De vez em quando o algoritmo do YouTube sugere-me os vídeos de Thoraya Maronesy, uma jovem simpática que consegue a proeza de arrancar os mais sentidos e secretos testemunhos a estranhos que se cruzam com ela nos jardins em que monta arraiais com o seu equipamento.
Já algumas vezes aqui tive Thoraya. Esta coisa de alguém, quando instado a isso, ser capaz de contar os segredos mais intensos ao mundo, surpreende-me. E o facto de parecer que toda a gente guarda um segredo pronto a ser divulgado parece-me extraordinário.
Em contrapartida, perante os que me são mais próximos não guardo segredos. Falo abertamente e, se calhar, até um bocado desabridamente, do que penso.
Em momentos em que alguns rodeios ou meias palavras seriam aconselháveis eu falho: digo o que penso sem delongas. Nisso como em tudo na vida acho que é um disparate perder tempo ou persistir em caminhos errados -- e não consigo dizê-lo de outra maneira. Se alguma coisa me preocupa, não está na minha natureza escondê-lo. Verbalizo-o abertamente. Por isso, intriga-me a capacidade que algumas pessoas têm para esconder o que pensam, o que sentem, o que querem. Pensarão que têm duas vidas? Esta para ser desperdiçada e outra, então, para compensar o tempo perdido na primeira? Não percebo.
Imagino-me a ir um dia num parque e a ser abordada por uma qualquer Thoraya desta vida. Não gosto de virar as costas a um desafio, muito menos a um tão engraçado e, ainda por cima, conduzido por uma pessoa tão simpática. Mas, mesmo que quisesse corresponder, de que segredo poderia eu falar?
Mas o desafio desta vez é outro e é ainda mais tentador: escrever uma carta a alguém que se ame ou amou. E a este desafio eu não viraria costas.
Gosto de cartas de amor. Já o disse: prefiro recebê-las. Mas, se tiver que escrever uma, escrevo.
Aliás, aqui, vendo bem, quantas vezes já as escrevi? Se me desse ao trabalho de reuni-las, obteria um livro inteiro de declarações de amor.
Aquilo de que não tenho experiência é de escrever cartas de amor, ou melhor, declarações de amor, a quem não me ame. Não me lembro de alguma vez ter gostado de alguém que não gostava de mim. Acho que não é mérito: é pragmatismo. Lá está: aversão a perder tempo. Também não me lembro de esconder o meu amor, mesmo no início. Sou mais de seduzir, desafiar, agir à descarada.
Vita brevis. Esse é o meu lema, esse é o fio condutor dos meus actos. Vita brevis. Ou seja, bola para a frente e força nisso.
Não me imagino a consumir tempo de vida a esconder um amor. Claro que poderia acontecer estar apaixonada por quem não gostasse de mim. Mas aí acho que via a coisa com realismo: santa paciência, não dava, não dava. Partia para outra. O que não falta são homens e, no meio de tantos, algum haveria de ser a meu gosto e sensível aos meus encantos. Agora estar a querer alguém e, em vez de ir à luta, às claras, deixar-me estar a queimar tempo com platonices, fosquices, suspiros pelos cantos, tristezas eternas, isso não. Não faz o meu género. Pode ser muito poético mas não é para mim. Eu, nisto dos amores, sou mais prosa. Poesia sim mas como preliminar, como acompanhamento ou como sobremesa. A substância, para mim, está na prosa. E prosa em versão hands on.
Carta de amor? Sim, até poderia aqui escrever uma a um amor imaginário, ficção da pura a fingir de verdadeira.
Meu amor, por onde andas? Espero por ti e nada me dizes. Saberás a dor em que a minha alma fica? Saberás o vazio que cresce no meu coração? Espero que me procures, todos os dias o espero, todos, e não vens. Como negar, amor meu, que sinto a falta das tuas doces palavras e das tuas tórridas tentações? Sinto tanto a tua falta. Por onde andas? Os anos passam e as nossas mãos não se tocam e os nossos corpos não se encontram. Porquê? Que sentido faz isso? O que andamos a fazer? Não queres experimentar o azul dos mais longos abraços ou o branco da luz do êxtase? Não fujas de mim. Não fujas. Estou à tua espera. Vem.
