sábado, março 20, 2021

Como vivem os que se esquecem de morrer?
Quais as regras para viver até depois dos 100?

 



Se eu viver até depois dos cem e me mantiver assim, dada a escrever como se não houvesse amanhã, talvez possa ir reportando, na primeira pessoa, como é que, no mundo ocidental, se consegue viver sem fim à vista.

Por enquanto, o que tenho mais próximo disso é o que os japoneses que se esquecem de morrer fazem para o conseguir.

É certo que também tenho o exemplo da minha mãe que, ao falar comigo, refere que já não vai para nova ou que não gosta de ir aos Correios em algumas alturas do mês (não me perguntem quais) porque, segundo ela, aquilo está cheio de velhos (sic). E tem razão em falar assim já que a ente olha para ela e dificilmente a inclui na faixa etária dos 'velhos'. É totalmente autónoma, totalmente na plena posse das suas faculdades, tem ideias, projectos (pintar os muros do jardim, renovar a decoração do quarto, trocar de sofás -- coisas assim). E tem, até, um certo ar jovial. É um facto que, volta e meia fica ansiosa por coisas de nada, um estado de nervos que quase contagia, liga-me quase em pânico com coisas de nada. Mas isso, admito eu, deve ter a ver com o facto de ter convivido durante uma dúzia de anos com a situação periclitante  do meu pai, sempre vigiando sintomas, sempre angustiada ao ver o seu lento declínio e ao constatar como estava indelevelmente (ainda que por inteira vontade própria) aprisionada junto dele. Foram anos que abalariam o sistema nervoso de qualquer um. Portanto, até acho que até muito resistente deve ela ser. Além disso, durante todos esses anos ela tinha uma ocupação a tempo inteiro, uma ocupação que ocupavam todas as células do seu corpo. Com a morte do meu pai, desapareceu-lhe esse propósito, essa missão a que se tinha entregado de corpo e alma. Não deve ser fácil. Por isso, dou desconto àqueles seus ataques de ansiedade... até porque, em regra, duram pouco. Eu dou-lhe um banho de racionalidade e ela, reconhecendo que tenho razão, acaba por 'ir ao sítio'.

Se pensar no que a ela a mantém assim, fisica e mentalmente bem, penso que se deve a uma alimentação equilibrada e saudável, a manter-se activa quer a nível físico (trata da casa e do jardim, faz caminhadas) quer a nível intelectual (lê, frequenta aulas na universidade sénior), a fazer tricot ou crochet, a conviver e a gostar de viver. Se não tem nada que fazer ou se o tempo está mau e não sai de casa, vai-se abaixo, queixa-se de dores nas pernas, mostra-se aborrecida. Mas tendo programas de festas e saindo, fica fresca e pronta para as curvas.

De vez em quando, se se queixa de que tudo lhe chega, insurjo-me, que não tem razão para dizer isso. O que é que lhe chega? De que é que se queixa?, pergunto-lhe. Diz que não queria, às vezes, ter dores nas pernas ou coisas assim. Pergunto-lhe se queria chegar à idade que tem, já tão perto dos noventa, e estar como se estivesse dezoito. Digo-lhe que deveria era dar graças por estar tão bem,. Tão bem... -- discorda ela. Sim, tão bem -- insisto. Pronto, está bem - despacha-me ela.

Se virmos os vídeos abaixo sobre comunidades japonesas onde as pessoas galgam os cem como se não custasse nada, e que aos noventa e tal ainda fazem ginástica a dançam, o que se vê não é nada de extraordinário. Limitam-se a não complicar, a não inventar motivos para stressar, a não se empanturrarem, a manterem-se fisicamente activas, a manterem-se em contacto umas com as outras. A socialização é importante tal como é importante uma pessoa não se deixar ficar sentada à espera que a morte a vá buscar.

Tenho para mim que é condição necessária (embora, infelizmente, em alguns casos, não suficiente) para uma pessoa viver bem até provecta idade que queira viver, que goste de viver.

Também penso que o contacto com a natureza também é relevante, uma fonte de saúde e de felicidade. 


Four Japanese rules to live past 100



The remote Japanese island where the locals refuse to die



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As fotografias foram algumas das vencedoras do The 2020 World Nature Photography Awards

David Gilmour - Bird On The Wire (Leonard Cohen Cover)

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Desejo-vos um sábado devidamente primaveril

sexta-feira, março 19, 2021

Divórcio: porque são as mulheres que rompem.
[E, a despropósito, a receita da minha sopa de bacalhau]

 


Esta quinta-feira a coisa foi um bocado dura. Telefonemas em cima de telefonemas, crises, dramas. Depois a coisa foi-se compondo. Tenho para mim que grande parte dos dramas resultam de se ter assuntos a cargo de gente pouco inteligente e que, para piorar, gente que não tem consciência das suas limitações, empolando cada pequena dificuldade. Incapazes de arranjar soluções para os problemas, gente pouco dotada o que sabe fazer é sacudir a água do capote, fazer-se de vítima, aparecer a apregoar resoluções bombásticas que não passam de pura parvoíce. E a gente ouve todo quele foguetório sem sequer perceber de que é que estão a falar e a única coisa que conclui é que, vindo de quem vem, a coisa não deve ser tão dramática quanto apregoam e que o melhor a fazer é bem capaz de ser tirar o assunto das mãos de quem não revela a mínima capacidade para resolver problemas. E assim foi e, poucas horas depois, com a coisa já noutras mãos, nas mãos de quem percebe do assunto, logo tudo começou a compor-se.

Mas aconteceu de tudo, a nível profissional e pessoal. Por volta das seis e picos a coisa acalmou. Ainda fiz mais um telefonema de trabalho mas as forças negativas do universo afinal pareciam estar a aquietar-se. 

Fui, então, fazer o jantar. Fiz sopa de bacalhau. Fiz assim:

Numa panela coloquei água, duas cebolas grandes, duas cenouras grandes, duas batatas normais, uma batata doce das que são cor-de-laranja (são as que prefiro), uma maçã royal gala, um alho francês, salsa. Juntei também cinco ovos com casca. Não coloquei sal. Pus a cozer.

Enquanto isso, num tacho pequeno coloquei um pouco de água, uma cebola (esta tal como todos os legumes, sempre devidamente lavados, descascados, partidos) e umas postas de bacalhau, uma das quais muito alta. Por recear que a água ficasse salgada, não juntei sal.

Quando a água do tacho de bacalhau ferveu, baixei o lume e cozinhou poucos minutos. Retirei o bacalhau para um prato. Passei a cebola para a panela da sopa, para que acabasse de cozinhar. 

Quando os legumes ficaram cozidos, desliguei.

Retirei os ovos para uma tigela de água fria, para serem mais fáceis de descascar. Descasquei-os. 

Juntei um ovo à sopa. Juntei azeite. Com a varinha mágica triturei bem, até ficar bem cremoso.

