sexta-feira, outubro 15, 2021

A moda dos Retiros

 


Alguém me falou numa reportagem que, no outro dia, passou na televisão sobre retiros. Fui à procura, pus a antar para trás e vi uns bocados, o suficiente para achar que por cada boa ideia que aparece há sempre quem logo a transforme em treta.

Quando era pequena, ouvia os meus pais falarem de alguns colegas que iam para retiros, coisa da igreja. Falavam disto como se fosse clube de uns quantos e como se de coisa esotérica se tratasse. Se calhar, a minha mãe, havendo lá conhecidos e amigos, se sentisse tentada a ir, creio que mais pelo convívio do que pela espiritualidade. Mas o meu pai era visceralmente avesso a essas coisas e não havia atenuante ou aliciante que o fizesse ultrapassar a brotoeja que essas coisas lhe causavam.

Quando, sem o saber, vivi numa casa de raparigas da Opus Dei, apercebi-me que faziam muitos retiros. Convidavam-me, por vezes de forma algo insistente, para os frequentar. Eram umas raparigas cinzentas, com saias pelo joelho, camisas abotoadas até ao pescoço. Eram todas boas alunas, beatas, sonsas. Cercavam-me para que participasse nas actividades da Casa -- o jantar com o Prior, o debate sobre o aborto, o Retiro, etc Claro que nunca participei em nada e até hoje ainda estou para perceber porque quiseram lá ter-me. Pensaram que me convertiam? Mas porque estariam interessadas nisso? Não percebi e não percebo. De vez em quando, à sexta-feira, lá iam todas para só regressarem no domingo à noite. Iam para o retiro. Antes preparavam farnel. Era o tipo de coisas que a animava. Vinham de lá em êxtase.

Quando comecei a trabalhar, o meu primeiro chefe, pessoa simpática e muito dada à igreja, organizava formação a casais e dinamizava retiros. Muitas vezes tentou aliciar-me. Dizia que, se eu vencesse as minhas barreiras, ia gostar. Nunca quis vencê-las pelo que, obviamente, nunca pus os pés em tal coisa. Quando lhe perguntava em que exactamente consistiam esses retiros, ele sorria, dizia que conversavam, que trocavam experiências. Se eu contava ao meu marido, ele gozava, sorria com malícia: 'Ui... cenas de grupo...', como se a cena religiosa fosse, afinal, para esconder cenas de sexo em grupo, orgias desenfreadas. Por isso, quando o meu chefinho tentava aliciar-me, eu tinha que me esforçar para não me rir, imaginando-o em animadas cenas de sexo em grupo.

Mais recentemente, uma colega que pratica ioga começou a ir, pelo menos uma vez por ano, para um retiro na serra, num mosteiro. Deixava o telemóvel à porta, não podia levar computador nem falar com ninguém enquanto lá estivesse. Ela gostava, dizia que era uma tranquilidade imensa. De vez em quando vai para Barcelona, também para retiros destes.

Conheço uma pessoa que, há uns três anos, foi para um retiro na Índia. Não gostou. Diz que era mercantilismo puro, um retiro turístico, mais fancaria do que espiritualidade. No fim, apresentou reclamações e jurou para nunca mais.

Conheço um outro, rapaz dado a desportos radicais e com uma profissão paga a peso de ouro, que foi fazer um mês de retiro na Tailândia, longe de tecnologias, longe da civilização.

Muitas vezes já aqui o referi: o isolamento num mosteiro ou seja onde for a mim não me choca. Acho que até me atrai.

Poder não me preocupar com nada, poder estar em paz, em silêncio, jardinar, regar, ouvir os passarinhos, não ter que me preocupar com o que fazer para o almoço ou para o jantar ou, em alternativa, estar na cozinha a cozinhar para uma dúzia ou uma vintena de pessoas, estar longe de notícias ou intrigas, ter tempo para ler ou para, simplesmente, estar ao sol -- tudo isso me agrada.

Mas não me imagino posta em círculo, de vestido até aos pés e todas a outras também de vestido até aos pés, não me imagino a fazer ou a ouvir rezas, não me imagino a ouvir alguém com conversas da treta como se fosse coisa das profundidades, não me imagino organizada em grupinhos e tarefinhas como se tivéssemos regredido ao tempo da escola infantil. Não me imagino. 

No documentário, um marmanjão armado em monge dizia as maiores banalidades com a cabeça rapada e o traje de alguém acabado de chegar do Tibete mas cujo sotaque rasteiro revelava que não fazia a mínima ideia de onde fica esse tal de Tibete. Depois apareceu outro falando de energias e de outros conceitos que, no contexto, são, no mínimo, etéreos e infantis. E depois uma outra falava de coisas também naquela base da maluqueira fofinha envolta em cenas zen. 

Não é a minha praia.

Primeiro, tinha que ser misto. Retiro só de mulher para mim não teria graça. Nem percebo que cena é essa de estarem só mulheres, todas um ar vagamente retrohippie, certamente todas vegetarianas ou vegans, todas parecendo levitar na maionese. Não percebo qual a graça. Deve ser uma seca mas uma seca das valentes. 

Para além disso, retiro para ser bom de verdade, teria que ter massagem. Se penso em estar num retiro, penso logo nisso: massagem, de preferência ao ar livre, ao sol. De preferência perto de laranjeiras em flor. Música de fundo, sim. Podia ser canto gregoriano, sim, que é sexy para valer. Mas podia também ser blues ou jazz. 

Obviamente, nem pensar em camaratas só de mulheres ou quartinhos individuais tipo cela. Isso também não estaria com nada. Até poderiam ser quartinhos individuais mas só se noutro quartinho individual estivesse alguém que eu pudesse visitar a meio da noite. Não está no espírito da coisa? Temos pena.

