Mostrar mensagens com a etiqueta Ana Hatherly. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ana Hatherly. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, novembro 04, 2019

Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?

Ou é mesmo verdade
que nunca me soubeste?




Não há mulheres, no plural. Há uma e outra e outra e outra. Todas diferentes. Nada que as iguale. Nada.

Posso falar do que conheço de outras mulheres mas não falo por elas. Cada uma tem a sua própria voz.
Conheço-as submissas. Conheço-as desconfiadas. Conheço-as abnegadas. Conheço-as lutadoras. Conheço-as sofredoras. Conheço-as arrogantes. Conheço-as inseguras. Conheço-as ingratas. Conheço-as com os pés e as mãos na terra. Conheço-as com a cabeça na lua. Conheço-as destroçadas. Conheço-as frágeis. Conheço-as guerreiras.  
Conheço tantas mulheres. 
Posso falar delas. Mas, se não falo de alguma em particular, se falo de mulheres, falo da que desconheço melhor: de mim.

Que as mulheres que me lêem não sintam estranheza por não se reconhecerem porque, se falo de mulheres, em abstracto, é de mim que falo, uso a minha própria voz que é a única que, em toda a verdade, sou capaz de usar.


Dos homens não sei. Há homens que eu acho que não têm qualquer interesse. E, no entanto, há sempre alguém que se interessa por eles. Por isso, sobre homens, também apenas posso falar por mim. E, se falar do que como um homem deve ser para ser interessante, é em mim que penso, no que a mim me parece interessante num homem. Mas também não sei dizer muito porque, se falasse,  estaria a falar de um ser abstracto e, a mim, o que me interessa são os homens concretos, de carne e osso, de verdade. 

Portanto, se eu me pusesse aqui a falar de homens, sobre homens em abstracto, tudo não passaria de teoria, conversa vaga, coisa de nulo interesse. Não o farei.

E um disclaimer que, se calhar, nem vem a propósito: há homens e mulheres que podem ser muito próximos, muito amigos. A grande amizade entre um homem e uma mulher é possível. Os meus melhores amigos sempre foram homens. Mas o mais interessante, o mais raro, o que dá sentido e fulgor à vida, o que cintila no escuro e no coração é a paixão. E, a seguir à paixão, um grande amor, um grande amor entre um homem e uma mulher. 

E, claro, estou a falar da condição que é a minha, a heterossexual. Mas talvez tudo possa extrapolado.


Contudo, justamente, porque quero ser precisa, não posso dizer muita coisa. Não saberia o que dizer.

Sei que teria ainda muito para descobrir sobre mim mas não tenho interesse nisso. Gosto de ser surpreendida e isso aplica-se também a mim. E gosto de ser desafiada pois isso leva-me a aventurar-me por caminhos que desconheço e, mais do que conhecer-me a mim, interessa-me conhecer os caminhos por onde a minha curiosidade me pode ainda levar.

E, tirando isso, nada. Não sei o que dizer.

Dou, pois, a palavra a outras mulheres. Este é um post sobre o que pensam as mulheres. Sobre o que sentem as mulheres. Melhor: sobre o que pensam as mulheres quando pensam em homens. Em certos homens. Naqueles que trazem sal, pimenta e beleza à vida, naqueles que fazem com que tudo cintile.



Os moços tão bonitos me doem,
impertinentes como limões novos.
Eu pareço uma actriz em decadência,
mas, como sei disso, o que sou
é uma mulher com um radar poderoso.
Por isso, quando eles não me vêem
como se me dissessem: acomoda-te no teu galho,
eu penso: bonitos como potros. Não me servem.
Vou esperar que ganhem indecisão. E espero.
Quando cuidam que não,
estão todos no meu bolso.


Mas se o corpo é escrita no leito do papel
onde a mão o deita, desnuda e o invade
lhe acaricia os ombros e em seguida

o possui de bruços e mesmo assim não sabe
saciar o corpo no corpo do delírio
com a avidez de uma emoção rapace

Réstia de sol na sombra do calor
fuso do corpo
tecendo o seu orgasmo
....



Penso em ti com apreensivo carinho. Realmente, entre a dor e o sonho, até quando conseguirei manter esta obsessão prática, este quase incesto? O verdadeiro amor é um acto indisponível.



Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida avidez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora

Há tanto tempo sua própria tessitura.

Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.


