Convoquemo-nos a todos para a reparação do planeta, a bela casa em que nos foi dada a sorte de nascermos.
Na aleatória e improvável sucessão de acasos que nos trouxe até aqui, tudo o que deveríamos fazer era dar graças pela concretização do milagre que foi o nosso nascimento e a nossa sobrevivência: deveríamos respeitar as improbabilidades, deveríamos abençoar o habitat que tornou tal possível, deveríamos preservá-lo para que os milagres possam continuar a acontecer.
Sabemos, contudo, que não tem sido que tem acontecido.
by Justin Hofman
Temos feito tudo ao contrário: temos estragado o planeta, temos desrespeitado todas as formas de vida, incluindo a vida humana, temos olhado para a ponta do dedo em vez de olharmos as estrelas para as quais o dedo aponta. Entretemo-nos com minudências, buscamos defeitos em quem tenta entregar alguma mensagem que difira das banalidades às quais nos habituámos, preferimos ir no diz-que-diz-que e na maledicência ou preferimos virar as costas a causas que nos parecem longínquas. Diremos: de que serve fazermos alguma coisa, se o mundo está nas mãos de gente ignorante, inconsciente, narcisista, se se sucedem os exemplos de estupidez, de um impensável cretinismo?
by Tim Rooke
E então, encontrando um alibi para nos despreocuparmos e deixarmos as lutas para outros, lavamos as mãos do que possa vir a acontecer. Acima de tudo o nosso conforto ou a contemplação do nosso umbigo.
by Noel Guevara
E, no entanto, alguma coisa no nosso comportamento tem que mudar. Do planeta fizemos um mundo e, desde que o fizemos, não temos feito outra coisa que não estragá-lo.
by Nirmal Purja
Se não invertermos essa destrutiva atitude, a coisa não acabará bem. E será uma pena.
Por isso, iniciativas como a que o vídeo abaixo se refere são bem vindas. Poderá ser pouco, poderá ser uma gota num vasto oceano, poderá tudo. Mas é uma iniciativa positiva. E muitas mais serão necessárias. Colocar a ciência, a tecnologia, a criatividade, a boa vontade, e o mais que seja a favor da reparação do planeta é louvável.
by David Lloyd
Transcrevo:
Prince William has announced what was described as “the most prestigious environment prize in history” to encourage new solutions to tackling the climate crisis.
The “Earthshot prize” will be awarded to five people every year over the next decade, the Prince said on Tuesday, and aims to provide at least 50 answers to some of the greatest problems facing the planet by 2030.
They include promoting new ways of addressing issues such as energy, nature and biodiversity, the oceans, air pollution and fresh water.
The prize, inspired by US president John F Kennedy’s ambitious “Moonshot” lunar programme and backed by Sir David Attenborough, promises “a significant financial award”, a statement said. (...)
Do conserto do que está estragado façamos um exercício de superação, encontremos novas formas de beleza, reinventemos o conceito de perfeição. Com o devido crédito ao João Lisboa que iniciou o ano com um post que me encantou, um vídeo que, em meu entender, diz muito do que temos que fazer para consertar o planeta (e as nossas vidas, talvez também).
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Obtive as fotografias no The Guardian, quer na compilação das fotografias mais relevantes de 2019 (a 3ª, a 4ª e a 5ª) quer na das melhores da natureza selvagem (a 1ª, a 2ª e a última). O local e o significado ou a história subjacente poderão ser consultados nos artigos que muito vivamente recomendo.
O meu avô, que viveu uma vida longa, teve uma infância difícil. Contudo, isto sou eu a dizer porque a ele nunca ouvi um queixume nem o meu pai ou a minha avó alguma vez o referiram. Já o contei. De família abastada, o meu bisavô cedo se perdeu em mulheres e jogo, perdendo casas, terras, animais e, quando nada mais restava que a casa onde vivia com a mulher e três filhos pequenos, creio que para escapar a dívidas e vexames, fugiu para longe e, esqueci-me e ainda não me lembrei de perguntar á minha mãe, foi para a Argentina ou para a Venezuela. Não faço ideia o que aconteceu a seguir. Só sei que, ainda adolescente, o meu avô se fez à estrada e começou a trabalhar onde calhava. Presumo que se deslocasse a pé. Ou, então, de bicicleta. Andou de bicicleta até aos oitenta e muitos anos. O meu pai e o meu tio tinham medo, diziam que ele já não ouvia bem, que já não tinha idade para andar de bicicleta. Ele fingia que não ouvia, e continuava a fazer o que queria. Lembro-me dele com a cana de pesca em diagonal nas costas e a cesta para o peixe presa atrás.
Trabalhou em França e eu gostava imenso de o ouvir a falar em francês. Depois, não sei como, foi parar onde se fixou. Ali trabalhou até se reformar, vivendo perto. A casa tinha um terreno ao lado, onde tinha árvores de fruto e uma horta. Depois o terreno subia em socalcos onde ele, em pequenos talhões, plantava alhos, cebolas, favas, batatas. O terreno ia até lá muito acima. Acedia-se aos níveis superiores por caminhos, degraus, caminhos, degraus. Cá em baixo, tinha ainda uma capoeira grande; mas isso era pelouro da minha avó.
Lembro-me do meu avô sempre ocupado. Sempre que possível, ia à pesca e vinha carregado de peixes que eu pedia sempre para arranjar, as mãos mergulhadas nas vísceras, os dedos nas guelras puxando as tripas que vinham agarradas, ensanguentadas. E a minha avó sempre com medo que tivesse ficado um anzol na goela e eu ficasse presa.
Ou, então, tratava da horta ou apanhava fruta. E a minha avó sempre a zangar-se por ele não limpar bem os pés no tapete que havia à porta da cozinha e levar terra agarrada aos sapatos. E ele a fingir que não ouvia. Mas nas mãos dele tudo passava por cuidados que me maravilhavam. Ele apanhava as cebolas e os alhos com a rama e entrançava-as, fazendo réstias que pendurava naquilo a que chamávamos 'a casinha'. Também o tomate. Havia tomate maduro todo o ano pois não se estragavam. A casinha tinha pouca luz. Talvez fosse por isso. Não sei. Quando alguma galinha ficava choca, era também nessa casinha, não tão pequena quanto isso, que se deitava a galinha, numa cama que lhe faziam, onde estavam os ovos. Por isso, era aí que nasciam os pintainhos.