Poderia continuar, escrever uma carta de amor a preceito. Gosto de derramar palavras de amor. Mas não escrevo. E não o faço por respeito para com os pinga-amores que suspiram, suspiram mas não passam disso, ou que sonham, sonham e não acordam para a vida. Também têm direito a achar-se especiais. Por isso, não escrevo. Fico-me por aqui na companhia dos bem dispostos amantes impossíveis que Thoraya tão bem sabe apanhar.
Strangers Confess Their Love Through Love Letters Um projecto de Thoraya Maronesy
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E, já agora, a propósito de cartas de amor, com vossa licença, uma vez mais:
“My dearest one" Benedict Cumberbatch reads Chris Barker’s letter to Bessie Moore
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Haley Reinhart interpreta Can’t Help Falling in Love
Pinturas e escultura representando Diana, essa grande dissimulada, essa grande maluca.
Não tenho conseguido responder aos comentários pois o tempo não me chegado ou, se me chega, o sono tira-me o tapete. Adormeço mesmo sem dar por isso. As minhas desculpas. A ver se consigo pôr o sono em dia para ver se isto entra os eixos. Aceitem as minhas desculpas.
Talvez seja por estarmos na silly season que ou há notícias que revelam a desgraça que se aproxima a passos largos -- secas extremas nuns cantos do mundo, inundações diluvianas noutros, tempestades, calores inaguentáveis -- ou há outras que contam a pequena história que pode atormentar a vida de gente que não faz parte da história ou há irrelevâncias que nem aos pés da pequena história chegam.
Gostava de ter de que falar mas sinto que não tenho.
Se isto fosse um diário, eu falaria de tudo. De cada assunto por mais sensível que fosse, de cada pessoa da família, de cada conhecido ou amigo, falaria de quem gosto e de quem não gosto, de quem estou cansada ou de quem tenho saudades -- e falaria por extenso. Diria exactamente o que penso, o que me preocupa, o que me alegra, o que me apetece, o que me causa repulsa, o que desejo, o que temo. Falaria com nomes, com as palavras todas. Assim, com isto que escrevo a andar por aí, pelos ares, pelas vossas casas, pelas vossas mãos, não poderei ser muito sincera.
Vou contando umas coisas, umas pinceladas. Mas raramente sou totalmente explícita.
Se contar como foi o meu dia não o conto porque ache que é digno de registo mas porque me apetece escrever e, à falta de melhor assunto, falo do que aqui tenho à mão de semear. Mas fico-me pelo que está mais à vista. Não falo do que está sob a capa da pele. Não escavo muito fundo. Acho que não devo. Não aqui.
Por exemplo, sobre este sábado. Foi muito bom. De manhã os rapazes que estão no jardim tocaram à campainha várias vezes e queriam perguntar coisas ou queriam isto ou aquilo e o meu marido estava farto, dizia 'estou farto destes gajos'. Ainda por cima, como não usam máscara e ele em casa logicamente está sem máscara, de cada vez que tocavam à campainha ou chamavam lá tinha ele que ir pôr a máscara para ir ver o que queriam.
Fui a um dos quartos espreitar o que andavam eles a fazer e, para meu espanto, vi-os sentados à sombra, no chão, comendo uma sandes. Antes tinham-me parecido uns homens feitos e, no entanto, ali sentados, pareceram-me uns rapazinhos.
Perto da hora de almoço, depois deles terem saído, fomos fazer a nossa caminhada. Foi maior do que habitualmente. Gostei muito.
