quarta-feira, junho 12, 2024

Como resolver o problema da Saúde em Portugal -
uma humilde sugestão

 

Para resolver o tema da Saúde -- mas resolver de uma forma clara, adequada, robusta --, haverá que recorrer à modelação matemática, e, em particular a técnicas de programação linear. Poderá haver quem pense em heurísticas ou em filas de espera. Sim, de forma complementar. E, antes, também estudos probabilísticos e estatísticos,  seguidos de modelação que permita obter soluções, validá-las e, também, para fazer análises de sensibilidade.

Para já, de um estudo deste tipo, devem excluir-se a Madeira e os Açores pois cada arquipélago terá que ter uma solução específica. Portanto, a partir daqui refiro-me apenas a Portugal Continental

Antes, haverá que estabelecer:

- Os grandes objectivos do que se pretende. 

Exemplo:

Cada Centro de Saúde não deverá estar a mais de 15 km da residência das pessoas. Cada Hospital não deve estar a mais de 50 Km da residência das pessoas. Em cada local não deve haver filas de espera com duração superior a 2 horas para pulseira amarela, 3 horas para pulseira verde. Etc. São meros exemplos mas o que se decidir a este nível ditará a estratégia a seguir. Portanto, é o mais importante de tudo, é o primeiro passo. 

Seguidamente:

- Identificação de Funções. Médico por especialidade, enfermeiro por especialidade (se aplicável), pessoal administrativo, pessoal auxiliar, técnicos de manutenção, etc. Atribuir um custo por unidade de funcionamento a cada profissional.

- Identificação das Regiões com comportamentos especiais. Por exemplo, imagino que o Algarve tenha comportamento distinto do resto do País, por ter uma população que aumenta bastante no verão. Até poderia ter apenas duas regiões: o Algarve, R1,  e o resto do País, R2.

- Identificação dos Tipos de locais de atendimento. Por exemplo, considere-se Tipo 1, os Centros de Saúde, e o Tipo 2, Hospitais. Pode haver mais como, por exemplo, os Centros intermédios com funcionamento 24x24 e com meios complementares de diagnóstico simples, T3

- Identificação dos períodos típicos de afluência. Por exemplo, imagino que no período frio, das gripes, haja mais afluência, digamos que Período P1, no período de verão (em que tendencialmente há muito pessoal de férias e, em determinadas regiões, maior afluxo de doentes), P2.

- Identificação do quadro de pessoal mínimo para cada unidade de funcionamento e para cada tipo de local de atendimento. Por unidade de funcionamento entende-se o período mínimo, por exemplo, um turno de 8 horas. Ou seja, de cada vez que um Centro de Saúde, P1, tem uma unidade de funcionamento activa, quantos profissionais de cada especialidade têm que funcionar.

- Identificação de tempo médio de cada acto médico, por tipo. Exemplo: Cirurgia: 6 horas (o lógico seria que as cirurgias se subdividissem), Consulta normal: 20 minutos. Exames de Imagiiologia: 15 minutos. São exemplos.

- Levantamento da distância de cada pessoa de cada concelho a cada um dos locais de atendimento existentes bem como a locais de atendimento possíveis (exemplo: um novo Hospital na zona do Parque das Nações, um novo Hospital na zona de...., um novo Centro de Saúde na Zona de...)

- Identificação do Investimento associado a cada local. No caso dos locais existentes e funcionais, o investimento será zero, no caso dos inexistentes, estimar investimento. No caso dos locais que podem ser ampliados, haverá um custo que deve ser estimado.

Enfim... Provavelmente há vários mais factores determinantes. Aqui estou apenas a exemplificar.

Seguidamente, entrar-se-ia na fase de modelação. Com base na afluência típica por local e por período gerar números aleatórios que simulem a afluência ao longo do ano e a duração de estadia em cada local.

Seguidamente, tendo bem definida a função objectivo que (não me fuzilem) eu acho que deveria ser a obtenção da solução que minimizaria os custos globais (funcionamento + investimento), respeitando os níveis de serviço e o cumprimento das distâncias máximas, o sistema iria encontrar a solução que optimizaria o funcionamento global do Serviço Nacional de Saúde.

Reparem que eu não condicionei, até aqui, a solução ao número de profissionais existentes. Não o fiz deliberadamente pois, estando o modelo a funcionar numa base de recursos humanos ilimitados, ficar-se-ia a saber, para tudo funcionar às mil maravilhas, de quantos médicos, enfermeiros, auxiliares, etc, se precisaria para funcionar exemplarmente.

Depois compararia a solução óptima obtida com o que temos.

Por exemplo, suponhamos que me daria que necessitaria de ter 12 obstetras em Faro e que só lá 8. E que no país deveria haver 500 e só há 400. Estou a dizer números ao acaso.