Ao ver o documentário e ao ver a procura danada que têm ocorreu-me que ora aí está um belo nicho de mercado para quem queira investir: um Retiro

      • sem conotações de espécie alguma 
      • onde ninguém se saia com teorias de cão de caça 
      • onde seja proibido as pessoas porem-se em círculo, de mãos dadas. 
Ou seja,

      • um lugar tranquilo, 
      • com actividades para quem queira 
      • ou lugares para descanso ou passeio para quem esteja afim é de mandar as actividades para o espaço, 
      • com liberdade total para cada um (desde que não colida com a liberdade dos outros)
      • em contacto com a natureza

Escrevo isto e penso nas Termas de Entre-os-Rios para onde fomos durante uns anos quando os miúdos eram pequenos e tinham alergias respiratórias. Eles iam fazer aqueles tratamentos e eu andava com eles. Ou iam para o parque infantil e nós íamos tomar conta deles. Na verdade, pouco tempo de descanso eu tinha. Mas gostava. Gostava daquela comida com sabor a campo e a norte, gostava daquela paisagem verde e linda, gostava dos rios, gostava de tudo ali. Volta a meia penso que gostava de lá voltar, a passar férias. Tenho ideia que tinham tratamentos para outras coisas, jactos de água, quiçá banhos de imersão. Tudo isso me parece bom. 

Deve haver outros sítios assim, mas mais cosmopolitas, melhor apetrechados. Mas era o lado nada cosmopolita de Entre-os-Rios que me agradava. Ao fim de semana, chegavam ao parque das Termas vendedores ambulantes que traziam toalhas bordadas, bolos regionais. E eu gostava de andar por ali. 

De vez em quando, os miúdos estavam saturados dos tratamentos e, então, baldávamo-nos e íamos passear a Amarante ou á Quinta da Aveleda ou por aí. Depois regressávamos e havia aquelas refeições saborosíssimas.

Um retiro deve ser assim. 

Um lugar simples, agradável, tranquilo, sem ninguém a maçar-nos ou a querer entreter-nos.

E que tenha jardins, recantos, zonas de sol mas também de penumbras e sombras, lagos, caminhos bons para passear, perfumes, silêncios, pássaros, regatos, segredos inconfessáveis, pecados sem arrependimento. E em que se possa dormir até à hora que se quiser. E boa comida. 

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As fotografias foram obtidas na net e mostram sítios onde se deve estar bem. 

Arvo Pärt - Solitudine - stato d'animo

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Desejo-vos um dia feliz

Saúde. Boas notícias. Esperança. Tranquilidade.

quinta-feira, outubro 14, 2021

O dia de uma mulher com o seu pequeno urso

 


E já chegámos a quinta-feira. O tempo voa de uma maneira um bocado desconcertante. Parece que o fim de semana ainda agora acabou e, afinal, o que já estamos é quase no próximo. 

Hoje, estive a trocar mails já sobre o ano que vem. Ainda estamos em 2021 e já estou a tratar de coisas relativas a 2022. Uma aceleração do tempo que me incomoda. 

Desde segunda-feira que temos televisão. Também não havia internet mas isso remediava-se com a internet do telemóvel. Um cabo que, na rua, tinha sido cortado. Veio o técnico e resolveu. Mas a verdade é que continuo sem quase ver televisão. Ontem, ao ver um bocado do telejornal, ouvi notícias que já eram velhas de dois ou três dias. Dá a ideia que o que há de minimamente relevante já apareceu nos onlines. O resto é treta, gente apanhada na rua a quem põem um microfone à frente ou o pequeno carnaval que as reportagens desencantam por onde passam. Não me assiste. A única coisa que me interessa são as imagens do vulcão. Por vezes a ferocidade do planeta faz-se lembrar. Mas, ao ver a lava ardente escorrendo até ao mar, fico na dúvida: será feroz uma terra que, na maior parte do tempo, consegue esconder a febre da paixão que a consome por dentro? 

Almoço em casa, podia ver televisão à hora de almoço. Mas almoço tarde. Trabalho até à uma e tal, depois vou até ao jardim enquanto telefono à minha mãe e enquanto o doggy-doggy tenta morder-me os pés, arrancar relva ou comer alguma porcaria que descobre. Depois regresso a casa, arranjo a comida dele, a minha, e como qualquer coisa enquanto converso com ele, geralmente para zaragatear por não me deixar os pés em paz ou por querer arrancar as franjas aos tapetes. Se calha o meu marido estar em casa a essa hora, dou prioridade à conversa com o meu marido. 

A hora da caminhada é variável, função do nosso programa de festas. Vamos sempre juntos (ou seja, eu e o meu marido; sem vacinas o bebé não pode andar na rua). Já fui uma vez andar sozinha mas fui o tempo todo a pensar que deveria ter levado um pau. Receei que alguém tivesse deixado o portão aberto e saltasse de lá um cão e eu sem ter quem me defendesse, ainda por cima eu sempre de perna ao léu, boa para ferrar. Puxa, só de pensar nisso até me encolho toda. Há com cada fera (das de verdade) do lado de dentro dos muros...

A minha ferazinha agora, mal se apanha no jardim, recusa-se a regressar a casa. Tento enganá-lo mas, mal vê que estamos a aproximar-nos do terraço da cozinha, pára e volta para trás a correr. Se vou atrás dele, foge, esgueira-se, anda em volta das árvores, esconde-se debaixo dos arbustos. As figuras que devo fazer a perseguir o animal devem ser um espectáculo. Hoje, numa das vezes, para conseguir que viesse, peguei-o ao colo. Revirou-se, rosnou, tentou morder-me. Tive que me zangar forte e feio. E ele nem aí, continuando a querer saltar para o chão, debaixo de um persistente rosnido.

Numa outra das vezes, desisti. Vim para dentro, vim fazer um telefonema que tinha que ser feito em frente do computador. Mal acabei, fui buscá-lo. Não o vi em lado algum. Corri tudo, chamei, assobiei, bati palmas. Nada. Desaparecido. Então pensei: querem lá ver que, sem dar por isso, não fechei bem a porta da cozinha para o corredor...? Entrei em casa, chamei. Nada. Fui ao lugar do costume. Lá estava aquele novelo preto de lã macia no tapete ao lado da cama, neste caso do lado do meu marido. Chamei, chamei. Nada, a fazer-se de morto. Tive que pegar outra vez ao colo. Fico feliz quando o tenho ao colo: sinto que está mais pesadinho. O meu instinto maternal que gosta de ver as crianças a desenvolver-se manifesta-se também no little baby dog. Caranguejo ascendente de caranguejo é assim: maternal até dizer chega, nem o cão escapa.