À água de cozer o bacalhau juntei cotovelinhos pequeninos e deixei que cozessem.

Entretanto, tirei as espinhas ao bacalhau e parti-o em bocados. Não é desfiar: é apenas cortar aos pequenos para que se sintam. Juntei à sopa.

Abri um frasco de grão-de-bico cozido e com um garfo retirei grãos para aí de meio frasco para a sopa. Quando as massinhas estavam cozidas (não muitas), juntei tudo à sopa, incluindo o caldo que transportava o sal do bacalhau -- e envolvi tudo bem. Provei: não precisava de sal.

Miguei os outros quatro ovos para uma tacinha. Levei também mozzarella ralada para a mesa. Como já era muito de noite já não fui apanhar hortelã. Devia ter-me lembrado mais cedo.

Em cada prato, sobre a sopa, colocámos ovos aos bocadinhos e o queijo.


Gostaram bastante. Um dos meninos e o meu marido ainda juntaram pão torrado. Gostam de sopas de tipo enfarta-brutos. O menino, então, tinha o prato atascado de pão ensopado na sopa à qual juntou ovo e sobretudo montes de queijo. Dizia que nunca tinha comido nada tão bom. O irmão, depois da sopa, começou a fazer mini-sandes de ovo cozido, queijo e um fio de azeite. Depois da fruta, ainda comeram biscoitinhos de chocolate. É como se estivessem na engorda. Contudo, como correm e brincam que se fartam (depois das aulas, claro), não estão nem um bocadinho gordos.

Pode parecer que a receita é longa e, por isso, difícil. Nada. De caras. E não tem como sair mal. Saborosa e nutritiva. Claro que quem estiver de dieta é melhor não comer grandes pratadas, em especial à noite. Mas, mesmo para quem estiver a pão e água, uma vez não são vezes...

Depois, aqui chegada, dei uma volta pelas notícias: excepto uma, nada que me interessasse. 

Desta vez o que despertou a minha atenção foi que são as mulheres que pedem 75% dos divórcios. Não sei se a estatística é universal, se apenas em França já que o artigo faz parte do Madame le Figaro. É interessante. Antes, eram os homens. As mulheres, por, em grande parte, dependerem financeiramente dos maridos, sujeitavam-se a tudo. E havia o estigma social, a censura. Agora, apesar de, em média, as mulheres ganharem menos que os homens e, portando, ficarem mais frequentemente em situação mais precária do que os homens em iguais circunstâncias, as mulheres não querem saber. Vão em frente.

Uma mulher que vive em casal, quer viver bem em casal, quer ter qualidade emocional - leio; e concordo. 

«Quand une femme rompt, la décision est liée à sa maturité, à son illusion déçue de constater qu'il n'y a pas de “danse de couple”.» Autrement dit, pas, ou plus, de magie. [Quando uma mulher rompe, a decisão está ligada à sua maturidade, à decepção de não existir a ilusão de uma dança a dois. Ou seja, que já não há magia]

E se ao fim de pouco tempo, a percentagem de homens que já vive de novo em casal é maior do que a das mulheres, já que as mulheres parece quererem ponderar melhor ao envolverem-se de novo com outra pessoa, a verdade é que, quando isso acontece, depois de terem dado o tempo necessário para se readaptarem e para fazerem uma boa escolha, sem a pressa que os homens parecem demonstrar, as mulheres parece que renascem. Mostram-se livres, seguras, determinadas a enveredarem por uma nova vida. São outras, mais fortes.

O artigo é interessante e a quem se entender bem com o francês, aqui fica o link: Divorce : pourquoi ce sont les femmes qui rompent


E, por hoje, nada mais. Ainda estive a ver vídeos sobre japoneses que vivem para além dos 100 anos e é muito interessante... mas já não é para hoje. 

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As mulheres com máscara são obra de Volker Hermes e são bem acompanhadas pelos The Paper Kites que interpretam Dearest 

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E uma bela sexta-feira!

quinta-feira, março 18, 2021

Falem-me de árvores, florestas e coisas assim

 


Entre o trabalho e os meninos e a mãe dos meninos e o que vai surgindo ao longo do dia, telefonemas e sobressaltos da minha mãe, outros telefonemas, uns pessoais e outros profissionais e cozinhar e etc. pouco sobra para saber de notícias do mundo.

Da leitura rápida e oblíqua que fiz a bem dizer nada me interessou: parece que há dias em que o mundo não avança. Guerras, dramas, novas variantes, recessão e dramas, corrupções. Ou insignificâncias, maledicências. Telejornais ou comentadores não vejo há que séculos. Já não atino com aquilo, falta-me a paciência.

Esta quinta-feira vem cá o senhor da mercearia trazer os frescos e, portanto, na quarta-feira fiz a encomenda. Os meus hábitos vão-se modificando. Dantes ia ao supermercado, via e avaliava o que havia, decidia na altura. E, ao decidir, fazia combinações, quase que os cozinhados começavam logo a nascer ali mesmo. Agora não: agora, em abstracto, imagino o que posso querer ou confiro bem as quantidades que tenho para calcular o que preciso. Não aprecio muito este método pois, no que não é relevante, sou mais dada ao improviso do que ao planeamento.

Era para ter feito a encomenda de roupa para um dos meninos que está quase a fazer anos mas falta-me ali um passo que tenho que esclarecer durante o dia. Também me aborrece um bocado isto pois gostava de ver, de apreciar a qualidade do tecido, avaliar se seria fácil de lavar. Assim, o mais que posso fazer é ampliar a imagem a ver se dá para perceber. 

Mas, enfim, tem o seu lado prático: não é preciso sair de casa. Talvez o futuro do comércio passe muito por aqui: esmorecerem as grandes superfícies com as suas lojas, lojinhas e vendedores para haver grandes redes logísticas a dar suporte às plataformas online. Vamo-nos desmaterializando. Desmaterializando-nos e deixando que toda a espécie de bicheza, também invisível, nos domine. Vírus, variantes, variantes das variantes. E nós, pobres totós, à mercê. Mas sempre armados em bons. Tem até graça. 

(Uma evolução um bocado estúpida, convenhamos).

Adiante.

A minha filha viu que o ICNF tem 50.000 árvores autóctones para oferecer a cidadãos e proprietários rurais. Já nos inscreveu para ver se podemos ir levantar umas quantas. A ver se chegam para nós. O meu marido ouviu a conversa e não achou muita graça pois não sabe onde tenciono eu plantar aquelas árvores. À partida não sei responder mas hei-de arranjar onde. Plantar árvores é do melhor que podemos fazer pelo mundo. Só quem plantou e cuidou de árvores bebés e as viu crescer até poder estar à sua sombra sabe do prazer maior que é isto de sentirmos que estamos a fazer qualquer coisa de bem pela Terra que nos acolhe. Se formos bem sucedidos, talvez os meninos possam ajudar a plantar uma meia dúzia. As outras quero levá-las para o campo para as plantar in heaven. O meu marido diz que não sabe onde. 

