sábado, junho 08, 2019

Sobre um marquês com patorras de barro. E uma Imperatriz Emérita


Às vezes acontecem comigo coisas tão inesperadas e inexplicáveis que tento processar o que aconteceu e dificilmente o consigo. Ontem até aqui falei de um marqês da casca grossa com impância proporcional ao volume: gigante, gordo e transbordante de arrogância. Mas eu, por mais que olhe, não vejo a importãncia de que ele se acha revestido: olho e apenas vejo um alvo a neutralizar. Mas uma coisa é o que vejo e outra a forma como ele se vê. Anda pisando os mais fracos, atira piada racistas de que apenas ele se ri, ignora as necessidades dos mais desfavorecidos ao mesmo tempo que, para si, se arroga privilégios e tratamento diferenciado. Furioso comigo do alto dos seus dois metros e dos seus trezentos e oitenta quilos, às tantas perguntou-me se eu o achava igual aos outros. Respondi que sim mas foi por educação e caridade -- que ver, ver, vejo-o é como um parvalhão que não interessa ao menino jesus,

E o lero-lero azedou até que a besta informe avisou que o assunto não era para mim, que ia colocar a questão ao seu superior, alguém que, para ele, está sentado à direita de deus nosso senhor. E eu, como sempre, a observar-me, incompreensivelmente tranquila.

Pois bem. Hoje, sem que eu o soubesse, numa reunião com o dito big chief dele e o verdadeiramente big big chief que lá foi para uma reunião, pediram-me para ficar para o que se iria seguir. E o que se seguiu foi que uns quantos desfilaram ali pela sala, à vez, para exporem o que andam a fazer. Até que apareceu o animal. Espantado por me ver ali no lugar do grande júri, até atirava um olho para cada lado. E eu, de novo mais do que tranquila, tentando disfarçar o quanto me divertia a situação, de vez em quando inquiria-o, deixando a nu como são de barro as suas patorras.  

Mas, ao mesmo tempo, só me interrogava: a que propósito estou aqui metida, nesta bizarra situação?

Quando saí, estava uma pessoa à espera para saber o que se tinha ali passado e eu não soube explicar. Mas depois, saí dali, meti-me no carro e vim na conversa com a minha mãe e nem mais me lembrei de tal coisa. E depois, a caminho de cá, entre umas dormitadelas e combinações para este sábado, nem mais me lembrei de tal coisa. Primária, primária. 

E só a meio do jantar me lembrei e contei. O meu marido também admirado e também divertido.

Passa uma da manhã, não tarda tenho que me levantar para ir ao super e depois vir fazer o almoço que tem que estar pronto bem cedo. No carro, a minha filha dizia: 'lá vai ser mais uma noite em que vais escrever que adormeces de cinco em cinco minutos'. E é, e nem são cinco minutos, são menos. para escrever meia dúzia de linhas levo o tempo de cem. E as gralhas devem estar a comparecer em bando. E vou já para a cama e lamento não ter nada a dizer. Melhor: ter, ter, até tinha, só que estou que não me aguento.

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E agora, para me despedir e depois de ter implantado pinturas de Edward Hopper a despropósito no meio das palavras, só me ocorre aqui ter Michiko que serviu o japão como Imperatriz Consorte, mulher do Imperador Akihito, até 30 de Abril. Michiko tem 84 anos e é muito elegante, qualidade rara, especialmente quando é coisa que vem de dentro.


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Um sábado feliz para todos

sexta-feira, junho 07, 2019

Essa imensa teia que ninguém sabe quem tece



Por vezes abre-se-me um pouco de porta do que aí vem, nesga ligeira, e nunca como agora intuo terríveis tempos de incerteza envoltos em medos provindos de incertos. Uma nebulosa a envolver-nos, riscos vários, muitos, indefinidos, quase imateriais. 

Volto aqui a recordar os delírios quando criança com amigdalite. Anginas, ouvia dizer. A febre subia, subia e eu a ferver, transpirada, gritava apavorada. Os meus pais à minha volta e eu aterrorizada. Estava perante um compartimento, a divisão de uma casa, cheia até ao tecto de coisas indefinidas, pequeninas, e eu a ter que descobrir uma coisa ainda mais pequenina, ainda mais indefinida, a saber que era impossível, que não teria tempo para encontrar aquilo que era tão vital. Esse terror, essa situação impossível de resolver, toda essa angústia ficou guardada na minha memória: a impotência da luta contra uma infinidade de incertos.

Depois de uma reunião a analisar situações complexas e a antever um cenário impossível de controlar, ia no carro e, na rádio, transmitiam, em directo da Assembleia, o debate quinzenal. As pequenas questões. Os casos pontuais. Os deputados vivem numa bolha de fantasia, alheados das questões de fundo, apenas pegando nas notícias que dão que falar mas apenas durante um ou dois dias, coisa morta à partida pela irrrelevância, a petite histoire, o déjà-vu do cão que morde o dono ou, nos dias bons, o dono que morde o cão. Não passa disso. 

Não há um deputado que se erga naquele hemiciclo e pergunte: 
E se, de facto, já vivemos cercados? 

E se, de facto, estamos a caminho de ficar indefesos, totalmente indefesos, pequenos insectos presos numa teia infinita?
E não quero ser mais específica. Não posso. Não devo.

Mas... e se...?

Quantas vezes aqui digo: há que estar atento aos riscos, há que chamar a atenção, alertar, regulamentar, quantas vezes?

Mas ninguém me ouve. Não sou ninguém. Sou invisível. Existo para ver e ouvir, não para ser vista ou ouvida. E este meu lugar é nada, palavrinhas à toa, coisas avulsas e sem nexo. Não tenho púlpito nem rosto ou nome e assim é que está bem. Mas gostava que, entre as linhas, no subtexto, alguém percebesse que há preocupações que são sérias. Não são preocupações só nossas, do pequeno rectângulo, são do mundo, do mundo que está a ser conduzido não se sabe para onde nem por quem -- mas não é por nós, por gente como nós. Ou, se calhar, até é: nós agentes involuntários da nosso encarceramento.