Hoje o meu marido resolveu que ao fim da tarde seria uma altura para irmos à vacina (não a nossa, a do doggy). No carro já não quer ir aninhadinho ao meu colo, agora quer ir de pé a olhar a rua e, de preferência a inspirar o ar fresco da rua. Tenho que ir o tempo todo com ele assim, com as patas de trás apoiadas nas minhas pernas e as patas da frente apoiadas no meu braço, no ar. Só visto. E vamos no banco de trás. O meu marido vai à frente, por enquanto ainda não vestido de motorista. Como daqui a nada estamos no Natal, acho que um dia destes lhe vou dizer que me apetece algo -- a ver se ganho um bombom.

Quando chegámos à clínica, ele (o doggy)  -- que, como antes referi, agora não quer estar ao colo nem por mais uma e que, mal apanha um braço ou perna minha, logo mordisca -- ficou no meu colo, dócil, imóvel, um cachorrinho sossegadinho. Nem parece ele.

Estivemos mais de uma hora à espera. Como não está vacinado, não pode ir para o chão. E, no entanto, não se mexe, bem comportadinho de dar gosto.

A médica veterinária pegou-o, aninhou-o nela, chamou-lhe ursinho, disse que queria levá-lo para casa. Sorria, ela, enlevada, e sentia a macieza deste pêlo macio, mais macio que veludo e seda. 'Um ursinho...', não se cansava de dizer.

Quando lhe deu a vacina, o pobrezinho -- que estava deitado em cima da mesa alta --  ganiu de dor e veio aninhar-se em mim, todo encostadinho, todo a procurar protecção. Quentinho, macio, ultrafofo. Ao contrário da nossa boxer mais linda que era de pêlo curto e o largava por todo o lado, este ursinho peludo não larga pelo. 

(Não havia uma anedota de um certo coelhinho que também não largava pêlo...? -- Adiante, mas é)

De volta, já tão tarde, resolvemos que fazíamos melhor era se nos abastecêssemos pelo caminho. Liguei a perguntar pelos pratos do dia. Bons, os dois. Encomendei. Portanto, ainda passámos por lá, a apanhar.

Quando chegámos a casa já o doggy-dogy vinha todo feliz da vida e todo animado. Só quis fazer chichi no jardim, ou seja, não estava numa de cocó. Estava era numa de entrar em casa. Estava com fome. Dei-lhe logo de comer. Como sempre, atirou-se com entusiasmo mas foi sol de pouca dura, nunca come por aí além. Falei à veterinária: come muito menos do que a dose recomendada. A veterinária disse: 'é um pisco, deixe, ele está bem, não se preocupe'.

Entretanto, nós cheios de fome, cheios, cheios de fome. 

Fui tomar banho e, depois, enquanto o meu marido também tomava, vim até à salinha de televisão ligar o computador e espreitar os mails de serviço. O big bear veio atrás de mim e quis comer-me os pés, depois as pernas e, depois, em desespero de causa, o cabo eléctrico do computador. Zanguei-me a sério, mandei-o embora, 'ai ai, ai ai, menino mais feio, assim a dona não gosta, ai ai, ai ai, vá, saia daqui, a dona assim fica zangada'. Ouvi a voz do meu marido: mas alguém leva essa voz a sério? metes-lhe cá um medo...

Mas a verdade é que parece ter produzido efeito. Desta vez não protestou e foi, saiu da salinha.

Quando o meu marido acabou o banho e fui buscar os pratos para irmos jantar, já depois das dez da noite, cheirou-me a cocó. Acendi a luz da zona central da sala. Um cocó em formato duplo, bem no meio da sala. O que vale é que foi no moleano e não em algum dos tapetes. Always look on the bright side of life.

Portanto, àquela linda hora, cansados e varados de fome, vá de apanhar cocó, lavar o chão. E o curioso é que, apesar de tudo, não me zanguei. Pelo contrário, até pensei: coitadinho, doeu-lhe a barriga e não encontrou nenhuma porta aberta, teve que fazer mesmo aqui. O meu marido pensou o mesmo. Ou seja, estômagos vazios e corações moles.

E, pronto, é isto. Nada mais tenho a reportar.

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Mulheres com cão respectivamente da autoria de: 
Gustave Courbet, Peder Severin Krøyer, Thomas Lawrence, Peder Severin Krøyer, Anthony van Dyck, John Singer Sargent e Giuseppe Cesari.

Enquanto isso Eric Idle interpreta "Always Look On The Bright Side Of Life"
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Desejo-vos um dia feliz
Serenidade. Confiança. Saúde. Alegria

quarta-feira, outubro 13, 2021

Do que sinto mais falta na minha vida?

 


Não sei se o título deveria ser como o escrevi. Em inglês é: What do you miss most about yourself? Não sei se 'acerca de mim' é sinónimo de 'na minha vida'. Mas, vá, fica como está. Acho que vai dar ao mesmo.

No vídeo abaixo, várias pessoas que não se conhecem nem conhecem Thoraya Maronesy respondem a essa pergunta perante uma câmara que as vai mostrar ao mundo. E, como sempre, sem dúvidas ou hesitações, respondem. Surpreende-me isso tal como me surpreende que apareçam tantas pessoas com depressões ou outras perturbações do foro mental. A gente olha e vê-as a sorrirem. Quem sofre, sabe disfarçar. 

Como me acontece quando vejo estes vídeos dou por mim a pensar no que responderia eu. 

E ocorrem-me muitas coisas. Algumas creio que são irrepetíveis pelo que não é apenas sentir falta, é mesmo a nostalgia de as considerar perdidas para sempre.

Vou enunciar algumas:

- Sinto saudades de saltar a fogueira nos santos populares. No fim da minha rua, no sítio em que se subia para outra rua, os rapazes crescidos faziam fogueiras com troncos de árvores e ramos de alecrim. O perfume era muito bom. Estava muito calor em volta. E nós tomávamos balanço na rua que descia e saltávamos por cima. Aquele medo de não ser capaz de saltar suficientemente alto e de me queimar estava sempre presente mas a vontade de vir a correr, de saltar, de sentir que estava a saltar sobre o fogo era mais forte. Noites de emoções boas, quentes, perfumadas.

