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quarta-feira, novembro 04, 2026

Na mesma noite, temos o Montenegro a fazer (uma fraca) prova de vida e, espero eu, o afogamento político do lame duck
-- E, ainda, um apelo para um crowdfunding feito pelo meu marido --

 

Desde o momento 1 que tenho e mantenho a mesma opinião: Montenegro não tem estofo de estadista, não tem cabedal para ser primeiro-ministro, não tem perfil de político democrático e moderno. 

De cada vez que o vejo em acção, só me faz lembrar aqueles tipos habilidosos, videirinhos, que conseguem ir-se safando por conseguirem andar naquele limbo de esperteza em que o que dizem não é declaradamente mentira mas também não é bem verdade, pelo menos não é toda a verdade, em que o que fazem não é verdadeiramente ilegítimo mas também não é eticamente muito correcto. São pessoas que, para confirmarem a sua razão, dizem: 'é tão verdade e tão correcto que, se fosse hoje, faria exactamente a mesma coisa', e fazem um sorrisinho matreiro como se, com isso, arrumassem quem deles duvide. E não percebem que estão apenas a demonstrar a sua tacanhez, uma tacanhez que é um misto de provincianismo, de falta de mundo, de auto-satisfação, de teimosia saloia.

Montenegro não tinha experiência de governação, não tinha experiência de gestão, não tinha experiência no mundo da economia real. Sempre rodeado de fiéis do seu círculo nortenho, Montenegro especializou-se, em conjunto com o seu grande amigo Hugo Soares, no drible retórico, nas tiradas trauliteiras, nas braçadas para sobreviver politicamente nos conturbados tempos em que Passos Coelho se gabava de ir mais longe do que a troika e em que, fosse o que fosse que acontecesse, a culpa era sempre do PS. Montenegro viciou-se nisso.

Quando eleito, formou um Governo em que grande parte dos ministros ou tem objectivos pouco transparentes ou tem uma agenda de contactos 'que interessam' ou tem apoios nas distritais ou nas cocelhias. Daquele grupo todo, talvez se salve um ou dois ministros e um ou dois secretários de estado. Não chega.

Herdaram, do PS, umas contas certas, procedimentos bem oleados, 'cofres' cheios, planos de acção em movimento, inciativas em vias de conclusão ou a caminho disso. 

Tendo ganho as eleições por criticar ferozmente o PS e por prometer resolver todos os problemas em três tempos, com uma perna às costas, fosse na saúde, na educação, na habitação, fosse onde fosse, o que é que Montenegro fez?

Pois bem. Montenegro montou-se nos planos do PS e começou a colher os frutos do que o PS plantou. E, com a nula humildade e a indelicadeza pacóvia que o caracteriza, em vez de o referir, não senhor, colhe os louros de trabalho alheio e finge que é mérito seu. E, ao mesmo tempo, mal agradecido, ainda tem a falta de vergonha de, sempre que acusado de não resolver nada, atirar as culpas para o PS.

E, para parecer que tem ideias próprias, Montenegro pôs os seus ministros a fingir que faziam reformas. Reformas nenhumas. Tretas. Mas nem tretas conseguem fazer em condições. O que tem acontecido é que estragam tudo em que tocam. Tudo. Não há uma em que tenham mexido que não se tenha ensarilhado completamente.

Com a agravante que, mesmo perante o descalabro, Montenegro teimosamente mantém o desastre. Não arreda os incompetentes que demonstram à saciedade que não dão conta do recado. Tem-se visto isto em todas as áreas. Por exemplo, na Saúde as notícias dão conta do desastre nas contas, gastam dinheiro como se não houvesse amanhã, e, no entanto, todos os indicadores estão piores. Não houve um único problema resolvido. Pelo contrário, vários problemas acentuaram-se. E, no entanto, Ana Paula Martins mantem-se em funções. Aconteceu o mesmo na Educação. Acontece o mesmo com outro que tal, o chico-esperto Luís Neves.

Por isso, não é novidade que na Habitação o que Montenegro tem para apresentar sejam resultados já obtidos pelos socialistas ou que resultam dos planos dos socialistas. Tirando isso, ao isentarem de IMT os jovens (até aos 35 anos) o que conseguiu foi que a procura tenha aumentado, segundo se diz com muitos pais a comprarem casas em nomes dos filhos, e com a garantia do Estado, o que toda a gente comprova é que isso aqueceu ainda mais o mercado, puxando o preço das casas para cima.

Depois de ter estado escondido durante semanas -- enquanto o país se dividia entre acampados e não acampados, entre a favor ou contra as bastonadas, com discussões legalistas sobre se as bastonadas vinham ou não a propósito -- eis que aparece, em horário nobre, para vir dizer que vai falar com o PS e com o Chega, deixando toda a gente a pensar que só pode ter levado um valente apertão no Conselho de Estado para que finalmente perceba que deve articular-se com a Oposição e para que tenha a coragem de se chegar à frente e dar a cara pelo Governo.

E que grandes novidades teve ele para nos comunicar? Anunciou o que fez, e era o que se esperava, que viesse tranquilizar as pessoas, mostrar que têm estado a trabalhar -- mas, por exemplo, se mexeu na lei dos solos, mexeu tão ao de leve que ninguém deu por isso, e, se vai chegar ao fim da legislatura com mais 50.000 casas (as tais que vêm do PS ou que são a concretização dos planos PRR), ainda bem, mas, caraças, não sabe que faltam mais 250.000? Talvez algumas venham de edifícios públicos reabilitados, mas, caraças, de quantos? E talvez algumas venham de mais casas que os senhorios ponham no mercado, mas, caraças, quantas? E não percebe que com esta instabilidade e esta inação e esta crise nas ruas o que acontece é o contrário, os senhorios retraem-se, ficam com medo de confusões e preferem desfazer-se das casas ou fechá-las?

Portanto, o que vi na conversa de Montenegro é que se mantém igual a ele mesmo: sem rasgo, sem ideias, sem estratégia. Além do mais, desgastado. Ou melhor: gasto.

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Entretanto, o meu marido enviou-me uma gracinha para eu publicar. Aqui vai:

Sugiro um crowdfunding para uma ida do Montenegro & Associados a Madrid

Vi nas notícias que o governo espanhol retirou centenas de tendas da Praça do Sol sem se ver uma única imagem de violência policial. Afinal é possível a polícia atuar de forma democrática e civilizada. Por isso sugiro a abertura de um crowdfunding para financiar a viagem a Madrid, pelo menos, do Montenegro, do Neves e do diretor nacional da PSP para um curso de formação acelerado com o Pedro Sanchez e restantes envolvidos na operação de Madrid. Alerto para que estejam atentos não vá o Neves ver algum atrelado ou algum Golf que lhe possa dar jeito e desencadeie ações de apropriação indevida, o que seria embaraçosa para a delegação governamental. Se os fundos forem suficientes sugiro também a ida do Leitão Amaro para transportar as malas.

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O pato devoto da Reflecting Pool vai ou não vai ao fundo?

Enquanto escrevo, estou a ver a evolução das contagens dos votos nas Midterms americanas, mas ainda não consigo atirar foguetes. Espero muito que o pato-patareco, coxo, anafado e tonto, leve uma abada que vá de banda, e não consiga sequer fazer aquilo que anuncia: que vai vetar tudo, ser o Sr.Veto. 

Mas desejo que o cataclismo trumpiano aconteça, que não dê sequer para levantar cabelo. Nos dias de hoje, para grande parte do mundo, seria uma das melhores notícias.

Vamos torcer, ok?

segunda-feira, novembro 02, 2026

É sempre bom haver um Rui Borges para bombo da festa, não é Varandas?
-- Obviamente, a palavra hoje é do meu marido --

 

Obviamente que a saída do Rui Borges não é o assunto do dia. 

O que releva verdadeiramente hoje é a enorme incompetência, o provincianismo e a falta de bom senso do governo e, sobretudo do Montenegro, que devido também aos tiques de autoritarismo que sempre demonstrou conseguiu transformar uma manifestação, cujo fim estava anunciado, numa situação bastante difícil. 

Mas também releva a forma, na minha opinião completamente desproporcionada, como a polícia carregou várias vezes sobre os manifestantes numa tentativa de intimidação injustificável num estado democrático seguindo, seguramente, indicações do governo. 

Mas, como sou sportinguista e tenho bastante simpatia pelo Rui Borges, vou referir-me à rescisão pré anunciada e hoje concretizada como treinador do Sporting. 

A grande maioria dos sportinguistas nunca terá perdoado ao Rui Borges a derrota na final da Taça e quiseram fazer-lhe rapidamente "a folha". Uma parte de comunicação social sempre o tomou de ponta e revelou uma animosidade que não consigo justificar, e que só serviu para acirrar ânimos e desestabilizar a relação do treinador com a massa adepta. O Rui Borges nem sempre tomou as decisões acertadas nos jogos e na gestão do plantel, o que foi sempre aproveitado para o criticar, geralmente de forma exagerada. 

Mas, na realidade, o Rui Borges conseguiu vitórias muito significativas como a dobradinha ou os quartos da Champions, o que raramente aconteceu com outros treinadores. Agarrou o Sporting num momento dificílimo e demonstrou muito mérito nos êxitos que conseguiu nessa época e na época seguinte, na qual,  tirando a final da Taça, as coisas não correram mal. 

Esta época a coisa não engrenou. Mas será que a responsabilidade é do Rui Borges? 

Há esclarecimentos sobre várias aspectos que ajudariam a esclarecer quem deve ser responsabilizado por este sofrível início de época. 

A primeira é sem dúvida saber quem teve a ideia peregrina de vender uma equipa e comprar um conjunto de jogadores com o objetivo de construir uma equipa nova. Só com uma sorte nunca vista seria possível transformar um conjunto de jogadores numa boa equipa de futebol em poucos meses. Quem terá acreditado nesta quimera? 

E as lesões, o que se passa com as lesões? Como é possível tantas lesões e tão prolongadas? 

É obvio que o Varandas,  sendo presidente, é o grande responsável pelo que se passou com a troca do plantel e também pela manifesta incompetência do departamento médico. Mas, como é costume, quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão. O mais fácil foi correr com o Rui Borges encontrando um bode expiatório para a incompetência que tem que ser atribuída à governação do clube. 

O Rui Borges parece-me um homem bom, honesto, humilde e trabalhador com quem sempre simpatizei e que me deu muitas alegrias como sportinguista. Desejo-lhe a melhor sorte porque, sem dúvida, merece. Quanto ao Varandas devia analisar os erros que cometeu e admiti-los, revelando alguma humildade que só lhe ficaria bem e sobretudo não fazer novas asneiras. Vai ser difícil e, ainda por cima,  não tenho grande fé no Paulo Fonseca. A ver vamos.