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E, não querendo dizer mais nada -- mas estando precisada --, deito mão a outro antídoto.

fecho os olhos e imagino. Crianças brincando no quintal, roupa estendida ao vento, a cigarra, o grilo alegrando os campos, o cão ladrando ao longe. Calor e sol, reflexos azuis dos mares a sul, areia quente, conchas em que se ouve o mar, veleiros que deslizam na ténue e cintilante linha do horizonte, homens de pele tisnada e beijos com sabor a sol, pestanas levemente brancas de sal, marisco com sabor a maresia, um braço em volta da nossa cintura, uma cama fresca com lençóis brancos. Ideias felizes a alegrar o pensamento.

E dança. Voo suave, brincadeira, sedução, irreverência. Memória do mediterrâneo a fechar um dia longo e sem definição.


As fotografias são de Guy Bourdin

E abaixo há outro antídoto. Para quem esteja tão precisado como eu.

[E que me desculpe quem comentou mas hoje estou outra vez naqueles dias em que certas contingências me impedem de responder]

Antídoto


E nem vale a pena dizer para quê porque para tudo: para dor no osso, para chato que teve que se aturar, para trânsito em estrada molhada, para corpo a pedir descanso, para monte de livro a pedir para ser lido e tempo viste-lo, para saudade de lobo, para quilo a mais, para chateamento por reuniões já a serem marcadas para o mês que vem, para falta de tempo para veranear em dia útil, para falta de ouvir dizer poema, para bardajolas que se acham melhores que os outros e a quem a gente não pode dizer que .... (e, até, não pode dizer aqui o que era bom era ter dito a eles), etc.

Antídoto e dos bons. Na volta até para picada de vespa, chupão de melga, mordida de formiga-cavalo, olho gordo de vizinha, rui rio na tv, cocó de passarinho a cair na cabeça de careca, buraco no dedo grande da meia, fio de couve preso ao dente da frente, nuvem escura sobre a cabeça. 

Antídoto para tudo, portanto. Vê-se uma amostra pequenina e fica-se bom de tudo. Confirmem, por favor.

Kylián4 all


In the programme KYLIÁN4ALL Introdans proudly presents a selection of highlights from the oeuvre of master choreographer Jiří Kylián. The family show takes you on an attractive and fun journey through time and through the multifaceted work of the maestro: from theatrical Trompe L'Oeil, by way of the humorous Sechs Tänze, to the amazing Indigo Rose. And as the cherry on the cake, Introdans dances the exuberant Chapeau, a premiere for the company.


Trop good

quinta-feira, junho 06, 2019

Parem tudo!!!!
Colbert entrevista Trump.
[E três momentos hilários de Trump em Londres]


Depois de três imprescindíveis conselhos extraídos do Manual de Etiqueta do Vilhena -- um sobre vermo-nos livres de gente chata que não pára de moer ao telefone, outro sobre boas maneiras à mesa e um terceiro sobre beijos na intimidade conjugal -- desloco-me agora para a actualidade internacional.

Começo por mostrar alguns momentos da visita de Trump a Londres e informo que há muitos mais:






Captain Colbert hopped aboard the Late Show submarine en route to the UK, 
where Piers Morgan was interviewing President Trump




E agora, muito a sério, um vídeo com uma resenha pro memoria da visita da família Trump a Londres


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E não se esqueçam de descer para ver se aprendem bons modos, ok?

O beijo conjugal
[Conselho contido no Manual de Etiqueta do Vilhena]


Embora de menor interesse e menos praticado do que o beijo entre o patrão e a criada, o ósculo entre a esposa e o marido tem ainda os seus cultivadores. Se é certo que esse hábito está fora de moda, a etiqueta ainda o prevê em certos casos, como nas gares de caminho de ferro e aeroportos, quando o esposo deixa a mulher, temporariamente, para ir fazer uma dessas viagens de negócios com que periodicamente interrompe a mesmice e a chatice conjugal. Nessas alturas o marido beijará a esposa com uma certa afectividade, direi mesmo algum entusiasmo, principalmente se estão pessoas ao pé, pois esse gesto cai muito bem nos circunstantes.

Já alguém escreveu em qualquer parte (creio que fui eu próprio) que o beijo conjugal é como um chewing.gum: quanto mais se mastiga menos sabor tem. Por isso convém fazer certa economia nessa matéria. Após dez anos de matrimónio, os maridos bem educados beijarão as suas mulheres (refiro-me às legítimas, claro) no Natal e na Noite de Ano Bom. Nessa noite, e possivelmente por efeito do álcool, alguns vão mesmo mais longe. Mas isso já é uma delicadeza extra.

Um cuidado a ter à mesa
[Conselho contido no Manual de Etiqueta do Vilhena]


Há pessoas que têm o péssimo costume de tirar a dentadura durante as refeições. Quando o fizerem não a coloquem no copo da vizinha. Devem metê-la no próprio copo depois de esfregá-la com a ponta da toalha.

Como falar ao telefone
[Conselho contido no Manual de Etiqueta do Vilhena]


Se uma pessoa nos telefona e a conversa começa a azedar, conservemos sempre a calma e as boas regras da linguagem não usando esse português demasiado vernáculo que está tanto na moda. Para encerrarmos o telefonema, bastará dizer, na altura de desligar duas palavras em tom firme e decidido. 'Vá você'.

quarta-feira, junho 05, 2019

Não vou falar do Panteão dos Corações porque os escritores não precisam de túmulos de pedra, precisam é que leiam os seus livros.
Falo, sim, de uma bela livraria: a Livraria da Travessa.
E, de passagem, falo num certo Manual de Etiqueta





Agora que o nosso Marcelo lançou a sound bite do dia, permitindo que a consciência colectiva fosse a enterrar devidamente paramentada com um pensamento enternecedor e indulgente, passo à frente porque conversa de Panteões mesmo que venha enfeitada com corações não me apetece a propósito da Agustina.

Agustina é mais do que isso, é espírito vivo e terra e fogo, não é corpo morto em pedra fria. Agustina é mãe de palavras infinitas, não memória enclausurada em monumento. Acho eu. Marcelo não fez por mal, acredito, falou porque tem que falar sempre. Mesmo quando a hora seria de silêncio, até para respeitar o silêncio de Agustina, Marcelo quis fazer bola de efeito. Mas não é por mal, é apenas defeito que ainda não aprendeu a curar.