No quintal, havia ainda a casinha das ferramentas e a bancada onde estava um torno. Contudo, penso que o que ele aí fazia tinha sempre a ver ou com fazer um portão de madeira, ou uma escada para ir à fruta, ou um banco de madeira para a capoeira. Coisas assim, simples.
E tinha uma arte. E essa arte fascinava-me. Dos seus tempos de criança tinha-lhe ficado a lembrança da cestaria. Devia evocar a lembrança das pessoas da terra e, aos poucos, foi tentando reproduzir os movimentos e cada vez fazia melhor. Creio que ele falava em palma. Creio. Eram folhas estreitas e finas que ele abria ou dobrava. Tenho ideia que umas vezes fazia com as folhas secas e outras com elas ainda frescas. Fazia cestos para guardar os ovos, cestos para a fruta. Não eram muito perfeitas e, portanto, não se usavam como objecto decorativo. Mas eu gostava tanto. Gostava em especial quando ele os fazia com asas de lado ou uma única, ao alto, grande, a meio. Tenho ideia que uma vez pensei que queria ficar com uma recordação e quis uma dessas cestinhas. Mas com as mudanças de casa, com o tempo a passar, às tantas, perdi o rasto a uma que tinha. Não sei como foi possível. Ficou apenas a terna recordação.
Eu olhava para aquele avô com um grande fascínio. Como viveu até tarde, lembro-me especialmente dele quando reformado. Depois de almoço, sentava-se no cadeirão de madeira que agora tenho lá em casa, in heaven, ligava a televisão ou o rádio, pegava num jornal ou num livro, lia, e, por vezes, dormitava. Tirando isso, andava sempre ocupado. Nunca se zangava, nunca protestava. Por ele estava sempre tudo bem. A minha avó queixava-se do reumático ou das artroses, queixava-se dos filhos, queixava-se da outra nora que a afastava do filho, queixava-se de uma ou outra vizinha, queixava-se de ele trazer muito peixe e de ela já não ter paciência para o arranjar, queixava-se de ele ser pouco cuidadoso com o quintal, com o jardim e com as flores. Ele fazia de conta que não ouvia e, à socapa, sorria para mim.
Sempre tive uma grande cumplicidade com ele. Quando deixei um namorado, ela preocupou-se e, quando apareci logo com outro, preocupou-se ainda mais. E quando aos vinte lhe disse que ia casar ainda mais preocupada ela ficou. Ele não. Ele não dizia nada, apenas sorria, deixava-a fazer os dramas. Não era bem dramas, era mais como se fosse uma agonia que ela tentasse disfarçar sem o conseguir. Nesse dia em que, em casa dos meus pais, eu lhes disse que dentro de um mês ia estar casada e que ela ficou arrasada ele ficou como se nada se passasse. Apenas veio ao pé de nós, de mim e do meu namorado, e disse: ela casou-se aos dezoito e ao fim de pouco tempo, já o teu pai tinha nascido e, pouco depois, o teu tio. Eu tinha vinte e cinco mas ela tinha dezoito. Por isso, aos vinte parece-me uma boa idade.
Isto do lado desse meu avô.
Esqueci-me de referir um aspecto que talvez explique muitas coisas. Ele tinha umas feições levemente orientais que o filho mais novo herdou e de que uma das minhas primas ainda é portadora. Penso que talvez por isso tivesse aquela paciência de chinês.
Do lado da minha avó do lado da minha mãe era também sempre uma actividade mas aí uma coisa mais restrita: era renda. Fazia rendas lindas. Colchas, toalhas de mesa, rendas para lençóis, entremeios de mesa. Nunca estava sem nada que fazer e era altamente produtiva. Tenho várias coisas feitas por ela. 'Tirava' por amostras, 'tirava' por revistas, 'tirava' por onde calhasse. Eu adorava ver a destreza daquelas mãos.
Talvez por isso, quer a minha mãe, quer o meu pai sempre foram muito activos, sempre ocupados, muito habilidosos. Com o que calhasse. Contudo, lembro-me especialmente dessa actividade e criatividade depois de reformados pois antes a vida profissional ocupava-os bastante.
E, talvez também por isso, eu seja como sou, incapaz de estar sem nada que fazer. Contudo, vejo-me limitada. Limitada, desde logo, em tempo. E, talvez tão importante como a falta de tempo, é o sentir-me limitada pelo preconceito de recear não saber fazer. O receio contraria a confiança e para se fazer o que se quer é preciso ser-se afoito. E para se ser afoito é precisa ignorância. Ora, se a gente se põe a pensar muito, estraga a ignorância, perde a afoiteza e lá se vão os sonhos.
Mas, senhores, que vontade sempre tenho de fazer coisas. Pintar, fazer tapetes, fotografar (como estas fotografias que fiz no outro dia in heaven), cozinhar, varrer, escrever. E outras coisas. Tantas outras coisas.
. . . & . . .
Já aqui mostrei muitas vezes aqueles vídeos que, para mim, são uma fonte de tranquilidade. Os movimentos serenos da jovem Li Ziqi, os seus passeios pelos bosques, a forma harmoniosa como se move, os gestos ancestrais no manuseio de frutos, de flores, o fogo, os preparados que faz, a comida que confecciona, as peças que talha. Tudo me faz ficar presa a olhar. Mesmo que não perceba o que faz, mesmo que não saiba que produtos usa. Mesmo assim eu fico a olhar. Penso que era uma vida assim que eu gostava de ter. Uma vida simples, sem tempo, sem pressa, sem ruído, embalada pelo canto dos pássaros.
Fazer coisas bonitas para a casa.
(E foi por vê-la a fazer cestas que me lembrei tanto do meu avô)
Os frutos secos do Outono
Mas quem é Li Ziqui que tem milhões de seguidores?
Grilo de madeira pintada
Na fotografia dá ideia que é grande mas não, não deve medir mais que uns 10cm
O pauzinho que tem nas costas serve para passar pelo rendilhado dos lados, reproduzindo o cri-cri dos grilos de verdade
E é assim que estou de volta à cidade, preparada para, dentro de poucas horas, retomar a vida normal, longe de paisagens de cortar a respiração, longe de rios e mares, longe dos extensos areais por onde fiz tantas caminhadas, longe do dolce far niente com que tão afanosamente me tenho ocupado.