Mas, se detectasse que haveria um enorme défice em determinadas especialidades, não apenas teria que injectar já estudantes nos cursos de Medicina dessa especialidade como se teria que ver se poderia 'importar' alguns. 

Mas aqui entram as análises de sensibilidade. Ou seja, tendo modelos aptos a simular a realidade, poder-se-ia avaliar em quanto se degradaria o serviço se, em vez de trabalhar com 12, só trabalhasse com 8, podendo avaliar também até quando se poderia ir com base em recurso a trabalho extraordinário.

Mas não haverá apenas casos de défice ou casos em que a gestão é quase impossível. Poderia, por exemplo, chegar à conclusão que aumentando o horário de funcionamento de algumas unidades em que há elasticidade de recursos equilibraria a qualidade do serviço sem danificar os custos.

Claro que se pode pensar num cenário em que a optimização é apenas estudada para as unidades públicas. Contudo, eu não ficaria por aí. Os modelos devem reproduzir a realidade e, neste âmbito, a matemática só faz sentido quando é a expressão do que existe. Ora o que existe são unidades geridas pelo SNS, mas também unidades geridas por privados ou por organismos de cariz social (falha-me agora a designação usual).

Portanto, admitindo que os Privados e os Sociais aceitariam ser integrados nesta análise e que aceitariam ser remunerados por actos médicos prestados ao abrigo do SNS, eu introduziria no modelo, alcavalando, paa eles, os custos com um determinado 'prémio'. Por exemplo, se um médico especialista no SNS custar 100, eu colocaria que fora do SNS custaria ao SNS 110 (por exemplo).

Como o sistema de optimização está à procura de obter o custo mínimo, só recorreria aos mais caros em caso de necessidade. Mas, desta forma, assegurar-se-ia que a qualidade do atendimento estaria garantida e a distância percorrida estaria sempre dentro de perímetro admissível de deslocação. E saberia sempre qual o custo que o SNS teria que suportar.

O não recorrer a Privados e Sociais não é impossível. Obriga é a um maior investimento na construção de mais unidades/hospitais e a contratar mais profissionais (que sabemos que não existem) ou a pagar mais horas extraordinárias ou obrigar a fazê-las para além dos limites legais. Ou seja, não parece ser a solução mais inteligente. Note-se que isto não tem nada de ideológico, é apenas racional.

Para os utentes seria indiferente pois não pagariam mais se fossem aos privados. 

Fazer um modelo assim que tem muitos e muitos milhares (milhões, na verdade) de variáveis e de condicionantes, que tem uma função objectivo complexa, que requer dados que nunca mais acabam, parece coisa do outro mundo. Mas não é. Já fiz coisas deste género em alturas em que os recursos informáticos não tinham comparação com os de hoje. Os potentíssimos meios informáticos de hoje tornam um estudo deste género relativamente simples (eu disse relativamente...)

O ideal é que, com um modelo deste implementado, cada pessoa, precisando de uma consulta, fosse a um portal e, identificando-se, dissesse que consulta queria, se é urgente ou não e, nesse caso, mais ou menos para quando, e o sistema lhe dissesse onde deveria dirigir-se e quando e a que horas. O resto seria contabilizado na rectaguarda, de forma automática. Claro que, para quem não se sente à vontade na modalidade self-service em portais, haveria um contact center que faria esse trabalho.

Em síntese, diria eu que, enquanto não se parar para se pensar desta forma, uma forma muito objectiva, muito integrada, sistematizada (matemática), dificilmente se saberá do que é que se está a falar. Cada um dá palpites para seu lado sem saber exactamente de que é que está a falar.

E, como ontem referi, equacionar, modelar, simular, estudar este assunto não é coisa para médicos: é para gestores, para matemáticos.

Espera-se dos médicos que cuidem dos doentes ou que ajudem a prevenir doenças. Mas o mega problema da gestão do sistema de saúde requer outras competências (nomeadamente competências de quem não sabe cuidar de doentes).

terça-feira, junho 11, 2024

Falemos, com alguma objectividade, de coisas concretas

 

A propósito da parvoeira e da chico-espertice do so-called choque fiscal da AD (na verdade, meros trocos em cima do que o PS tinha feito) e sobre a qual o PS está a fazer outra parvoíce ao não deixar o PSD fazer o que quer, e a propósito também da deriva absurda da AD ao pretender dar uma escandalosa borla fiscal a quem tenha até 35 anos (ganhem o que ganharem), fiz um pedido ao ChatGPT. 

Abaixo, transcrevo o que ele me devolveu. Não validei os números pelo que se alguém quiser fazer uma análise idêntica para fins concretos e de responsabilidade deverá conferi-los, recorrendo a fontes oficiais. 

O que aqui tenho está em inglês pois parece-me que, ao ter que consultar fontes oficiais (OCDE, UE, etc., como vi que 'ele' consultou) há menos risco de erros de o ChatGPT se baralhar por deficiente tradução/interpretação.