Sigo, pois, em frente. Enquanto houver estrada para andar eu vou continuar. De tantos e tantos livros de Agustina, só tenho uns muito poucos e desses ainda mais poucos li. E, no entanto, bato-me por ela onde quer que eu esteja. Bato-me, certa de que estou a bater-me por um nome maior das letras portuguesas -- mesmo que torçam o nariz achando que não, mesmo que achem coisa datada, escrita rebuscada com tiques de antanho, mesmo que achem que não passa de obra parada numa tela de Oliveira.

E, para meu pessoal conforto, terei palavras novas de Agustina para ler pela vida afora. 

Só desejo é que todas as televisões façam muitos programas sobre a sua obra. Digo sobre a obra e não apenas sobre a autora. Que se ouçam as palavras que escreveu, que quem ouça tenha vontade de ler mais, de ler muito. Isso é que desejo. Das pessoas que conheço poucas leram Agustina. Muito poucas. E isso é que me dá pena. Não sabemos amar quem honra de verdade a nossa língua nem quem tem a genialidade da escrita íntegra. 


No outro dia queixei-me aqui, e foi há pouco tempo, destas livrarias cheias de lixo em que a gente tem que garimpar muito primeiro que apareça livro que valha a pena. E o pior é que nem a gente sabe como procurar, só lixo à vista, na estante, na bancada, na prateleira, no topo. Desejei uma livraria que me ajudasse a aprender quais os livros bons, uma livraria despoluída e atraente por onde eu pudesse ser guiada até onde as palavras límpidas me aguardassem.

Pensei que estava a sonhar. O mundo perfeito não existe. Se calhar nunca existiu. Pode parecer que me iludo mas não, tenho os pés na terra.

Mas afinal essa livraria existe. Estive lá. Um lugar de serenidade e paz.


Não fui à Feira do Livro. Estava muito calor e, nos últimos anos, a barafunda, o barulho e a confusão incomodaram-me demais. Livraria boa pede recolhimento, não liturgia mas recolhimento, quase silêncio, se música, então, musiquinha boa, e pede frescor e pede uma quase média luz, algumas zonas de sombra, alguns recantos para alguma escrita que requeira algum recato.

A Livraria da Travessa tem isso. Situa-se num dos lugares especiais de Lisboa, o Príncipe Real, e é de uma sobriedade, de uma elegância, de uma largueza, de um bom gosto que dá vontade lá ir todos os dias.


E trouxe de lá alguns livros. Livros que sabia que existiam e nunca tinha visto à venda. Andava eu por um lado, o meu marido por outro, ambos à descoberta. Deles darei conta um dia destes. Livros que me enchem de alegria só por existirem e estarem aqui à minha beira, à minha espera. O meu marido já leu parte de um e gostou, diz que está bem escrito e que é um bom retrato de época.

Eu ainda não li nenhum mas agora peguei no Manual de Etiqueta do mesmo autor e estive a folhear para ver se poderia ser de utilidade para alguns dos que pacientemente me acompanham aí desse lado. E confirmo: da máxima utilidade.


Por facilidade transcrevo apenas dois conselhos e escolho-os apenas pela dimensão pois há casos em que, atestando que o tamanho importa, a minha escolha recai nos mais pequenos.

O hipismo

Para se fazer hipismo é necessário ter prática e ter também um cavalo ou uma égua. Quando um casal faz hipismo o cavalheiro vai do lado direito a dama do lado esquerdo. O cavalo vai sempre por baixo. (É uma velha tradição que fica bem respeitar).



O beijo-paixão

Este género de ósculo fica muito bem às senhoras tipo mulher fatal, de cabelos pretos e olhos verdes. A etiqueta exige para tal cerimónia o baton cor de sangue, fundas olheiras e pálpebras semicerradas de míope. Sendo este dever social considerado de grande cerimónia, jamais o cavalheiro o praticará com o chapéu na cabeça.


[O autor é o Vilhena e forçosamente a ele terei que aqui voltar um dia destes]



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É de um brasileiro esta bela livraria de Lisboa. 
Pelos vistos gosta da língua portuguesa e gosta de literatura e de livros -- e é isso que é preciso. 
Espero que tenha muito sucesso pois quero ir e ir e ir e voltar a ir a esta Livraria da Travessa.

Jared Kushner, o apertadinho genro de Trump -- que não, não é racista --, parodiado por Stephen Colbert


Stephen Colbert continua a andar cá por casa, eu é que tenho optado por manter a relação a bom recato, apenas aqui na sala comigo. Eu reclinada no sofá e ele ao meu colo. Mas hoje abro a janela para o mundo e deixo que o vejam. Aliás, quando gosto muito de alguém, como é o caso, longe de mim guardá-lo a sete chaves só para mim. 

Mas isto para dizer que o Trump pode ser uma coisa do outro mundo, um palerma narcisista com a mania das grandezas e sem noção do ridículo -- e ter um presidente que é tal vergonha e atraso de vida não é coisa que abone a favor de todo um país -- mas uma coisa é certa: apesar de tudo ainda lá é possível ter uma pessoa como Colbert a gozar com o presidente da forma como o faz, às escâncaras. Ou, como se costuma dizer, à cara podre.

Depois de ter visto como os Trumps quase acamparam em Buckingham -- os filhos todos (execepto o mais novo) mais a nora e o genro que por lá andaram a tirar fotografias de grupo, à janela, no meio dos sofás: a piroseira das piroseiras -- só mesmo o gostinho de ver o Colbert a gozar com Jared Kushner, o apertadinho genro do Trump, um totózinho promovido nem sei a quê, que por aí anda em missões que deveriam ser conduzidas por estadistas de peso.

Jared Kushner struggles with 'Is Donald Trump a racist?'


E ponham aspas nisto... muitas.... muitas aspas...

terça-feira, junho 04, 2019

Agustina


Fotografia in Folha de S. Paulo



Não posso dizer que hoje tenha tido um desgosto quando soube da notícia. Não tive.

Não que seja fria de coração porque, por vezes, ajoelho de desgosto. Como, por exemplo, o que senti, grande, quando vinha no carro e ouvi que o Bernardo Sassetti tinha caído de uma ravina, tinha morrido. Nem queria acreditar. Gostava tanto de o ouvir e gostava tanto das suas composições que a morte surgiu como um alçapão tenebroso que ia impedi-lo de continuar a compor e a tocar para nós.

