segunda-feira, abril 06, 2026

Somos o acontecimento mais raro do universo e somos, ao mesmo tempo, o universo a observar-se a si próprio

 

Não vou falar de política, Isabel. Nem vou falar dos dementes que, com as mãos sujas de sangue, tentando iludir os ignorantes, invocam o nome de Deus para justificar os crimes que cometem. Não vou falar deste mundo que, em parte, parece estar esquecido das conquistas da humanidade, ameaçando a paz e a sustentabilidade do planeta e de tantas vidas, humanas e não só.

Hoje vou apenas falar da bênção de existirmos, nós, ocorrências improváveis.


Vivemos num universo de dimensões quase incompreensíveis. As estimativas actuais apontam para cerca de 2 biliões de galáxias, cada uma com centenas de milhares de milhões de estrelas. No total, isso significa algo entre 10²² e 10²⁴ estrelas no universo observável. Uma dimensão que vai para além de qualquer entendimento humano.

Foi neste cenário vastíssimo que tudo começou, há cerca de 13,8 mil milhões de anos, com o Big Bang.

Mas há um facto ainda mais surpreendente: somos feitos de matéria estelar. Os elementos químicos que compõem o nosso corpo — carbono, oxigénio, ferro — foram forjados no interior de estrelas e espalhados pelo espaço quando essas estrelas morreram em explosões como supernovas. Como disse o astrofísico Neil deGrasse Tyson, baseado na ideia inicial de Carl Sagan, somos poeira de estrelas que ganhou consciência.

Agora, consideremos a (im)probabilidade de estarmos aqui. Cada um de nós resulta de uma cadeia contínua de eventos:

  • Milhares de milhões de anos de evolução da vida na Terra
  • A sobrevivência através de extinções em massa
  • A formação da Terra a partir da matéria que orbitava o Sol, a uma distância adequada para a existência de água líquida
  • E, mais recentemente, a sucessão contínua de gerações que tornou possível a nossa existência

Centrando-me especificamente no nível humano, a improbabilidade cresce rapidamente. Cada pessoa nasce de uma combinação genética única entre dois progenitores. Recuando gerações, o número de possíveis combinações de ancestrais cresce exponencialmente, ultrapassando largamente o número de estrelas da Via Láctea.

Do ponto de vista genético, a improbabilidade é ainda mais extrema:

  • O corpo humano tem cerca de 30 a 70 biliões de células
  • Cada célula contém cerca de 3 mil milhões de pares de bases de ADN
  • A combinação específica que resulta em cada um de nós é essencialmente irrepetível

Algumas estimativas populares sugerem que a probabilidade de um indivíduo específico existir pode ser algo como 1 em 10²⁶⁸⁵⁰⁰⁰ — um número tão vasto que ultrapassa o total de átomos no universo observável (cerca de 10⁸⁰). Embora este valor seja ilustrativo e não exacto, ele transmite bem a ideia defendida por Neil deGrasse Tyson: a nossa existência é extraordinariamente improvável.

E ainda assim, aconteceu.

Num universo com um número imenso (possivelmente infinito) de eventos e combinações, até acontecimentos com probabilidades quase nulas podem ocorrer. Não porque sejam prováveis — mas porque há tempo e tentativas suficientes para que aconteçam.

Nós somos um desses acontecimentos.

Somos o resultado de estrelas que viveram e morreram, de átomos que viajaram pelo cosmos, de uma cadeia contínua de vida que nunca foi interrompida durante milhares de milhões de anos. Tudo isto teve de alinhar-se com uma precisão extraordinária para que estivéssemos aqui, neste momento.

Por isso, do ponto de vista científico, há uma ideia difícil de ignorar: temos uma sorte imensa em existir.

Num universo onde a nossa existência é tão improvável, o facto de estarmos conscientes, de podermos pensar, sentir e observar o mundo, torna-se algo profundamente raro.

E talvez por isso não devamos desperdiçar essa oportunidade.

Durante um intervalo extremamente breve — uma fração mínima na escala do cosmos — temos a possibilidade de experimentar a vida tal como a conhecemos: ver, aprender, amar, questionar e compreender, ainda que parcialmente, o universo que nos deu origem.

Tal como Sagan o interpretou e eu acho a ideia belíssima, somos o universo a observar-se a si próprio.

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Para mais informação e considerações sobre o tema recomendo os vídeos em que Neil deGrasse Tyson fala sobre o assunto. Este aqui abaixo é apenas um deles.

Um dos factos mais espantosos  -   Neil deGrasse Tyson

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As fotografias foram feitas in heaven
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Desejo-vos uma boa semana

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