Quando os saloios da AD acham que vão atrair ou reter pessoas que estão a viver fora ou que, estando cá, equacionem emigrar, seria bom que, antes, fizessem uma análise global.

Por exemplo: 

  • Trabalhando cá, como é que o salário médio português compara com alguns dos principais países que acolhem a nossa emigração?
  • Como são os impostos cá e lá? É que uma família que se mude tem que pensar como fica quando tiver 36 anos.
  • Com que salário anual se atinge a taxa máxima de IRS?
  • Como é o PIB e o crescimento nesses países? (Isto é, são países ricos? Há crescimento económico?)
  • Qual o imposto sobre capitais (Juros de depósitos a prazo ou de títulos de dívida pública, etc) nesses países?
  • (Por mera curiosidade, como comparam os impostos sobre os resultados das empresas, vulgo IRC?)

Eis as respostas que o ChatGPT me forneceu (e que, repito, não me dei ao trabalho de validar)

Portugal

  • Average Annual Salary: €22,628
  • Income Tax Rates: 14.5% to 48%
    • Maximum Rate Applied At: €80,882
  • GDP per Capita: €22,440
  • Average Annual GDP Growth Rate: 2.2%
  • Capital Gains Tax: 28% for individuals, 25% for companies
  • Corporate Tax Rate (IRC): 21%

Analysis: Portugal has a lower average salary and a high top tax rate, impacting those with incomes above €80,882. Despite lower living costs, disposable income is limited, affecting the overall quality of life. 

Ah pois...

Vejamos, agora, os países para os quais os portugueses mais emigram ou emigraram.

Spain

  • Average Annual Salary: €28,375
  • Income Tax Rates: 19% to 47%
    • Maximum Rate Applied At: €300,000
  • GDP per Capita: €29,700
  • Average Annual GDP Growth Rate: 2.4%
  • Capital Gains Tax: 19% to 23%
  • Corporate Tax Rate: 25%

Analysis: Spain offers higher salaries with a top tax rate impacting those earning above €300,000. With moderate living costs and good public services, the balance between income and taxes is favorable, enhancing the quality of life.

France

  • Average Annual Salary: €39,300
  • Income Tax Rates: 0% to 45%
    • Maximum Rate Applied At: €160,336
  • GDP per Capita: €38,500
  • Average Annual GDP Growth Rate: 1.3%
  • Capital Gains Tax: 30%
  • Corporate Tax Rate: 25%

Analysis: France provides high salaries with the top tax rate starting at €160,336. Despite high living costs, comprehensive social services and public benefits contribute to a high quality of life.

Germany

  • Average Annual Salary: €49,200
  • Income Tax Rates: 0% to 45%
    • Maximum Rate Applied At: €274,613
  • GDP per Capita: €46,200
  • Average Annual GDP Growth Rate: 1.8%
  • Capital Gains Tax: 26.375%
  • Corporate Tax Rate: 15% + 5.5% solidarity surcharge

Analysis: Germany has the highest average salary among the listed countries, with the top tax rate affecting incomes above €274,613. High disposable incomes and efficient public services result in a high standard of living.

United Kingdom

  • Average Annual Salary: €37,600
  • Income Tax Rates: 20% to 45%
    • Maximum Rate Applied At: €174,500 (£150,000)
  • GDP per Capita: €44,300
  • Average Annual GDP Growth Rate: 1.4%
  • Capital Gains Tax: 10% or 20% (18% or 28% for property)
  • Corporate Tax Rate: 25%

Analysis: The UK offers high salaries with the top tax rate starting at €174,500. High living costs, particularly in London, are offset by good public services and infrastructure, maintaining a high quality of life.

Summary

  • Portugal and Spain: Moderate quality of life with progressive tax systems and lower income levels. Spain offers a better balance due to a higher threshold for the top tax rate.
  • France and Germany: High quality of life with robust social services. Germany's higher salary and tax threshold provide more disposable income.
  • UK: High quality of life with high incomes and living costs. The UK offers a balanced approach with higher tax thresholds and comprehensive services.
Penso que está claro, não está?

Portugal tem salários bem mais baixos do que os países que tradicionalmente mais portugueses atraem, é um país bem menos rico, carrega nos impostos sobre rendimentos das pessoas que é um disparate e um abuso.

Portanto, é nisto que os governantes (sejam eles quem forem) têm que se concentrar: estimular fortemente o crescimento económico, incentivar fortemente a subida de salários, reduzir a taxação de IRS da classe média, taxando mais apenas os verdadeiramente ricos (vide valores acima) com vista a libertar liquidez para as famílias.

Em contrapartida, (a serem verdadeiros os números acima), bem pode taxar mais as empresas, em especial as que têm lucros mais elevados pois, aparentemente, Portugal, entre estes países, é quem taxa menos.