Apenas trago a pena de não ter conseguido ler tanto quanto desejaria mas a verdade é que, entre o que pouco que fiz e o muito que descansei, pouco tempo me sobrou. Mas, ainda assim, alguma coisa li e a melhor foi a última que comecei e de que ainda vou no princípio: Tudo o que tenho trago comigo de Herta Müller.
Entretanto, de regresso, já visitei os meus pai e, embora de raspão, já revi parte da descendência.
E, aqui chegada, já estive a fazer as minhas arrumações e preparativos, já voltei ao roupeiro para avaliar o que devo vestir, já fui ver se tinha dinheiro na carteira, já reencontrei gestos que estavam em stand by. Até o estar aqui sabendo que daqui a nada vou acordar com o despertador é um déjà-vu e, por acaso, até não é dos melhores.
Espanta-espíritos com pássaro articulado.
Ainda tem uma pecinha pendurada no fio que se vê
Está pendurado no telheiro onde está a mesa de madeira e respectivos bancos, o grelhador, etc
E, assim, a minha mente começa a adaptar-se à perspectiva de voltar a ver-me no meio do pára-arranque do trânsito, de ter reuniões umas a seguir a outras e decisões para tomar e prazos para cumprir. Não é das melhores perspectivas.
Nossa Senhora com o menino ao colo
Feita em crochet. Ofereci à minha mãe.
Em casa da minha mãe, quando ela me dizia que as minhas férias tinham sido tão curtas, eu disse que sim e que me sabe tão bem ser dona do meu tempo. Ela recordou que, quando deixou de dar aulas e o meu pai ainda trabalhava, deixou de usar relógio e ia sair, passear, ver montras, observar com pormenor as coisas do supermercado, sem pressa, sem ter que se despachar pois sabia que não corria o risco de chegar atrasada a algum lugar. Mas que, ao fim de algum tempo, já não sabia o que fazer com o tempo e pensava que estava melhor quando estava a trabalhar. Percebo-a. Disse-lhe que eu, quando chegar a altura de deixar de trabalhar (e ainda falta tanto tempo), terei que arranjar ocupação, rotinas, e que acho que não me vão faltar. Mas sei lá. Sabe-se lá alguma coisa do que vai acontecer seja no futuro mais longínquo seja, até, no mais próximo. O que for soará e pronto. Não quero fazer planos. Só tenho uma vaga ideia, um desejo, mas, ainda assim, se verá.
Mas, enfim, não é o tema.
O tema é que já estive também a arrumar as coisinhas que trouxe de Caminha. As bugigangas, diz o meu marido com aquele seu ar depreciativo. Diz que basta eu ver uma coisa que não serve para nada para ficar logo toda interessada -- e a verdade é que não tenho grandes argumentos para o contradizer.
Sto António com o menino ao colo
Igualmente feito em crochet
Não é que faça questão de andar à pesca do que trazer. Não, não mesmo. Mas gosto de ver artesanato. Gosto porque me enternece o trabalho manual e criativo das pessoas. Acho que é um tributo que presto às pessoas que, ou por amor ou por necessidade, fazem, com as suas mãos peças de que gosto e que gosto de enaltecer.
Duas ficaram na casa in heaven, outra foi presente para a minha mãe e apenas duas vieram para cá.
Mas claro que concordo com o meu marido: são inutilidades e, um dia, podem tornar-se numa dor de cabeça para quem tiver o pincel de dar destino a tanta tralha. Isso custa-me e penso que não posso deixar tal carga de trabalhos para ninguém.
Já pensei: in heaven, onde há espaço -- e que espero que fique na família por muitos e bons anos -- se calhar um dia arranjo uma sala com várias vitrines (para não lhe entrar o pó e a sua limpeza não ser outra dor de cabeça) e levo para lá toda a bonecada, santos e anjinhos, caixinhas, ampulhetas e tralha miúda de toda a espécie. No fundo aquilo a que o meu querido pimentinha mais crescido uma vez se referiu como 'o museu da Tá'. Tenho que pensar nisso. Mas, na volta, quando falar nisto ao meu marido, é bem capaz de achar que é mais uma maluqueira sem pés nem cabeça. Mas a mim parece-me uma boa solução. Logo se vê.
Sto António com menino e peixinho ao colo
[O que trouxe de Caminha é o pequenino -- e, na volta, está tão espantado por ver que há outro e bem mais flausino que ele]
A fotografia foi feita in heaven mas ele veio para cá, está ali ao pé de outros Stos Antónios
E não me perguntem se sou devota de Sto António pois estaria a fazer género se dissesse que sim. Simplesmente acho graça à figura. Acho graça e sinto uma certa (e inexplicável) ternura. É como com a Nossa Senhora. Gosto da figura talvez por ser maternal, talvez por pensar que, como em todas as mães, tem em si a capacidade de abençoar e amar. Como sei que a minha mãe reza e pede pelos seus, pensei levar-lhe aquela ali em cima. E não sei se uma simples figurinha feita em crochet pode ser intermediária das preces de quem acredita no poder de uma qualquer força superior mas se calhar sim. Há coisas que não se explicam, não é?
E, para terminar, não resisto a partilhar mais quatro fotografias de Caminha, aquela terra tão linda.
Uma das crónicas do Gabo n'O Escândalo do Século' era sobre não ter nada sobre o que escrever e, claro, lê-se do princípio ao fim com o interesse que a sua escrita sempre desperta. Não tenho a sua arte, a sua graça, a sua mestria pelo que, não tendo também sobre que escrever, fico hesitante. Ninguém me obriga. Poderia, simplesmente, fechar o computador e ler o relatório sobre o qual vou ter uma reunião à primeira hora da manhã ou poderia ir ouvir alguns dos trechos de Wagner referidos por Shaw. Mas é aquilo de os dedos sentirem a impaciência da dança sobre o teclado, mesmo sem um propósito eles querem por aqui andar a saltitar de tecla em tecla.
Portanto, sem saber ao que venho, entregue ao improviso a que eles queiram dedicar-se, aqui estou. Pode a coisa soar-vos desalinhada, sem tema, voo sem rumo, que estarão certos: assim será, certamente.
