domingo, março 22, 2026

A crise tramada em que ainda estamos só a entrar.
Os meus meninos e a política.
E, para desanuviar, pastéis de massa tenra e gelados.

 


Não é obsessão, é verdadeira preocupação. Não dá para assobiar para o lado. Pode ser-se muito optimista e pensar que é lá longe ou que um dia destes o maluco recua. Mas nada disto elimina os riscos graves que todos corremos.

Com um doido varrido, narcisista maligno e demente, ao comando na nação mais poderosa do mundo, rodeado de nacionalistas que aliam um belicismo exacerbado a um espírito doentia e deturpadamente religioso, de ignorantes, de gente que luta pela sobrevivência (pois sabem que, mal sejam apeados, serão presos), ninguém está seguro. Poderia pensar-se 'coitados dos americanos' ou 'votaram nele, agora amanhem-se'. Mas não é uma visão correcta pois, como se vê, o mal que ele faz é extensivo a todo o mundo.

Os combustíveis vão continuar a subir e poderão tornar-se proibitivos, especialmente para quem não usa viatura de empresa e tem que os pagar do seu bolso. Acredito que possam até vir a ser rateados. O impacto que isso vai ter nas nossas vidas vai ser enorme. Em Espanha, muito correctamente, já está a ser recomendado o regresso ao teletrabalho, o incremento do uso do transporte público, o conselho para evitar viagens desnecessárias.  E isto afecta a sociedade em cadeia de uma maneira de que não consigo perspectivar o limite inferior.

Ao mesmo tempo que Trump dá sinais de que quer retirar, aumenta o número de tropas a caminho (e o uso da base das Lages...), aumentam os bombardeamentos, destroem instalações críticas -- e as retaliações iranianas não se ficam atrás. Ou seja, é o caos. E se do caos tranquilo nasce frequentemente a beleza e a criatividade, quando é um caos destrutivo é difícil ver se pode sair algo de bom.

Aqueles países agora tocados por esta guerra absurda dependem, para sobreviverem, de muita coisa que lhes é externa mas também, como todos nós, de água. E grande parte da sua água resulta de dessalinização. Uma central já foi atacada. Um primeiro aviso. Se várias o forem, a crise escalará para outros patamares. E nem quero pensar com que consequências.

Especula-se (e, por enquanto, este é o verbo que quero usar) que, com toda a escassez de combustíveis e consequente aumento de preços,  os juros começarão a subir. Ao subirem, sobem as prestações ao banco de quem está a pagar casa. E isso apertará ainda mais o garrote a muito boa gente. Mas subirá para muito mais que essas pessoas pois todas as empresas e todos os países têm dívidas e, portanto, o impacto será generalizado.

Não sei se há uma saída possível para isto. Se Trump saísse de cena (mas não é provável que saia, pelo menos no curto prazo) e se, em vez dele, houvesse um tipo inteligente e decente, talvez pudesse reunir-se com a China, talvez conseguissem pôr o Putin a bordo (idealmente, alguém mais decente e menos criminoso que Putin), talvez fizessem a delicadeza de contar com o contributo da Europa -- e talvez conseguissem pôr-se de acordo em que já é tempo de pensar em destruição e morte e começar a pensar em paz, no futuro, nas crianças e no mundo que lhes queremos deixar. Mas isto sou eu a efabular, sou eu a querer ter pensamentos positivos

E, muito sinceramente, não estou a consegui-los ter. Parece que o mundo está a ser sugado pela vertiginosa demência e malvadez de uns quantos homens possuídos pelo diabo. Netanyahu é um criminoso insaciável. É como Putin. Não há compaixão, não há misericórdia nesses dois seres viciosos, sanguinários. Matam crianças, famílias inteiras, destroem-lhes as casas, aniquilam-lhes o futuro, fazem com que toda a gente viva apavorada, sem perspectivas, entre mortos e ruínas. E não se condoem.

Poderia acabar-se-lhes o dinheiro, não conseguirem suportar a pesadíssima factura da guera. Mas com esta crise, o Putin fica a rir-se e a facturar. E de onde vem o dinheiro de Israel? Há anos a bombardear tudo e mais alguma coisa... Sabendo-se que o armamento e munições são dispendiosíssimos, de onde lhes vem todo esse capital? São frentes de guerra em simultâneo e em força: Gaza, Líbano, Irão. Não percebo. Têm de tal maneira os Estados Unidos na mão que é de lá que o dinheiro vem? Dívida? Mas estão a financiar-se onde? (Se não fosse tão tarde, tentaria agora pesquisar. Follow the money. Mas daqui a nada são três da manhã, já tenho sono). O dinheiro em Israel parece vir de um poço sem fundo. E um poço sem fundo de dinheiro nas mãos de um regime facínora, com uma apetência insaciável pela destruição alheia e pela ambição desmedida, é um grande, grande e dramático, problema.