___________________________________________________


Primeiro poema - de Adélia Prado in 'Bagagem'

Segundo poema - excerto de 'O esplendor do Corpo' de Maria Teresa Horta in 'Eu sou a minha poesia'

Tisana 285 - de Ana Hatherley in '351 tisanas'

Último poema e poema do título - de Hilda Hilst in 'De amor tenho vivido'

Pinturas respectivamente de Frank Dicksee, Solomon Joseph Solomon, Picasso, Solomon Joseph Solomon, Red Cloth, John William Waterhouse, Rubens e Charles Joseph Frederic

Tudo na companhia de Melody Gardot com Our love is easy 

____________________________________________________________

E uma semana feliz a todos, a começar já por esta segunda-feira

sábado, outubro 26, 2019

Ergo-me do lado de cá do mar, do lado de cá de mim





A JV, em cujo gosto confio sem questionar, recomendou-me o 'O rei faz vénia e mata' e eu, que sou bem mandada, fui à procura dele. No outro dia fui à livraria grande. Não tinha. Encomendariam mas, tal como tinham informado num outro dia, teria que pagar logo. Ora embirro com isso. Há abébias que não dou, tenho por lema de vida não contrariar as minhas embirrações. Portanto, fui esta sexta-feira à livraria pequena. Não tinham mas encomendaram. Gente de paz. Gosto de lá. Pequenina mas o que lá há é tudo bom. 

Os clientes também são dos que gostam de livros, gente que, do que percebo, é gente do bem.


Só uma cliente hoje me pareceu ser sombria. Tinha um semblante carregado, chegou, leu um papel e pediu um livro. Depois disse que queria talão de troca porque era para oferta e, a seguir, disse que era com contribuinte. A livreira, jovem simpática e insegura (talvez por ser recente lá), perguntou-lhe o número de contribuinte, tirou o talão, perguntou se queria saco. A cliente, com ar de poucos amigos, perguntou: 'E o talão de troca?'. A jovem fez um ar atrapalhado, pediu desculpa, que tirava já. A cliente, com ar superior, carregou no cenho: 'Eu tinha dito que era para oferta!'. A jovem voltou a pedir desculpa, aflita. E eu pensei que a vida daquela mulher devia ser muito má para descarregar tanto azedume em cima de uma pessoa tão insegura e esforçada como a jovem livreira. 


A seguir aproximou-se um homem muito alto, muito bonito. Deslizou como um leopardo por entre os livros, folheou alguns. Pensei que o conhecia, o nome à espreita atrás do pensamento. Depois ele passou a mão pela farta cabeleira e eu confirmei que era mesmo ele. Pensei que era a primeira vez que via uma pessoa da televisão que, em vez de ter metade do tamanho que parecia, tinha era o dobro. Pensei também que era mais bonito do que antes pensava que era. Pensei que era bom que falasse para eu poder confirmar se o mesmo com a voz. Falou mas foi em voz baixa, não conseguir distinguir o timbre. Esteve ao pé da caixa a falar com a livreira. Então chegou uma jovem que deveria ter metade da idade dele mas que deveria andar pelo metro e oitenta, cabelos muito compridos, daqueles que as jovens põem todo para um lado. E um vestido branco, pelo meio da perna, solto, botas, e, por cima, um casaco leve, também comprido, quase do tamanho do vestido, grandes bolsos. Chegou-se a ele, deu-lhe um beijo na boca que ele recebeu com indiferença. A seguir ela recebeu uma chamada e foi atender lá para fora e ele continuou a ver os livros.

Quando ia a sair, reparei na agenda literária. Folheei. Gostei. Pensei que talvez me habitue a tomar apontamentos. Voltei atrás. Depois vi as tisanas da Ana Hatherly. Tentei-me. Vi o I'm your man. Folheei. Não me tentei. Não sei se quero saber mais dele. Acho que há pessoas que não devem ser dissecadas para que não percamos o encantamento cego pelo que fazem.


Quando vinha a sair, saíu também o gigante, lindo, tranquilo. Seguiu como se se tivesse esquecido da namorada. Ela, ainda ao telefone, pondo o cabelo ora sobre um ombro, ora sobre o outro, foi atrás dele.

Tive pena de ser míope porque não consegui ver que livros ele tinha levado. 

E a seguir fui eu que recebi um telefonema e foi ainda ao telefone que desci ao interior da terra e foi ao telefone que conduzi até ao escritório. E toda a tarde foi uma complicação, tantos telefonemas, tantos mails, tantas mensagens, tanta gente a vir falar ao meu gabinete que acabei o dia tarde e com a cabeça feita em água. E quando cheguei a casa ainda tinha mails para responder e agora já os despachei a todos mas sei que nos próximos dias a coisa vai agravar-se porque estamos numa fase crítica e porque junta-se a fase dos forecasts e orçamentos e análise de desvios e isso em cima de tudo o resto é uma canseira. 