Viva o Sporting!

domingo, novembro 01, 2026

Ele jura que não se casou com a irmã, com nenhuma das duas, e diz que nunca se sentiu atraído por elas nem nunca as pediu em casamento

 

Trump é um comediante. É um misto de Bruno Nogueira, com um humor virado para o insólito, para o desbragado, para o politicamente incorrecto, e de Claude Verneuil, o personagem racista interpretado por  Christian Clavier que deixa toda a gente desconcertada com as suas tiradas xenófibas e inconvenientes.

Não só Trump sabe conduzir as emoções da plateia, como tem o sentido certo do momento em que deve falar ou ficar em silêncio, e da entoação adequada para levar ao rubro os que o ouvem. Sem qualquer filtro, diz o que lhe vem à cabeça. Improvisa, imita aqueles contra quem invectiva, inventa, insulta, ameaça, promete benesses -- o que calhar. Não tem receio de ser desmentido, não tem receio que os tribunais o condenem, não tem receio de nada. Tem a escola toda. Sabe-a toda, e tem grande parte da Justiça nas mãos. Nunca vi ninguém tão descarado, tão tresloucado, tão desconcertante. Dizem-no demente. Talvez. Talvez em cima do narcisismo, da crueldade, da estupidez e ignorância natural, haja mesmo aquele sintoama típico da demência: ausência de filtros.

E tem inimigos de estimação por quem manifesta raivas obsessivas, uma coisa tão excessiva que mais parece uma criança parva, mal educada.

Uma das pessoas que ele insulta, apouca e ameaça é Ilhan Omar, a democrata somali americana. Uma das coisas que ele não se ensaia nada para continuar a apregoar nos comícios é que ela casou com o irmão e teve filhos com ele. E, embalado com a conversa, derivou para si próprio. Inventou que lhe perguntaram se tinha casado com alguma irmã e, fazendo vozes e gestos, jurou que não tinha casado com nenhuma irmã e, sabe-se lá porquê, resolveu levar a conversa ainda mais longe, dizendo que nunca sentiu atração por nenhuma delas nem as pediu em casamento.

Como sempre, os Magas aplaudiram com entusiasmo. Diga ele o que disser, mostre-se racista, goze com defcientes, com árabes, com somalis  ou seja com quem for, os Magas aplaudem sempre.

'Juro que não fiz isso': Trump diz que foi questionado 'no início' da sua campanha se tinha casado com a sua irmã.


Mas nada como ver a dupla Joanna Coles e Michael Wolff a dissertar sobre o momento, nomeadamente o que esperam (e desejam) após as intercalares de 3 de Novembro.

Porque é que a Casa Branca de Trump está prestes a ficar muito feia | Dentro da cabeça de Trump

Michael Wolff e Joanna Coles abordam as eleições intercalares com uma análise das disputas que se intensificam em torno de Donald Trump. Wolff partilha uma atualização sobre a sua batalha judicial com Melania Trump e, de seguida, os apresentadores discutem o alegado acordo de 50 milhões de dólares assinado entre a ex-advogada de Trump, Alina Habba, e o seu conflito com Trump sobre dinheiro e influência. Wolff defende que a disputa pode ser um sinal precoce de uma corrida mais ampla entre as pessoas próximas do presidente. Avaliam também candidatos vulneráveis ​​do movimento MAGA, questionam se a queda das audiências da Fox News indica problemas para Trump e consideram o que os resultados de terça-feira podem significar para o seu domínio sobre o Partido Republicano.

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Entretanto, enquanto escrevo, as televisões estão a salivar à espera de mais um ensaio de pancadaria em Lisboa e no Porto, para haver de que falar nos próximos dias. Os manifestantes foram avisados de que deveriam levantar o acampamento. Mas os manifestantes não estão ali para cumprir ordens policiais mas para agir segundo a votação das assembleias populares. Acho que nem no PREC. Vamos ver no que dá. Podia ir espreitar as notícias mas não estou para isso. 

Por toda a Europa alastra a instabilidade. Os problemas são comuns. Enquanto Putin e Trump esfregam as mãos, gostava de aceditar que alguém está a equacionar medidas rápidas para apoiar os sectores mais vulneráveis da sociedade. Sendo certo que uma crise tão grande levará muito tempo a resolver, seria importante que houvesse quick wins, medidas de curto prazo e com impacto palpável para acalmar os ânimos, para trazer esperança. Uma sociedade sem esperança, entrega-se às promessas vãs do populismo.

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

terça-feira, outubro 27, 2026

Um tempo que não devia ser para meninos

 

Do pouco que vi televisão, concluí que continua o mistério: ninguém sabe do Montenegro. Mas todos relevam porque supostamente vai aparecer para defender o orçamento. Se aparecer ele e não for um clone a ocupar o seu lugar, certamente fará aquele sorrisinho sacanóide de quem tem alguma na manga para entalar o próximo. Mas quem é que o leva a sério quando já toda a gente constatou que, quando a coisa aperta, o menino fica em casa, deve dizer que lhe dói a barriga, que não quer ir à escola?

A mim o que me causa agora ainda mais pasmo é que li que o IHRU nada em dinheiro, aos mil milhões para isto, mil mil milhões para acolá. Julgava eu que o grande problema era não haver dinheiro. Não senhor, é o que não falta. Portanto, uma vez que dali não sai obra que se veja, só pode estar entregue a um bando de anhucas que se ensarilham em burocracia e/ou se embrulham em incompetência.

Em vez de irem buscar gestores que saibam dar ao pedal e que conheçam da poda, foram buscar o amigo de Esposende, fiel apaniguado do Hugo Soares e do gémeo Montenegro, que deve andar a nadar fora de água, sem saber como dar corda aos sapatos. 

E em vez da Oposição se centrar nisto e em coisas determinantes para os temas graves do país, andam todos armados em baratas tontas, a contar bastões ou a discutir se a lei das manifs deve ser alterada. Então não deviam era chamar o Benjamim à pedra e ele que dissesse qual o plano faseado para resolver a crise da habitação? 

Outra coisa que vi comprovada pelo Centeno é o que já aqui abordei. O dinheiro que os artistas das Finanças nos vão fazer chegar a mais em novembro e no subsídio de Natal pouco tem a ver com a mísera redução das tabelas de retenção de IRS. É um simples empréstimo para agora a malta ter mais uns trocos para gastar pelo Natal, mas que terá que devolver quando fizer o acerto para o ano. Disse o Centeno e bem que a oposição bem que pode ver como pode essa verba reverter para a malta em vez de, via pagamento de IRS, o devolver ao  piu-piu do Sarmento e ao chico-esperto do Mentenegro. Vamos ver o que estes tempos de negociação de orçamento nos reservam. 

Os tempos políticos andam efervescentes.

Enquanto isso, em Belém, o Seguro deve estar sem saber como sair destas alhadas. Imagino que deve estar cada vez mais com cara de menino da lágrima.

Há momentos em que a política não é para meninos.

segunda-feira, outubro 26, 2026

Sobre a vitória do Lula. E sobre o desnorte político sobre o real problema da habitação. E sobre o misterioso desaparecimento de Montenegro

 

Claro que fico triplamente satisfeita com a vitória do Lula - pelo Brasil, pela América Latina e pela democracia em geral. E, disso, que não haja dúvida. E estou a ouvir o seu discurso (rouquíssimo) e estou a gostar de tudo o que ele diz. Para além de ideias modernas e arejadas, tem uma humildade que, apesar da sua 4a vitória, parece manter-se genuína.

Contudo, tenho que confessar que me faz muita impressão quando a democracia não consegue arranjar líderes mais jovens. Lula, apesar de estar a dias de fazer 81 anos, demonstra uma vitalidade incrível, tem uma juventude de espírito notável. Mas poderia continuar na política, ser um ilustre conselheiro, ser um daqueles anciãos que todos escutam, e ao mesmo tempo, poderia haver um escol de brilhantes sucessores que garantissem a permanente renovação da democracia.

Mas, enfim, é o que é. E o que desejo é longa vida a Lula e longa e saudável vida à democracia brasileira. 

Enquanto escrevo, está o Flavinho, lídimo herdeiro moral do seu condenado papá, a pedir a anulação das eleições. Só espero que isto não venha a dar baderna. Há gente que não preza a paz. O mundo anda agitado. Os estúpidos andam descarados e o respaldo dos ainda mais estúpidos catalisa ainda mais a sua confiança. Um perigo.

Por cá, continuo a achar estranhíssimo que o Montenegro se mantenha afastado e em silêncio. Quase ignorando a sua existência, já há quem apele ao Seguro. Não sei o que pode o Seguro fazer a não ser um qualquer gesto de faz de conta.

Mas anda a intrigar-me este vazio. Seria normal que o Primeiro Ministro já tivesse aparecido a dizer o que é que o Governo já fez e o que vai fazer no âmbito da crise da habitação. Assim, dá ideia que nada fez e nada mais tenciona fazer. E isso é muito preocupante.

Li que o Moedas vai vender uns edifícios e, ao ler isso, ocorreu-me uma dúvida. Antes de ganhar as eleições, Montenegro falava nos milhares de edifícios devolutos que, se ele ganhasse, seriam usados para atenuar o défice de fogos habitacionais. Mas parece que a lista desapareceu. Será que, quer a nível do Governo quer das autarquias, andam a passar esses edifícios a patacos, marimbando-se na disponibilização de habitação pública? Gostava de saber. Os deputados deveriam exigir transparência absoluta nesta matéria (nesta e em todas).

Note-se que eu até poderia concordar que vendessem alguns edifícios, se a venda tivesse um efeito multiplicativo. Por exemplo, se a venda de um prédio na Avenida da República -- que, quando muito, daria para alojar, por exemplo, vinte famílias -- render uns milhões e, com esses milhões, se conseguirem fazer vários edifícios num local com menos cachet mas onde se poderão acomodar cem ou duzentas famílias, só posso aplaudir. Mas é isso que está a acontecer?

Onde é que está o plano de construção ou renovação objectivo e faseado para resolver o défice de 300.000 casas? Não conheço. Alguém conhece? É que não ouço ninguém a pedi-lo. Melhor: a exigi-lo.

Preferem andar às voltas do rabo, encalhados na treta da lei das rendas que não tem nada a ver com o que é preciso fazer. É apenas poeira. No entanto, é relevante, imprescindível, que se dê confiança, segurança, estabilidade aos senhorios, senão acontece como em Espanha: enchem-se de medo e retiram as casas do mercado. E tudo piorará um pouco mais. Aliás, não sei se isso não estará já a acontecer.

A questão dos inquilinos, a sua vulnerabilidade, a sua falta de capacidade financeira não se resolve dificultando os despejos. Pelo contrário, se não se facilitam, mais os senhorios (compreensivelmente) retiram as casas do mercado e as passam para alojamento local ou as vendem.

