sexta-feira, outubro 16, 2026

Sobre o rapazinho malcheiroso que veio entregar coisas a minha casa

 

Estava ainda na cama e já o telefone tocava, que não tardaria estariam a chegar. De imediato liguei ao meu marido a avisar que estavam quase a chegar as coisas (para a remodelação da casa de banho). Há sempre este lado logístico, de garantir que o cão fica isolado. Fui fechar um dos portões e passado um pouco já ele tinha chegado a casa, já andava a pôr a fera do lado de lá. E imediatamente chegou a camioneta e logo começaram a descarregar. O rapaz que carregou o material mais pesado e que trouxe o móvel mais alto e o móvel com o lavatório para dentro de casa era quase um miúdo, novinho, magrito. Negro, de gorro, com um casaco desportivo. A força dele impressionou-me. O colega estava na camioneta a passar-lhe as peças que ele carregava. Mas o motivo que aqui me faz falar dele é outro: o cheiro. Horrível. Um suor antigo, impregnado, um misto de cebola e de putrefacção. Quando saiu tivemos que ter portas e janelas a arejar, e custou a sair. 

Pensei que alguém deveria avisar o apaz de que não pode andar assim em casa das pessoas. Mas depois ocorreu-me que provavelmente vive num daqueles dormitórios em que se acumulam, com uma casa de banho para muitos, se calhar com banhos condicionados e, até, sem banhos.

Um rapaz destes não ganha mais que o salário mínimo. E, com o salário mínimo, na melhor das hipóteses partilha-se um quarto ou vive-se num bairro clandestino.

Por vezes quando caminhamos, passamos por uma rua em que passa um autocarro. Ao fim da tarde juntam-se, na paragem, alguns jovens que vêm de fora daquela zona residencial, de um sítio em que há alguma construção nova. Todos os rapazes são negros. E cheiram sempre muito bem, a banho acabado de tomar, a desodorizante acabado de pôr, a perfume. Aquelas obras pertencem a uma zona de construção de qualidade, em que há certamente balneários para os trabalhadores.

Mas, no sector das cargas e distribuição, não deve haver balneários. Aquele rapazito não deve tomar banho há algum tempo nem deve conseguir lavar a roupa em condições. 

Ao ver os manifestantes no Porto, constato que é outro patamar: são jovens estudantes, talvez bolseiros, nitidamente classe média ou mesmo abastada. Não conseguem arrendar ou comprar uma casa no Porto. Compreendo as suas razões. Os centros das cidades não deveriam ter sido reconvertidos em Alojamento Local. Uma rapariga que trabalhava comigo, em Lisboa, e que era do Porto, tinha a casa, no sentro do Porto, em AL e dizia-me que ganhava tanto ou mais com aquilo do que com o seu ordenado na empresa, e na empesa ganhava bem. Compreende-se que os donos das casas as ponham em alojamento local, se é um rendimento interessante,

Mas, como em tudo, há sempre o outro lado da questão. 

Antes de me casar, eu e o meu marido andámos à procura de casa. Obviamente não tínhamos dinheiro que chegasse para uma casa no centro da cidade, e aceitámos isso com naturalidade. Ainda me lembro de andarmos a ver casas em subúrbios onde nunca antes tínhamos posto os pés, lugares que nos pareciam lúgubres, e aceitávamos isso sem drama, para nós era óbvio que com os nossos parcos rendimentos e sem património, não poderíamos almejar ao mesmo que quem já estava mais instalado na vida, mais folgado de dinheiro. Nem nos ocorria pedir ajuda aos nossos pais. Era uma decisão nossa, casar e arranjar casa, pelo que nos parecia natural resolvermos tudo pelos nosso próprios meios. Como nem mesmo assim conseguíamos, resolvemos que ficaríamos a viver no quarto em que eu vivia, um quarto de estudante, numa casa habitada por uma senhora de alguma idade que ficou toda contente com essa perspectiva. E tomámos essa decisão sem qualquer fatalismo, auto-piedade, ou revolta. Pelo contrário, com muita naturalidade. Aconteceu, porém, que dias antes de casarmos, soubémos de um apartamento T1, numa cidade em que nem eu nem ele alguma vez tínhamos posto os pés e que sempre tínhamos associado a uma cidade-dormitório. A renda era baixa, conseguíamos pagar. Ficámos felizes da vida. Foi a nossa primeira casa.