Hesito em falar do Mário Nogueira que deu uma bicada ao Marcelo ou do Marcelo que parece que não gostou ou do Marques Mendes que apenas vi agora reaquecido, em excerto. Mas nada disso me interessa nem um pouco. Zero.
Bocejo tal o tédio que sinto por não ter assunto. Aliás, não é bem isso. Ter, talvez até tivesse, mas não quero. Há coisas que correm dentro de nós ou sob a terra que pisamos e que andam a tal profundidade que não são umas simples palavras que conseguem trazê-las à luz do dia. Que fiquem por lá onde delas apenas nos chega aquele subtil murmúrio que mais parece uma normal respiração.
Adiante, pois, até ao que não tem nem terá história.
No outro dia andei à procura de umas calças que me estavam justas demais para ver se estavam bem à minha filha. E estavam-lhe boas de perna e de anca mas largas na cintura. Levei-as para a minha mãe as apertar, umas brancas e umas azuis escuras. Estão como novas, ficar-lhe-ão bem. Duas blusinhas brancas que me estavam um pouco à tira também mudaram de mãos. Se pudesse andar sempre de branco, ela andava. Mas com isto de andar a revolver roupa para ver coisas que estão melhor a ela que a mim, hoje, quando aqui cheguei e entrei no quarto que era dela e que virou meu special closet, já nem me lembrava da desarrumação em que tinha deixado aquilo.
Portanto, hoje, para além do assado no forno (a que juntei ameixas que trouxe lá da minha big ameixeira pela qual a parreira trepa alegremente) e da máquina de roupa e de uma roupa de lavar à mão e das arrumações habituais tive mais esta, andar a arrumar as roupas que ficaram de fora naquela experimentação, no outro dia antes de irmos para a festa de anos.
De cada vez que acontece uma destas, convenço-me que preciso mesmo de fazer uma reforma de fundo, desfazer-me de alguma roupa pela qual tenho alguma estima mas que, porque a moda mudou muito ou porque eu mudei muito ou porque as circunstâncias mudaram, será pouco provável que as volte a vestir. Mas eu, quando faço arrumações, preciso que sejam de fundo, tudo cá para fora, tudo reorganizado, tudo repensado do zero. E onde é que agora tenho tempo para isso? Nem pensar.
No outro dia, num desfile, quando foram os grandes desfiles em Paris, vi um casaquinho que me pareceu mesmo a minha cara. Como a minha mãe andava a dizer que andava sem o que fazer, mostrei-lhe o casaquinho e disse que me candidatava. A candidatura foi aceite. Pensei que, para ela, seria piece of cake e, ao princípio até parecia ser. Afinal foi uma dificuldade terrível. Matemática pura. Soubesse ela de trigonometria talvez se sentisse melhor guiada mas, assim, foi na base da tentativa e erro, tentativa e erro, tentativa e quase desepero. Na fase inicial, quando ela pensava que a dificuldade residia apenas na combinação de cores, eu alertei que a curva do decote devia ser um desafio. Afinal foi tudo um desafio, em especial as mangas. Todo em crochet, todo em rosetas às cores. Ia dando em doida para conseguir que tudo batesse certo mantendo um tamanho uniforme nas rosetas. Trouxe-o ontem e está espectacular. Ela diz que foi o trabalho mais difícil que alguma vez fez. E se já fez trabalhos complicadíssimos. Por alguma razão o casaquinho desfilou como haute couture numa das casas de moda mais prestigiadas. Claro que não é exactamente igual, seria impossível, mas é inspirado e ficou uma maravilha. Uma obra de arte. Estou orgulhosíssima deste trabalho da minha mãe.
E outra coisa que não vem nada, nadinha, a propósito mas, pronto, à falta de melhor assunto, refiro agora. Li no The Guardian que parece que as cenas de sexo estão a desaparecer de Hollywood e, admirada, estive a saber porquê. Aquilo do #MeToo, sobretudo. Fico com pena. Não que um filme para ser bom, mesmo se de amor, tenha que ter sexo explícito. Mas o sexo faz parte da vida e quando devidamente contextualizado e bem filmado, é sempre uma coisa que dá graça a um filme. Parece que estamos a caminhar para o politicamente correcto, asséptico, limpinho, sem sal nem pimenta, sem açúcar, sem beijo de língua, sem piropo, sem malandrice, sem subentendido. E, se isso vier mesmo a acontecer de vez, o mundo perderá a graça, será como o desaparecimento dos insectos que deixará o mundo sem polinização, como livros cegos, sem palavras, mãos que não sabem que devem procurar outras mãos, olhos que não sabem procurar outros olhos, um vazio absoluto. Podia agora colocar aqui algumas das cenas calientes que o artigo refere mas o tema merece uma cama vazia, não um post já cheio de confusão. Talvez outro dia.
E se calhar agora é que não tenho mesmo mais nada para dizer, a não ser pedir desculpa por estar para aqui nisto, apenas a tomar o vosso tempo.
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Espero que tenham gostado de ver a Maria João Pires a tocar quase de olhos fechados numa gravação recentíssima e, embora num nivelzinho cá bem mais abaixo, que tenham também gostado das minhas fotografias feitas este domingo in heaven. Numa delas, pode ler-se parte de um poema de David Mourão-Ferreira que se foi num outro, longínquo, 16 de Junho.
De saída para mais um dia, e depois de ontem à noite não ter conseguido espraiar-me nem tão pouco responder aos comentários, tendo-me ficado pelo bom humor possível em torno da tristeza do Brexit (e que inclui o tão aguardado e delirante encontro com a Rainha), venho aqui numa fugidinha retomar algumas escolhas para um fim de semana tranquilo e alegre.
Primeiro, Mauro Morandi, o homem que em 1989 chegou à Ilha de Budelli, na Sardenha. Gostou e foi ficando. Vive sozinho no paraíso.