- Sinto saudades de dançar muito agarradinha ao meu namorado, naqueles ambientes de garagem carregadinhos de hormonas a despontar, de descoberta, de aventura, de transgressão. Tenho saudades do momento em que descobri que o amor era uma mistura de muita coisa até então desconhecida entre as quais a atracção física, essa coisa mais boa.

- Sinto saudades da emoção que sentia quando o carteiro trazia uma carta para mim, ainda mais se o envelope mal fechava de gordo que vinha, ainda mais se mal conhecia quem estava a escrever-me. Sinto saudades das cartas que escrevia à mão num papel bonito que tinha desenhos abstractos e suaves como se fossem uma aguarela. Sinto saudades da inquietação que sentia até receber carta de resposta.

- Sinto saudades de sentir aquele abalo nas estruturas, aquela rasteira fatal, o chão a desaparecer debaixo dos pés, aquele coup de foudre fatal que leva a que um não passe sem o outro e que se sinta, sem sombra para dúvida, que aquela pessoa é a pessoa da nossa vida (sem querer saber se é ou não para sempre, que isso é pormenor para o qual não há tempo). 

- Sinto saudades da praia, da parte de trás das dunas e das giestas como dosséis. Sinto saudades de um certo apartamento e do que nele fazíamos, deitados numa cama que não era nossa, ouvindo uma música que não era nossa, dançando numa sala que não era nossa. Em cima da cama havia uma manta feita de pele de raposa, uma pele macia e quente, e havia Janis Joplin para nos fazer cantar e para me dar vontade de dançar e lá fora havia nevoeiro, estava frio e cheirava a castanhas assadas. E mal saíamos já estávamos com vontade de para lá voltar.

- Sinto saudades de sentir uma vida a formar-se no meu ventre, umas pessoazinhas pequenas a mexerem-se dentro de mim. O joelho espetado aqui, um pezinho ali, agora está a virar-se, agora está já tão grande que os movimentos são mais lentos, a mão sobre o ventre tentando adivinhar o que fazia e como era a pessoa lá dentro. Sensação única, maravilhosa, transcendente. 

- Sinto saudades do momento único e mágico em que conheci cada um dos meus filhos e, mais tarde, cada um dos meus netos, aquele momento em que o meu coração transbordava de amor e de agradecimento. E isto apesar de ainda hoje, todos os dias, sentir o mesmo amor e o mesmo agradecimento.

- Sinto saudades de sentir um serzinho esfomeado a beber o meu leite, saudades de o sentir agarradinho a mim, quentinho, cheirosinho. Sinto saudades de ter cada um dos meus netos, bebés, no meu colo. Sinto saudades de cada minuto que vivi com os meus filhos e com os meus netos.

- Sinto saudades de chegar a um campo de pedras e mato e, com os olhos quase fechados, imaginar os caminhos e os recantos ainda por fazer, as sombras das árvores ainda por plantar, os passeios que haveria de dar ouvindo o canto dos pássaros.

- Sinto saudades do dia em que dei uma entrevista na qual o jornalista, a meu pedido, não me identificou, que foi tema principal, de capa, do jornal que, na altura, mais se vendia. Tenho saudades de ver toda a gente conhecida a dizer que só podia ter sido eu a dar aquela entrevista e eu nem aí, como se não fosse nada comigo. Tenho saudades das ameaças que recebi e do risco enorme que corri. Tenho saudades do meu descaramento a desafiar os que poderiam prejudicar-me seriamente a provarem o que diziam. Tenho saudades do nervosismo que sentia nos outros ao verem-me exposta, desafiadora, descarada, a pisar brasas quentes.

- Sinto saudades de conspirar, de me reunir clandestinamente, de delinear estratégias, de arranjar apoios, de desenhar acordos, de partir para a luta com um secreto frio no fundo do estômago mas com a adrenalina a bombar, a impelir-me para o perigo.

- Sinto saudades de fazer o que não devia, de colocar em risco a minha carreira, o meu emprego, o meu bom nome, sinto saudades de arriscar até ao limite. Sinto saudades de enfrentar a acusação, a dúvida, de desafiar quem tinha o poder de acabar comigo se viesse a confirmar-se que o tinha feito. Tenho saudades de andar no fio da navalha. Sinto saudades de sobreviver a tudo isso e, mal acabada uma, ter vontade de o repetir.

- Sinto saudades das piadas ditas por meias palavras e que se adivinhavam brejeiras, acanalhadas, impróprias, politicamente muito incorrectas ditas por outros quando eu não podia rir, quando tinha que tentar disfarçar, quando morria de vontade de rir, quando chorava a rir e a ter que fingir que não, situações que ainda hoje me fazem rir. 

- Sinto saudades de viajar em wagon-lit, o comboio cruzando serras e atravessando rios, aproximando-se das cidades, eu deitada numa cama confortável enquanto via as brumas da noite, a alvorada despontando. 

- Sinto saudades de tantas coisas que o que me vale é que não fico agarrada a elas.

Mas, agora que penso melhor, coisas de que se sente saudades não é forçosamente coisas de que se sinta falta ou que se queira voltar a viver. Umas serão, outras nem tanto assim -- até porque a idade e as circunstâncias da vida foram mudando.

[E bola para a frente].

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Pinturas de Celso Orsini enquanto Janis Joplin interpreta Mercedes Benz

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E este é o vídeo de que acima falei.

What do you miss most about yourself? -- Thoraya Maronesy



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Desejo-vos um belo dia
Ânimo. Saúde. Motivação. Esperança.

terça-feira, outubro 12, 2021

A Beatriz Gosta foi aos Globos de Ouro.
Eu, por cá, bem obrigada, na minha vidinha.

 



Sou fã desta rapariga. Beatriz Gosta. Grande mulher, ela. Acho-a do melhor que por aí há a fazer humor. Já não acha graça ao Ricardo Araújo Pereira. Gostava dos Gato Fedorento. Depois tornaram-se autónomos, cada um para seu lado, começaram a querer facturar em cima de qualquer patacoada e perderam a graça.

Beatriz Gosta tem sentido de humor, é irreverente, descomplexada e é rápida no gatilho. Em directo, sem guião, ela atira-se para os cornos do touro. Sem saber o que vai sair do outro lado, ela arrisca. E sai-lhe sempre bem. 