Depois de ter tido aquela cena cardíaca cansava-me um bocado, faltava-me o fôlego, ao fim de um bocado ficava até com receio de continuar não fosse depois não conseguir fazer o caminho de regresso. Como me tinham dito 'nada de esforços, agora uma vida calma; e se sentir dores no peito, indisposição ou dificuldade em respirar ligue para o inem', quando estava a andar, se sentia alguma dorzinha no peito ou nas costas ou se, a falar, me parecia que o ar quase me faltava, ficava logo a pensar que podia ser sinal de alerta. Estávamos a andar e o meu marido a vigiar-me, a perguntar se queria andar mais devagar ou regressar. Por isso, agora que voltei a fazer caminhadas normais sem me cansar, fico toda satisfeita. Claro que não me esqueço do meu bcre mas acho que começo a perceber que sou capaz de viver bem com ele. Ainda não fui ao cardiologista deste que fiz aquela coisa do holter que não apenas voltou a confirmar o dito bcre como assinala para lá mais umas coisas. Uns médicos conhecidos já me disseram que acham que não são coisas, que são coisecas, mas que o cardiologista é que o dirá.
Mas, seja como for, há o que eu sinto. E eu, so far so good (e já bati três vezes na madeira para não atrair) e, por isso, fico toda feliz da vida se faço caminhadas mais puxadas sem me torcer nem me amolgar.
De tarde chegou a trupezinha da minha filha. A do meu filho está de férias, a norte. Os meninos foram andar de bicicleta e nós andando a pé atrás deles.
Depois foi aqui um fartote de rir. Muito eu me ri com eles. Cantoria e palhaçada da grossa. Chorei a rir. Até tenho aqui um vídeo em que não se vê a cara deles, todos de capuz a cobrirem o rosto, e em que estão a cantar o hino de Portugal. Mas está tão divertido que temo que algumas mentes mais sensaboronas pensem que é falta de respeito. Claro que não, é apenas boa disposição e irreverência.
Um dos meninos atou as mangas à cadeira e cantou assim. Depois levantava-se com a cadeira no rabo. Só visto.
A seguir, o outro fez o mesmo mas, não sei como, desequilibrava-se e caía agarrado à cadeira, rebolava-se com a cadeira às costas. A minha filha ia levantá-lo e quase caía também, tanto se ria. Uma maluqueira.
A seguir preparámos um lanche ajantarado e estivemos na rua até depois das nove. Estava-se mesmo bem.
Ao longo da tarde fomos recebendo fotografias dos turistas nortenhos e a menininha até tentou fazer uma reportagem em directo, em chamada de vídeo, para nos mostrar a bela casa em que estavam. Mas tinham pouca rede e não conseguiu.
A minha filha ligou para a minha mãe e vi que estiveram imenso tempo na conversa. Fisicamente não poderiam ser mais diferentes: a minha mãe muito clara, muito loura, de olhos azuis, e a minha filha morena, cabelos e olhos escuros. Mas, há nelas muitas afinidades.
Enquanto isso, o meu marido aproveitou para estar deitado na sala a ver televisão ou cá fora, sossegado, apenas a ouvir-nos e, creio, a vigiar-nos, em especial a mim. Diz que sou a pior de todos.
Mas tenho para mim que ao ar livre o corona anda de asa delta, bem longe de se enfiar nas nossas vias respiratórias. Mas o meu marido não facilita e incomoda-se por me achar tão desprendida. De vez em quando diz que só se chateia com o que acha que é a minha falta de cuidado por dormir comigo. Nunca mais acaba este pesadelo da covid -- essa é que é essa. Quando se pensa que já se está a dar-lhe a volta, eis que ressurge, assanhada. Uma chatice.