Agora, não é por mais nada a não ser porque gosto do vídeo: a coleção Pharrell para a Chanel
E pela beleza serena de tudo, os fatos Dior para o bailado ‘Nuit Blanche’
O meu pai era tido por não ter jeito para nada. Segundo a minha mãe, claro. Fazia arranjos em casa, isso sim. Mas arranjos de arranjar coisas avariadas. A minha mãe comparava-o com o irmão, jeitoso de mãos, que tinha construído, sozinho, uma estufa no jardim. E construído bancadas dentro da estufa. E tinha vasos com flores que transplantava para o jardim, sempre tão cuidado. O jardim arranjado pelo meu pai, segundo a minha mãe, era desprovido daquela perfeição que o meu tio imprimia no que fazia. Não perdia oportunidade para desvalorizar as suas habilidades (e as suas observações não deixavam de ser pertinentes). O meu pai ficava todo ofendido.
Mas, para surpresa de toda a gente, quando se reformou, deu em fazer coisas de madeira, pequenos móveis, restaurar cadeiras, ou seja, a mostrar um talento de que nunca ninguém tinha suspeitado. Tudo bem feito. Abusei: fazia um desenho e pedia-lhe. Ele aborrecia-se: dizia que os meus desenhos não eram suficientemente técnicos. Então, fazia-os ele: tudo feito à medida, a régua e esquadra. Fazia cálculos, raízes quadradas, tudo na base da pura geometria. A minha mãe entrava na fase dos acabamentos. Admirada com o jeito que, afinal, ele tinha. Tenho vários móveis feitos por ele e, por isso, têm para mim um valor ilimitado: um móvel pequeno para livros, um móvel para DVDs, um carrinho com divisórias para tintas, um escaparate para bijuterias.
Móveis eu acho que nunca saberei fazer. Mas nunca se sabe. Há algumas coisas que acho que não sei e que penso que nem terei habilidade, mas que dava jeito e que gostava: saber costurar e saber construir objectos. Talvez um dia me dedique a isso.
O Leitor P. a quem, de novo, aqui agradeço enviou-me não apenas o extraordinário Caravaggio alive mas também o vídeo que aqui partilho e que também é uma graça. Uma jovem embrenha-se por entre um bosque de bambus, apanha uns quantos, limpa-os e, com uma agilidade impressionante, começa a montar umas peças que, no fim, resultam leves e resistentes.
Convido-vos a ver pois não é só interessante: é também bastante tranquilizador. No fim de um dia complicado e a caminho de uns quantos em que a agenda transborda, sabe bem ver imagens assim, tão pacíficas.
Como fazer uma mobília de bambu
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A fotografia lá em cima foi feita há uns dias e encanta-me por ver como nascem espontaneamente flores, verduras, encantos -- e, sim, é um feto.
E é isto. Quando a gente quer, a gente consegue. Sou a prova provada da coisa. Isto de me sentir desfasada ao ver christmas e noël por todo o lado tem que acabar. Tenho que me fasar. Tenho que assimilar que pode parecer que estamos a meio de novembro mas é um engano. Estamos é no natal.
E a verdade é que, de tanto interiorizar este mantra, já estou quase no ponto. Estamos a sair do S. Martinho e dentro de mim já só tocam sininhos e brilham estrelinhas. Acordei hoje assim. Cá para mim, a noite passada o Santa já desceu pela chaminé e veio enfiar-se dentro de mim. Salvo seja. Reformulo para não profanar o santo espírito da ocasião: a disposição natalícia do Pai Natal penetrou na minha alma. Assim está melhor.
Ou seja, parece que começo a sentir o apelo da decoração alusiva à época. Não sinto o apelo de ir pelos céus atrás da estrela polar ou de ir à caça dos reis magos ou de me disfarçar de memé do presépio que tudo isso é religioso demais para a minha maneira de ser. Sou mais de coisas prosaicas: enfeitar a casa, por exemplo.
Mas, para já, ainda estou na fase de imaginar as cenas. Gosto de imaginar cenas. Pensar como executá-las, como instalá-las. E o que vos tenho a dizer é que já aqui tenho duas hipóteses -- não exclusivas -- de árvore de natal.
A primeira é de caras. Uns pauzinhos, umas cordas e uns penduricalhos e está feita. Entrelaçando um fio com umas micro-luzinhas ficará uma graça..
Mas, antes de ir à próxima, bora lá mas é cantar e dançar um sapateado que a conversa está muito parada e muito morna.
Bem. Assim com a joy que vem de cantarmos christmas cantiguinhas está melhor, não está? Passemos à segunda árvore de natal.
Love, love it. Um escadote aberto, luzinhas all over e bolas e outros objectos pendurados a diferentes alturas. Um achado. Está feito.
E dá para pôr os presentes lá debaixo ou em volta e tudo. Boa. Estou capaz de, enquanto o meu marido estiver a dormir, ir à socapa traí-lo com o Santa (em pensamento, claro, que as traições em pensamento não contam, especialmente se forem com Santas). Bem. Pensando melhor... não só em pensamento. Vou mas é passar à acção. Vou à despensa buscar o escadote, levo para a sala, ponho-o em frente da lareira, encho-o de perlimpimpins e luzinzinzins e, amanhã, quando ele se levantar, e levanta-se sempre ainda de noite, e vir pisca a piscas a vir da sala vai ter uma surpresa: em vez dos pirilampos que ele se calhar vai estar à espera vai ver o escadote travestido de dragtree. Ganda nice.
Eu depois mostro a minha.
(Como sou mulher posso dizer que 'mostro a minha' sem soar a brejeirice)
Para já mostro a fonte da minha inspiração. Ou seja, mostro a árvore inspiracional
E caso queiram enviar-me fotografias das vossas (árvores!!!!) estejam à vontade. Se não forem feias, pirosas, enfeitadas demais ou simplesmente banalésimas pode ser que me sinta tentada a mostrá-las à comunidade.
(E, agora muito a sério: tenho que pedir desculpa por não andar a responder a comentários e mails mas é que o tapete is calling. Para já, já aqui estive a dormitar e agora estou deserta de pegar na agulha. Gostos. Sorry)
Pois vos digo que se me vou um bocado abaixo e quase aterro -- ou por cansaço, excesso de trabalho, embrulhadas profissionais, preocupações familiares ou o que seja -- a verdade é que o meu organismo tem umas formas curiosas de dar a volta. E falo no meu organismo e não na cabeça porque a coisa não resulta de elucubrações ou mise en place de estratégias de qualquer espécie. É completamente involuntário. Simplesmente parece que viro a página e entro num filme diferente.
