Um dos médicos que fez a autópsia diz que o que encontrou é compatível com estrangulamento e não com suicídio. Outros dizem que não foi ele que morreu, que foi outro parecido com ele e mostram fotografias que o provam. Para além de tudo, naquela altura, as câmaras que apanhavam a porta da cela não estavam a funcionar, os guardas não estavam lá. Tudo nebuloso, tudo dúbio.
Mas não é só isso. Tudo nesta trama é nebuloso.
Se eu pensar no meu período mais activo, diria que as pessoas com quem eu mantinha um contacto regular, fosse de que natureza fosse, não iriam além das dezenas, duvido que chegassem às cem. E, desses, com quem mantivesse correspondência regular, mensagens, mails, etc, diria que seriam da ordem da dúzia ou, vá, duas dúzias.
Ora, já dou isso de barato. O que eu agora não percebo é como é que ele tinha tempo para estudar os assuntos, para escrever tantos mails, para estar com tanta gente, para levar massagens a torto e a direito, para viajar, para almoçar e jantar com meio mundo, para escolher obras de arte, para tanto deboche.
E o dinheiro que dava a meio mundo? Não há explicação. Pagava a renda da Sarah Ferguson e dava-lhe dinheiro a torto e a direito, pagava os cursos e os alojamentos a centenas das miúdas de quem abusava e traficava, financiava incontáveis projectos, tudo aos milhões, e tinha empregados e mais empregados, e tinha não apenas grandes mansões em várias cidades nos Estados Unidos e fora do país, e ranchos e ilhas, como uma dúzia de apartamentos em Manhattan para alojar amigos e namoradas, tinha iates, helicópteros e aviões. Dinheiro a correr a jorros.
Parece que está claro que era um agente kompromat e aí, ao que parece, era quase free lancer: tinha material comprometedor de meio mundo que venderia a quem desse mais (ou a vários ao mesmo tempo?), parece também claro que era agente da Mossad e que trabalhava para a CIA e que, para a Rússia, funcionava quer como fornecedor de kompromats como intermediaria a aplicação de dinheiro russo fora da Rússia, lavandaria de primeira.
Mas, pergunto eu: se assim se explicaria a sua vasta e crescente fortuna, um escândalo de fortuna, como se explica que tivesse tempo para tudo isso? Os dias dele tinham sessenta horas? Não percebo. Será que mais ninguém fica intrigado com isso?
No outro dia, um matemático, catedrático em Harvard, e financeiro de Wall Street, que o conheceu, diz que Epstein era uma estrutura. Era alguém 'fabricado', uma estrutura 'fabricada', um produto high level dos serviços de inteligência.
Não sei. Mas admito que sim, pelo menos, faz-me sentido.
Há, no tema Epstein, vários mistérios, e este do tempo parece-me um deles.
Partilho um vídeo no qual Tina Brown, jornalista da velha guarda, fundadora do Daily Beast, e que, há uns anos, foi intimidada por ele para não avançar com uma série de artigos, conversa sobre o assunto.
Não que daqui venha uma luz clarificadora mas é interessante, dá para ir iluminando a forma como ele manobrava as muitas pessoas que gravitavam na sua órbita.
Como o perverso Epstein usou as elites para abafar a verdade | Podcast do The Daily Beast
Tina Brown relata a sua experiência chocante ao ser citada nos arquivos recentemente divulgados do caso Jeffrey Epstein, revelando como Jeffrey Epstein e os seus aliados tentaram freneticamente "neutralizá-la" e fechar o The Daily Beast depois de a sua reportagem explosiva com Conchita Sarnoff ter exposto a sua rede de abusos. Numa conversa envolvente com o editor executivo do Daily Beast, Hugh Dougherty, Brown narra o pânico dentro do círculo de Epstein, as assustadoras ameaças legais de poderosos escritórios de advogados, a duplicidade da cronista social Peggy Siegal e a decadência moral de um "clube" de elite que protegia os seus membros mesmo depois de a verdade estar à vista de todos. Ela reflete sobre a cultura pré-#MeToo que desconsiderava as vítimas, os nomes poderosos que orbitavam Epstein — de Bill Clinton a Ehud Barak — e a escala industrial de exploração possibilitada por Ghislaine Maxwell e pelo recrutador Jean-Luc Brunel. É uma defesa mordaz do jornalismo de investigação, um aviso sobre o poder corrosivo da riqueza extrema e um olhar por detrás das cortinas sobre o quão perto esta história esteve de ser abafada — então, o que mais ainda está escondido nos milhões de arquivos não divulgados?
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