O problema da vulnerabilidade dos inquilinos é uma questão social e como tal assim deve ser resolvida. É um tema que tem que passar pela articulação com a Segurança Social. Ou seja,  não passa, nem pode passar, pelos senhorios. Identicamente, o alto preço das casas e das rendas só se reequilibrará com oferta pública ou cooperativa para aumentar a oferta e regular os custos 

Tudo isto me parece tão óbvio.

Outro aspecto: já referi que li no Expresso que seriam precisos 10 anos para resolver o problema. Se puserem pessoas anquilosadás, burocratas e incompetentes, nem sei se 10 anos chegam. Mas se houver gente com cabeça, novas ideias surgirão. Por exemplo, estive a ver casas e pequenos prédios pre-fabricados, com materiais que garantem a robustez e o bom isolamento térmico e acústico, que se montam em parques com infraestruturas preparadas (água, gás, luz, esgotos, arruamentos, etc). São processos rápidos e baratos. Com a vantagem de se dinamizar a indústria de construção dessas casas. Porque não se equacionam planos de curto prazo recorrendo a soluções deste género,?

Outro exemplo. Vi no Canadá um projecto que consiste em dar mini casas a pessoas sem abrigo. Quase parecem pequenos contentores com aspecto de casinhas. Lá dentro uma zona de quarto, uma casa de banho, uma salinha e uma kitchnete. Quem a recebe fica feliz, sente que recupera a sua dignidade. São soluções de baixo custo, muito rápidas, e que mudam a vida das pessoas. 

Se pensarmos não apenas nos nossos sem abrigo mas em todas as pessoas que vivem em quartos ou em bairros clandestinos ou em casas em que em vez de quatro ou cinco pessoas vivem vinte, percebe-se como, com vontade, energia, capacidade de planear e de executar, seria possível tirar rapidamente da miséria e da indignidade milhares de pessoas 

Ouvi também ao Arquitecto Souto de Moura, no programa do RAP, que há verbas disponíveis a juros baixos para quem queira construir casas em regime de cooperativas e que há promotores disponíveis para avançar. A questão é não haver terrenos disponíveis e não haver agilidade nos licenciamentos. Falou ele que no Porto são processos 'rápidos', três anos. Uma vergonha. Mas em Lisboa é pior, seis anos não chegam. Abaixo de vergonha. Diria que só mesmo à bofetada (e eu sou pacifista).

O que se passa para uma pouca vergonha destas? Devia ser coisa para dias, vá lá um par de meses. Estão as pessoas sem dinheiro para comprar ou arrendar casa e estão estas pessoas do governo e dos municípios a ensarilharem-se em papéis, em pareceres, com assessores para tudo e mais alguma coisa -- e sem conseguirem fazer nada de útil em tempo útil.

E eu pergunto-me: o que eu pesquiso, o que eu encontro, o que eu ouço, não ouve também o Montenegro, o Pinto Luz, a Secretária de Estado da Habitação (que nunca aparece, ninguém sabe quem é)? Não sentem necessidade de ir ao encontro das pessoas e resolver os seus problemas?

Parece que não. 

E os nossos políticos de meia tigela, que mais parecem cães a correrem atrás de qualquer osso que alguém atire para a rua, não são capazes de se focarem no que é o cerne da questão e não largarem esse osso? 

Oh pá, que canseira tudo isto. 

Em cima disto, o desaparecimento de Montenegro é apenas a desconchavada cereja em cima do bolo.

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Desejo-vos uma boa semana

domingo, outubro 25, 2026

A vida no campo relatada por uma dondoca da cidade

 

Quem por aqui me acompanha há mais tempo talvez saiba que estou acomodada no sofá mais estúpido de que há memória. Para poder estar minimamente confortável tenho que o reclinar, numa posição de chaise longue. Se não fizer isso, não chego com os pés ao chão, o que me deixa numa posição mais do que incómoda. Tudo resultou dos stresses do meu marido. Há uns anos, fomos a uma grande loja que tinha infinitos sofás. Eu também não gosto de fazer compras quando há tal profusão. Acho que só resulta se formos com vagar para experimentar os que estritamente nos agradam. Mas com o meu marido as coisas não funcionam assim. E também não era coisa que eu escolhesse sozinha pois trata-se do sofá em frente da televisão e, nesta sala, pela sua configuração, é aqui que ambos nos sentaríamos. Ou seja, não dá para ter um para mim e outro para ele  Temos mais dois mas estão noutra ponta da sala, não dão muito jeito para ver televisão.

Acontece que eu queria de pele ou afim para ser mais ou menos pouco sujável, queria claro, queria grande e queria que desse para reclinar. Mas obviamente também queria usar não reclinado. Só que eram tantos sofás que ele começou a ficar farto. A senhora, apesar de eu lhe pedir que nos mostrasse apenas os que cumpriam os requisitos, fazia questão de ir mostrando outros. E nós os dois, sem apoio, naquela babel de sofás não nos orientaríamos pois sabia-se lá onde estavam os botões ou se dava para mexer à vontade. 

O meu marido bufava e, de cada vez que ela mostrava um, dizia 'pronto, vai esse'. Mesmo que fosse de uma dimensão inviável, de um feitio inapropriado ou num material desajustado. Eu própria já estava desorientada pois entre a calma catatónica da senhora e o aceleramento stressado do meu marido já mal conseguia raciocinar. Até que vimos este. Bonito, material perfeito, cor nos conformes, dimensão certíssima. Disse ao meu marido que se sentasse a ver se o achava confortável. Não quis, disse que era bom com certeza, que despachássemos o assunto. Acho que ainda me sentei num canto para ver se era agradável em termos de estofo. Mas tenho ideia que já ele se dirigia para o pagar. Não me apercebi do resto.

Quando o montaram cá em casa, ficou perfeito aqui onde está, parecia feito à medida. Só que, sentando-me normalmente, não chego com os pés ao chão. O meu marido claro que desvalorizou, disse que não tinha culpa que eu fosse anãzinha. Ora posso não ser gigante mas também não sou pequenininha, o sofá é que foi concebido para se reclinar até ficar uma cama, aliás, em duas camas pois reclina separadamente em cada uma das pontas, e, para se reclinar assim, tem que partir de uma base alta. E isso é chato.

Portanto, aqui, ou estou quase deitada ou tenho que ir para os outros sofás. Só que os candeeiros de leitura e as mesinhas de apoio que me dão mais jeito estão aqui. Ou seja, não sei quantas vezes já tive vontade de empandeirar este sofá. Limita-me a mobilidade, chateia-me, obriga-me a estar para aqui feita inválida, quase deitada, o tempo todo. 

Mas, enfim, reclamações à parte, tenho a dizer que fomos almoçar fora, à tasquinha de uma aldeia aqui perto. Pasmei, como sempre pasmo, com as quantidades brutais que a maioria destas pessoas come. Até gente gorda, obesa mesmo, enfarda como se não houvesse amanhã. E coisas que engordam. Quase dá vontade de ir às mesas deles dizer que tenham juízo, que o que estão a comer é um puro disparate.

Por aqui, o meu marido andou a pregar ninhos para chapins no tronco de alguns pinheiros. Ele leu, e confirmou isso com uns técnicos de conservação da natureza, que, para combater a lagarta do pinheiro, o melhor é haver chapins por perto, uns passarinhos pequenos que as comem. Tem que se colocar os ninhos lá bem em cima no tronco, virados a leste. Então levou a escada grande, e eu cá em baixo, com a bússola, confirmava a posição correcta e passava-lhe os ninhos, e, em alguns casos, segurava a escada que nem sempre podia ficar excelentemente apoiada e uma queda lá das alturas não era coisa que se recomendasse.

Se forem ao meu Instagram poderão ver, na story, imagens quer dos ninhos quer do acto da sua colocação. Aqui mostro um acabadinho de colocar. 

Vamos ver se resulta. Odeio aquelas bichas ordinárias que causam alergias e são um perigo para o nosso cão que já uma vez ia indo desta para melhor por causa delas.

Também me fartei de comer medronhos, docinhos, docinhos. 

Quando resolvi ir varrer já se estava a pôr um frio dos diabos. Por isso, fica para este domingo.

Andei foi, de gosto, como sempre a caminhar, passarinhando, fotografando. As cores do outono são lindas. 

Outubro, em especial, traz-nos as maravilhosas cores de fogo, cores de fruta madura, cores de sol ensandecido, cores esplêndidas que não me canso de louvar e agradecer aos deuses.

Quanto ao expediente, continuo, claro está, limitada ao telemóvel. Portanto, auto limito-me na prosa. Pequenos espaços não são compatíveis com a minha pulsão torrencial.

Estava com vontade de partilhar as conclusões de umas pesquisas que fiz para tentar perceber o que há de comum entre Portugal, Espanha e todos os países em que a falta de casas está a deixar as populações ao rubro. Por cá pode falar-se numa lei dos solos demasiado restritiva que já devia ter sido revista há muito tempo ou na ausência de investimento em habitação pública, nomeadamente social. Mas aconteceu o mesmo, ao mesmo tempo, em todos os países em que, de repente, todos parecem ter acordado para um défice de centenas de milhares de casas? Pouco provável, não é? Pois, e o que concluí é interessante e, para ultrapassar esta crise danada em tempo útil (leia-se, enquanto dura a democracia) será requerida uma abordagem multi factorial sólida, inteligente, pragmática. E onde estão políticos com cabedal e pedalada para isso? Não se divisam, infelizmente.

Mas não é aqui neste rectângulo minúsculo do telemóvel que posso desenvolver um tema destes. Gaita para estas limitações que me tolhem a agilidade de escrita (e até a mental, acho eu).

,..,.........

Desejo-vos um feliz dia de domingo

sábado, outubro 24, 2026

Gaita para isto!

 

É aquela marezinha. Quando parecia que tudo estava a encaminhar-se, eis que o computador deixou outra vez de trabalhar. O meu marido, com a sua usual falta de empatia, goza: "Não gostou do mergulho". Aborrecida como estou, não consigo achar-lhe graça.

Na verdade, uma hora antes, quando o fui pousar na mesinha de apoio, escorregou e foi parar ao chão (refiro-me ao computador, não ao meu marido). Mas apanhei-o e continuou a trabalhar normalmente. Estava com pouca carga. Entretanto fomos jantar. De regresso, abri-o, estava a trabalhar, quase sem carga. Liguei o carregador. E, nesse preciso instante,  apagou-se. Aparentemente de forma fatal. Não carrega, não dá sinal de vida.

E não tenho sucedâneo. Estou a escrever no telemóvel o que, em termos de formatação, deixa muito a desejar (ou então eu é que sou too much naba, o que também é muito provável).

