições Temporárias, ao centro de Arte Moderna, ao restaurante ou ao Bar e, claro, aos jardins.

Há recantos e espaços que permitem múltiplas utilizações. Em todo o lado se está bem. Há sol nuns locais, há sombras noutros, há lugares para estar, para ler, para brincar, para fazer picnic, para namorar.



No anfiteatro do Jardim da Gulbenkian


Mas não é a sua única obra que eu admiro. Se tivesse tempo, ia procurar umas fotografias que aqui tenho feitas no Jardim no Alto do Parque Eduardo VII que estabelece a ligação com Monsanto, o tão desejado e agora concretizado Corredor Verde de Monsanto. 

Se tivesse aqui, mas não tenho, gostaria também de ilustrar o conceito das hortas urbanas da cidade, tão defendidas por Gonçalo Ribeiro Telles ao longo de toda a sua vida. 

Todos os dias ando em autoestradas e vejo, com admiração, as hortas que as pessoas fazem nas ribanceiras junto às estradas. Chova ou faça sol, lá os vejo, cavando, arranjando a terra. Vejo pequenos talhões de favas, de tomateiros, de batata. Parece o campo e afinal está-se na zona mais asfaltada e inóspita das cidades. Não é bem a isto que o Arquitecto se refere, ele refere-se aos baldios, aos vazios urbanos que as autarquias deveriam disponibilizar para ajudar à subsistência de uma população mais carenciada ou com saudades de uma 'terra' longíngua, uma forma de estabelecer a ligação à natureza. Ultimamente a Câmara de Lisboa já loteia e leiloa a exploração de pequenas hortas por parte de munícipes, frequentemente munícipes urbanos que sentem a nostalgia da terra. 

Se não fosse tão tarde e eu não estivesse já tão cheia de sono, continuaria aqui de gosto a falar de jardins, hortas urbanas, sonhos. Assim, paro por aqui mas vou mostrar-vos um pequeno filme sobre Gonçalo Ribeiro Telles, 'Em nome da terra', um filme que achei muito interessante e onde, entre outros, aparecem Mário Soares, seu admirador, e um outro arquitecto muito especial, um visionário, um humanista e um homem da cultura e das cidades, Nuno Portas.





Parabéns, arquitecto! E muito obrigada!

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Tal como referi acima, se quiserem ver os riscos que o Relvas enfrenta ao ser obrigado a manter-se preso no ministério (e maiores riscos correrá se alguns dos funcionários forem oriundos do Mali) deverão descer até ao post a segui a este.

E, já sabem, muito gostaria de vos ver no meu Ginjal e Lisboa. Hoje temos o Poeta-Embaixador Luís Filipe Castro Mendes a falar de um deserto que invade o coração e eu, levada por ele, falo de um outro deserto, o do medo, que alastra pelos corpos. A música, a seguir, ajuda a lavar a alma: é outra grande interpretação de Uri Caine.

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E com isto me vou que daqui a nada já são duas da manhã e eu não tenho emenda. 
Desejo-vos uma quinta feira muito feliz. 
Se puderem passeiem num jardim, descansem o espírito, está bem? 
E, se não puderem, imaginem que também é bom. Eu gosto de adormecer a pensar que estou a passear num jardim, Gulbenkian, Serralves, Retiro, qualquer um.