Quando penso que estou mesmo a precisar de férias e que bom mesmo era ir de passeio, andar por aí, percorrer as margens dos rios, ver paisagens, mergulhar nas montanhas ou, mesmo, ir a banhos até Lagos, ocorre-me que isso teria implícito andar em restaurantes ou ficar em locais fechados (quartos de hotéis, por exemplo) e que sei lá se quem lá esteve antes não estava infectado ou se as pessoas da cozinha dos restaurantes estavam de boa saúde, com máscara, com todos os cuidados. E não venço este receio. Nem eu nem o meu marido (e, para desgraça da malta da hotelaria, nem muito mais gente).
Um dia destes vamos ter que aprender a passar por cima destes receios. Mas acho que isso só vai acontecer quando os números baixarem e quando nos sentirmos mais confiantes quanto ao grau de imunidade ou segurança que a vacina confere.
Portanto, até lá, vamos ficando por aqui mesmo, curtindo o ambiente familiar, convivendo uns com os outros, desfrutando a sorte de nos termos uns aos outros, de estarmos bem e de termos a sorte de podermos fazer parte do nosso dia a dia ao ar livre. E viva a vida que o resto são peanuts que não interessam nem ao menino jesus.
E, se nada tenho para dizer senão cenas da minha vidinha, pelo menos tenho para mostrar.
O vídeo abaixo, mais um com a qualidade Green Renaissance, é bonito. Fala de amor e poucas coisas há de tão boas como o amor.
Love is so much more than some random, euphoric feeling. And real love isn't always fluffy, cute, and cuddly. More often than not, real love has its sleeves rolled up, dirt smeared on its arms, and sweat dripping down its forehead.
Real love asks us to do difficult things - to forgive one another, to support each other, to comfort and care for each other - through some of the most difficult times of our lives. Falling in love is falling into all the wonder and the pain that life has in store for us. Falling in love is one of the most wonderful journeys we can make.
Gostei de ler e gostei de saber que há uma pessoa que é reconhecida por intuir tendências, pessoa essa a que, até agora, o tempo tem dado sempre razão.
E gostei de saber o que a intuição lhe diz sobre o que aí vem, no curto prazo. Agradam-me as suas previsões.
Aliás, estou a começar o meu ano nesse comprimento de onda: deitei fora sacos de tralha, coloquei para doar sacos de roupa e estou a reciclar blusas que não vestia desde que as galinhas tinham dentes.
Também já disse à minha filha que, quando pensar que precisa de alguma roupa, antes de ir a uma loja, venha cá escolher (separei roupa boa em que, não sei como, já coube e que agora, intuo, lhe ficará melhor ainda a ela que a mim, na altura). E vou dizer o mesmo à minha nora.
Sempre fui contra o desperdício. Nesta volta que dei aos roupeiros descobri vestidos que eram da minha cunhada e de que ela se desfez no tempo em que os peixes tinham penas. Agora dei-os mas dei-os apenas porque não me servem e porque não faz o género da minha filha. Mas, à última hora, repesquei um conjunto com um look étnico que representa um tempo que já era e que está de novo a ser e que, quem sabe, ela queira para usar no verão, nas férias, nos fins-de-semana desta vida.
As lojas rebentam de saldos e eu fecho os olhos, passo ao largo. Em contrapartida, agrada-me cada vez mais a ideia da vida simples, do convívio em família, dos passeios em contacto com a natureza, de, cada vez mais, conhecer de perto o meu lindo país.
E agrada-me, de forma cada vez mais deleitada, coisa quase a tender para o místico (salvo seja), a ideia de me deixar encantar com a luz, com o rendilhado de sombra nos muros, com o perfume das flores e das árvores, agrada-me o cheiro da maresia e olhar a força das ondas do mar.
No dia de Natal vesti-me de branco, calças brancas e túnica branca de flores. O meu marido perguntou se eu estava numa de Iemanjá. Não tinha pensado nisso mas agradou-me a ideia. No dia de Ano Novo vesti outra vez umas calças brancas e uma blusinha em azul muito, muito clarinho. E, tendo retomado o trabalho, tem-me custado voltar aos tons mais executivos, nomeadamente às calças pretas. Associado a isso está a franqueza mais absoluta. Falo e digo o que penso. Construtivamente mas sem filtros, directa, sem pactuar com o que acho que está mal.