Já agora: na quinta-feira à noite estava tão KO que me aconteceu uma première: fui para a cama sem publicar o que tinha escrito. Na sexta, quando fui espreitar, não aparecia. Fiquei intrigadíssima. Mas foi isso que aconteceu, acabei de escrever e pirei-me para a cama. O estadozinho em que eu estava...

Entretanto, se há notícias escaldantes, desconheço. Não quero saber.  Está sexta-feira foi, quase..., dia de detox.

Portanto, o que posso dizer é que a terra está seca, seca. Não há sinal de cogumelos nem se avizinha perspectiva de chuva, e isso aborrece-me. Em contrapartida, mal o sol começa a despedir-se desce um frio do catano. Tive que ir buscar uma capa de lã, porque era impossível estar lá fora só de manguinha curta. 

Estivemos a ver o Interiors Design Masters que, para ambos, tem sido muito inspirador. Não perdemos um episódio. Dá-nos vontade de meter mãos à obra e já começámos a equacionar alternativas e o modo de as executar. Antes tínhamos estado a fazer zapping mas sem conseguirmos fixar-nos em lado nenhum. Claro que o omnipresente tema é o da habitação mas já chegámos a um ponto em que achamos que o único que sabe do que fala é o Isaltino. Ao que chegámos.

Ontem ouvi uma mulher que tinha ido dar o seu apoio aos jovens no Rossio, e que dizia que nos idos de mil novecentos e troca o passo o pai tinha ocupado uma casa e que era esse o conselho que tinha a dar, que ocupassem casas. As pessoas estão a desorbitar. E não percebo que raio de situação está a passar-se com o Montenegro para deixar este vazio. Desapareceu. O meu marido diz que é típico dele, fica na moita à espera que a onda passe. Não sei, parece-me que pode estar com algum problema familiar ou coisa grave do género, pois não me parece normal que, no meio deste granel, o primeiro ministro pura e simplesmente se escafunda, sem dizer água vai.

Mas isto não é bom, até porque a política, tal como a natureza, tem horror ao vazio -- haverá sempre alguma coisa que o vai ocupar. E, nisto, o que mais rapidamente lá chega são sempre os fluidos, o que, em política, dá pelo nome de populismo.

Enfim. Fico-me por aqui. Isto de escrever no pequeno espaço do visor do telemóvel, atrofia-me a pica, sinto-me de mãos atadas, a escrita parece que não tem campo para se desenvolver.

E só de pensar nisto... Lá vai o computador outra vez para a oficina, lá vou andar outra vez condicionada. Que gaita, esta.

Olhem, tenham um bom fim-de-semana, ok?

sexta-feira, outubro 23, 2026

Tudo se resume a isto

 

Dia muito preenchido com limpeza e obras no telhado e obrigação do cão estar fechado em casa o que duplamente o iritou, ladrando e saltando, furioso e inquieto, todo o santo dia. E, como sempre, nunca nada corre extraordinariamente bem porque para umas coisas eram precisos uns andaimes que não vieram, depois, do que percebi, tiveram que ir comprar mais tinta, e, portanto, há sempre deslocações que atrasam o rendimento, e depois o que se vê que precisa de outra demão para eles é sombreado, amanhã, com o sol a dar, vai estar bem. Etc, etc.

E depois um telefonema ainda relacionado com a casa que era dos meus pais, e mais chatices, quando não são de um tipo são de outro. E, na sequência disso, vários telefonemas e nenhum para me tirar chatices de cima, pelo contrário.

Para agravar, acho que nem me dei conta que a temperatura estava a baixar e, quando dei por mim, não apenas estava com frio como com pingo. Vamos ver se não me resfriei.

Quando me sentei aqui no sofá tive que fazer um grande esforço para não adormecer. Mas não pude permitir-me a isso pois tive que andar a consultar legislação (leis e regulamentos em barda, uma canseira) para perceber como reajo a mais esta e, por isso, agora, meus Caros, estou mesmo para lá de Bagdad. É que, ainda por cima, em todos estes dias tenho andado a ser acordada pelo despertador (coisa que odeio, perturba-me verdadeiramente o biorritmo) e, apesar de a seguir ao almoço, bater uma vontade de me encostar e fechar os olhos, não tenho podido fazê-lo. Por isso tenho que ir antes que caia para aqui em cima do computador. 

Por isso, espero que compreendam mas, por agora, não dá mais, fico-me por aqui. É fraco, bem sei, talvez ainda mais do que nos restantes dias, mas tem que ser, hoje resume-se a isto.

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Mas antes: agora, finalmente, parece claro que a lei do arrendamento, a nova, a velha ou a que há-de vir, tanto faz, não acrescenta um pint... à resolução do problema da crise na habitação (ai o que eu ia escrever, o sono tende a fazer-me ficar sem filtros, o que vale é que travei a tempo). O que resolve, gaita!, é haver mais casas, centenas de milhares de casas. Mas, bolas, que inércia mais desgraçada, vejo no Expresso que seriam precisos 10 anos. 10 anos?! Cambada de atados. São precisos 10 anos se continuarmos nas mãos de burrocratas (o erro é deliberado), mangas de alpaca, políticos de meia tigela, pessoas que se atrapalham umas às outras. Nas mãos de quem queira resolver mesmo o assunto, saía um plano que incluísse aproveitamento de quartéis, edifícios públicos sem uso, etc, etc, e entre reabilitações, aprovações de tipo flash aprovações, e construção rápida e económica, a ver se dentro de 1 ou 2 anos não iam começar a aparecer casas em força. Não têm que ficar todas prontas dentro de 10 anos, podem disponibilizar-se, distribuidamente pelos municípios onde fazem falta, mil aqui, duas mil acolá, e mais quinhentas ali, e no ano seguinte mais vinte mil ali e mais quinze mil noutro sítio e mais doze mil no outro. Tudo somado, muita gente ia ficando com o problema resolvido. Agora da maneira que são, uns fala-baratos, só me faz lembrar aquilo que o comandante lá da marinha onde o meu marido andou dizia que a quem não sabe f...r até os pêlos do c. atrapalham. Nem mais. Uns atados que só sabem mandar bocas uns para os outros, inventar dificuldados, empurrar pretextos com a barriga, e fazer o que é preciso está bem, está. Gentinha imprestável. 

E, o meio disto, outra coisa: na realidade, que é feito do Montenegro? Descurtiu disto? Desaderiu? Acha que já deu demais para este peditório e foi à vidinha dele? Por acaso, é um bocado estranho. Mas, enfim, há males maiores.

Vou dormir, antes que a desconversa descarrile mais do que a conta.

Votos de um dia feliz.

domingo, outubro 18, 2026

Muita parra e pouca uva

 

É o caso. Vejo as manifestações em que supostamente se protesta contra a carestia das casas à venda e contra a dificuldade em arrendar casa -- e apesar de concordar que a vida está para além de cara e que as casas estão a ser vendidas a preços exorbitantes (pelo menos nos maiores centros urbanos) e parte significativa das casas antes colocadas em arrendamento habitacional se terem virado para alojamento local, reduzindo, portanto, as outras -- e o que vejo ali é um total desfocamento em relação às causas dos problemas.

Ou seja, o que vejo é muita parra e pouca uva. Se espremermos tudo o que ali se diz e faz, o que sobra é uma mão cheia de nada. Poderia surgir um caderno reivindicativo com cabeça, tronco e membros, com pernas para andar. Mas não, nada.

Aprendi, nos meus estudos, que primeiro há que perceber qual o problema, formulá-lo correctamente, e, só depois, se pode encontrar a solução. Por exemplo, se uma pessoa estiver sem conseguir andar, sem se conseguir pôr de pé, sem conseguir mexer as pernas, é absurdo andar aos gritos a reivindicar que lhe cortem o cabelo. Pode até acontecer que esteja com o cabelo comprido e que gostasse de andar de cabelo curto, mas, na verdade, isso não vai resolver o problema de não conseguir andar. Diria eu que primeiro haveria que examiná-la para perceber a origem do problema: uma hérnia? osteoartrite? outra coisa? Só depois de feito o diagnóstico, seria possível encontrar uma solução: cirurgia? fisioterapia? outra coisa? E, sabendo-se a raiz do problema e qual a solução para ele, se reivindicaria então meios para que a solução fosse possível.

Ora o que eu vejo e ouço nas manifestações e nos partidos que as apoiam é gritaria, cantoria, mas, de concreto, nada que se aproveite. Falar na lei do arrendamento, querer que se reduzam as garantias aos senhorios é apenas muito estúpido. Veja-se o que está a acontecer em Espanha na sequência das manifestações e na perspectiva de mexida na legislação: uma parte importante dos proprietários está a retirar casas do arrendamento, com receio do que possa acontecer. Numa altura em que é preciso que o máximo de casas sejam postas a arrendar, a instabilidade e a perspectiva de que sejam dificultados os meios em caso de incumprimento, fazem com que os donos da casa receiem sujeitarem-se a problemas. Preferem vender as casas ou esperar que tudo acalme. Do que li, numa análise feita junto de cerca de 600 agências imobiliárias em Espanha, nas últimas semanas, as percentagens de retração no mercado de arrendamento são significativas, variáveis entre cerca de 20% até 50%. Portanto, só por estupidez ou burrice encartada se pensa que a solução para o problema da habitação passa por reduzir as garantias de estabilidade e de segurança junto  dos senhorios. Na verdade, produz o efeito contrário.

Por cá, na manifestação, creio que era em Lisboa, ouvi uma senhora a dizer que não tem trabalho nem família, e que a senhoria quer que ela saia. E dizia isto como se fosse suposto que a senhoria a albergasse sem receber dinheiro, isto com a senhoria a ter que continuar a pagar IMI, seguro, manutenção da casa, se calhar condomínio. E eu pensei: mas o que pode fazer um senhorio numa situação destas senão pedir ao inquilino que saia? Um senhorio é um cidadão com tantos deveres quanto todos os outros, não lhe compete substituir-se à acção social e ficar a perder dinheiro para resolver casos sociais. Um caso destes é um caso social e, como tal, deve ser tratado. E a casa deve ficar disponível para quem anda à procura de casa e consegue pagar a renda. A menos que a segurança social pague a renda.

Uma outra, na manifestação, dizia que se tinha separado e tinha um pequeno negócio e não consegue arranjar casa. Claro. Posso estar a subestimar o negócio, mas, do que vi e ouvi, admito que provavelmente tem um daqueles 'negócios' de venda de 'cenas', se calhar via facebook, tudo à margem de qualquer registo. Que banco empresta dinheiro a alguém sem rendimentos declarados? Ou que senhorio mete lá em casa alguém que não tem como provar que pode pagar a renda? 