E agora estou aqui a pensar que podia ter preparado uma infusão de chá branco porque isso faria pendant com as tisanas que tenho estado a bebericar no intervalo destes rabiscos.


112. É de noite. Deito-me no chão e penso no meu corpo. Estou no meu corpo a seu lado. Estou do seu lado. Interrrogo que queres. Querer é a lei da boca.
113. Estás de visita meu corpo se agita o que é belo me agride. Uma chuva de dardos reconstrói o mistério que conduz ao êxtase. Nos amantes há sempre esse decisivo horror.


E, ao prosseguir, ocorre-me que, afinal, com estas palavras, talvez ficasse bem algum gengibre na infusão de chá branco.

Ocorre-me também que tão bom como estar aqui, em silêncio, a escrever a meio da noite é conhecer pessoas extraordinárias que chegam até mim pelas suas palavras tal como eu lhes chego pelas minhas palavras. Uma teia, uma rede feita de palavras unindo-me a pessoas que, longe de mim, desconhecidas, imateriais, sabem tocar o meu coração. Umas chegam com o seu nome, a sua história de vida. Outras chegam com outros nomes, outras histórias. Mas há verdade em tudo. E eu sinto o pulsar, o respirar, o olhar de todas essas pessoas, aí desse lado, tão perto de mim.  E não sei como agradecer o bem que me fazem sentir.


---------------------------------

As imagens mostram trabalhos de Ana Hatherly tal como são dela as duas tisanas que transcrevi (do livro '351 tisanas') e as palavras que escolhi para encabeçar o post. Lá em cima, Leonard Cohen interpreta Happens to the Heart 

.............................................................................................................................

Desejo-lhe, a si, um bom sábado, um sábado com saúde, alegria, afecto, tranquilidade

quinta-feira, julho 19, 2012

Sobre o corpo e sobre o desejo num dia de céus em fogo - o erotismo na perfumaria francesa e na poesia portuguesa


                                          (Num autocarro para Campolide. Dia sexual)


                                          Uma mulher de carne azul,
                                          semeadora de luzes e de transes,
                                          atravessou o vidro
                                          e veio, voadora,
                                          sentar-se ao meu colo
                                          na nudez reclinada
                                          dum desdém de espelhos.

                                          (Mas que bom! Ninguém suspeita
                                          que levo uma mulher nua nos joelhos)




                                        Não me peças palavras, nem baladas,
                                        nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
                                        deixa cair as pálpebras pesadas,
                                        e entre os seios me apertes sem receio.

                                        Na tua boca sob a minha, ao meio,
                                        nossas línguas se busquem, desvairadas...
                                        e que os meus flancos nus vibrem no enleio
                                        das tuas pernas ágeis e delgadas.

                                        E em duas bocas uma língua... - unidos,
                                        nós trocaremos beijos e gemidos,
                                        sentindo o nosso sangue misturar-se.

                                        Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
                                        Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
                                        Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!




                                              Um corpo, certamente. Mas que é um corpo?
                                              Boca, seios, coxas, sexo,
                                              um sorriso, a mão que afaga, voz?
                                              Que trevas, quais trevas,
                                              de esquecer ou ir tão fundo
                                              quando o desprender-se da alma abre
                                              nas portas da luxúria os céus em fogo?




                                   
                                         Ela vem
                                         quando eu cerro as pálpebras pesadas
                                         e apoio a cabeça na escuridão do desejado sono
                                         Vem muito branca muito lenta
                                         Fita-me calada
                                         e muito direita
                                         começa desatando seus cabelos negros
                                         Abre a boca num riso que eu não oiço
                                         deixa cair o seu vestido todo
                                         E enquanto eu olho fascinada o seu ventre coroado de negro
                                         seis homens pequeninos e muito encarquilhados
                                         agarram suas seis tetas
                                         e sugam-lhe os bicos
                                         rosados e rijos de prazer


**

Os poemas são, respectivamente

'De eléctrico' de José Gomes Ferreira
'Soneto de amor' de José Régio
'Céus em fogo' de Adolfo Casais Monteiro
'[Ela vem]' de Ana Hatherly

e também fazem parte de 'Variações sobre um corpo', Antologia de poesia erótica contemporânea, seleção e prefácio de Eugénio de Andrade com desenhos de José Rodrigues.

A música que percorre os perfumes é Casta Diva da Ópera Norma de Bellini.

**

Tenham, meus Caros leitores, uma quinta feira muito animada!



quinta-feira, maio 24, 2012

O encantamento das palavras. A última miséria, a solidão mais absoluta. A nossa vida sexual coincide com o melhor do que somos. O médico de palavras. As nalgas e o osso da rabadilha. E, para acompanhar, o redondo vocábulo de Zeca Afonso e a louca inocência de Paul Klee


Música, por favor

José Afonso - Era um redondo vocábulo


.1.