Passei ao largo dos comentários ao que o ministro Augusto Santos Silva disse sobre a falta de qualidade dos empresários porque me apanhou numa época em que tinha mais que fazer mas, caraças, não é mais do que óbvio que não são os trabalhadores que contribuem para a falta de produtividade da economia?
Bem. Livrarias, convívio, locais arrumados, roupas românticas e simples. E menos viagens de avião e passeios mais locais. E sempre a simplicidade. E boa onda. A boa onda é fundamental.
E comportamentos menos politicamente correctos. E inesperados desconcertos e gargalhadas e boa música e boa arte. E dança. E caminhadas à beira mar ou no meio das árvores. E ironia.
Gosto tanto de ironia. Tenho é que treinar pois, por escrito, é uma gaita. A gente a escrever e a rir por dentro e, aí desse lado, como só lêem e não adivinham os sorrisos interiores, não percebem e é natural que não percebam. E é uma chatice. Levam-me a sério e não há coisa mais chata do que uma pessoa ser levada a sério.
E misturar alhos com bugalhos desde que não reajam quimicamente entre si no sentido pestilento do termo, e provocações que fazem soltar pássaros e risos. E, sem querer (que é como quem diz), pisar os calos às virgens cagonas e, também sem querer, tirar o tapete aos pipi-cagões desta vida, convencidos que têm o rei na barriga.
E abrir os braços e rir e abrir os braços e respirar fundo. E rir.
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As flores, tão lindas, tão lindas, por acaso não são flores: são bolos. E quem os faz, tão lindos, é Jane Taylor. Não sei se quem os come não fica a chorar, não por mais mas por arrependimento por ter destruído uma obra de arte. E vem tudo ao som de Haley Reinhart a interpretar Shook.
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E queiram conhecer os privilégios do putativo latifundiário Habitualmente que é um maluco daqueles que, cá para mim, não quer cá saber de coisas nem se assusta com comparações (até porque, diga-se em abono da verdade, ainda não é claro se o tamanho importa ou se não importa) e, inteligentemente, preocupa-se é por os mamilos da amada não se eriçarem.
Não sou de campismo, não sou de concertos de verão, festivais do sol, do vento, do mexilhão do nordeste, da cana rachada da lezíria ou da sopa da pedra de alguidares-de-cima, não sou de futebóis, comícios, manifs, procissões -- em suma, não sou de ajuntamentos. Sou de hotéis de qualidade, sejam eles grandes ou pequenos, sejam eles na montanha, no mar ou na cidade. Lembro-me agora de um Le Meridien no sopé de uma montanha perto de Zurique. Lembro-me do Le Chat em Hônfleur. Opostos em tudo e, no entanto, tão bem guardados na minha memória.
Não que seja de me armar em besta. Não sou. Talvez mais bicho do mato e, se calhar, por ser mesmo um bocado elitista. Mas elitista no sentido de achar que, se não me agrada mesmo, então não vale a pena, mais vale ficar quieta em casa. Elitista porque elejo cuidadosamente os meus destinos.
Concertos ao ar livre, até ver, mais aqueles de Oeiras, o Cool Jazz. Mas gosto, sobretudo, é de salas frescas e silenciosas e de museus, de parques serenos, e do mar e de praias quase desertas. E de montanhas e de bosques of my own. E gosto de caminhar e de fotografar, gosto de estar com os meus amores, gosto de ler em sossego. Gosto de deambular pelas livrarias. Coisas assim. E de escrever. E de conversar.
Se vejo na televisão aqueles recintos repletos de gente, se vejo fotografias de tendas e acampamentos, de festanças colectivas e de altas barafundas, a única coisa que me ocorre é que ali é que ninguém me apanha.