Os Globos de Ouro já foram a semana passada e esta reportagem da Beatriz já passou no 5 para a Meia Noite. Tema requentado, reconheço. Mas eu praticamente não vejo televisão. Por isso, só dou pelas coisas quando me aparecem por outras vias. 

Lamento se ando assim, com um jet lag de todo o tamanho. O mundo roda e eu só dou por isso uns dias depois.

Agora, em tempo real, para além do trabalho, só as brincadeiras da minha coisa mais peluda e fofa e o voo das rolas. Aproximam-se cada vez mais, elas. Eu, sentada numa cadeira branca no relvado, o cachorro a brincar à minha volta e, por cima ou ao lado, pares de rolas brincando. O cachorro põe-se em pé, as duas patinhas peludas apoiadas em mim que estou sentada na espreguiçadeira, e mordisca, puxa, brinca, os olhinhos sempre a rir. Zango-me mas ele pensa que faz parte da brincadeira, se o afasto ele rebola, todo derretido, e volta ao mesmo. As rolas esvoaçam por ali. Não as perturbamos.

Hoje, ao fim da tarde, quando estávamos nisto, ouviu-se uma voz masculina vinda de um quintal vizinho. E, então, eis que a fera se levanta, se sacode para recuperar a compostura e se senta, virado na direcção do som, empertigado, tentando avaliar a gravidade da situação. Elogiei: menino bonito, assim é que é. Quando o meu marido chegou informei: temos cão de guarda.

Pego-o ao colo, quero aninhá-lo em mim, quero senti-lo já mais pesadinho. Mas ele, menino já a querer dar-se ares de crescido, já não quer colo, esgueira-se para ir para o chão. 

À noite deixamo-lo vir um pouco até aqui a esta sala. Faz a mesma coisa. Poe-se de pé, as patinhas apoiadas no sofá. Hoje parecia-me que vinha fazer-me um chamego, a cabeça peludinha encostada à minha perna. Qual quê? Queria era mordiscá-la. Zanguei-me. O meu marido diz que a zangar-me assim não faço nada dele, que tenho que engrossar a voz. Tentei e ele recuou. Mas a caminho de recuar, ferrou o sofá, danado de vontade de o devorar. Temo o pior. Se me distraio por um minuto fico sem sofá.

Tento arranjar sucedâneo para tudo o que ele quer roer mas a fera quando fisga uma, não vai em conversa. Deveria pô-lo a fazer coaching a um colega que é o oposto, totalmente destituído de personalidade. A esse totó podemos levá-lo a mudar de convicções dez vezes por minuto. Esta fera cabeluda que tenho aqui em casa não é nada disso: quer é repuxar-me a chinelinha que uso aqui em casa e por mais que o tente convencer com uma havaiana desirmanada de um menino ou um ténis velho que a minha filha lhe trouxe, ele faz de conta que sim mas logo volta à minha. Pelo meio mordisca-me os dedos dos pés e os tornozelos. Um desatino. Tenho que aprender a levitar, é o que é. O meu marido diz-me que faça como ele: use calças e ténis. Mas como? Gosto de andar à fresca, ora essa.

Pelo meio, tive reuniões e conversas complicadas: accionistas, protocolos, pactos, bancos, planos e cenários. Tudo envolto em sigilo. Não sei bem se o meu reservatório de conversas complicadas e de segredos é infinito. Por vezes penso que já o excedi, que mereço tréguas. Mas depois vem aquele karma do caraças, o peso da responsabilidade, o pensar que há tanta gente a depender das decisões de quem não tem o direito de se mostrar cansado ou farto. Portanto, bola para a frente.

Ao fim do dia, quando fui para o jardim com a fera, ainda pensei levar um livro. Mas começava a escurecer e, de resto, ele não dá tréguas. Pensei que deveria deixá-lo à solta e ir lá para cima, sentar-me no cadeirão à beira da janela, e pôr-me a ler. Mas como ficar descansada longe dele no jardim se ele tenta comer tudo, seja o que for, que encontra? 

A minha mãe repreende-me: Ó mulher, mas tu também não tens emenda, mal sais de uma, metes-te noutra. Que necessidade tinhas tu de arranjar já um cão?

Pois é, reconheço. Mas, ao mesmo tempo, é tão bom ter um amiguinho maluco.

Passamos a vida a referir-nos a ele como 'ela' e, volta e meia, tratamo-lo pelo nome da nossa boxer. Com tanta confusão de género, a minha filha já disse que o pobre ainda vai sofrer uma crise de identidade. E também já dissemos que o pobre cão ainda vai sair bicha, tanto o tratamos por menina.

Bom, adiante que se faz tarde.

A verdade é que sinto falta de ir para o campo. O campo em Outubro-rubro é daquelas maravilhas de que ninguém deve privar-se. Mas como a pequena excelência ainda não vacinada e com aquilo lá impossível de vedar completamente e onde bicheza de toda a espécie é o que não falta (cães, gatos, javalis, coelhos, cobras, etc), é um risco que, agora, não podemos correr. Espero que dentro de semanas, sim, possamos ir. Sinto mesmo falta.

Também sinto saudade de ir ao restaurante nepalês onde íamos tantas vezes. Que saudades. Só de pensar, salivo mentalmente. 

Pequenos prazeres. Cada vez mais sou sensível aos pequenos prazeres. 

Também íamos beber uns drinks e umas tostas muito boas numa esplanada na praia. Ao cair do dia, o sol deitando-se sobre as águas e nós ali. Em tempos também fumávamos. Lembro-me que gostava de ali estar, a olhar o mar, a beber uma bebida bem frequinha, a fumar.  Tenho saudades também disso embora sem a parte do tabaco. Essa parte agora parece-me pré-histórica, absurda, coisa de mau gosto, poluição exterior e interior. Mas do resto tenho saudades. Tenho que voltar. 

E não vejo a hora de levar a fera cabeluda, formatada para conduzir rebanhos nos montes, à beira do mar. Se for como a nossa cãzinha de boa memória, há-de correr de alegria. Prazer para ela e para nós, vendo-a feliz assim. Rebolava-se na rebentação, sacudia a água, feliz da vida, corria, corria, corria, depois vinha na nossa direcção, louca de contentamento. Não sei como vai ser com este cabeludo mas gostava que viesse a ser também um amante de praia, um companheiro.