Doutor, pode ser a qualquer hora, onde quer que esteja, com quem quer que seja. Olho para uma coisa e, sem  querer, começo a retirar-lhe uma a uma todas as ligações que ela tem com as outras coisas até ela acabar por se sumir. Uma pessoa está a falar comigo e, de repente, deixo de a entender porque fico encantado pelas palavras, sem cuidar do que dizem. Ou então estou a pensar numa coisa e começo a pensar no que será isso de pensar numa coisa e esqueço-me do que estava pensar. Coisas assim.


.2.




Aqui, pensou o médico, desagua a última miséria, a solidão absoluta, o que em nós próprios não aguentamos suportar, os mais escondidos e vergonhosos dos nossos sentimentos, o que nos outros chamamos de loucura que é afinal a nossa e da qual nos protegemos a etiquetá-la, a comprimi-la de grades, a alimentá-la de pastilhas e de gotas para que continue existindo, a conceder-lhe licença de saída ao fim de semana e a encaminhá-la na direcção de uma 'normalidade' que provavelmente consiste apenas no empalhar em vida. 

(...) Os que os procuram para se procurarem e arrastam de consultório em consultório a ansiedade da sua tristeza, como um coxo transporta a perna manca de endireita em endireita, em busca de um milagre impossível. Vestir as pessoas de diagnósticos, ouvi-las sem as escutar, ficar de fora delas como à beira de um rio de que se desconhecem os as correntes, os peixes e o côncavo de rocha de que nasce.


.3.




Estar doente é descobrir a existência autónoma do corpo, essa nossa outra identidade esquecida que anda connosco. Não somos donos da nossa mente, tão-pouco o somos do resto. Sim, o corpo escapa-nos tanto ou mais do que a memória, que também envelhece à nossa revelia: o corpo, esses, aguenta, reage, resiste, ou não, ele lá sabe! E nós assistimos, espectadores meio contrafeitos, a esta realidade situada fora de nós, embora sempre ao nosso lado. Que de nós, afinal, é indissociável. Estranha coisa.

Porque o nosso corpo, terra incognita, somos nós e não o somos, mas se ele morrer, morremos com ele. Pertencemos-lhe pois, mesmo contra nossa vontade.

Estar doente é passar a coexistir com um intruso. Um intruso vingativo.

A nossa vida sexual coincide com o melhor do que somos. É a expressão de uma sempre antiga fidelidade, íntimo júbilo reencontrado. De uma presença, em suma.

Ao invés, a doença é o pior do que somos, reflexo de uma íntima traição. Pior do que uma ausência, um esvaizamento.


.4.




Qual a sua profissão? perguntou um escritor a um crítico. Eu, sou médico de palavras. Médico de palavras? Tinha ido cortar o cabelo e achava-se desprovido de argumentos.


.5.



E ali fiquei, humilde, embrutecido, perante a comadre escura que me vigiava. Os olhos dela, vorazes, eram mais temíveis do que esse ventre desgastado de esforços vãos, do que a bacia estreita que se opunha à vida. Esperei minutos, horas, para me dispor àquilo que desde logo me pareceu indicado: uma intervenção com os medonhos ferros que são o pesadelo das parturientes e das famílias aldeãs. Até que a comadre, não suportando já as minhas hesitações, levou à frente das palavras um dedo sujo, antes que eu pudesse simular uma reacção, e enfiou-o nesse abismo insondável. E disse sem meias-tintas:

- Se quer fazer alguma coisa, Sr. Doutor, saiba que a criança está nas nalgas. Está presa presa no osso da rabadilha.

Aquela frase ficou inteira nas minhas recordações, ainda hoje me assusta os ouvidos.



****

A. Os autores dos textos são respectivamente:

1. Pedro Paixão

2. António Lobo Antunes

3. Marcello Duarte Mathias

4. Ana Hatherly

5. Fernando Namora


e são parte de textos maiores contidos no livro, já aqui referido,  'A caneta que escreve e a que prescreve' organizado por Clara Crabbé Rocha.


B. As imagens são pinturas de Paul Klee, pintor suiço naturalizado alemão (1879 - 1940) que é cá dos meus.

****

Se estiverem para isso, gostaria de vos ver lá pelo meu outro canto, o Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras mergulham em volta de um poema de Casimiro de Brito. Acompanham com vozes maravilhosas que continuam a semana Verdi.

****

E tenham meus Caros uma belíssima quinta feira!