Agora que estou cansada de tanto trabalho e o mais possível a precisar de férias, sinto-me incapaz de escolher um destino. Parece que só me apetece não fazer nada. Dormir. Apetece-me pensar que era bom que pudesse ter ara aí uns dois meses de férias: quinze dias para remodelar a arrumação dos livros, reorganizar s roupeiros, dar roupas e sapatos, livrar-me de excessos e inutilidades. Duas semanas para ir de carro até Florença, parando nas aldeias das montanhas, nas praias pequeninas. Aproveitar para conhecer Siena. Se calhar mais uma ou duas semanas para ir até à Sardenha e à Córsega. Ou não. Talvez isso descaracterizasse a natureza do passeio. Ficariam para o ano que vem. Depois mais uma ou duas semanas para ir até ao Algarve, talvez até Lagos, cidade sempre tão branca e feliz. Depois mais quinze dias de paz in heaven. Isto, sim, seriam férias.
Mas não. Em vez disso, apenas uns poucos dias e vamos ver se não são uma tortura de mails e telefonemas e documentos para ver e outros para aprovar. Dantes, quando ia, dizia que podiam ligar à vontade. Agora digo: se houver problemas, façam a caridade de me poupar. Ficam a olhar para mim, a rir. Acham que é uma piada. É.. é...
O meu marido diz: qualquer dia estamos de férias e ainda não decidimos o que vamos fazer. Mas, saturada como ando, parece que não consigo pensar ou decidir nada. E, pelos vistos, ele também não.
Quando a televisão mostra qualquer estivalidade, pasmo com os milhares de pessoas que acorrem, que sabiam que aquilo ia acontecer, que com antecedência compram bilhetes, que se predispõem a ir com antecedência, que passam horas ao ar livre, ao calor, que sabem as canções de cor, que saltam e cantam. Fico mesmo admirada. Que motivação e energia aquelas pessoas têm....Sinto-me um bicho raro, alheado de toda esta realidade. Quanto muito, em dias assim, se me apetecer laurear, penso em ir para o escurinho do cinema ou ir calcorrear ruas, fotografando e observando quem passa. Ou sentar-me numa esplanada à beira rio. Ou ir petiscar, sem pressa, degustando petisquinhos e conversando.
Ainda no outro dia, estando todos na nossa casa de campo, o meu filho sugeriu que, em vez de jantarmos em casa, podíamos ir procurar alguma festa de aldeia nas proximidades, petiscar por lá. Para ele isto é um programa apetecível. Para mim nem pouco mais ou menos. Acho que a última vez que me senti atraída por feiras de verão era eu adolescente e mal podia esperar que chegasse a noite para nos irmos encontrar nos carrinhos de choque, nos carrocéis, nas farturas.
Agora, tomara que ninguém se lembre de me envolver em tais programas.
Mas, enfim. Não vos maço mais com esta lamúria que não é lamúria. Parece que me apetece algo e não sei o que é, só sei que um Ferrero Rocher não é. Não há saldos, livros ou gelados que me tragam aquilo de que preciso -- e pressinto que é isto mesmo: descanso, férias, quebra da rotina. Preciso.
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As imagens que escolhi como entremeio para o meu desfiar de lamentos mostram parcelas de pinturas, do mais clássico que há, inseridas em fotografias de festivas de verão -- e eu acho que fazem todo o sentido neste novo contexto. O artista é Márton Neményi e eu acho que ele tem muito sentido de humor, coisa que muito me agrada. E, como seria de esperar, provêm do Bored Panda.
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Lá em cima, Haley Reinhart interpreta Baby It’s You
Sabes, de verdade eu não sei voar. Voo em palavras, voo em sonhos mas, se abrir as minhas asas, não consigo mais do que misturar-me com as gaivotas e andar por sobre os mares, respirando a maresia e aspirando a luz que ali é muito pura e se dilui nas águas mais profundas. Isso eu consigo. Também consigo elevar-me até ao cume das montanhas azuis, lá onde os homens não se aventuram, lá onde os olhos quase tocam a mão de um certo deus muito silencioso.