Mas, enfim, falava eu de notícias relhas e velhas. E falava para dizer que, de entre tanto déjà vu, de tanta infelicidade e pouca sorte, apenas uma notícia chamou a minha atenção: a que está na moda plantar cogumelos em casa. Achei o máximo. Cogumelos daqueles vulgares ou daqueles lindos. Acho que vou ter que ler a notícia com atenção para ver como é. Aliás, ando a pensar em ter uma estufa. Aliás, aliás, pensar eu penso em muita coisa. O pior é a disponibilidade para passar à prática tudo aquilo em que penso. O que vale é que não me dá para me sentir frustrada.


E é isto. Ou melhor: lamento mas hoje não passa disto. Para além de ter sono, tenho também falta de assunto. A ver se amanhã faço um update do que tenho cozinhado. Os meninos gostam da minha mão para o tempero e eu sinto-me feliz por ver como comem de gosto. Noutra encarnação devo ter sido estalajadeira, daquelas que iam de mesa em mesa com lautas travessas, terrinas ou tachadas servindo os fregueses.

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Usei imagens totalmente desfasadas da lógica do texto. Mas como também não se pode dizer que o texto tenha grande lógica, acho que talvez passe. O autor, CRUDEOIL 2.0 de seu nome, faz a proeza de introduzir personagens de antanho às modas sociais dos tempos que correm. O resultado é o que se vê. Diz eleMy imagery was born as a critique of society, saturated with social, aesthetic canons, and appearances. This concept is reflected in my works that deal with social media as a new religion and a new creed. To express my intent, I take artworks from the past and re-contextualize them to the present day. Acho que tem graça.

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Acompanha-nos Fields of Gold - Sting (cover por Arpi Alto) e espero que gostem.

E, para acabar, um vídeo daqueles que me inspiram. Espero que inspirem mais pessoas. 

The man who grew his own Amazon rainforest

A corner of the Amazon that had been cleared and used as farmland has been restored to rainforest.

The man who owns it, Omar Tello, gave up his job as an accountant and spent 40 years recreating a patch of pristine forest in Ecuador, stretching just a few hundred metres in each direction.

He’s trying to encourage other landowners to do the same, so they can turn the tide of deforestation.  


Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, março 17, 2021

Gesto universal para pedir ajuda caso seja vítima de violência doméstica

#SignalForHelp


O meu dia foi tão bom que vim para aqui querendo falar dos meninos, da alegria deles, do mais novo que quer sempre ajudar, sobretudo quando são trabalhos pesados, desta vez a serrar troncos de árvore, ou do mais crescido que tem um sentido de humor e uma ironia que surpreendem e desarmam qualquer um. Ou falar do sol que esteve tão bom. Ou do dia profissional que me começou agreste, cheio de lâminas bem afiadas, mas que, felizmente, se foi compondo, chegando àquele ponto de equilíbrio em que as decisões não pesam toneladas e em que o nome de quem não se suporta, ao surgir no ecrã do telemóvel, não é sinónimo de pegar em cinquenta pedras (virtuais) para atirar à pessoa que está do outro lado da 'linha'.

Também andei a fotografar os meninos a terem aulas ou nos seus tempos livres, na rua ou em casa, ou as flores ou, simplesmente, a luz através das flores. Ou falar do arroz de frango que fiz para acompanhar asas fritas, uma coisa na base do arroz de polvo a acompanhar filetes do dito. Mas, outro dia, logo mostro as fotografias ou logo explico como fiz.

É que, ao começar a cirandar para ver a quantas anda o mundo, dei com uma coisa que desconhecia e que acho que deve merecer toda a atenção do mundo. 

Tem a ver com um tema que me perturba muito e sobre o qual penso que tudo o que se faça para alertar para a chaga social que representa é pouco. Não consigo sequer imaginar o terror, a angústia, a aflição, o desespero de quem é vítima de violência doméstica. Ter que conviver com um verdugo, com um psicopata, alguém que amedronta, que intimida, que manipula, que faz chantagem emocional, que agride, física ou psicologicamente, é daquelas coisas que deve destruir uma pessoa por dentro. Sem ter como pedir ajuda ou sem saber como pedi-la sem que isso signifique mais violência, imagino o sofrimento de quem se sente impotente e à mercê de alguém que diz que ama mas que, na realidade, rouba anos de vida à sua vítima.

O tema da violência doméstica é mais um daqueles que tem sido recorrente no Um Jeito Manso. Contudo, esperando que me desculpem por me repetir, acho que:

  • deve ser assunto de que se fale para que quem seja vítima saiba que não está sozinho, 
  • para que saiba como denunciar, de forma segura, a situação, 
e acho também que:
  • deve ser mostrado desprezo público pelos agressores, desprezo absoluto, deve ser mostrado que são uns cobardes, um merdosos, um lixo.
  • deve ser irrefutável e comummente aceite que não têm atenuante ou desculpa possíveis.

Aquilo a que acima referi foi que descobri que há um gesto universal, silencioso, irrastreável e seguro para dizer que se é vítima de violência doméstica.

E é isso que hoje aqui trago. Só isso. Quem queira que se saiba aquilo por que está a passar, é arranjar maneira de dobrar o polegar sobre a palma da mão aberta na direcção de quem possa ver, dobrando de seguida os outros dedos sobre o polegar. Ou numa fotografia, ou num vídeo ou à janela ou na rua ou onde puder ser. E quem veja este gesto que actue, que ajude, que participe, que faça alguma coisa de útil para ajudar a pessoa que tão corajosamente se expôs.

Violence at Home #SignalForHelp

Isolation can increase the risk of domestic violence at home. If this is the case for you, use this hand signal on a video call to show you need help.

INTERNATIONAL HELP ME SIGN



E tenham, por favor, um dia tranquilo, pacífico, feliz

terça-feira, março 16, 2021

Como as andorinhas na Primavera, os meus meninos começam a regressar

 



Esta semana começou especial, como ontem contei. Como é sabido, a semana começa ao domingo, dia de descanso. E dia de encontros. Vieram buscar as bicicletas para darem um passeio por aqui. E, mal chegaram, desataram a brincar, a andar de balouço, o mais novo foi logo buscar os carrinhos ao baú, a menina já tão crescidinha, o mano do meio cheio de força, num ápice a subir pela corda até ao cimo da árvore. Mas foi visita rápida, confinamento oblige. Fechados durante tanto tempo, hoje dois deles retomaram a escola e, portanto, a véspera foi para desopilar. 

E assim, boa, está a continuar esta minha semana. Tenho hóspedes. Têm a casa em obras, mudaram-se para cá. Como têm estado confinados e nós também, acreditamos que não vamos contagiar-nos uns aos outros.