Nesta recente revoada de virada de página para a qual arrastei o meu marido, reorganizámos os livros, reorganizámos a zona de escritório, trouxemos uma poltrona para a zona que agora é exclusivamente de leitura, rependurámos quadros, espelhos, reposicionei bibelots. A casa agora está diferente e uma das salinhas pequenas in heaven também. E ando entusiasmada como se me tivesse mudado para uma casa nova.
[E calma: não estou, com isto, a dizer que sou especial por ser assim. Isto pode apenas significar que não sou boa da cabeça.]
No outro dia, vi na Area 8 uma espécie de pequena árvore, só uns estilizados troncos com luzinhas nas pontas. Está a ser vendida como enfeite de Natal. E eu tenho uma igual. O meu marido diz que a comprei lá o ano passado. E eu tenho a certeza que não, que a comprei num chinês por um terço do valor. Não interessa, o que interessa é que andei à procura dela e, depois de a encontrar, coloquei-a em cima de uma das estantes baixas aqui da sala para servir de candeeiro. O meu marido refilou quando me viu a andar nisto. Disse que era uma palhaçada pôr um enfeite de Natal a servir de candeeiro. Mas, quando o viu aceso e constatou o bom ambiente que traz à sala, já não disse nada. Tão bonito e agradável que fica.
Também fiz outra coisa: no que era o quarto da minha filha, tinha um candeeiro de pé, todo xpto, Pensei que ficava bem ao lado da poltrona de leitura. Carreguei com ele para lá. Tem leds na pontinha de cada arabesco. Infelizmente só três é que acendem. Mas fica mesmo bem ali. Temos que substituir os que não acendem. Mas o candeeiro fica mesmo bem. Tomara que, com leds novos, todas as pontinhas acendam.
E estou cheia de vontade de, também aqui, na cidade, durante a semana, voltar a fazer arraiolos. Só que a carpete que cá tenho a meio não apenas é enorme como é daquelas com desenhos do piorio (do género destes dois que aqui vos mostro, um dos quais está aqui sob os meus pés, e que fiz tempos atrás). Para além disso vai trazer-me um apontamento de desarrumação a esta sala que agora anda tão linda. E, last but not the least, vai impedir-me de estar tanto tempo de volta do blog (e de leituras diversas). Esta que tenho para acabar está arrumada num lugar muito alto, terá que ser o meu marido a ir lá buscá-la e ele não tem estado muito para isso. Hoje, por exemplo, com o jogo do Sporting, não quer que eu o distraia por nada desta vida.
Já no outro dia eu aqui me tinha interrogado sobre se a leveza de espírito que sinto quando faço tapetes (ou quando escrevo; mas também se fizer tricot ou pintar ou fotografar) não será uma forma de meditar. Fico de tal forma alheada de tudo o resto, tão focada naquilo, que esqueço tudo o que me possa preocupar.
Não sou, por natureza, dada a stresses, a estados de afeliação (isto é, a curtir o fel próprio). Sou muito primária -- esqueço-me rapidamente do que me chateia, desligo-me facilmente de maçadas, ponho para trás das costas aquilo que me desagrada, e parto para outra -- pelo que, que me aperceba, não procuro estas actividades para esquecer agruras ou para me descontrair mas apenas porque sim, pelo simples prazer de as executar. Mas a verdade é que, enquanto estou absorta nisto, as minhas mãos andando sozinhas, a cabeça desligadamente observando as mãos, me sinto como a mais inocente, livre e despreocupada das criaturas.
Existem escolas de tricot que são espaços de convívio e bem estar, existem manuais, vídeos. Etc. E há o autodidactismo que, na verdade, é a minha onda.
O artigo fala no bem estar que é estar a fazer uma coisa destas, confortavelmente, com uma mantinha quente, uma caneca de chá para ir bebericando, num espaço confortável. É assim que, quando está frio, gosto de estar. In heaven, junto a isto o calorzinho da salamandra ou da lareira.
Por algum motivo que desconheço, parece que, por cá, estas actividades caíram em desuso. Nenhuma das minhas amigas, familiares ou conhecidas se dedica a isto -- com excepção da minha mãe que é devota praticante (está, neste momento, com uma encomenda em mãos: duas camisolas e dois casacos para quatro dos cinco bisnetos. Para o bebé nada foi pedido pois herda tanta roupa que raramente precisa de mais). Comentei com ela isto de dizerem que o tricot é o novo ioga e ela concordou, diz que estes trabalhos manuais (tricot, crochet, costura) é o que a tem ajudado a superar tão bem as agruras da sua vida tão complicada. Isso e ler. E eu acredito que sim.
Note-se: Apesar de toda esta apologia deste tipo de trabalhos manuais e apesar de admitir que o mais certo é o ioga não ser para mim, ainda não desisti de o ir experimentar. Mas tudo naquilo me faz hesitar: para começar acho que algumas daquelas posições parecem esteticamente muito interessantes mas se e só se a pessoa estiver bem ginasticada, sem um grama a mais -- assim como esta menina aqui em cima. Agora se a pessoa não for capaz de se virar do avesso com as pernas ao alto, presumo que seja sobretudo um bom motivo de galhofa, incluindo para o próprio.
Tenho ideia que seria um ano mais velha que eu. Muito discreta. Estudava o mesmo que eu mas nunca a via por lá. Era prima do primo dele. Eram muito amigos. Encontrava-a nesses encontros familiares, nunca na escola.
Quando dei aulas, encontrei-a na mesma escola. Sempre muito discreta. Eficiente, cumpridora, espírito rigoroso. Via-me a mim própria como uma diletante, turista acidental ocasionalmente professora. Ela não, como se professora desde a nascença.
Deixei de ser professora, ela continuou. Fisicamente igualmente discreta, sem nunca elevar a voz, sem extroversões ou, sequer, estados de alma à vista, era respeitada a ponto de vir a ter cargos de direcção. Sempre quase silenciosa mas sempre muito objectiva, sem uma palavra a mais ou a menos.
Depois teve uma menina e um menino. A menina era engraçada. Pequenina, alegre, bem disposta. O menino tenho ideia que mais calado. Mas a menina, era a mais nova das meninas e as mais crescidas achavam-lhe graça. A mãe, como sempre, discreta, sem alardear gracinhas da sua menina.