Cada caso é um caso mas os casos devem ser tipificados e deve ser possível, para cada caso, dizer qual o enquadramento: se o problema é do tipo A, a pessoa deve dirigir-se ao sítio X, onde tratarão de lhe arranjar alojamento até que consiga arranjar rendimentos para poder viver sem apoios. Se o problema é do tipo B, deve legalizar o negócio, organizar-se, provar os rendimentos e fazer-se à vida.

Quanto à juventude que vi a saltar, a cantar, a dançar, a tocar tambor, e que não consegue comprar casa ou arrendar apartamentos no centro da cidade (e até vi uma miúda de 15 anos e outro de 18, acampados, na maior alegria, a garantir que iam passar ali a noite), o que tenho a dizer é que devem procurar casa nos subúrbios ou dividir casa com amigos -- até que o Governo volte a ter programas de habitação jovem. Quando eu era jovem havia ali nas Forças Armadas, à esquerda de quem subia, uns prédios enormes da EPUL, rendas baratas, a que os jovens poderiam concorrer. Sei que a EPUL já não existe e se calhar está na altura de avançar urgentemente com uma coisa similar: construção em força de apartamentos para jovens. E creio que a EPUL era só para Lisboa. Mas devia haver disto em todos os centros urbanos em que há carência de habitação.

E, volto a dizer o que disse há dois dias: quem está ali manifestar-se não são os mais carenciados, os muito pobres. Mas não podemos esquecer-nos deles, dos que não têm voz. Para esses é urgente, urgente, avançar com casas com fartura, milhares. Habitação social em força.

Quando sabemos que existem centenas de edifícios devolutos do Estado (da Administração Central, dos Municípios, da Segurança Social, das Forças Armadas), de que estão todos à espera para avançar com reabilitação disso para disponibilizar casas e casas e casas a quem precisa, a preços baixos?

E de que é que os partidos estão à espera para reivindicar isso?

E de que é que os babacas do Governo, uns verdadeiros envaginados, igualmente muita parra e pouca uva, estão à espera para vir sossegar as pessoas e anunciar um plano realista, ambicioso, urgente, de disponibilização de milhares de casas de diferentes tipos: habitação social para os muito carenciados e habitação acessível para jovens ou mediamente carenciados (ie, não em situação de grande pobreza)?

Faltam recursos? Certo. Faltam sempre. Mas, quando são precisos, também aparecem sempre. Sejam criativos, façam parcerias com quem tem dinheiro, sejam investidores privados sejam instituições de solidariedade social (já agora: alô, alô Igreja Católica! Onde andam vocês quando são precisos?), mobilizem-se recursos europeus, mexam-se, puxem pela cabeça, dêem corda aos sapatos.

Não há pachorra para tanto imobilismo por parte dos que podem e devem fazer alguma coisa e tanta estupidez por parte dos que fazem barulho mas não são capazes de parir uma única ideia inteligente.

Acampar, tocar tambor, dançar e cantar, apelar à violência, incendiar caixotes do lixo ou fazer discursos incendiários, isso, na prática não faz mover o assunto nem um milímetro na direcção da resolução do complexo problema da falta de habitação em Portugal. E o governo ficar de cabeça enfiada na areia muito menos.

sexta-feira, outubro 16, 2026

Sobre o rapazinho malcheiroso que veio entregar coisas a minha casa

 

Estava ainda na cama e já o telefone tocava, que não tardaria estariam a chegar. De imediato liguei ao meu marido a avisar que estavam quase a chegar as coisas (para a remodelação da casa de banho). Há sempre este lado logístico, de garantir que o cão fica isolado. Fui fechar um dos portões e passado um pouco já ele tinha chegado a casa, já andava a pôr a fera do lado de lá. E imediatamente chegou a camioneta e logo começaram a descarregar. O rapaz que carregou o material mais pesado e que trouxe o móvel mais alto e o móvel com o lavatório para dentro de casa era quase um miúdo, novinho, magrito. Negro, de gorro, com um casaco desportivo. A força dele impressionou-me. O colega estava na camioneta a passar-lhe as peças que ele carregava. Mas o motivo que aqui me faz falar dele é outro: o cheiro. Horrível. Um suor antigo, impregnado, um misto de cebola e de putrefacção. Quando saiu tivemos que ter portas e janelas a arejar, e custou a sair. 

Pensei que alguém deveria avisar o apaz de que não pode andar assim em casa das pessoas. Mas depois ocorreu-me que provavelmente vive num daqueles dormitórios em que se acumulam, com uma casa de banho para muitos, se calhar com banhos condicionados e, até, sem banhos.

Um rapaz destes não ganha mais que o salário mínimo. E, com o salário mínimo, na melhor das hipóteses partilha-se um quarto ou vive-se num bairro clandestino.

Por vezes quando caminhamos, passamos por uma rua em que passa um autocarro. Ao fim da tarde juntam-se, na paragem, alguns jovens que vêm de fora daquela zona residencial, de um sítio em que há alguma construção nova. Todos os rapazes são negros. E cheiram sempre muito bem, a banho acabado de tomar, a desodorizante acabado de pôr, a perfume. Aquelas obras pertencem a uma zona de construção de qualidade, em que há certamente balneários para os trabalhadores.

Mas, no sector das cargas e distribuição, não deve haver balneários. Aquele rapazito não deve tomar banho há algum tempo nem deve conseguir lavar a roupa em condições. 

Ao ver os manifestantes no Porto, constato que é outro patamar: são jovens estudantes, talvez bolseiros, nitidamente classe média ou mesmo abastada. Não conseguem arrendar ou comprar uma casa no Porto. Compreendo as suas razões. Os centros das cidades não deveriam ter sido reconvertidos em Alojamento Local. Uma rapariga que trabalhava comigo, em Lisboa, e que era do Porto, tinha a casa, no sentro do Porto, em AL e dizia-me que ganhava tanto ou mais com aquilo do que com o seu ordenado na empresa, e na empesa ganhava bem. Compreende-se que os donos das casas as ponham em alojamento local, se é um rendimento interessante,

Mas, como em tudo, há sempre o outro lado da questão. 

Antes de me casar, eu e o meu marido andámos à procura de casa. Obviamente não tínhamos dinheiro que chegasse para uma casa no centro da cidade, e aceitámos isso com naturalidade. Ainda me lembro de andarmos a ver casas em subúrbios onde nunca antes tínhamos posto os pés, lugares que nos pareciam lúgubres, e aceitávamos isso sem drama, para nós era óbvio que com os nossos parcos rendimentos e sem património, não poderíamos almejar ao mesmo que quem já estava mais instalado na vida, mais folgado de dinheiro. Nem nos ocorria pedir ajuda aos nossos pais. Era uma decisão nossa, casar e arranjar casa, pelo que nos parecia natural resolvermos tudo pelos nosso próprios meios. Como nem mesmo assim conseguíamos, resolvemos que ficaríamos a viver no quarto em que eu vivia, um quarto de estudante, numa casa habitada por uma senhora de alguma idade que ficou toda contente com essa perspectiva. E tomámos essa decisão sem qualquer fatalismo, auto-piedade, ou revolta. Pelo contrário, com muita naturalidade. Aconteceu, porém, que dias antes de casarmos, soubémos de um apartamento T1, numa cidade em que nem eu nem ele alguma vez tínhamos posto os pés e que sempre tínhamos associado a uma cidade-dormitório. A renda era baixa, conseguíamos pagar. Ficámos felizes da vida. Foi a nossa primeira casa.

Agora, parece que todos os jovens em início de carreira se acham com direito a arranjar casa no centro das cidades. Parece que não há aquela noção que eu e o meu marido tínhamos de que começávamos por baixo, com o que nos era possível, e que logo iríamos progredindo.

Mas ocorreu-me uma outra coisa. Quem está a protestar, seja no Porto, seja em Madrid, seja onde for que se protesta, são jovens que nada têm a ver com os que, de certeza, de certeza muito absoluta, têm verdadeiras carências a nível habitacional e que, porque têm que trabalhar de sol a sol, nem conseguem manifestar-se.

O rapazito magro que hoje deixou a minha casa a feder de certeza que não acampa no centro de uma cidade nem se manifesta. São os pobres, muito pobres, que não têm voz e que mais precisam de uma casa digna.

Toda esta conversa, todas estas manifestações, todos estes debates, todas estas medidas não resolvem o verdadeiro, o gravíssimo problema da habitação. E o problema é tão simples quanto isto: não há casas que cheguem. Em especial não há casas para os mais pobres, em particular para os imigrantes. Claro que também não há casas para os jovens estudantes ou em início de carreira, e isso também tem que ser resolvido. Nada disto se resolve a não ser com mais casas. Muitas casas.

E tem que haver habitação social, pública, rápida, económica, se calhar de uma gama mais baixa, e não é por discriminação mas sim pelo valor do investimento, porque são muitas casas e porque essas têm que aparecer rapidamente, tem que se construção económica, provavelmente em terrenos cedidos pelos municípios (como o Isaltino passa a vida a falar). E depois têm que aparecer outros bairros, também muitos prédios, esses do género dos de Espanha, com jardins, com parques infantis, construção também rápida mas a cargo de PPP, parcerias público-privadas, terrenos públicos, construção privada. 

Enquanto o Governo e os municípios não perceberem que é nisto que têm que se concentrar, o problema vai persistir, vai engrossar, vai extremar-se

A esquerda, mais uma vez anda a reboque da burrice, a fazer dos senhorios os bodes expiatórios, quando nada disto tem a ver com senhorios. Se os senhorios põem as casas a arrendar por 2.500 ou 3.000 euros e aparecem inquilinos, tudo bem, é porque há mercado para isso. E se os inquilinos não pagam, pois que seja fácil pô-los a andar e que seja dada a vez a quem paga. Mas isto é fait divers. Nada disto tem a ver com a crise da habitação, com a tremenda escassez de casas, são centenas de milhares de casas que estão em falta, só na Grande Lisboa cerca de 300.000. 

E que não se centre a discussão nos filhos-família que não conseguem comprar ou arrendar um apartamento no centro da cidade, olhe-se também para os esquecidos, para aqueles que não se manifestam, para as milhares de pessoas que constroem as nossas casas, que distribuem as nossas encomendas, que limpam as ruas, os hospitais, as que tratam de doentes e idosos -- toda essa gente indispensável ao funcionamento do país e que, coitados, mil vezes coitados, não conseguem ter as mínimas condições de vida digna.

O problema da habitação é um problema gravíssimo. E ainda não vi uma única proposta de solução.

De vez em quando ouço o Moedas ou o Pedro Duarte ou um qualquer outro munícipe apresentar como um feito que foram atribuídas mais uma meia dúzia de casas. Só me apetece lá esta e ter uma vuvuzela para fazer barulho e protestar: não é de meia dúzia de casas que deveriam estar a falar, caraças, isso é apenas ridículo, a escala tem que ser outra --  eram milhares de casas, fiadas e fiadas de prédios, que deveriam estar a ser construídas e atribuídas. 