Chegaram maiores, cabelos grandes, bem dispostos. Agarrei-me logo a eles. De dentro, o meu marido gritou por mim, com ar zangado. A minha filha adivinhou logo: 'ouviu'. Quando estou cheia de saudades, os meus beijos viram beijocas, efusivas e ruidosas. Quando entrei em casa, estava aborrecido: 'não tens cuidados nenhuns, a primeira coisa que fazes é agarrares-te a eles aos beijos'. Expliquei que acredito que estão desinfectados e, ademais, foi no pescoço, mais concretamente na nuca. Mas abracei-os, bem juntinhos a mim, e vá de beijocas. Não há-de ser nada. As saudades já eram muitas.

Mal mudaram de roupa e lancharam, foram para o andar de cima, cada um para o seu lugar preferido. E ao jantar, rica saúde, dá gosto vê-los, comeram que nem uns desalmados. Sopa de legumes e costeletas com couscous. Quando estava a fazer as costeletas, achei que eram demais, um exagero. Hesitei. O meu marido que, na altura, passava por ali, disse: 'Faz tudo, fica para o almoço'. E quando estava a cozinhá-las, tantas, pensei outra vez: um exagero. Afinal sobraram três. A minha filha diz que não sabe o que lhes dá, parece que ficam varados de fome. Comem, comem, e não ficam barrigudos e, segundo dizem, nem se sentem cheios. 

Quando acabaram, voltaram a correr para o andar de cima: o mais velho, que está mesmo quase da minha altura, para o cadeirão relax, com uma mantinha de veludo macio por cima, o mais novo, na mesa. Ambos jogando, felizes por estarem ali. Aquele espaço, todo só para eles, é o seu reino. 

Agora já dormem, claro. Estão em aulas. Ao jantar, a conversa foi sobre história de Portugal. O mais novo tem teste. Sabia bem a matéria. A fundação do reino. Batalhas, disputas, dramas familiares. O mano mais velho também ainda a tinha fresca. Quando passaram para a dinastia seguinte, o avô contou mais pormenores mas o mais crescido aconselhou o irmão a não usar essas informações pois não fazem parte da matéria escolar e a professora poderia não aceitar. Achei graça. 

Contudo, a nível profissional, o meu dia voltou a não ser especialmente fácil. Como em tudo na vida, também aqui há altos e baixos. Não é fácil agradar a gregos e troianos. Onde uns se sentem motivados e agradecidos, outros sentem-se pressionados ou pouco reconhecidos. E não andam à mesma velocidade e, por vezes, há quem tenhas sérias dificuldades em acertar o passo. Não é fácil orquestrar um grupo grande demais para tocarem todos afinados. Tenho, muitas vezes, que invocar todas as minhas forças para me manter firme, esperançada, com energia para convencer uns a fazer isto, outros aquilo, para explicar porque não podem ter isto se, antes, não fizerem aquilo, para os convencer a falar menos e focarem-me mais. Muito difícil. A Manuela Ferreira Leite disse uma vez que, para se conseguir uma certa coisa, só se houvesse ditadura durante uns tempos. Às vezes, isso ocorre-me. Seria mais fácil. Felizmente, é pensamento que rapidamente voa para bem longe. E, assim, no meio da saudável democracia, aturo queixas de uns e outros, assisto quase impotente a como se desfocam e perdem tempo e energias a discutir o que não interessa para nada.

Mas, enfim, esta semana vou tentar que tudo isso, todas as preocupações que diariamente se sucedem,  passem um pouco para segundo plano. Não me será fácil mas acho que devo tentar. Se pudesse tirava até uns dias de férias. Por sorte o tempo está a ajudar, um solinho quentinho de dar gosto. Uma primavera a vir devagar e com ares de vir a ser boa.

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Hoje estou numa de rosas de Van Gogh. E, se me permitem, deixem que partilhe mais um vídeo de decoração. 

Tenho uma amiga que comprou um prédio na Baixa e dele fez uma casa com vários pisos e que, inclusivamente, tem um pequeno jardim e horta nas traseiras. Obra de arquitecto, claro, que soube transformar um prédio de pequenos e antiquados apartamentos numa casa incrível, ampla, moderna, cheia de luz. Claro que tem alguns escolhos. Por exemplo, diz que tem que ter um aspirador em cada piso para não andar a carregar com ele pelas escadas. Já está estruturada para poder vir a ter um elevador interior pois, como ela brinca, 'esta casa não é para velhos'. Tem a cozinha no que era a cave, a grande sala de estar no rés do chão, os quartos no primeiro andar, a biblioteca e o atelier nos dois últimos pisos. E tem um gato que se sente a viver num palácio.

E lembrei-me dela ao ver o vídeo abaixo.

Architect Barbara Weiss takes us on a tour of her upside-down house, a converted pub in Westminster


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Uma feliz terça-feira
Sorrisos. Afectos. Sol.

segunda-feira, março 15, 2021

Crónica de um domingo quase primaveril, quase a desconfinar-se

 


Tenho que dizer que o domingo foi bom. Amanheci com passarinhos a cantar junta à janela e com o anúncio de uma visita inesperada. Muito bom. Uma alegria. Estive a ver as fotografias, grande parte delas nem sequer feitas por mim. E um vídeo. Uma ternura.

Depois foi a tranquilidade do costume, caminhámos, cozinhei, o meu marido jardinou, li sentada no cadeirão do primeiro andar que apanha o sol da tarde e de onde vejo as magnólias cuja cor se adoça com a luz dourada que vem do poente.

Ao fim da tarde tivemos uma call alargada. Falámos, trocámos argumentos, falámos do jardim, de arranjos que queremos fazer-lhe. O jardim é um lugar de encontros, deve ser conversado em conjunto.

Quando lá voltei já estava escuro e, sobretudo, muito frio. Ao fim do dia a temperatura baixa muito, fica mesmo muito frio, mas a meio do dia está-se muito bem, o sol de Março está amável, prenuncia a Primavera. Na horta, as árvores de fruto estão em flor, lindas. E as nêsperas começam a ganhar tamanho e a quererem ganhar cor. A natureza tem infindáveis milagres para nos surpreender -- e, no entanto, há muita gente que ainda não aprendeu a venerá-la.

Sei que não é preciso escrever os nomes dos meses e das estações em maiúsculas mas o devir do tempo é agora tão relevante na minha vida que acho que devo dar algum relevo às etapas que vou percorrendo. 

É bem verdade aquilo que sempre ouvi dizer: à medida que avançamos na idade, o tempo acelera. Muitas vezes, quando penso no meu futuro, ocorre-me equacioná-lo no contexto dos anos de vida que posso ter pela frente com esperança nalguma qualidade de vida. E sei que esses anos vão passar a correr. Por isso, quero aproveitá-los bem, em paz, fazendo aquilo de que gosto, junto daqueles de quem gosto. 