Mas de Agustina, hoje, não. Nela eu gostava do que ela escrevia e, mesmo assim, não de tudo. Gostava também de a ouvir falar mas isso era quando ela falava e há alguns anos que não falava. Diz a filha que já antes do AVC ela parecia querer ausentar-se. Isso pareceu-me natural. Depois de uma vida a esgotar-se em palavras pareceu-me legítimo e compreensível que buscasse o silêncio das palavras não ditas. E de escrever também se desligou. Tinha-se despedido com a Ronda da Noite. Anos de palavras a correrem nas veias também cansa. 

Excerto de foto da Impala
Depois do AVC, deixar as palavras a sossegarem numa caverna profunda e inacessível sempre me pareceu nela uma coisa normal. Os AVCs são buracos negros que sugam a matéria e, nela, a matéria era a carne das palavras.

Levantar-se, ter a sua higiene tratada, escolher a toilette do dia, ir passear no jardim, ir para a sala, ficar em silêncio, parecia-me um programa mais do que suficiente para uma soberana em repouso.

E das suas palavras escritas e ditas antes disso eu não preciso de me despedir. Tenho-as perto de mim, sempre terei. Umas estão ali na estante, outras estão num livro que tenho aqui. E há vídeos.

De palavras novas já eu não esperava, pois, há uns bons anos e, no entanto, milagrosamente, elas continuaram a aparecer-me. E sendo, afinal, a caverna -- onde, durante anos, as palavras se acomodaram como letárgicos bichos do mato -- como um rio sem princípio nem fim estou em crer que as palavras continuarão a aparecer, a espreitar o sol, ficando por aí.

E é dessas que eu tenho gostado mais.

Sempre fui mais dada a petiscos que a grandes pratadas. Apanhados de ensaios, de crónicas, de textos, de cartas. Ou biografias que não são nem um bocadinho convencionais sobre pessoas de quem ela gostou muito e onde se perde em memórias, em observações à toa, onde mistura biografia e autobiografia, onde brinca, onde faz voos rasantes sobre a personalidade dos amigos. De tudo isso eu posso petiscar sem ordem definida, banquete informal, dim sum em que posso passar de uns para outros sem quebra ou adaptação, sempre em puro deleite e desconcerto. 

Houve a Sibila, claro. Inaugural. Dolorosa, visceral, telúrica, mística. Mas depois os outros romances não me prendiam. Tenho-os, alguns: debiquei-os. Há alturas da vida para tudo. Se a escrita requer vagar, vida ou tolerância e a lemos entre preocupações por filhos pequenos e depois adolescentes ou entre horários à justa, com certeza que as nossas trajectórias não convergem. Hei-de voltar a estes livros que contam histórias para perceber qual a minha sedimentada opinião.

Agora aquela insolência, aquela ironia truculenta, aquelas observações tão próprias de uma mulher da terra, aquela sabedoria desprovida de laços, venturosa, aquela carnalidade madura que se metamorfoseia em palavras, aquele riso escarninho, aquela farpa oblíqua, aquele despudor tão característico daqueles a quem tudo se permite, aquele desbocamento elegante, pérfido, atraente, tão próprio de quem sabe da inteligência extrair a beleza --- isso eu encontro nos textos avulsos, nos pequenos livros, nas opiniões, nas recordações, nas entrevistas. 

E tudo isso é eterno e cada vez o há-de ser mais pois mais pessoas a irão descobrir e amar e venerar o seu indomável espírito que sempre se manterá moderno e presente entre nós.

Já muitas vezes aqui falei dela e mais vezes haverei de falar pois há em Agustina aquela sedutora fractura, aquele desalinhado e descontraído comportamento e aquele gosto em enterrar as mãos nas vísceras ainda quentes daqueles a quem disseca -- que me são irresistíveis.

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Não sou de saber de cor citações ou de guardar de memória referências que agora me poderiam ajudar a escolher um texto a preceito que fundamentasse na perfeição os meus humílimos encómios. Por isso, fui à estante e puxei o Caderno de Significados, um livro fininho que, lá dentro, teria certamente textos pequeninos, fáceis de copiar. 

E é assim que, sendo que decorre agora mais uma edição da Feira do Livro e relembrando o tempo em que eu começava a visita pelo stand da Guimarães, cá em baixo, á esquerda de quem subia, para ver os livros de Agustina, soberana das letras portuguesas, soberana do seu reino da fantasia, transcrevo:

Feira do Livro

É possível imaginar uma tarde mais doce debaixo dos céus de Lisboa, mas eu não quero imaginar. O Parque Eduardo VII onde se inaugura a Feira do Livro está todo fechado em copas de árvores onde goteja uma promessa de chuva. Há muita gente conhecida e desconhecida. Os bonecos da Contra-Informação recebem os seus amigos e outros. Paira um bom presságio que está às vezes onde menos se espera. Saramago, mais sorridente do que é costume, Lobo Antunes aparece e desaarece. Eu, com os meus pés tenros como espargos, sento-me na cadeira que há no Pavilhão e dizem-me, de vez em quando, que a guerra foi declarada entre editores e livreiros. Napoleão tinha razão, a guerra é o estado natural do homem. Venho verificar isso no Parque Eduardo VII. que é um lugar como outro qualquer para avaliar o mundo e os seus problemas. Um vento carinhoso protege-nos de tudo como se fosse a benção dos escritores que nos olham dos seus placards mais ou menos esvaídos em tinta simpática. Começa a estação da Feira, que em geral coincide com a estação das chuvas. Como se diz em português corrente, 'estes são os gravos da ladeza em que estes lugares da terra de Lisboa daquém mar Ociano hapartam da linha equinocial da ladeza conta o polo' que é o meu Volkswagen.

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segunda-feira, junho 03, 2019

Street Photo & Co.




Quem por aqi me acompanha sabe que sou dada a prazeres. E se escrever é um deles e não é pequeno, fotografar é outro e não é menor. Andar pelas ruas a fotografar é daqueles apelos a que, desde há muito, não resisto.

Por isso, em tempos, quando já tinha ganho o gostinho por este blog, resolvi ter um só para fotografias. Foi o meu marido que lhe deu o nome: Street Photo & Co. Gostei muito do nome.

Era coisa que fazia com gosto e e o meu marido, que geralmente acha alguma piada às minhas fotografias mas que, obviamente, tantas elas são que não tem pachorra para as ver, gostava de ver as que eu publicava, uma ou duas por dia.