Agora, parece que todos os jovens em início de carreira se acham com direito a arranjar casa no centro das cidades. Parece que não há aquela noção que eu e o meu marido tínhamos de que começávamos por baixo, com o que nos era possível, e que logo iríamos progredindo.

Mas ocorreu-me uma outra coisa. Quem está a protestar, seja no Porto, seja em Madrid, seja onde for que se protesta, são jovens que nada têm a ver com os que, de certeza, de certeza muito absoluta, têm verdadeiras carências a nível habitacional e que, porque têm que trabalhar de sol a sol, nem conseguem manifestar-se.

O rapazito magro que hoje deixou a minha casa a feder de certeza que não acampa no centro de uma cidade nem se manifesta. São os pobres, muito pobres, que não têm voz e que mais precisam de uma casa digna.

Toda esta conversa, todas estas manifestações, todos estes debates, todas estas medidas não resolvem o verdadeiro, o gravíssimo problema da habitação. E o problema é tão simples quanto isto: não há casas que cheguem. Em especial não há casas para os mais pobres, em particular para os imigrantes. Claro que também não há casas para os jovens estudantes ou em início de carreira, e isso também tem que ser resolvido. Nada disto se resolve a não ser com mais casas. Muitas casas.

E tem que haver habitação social, pública, rápida, económica, se calhar de uma gama mais baixa, e não é por discriminação mas sim pelo valor do investimento, porque são muitas casas e porque essas têm que aparecer rapidamente, tem que se construção económica, provavelmente em terrenos cedidos pelos municípios (como o Isaltino passa a vida a falar). E depois têm que aparecer outros bairros, também muitos prédios, esses do género dos de Espanha, com jardins, com parques infantis, construção também rápida mas a cargo de PPP, parcerias público-privadas, terrenos públicos, construção privada. 

Enquanto o Governo e os municípios não perceberem que é nisto que têm que se concentrar, o problema vai persistir, vai engrossar, vai extremar-se

A esquerda, mais uma vez anda a reboque da burrice, a fazer dos senhorios os bodes expiatórios, quando nada disto tem a ver com senhorios. Se os senhorios põem as casas a arrendar por 2.500 ou 3.000 euros e aparecem inquilinos, tudo bem, é porque há mercado para isso. E se os inquilinos não pagam, pois que seja fácil pô-los a andar e que seja dada a vez a quem paga. Mas isto é fait divers. Nada disto tem a ver com a crise da habitação, com a tremenda escassez de casas, são centenas de milhares de casas que estão em falta, só na Grande Lisboa cerca de 300.000. 

E que não se centre a discussão nos filhos-família que não conseguem comprar ou arrendar um apartamento no centro da cidade, olhe-se também para os esquecidos, para aqueles que não se manifestam, para as milhares de pessoas que constroem as nossas casas, que distribuem as nossas encomendas, que limpam as ruas, os hospitais, as que tratam de doentes e idosos -- toda essa gente indispensável ao funcionamento do país e que, coitados, mil vezes coitados, não conseguem ter as mínimas condições de vida digna.

O problema da habitação é um problema gravíssimo. E ainda não vi uma única proposta de solução.