Há quem, a nível profissional, recorrentemente, discuta comigo projectos que supostamente devo conduzir. Tento esquivar-me, digo que são aventuras de fôlego, para gente que tenha longos anos de trabalho pela frente. Respondem-me que contam que eu os tenha. E eu digo que não. Explico que quero, sentindo-me ainda em bom estado, mudar de vida, experimentar novas actividades. Não quero trabalhar até me sentir gasta, cansada, velha. Contestam, acham que é uma desculpa esfarrapada para me furtar a compromissos em que querem que me envolva. É uma discussão que nunca acaba bem e que, para não nos aborrecermos, fica por ali. Até à vez seguinte. Mas tenho esse pensamento muito presente.


Agora à noite, ao ligar o computador, tinha um mail. Trazia fotografias. Orgulhosamente, as fotografias, tal como as palavras, referiam o trabalho feito e o seu autor agradecia o meu apoio, assegurava-me que podia contar com ele e com a sua equipa. Emocionei-me. Sei bem as exigentes e duras condições em que têm trabalhado. Penso que não contavam ver-me lá, no outro dia, entre eles, genuinamente querendo ver o que estão a fazer. No entanto, era o mínimo que poderia fazer. Há pequenas coisas que me enchem de emoção, pequenas coisas que fazem com que todas as horas de trabalho e de stress e de mil canseiras valham a pena. Só espero não os desiludir. E, na minha cabeça, faço contas. Penso no que poderei fazer por eles, em especial por alguns, enquanto ali trabalhar. Há gente tão competente, tão dedicada. Tenho alguma pena que alguns jovens talentosos se tenham ficado pelo 12º ano pois ser-lhes-á mais difícil progredir até onde penso que poderiam ir. E meço o tempo de que preciso para fazer outras alterações, para tentar que obtenham mais formação.

Preocupa-me uma coisa: uma pessoa tende a preocupar-se mais com as pessoas de quem tem oportunidade de conhecer ou acompanhar o percurso de mais perto. Mas há os que trabalham a centenas ou milhares de quilómetros e que, por não terem quem os acompanhe com mais proximidade, não terão as mesmas oportunidades. Há nisso alguma injustiça que não sei como evitar. 

A vida das pessoas é assim mesmo: pode haver muito mérito dos próprios mas a verdade é que a sorte também é fundamental. Há tantas pessoas extraordinárias que fazem tudo o que podem, que dão o litro, que oferecem sugestões, que estão sempre disponíveis para ajudar e, no entanto, não têm o prazer e a alegria de se sentirem reconhecidas, motivadas e realizadas. E isto apenas porque não tiveram a sorte de ter por perto quem lhes desse o devido valor. 

Mas, enfim, é o que é. 

Estamos a meio do mês de Março, está a fazer um ano que entrámos no primeiro confinamento. Estamos a viver um dos períodos mais extraordinários que alguma vez alguém poderia supor, um período sem paralelo nos tempos mais recentes, um período que, como todos os momentos disruptivos, trará alterações no modo de vida de muitas pessoas. Tomara que saibamos ter a inteligência que fazer mudanças a favor das pessoas e do planeta. E estamos a começar uma nova semana e espero que seja uma bela semana para mim e para todos os que, por aqui me acompanham.


Saúde. Boa disposição. Esperança.

domingo, março 14, 2021

Aquele que, para fugir ao amor, foi fazer vida para um lugar onde as super gazelas e outros muito ricos gostam de viver

 

Em tempos que já lá vão, apareceu na empresa um jjovem talentoso. Rapidamente se espalhou a fama das suas capacidades. Toda a gente o escolhia para participar em projectos em que se requeria espírito inovador, abertura à mudança, inteligência. Mas não eram apenas esses os seus dotes: era uma bela figura de homem, com a graça suplementar de ser bem disposto, cativante.

Ao fim de pouco tempo, havia uma corte de colegas, jovens mulheres, que não o largavam. Quando nos aproximávamos da copa e ouvíamos aquelas risadas de quem quer seduzir estando já seduzido, já sabíamos que lá estaria ele e as suas admiradoras. Havia um outro que trabalhava no mesmo sector que ele e que geralmente o acompanhava. Igualmente bem disposto, era, contudo, apenas o contraponto ou a sombra do outro. Pouca atenção elas lhe dedicavam nem ele tentava desviar-lhes a atenção do primeiro. Via-se que também admirava o colega. Jogavam futebol fora dali. De vez em quando, depois de almoço apareciam todos corados, cabelo ainda molhado pelo duche que tomavam lá mesmo. Até que esse mais bonito e mais alegre começou a aproximar-se mais da mais bela das jovens, por acaso casada. Aos poucos, percebíamos que se desfasavam dos outros, saíam juntos para almoçar, chegavam mais tarde, saíam juntos ao fim do dia. Algum tempo depois era o colega que também andava caído de amores por uma outra, ao que se sabia também ela já com namorado, estando até já a organizar o casamento. 

O grupo animado foi-se desmembrando pois os dois casais, cada um para seu lado, procuravam a companhia, em privado, dos amados. 

Depois começámos a perceber a tensão que, aos poucos, se ia instalando entre eles. O primeiro a sair da empresa foi o mais apagado. Dizia-se que não tinha suportado que a colega não tivesse rompido com o namorado. A jovem andou triste, saía mais cedo, tinha perdido a alegria. Algum tempo depois casou e foi de lua de mel para a Tailândia. 

Dele nunca mais se soube, pelo menos eu nunca mais soube.

Cada vez mais próximos estavam a jovem casada com o seu belo apaixonado. Comentava-se: situação complicada, são os dois tão bonitos, fazem um casal tão bonito, parecem feitos um para o outro, qualquer dia ela deixa o marido.

Um dia, viram-nos do lado de fora, num recanto junto dos elevadores. Disseram que estavam a discutir. Viram-na depois com os olhos vermelhos. 

Qualquer coisa entre eles foi ficando cada vez mais frágil. Até que, algum tempo depois, foi a vez dele apresentar a demissão. Toda a gente lamentou: uma perda para a empresa. Mas toda a gente compreendeu. 

Despediu-se de cada pessoa, quase parecia animado, disse que ia partir para outra, mudar de ares. Sendo um surfista convicto e de família com sobejas posses, pensei que ia fazer uma pausa, curtir o mar. Foi de gabinete em gabinete, de mesa em mesa no open space. Abraçou e beijou toda a gente, excepto a ela. Não se soube se não tinham suportado a ideia da despedida ou se a despedida aconteceu em privado. Quando veio ao meu gabinete, perguntei-lhe para onde ia. Para o Dubai, disse. Fiquei muito admirada. Riu-se: Vou gozar a vida. Vou ser rico. Ironia. Rico já ele era e não era pouco.