E se tudo o que se me atravessa à frente é bom para ser fotografado, é por fotografar pessoas que mais me sinto atraída. Não imaginam quanto. O intuir que vai haver um movimento especial, o adivinhar quando é que a pessoa vai fazer o gesto pelo qual espero, o apanhar a melhor posição, a melhor exposição, tudo sem que a pessoa saiba, o agir furtivamente... isso é para mim um prazer. E não é que agir pela calada, em geral, seja a minha praia mas é que, se a pessoa que observo sabe que está alguém à espera do momento para a fotografar, perderá a naturalidade, desfigurará a espontaneidade do instante. E a magia reside, justamente, na captura do momento na sua mais pura essência.

Portanto, o acto de fotografar alguém na rua é sempre um acto de tocaia e, claro, comporta os seus riscos.


Uma vez, vi do outro lado da rua uns calmeirões com um físico extraordinário, uns verdadeiros apolos, a carregar um grande sofá. Nem lhes vi as caras pois iam encobertas pelo sofá que transportavam ao alto, ao ombro, creio. Fotografei-os, claro. Um bocado depois, eis que sou interpelada por um gigante, mulato, brasileiro. Ameaçador: 'Qu'é que cê tava fotografando? Dá isso pr'a cá!'. Furioso, tom agressivo. Nunca tal me tinha acontecido apesar do meu marido andar sempre a prevenir-me: 'Um dia ainda te tramas'. E eu digo que aí que, se alguém me disser alguma coisa, eu direi para se entenderem com ele, que é o meu agente, o meu bodygard e o meu lawyer. Pois nessa vez tenho ideia que ele resolveu armar-se nisso tudo ao mesmo tempo mas que eu, que temo os seus rompantes em situações destas, atalhei e disse que, se isso era questão, apagava a fotografia. E apaguei e o apolo lá se foi à vida dele. O meu marido disse que deviam ser trabalhadores ilegais, que não quereriam ser vistos, muito menos arriscarem aparecer nalguma rede social. Não sei. Mas a verdade é que nesse dia me assustei.


Outra vez foi um que me assustou muito, um homem muito magro, com um rosto marcado. Provavelmente, vendo-me a fotografar pessoas, veio ter comigo, colocou-se à minha frente, intimidante, uma voz grave, cava, e ordenou: 'Fotografe. Fotografe para ver o que é um homem desempregado, um homem sozinho'.  Assustei-me mesmo. Quis desviar-me mas ele não saíu da minha frente: 'Fotografe'. E eu fotografei. Ficou uma fotografia impressionante, devo dizê-lo.

Mas, apesar de tudo, sempre continuei a fotografar. Contudo, tirei do ar o Street Photo & Co. pois apesar de não ser ilegal fotografar e divulgar fotografias de pessoas na rua, nunca consegui saber exactamente os contornos legais da coisa. Claro que, se alguém se visse no blog e me escrevesse a dizer para retirar a fotografia, imediatamente o faria. Mas, seja como for, achei preferível não me arriscar. Claro que se ninguém fotografar ou filmar o que se passa nas ruas não haveria testemunhos deixados ao futuro mas, enfim, pelo menos por enquanto, tento não publicar pessoas de frente ou em primeiro plano e frequentemente opto por fotografar graffittis, árvores, montras, coisas.

[E pode ser que um dia, qualquer dia, volte a pôr no ar o meu bloguesinho de fotografias de que eu gostava tanto]


No sábado ao fim do dia, a modos que exautos, resolvemos dedicar o domingo ao descanso. Absoluto descanso, prometemo-nos um ao outro. Descontando as tarefas domésticas, claro, porque o domingo tem sempre obrigações a que não dá para escapar. Pensei dormir até às onze, no mínimo, e pedi que, sob pretexto algum, me acordasse. Mas a verdade é que acordei cedo e, quando me levantei, já ele estava na sala a ler. Portanto, estando o dia a começar e já ambos bem acordados, decidimos ir passear a pé. Eu estava com vontade de ir conhecer um sítio e ele não tinha nada contra e, de resto, é daqueles sítios onde sempre iremos de bom grado, agora e sempre. É daqueles lugares de Lisboa a que a nossa história está associada e isso, parecendo que não, parece que nos faz ainda gostar mais de por lá cirandar.

E era disso que hoje teria querido falar mas, entre o post para a Isabel e a minha vontade, meteu-se este post em que me apeteceu mostrar alguns graffittis, quer os dois primeiros feitos no outro dia no maravilhoso Ginjal quer os deste domingo, na zona do belo Príncipe Real.

E se não quero publicar fotografias de pesssoas (e se as fotografei, espantosas...) pois, então, que possa mostrar paredes. E se as há também com lindezas boas para serem mostradas.

Devo até dizer que, quando fotografei a que mostro abaixo, me ocorreu pregar uma partida à Luísa e enviar-lhe para o Pinta-Amores -- mas se calhar ela é atilada e não achava graça nenhuma à minha maluqueira e, portanto, cortei-me. Portanto, a banana maliciosa, aparentemente dada a amores pouco platónicos, fica aqui, que aqui estará bem, que já se sabe que este meu Um Jeito Manso não é lugar que se recomende.


E a ver se amanhã mostro o tal lugar que fui conhecer, um lugar com que sonhei, julgando um sonho impossível, e que, afinal, hoje encontrei, materializado, fresco, sóbrio, bem cheiroso, amplo, pleno de tentações: em suma, extraordinário.

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A todos desejo uma bela semana a começar já nesta segunda-feira.
Saúde, sorte, alegria, amor e cacau para os gastos.

domingo, junho 02, 2019

Isabel, este é para si


Há tempo, ao falar aqui das minhas 'pinturas' (e ponham aspas em volta das ditas pois pintora não sou), referi, em troca de palavras com a Isabel -- que já tem o seu atelier à sua espera... -- que aquilo para que me puxa é a mera abstração mas que, em querendo, consigo condicionar-me e tentar pintar coisas concretas.

Contudo, incapaz que sou de tentar reproduzir a realidade, mesmo que me disponha a pintar flores, não me dá para tentar imitá-las. Para mim, a pintura é invenção, é fazer coisas que não existem assim e que, ao fazê-las eu, passam, então, a existir. Parvoíces minhas. Nada disto é voluntário pois não resulta de uma intenção, resulta de uma atitude minha, da minha maneira de ser.