Li que o António Costa está a querer trazer o tema da habitação para o centro da preocupação europeia e acho muito bem. Que imprimam dinheiro, que lancem obrigações, que inventem fundos, qualquer coisa, mas que se mobilizem os primeiros ministros para anunciarem para o curto prazo projectos a sério de construção de habitação a custos acessíveis e com licenciamentos ágeis e processos construtivos rápidos.

Mais do que a porcaria do IRS jovem que não serve para nada a não ser para dar uma valente talhada nas contas públicas ou do que a isenção do IMT para os jovens que só tem servido para aumentar a especulação, o que fará com que os jovens se fixem e formem família e procriem (sejam eles jovens estudantes ou jovens em início de carreira, sejam jovens imigrantes brutalmente carenciados) é que tenham casa, que sintam que podem ter uma vida digna. Mas, a nível dos muito pobres, não são só os jovens que têm falta de casa. No outro dia, numa reportagem, uma senhora, também imigrante, dizia que trabalhava num supermercado. Mulher de meia idade. A viver numa casa clandestina, num bairro clandestino. Nem morada conseguem ter. Isto é de uma indignidade brutal. E não vejo ninguém a lutar por estas pessoas. Onde andam as esquerdas que parece que se esquecem dos mais pobres? E onde anda a beatagem? Em vez de andarem a bater perna a caminho de Fátima ou lá de velinha a cantarem, não poderiam mobilizar-se em favor destas pessoas, nem que fosse apenas para pedir soluções para que possam ter uma vidgna digna?

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Desejo-vos uma sexta-feira feliz

domingo, outubro 04, 2026

De que é que ele tem mais medo? -- Que descubram que é estúpido

 

Po vezes quase descreio da bondade e da inteligência da humanidade -- humanidade lato sensu, leia-se. Ao mesmo tempo que escrevo, apetece-me ironizar, gozar comigo própria por parecer que estou a dramatizar.  E estou. Mas, ao mesmo tempo, forço-me a esfriar as ideias. Já aqui escrevi: se fizermos uma viagem literária às arrecuas (arrecuas temporais, entenda-se),  vamos ver que, em todas as eras e em todos os quadrantes, os escritores mais observadores ou mais dados à crónica social achavam que estava tudo mal, cada vez pior, que a classe dirigente era uma miséria, que a decadência moral estava a corrroer os alicerces do futuro. E, no entanto, o mundo foi andando, muitas vezes aos solavancos, aos pinotes, muitas vezes desviando-se dos caminhos morais, muitas vezes anulando o progresso que outros construindo. Mas foi andando. Não colapsou. 

No meio das descrenças e decepções, vamos, portanto, andando.

Pela parte que me toca, lembro-me de, colectivamente, termos atravessado períodos de incerteza, de crise, de desalento. Crises financeiras, guerras por motivos inventados, a pandemia -- por exemplo. No entanto, não tenho ideia de um período em que a descrepitude moral fosse tão gritante. Em muitos países elegem-se como representantes os mais ignorantes, os mais broncos, os mais mal-intencionados, os mais inescrupulosos.  Os países em que isso acontece são, assim, arrastados para situações inimagináveis, para guerras absurdas, para impensáveis derivas imperialistas, para cruéis atentados, para situações em que os mais pobres ficam mais pobres e os mais ricos se tormam destemidos e desencabrestados oligarcas.

Olho para o mundo e não reconheço lógica ou inteligência, vejo perigosos aventureirismos, vejo desatinos atrás de desatinos, riscos impensáveis nas mãos de irresponsáveis. Assusta-me o futuro.

Veja-se o que acontece em Espanha. Lá, como cá e por todo o mundo dito civilizado, não há casas para os mais pobres ou para quem está em início de vida. Grande parte das casas que estavam em arrendamento normal viraram-se para o alojamento local, em que o rendimento é muito maior e o risco muito menor. Por outro lado, face ao envelhecimento da população, grande parte da força de trabalho pior remunerado é levado a cabo por imigrantes que ganham pouco e não conseguem pagar uma casa cuja renda é superior ao que ganham. E o mal não está no valor das rendas pois parece que todas se arrendam. Ou seja, há procura para casas com rendas elevadas. Portanto, estar a olhar para isso é pura miopia. Esqueçam-se as casas que hoje estão no mercado. O problema não está aí, o problema está nas casas que não há. O problema está na escassez de casas, em número absoluto. Escassez. Fixemo-nos nisso e não no preço das rendas. E, claro, em particular escassez a rendas baixas -- habitação social pura e dura. Só por vistas curtas se pode pensar que o problema está nos senhorios ou nos despejos. Claro que se tem que dar garantias aos senhorios senão ou põem as casas em alojamento local ou vendem-nas ou fecham-nas. Portanto, deixem os senhorios em paz, tranquilizem-nos. O problema não está nos senhorios. O problema é que não há casas que cheguem, em particular casas que os mais pobres possam pagar. Os imigrantes amontam-se em quartos superlotados ou em bairros ilegais e os jovens não desandam da casa dos pais. Este é o problema. O problemão.

O Isaltino anda há que tempos a dizer isto mesmo: ponham-se casas no mercado, usem-se terrenos públicos para que neles se construam casas económicas (porque, terrenos privados, a preços de mercado, são caríssimos, e isso encarece logo o preço final das casas; deixem-se os terrenos privados para casas dirigidas à classe média ou média-alta). Vi que em Espanha, perto de Madrid, o município pegou em terrenos públicos, estabeleceu uma concessão de 75 anos a privados que lá construam casas económicas. E em cerca de 3 anos eles fizeram isso. Num condomínio com parque iinfantil, piscina, boas condições e a cerca de 30 minutos de Madrid, um T2 ou T3 arrenda-se à volta de 1300 euros. E note-se que o nível de vida em Espanha é superior a Portugal. Por isso, o que impede que os municípios em Portugal peguem também em terrenos devolutos (e, se necessário, alterem o Plano Director), e façam parcerias público-privadas para construirem e arrendarem prédios com fartura, bem pensados, bem integrados, bem urbanizados, com T0 e T1 a 500 euros, T2 a 700, T3 a 900? Por exemplo. Mas muitos prédios. Acabe-se com os bairros clandestinos e com a indignidade dos quartos com gente a monte. Caraças. Custa muito perceber isto?

Eu insurjo-me mas, pelos vistos, custa. Porque, em vez de se pensar na solução e de se pôr pés a caminho e mãos à obra, anda-se à volta, à volta, à volta, e discutir tudo menos o que é relevante. Fazer casas baratas, pegar em prédios públicos e reconvertê-los, pôr no mercado casas a pontapé a preços baratos, népias. Só conversa -- e acção zero, bola. Um atraso de vida que até dói.

Em Espanha, perante a crise e perante as manifestações, com as Portas do Sol transformadas num acampamento, quando Pedro Sánchez quis fazer qualquer coisa para atenuar um pouco o problema, o resto dos partidos boicotaram-no e a lei não passou. A direita e os populistas, uma vez mais, a ensarilharem tudo.

E, no entanto, as pessoas votam nesta gente que faz muito barulho, que atiçam multidões, mas que, na verdade, não têm nenhuma solução. Os deputados que fizeram isto, estão no Parlamento porque foram eleitos. Parte da população elege os mais trauliteiros, mais arruaceiros, mais incompetentes, mais estúpidos.

É como nos Estados Unidos, o exemplo mais acabado da suprema estupidez colectiva. Apesar de ser um cretino, um estupor, um corrupto, um desavergonhado, um anormal que já levou não sei quantas empresas à falência, já não sei quantas vezes condenado, com um passado infecto de atentados contra mulheres, um narcisista maligno que não respeita a democracia, um ignorante que nunca leu um livro na vida, Trump foi eleito pela segunda vez. E, apesar de todos os dislates, de todas asneiras que já fez -- e asneiras é palavra fofa para designar os atentados de toda a ordem que cometeu -- a verdade é que continua ainda a ter uma percentagem significativa de apoiantes. 

Ensarilhou o mundo: uns pagam com a vida, outros pagam com carteira cada vez mais vazia. E vamos ver como vão correr as eleições de Novembro. Tudo o que faz corre mal, o que não espanta porque só faz porcaria. Mas é inspirado nele, no seu descaramento, no seu populismo, nas suas mentiras, na sua forma prepotente e aldrabona, que muitos movimentos políticos, por todo o mundo, se inspiram. 

Quem conhece bem Trump é Michael Wolff. Gosto imenso das suas análises, quando conversa com Joanna Coles. Esta última conversa é muito elucidativa. Seria bom que se pensasse nele como pessoa, como o ignorante, o estúpido e cobardolas que é, e não como se fosse um político normal.

E, na volta, passa-se o mesmo com os estúpidos que por aí andam, a fazerem de tudo para que ninguém descubra que são umas nódoas, uns zeros. Esta conversa é tanto mais interessante quanto revela os mecanismos de defesa (que, muitas vezes, se transformam em mecanismos de ataque) a que provavelmente todos os estúpidos com poder sempre recorrem.

Estas são as 10 coisas que mais aterrorizam Donald Trump | Inside Trump's Head

Michael Wolff e Joanna Coles revelam os medos que, segundo eles, impulsionam Donald Trump — desde o medo de ser exposto como pouco inteligente e incapaz de absorver informação até ao pavor da rejeição, do ridículo, da solidão e de perder o protagonismo. Wolff relata os esforços extraordinários alegadamente feitos para manter o historial académico de Trump em segredo, explica porque é que uma conversa comum pode deixá-lo vulnerável e descreve um presidente que precisa de uma audiência, mas que se esquiva ao contacto humano genuíno. Ao analisar como estas inseguranças moldam os seus ataques, obsessões e recusa em aceitar a derrota, Wolff oferece uma previsão arrepiante de como Trump poderá preservar o seu poder depois de deixar o cargo — e porque é que a sua sede de atenção poderá nunca o deixar desaparecer.


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Desejo-vos um belo dia de domingo

domingo, junho 21, 2026

O tempo dos broncos

 

Quando estou mais para o zen do que para a truculência, abro o computador e só me apetece falar dos meus jovens, ex-pimentinhas, agora já todos grandes e bonitos, bem dispostos, brincalhões. Aliás, tão zen que, antes de ter energia para levantar a tampa do portátil, adormeci profundamente. O meu marido bem tentou interromper-me mas a pancada era grande demais. Acordei a ver o Trump no seu primeiro mandato, em melhor forma do que agora mas já só a fazer disparates, a dar conta da cabeça dos chineses. E deve andar por aqui alguma melga porque acordei com comichão num braço.