No verão seguinte, apareceu por lá. Estava de férias, foi visitar os ex-colegas. Jeans, polo, ténis, bronzeadíssimo, cabelo muito curto. Quando o vi, assim de repente nem o reconheci. Estava ainda mais atraente. Foi uma festa, as mais jovens acorreram e, num instante, estava cercado de sorrisos e olhares felizes. Todas encantadas com aquela aparição. A sua bem amada, a mais bela de todas, pálida e magra, mostrou-se pouco efusiva, quase tímida. Ele radiante, respondendo a todas as questões, rindo. Se se encontraram fora dali e mataram as saudades em privado, não sei. Dizia-se que sim mas sempre se disse tanta coisa.

Pelo Natal desse ano voltou a aparecer. Mantinha-se bastante tisnado mas agora usava barba, tinha um ar talvez um pouco mais maduro. Gostava de lá viver, contava episódios que deixavam toda a gente estupefacta. Tinha saudades, claro, mas começava a habituar-se àquele nível e estilo de vida. Se antes dizia que aquilo era só para ganhar dinheiro e depois regressar, essa intenção já não era muito visível. 

No verão seguinte já não apareceu. Nunca mais soube dele até que, não há muito, alguém me disse que ainda lá vivia, que se tinha casado com uma italiana, que já tinha uma filha e que já tinha a sua própria empresa.

No outro dia, ao comentar que precisava de alguém na área de Desenvolvimento, alguém que visse ao longe mas, ao mesmo tempo, tivesse os pés na terra, a pessoa com quem eu falava, perguntou-me: 'Alguém como?'. Como ele  também trabalhava nessa empresa nessa altura, disse o nome do belo moreno. Pelo nome, não se lembrava. Disse-lhe: 'Aquele destruidor de corações que foi para o Dubai'. Lembrou-se logo. 'Ah sim... Que será feito dele?'. Contei-lhe da italiana, da filha, da empresa. Ficou muito admirado. 'Pessoas como ele não costumam deixar-se agarrar'. 

Não sei. Não sei se se deixou agarrar. Mas a verdade é que pouco sabemos dos outros. 

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A vida no Dubai. O refúgio dos muito ricos. As casas inimaginárias. Os carros de luxo.


Dubai's world islands private mansion tour

This $24 million dollar mansion has a real snow ❄️️ room... in the middle of the desert!!! 😲 We took a trip out by boat to the island known as Sweden, to see how people will be living out on the World Islands. (...) Everything on this island is self sustaining. This is one of the requirements to build on these islands. 


Asking women supercar drivers what they do for a living

I meet up with Supercar owners to ask them what they do to be able to afford these cars. The difference here is, all these supercar owners are women. They're all a part of the Arabian Gazelles, the first all female supercar club in Dubai. So interesting to hear how diverse everyone's jobs are. 

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As fotografias com que pontuei o texto mostram uma das arquitecturas mais espectaculares do mundo: a do Dubai

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Um belo dia de domingo

sábado, março 13, 2021

Retrato de uma sedutora

 

O que faz de uma mulher uma mulher sensual? O que é preciso a uma mulher para ser uma sedutora? 

Não sei dizer. Posso apenas dizer que é genético. Tenho assistido a quem se esforce por sê-lo. Fica patético. Para quem tem o prazer da sedução nos genes não é preciso esforço. É um sorriso, é um olhar, é um trejeito, é uma meia palavra, é a subtileza de um gesto que se esquiva, é a graça de uma inocência que esconde uma malícia que não se sabe se é atingível. Coisas assim que, para surtirem efeito, têm que ser espontâneas, irrepetíveis. 

Uma mulher que pode ilustrar tudo isto é Kate Moss. Ela diverte-se, ela tem dentro dela a graça que a felicidade de existir impregna o corpo de quem a sente. Ela seduz mesmo sem querer.

Vive agora no campo e adora a natureza. A que foi uma bad girl, toda ela excessos condimentando a beleza inocente, é agora uma mulher que aprecia a vida em paz. Tem quarente e sete anos, namora um conde que é cerca de treze anos mais novo que ela e que é fotógrafo, passeia os cães, desfruta a sua bela casa. Não sei se ela tem paciência para, em casa, andar a ser fotografada mas, se tiver, talvez venham a ser do namorado as mais belas fotos de uma das mulheres mais fotografadas do mundo.

Estou a falar disto porque, num dia cheio de reuniões de pds e de kick offs, com telefonemas ao fim do dia quando já me apetecia encerrar o estabelecimento e com coisas a tratar depois disso, não ia agora pôr-me para aqui a dissertar sobre desconfinamentos ou outros temas áridos e chatos. Se já fosse dia, se calhar ia ouvir os passarinhos, talvez esconder-me por entre os arbustos à espera que cheguem as andorinhas cujo ninho as espera. Se fosse noite entrando pela madrugada, talvez fosse procurar os lobos que deslizam pela penumbra azul. Assim, limito-me a mostrar duas fotografia de Kate Moss feitas pelo namorado, o Conde Nikolai Leopold Archibald von Bismarck-Schönhausen mais conhecido por Nikolai von Bismarck, bem como o vídeo onde Kate responde a perguntas que amigos e conhecidos de longa data lhe colocam.

Eu, se pudesse, perguntar-lhe-ia: De quanto tempo precisa para seduzir um homem inteligente*?

[* Os burros demoram mais tempo (provavelmente porque uma mulher inteligente também não coloca muito empenho em conquistá-lo)]

e surpreender-me-ia se ela respondesse mais do que meia hora. 

Passo, então, ao vídeo.

Kate Moss Answers 28 Questions From Her Famous Friends & Family | 

Ask A Legend | British Vogue  

If you could ask Kate Moss anything, what would it be? The supermodel and January cover star fields questions from Dua Lipa, David Walliams, Elton John, Marc Jacobs and more in episode two of British Vogue’s Ask a Legend series, revealing her all-time favourite party dress, what never fails to piss her off, and why Christy Turlington Burns calls her “little wagon” along the way. 


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Um bom sábado.
Luz. Esperança. Amor.

sexta-feira, março 12, 2021

Sentámo-nos à sombra de uma árvore e ninguém tinha o coração por inimigo

 



Hoje de manhã estava numa reunião remota quando vi que tinha chegado uma mensagem de uma jovem, aliás já não tão jovem quanto isso, que não trabalhava directamente comigo na outra empresa mas em quem sempre reconheci muito mérito e com quem sempre simpatizei, valorizando-o junto da respectiva hierarquia e incentivando-a a nunca baixar os braços. Ao ver a sua mensagem, curiosa, pelo canto do olho, fui espreitar. Dizia-me que tinha sido promovida e que estava muito contente e que achava que eu também ia ficar contente por saber. Como estava em reunião, não pude deixar que a emoção que senti se manifestasse. Mas fiquei verdadeiramente feliz. Vai para uns nove ou dez meses que saí da empresa e ela nem sequer trabalhava comigo e, no entanto, agora lembrou-se de mim para partilhar a sua alegria. Não há muito foi outra jovem que me ligou para me dizer que tinha terminado o mestrado e para me dizer que tinha tido uma boa nota. Fiquei igualmente feliz. Incentivei-a, fiz com que lhe facilitassem a vida para poder suportar melhor os custos e para estudar. Quando me ligou, fiquei surpreendida. E, depois de ouvi-la, fiquei mesmo contente.