Estes aqui resultaram de a minha mãe, um dia, me ter dito que achava que um bocado de parede, ao lado de uma janela, estava a precisar de um quadro. A decoração é clássica mas não pesada, mais ou menos o chamado 'estilo inglês', e o cortinado de fora, que fica aberto e, portanto, junto aos lados da janela, tem um motivo floral.

Então, para ficar coerente, resolvi fazer uma espécie de arranjo floral mas meio abstracto e com textura. Aqui não se percebe mas misturei uma massa para as flores terem algum volume -- mas coisa discreta, querendo eu que elas tivessem mais vida. Maluqueiras minhas, claro. E usei apenas tons claros, com brancos, amarelos, um ou outro toque de verde e laranja, para terem luz e leveza. Fiz um e, a seguir, como ela na sala de jantar, na parede perpendicular, tem lá um espelho grande com moldura em talha dourada, fiz outro quase igual mas com apontamentos em dourado. 

Quando lhos levei para ela escolher, gostou dos dois, quis ficar com ambos, disse que um ficava ali, na sala de jantar, e o outro pô-lo-ia na salinha onde costuma estar mais frequentemente, na parede por cima de uma pequena estante. 

Então, mandei-os emoldurar e lá estão. 

No outro dia, para lhe mostrar, Isabel, fotografei-os com o telemóvel mas, ao ver as fotografias, vi que estavam tortas e com má definição. Só que, ontem que estava com a máquina fotográfica e poderia ter tentado apanhá-los melhor, voltei a esquecer-me. Por isso, mostro mesmo assim senão nunca mais. 

Ontem também referi que, sobre a minha estante que na parede por cima tem um quadro com motivos musicais, tinha uma peçazinha de vidro também com motivos musicais.

Aqui está. Ao pegar nele é que reparei que, na volta, era um cinzeiro. Já nem me lembrava. Nunca foi usado como tal pois quando havia fumadores por cá nunca se fumou dentro de casa, o meu marido fumava à janela e eu nunca fumei em casa. Ou seja, sempre foi uma peça meramente decorativa.

Não é nada de especial mas acho que faz um bom pendant com a pintura que está por cima.

E é isto. 

E agora, Isabel, sou eu que vou ficar à espera das obras que hão-de sair do seu atelier... ok?

Retrato de um dia feliz




O meu marido tinha dito para eu não arranjar programas que o impedissem de estar sossegado a ver a final da Champions (acho que era a Champions mas não garanto porque a toda a hora há finais de tudo e mais alguma coisa). Só que, por uma qualquer conjugação astral, as coisas confluiram para ir às compras de manhã, depois viagem para um almoço em família, com parte dela, depois regresso e ida a uma livraria para oferecer um livro a cada criança, depois vinda a casa para adiantar o jantar, depois passeio à beira rio com outra parte da família e, a seguir, jantar com grande parte da família. Seguidamente os comensais adultos retiraram-se, com excepção para nós, eu e o meu marido, que ficámos com a tropa miúda. Os últimos a irem-se embora saíram há pouco. O meu marido, suspira, encolhe os ombros, lamenta-se: por mais que queira ficar estendido no sofá, sossegado, a ver futebol, nunca consegue. A televisão até estava ligada mas tanta gente à mesa e tão ruidosa e tanto movimento... não conseguiu. Acho que tem vontade de me recriminar mas não o faz. Por um lado, porque sabe que foi por um bom motivo e porque, na verdade, também gosta, mas, por outro, penso que acha que não vale a pena dizer nada.


E eu tenho a dizer que cada vez tenho que fazer maiores quantidades de comida. Tachadas e tachadas e, afinal, a massa, que era um dos acompanhamentos, foi à tangente. Fiz uma embalagem inteira de massa, que, depois de cozinhada e parcialmente escorrida,  temperei com azeite que tinha antes aquecido com alho e bacon picado para apaladar, e que envolvi com queijo ralado, uma embalagem inteira. Uma tachada -- e não era a família completa, que essa parte já tinha estado no almoço. Afinal, houve quem quisesse repetir e já não tivesse apanhado. O meu marido queixou-se: quase não comi massa. Para a próxima que estejam todos já terei que fazer duas embalagens inteiras. Só falta ainda ter que arranjar tachos maiores. Dito isto, que não se pense que me queixo. Qual quê: o oposto. Dá-me gosto ter batalhões esfomeados à mesa. E depois de comerem ao jantar como uns leões, os que agora vieram buscar os remanescentes, em conjunto com estes, voltaram a sentar-se à mesa e cada um comeu meia sandes de queijo.

Passa da uma da manhã. O meu marido foi deitar-se há pouco, cansado. 'Isto, um gajo...' e nem completou a frase. Quando à noite liguei à minha mãe, contou-me que depois de a termos deixado em casa lá para as quatro da tarde, e tendo visto que o meu pai estava a dormir, se sentou no sofá e adormeceu instantaneamente e que foi até às sete. Pudera. Habituada a, durante a semana, estar sossegada, na maior quietude, hoje apanhar um programa destes -- em que andou a brincar com os bisnetos e em que esteve a almoçar demoradamente no meio do maior animação -- deixou-a KO.


E eu aqui estou a contar isto como se esta converseta pudesse interessar a alguém. Mas é esta necessidade de, ao fim do dia, escrever alguma coisa. Ia dizer que deve ser a isto que se chama vício de mão mas acho que não é de mão, é de dedos. Os meus dedos não conseguem ir para a cama sem antes andarem aqui pelo teclado, a saltitarem, todos insolentes e descomandados.

Estive a ler os comentários, informações que me trazem ensinamento, dicas preciosas para quando um dia me aventurar a afastar-me por mais do que uns dois ou três dias desta minha gentinha de quem me faz tanta impressão ficar longe e a pensar que, se me ponho a responder, não consigo escrever o post pois estou como talvez possam imaginar. E, no entanto, com um dia como o que tive, até parecia que o cansaço me tinha passado, olhava para mim e pensava que estas coisas são sempre mais psicológicas do que físicas. Mas, agora que aqui aterrei, mal me consigo manter acordada.


Há bocado, um dos meninos pediu-me para usar o computador para ver um vídeo. Quando abriu o Youtube apareceram vídeos do género dos que costumo ver. O miúdo olhou para aquilo, espantado, e exclamou com o ar mais escandalizado e surpreendido que se possa imaginar: 'Oh... mas o que é isto...? Estás tão desactualizada...!'. Achei o máximo. 