E agora, ao ver as notícias, constato o que já todos estamos fartos de saber: salvam-se alguns, não muitos. Por exemplo, a Meloni, apesar de tudo, tem mostrado que os tem no sítio. Mas, se pensar no que se passa por cá ou no que se passa no país dito mais relevante do mundo, só posso concluir que os broncos devem ter algum mérito para conseguiem convencer os parvos e para conseguirem aguentar-se nos lugares de poder.

Para mim, um bronco é um tipo que inventa problemas, que se enrola de todas as maneiras possíveis e imaginárias para ver se os consegue resolver, depois, quando não consegue desenrailhar-se dos imbróglios que criaram, começam a culpar toda a gente, por fim já querem é safar-se da embrulhada seja de que maneira for e, depois de terem andado a dar trabalho, a gastarem e a fazer gastar dinheiro e paciênciaa toda a gente, na melhor das hipóteses, no fim, fica tudo igual ao que estava antes mas, o mais frequente, é que fique tudo pior.

Com o Montenegro temos exemplos disso por todo o lado. Por exemplo, na Saúde arranjou uma ministreca que começou por correr com um fulano que era reconhecido por toda a gente como super competente, o Fernando Araújo, que estava a tentar pôr ordem no SNS. A a partir daí foi sempre a descer. Demitiu dezenas de gestores, despeja dinheiro para cima de toda a malta que rabeia, inventa desculpas para tudo e mais alguma coisa e, no fim, ou seja, agora, depois de desequilibrar mais as contas, está tudo pior do que estava. E isto não sou eu, humilde observadora, que o digo: são todos os relatórios técnicos e independentes que o demonstram. Na Habitação tem sido o descalabro: isentou de IMI, IMT e sei lá que mais todas as compras de casa para crianças até aos 35 anos. E fez mais não sei o quê, que já lhe perdi a conta. O que sei é que o preço das casas disparou como nunca, um foguete que subiu mais rápido e mais alto que na maioria dos outros países. No Trabalho tem sido o festim a que se tem assistido. Arranjou uma Madame que empreendeu num espantalho com nome de Pacote. Ninguém lhe tinha encomendado o sermão. Foi ela e o Luís que desarrincaram tão destrambelhada ideia. Começaram por andar a fazer perder tempo a patrões e sindicalistas. Pelo meio iam insultando alguns que, por fim, se retiraram da palhaçada. Findo o circo da Concertação, levaram o espantalho, já na versão aborto, para a Assembleia. Aí, canhestros e azêmolas como só eles, resolveram montar-se a cavalo num lacrau asnento. E o País assistiu, entre o boquiaberto e o saturado, a mais um par de coices e a mais uma ferroada do lacrau que, assim, mostrou a todos que de gente desta desenvergadura nada de respeitável se pode esperar.

Nos Estados Unidos o que se vê é um fulano em decomposição, fisicamente decadente, a dormir em público, um narcisista a mandar pôr o nome em tudo o que é canto e esquina, a inventar toda a espécie de loucuras, com aldrabices que não lembram ao diabo (veja-se o que inventou agora sobre a Meloni, que a levou a desmenti-lo com todas as letras), a perseguir os mais indefesos, a tirar aos pobres para dar aos ricos, a mandar a Justiça ir atrás de quem ele não gosta e a indultar todos os criminosos que o apoiam, a ser corrompido à descarada, a tomar decisões erráticas e contra a ciência e contra o mais elementar bom senso, a destratar aliados e a bajular ditadores, a ameaçar invadir ou anexar território alheio, a raptar um presidente de um outro país e a roubar-lhes o petróleo, a ir de braço dado com Israel bombardear o Irão, matar gente indefesa, nomeadamente as crianças de uma escola, e arranjar um trinta e um do qual agora não consegue sair pelo seu próprio pé, já se prestando a sair de fininho, dando aos iranianos o que eles quiserem. Onde não havia antes problema que lhe dissesse respeito, depois de matar imensa gente, de destruir o que não devia, de gastar biliões, agora anda a ver como sair da enrascada. E, no meio disto tudo, centra-se noutros assuntos que também não eram problema para ninguém mas dos quais resolveu fazer cavalo de batalha. Por exemplo, o tema do 'lago', em frente do Memorial Lincoln. Meteu na cabeça que o Reflection Pool haveria de ser azul transparente e apregoou que de piscinas percebe ele. Gastou cerca de 14 milhões de euros, de caminho insultou os presidentes anteriores por não terem sabido manter o lago limpinho, publicou fotografias fake em que se mostrava ao banho com o JD Vance e o Mark Rubio como se equilo fosse uma piscina. Pois bem. Foi resolver um problema que não existia e aranjou um outro ainda maior. 

A imagem do Trumpalgas foi gerada pelo Chatgpt
Nota: na realidade, o que os funcionários andam a despejar são garrafinhas mais pequeninas do que as que aqui se veem

O lindo laguinho azul virou verde, cheio de algas. Pior: o revestimento está a descolar-se. Nas bordas andam funcionários a despejar pequenas garrafas de água oxigenada e de lixívia e outros com camaroeiros. Virou chacota nacional. Nada que incomode os MAGA que já veem nisso uma conspiração: não só olham para as águar verdes e algacentas e as veem azuis, como acham que é tudo embuste dos democratas.

Há sempre burros ainda mais burros do que os burros que conhecemos. Os broncos atraem os broncos. Os broncos mais burros veem-se representados pelos burros que, nas redes sociais, lhes aparecem como ilustres.

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O fiasco do espelho de água de Trump ganha uma reviravolta ao estilo "Greenwatergate"

O jornal The New York Times refere que a confusão causada pelo espelho de água verde de Trump tem agora uma nova e sinistra reviravolta: um contrato de limpeza sem concurso ligado a um doador de Trump e vizinho de Mar-a-Lago.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, abril 04, 2026

Dois anos de governo AD e viva a mediocridade dos governantes
-- Como sempre, o meu marido não lhes dá descanso... --

 

Ontem, o Luís veio informar-nos que, após dois anos de governo AD, o País está melhor. 

Provavelmente só ele e os seus aficcionados é que deram por isso. Aposto que o pessoal, quando vai ao supermercado, quando enche o depósito, quando tenta arranjar uma casa ou quando não obtém resposta no SNS, pensa exatamente o contrário: o País está pior. 

  • Este governo conseguiu a proeza de diminuir em 2025 o PIB per capita dos portugueses de 82,4 por cento para 81 por cento do valor médio da UE e conseguiu também que a posição de Portugal no ranking do poder de compra passasse do vigésimo primeiro lugar para vigésimo segundo. Diria que a isto se chama andar para trás. 
  • O SNS piorou como nunca antes tinha acontecido, chegando-se ao cúmulo de ocorrerem partos em sítios inimagináveis, incluindo em plena rua. 
  • Os alunos sem aulas continuam mais do que muitos, sem que o ministro saiba dizer, ao certo, quantos são. 
  • Os preços da habitação dispararam. Portugal foi o País em que os aumentos na habitação foram maiores. O exemplo acabado do insucesso das políticas do governo para a habitação e a confirmação de que foram atingidos resultados opostos aos pretendidos é que 28 por cento dos contratos celebrados pelos jovens originam um taxa de esforço entre 40 e 50 por cento. 
  • O combate aos incêndios foi um desacerto total. A resposta às calamidades recentes revelou a total inoperância e ineficiência do governo. Mesmo as medidas de apoio que foram anunciadas não chegam aos destinatários apesar de todas as promessas do governo. 
  • As polícias voltaram a marcar protestos.
  • E os professores também voltaram a ouvir-se. 
  • A justiça continua inoperante, intrusiva, demorada e com agenda própria. 
  • O crescimento do País foi menor que o crescimento dos anos anteriores e, embora se mantenham os resultados positivos face ao orçamento, eles são menores do que no governo anterior. 
  • Para cúmulo dos cúmulos o governo não toma as medidas necessárias para responder à crise atual, que tende a agravar -se,  mas que o governo parece ignorar. Compare-se as tíbias medidas que o Luís anunciou -- tíbias, remissas, frouxas e de perna muito curta -- com as que Pedro Sánchez anunciou em Espanha. Face à inoperância deste Governo é de temer o pior.

Contra factos não há argumentos. Mas lá virão os aficionados do Luís dizer que o governo pode ter falhado nas situações mais críticas mas teve um desempenho positivo nas áreas da segurança e da imigração. Pois, pois .... 

Na imigração, a AD andou a seguir a agenda do Chega para resolver um problema sem grande dimensão mas muito amplificado pelo Chega. 

Na realidade, foi graças aos imigrantes que a economia cresceu e que vários sectores de actividade não pararam. Não esquecer os 3,2 mil milhões de euros positivos que resultam da contribuição dos imigrantes para segurança social. 

Hoje o problema é a falta de mão de obra imigrante para dar andamento a muitas obras. É o resultado da politica do governo. 

A seguir, para desviarem as atenções dos falhanços, vieram com a lei da nacionalidade. De facto, temos um problema gravíssimo com os dois mil e setecentos pedidos de nacionalidade por pessoas vindas do Industão (e, obviamente, estou a ser irónico). Já basta o que basta, tratem do que é importante. 

Quanto à segurança, o último RASI é elucidativo. Foram verificados 85.000 imigrantes e só 1 por cento estava irregular. Em contrapartida, os crimes relacionados com redes ilegais de imigrantes aumentaram 250 por cento. O governo foi avisado que era o resultado esperado da política que queria seguir mas não deu ouvidos a quem tinha razão. Os crimes relacionados com a droga e com a violência doméstica, isto sim um verdadeiro flagelo que é preciso combater, também aumentaram. Portanto, não se pode dizer que os resultados na área da segurança sejam os melhores. 

Enfim, é muito difícil encontrar algo de verdadeiramente positivo na actuação do governo e só alguém vindo de um planeta muito distante poderá dizer que o País está melhor. Atendendo a que estamos na época pascal (feliz Páscoa para todos) apetece-me escrever que presunção e água benta cada um toma a que quer. No caso vertente, o Luís toma carradas e carradas de presunção.

terça-feira, março 31, 2026

Os enormes equívocos das políticas do Montenegro ou a enorme componente ideológica da politica do governo
-- A palavra ao meu marido --

 

É certo e sabido que as políticas do governo não são suportadas em factos nem em  informações fidedignas. Vão a reboque do Andrézito ou são motivadas por opções ideológicas que em muitos casos são estupidamente próximas das opções da direita revanchista e retrógrada. 

Vamos a factos. 

Lei da Imigração aprovada com o Chega cujo defensor mais intransigente foi o "Lentão" Amaro de parceria com o Luís. Os imigrantes davam cabo do País, viviam de subsídios e eram os responsáveis pelos piores crimes. 