E, pronto, calo-me já. 

Ah, sim, é verdade. Só mais uma coisa. O meu menino mais velho acha que o nome que demos à fera é um nome maricas, de menina. Preferia que fosse Tobias. O meu menino mais novo ao princípio queria que fosse Manny. Ontem disse que, afinal, queria que fosse Kukas. A minha filha, por seu lado, inglesou o nome. Portanto, a questão da identidade do jovem continua em todas as vertentes, até no nome. Mas eu mantenho-me na minha. Ele é o cão que eu inventei. E tenho dito.

E é isto que aqui vêem. O meu tema agora não passa disto: eu e o meu little baby dog. 

Vou pregar para outra freguesia para não vos maçar mais.


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Como é bom de ver, as flores são presente de Henri Matisse ao som de Will the circle be unbroken pelos Pentangle.

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E, com esta conversa toda, até me ia esquecendo do vídeo da Beatriz Gosta

Beatriz Gosta nos Globos de Ouro 2021 | 5 Para a Meia-Noite | RTP

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Desejo-vos um dia muito bom

Saúde. Alegria. Força aí.

segunda-feira, outubro 11, 2021

O rabo da Madonna e a atrapalhação de Jimmy Fallon
[Os vídeos aqui estão para que possam formar a vossa própria opinião]

 



Devo dizer que gosto da Madonna. Lembro-me de o dizer ao princípio e de ouvir os entendidos a torcerem o nariz, como se eu estivesse a ceder ao facilitismo dos passos de dança, dos corpos de baile, dos espectáculos de luz. Diziam-me: pode ser muita coisa mas boa música não é. E diziam que cantava pouco, que aquilo era só fogo de vista. Não sei. Mesmo que Madonna fosse sobretudo uma performer, eu gostava das performances dela. Gosto do descaramento e da energia. Sempre houve nela vontade de virar a mesa, de partir a louça, de provocar.

Discos propriamente ditos sou capaz de ter só dois. Mas gostava dos espectáculos. Um fogo e uma irreverência que valem por muitos acordes afinados.

Mas das canções, tirando umas quatro ou cinco (assim de repente, acho que não me lembro de muitas mais), penso que são boas se a gente estiver a vê-la a dançar naqueles seus espectáculos mirabolantes.

E achava-a uma mulher interessante. Ainda é interessante mas modificou-se de uma maneira que é difícil prestar atenção ao que diz ou faz sem que a gente, mesmo sem querer, tente perceber se há algum ângulo em que a coisa pareça razoável. Confesso que acho que as plásticas não lhe têm feito bem à cara. Isto das plásticas é sempre uma questão. 

À medida que o tempo passa é impossível que não apareçam algumas rugas. Podem eliminar-se -- mas isso à custa de quê? De enchimentos que deixam as pessoas quase sem feições? Ou alguma flacidez. Combate-se a flacidez enchendo as maçãs do rosto? Se calhar sim. Mas não fica mais feio do que se tivesse rugas? Não fica um rosto insuflado, artificial?

Eu acho que sim mas, lá está, isto do gosto é muito discutível. Com todo o dinheiro que tem, ela pode pôr-se como quer e, no entanto, parece que é assim que se gosta de se ver.

E há ainda o cabelo. Longe vão os tempos em que o tingia por igual, ou toda de louro platinado, toda Marilyn, ou toda morena.  Agora não: o cabelo está comprido, amarelo, grandes raízes pretas. 

Bem sei que está na moda aparecer com as raízes por pintar. Mas só posso dizer que acho horrível, parece desmazelo. 

Comparando com a forma como se arranjava antes (por exemplo, aquando das fotos que se podem ver neste post que podem ter alguns apontamentos mais polémicos mas em que se via uma certa harmonia e cuidado estético), agora olho-a e nem sei o que me parece. Ou melhor, saber eu sei, não quero é dizer.

E depois está muito roliça. Claro que isso não tem nada de mais. As mulheres, em especial depois da menopausa, aumentam de volume. Parece que tudo aumenta: a largura das costas, o perímetro abdominal, o tamanho dos seios. Mesmo que se faça dieta e se fique bem, esse 'bem' já não é o 'bem' que era antes. Acho que, depois, a coisa regride. Lá para os setentas e muitos ou oitentas, a julgar pelo que vejo acontecer à minha mãe, volta-se a ficar com a dimensão (3d's falando) dos verdes anos.

Portanto, com sessenta e três anos, a Madonna está como estão muitas mulheres da idade dela: a transbordar dos soutiens, a transbordar dos vestidos. 

Só que eu, se me sinto a tender para a opulência, em especial em algumas partes do meu corpo, procuro alguma coisa que me vista com alguma discrição e um mínimo de elegância, tentando que nenhuma parte do meu corpo dispute a atenção às restantes partes. A Madonna não: sai-lhe tudo por fora e tudo ela exibe na maior insolência. Dir-se-ia que uma mulher quando chega àquela idade deveria adaptar o seu outfit às circunstâncias do seu corpo. Mas ela não, ela faz o contrário. Toda ela ao léu. E marimbando-se para a idade. Deitada em cima da secretária do pobre do Jimmy Fallon, depois a mostrar o rabo. Ou seduzindo-o à descarada, Madonna é aos 63 o que sempre foi: Madonna.

Já passou aquele patamar do decoro e das boas maneiras que se respeita até certa idade ou dentro de certos contextos, e, portanto, tal como tem os namorados que lhe apetecem, tal como tem as casas ou os cavalos que lhe apetecem, tal como tem as roupas e os cabelos lhe apetecem, assim pratica os actos ou tem as conversas que lhe apetecem, no tom mais provocador ou tentador que lhe apetece.


Nestas coisas há sempre aquela linha que não sei se é vermelha se é o quê: a que separa a saudável irreverência do mau gosto. É aquela linha em que quem sabe e gosta de provocar e por isso era admirado se torna, simplesmente, patético, uma caricatura do que foi, digno de comiseração. Tenho alguma esperança que a Madonna ainda não tenha saltado essa fronteira e que as pessoas, em geral, ainda olhem para ela como a mulher de fogo que quebra tabus e a que, nem a idade, coloca freios.