Também, quando estávamos a chegar a casa depois de termos passeado à beira-rio e comido uns belos e gigantes gelados (eu um de chocolate preto, moscatel e framboesa), dois dos meninos vinham a falar dos meus pais. Um disse que o meu pai tinha cancro. Fiquei espantada, corrigi logo que não, que tinha sido um AVC, qual cancro. Quiseram saber o que era um AVC. Lá expliquei de forma que não ficassem preocupados. Na cabeça deles, o cancro é o pior de tudo e vendo-o assim devem ter achado que era isso. Curiosamente, um deles não achava que ele fosse marido da minha mãe. A mãe, disse-me que se calhar ele pensava que o meu pai era pai da minha mãe. Ele naquele estado e ela sempre tão jovial -- na cabeça dele deve estar registado como se pertencessem a diferentes gerações. E um disse: 'No outro dia o avôzinho disse que já não tem nenhum dos seus pais vivos e eu fiquei com pena. Coitado do avôzinho'. Depois ficou calado e todos nós também. E ele acrescentou: 'É a tristeza da vida' . Nós ficámos... Eu disse: 'Oh rapaz... que conversa...'. Tem oito anos feitos há dois meses. Referia-se ao avô paterno, a quem tratam por 'avôzinho'. O avô materno também já não tem pais mas não o esclareci desse pormenor. Pelo contrário, desviei foi a sua atenção. Disse-lhe para não se preocupar com coisas tristes, e que nem são tristes, que são coisas naturais que acontecem, umas pessoas envelhecem e outras nasceme que a vida é mesmo assim, e para ficar é feliz com os dias felizes em que tem a família toda junto a si.


Esse mesmo menino, junto ao rio, andando de mãos nos bolsos, quando eu lhe falei nos faróis e lhe expliquei para que servem, disse: «Há tantas coisas importantes de que nunca se fala... Por exemplo, as torres de vigia. Tão importantes'. E eu fiquei a olhar para ele, espantada. 

Outro andava mais à frente a conversar sobre caravelas com o avô. Gosta muito de história e o avô finalmente tem um interlocutor que gosta de ouvir o seu grande conhecimento sobre a matéria.

Enfim. Momentos felizes durante os quais o cansaço se me evapora. Estive a ver as fotografias. Enterneço-me. Sinto-me agradecida. Tomara que todos eles guardem boas memórias destes dias.

(E, pieguissimamente, desejo que também guardem sempre uma boa memória de mim). 

E agora passa bem já das duas. Provavelmente já dormitei pelo meio. A ver se consigo dormir até meio da manhã. Tenho muitas coisas que fazer mas acho que consigo despachá-las na parte da tarde, de preferência a começar ao fim da tarde. Preciso mesmo de descansar.


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As fotografias são de coisas que me fazem companhia aqui por casa. E, a todos os que comentaram, as minhas desculpas por não conseguir responder. Não consigo mesmo.

Bem, não é bem, bem, assim. Claro que podia fazê-lo mas, nesse caso, não poderia ter escrito isto e estes meus insubordinados dedos precisam mesmo de, à noite, andarem à solta, numa folia que é só deles. 

Só uma resposta à Isabel: sim, atrás dos castiçais, naquela última fotografia do post lá mais abaixo, é uma pintura (não minha). O quadro estava na parede por cima do piano que, entretanto, foi para casa da minha filha pois ela é que tocava. Daí os motivos musicais. Agora está na parede onde está uma estante de meia altura. Sobre a estante onde estão os castiçais há uma pequena peça de vidro também com motivos musicais. Se me lembrar, fotografo-a para também lhe mostrar, está bem? 

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E um belo dia de domingo a todos.

sábado, junho 01, 2019

Com a cabeça nas lonjuras e os pés rentes ao mar





Nesta minha semi-hibernação, semi-adormecida a semi-ver semi-cenas, no outro dia vi parte de um programa em que uma jovem família trabalhava na preparação de bacalhau. Mas o que fez tocar várias campainhas foi quando vi que punham o bacalhau num grande camião e que, ao fim de cinco dias, estava em Portugal. Nunca me tinha ocorrido que, para fazer tal distância, usassem o transporte terrestre. E, a partir daí, comecei a pensar que era um bom passeio para fazer de carro, parando, vendo. 

Mas hoje, ao falar nisso, percebi que, para não ser uma estopada, sempre a despachar, levaríamos muitos dias a ir e vir. E tenho sempre esta coisa de não me sentir muito confiante em afastar-me durante muito tempo. Antes, quando os meus filhos eram pequenos, ou ia com eles ou não queria estar longe durante mais do que dois ou três dias. Agora que são grandes e que já têm os seus próprios filhos, é deles todos que não quero afastar-me durante muito tempo mas, também e sobretudo, dos meus pais. Houve um período, quando os meus filhos se autonomizaram e os meus pais ainda eram 'novos' e ainda o AVC não tinha surgido na vida do meu pai para, coitado (tão independente e orgulhoso da sua independência que ele era), condicionar a vida de todos em que nos sentíamos como dois jovens em início de casório. Ou como namorados. Livres, sem preocupações.


Mas, com isto, o meu marido lembrou-se daquela hipótese de que ambos tanto gostamos mas que, para falar verdade, apenas usámos duas vezes, por sinal, em duas vezes em que havia greve nos aviões: Lisboa-Paris de comboio, sendo que, em Wagon Lit, de Espanha para Paris. E fiz outra vez na Alemanha, salvo erro de Dortmund para Frankfurt, passando pelos castelos do Reno e pela Catedral de Colónia, só que dessa vez não foi com o meu marido, foi com um colega. Comboio.

E lembrei-me de uma frustração que alimentei durante anos. Sempre fui muito de não parar sossegada e, apesar de me dar muito em com os meus pais, de ter muita vontade de me libertar do controlo familiar. E de viajar. Por isso, a minha ambição era fazer o interrail. Cedo comecei a falar nisso. acontece que também sempre namorei e, portanto, logicamente iria viajar com ele. Alimentei a esperança de ir com qualquer dos três. Mas a perspectiva de verem a filha, alguém que sempre sentiram que não poderiam ter à rédea curta, a ir pelo mundo com o namorado, sabe-se lá com que ideias 'avançadas' (como diziam que eu tinha) e sujeita ao falatório das vizinhas, era coisa que não encaixava na cabeça deles. Por isso, sempre a fustigar-lhes a cabeça para me deixarem ir, sempre revoltada por não o deixarem, acabei por casar, começar a trabalhar, ter filhos e tudo isso que nos prende os pés ao chão -- e nunca fui.