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Mas adiante. Não quero contagiar-vos com o que a mim me atormenta.

O meu dia foi muito bom. Tive cá a almoçar os meus rapazes crescidos, desportistas, cheios de apetite e boa disposição. Um deles contou que na preparação física lá no clube onde é guarda-redes levanta 90 kg. Usou uma palavra que não identifiquei. Traduziu: com agachamento. Nem consigo imaginar... 90 kg...? Vai fazer 15 anos. Desde pequeno que é todo dado ao desporto, ágil, habilidoso. O mano mais velho, também guarda-redes, está a pensar começar também a praticar box. Outro dos rapazes, igualmente guarda-redes, agora mudou-se para futsal. O mais novo também já lá andava. E a menina agora faz vólei. No outro dia vi imagens da equipa, um grupo de miúdas giras, divertidas. Tudo gente dada ao desporto. Fico contente.

E estivemos também a fazer o teste dos partidos. Já no outro dia, um dos meninos, um que percebe e gosta de política, o tinha feito. Não se pode dizer que tenhamos que atribuir um grande significado aos resultados pois, com a tenra idade dele, muitos conceitos não estão ainda bem compreendidos nem saberá avaliar correctamente as implicações das opções que se tomam. Mas tenho ideia que lhe deu AD, creio que logo seguida do PS. Fiquei surpreendida. Os dois que hoje o fizeram, sem surpresa a um deu-lhe a AD, logo seguida do Chega e da IL, e a outro o PS. Ao mais velho, o segundo lugar do Chega deve-se ao tema da imigração. Faz-lhe impressão a quantidade de imigrantes que, segundo ele, parecem ter tomado de assalto a Baixa, acha que isso é sinónimo de entrada desregulada de imigração. O irmão perguntou-lhe se lhe faria a mesma impressão se fossem ingleses ou alemães. Gostei da pergunta. Gosto muito de os ouvir discutir estes assuntos, gosto que se interessem por política. O mais velho, 17 anos, prestes a entrar na universidade, preocupa-se que não venha a ter um salário que lhe permita ter a sua casa, a sua família, os seus filhos. É a sua grande preocupação. E imagina que as políticas liberais serão a resposta a isso. E imagina isso porque diz que se as políticas que têm vigorado nas últimas décadas -- e que cola às políticas socialistas -- deram o resultado actual (salários baixos, dificuldade em ter casa, natalidade reduzida), então há que mudar. Compreendo o seu ponto de vista.

Há muita literacia política a levar a cabo junto da juventude. E há que perceber as preocupações e os ensejos dos jovens. Os partidos democráticos deveriam, de forma muito honesta e sensata, apresentar perspectivas e soluções que vão ao seu encontro.

Depois, já para o fim da tardinha, fui comer o meu belo geladinho de gianduja e cheesecake. Quando peco, peco a sério, duas bolas a preceito. Pelo-me pelos melhores gelados de Lisboa e arredores (já devo ter dito mil vezes mas não me canso de os louvar: Casa do Gelado, Avenida de Roma). E passeámos por lá, pela avenida e adjacências, e, antes,  pelo parque do Campo Grande e, apesar de serem lugares que conheço muito bem, que frequentámos assiduamente durante uma parte significativa da nossa vida, senti-me como me sinto sempre: uma turista à descoberta.

E, claro, não poderíamos regressar a casa sem uns pastéis de massa tenra do Frutalmeidas para o jantar (e, note-se: não sou parte interessada nos lucros nem daqui nem dos gelados, sou apenas cliente satisfeita). Claro que tudo isto tem um senão: o estacionamento. Cada vez mais difícil. Carros, carros, carros. Voltas e mais voltas para descobrir onde largar o carro.

Dependemos totalmente dos carros, eu e toda a gente. Até por esta dependência, a crise dos combustíveis em que estamos ainda só a entrar é um problema que deve ser levado muito a sério, que deveria estar já a merecer atenção e medidas como em Espanha. E é tão a sério que até volto a trazê-lo à conversa, aqui, na despedida, entre pastéis de massa tenra e gelados.

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Nas imagens, geradas através de Inteligência Artificial, procuro trazer sempre o motivo da paz [ao mesmo tempo que evoco alguns pintores (Geogia O'Keeffe, Paul Klee, Matisse, Mondrian, Kandinsky)].

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Desejo-vos um belo dia de domingo

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