E depois, pensando bem, se é o que lhe apetece fazer, porque haveria de não o fazer? Só temos uma vida. Para quê desperdiçar um dia que seja a tentarmos ser quem não somos?


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Mas aqui estão os vídeos (recentes, quase a escaldar): de antologia

Madonna on Madame X and Getting Into Good Trouble  | 
 | The Tonight Show Starring Jimmy Fallon





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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

domingo, outubro 10, 2021

E que tal deixar de alimentar o monstro?
[Conhece bem todos os riscos que corre ao usar o Facebook ou o Instagram?]

 



Quem por aqui me acompanha sabe que não estou no Facebook ou Instagram (que são basicamente a mesma coisa embora com aparência distinta). Desde o primeiro momento, achei que o modelo de negócio é escuso, enganador, perigoso. Aplica-se na íntegra aquilo de que quando não percebes qual o modelo de negócio é porque o negócio és tu.

Poderia dissertar aqui sobre o perigo que é haver milhões e milhões de pessoas a alimentar aquele imenso reservatório e processador de informação com os seus dados pessoais, as suas fotografias, as suas preferências, os seus contactos mas, afinal, já quantas vezes o fiz antes...? É que o grave não é apenas isso, o mais grave é que é possível cartografar e indexar toda a informação. É possível saber por rua, por bairro, por cidade, por pais, de que gostam e desgostam as pessoas. É possível dar uma volta ao cubo e saber a mesma coisa mas agora por profissão. Ou por empregador. Ou por estado civil. Ou por faixa etária. Ou pelo que se quiser. É possível mapear cada pessoa e os seus contactos e os contactos dos seus contactos e por aí fora, percebendo até onde pode chegar uma informação que cada um, na sua inocência, julga que trocou de forma privada. Esquece-se que essa pessoa pode partilhá-la, privada e secretamente, com outra e assim sucessivamente. As pessoas não percebem (ou não querem perceber) que plataformas assim são uma guloseima para quem queira prejudicar, manipular, chantagear ou ameaçar alguém. 

Na melhor das hipóteses são o terreno fértil onde a publicidade pode ser plantada. Ou a falsa informação.


Uma geração que mal lê e que se alimenta de notícias truncadas, mal processadas, mal digeridas, falseadas, uma geração que se alimenta de casos e, a partir de casos individuais, constrói teorias, é uma geração que desperdiça parte da sua vida alimentando um mega-monstro, enquanto distorce a sua personalidade. Ocupadas a ver as fotografias dos outros ou as partilhas das partilhas das partilhas,, as pessoas abdicam de se informar correctamente, abdicam de se cultivar, abdicam de pensar genuinamente nos outros, entretidas que estão a autofotografar-se ou a fazer reportagem das suas irrelevantes acções. Tornam-se frívolas, autocentradas.


Tem coisas boas? Claro que terá. A informação pode circular livremente e, quando é boa informação, claro que isso é bom.

Mas sendo uma ultra poderosa, ultra ubíqua, ultra ramificada e totalmente desregulada rede com milhões de pontos de acesso é um perigo que não será possível de controlar.

Começam a aparecer denúncias e, a mais alto nível, começam a surgir preocupações. Mas vêm tarde. O gigante já colocou as patas em tudo o que era sítio e, em todo o sítio, é diligentemente alimentado pelos seus fiéis seguidores.

Por razões que não alcanço, as pessoas parece que sentem necessidade de mostrar à sua rede de 'amigos' todos os sítios por onde andam como se a sua existência dependesse de os outros saberem disso ou, talvez, dos gostos e corações que os outros lá deixam. As pessoas parece que se tornaram como o cão de pavlov, colocando fotos e esperando a recompensa de um smile ou de um coração como se fosse uma guloseima. Não percebem que estão, simplesmente, a alimentar o monstro. E não percebem que o grupo de amigos se está nas tintas para o que lá põem, a não ser no que se refere à bisbilhotice que é também fomentada e diligentemente alimentada, mostrando aos outros onde se foi, com quem se foi, como se estava vestida ou penteada. Futilidades. 


E, nessa ânsia de mostrar aos outros as mais completas irrelevâncias, esquecem-se que estão apenas a fornecer elementos úteis para o funcionamento da máquina amoral que é o Facebook e o Instagram.

Quando vejo que algumas empresas assentam a sua publicidade e, por vezes, até o seu negócio em plataformas como estas penso que não devem estar cientes que aquilo pode deixar de funcionar, que tudo o que lá põem pode ser perdido ou mal usado e que depois, se se quiserem queixar, podem muito bem ficar a chuchar no dedo.

Poderão dizer que também escrevo no blog. É verdade. Mas o modo de funcionamento da plataforma do blog nada tem a ver com a da plataforma do Facebook ou Instagram. E não coloco os meus dados pessoais, não tenho redes de 'amigos', não há partilha em modo de grafo (como nas redes sociais), não sou campo em que o blog possa plantar publicidade. E ainda assim, apesar de não haver comparação possível, sei os riscos que corro.

Seria bom que os matemáticos, na Academia, desenvolvessem modelos que demonstrassem ao público, em especial aos que pensam que só estão a partilhar informação pessoal com os sues 'amigos', a total devassa que são estas redes. Seria ainda interessante que demonstrassem, com situações facilmente compreensíveis, o poder arrasador e descontrolável que plataformas como o Facebook ou o Instagram podem ter na propagação de notícias falsas, notícias que espalhem o pânico, o ódio, a desinformação em geral.

Quem pense que estou paranoica lembre-se de como a campanha (bem sucedida) do Brexit foi conduzida com recurso a marketing político dirigido com base em informações 'sacadas' ao Facebook. A população, grande parte dela totalmente ignorante das consequências do Brexit, foi conduzida a votar sim à saída da União Europeia. Deverão estar lembrados que no dia seguinte ao voto favorável à saída, o google foi bombardeado por parte dos britânicos com a  pergunta: O que é o Brexit?

Qualquer matemático que goste de modelos fica a salivar perante o manancial de possibilidades que os dados e metadados residentes nessas plataformas podem proporcionar. Digo-vos: poderá fazer-se o que se quiser. Nas mãos de gente doida ou mal intencionada, aquilo serve para o que se quiser.