Hoje de tarde estive outra vez na empresa. Grandes mudanças, reviravolta das valentes, frutos já visíveis: quis estar junto de quem anda a dar o corpo ao manifesto. Para uma das missões mais impossíveis, trabalho duro sob todos os pontos de vista, achei que deveria ser um jovem que, à altura fazia um trabalho que nada tinha a ver. Ninguém percebeu a minha ideia, muito menos o próprio que achou que estava a ir de cavalo para burro. Disseram-me que ele dizia que não sabia que mal tinha feito para o irem enfiar a fazer aquilo. Tentaram demover-me. Sugeriram-me várias alternativas. Mas, quando meto uma na cabeça, vai lá vai. 

Pois bem: o trabalho que ele está a fazer é notável. Nunca tal imaginei. Na minha cabeça não havia outro que não ele para fazer aquilo que eu queria que fosse feito. Mas julguei que só se veriam frutos daqui por algum tempo. Está bem, está... Uma motivação, uma genica, um entusiasmo que me emociona. Depois de ele me levar a visitar o trabalho que tem feito, chefiando com denodo uma equipa que não era fácil, disse-lhe: 'Não queria vir para aqui, lembra-se?' Ele sorriu e disse que sim com a cabeça. Perguntei-lhe: 'E está a gostar do que está a fazer, não está?'. Ele sorriu de novo e disse que sim, que está a trabalhar muito porque há muito trabalho para fazer mas que, sim, está a gostar do que faz. E ouvi-lo dizer isso e vê-lo tão motivado, encheu-me de alegria. 

Passei por outro local. Antes um espaço em parte quase ao abandono, pessoas apáticas, hoje fervilhava de actividade. Ao chegar lá, parecia que tinha entrado num outro filme. A máscara não ajuda mas não conheci ninguém. No entanto, eles cumprimentavam-me e vi que sabiam quem sou. Acredito que eles não imaginam como gostei do que vi e como gostei que me tivessem cumprimentado da forma como me cumprimentaram. Pensei que gostaria de, para a próxima, lhes levar flores para lhes oferecer e para agradecer. 

Vim de lá feliz. 

Os dias vão passando. Não tarda, o risco de contágio estará mais controlado. Com Abril à vista, o tempo melhor começa a aproximar-se, o número de pessoas vacinadas vai aumentando, o suave sabor da liberdade de movimentos começa a fazer-se sentir. E isso é muito bom. 

Claro que, no meio destas boas expectativas e das alegrias que vão chegando até mim, algumas saudades pesam no meu peito: saudades pelos que o meu coração ama e têm estado fisicamente distantes, saudades pelos que se foram para sempre, saudades por aqueles com quem gostava de conversar e que se perderam na vida, saudades de alguns momentos com pessoas que antes estavam perto. Ainda no outro dia, ao conversar, lembrei-me de alguns colegas e amigos que me divertiam, inteligentes e bem humorados. Ao relembrar-me algumas situações, voltei a rir-me de gosto. A vida, tantas vezes, vai-nos levando por caminhos distintos. E a vida é mesmo assim, não conseguimos manter-nos sempre junto de todos os que vamos conhecendo, especialmente quando a vida nos vai levando por novos caminhos e trazendo novos caminhantes.

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E é isto. É tarde e não tarda tenho que estar a pé e, pior, sem tempo para acordar calmamente. Se há coisa que vai contra o meu biorritmo é ter uma reunião mal acabo de me pôr a pé, em especial quando sou forçada a estar a pé a horas impróprias para consumo. Mas, enfim, há quem funcione noutros fusos horários e, portanto, o que não tem remédio remediado está. O pior é que ontem ainda estava na cama e já estava a receber um telefonema que tive que atender. E, portanto, estou aqui e a pensar que já devia era estar a dormir. 

Mas antes de me ir deixem que partilhe convosco um poema de Luís Filipe de Castro Mendes dito por Catarina Walenstein que se calhar não tem nada a ver com o que antes escrevi mas é assim mesmo: as coisas, tantas vezes, não têm muito a ver umas com as outras. É também do mesmo poeta o poema do qual extraí o título deste post que, identicamente, não faz questão de ser coerente com tudo o mais que aqui está.

As fotografias de Giuseppe La Spada vêm ao som de She remembers de Max Richter


EM VOZ ALTA OS NOSSOS POETAS | 

Mozart a um anjo de Luís Filipe Castro Mendes por Catarina Walenstein


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Uma sexta-feira muito sexta-feira para todos
Alegria. Esperança. Saúde.

quinta-feira, março 11, 2021

Meninas mostrando mais do que devia,
mulheres sem cuecas

e
a célebre chamada da Ana Lourenço para um certo país asiático

 

Já há algum tempo que não ia espreitar as estatísticas das visitas a esta vossa humilde casa. Hoje lembrei-me de vir ver. O blogger disponibiliza número de visualizações por horas, por países, etc. O que mais desperta o meu interesse são as expressões que algumas pessoas escrevem nos motores de busca e que, por motivos que sempre me surpreendem, levam os algoritmos a encaminhá-las para aqui.

Se as pessoas escreverem 'quem é a autora do blog Um Jeito Manso', talvez a expressão mais recorrente, e vierem aqui parar isso parece-me natural. Agora que alguém escreva Meninas mostrando mais do que devia e venham aqui ter isso já me parece extraordinário, sobretudo porque gosto de escrever respeitando a concordância em género e número. Do que devia...?

Mas foi isso que aconteceu hoje. Acabei de experimentar e não vim cá parar; pelo menos, o link para este blog não me aparece na primeira página. Mistérios.

Outra curiosa é: mulheres sem cuecas. Não aparece nas estatísticas de hoje mas do último mês e por várias vezes. Por algum curioso motivo, quando alguns carentes vão ao computador à procura de qualquer coisa mais apimentada ou amalucada, os algoritmos pensam: Ora deixa cá ver onde é que este camarada vai encontrar material que lhe agrade... bem.... talvez no Um Jeito Manso

Poupem-me. Mulheres sem cuecas aqui? Algumas vez...? E a corrente de ar que vos atingiria...? Não senhores, jamais. Zelo muito pela saúde dos meus Leitores.

Ou seja, estou com uma reputação algo duvidosa junto dos meus amigos algoritmos. Tenho que ver se, durante algum tempo, me porto bem para ver se eles me mandam para cá pessoas que escrevam no google: 'como nos tornarmos pessoas mais piedosas' ou 'como nos vestirmos sem chamar atenções' ou, ainda, 'mulheres que usam cuecas de gola alta, que nunca mostram mais do que devem e que gostam muito de gatinhos'. Isso, sim, é que era. 