De vez em quando ouço o Moedas ou o Pedro Duarte ou um qualquer outro munícipe apresentar como um feito que foram atribuídas mais uma meia dúzia de casas. Só me apetece lá esta e ter uma vuvuzela para fazer barulho e protestar: não é de meia dúzia de casas que deveriam estar a falar, caraças, isso é apenas ridículo, a escala tem que ser outra --  eram milhares de casas, fiadas e fiadas de prédios, que deveriam estar a ser construídas e atribuídas. 

Li que o António Costa está a querer trazer o tema da habitação para o centro da preocupação europeia e acho muito bem. Que imprimam dinheiro, que lancem obrigações, que inventem fundos, qualquer coisa, mas que se mobilizem os primeiros ministros para anunciarem para o curto prazo projectos a sério de construção de habitação a custos acessíveis e com licenciamentos ágeis e processos construtivos rápidos.

Mais do que a porcaria do IRS jovem que não serve para nada a não ser para dar uma valente talhada nas contas públicas ou do que a isenção do IMT para os jovens que só tem servido para aumentar a especulação, o que fará com que os jovens se fixem e formem família e procriem (sejam eles jovens estudantes ou jovens em início de carreira, sejam jovens imigrantes brutalmente carenciados) é que tenham casa, que sintam que podem ter uma vida digna. Mas, a nível dos muito pobres, não são só os jovens que têm falta de casa. No outro dia, numa reportagem, uma senhora, também imigrante, dizia que trabalhava num supermercado. Mulher de meia idade. A viver numa casa clandestina, num bairro clandestino. Nem morada conseguem ter. Isto é de uma indignidade brutal. E não vejo ninguém a lutar por estas pessoas. Onde andam as esquerdas que parece que se esquecem dos mais pobres? E onde anda a beatagem? Em vez de andarem a bater perna a caminho de Fátima ou lá de velinha a cantarem, não poderiam mobilizar-se em favor destas pessoas, nem que fosse apenas para pedir soluções para que possam ter uma vidgna digna?

___________________________________

Desejo-vos uma sexta-feira feliz

4 comentários:

Pôr do Sol disse...

Que vivemos tempos complicados não é novidade para ninguem.
Mas nunca a vida foi facil a não ser para quem já nasceu rico. Sempre foi necessario trabalhar, lutar para usufruir de conforto, cultura e bem estar.
Hoje, a maior parte dos jovens não valoriza nada, exigem e tudo lhes tem que ser apresentado imediatamente.
Esperar é-lhes dificil. E começa logo que nascem. Aguardar que a mae os atenda enquanto fala com alguem leva-os ao desespero, esperar a sua vez na fila do baloiço é uma birra garantida.
Tudo se trata com educação e bons habitos. Mas educar dá trabalho e requer tempo. O tempo e o espaço são os mais caros desta vida. E assim os jovens vão crescendo na exigencia do ter direito JA.
O que está a acontecer em algumas cidades da Europa com manifestações destruidoras, penso ser fruto de uma ultra direita empenhada no caos. Como ouvi um manifestante gritar ISTO È PARA PARTIR TUDO enquando pontapeava montras e janelas.
Tal como muitos casais , tambem eu comecei a vida de casada num apartamento T1 do J.Pimenta, em Paço de Arcos. Um dos ordenados era para a renda e vivemos amealhando para o carro e só tres anos depois alugámos uma casa maior e mais perto de Lisboa. Entretanto a senhoria pôs a casa á venda e com alguns sacrificios a fomos pagando.
É certo que estes governantes só se governam a eles. Sem consciencia e vergonha apelidam de egoistas os necessitados, quando eles investiram em imobiliário muito do que conseguiram com fugas ao fisco e outros esquemas.
Mas tudo se consegue com trabalho e empenho.
Minha avó dizia-me faz mais quem quer do que quem pode.
Desejo-lhe um optimo fim de semana com paz ,saude e gozando o fruto de tantos anos de trabalho.

UJM disse...