E foi disso que esta noite me lembrei. Disse ao meu marido: e se fossemos, mochila às costas? Ele virou-se para mim, espantado. Diz que ele conseguiria, eu não. E isto porque diz que conseguiria meter numa mochila razoável aquilo de que precisaria. Mas que eu nem pensar. 

Não sei, tenho que pensar. Nem sei se os comboios são bons, confortáveis. quando viajei em wagon-lit era um luxo. Tinha um quarto maravilhoso. Jamais me esquecerei da experiência. Mas presumo que já não haja nada disso. 

A filha de uma prima minha estudou em Praga. Dali partiu para tudo o que era país à volta. Metia-se no comboio com o namorado e amigos e ia conhecer outros mundos. E eu ouvia isto como se fosse uma realidade distante. Mas, pensando bem, porque é que há-de ser distante?

Gostava de ir conhecer os fiordes mas também não será preciso numa única viagem ir até tão a norte. Se calhar, para experimentar, poderíamos tentar uma viagem mais modesta.


Mas isto sou eu a sonhar através da ponta dos dedos. O cansaço faz-me ter vontade de abrandar, de tirar um tempo para passear, sem pressas, sem compromissos, sem agendas a rebentar pelas costuras.

O meu marido ficou entusiasmado. Ao princípio, quando ainda estava na fase da viagem de carro, até me lembrei de alugarmos uma autocaravana e irmos por aí, estrada afora. Mas ele torceu o nariz. Na volta acha que já é tarde para virarmos hippies a dormir à beira do mar ou no sopé de uma montanha. 

No entanto, só o pensar nisto, parece que já me faz sair um pouco desta semi-letargia em que este hiper-calorão me deixa.


E talvez um dia também consiga ir conhecer a Australia, visitar a Deb Morris, talentosa fotógrafa do mar e das ondas, de quem um dia destes aqui falarei e a quem dedico estas minhas modestas fotografias tiradas esta sexta-feira ao fim do dia, quando fui respirar o ar fresco do mar que sempre tanto bem me faz. Ou talvez ela se convença a vir fotografar o belo mar de Portugal.

Porque falta a electricidade na Venezuela?


Temos por vezes a tentação de acharmos que temos a solução para todos os problemas. Nem paramos para pensar que a coisa pode ser muito mais complexa do que imaginamos ou que desconhecemos a maior parte das verdadeiras condicionantes. Ou isso, ou pior: sem qualquer veleidade, achamos que conseguimos traçar a fronteira entre o bem e o mal, como se o bem e o mal fossem campos contrários e bem identificáveis -- e, a partir daí, armarmo-nos em espectadores à espera que uns vençam os outros. Tontos que somos, todos, temos também, muitas vezes, a tentação de assumirmos como adquiridas algumas realidades, sem que nos ocorra que, um dia, do nada, o enredo pode virar-se do avesso e o nosso papel passar a ser o oposto do que foi até então.

O que se passa na Venezuela é um desses casos e eu, apesar de dada a tentações, neste caso não me sinto tentada a nada: não dou palpites, não sei nada, não percebo nada, não faço ideia como é que aqueles pobres infelizes podem sair daquilo.


Era um país rico, promissor, um chamariz para investidores e, afinal, quando caíu o grande líder dos pés de barro, ficou à vista o atraso de vida que ali grassava. O sucessor, um arremedo de sucedâneo do morto, é outro Trump -- só que com conversa bolivariana. O país arrasta-se na maior miséria, num ambiente de bradar aos céus e o Maduro continua na dele, a clamar pelos amanhãs que cantam, brandindo ameças contra o Trump, contra os bandidos de Portugal que o roubaram, contra muitos outros inimigos, todos sabotadores, contra-revolucionários. Sendo que algumas vezes tem razão, ao embrulhar tudo na mesma linguagem lunática, ao mostrar a deformação lógica que enforma todos os raciocínios e ao exibir os tiques ditatoriais, mesmo quando teria razão, perde-a por completo. 

No meio disto, em vez de aparecer uma verdadeira alternativa, apareceu um que, fisicamente, até parece uma espécie de Obama mas sem nada a ver, sem que se perceba ao que vem, com a agravante de andar a ser levado nas palminhas pelo próprio Trump, pelo Bolsonoro e por mais um ou outro que mais valia estarem calados, ou seja, por gente que não é flor que se cheire.

Por vezes, ao saber da pobreza, da fome, da falta de medicamentos, dos cortes de electricidade, dos hospitais sem condições, ou ouvir testemunhos impressionantes em que se percebe a paranóia, o sectarismo e a cegueira do Maduro e dos que o apoiam, ocorre-me uma daquelas soluções a la minute (que caem pela base ao mais leve escrutínio): porque é que as nações Unidas não intervêm e não arranjam um qualquer comité que governe o país até que a dignidade seja restituída aos cidadãos e que haja comprovadas condições para levar a cabo eleições livres?

Mas se, na verdade, não sei qual a solução, custa-me compreender que, na era em que as máquinas aprendem e em que já não há cão nem gato que não use coisas que recorram a inteligência artificial ou a computação na nuvem, em que sequenciar o ADN já é canja de galinha, ainda não exista a solução para impasses governativos destes, em que quem está no poder não dispõe das mais básicas competências (a todos os níveis) para governar um país e em que não aparece alternativa credível. Deveria haver um manual com as instruções para seguir em cada caso. Mas pelos vistos não há e pelos vistos não é fácil saber o que fazer... e, portanto, tirando muita informação cruzada e muita contra-informação, não acontece nada. E os pobres coitados que ainda não conseguiram fugir, vão sobrevivendo sabe-se lá como.

A reportagem abaixo, da BBC, pode fazer alguma impressão (a mim fez-me muita) mas acho que deve ser vista. Por cá, em especial os camaradas do PCP deveriam conseguir tirar as vendas e ver o que aqui se mostra, mas ver com olhos de ver.                                                                                                                                                                                       

The truth behind Venezuela's blackouts