Uma vez que a regulação já não é possível, só há uma maneira de se vencer a besta antes que a besta nos vença a nós: deixar de a alimentar.


Tal como a Greta Thunberg teve o mérito de pegar na bandeira da causa das alterações climáticas, seria bom que emergissem figuras que soubessem erguer também bem alto a bandeira do fim das redes sociais tais como hoje as conhecemos. 






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Desejo-vos um bom dia de domingo

sábado, outubro 09, 2021

Fantasias de uma mulher casada

 



Sobre o dia de hoje muito haveria a dizer mas, hélas, noblesse oblige, não posso. Portanto, tendo estado fora do circuito e desconhecendo o que por aí vai, para ter tema de escrita fico limitada a contemplar o meu próprio umbigo.

Melhor: não o dito cujo [que, por sinal, é 'muito bem feitinho', o orgulho da minha mãe que se gaba de me ter trazido bem apertadinha durante um mês, até que não ficou vestígio de nada à vista, tudo recolhidinho] mas outro tipo de umbigo. Claro que nunca perguntei à minha mãe se o aperto não me terá causado cólicas porque o que lá vai, lá vai. Tentei que os umbigos dos meus filhos também ficassem perfeitinhos, e ficaram, mas nunca apertei muito, assumindo cá para mim que, se eles viessem a protestar, lhes diria que tinha sido para seu bem. Felizmente, saíram bem e, portanto, não tive que usar aquele argumento sobre o qual, de resto, não estaria muito convicta pois não sei bem o que é isso de ser para o bem de cada um. Na volta, um mês de cólicas vale bem o ter, para o resto da vida, um umbigo perfeitinho. Sei lá. 

Mas, portanto, o que tenho a dizer não tem nada a ver com umbigos propriamente ditos.

Tem a ver, isso sim, com as estatísticas do blog. Mais do que quantas visualizações ou a partir de que países me visitam, gosto de ver as coisas que alguns Leitores escreveram nos motores de busca que fez com que viessem direccionadas para cá. Hoje, uma das expressões foi esta: 'fantasias de uma mulher casada'. Fiquei admirada: porque é que a google -- ou seja o que for -- manda para aqui toda a gente que não sabe fantasiar sozinha?

Mas depois percebi que há uns tempos escrevi mesmo uma historinha sobre Dita, a mulher casada com umas explícitas fantasias sexuais. Reli-me e achei-me muito pãozinho sem sal. Nitidamente escrevi aquilo a despachar só para não me arreliar com as coisas da política doméstica.

Sexo com dois ou mais homens é daqueles clássicos que mimetiza um outro clássico: um homem a fantasiar ter duas ou mais mulheres de roda de si. 

Contudo, nisto como para tudo nesta vida, para que as coisas produzam o efeito desejado, é preciso ciência. Ciência, imaginação and a touch of je ne sais quoi. Apenas improviso é bom às vezes, por acaso. Mas, se dá para o torto, é para esquecer. 

A ménage, seja de duas para um ou de dois para uma é daquelas que, só por si, pode ser uma valente carga de trabalhos ou, ainda pior, um tédio. 

Ou vem numa decorrência -- uma coisa que vai evoluindo, que começa por não ser nada para, aos bocadinhos, começar a desenhar-se qualquer coisa, uma coisa envolvente em que não são dois homens a servir uma mulher mas, antes, três pessoas que se desejam e que passam das intenções aos actos, tacteando, ousando, arriscando -- ou não vale um caracol furado, só serve para deixar todos desconfortáveis. Digo eu, claro.

É como aquilo do swing. Ir para um clube para experimentar um elemento de um outro casal é também daquelas que, em meu entender, só funciona com gente pouco exigente. Pode ser que, em idades pouco sofisticadas em que tudo o que vem à rede é peixe, a coisa possa parecer que funciona. Mas é treta. Fancaria. Claro que haverá quem garanta que poderá funcionar e ser um booster na boa disposição dos envolvidos mas, tenho para mim que, se não for bem gerido, pode é virar um belo pesadelo. 

A ser, tem que ser na base do afecto entre todos, um afecto tão verdadeiro que resista ao experimentalismo, à desconfiança, às comparações. Também digo eu de que, claro.

Mas estou em crer que, se calhar, as fantasias de uma mulher casada são, na maioria, de uma outra natureza. 

Mas são coisas de natureza muito inconfessável, daquelas de que mais vale nem falar, que, se calhar, até é bom que não se materializem não vá dar-se o caso de se transformarem numa xaropada sem pingo de graça ou de sofisticação. 

É que, também tenho para mim, coisas destas, para terem graça, devem vir envolvidas num mínimo de sofisticação. Deve haver romance, rêverie, bons modos (para além de uma boa pegada), demorada preparação e boa e cuidada execução -- deixando vontade de repetir (para aperfeiçoar). 

Poderia aqui dar alguns exemplos mas receio que, por falta de talento (e de liberdade de expressão), ao transformar fantasias gostosas e privadas num conjunto de palavras normais, as calientes fantasias virem uma pornochanchada. E isso é que não, caraças.

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E estou a escrever isto e a pensar que os meus filhos lêem as macacadas que para aqui escrevo. Às tantas, a esta hora, estão preocupados. Daqui vai, para eles, o meu disclaimer: descansem que a mãezinha não é dada a aventuras, a ménages, a swings, a órgias, muito menos a coisas ainda mais ponteagudas ou cabeludas. Zero. A mãezinha o que tem é uma imaginação desbragada na ponta dos dedos. Ofereçam-lhe um título que a mãezinha logo escreve uma redação. E é isto que a mãezinha acabou de escrever: uma redação que saiu assim mas que poderia ter saído assado.

Nada a fazer, já sabem. A mãezinha é um caso perdido.

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PS: Claro que os meus filhos não me tratam por mãezinha. Haveria de ter graça...

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A primeira, a segunda, a terceira e a sexta fotografias são de Mario Testino que os sabe escolher a dedo. A segundo mostra os fotógrafos Mert Alas & Marcus Piggott, ao que parece com Miley Cyrus. A quinta mostra Jeanne Moreau no filme Jules et Jim. E a última, obviamente é de Robert Mapplethorpe

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Um belo sábado

Tudíssimo de bom