Fui perdendo o rasto. Diziam-me da menina, entretanto já adolescente: estuda teatro. E eu pensava: que engraçado, pequenina, alegre, bem comportadinha; e a gostar de teatro, quem diria? Preconceito meu. Como se para se ter vocação para o teatro se tivesse que ter nascido exuberante, palhacita, sem inibições ou freio na língua.
Mais recentemente, eu comentava: nunca a vi na televisão, em telenovelas ou em reportagens sobre peças de teatro. Esclareceram-me: não, é contadora de histórias. Nem fui capaz de perguntar nada. Não sabia que havia isso de 'ser contador de histórias'. Pensei para mim, cheia de dúvidas: mas contará histórias a quem? E pagar-lhe-ão para isso? Intrigada, eu, e a confirmar: cada vez sei menos deste mundo.
No outro dia: sabes? lançou um livro de poesia. Eu ainda mais espantada. Ela? Poesia? Pelo sim, pelo não, perguntei qual o nome que aparecia. Conheço-a pelo petit non, nunca lhe soube o nome completo. Disseram-me. Não fazia ideia.
Hoje, com mais uns minutos e com vontade de entrar numa livraria, o meu marido disse-me: se não conseguires resistir, traz livros para os miúdos. Já era essa minha ideia. Tinha pensado: vou trazer um livro para os meninos, para mim não. Mas, depois de ter os livros para os meninos, mesmo sabendo que não ia trazer nenhum para mim, quis ir vê-los. Meia triste, deslizei entre estantes e escaparates. Folheei um ou outro, abstémica, forçando a distância. E, então, nem eu me lembrava já da conversa de dias antes, lá estava: 'Serpe - As três águas do encanto' de Ana Sofia Paiva com ilustrações de LigeiramenteCanhoto. Que engraçado: a menina pequenina já cresceu e publicou um livro a sério, e logo um de poesia. Folheei. Espantada. Tão bonito, tão diferente, tão original, tão delicado. Claro que o trouxe. Este não conta para contabilizar incumprimentos meus, este é especial. Trazê-lo não foi pecado, foi mera justiça, mera obrigatoriedade.
Tenho estado a ler. Espantada. Quem poderia imaginar? Que distraída sou para nunca ter intuído. E que orgulho nela devem ter os pais. Que engraçada é a vida, sempre tão cheia de surpresas.
Transcrevo um pequeno excerto do livro que, até graficamente, é especial.
Quando aquilo de saber que ela era 'contadora de histórias', fui ao YouTube. E cá está ela. Já não é menina, já é uma mulher. Bonita, interessante, expressiva. Contadora de histórias. Investigadora. Poeta. Noutro vídeo vejo que também canta, noutros vejo entrevistas. Talentosa. Mas, curioso, comedida e sóbria como a mãe.
Aqui abaixo, contando um conto angolano. Quem diria...
[E, ao mesmo tempo, penso: parece que, não há muito, eu era a menina de quem as amigas da minha mãe diziam: cresceu, está uma mulher; mas mantém as mesmas feições, a mesma maneira de rir. Agora sou eu que me espanto de ver como as meninas de há pouco já são mulheres. E mulheres cheias de surpresas mas com as mesmas feições, os mesmos olhos cheios de vida]
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As fotografias foram feitas in heaven no último fim de semana. As três moldurinhas têm uns bordadinhos que fiz há mil amos, sem desenho, apenas pelo simples prazer de bordar.
Não brinquei ao Carnaval. Só há pouco, ao ver o noticiário, reparei que as ruas de muitas terras se encheram de caretos, caraças, carantonhas, matrafonas e baianas.
Quando eu era miúda mascarava-me sempre. Eu e amigas e amigos brincávamos ao entrudo e entronchávamo-nos com roupas velhas que as mães punham à nossa disposição. E andávamos pelas ruas a rir e a fazer barulho (supostamente a pregar sustos a quem passava). Era um bairro de moradias e, ao tempo, o trânsito não era um perigo.
Penso que era por essa altura que faziam um boneco gigante, julgo que fariam a roupa e a enchiam talvez de papéis velhos ou de trapos. Tenho ideia que o suspendiam numa cruz e a cegada acabava com o homem-entrudo a arder. Festejos pagãos, acho eu. [Podia agora ir pesquisar para ver se há fundo religioso nisto. Talvez. Ocorre-me que talvez fosse a figura do Judas. Whatever]
Quando já mais crescida, adolescente ou jovem adulta, passei a ir a 'assaltos'. Mascarávamo-nos, então, mais a sério e havia festa rija e bailarico. Mais tarde, era um primo do meu marido que se pelava por forrobodós que passou a organizá-los em sua casa. A coisa dava-se na cave da sua moradia e era coisa a preceito. Ninguém devia ser identificável. Era bem divertido. Aparecia muita gente e, até tarde na noite, não sabíamos quem era quem. Durava até alta madrugada.
O bocado de tronco do meu pinheiro caído de que ontem vos falei.
Parece que, com o tempo, tem vindo a adquirir feições humanas
e está sempre com florzinhas ou ervinhas
Passei depois para ser a mãe de meninos que se mascaravam. Na altura havia quem alugasse fatos para crianças, mas eu nunca aluguei. Não só não sabia se aquilo estava limpo como me parecia piroso. Então, entre mim e a minha mãe, improvisávamos alguns disfarces para os miúdos levarem para a escola. A minha filha teria preferido ir de dama antiga ou espanhola como via algumas colegas mas nunca consegui vencer aquela minha barreira e, portanto, nunca consegui dar-lhe essa alegria. O meu filho não apreciava grandemente ir mascarado pelo que julgo que até apreciava que eu não o pusesse disfarçado de qualquer coisa que o fizesse sentir envergonhado.
Contudo, já adolescente, lembro-me de o ver de personagem de Braveheart, kilt, cabeleira ruiva. Por essa altura, foi a minha filha que se tornou mais avessa a mascaradas.
Agora são os pimentinhas. No outro dia estava ela de espanhola, linda, mas, como sempre, superior, sem dar confiança, como se fosse normal andar assim, cheia de folhos, com flores no cabelo, toda maquilhada. O primo que é quase da idade dela estava de ladrão, todo vestido de preto e um passa-montanhas também preto que lhe deixava apenas os olhos de fora. Os outros dois rapazes vestiram-se de futebolistas pelo que o disfarce era relativo. O bebé estava apenas com um laço encarnado brilhante a fazer de papillon.