Mas, enfim, pode alguém ser quem não é...? 

Nunca me hei-de esquecer do dia em que estava no cinema e, no intervalo, fiz o que fiz hoje: fui ver as estatísticas de "Pesquisar palavras-chave". E, para meu espanto, vi uma expressão extraordinária: Um boi vestido de GNR. Desatei a rir, claro, e ainda hoje, quando penso nisso, me rio. Qual a ideia de quem vai ao google (ou a outro motor de busca) tentar encontrar um boi vestido de GNR? Não atinjo. Nem atinjo por que razão  o dito motor de busca o manda para aqui. Costumo eu, por acaso, ter aqui bois vestidos de GNR ou de polícias? Não tenho ideia. Vocês têm...? Eu não. Nem disso nem galinhas vestidas de comentadoras do eixo do mal nem de burros vestidos de mangas de alpacas nem de nada dessas coisas. Ora essa.

Uma outra recorrente tem a ver com a gafe da Ana Lourenço. Volta e meia aparece-me: 'Ana Lourenço broche'. Nas primeiras vezes fiquei admiradíssima. Hom'essa! Desconhecia o facto, apenas fiquei a saber depois de ver esta expressão a aparecer-me nas estatísticas. Ora porque é que os algoritmos encaminhavam as pessoas para o Jeito Manso? Acaso aqui se costuma falar de pregadores peitorais ou outras joias? Não tinha (nem tenho ideia). Só depois fui saber o que é que ela tinha andado a pôr ao peito. E percebi: tinha-lhe acontecido um daqueles lapsus linguae que a gente teme e, infelizmente, não controla. 



E isto fez-me lembrar uma vez em que fui eu que cometi uma gafe das valentes e, ainda por cima, ao pé dos meus filhos e dos meus pais. Ainda hoje, volta e meia, quando tenho algum almoço mais de cerimónia ou responsabilidade (isto é, quando tinha, naquele pré-mundo que existiu antes do advento do corona), o meu marido me avisa: 'vê lá, não te ponhas a falar no Ney Mete-o-Grosso'. E, como sempre, inevitavelmente desato a rir pois lembro-me da vergonha por que passei

Mas isto para dizer que a inteligência artificial tem coisas que a inteligência natural desconhece. Na volta, é certo e sabido que quem quer ver meninas mostrando mais do que devia ou mulheres sem cuecas ou bois e GNRs e coisas afins aqui, no santuário da Santa Ujota M., encontra coisa que, se não for assim, é assado. E se non è vero, è molto ben trovato.

E, portanto, nada mais a dizer: aos costumes digo nada.


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Grande parte das imagens provêm do artigo Is sex the best way to sell suits when we’re still social distancing? e, as que não são, têm a ver com a marca Suitsupply que o inspirou.

E pode muito em ser que, um dia que a gente se veja livre do corona, saia por aí na desbunda, pele com pele, língua com língua, tudo no maior forrobodó, uma festa de de rebimba o malho. E pode ser que os anúncios prenunciem o que por aí vem.

E, por mim, nada contra. Força nisso.

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E que os corpos comecem já a festejar

Grupo Corpo - Onqotô |Mortal Loucura


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E uma bela quinta-feira.
Alegria. Ânimo. Saúde.

quarta-feira, março 10, 2021

O Cavaco não cumprimentou o Marcelo...?
Deixá-lo.
Antes isso do que ainda lhe dar para lá algum daqueles chiliques dele

A múmia ressabiada de vez em quando sai do cacifo onde a Maria o deve ter amordaçado para vir dizer coisas que mais parecem taralhoquices. Razão tem Jerónimo, o moicano, ao dizer que a múmia está velha. 
Pleonasmo: todas as múmias são velhas -- embora, reconheço, haja múmias mais velhas que outras.

Fugiu ao protocolo, não esteve para fazer de conta que desejava felicidades ao outro, disse que tinha tido que ir para casa. Nem mais. Nem se deu ao trabalho de inventar desculpa. Na volta, deu-lhe um ataque de caganeira aguda. Acontece. Com os nervos que estas coisas lhe devem dar deve ter ficado com soltura. Portanto, antes que desse barraquinha ou que um fanico o deitasse outra vez ao chão, raspou-se. 

Fez bem. 

Ou isso, ou a Dona Maria mandou-o ir fazer algum mandado e estar de volta a horas decentes e que caguasse para o catavento. E reparem como a Dona Maria é fina: deve dizer caguar para não ferir susceptibilidades; e isto do catavento não é de sua lavra, note-se, é coisa do pupilo do esposo. Reparem: esposo; esposo e não marido. Dona Maria, para além de poetisa, é também mulher de finezas. 

Portanto, deixemo-lo regressar ao cacifo onde soa que a Dona Maria o tem guardado no canto da marquise, deixemo-lo. E ele deve ir de bom gosto, deixa que ela o entaipe e encaixe: assim não tem que andar a fazer mandados ou ficar a ouvir os sonetos que a grande poetisa compõe. 

Estão bem um para o outro, sempre toda a gente o disse. Deixemo-los: que acabem os seus dias com a dignidade possível. 

Quanto ao Marcelo, correligionário mas, honra lhe seja feita, nada a ver com a múmia, é outra loiça. Laranjas de outra cepa. Marcelo é educado, culto, tem boas maneiras. 

Mas, verdade seja dita, a que propósito foi aquele desconfinamento que ontem andou a promover pelas ruas de Lisboa e do Porto? É certo que estavam de máscara (embora alguns com o sacrossanto nariz de fora) mas era preciso ir para o meio do povão, essa mole humana que se pela por selfies presidenciais e, sobretudo, por aparecer na televisão? É certo que tomou posse (e falou bem, sim senhor, tiro-lhe o chapéu, bom discurso, o discurso de um democrata), é certo que não é todos os dias que se toma posse pela segunda vez, é tudo certo. Mas não podia ter-se aguentado a bom recato para não dar maus exemplos? 

Aquela sua veia carente é um problema: tem que se sentir amado e isso leva-o a cometer excessos. E eu, que até gosto de excessos, tenho para mim que um senhor presidente, se não consegue controlar as suas carências, deve procurar ajuda. Só aconselho é a não procurar a comentadora residente do Correio da Manha, Joana Amaral Dias de sua graça, que aquilo ali parece mais maluca que do que muitos malucos que tenho conhecido. Também não recomendo a glamorosa e fofinha psicóloga Passadeira Torrinha que, notoriamente, aquilo ali não me parece que tenha pedalada intelectual para acompanhar pacientes mais exigentes. Podia aconselhar-se com o Chicão (em bom) que deveria ficar bem servido mas isso já sou eu a dizer.

Tirando isso, mais nada, obrigada, está tudo numa nice.

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A primeira imagem provém do blog Raiva Escondida e as outras do saudosíssimo We have kaos in te Garden

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E um dia feliz