Mas, sabes, voar até à lua eu não sei como. Fecho os olhos, penso que é só querer, que é apenas olhá-la e deixar que as minhas invisíveis asas se desdobrem até ao infinito para que o meu corpo se torne leve, sem laços nem limites... mas não consigo. Não consigo voar.
As coisas não são assim, sabes, não são como as queremos. O meu corpo não consegue esquecer a gravidade que o prende à terra. O meu corpo não desaprende as leis do mundo dos homens. Peço-lhe que me ouça, que se deixe levar na aragem que algumas palavras sopram mas ele não me sabe como fazê-lo.
Não consigo voar até à lua. Queria tanto. Mas não consigo. Sabes, não consigo.
Por isso... por isso, sabes, vou inventar uma lua que seja minha, uma que eu consiga tocar com as minhas mãos, uma lua que eu possa encher de cores, de loucuras, de loucuras felizes e coloridas, uma lua que contenha todos os meus sonhos, uma lua inventada, transbordando de luz, de segredos, de inocentes indecências, uma lua que eu consiga guardar no meu coração.
E depois ofereço-ta.
Toma-a nas tuas mãos.
É tua.
Só tua.
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Brincadeiras feitas agorinha mesmo sobre um fotografia feita também agora mesmo:
a lua cheia brilha no céu, derramando um rasto de luz no rio -- e eu fui à janela e apanhei-a.
E portanto, desvendado o mistério, sigo para a próxima. E não vou molestar as minhas ricas mãos com os mal-afamados submarinos ou com os Pandur do Paulo Portas; nem com as trapalhadas do desavergonhado abre-portas Coelho. Por um lado é fim-de-semana, preciso de desanuviar a minha pobre e fraca cabecita e, por outro, nada disso me espanta. É dar tempo ao tempo que a verdade haverá por vir acima. Mesmo para quem consegue passar, anos a fio, por entre os pingos da chuva, haverá um dia em que a tempestade não o poupará -- é dos livros. E, se estão recordados do que vos contei um dia sobre uma viagem que fiz com um jornalista no activo e outro já fora do métier mas ainda com fortes ligações ao milieu, terão ainda presente o que eles disseram: mal estejam afastados do poder, as coisas começarão a aparecer. Inevitável.
Portanto, hoje afasto-me do assunto e, estando numa de peace and love, fico-me, antes, pelo amor verdadeiro. E, assim sendo, transcrevo do Bored Panda, em tradução livre:
O Sr e a Srª Kuroki tinham uma vida feliz no Japão rural, com os seus dois filhos. Viviam numa quinta desde 1956. Até que, na sequência da diabetes de que sofria, a Sra Kuroki, subitamente, ficou cega. Triste, deprimida, refugiou-se dentro de casa.
O marido tentou animá-la mas sem sucesso até que teve uma ideia maravilhosa: decidiu plantar, na sua quinta, um jardim imenso para que ela tivesse vontade de sair e sentir o perfume das flores. Dois anos mais tarde e muitos milhares de flores depois, a quinta atrai imensas pessoas que querem testemunhar a expressão florida deste amor real. A senhora agora gosta de estar cá fora, no seu amoroso jardim, e sorri, feliz.
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No outro dia, na barragem do Alqueva, vi umas letras metálicas na varanda sobre o rio. As letras diziam isto:
On a clear day you can see forever
E penso que é qualquer coisa assim que a Senhora Kuroki deve sentir quando cheira o perfume suave das flores cor-de-rosa que o marido plantou para ela, quando sente o calor do sol no seu rosto e o braço do Sr. Kuroki sobre os seus ombros: que pode ver para sempre.
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E, caso queiram mergulhar no amor às palavras, nomeadamente, ao Primo Basílio e ao Amor, I love you, desçam um pouco mais, por favor.