Olá Pôr do Sol
Estou a escrever e a ver imagens de Paris. Parte-se-me o coração, ao ver isto, uma cidade pilhada, lojas destruídas, muita coisa saqueada, destruição nas ruas, papéis, coisas partidas. O repórter diz que a cidade está tomada por gangs que estão a pilhar tudo de qualquer maneira. Putin deve estar a esfregar as mãos de contente. Grupos de extrema direita infiltrados nestes movimentos estão a destruir a paz numa das mais belas cidades do mundo. Só espero que por cá nunca cheguemos a esta desgraça, parece um cenário de guerra. A quem aproveita isto?
Por cá, somos mais pacíficos mas, ainda assim, ao ouvir o que dizem alguns manifestantes, fico a pensar que parece que não sabem o que são as verdadeiras dificuldades. Parece um ambiente festivaleiro, malta jovem na maior festa. Agora, numa tenda, uma miúda de 15 anos, outro de 18, todos felizes e sorridentes com esta aventura, sem sequer terem percepção do que se passa.
Concordo com o que diz, com a descrição do seu caso, comigo foi também assim, passo a passo, sempre aceitando que era natural e justo que tivessemos que subir a vida a pulso. Tão diferente da mentalidade destes jovens...
Ouço agora os reporteres a dizerem que muitos manifestantes são espanhóis, alguns que pertencem a movimentos transnacionais que circulam para incentivar à luta. E vejo tarjas com símbolos anarquistas.
No entanto, a verdade é que há mesmo uma grande escassez de casas. Os números não enganam. No mínimo há 300.000 casas em falta. E há que arranjar solução para isso.
Mas o que mais me preocupa, ao ver as manifestações, é que estes não são os verdadeiramente pobres, nem pensar, estes não são os que vivem amontoados em quartos sem condições ou em barracas nos bairros clandestinos. Esses, coitados, não conseguem manifestar-se. E não vejo ninguém a preocupar-se com eles.
Enfim. Tempos difíceis e tristes, estes.
Muito obrigada pelos seus votos que retribuo em igual medida. Um grande abraço, Sol Nascente.

Anónimo disse...

Construir mais não chega: é preciso travar a especulação.imobiliária nos grandes centros urbanos, como aliás muitas cidades europeias já fazem há vários anos. Um bom exemplo é o de Copenhaga que estabeleceu que apenas residentes há, salvo erro, 5 anos poderiam adquirir casas na cidade. Não conheço os resultados desta medida, confesso, mas é preciso imaginação e coragem para avançar com medidas que dificultem a especulação, mas às quais os nossos governantes não se mostram predispostos, talvez serem também agentes no mercado imobiliário, outro absurdo que nãp deveria ser permitido. Não é isto uma incompatibilidade? A própria oposição parece ter falta de ideias ou de estudo e os jornalistas cilidram-na com a defesa do "pobre senhorio explorado", como vi ontem acontecer a Paulo Raimundo. Quanto ao perfil sociodemográfico dos manifestantes, sempre foi assim, são os menos miseráveis que têem a capacidade e o tempo, até, para desbravar caminho, estão a protestar por todos e em nome também dos mais desprotegidos, incluindo os imigrantes, como tenho ouvido nas palavras de ordem.

UJM disse...

Claro que, como sempre que se está perante um problema complexo, as soluções têm que ser igualmente multifactoriais: legislação, regulação, controlo. E as medidas têm que ser financeiras, fiscais, sociais, urbanísticas, etc. Nada disto deveria ser novo. Mas durante anos o assunto ficou esquecido. Sem habitação pública, com os alojamentos locais a tomarem o lugar dos arrendamentos habitacionais, com os fundos imobiliários a esfregarem as mãos face ao afluxo de novos residentes endinheirados, com as medidas que o Montenegro lançou de incentivo aos jovens (até aos 35 anos) e que se traduziram em aumento de preços de venda, tudo se conjugou para a tempestade perfeita a que se chegou na habitação. E o drama é que o Governo parece paralisado.