Mas pronto, aqui enfronhados nas nossas labutas, nem nos lembrámos do Carnaval. O mato e ramagens que debulhei, os montes que esmifrei para mais facilmente caberem no bidão... De novo, até de noite. O meu marido serrou ramos e ramos pois não queremos ramagens a roçar o chão porque acabam misturados com o mato. E queimou e queimou. Uma luta. Não é que o terreno seja infinito. Não é. As fotografias talvez induzam em erro ou as minhas palavras também. Não é daqueles latifúndios de que nem se sabe bem onde estão as extremas. Conheço pessoas que têm propriedades com largas centenas de hectares. Coisa a perder de vista, com barragens, habitação dos caseiros, caminhos largos, criação de animais, casas de hóspedes. Não é nem de longe nem de perto o nosso caso. Tem um tamanho bastante comportável e de tal forma que somos nós mesmos que tratamos dele. A questão é que tudo nele desatou a crescer desabaladamente. E por cada coisa que se serre há que transportá-la, cortá-la em bocados mais pequenos, queimá-la. Muito trabalho e um trabalho pesado. Pelo menos, para quem, como nós, não nasceu nestes meios nem está grandemente habituado a trabalhos braçais de sol a sol.
Do lado de lá da serventia e, portanto fora da vedação, há mais um bocado de terreno, coisa para pouco mais de mil metros quadrados e, do que me lembro, com uma bela vista. Mato pegado. Apesar de ser um bocado pequeno tem tal mato cerrado, árvores e moitas pegadas, que nós dois não conseguimos dar conta daquilo. Se tivessemos mais tempo, talvez. Mas só temos fins-de-semana minúsculos ou uns dois ou três dias de férias que, raramente, conseguimos enxertar no meio da vida na cidade. O vizinho do fim da rua veio ver. Estava muito admirado pois não lhe passava pela cabeça que aquele terrenozito também nos pertence. E logo ele que sabe tudo. Diz que tem um amigo que tem um tractor pequeno que pode vir cortar o mato. Salvaguardei que as árvores não e ele garantiu que aquela máquina pode poupar as árvores. E logo ali ligou para o outro, para ele vir avaliar e combinar connosco quando pode cá vir. Aí gostava eu de fazer uma casinha na árvore. A tal casinha. O meu marido tenta cortar-me a imaginação: 'Não inventes. Pára. Não estejas sempre com ideias'. Calo-me, portanto. Mas fico a imaginar uma escada de madeira a subir para uma casinha na alturas. Os meninos haveriam de adorar.
Bem. Com isto, como têm podido constatar, ando fora da actualidade. Não tenho assunto. Chego aqui à noite, salamandra a fazer quentinhos bons nesta saleta em que vemos a televisão, agora a beber um chá quentinho, a descansar. Estive a ver o programa do MEC com o Bruno Nogueira. Antes tinha estado a ver os vídeos que o YouTube tinha para me sugerir. E, uma vez mais, tinha alguns que mereceram o meu agrado. Partilho convosco este aqui abaixo, muito interessante. Há pessoas que se dedicam a actividades inesperadas. Há qualquer coisa de artístico e de oficinal nisto. Estava a ver e a pensar que eram origamis mas, afinal, são pop-ups. Há tantas maneiras boas para ocupar o tempo. E felizes aqueles que descobrem o que os deixa felizes. Pode ser cortar mato, escrever, fazer bolos, compor, pintar, fazer pop-ups, tanto faz.
Agora estou a ver um programa extraordinário na RTP 2 sobre falsários, pintores que fazem falsificações perfeitas. Agora Guy Ribes está a fazer um Matisse. É honesto na forma como fala, gosta do que faz e tem genuína admiração pelos pintores que falsifica. Interessante. Tenho visto bons programas na 2.
Mas, enfim, não importa o quê. Bom mesmo é a gente sentir-se motivado e feliz da vida.
Há uns anos, um conhecido meu falou-me que tinha estado em casa de um empresário endinheirado que tinha contratado uma artista plástica para lhe fazer uma peça artística com gravatas. Segundo me contou, era uma coisa com as muitas gravatas dele e com uma ventoinha por trás. As gravatas ondulavam com o ventinho. A autora de tão inspirada peça de arte chamava-se Joana Vasconcelos. Foi a primeira vez que ouvi falar dela.
Tempos depois começou a ser conhecida. O sapato alto com os tachos, o candelabro com tampões, o coração com talheres de plástico. Alguma graça. Depois viciou-se no género e tudo passou a ser espalhafatoso. A seguir o crochet. Muitas mulheres a fazerem crochet com lãs, os bocados unidos, coisas cobertas de crochet.
Para mim a obra dela tornou-se algo repetitiva e parecia-me que, às tantas, já só estava a trabalhar para a espectacularidade -- mas, enfim, era o que era. E se escrevo no passado é porque deixei de prestar atenção, não sei o que tem ela andado a fazer.
Pois bem. Agora, para meu espanto, sei de uma outra artista que desde há muitos anos faz coisas assim. Fui conferir e ainda mais pasmada fiquei. Se não estivesse a ver que era a tal Agata Oleksiak (aka Olek) a autora, juraria que era coisa da Joana Vasconcelos.
Caneco. Sou leiga e mais do que leiga nestas coisas mas, na minha mais pura leiguice, diria que uma plagia a outra. Ou então é daquelas coincidências do caraças. Até o processo é o mesmo: junta mulheres de uma comunidade e põe-nas a crochetar e depois, todas felizes, orgulham-se da sua obra.
Touro coberto de crochet de Agata Oleksiak (aka Olek)
Crochet is not generally viewed as a fine art, nor is it commonly used as a vehicle for social change. But New York-based artist Agata Oleksiak (aka Olek) is challenging those assumptions by elevating the craft and using it as a force for community building. With the streets as her canvas, Olek uses the help of local volunteers to crochet her large-scale crochet masterpieces. For her latest project, “Love Across the USA,” she will travel to every state in the United States to produce crocheted murals that celebrate prominent women in US history. With each unique installation, she’s developed an art form that truly belongs to everyone.
Por estas imagens que aqui escolhi talvez não reconheçam grandes parecenças mas vejam, por favor, o vídeo.