  • A parte dos crimes o atual MAI encarregou-se de a desmentir quando era diretor da PJ. 
  • Quanto ao resto foi desmentido pelo relatório do Banco de Portugal de Março, a saber: 
    1. os imigrantes passam muito menos tempo a receber subsídios que os nacionais e os que mais subsídios recebem são russos, ucranianos, moldavos e brasileiro (azar não são asiáticos!), 
    2. os imigrantes contribuem com 4,1 mil milhões de euros para a segurança social sendo o saldo líquido positivo de 3,2 mil milhões, 
    3. os imigrantes são responsáveis por 5% do PIB e, se não estivessem a trabalhar em Portugal, o valor médio dos impostos dos nacionais teria de passar de 35% para 43%. 
Foi nisto que resultou a política de "bar aberto" que o Chega de braço dado com o governo tanto criticaram e que os comentadores também apoucaram e apoucam. Eu diria que ainda bem que ofereceram as bebidas, pode ter havido algumas bebedeiras, o que era inevitável, mas no cômputo geral foi muito positivo e não se percebe a urgência da lei da imigração a não ser por opções políticas e apropriação da agenda do Andrézito. 

Outra palhaçada é a Lei da Nacionalidade. Só o Chega e o anquilosado CDS tinham este assunto na agenda. O Luís e seus muchachos viram uma oportunidade para se juntarem à extrema direita,  desviarem as atenções da inoperacionalidade do governo e cavalgaram a onda e cá vai disto. Felizmente a lei aprovada na AR foi chumbada pelo Constitucional. Os dados mais recentes, que deveriam servir de base a estas opções políticas e são pura e simplesmente obliterados (estúpida palavra que Trump tornou omnipresente) referem que apenas 7% dos pedidos de nacionalidade são de naturais do Paquistão, do Nepal e de países vizinhos. Ao contrário do que apregoava o Andrezito e o governo, apenas 2.700 cidadãos destes países pediram a nacionalidade portuguesa. "Ganda" problema não é Luís, "Lentão" e quejandos? É deveras preocupante: sendo tantos, ainda vão dar cabo dos outros dez milhões. É o governo a cobrir-se de ridículo com este tipo de opções. 

Outra política também reveladora da inteligência de quem governa foram as medidas destinadas á Habitação. Como resultado das políticas do governo, os preços das casas aumentaram como nunca se tinha visto e 28% dos contratos celebrados por jovens demonstram  representar um taxa de esforço entre 40 e 50% o que está manifestamente acima do recomendado, senão mesmo no limiar do risco de incumprimento. Com o panorama atual, com se vão safar estes jovens com as taxas de juro a aumentarem, a inflação a crescer e provavelmente o valor da casa a diminuir? Acreditaram na política do governo e vão ficar tramados durante alguns, senão muitos anos. Não me parece que vão ser motivo de preocupação para o Luís, o problema vai ser deles. 

No capítulo da Defesa, em que impera outro crânio, parece que o governo autorizou a montagem do drone MQ-9 nos Açores. Veremos se não se trata de mais uma opção política completamente errada que nos pode trazer problemas futuros de segurança.

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Nota: este fim de semana foi o congresso do PS e tudo o que é analista e comentador encartado aproveitou para bater "no ceguinho". O costume, mas, de facto, faltou alguma chama e apresentação de propostas mobilizadoras e diferenciadoras. Parece-me que o José Luís Carneiro é inteligente e honesto, conhece os dossiers, acredita na solidariedade social e tem uma ambição legítima de governar e melhorar Portugal. Como não tem um grande carisma, tem que fazer um esforço de afirmação, com uma agenda própria e diferenciadora, não se focando tanto na cooperação com o governo, mas, antes,  apresentando-se como verdadeira opção ao governo. Espero que consiga ser uma opção segura e credível para os portugueses.

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E queiram, caso estejam para aí virados, continuar a descer. As últimas de Trump são cada vez mais perturbadoras. Já se referem a ele como um presidente delirante e acho que é isso, um doido varrido.

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Portugal é um País de facilitadores e de facilitismos
-- E, de novo, a palavra ao meu marido --

 

Que Portugal é um País de facilitadores não haverá dúvidas. Lembramo-nos da recente polémica nas presidenciais sobre a atividade do Marques Mendes. Aliás, não será caso único, nomeadamente, entre os ex e atuais políticos e respectivas entourages. 

Mas seremos também um País de facilitismos e de facilidades? A recente destruição de infraestruturas devido às tempestades será um resultado destas facilidades e da falta de entusiasmo na verificação do cumprimento dos regulamentos? 

Segundo sei, e desmintam-me se estou errado, segundo os regulamentos aplicáveis, resultantes de normas europeias, os postes de suporte de cabos elétricos (AT ou BT) na zona de Leiria devem continuar operacionais com ventos superiores a 150 km/h e devem suportar rajadas entre 200 e 230 km/h. As torres de telecomunicações também devem conseguir operar com ventos entre 150 e 170 km/h e a chamada "rajada de sobrevivência" estará perto dos 200 km/h. Obviamente que os valores precisos dependem da localização, da altura e do tipo da infraestrutura. Já agora, telhados com telha cerâmica, dependendo da altura do imóvel, devem ser capazes de resistir, praticamente sem danos, a ventos entre 150 e 170 km/h. 

Sendo assim, qual a razão para ter havido tantos danos e destruição com o comboio de tempestades em que a velocidade do vento só terá atingido valores semelhantes em algumas situações? Será que os postes da e-Redes foram projetados e construídos de acordo com os regulamentos? E as obras foram devidamente vistoriados pelas entidades competentes? Não tenho dados para responder, mas parece-me pouco provável que, tendo sido respeitados os valores de projeto, tenha havido uma razia tão grande nos postes e nas torres, para não falar nos telhados das habitações. 

Já aqui referi e volto a escrever: a simplificação anunciada pelo governo para facilitar a reconstrução pode não ser uma boa notícia, caso queiramos garantir que, nas próximas tempestades, não será igual ou pior. 

Mas nem a comunicação social está desperta para o assunto nem parece que as oposições queiram correr o risco de ser impopulares caso alertem para esta situação. 

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Já agora, umas notas soltas:

1. Será por uma questão de facilitismo, de corporativismo, de falta de gestão, de cada um fazer o que quer ou de se perder inutilmente tempo à procura de gambuzinos na outra margem que, embora tenhamos o dobro ou o triplo de procuradores por 100 mil habitantes do que o número existente em outros países da Europa, a Justiça funcione pessimamente? 

2. E qual será a razão para que, embora também tenhamos mais recursos que outros países da Europa na área da Saúde, as coisas vão de mal a pior? A incapacidade da ministra é uma razão de peso, mas a falta de gestão geral e o corporativismo também dão a sua.

3. A prepotência e arrogância de Montenegro emparelham bem com as da D. Palma Ramalho. A notícia de que a ministra não foi capaz de ajustar a disponibilidade da UGT com as confederações patronais nem avisar estas últimas da indisponibilidade da UGT. O que se passou foi ridículo e foi, uma vez mais, a D. Palma Ramalho a gozar com quem trabalha. Fez lá deslocar as confederações, pelos vistos com a intenção de reunir apenas com estas. Felizmente, os patrões mostraram ter a decência que falta à ministra e recusaram-se a fazer a reunião. Será que, perante isto, o Montenegro não dá uma valente rabecada à ministra? 

quinta-feira, janeiro 08, 2026

Que governo é este que esfrangalha tudo onde mexe...?
-- A palavra ao meu marido --

 

Hoje soubemos de mais uma fatalidade causada pela inoperância do INEM. Parece que resultou da falta de ambulâncias e/ou dos novos procedimentos que o novo presidente do INEM implementou, apregoando que eram suficientes para resolver os problemas do INEM. Pelos vistos falhou redondamente, e causou mais uma tragédia. 

Ouvi agora nas notícias que estão setenta e três ambulâncias paradas nos hospitais (só no Garcia de Orta, 20 ambulâncias retidas). 

Ouvi há bocado, também na notícias, que em várias regiões do país habitualmente não há ambulâncias disponíveis e que quem tiver um problema grave tem muitíssimo menos hipóteses de se safar por causa deste caos. Um desastre! 

O governo que primeiro resolvia o problema da saúde em 60 dias e depois em seis meses, a única coisa que fez ao fim de dois anos foi agravar muitíssimo os problemas, criando o verdadeiro caos com as medidas que tomou na saúde. 

O PR é cúmplice desta situação porque, ao contrário do que antes fazia, nunca criticou a situação, deixando que o Montenegro e a ministra tomassem o freio nos dentes e tomassem medidas que destruíram o que podia não funcionar exemplarmente, mas que, pelo menos, funcionava e garantia uma assistência atempada aos portugueses. 

Há três responsáveis por este estado de coisas: o Montenegro, a ministra e o PR. Deviam pedir desculpa por tantos erros... e, no mínimo, a ministra devia ir já para casa! 

Aliás, tudo o que este governo tentou mudar ficou pior. 

No domínio da habitação, as medidas que tomou originaram um enorme aumento no preço das habitações, estão a dar cabo do pequeno mercado de arrendamento que existe e, como seria de esperar, porque este governo está-se nas tintas para quem tem menos recursos, o governo não tomou medidas para garantir habitação condigna à população com menos recursos, incluindo aos imigrantes. 

Relativamente ao controlo da imigração, ninguém sabe o que se passa porque não existem estatísticas nem dados publicados. Provavelmente, o governo ufana-se do que não conseguiu. Mas soube-se com espanto que o governo campeão da segurança conseguiu acabar com o controlo de fronteiras. Parece que o sistema pifou (palavras da ministra) e admito que a dita (ministra) também tenha pifado. 

Pelo meio ainda conseguirem dar cabo da paciência aos estrangeiros que nos visitam, contribuindo para dar uma má imagem do País. Mais uma área onde estiveram "bem ". 

É certo que o governo acalmou os polícias, os GNR e o pessoal das FA, despejando dinheiro em cima destes sectores profissionais. Mas, para além de despejar dinheiro, o governo nada fez nestas áreas e fez bem porque pelo menos continuam a funcionar. 

Temos um governo que estraga tudo em que toca e que desbarata os recursos que irão ser necessários mais tarde ou mais cedo. A incompetência é notória. Será que o governo também pifou? 

O Marcelo bem se pode "orgulhar" da herança que deixa, resultado da instabilidade que criou. É certo que o País ficou laranja em todo o lado, o que lhe deve agradar. Mas não é menos certo que a extrema direita espreita o poder, que o governo é populista e segue a agenda da extrema direita e que os principais problemas dos portugueses se agravaram. 

Boa Marcelo, "ganda" legado! De facto foi o pior presidente dos últimos cinquenta anos!

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Nota à margem: Tenho curiosidade em saber que passos vai o Xi Jinping dar para tentar fazer frente à política da Administração americana.