Mas há outros índices a ter em atenção, nomeadamente o Índice de Felicidade. E mais uma vez transcrevo a resposta que obtive e, de novo, a serem verdadeiros os valores que o Chat me devolveu, dá que pensar:

Based on the latest World Happiness Report, here are the happiness index scores for Portugal, Spain, France, Germany, and the United Kingdom:
  • Portugal: 5.9
  • Spain: 6.5
  • France: 6.7
  • Germany: 6.9
  • United Kingdom: 6.8​ 

These scores provide a comparative measure of subjective well-being across these countries, reflecting factors such as GDP per capita, social support, healthy life expectancy, freedom to make life choices, generosity, and perceptions of corruption. 

De notar que o valor mais elevado é obtido pela Finlândia que tem 7,8

Ou seja, também aqui, Portugal está abaixo dos países que acolhem grande parte dos nossos emigrantes. E este indicador é daqueles que, por ter um âmbito muito abrangente, mais diz sobre a qualidade de vida num país.

Podia elencar outros indicadores que traduzem a qualidade de vida (quer a real quer a percepcionada) mas isto é um blog, não pretende, de forma alguma, dar-se ares de compêndio...

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Em gestão há uma metodologia que se designa por Balanced Scorecards. As empresas identificam objectivos que pretendem atingir (transpondo para a realidade nacional, suponhamos que, em Portugal, se pretendia ter um índice de felicidade de 7 no prazo de 3 anos, um salário médio equivalente a 80% da média dos salários médios dos países acima referidos no prazo também de 3 anos, uma taxa média de IRS para salários até 150.000€ anuais equivalente à média dos referidos países também no prazo de 3 anos, etc., etc, etc...). Então, para cada objectivo, traçar-se-iam iniciativas para lá chegar, e métodos para as monitorizar bem como indicadores para ir avaliando periodicamente a sua prossecução.

Claro que, ao detalhar iniciativas, iremos ter iniciativas múltiplas seja ao nível da formação académica e profissional, seja ao nível das medidas sociais para incentivar a renovação demográfica, medidas para proporcionar estímulos lúdicos que ajudem a percepcionar uma melhor qualidade de vida, etc.

Ou seja, de forma integrada, monitorizável e mensurável, seria possível pôr o país a caminhar rumo aos mesmos objectivos, de forma convergente, inteligente, inequívoca.

Deixaria de ser uma realidade ao gosto de cada comentador, cuja avaliação é na base das bocas. Pelo contrário, passaríamos a trabalhar num registo de seriedade intelectual, de objectividade.

E teríamos a certeza que o que estaríamos a fazer não seriam medidas avulsas, de utilidade duvidosa, injustas, absurdas.

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Sobre o (grave) problema do SNS e da Saúde em geral, a ver se falo no assunto amanhã ou, senão, um dia destes. Contudo, vou já adiantando que a resolução do (grave) problema em causa não é tema para médicos.

segunda-feira, junho 10, 2024

Europeias 2024 -- os quês e os porquês
Análise, partido a partido

 

PS - Com uma AD que deu origem ao actual governo -- um governo desgraçado, que tem revelado uma atitude videirinha, pacóvia, ignorante e chico-esperta --, seria expectável e razoável que o PS conseguisse uma distância mínima de 5% em relação à AD. Mas não conseguiu. 

E não venham dizer-me que o PS ainda está a arrumar a casa, a juntar os cacos (como ontem ouvi, na televisão, um débil mental a dizer). Qual desarrumação? Quais cacos? Acaso o PS estava desarrumado? Acaso alguém tinha partido a louça toda? Estão malucos ou quê? O PS estava a governar e bem, tinha a casa arrumada. Poderia estar ainda muito agarrado a velharias, gente ainda muito saudosa dos maravilhosos tempos que se seguiram à queda da ditadura, gente que continua a sonhar sobretudo nos amanhãs que cantam. Mas, tirando o aspecto da renovação que já era (e ainda é) indispensável, era um partido bem dirigido. António Costa era um líder inquestionável.

A razão residirá, isso sim, muito na forma como este PS de Pedro Nuno Santos se posiciona. Continua a querer ressuscitar a geringonça, continua a querer agradar ao eleitorado mais à esquerda, mesmo quando está mais do que claro que esse eleitorado já praticamente não existe. 

Além disso, Pedro Nuno Santos funciona na base do eucalipto: à sua volta, nada. E isso foi bem patente na forma como se apresentou agora a cantar vitória. Em vez de aparecer rodeado pela equipa dos deputados eleitos, não senhor, apareceu ele, ele e ele. E num lado a Marta Temido e no outro o Carlos César. Muito mau. Depois de ter corrido com uma mão cheia de deputados notabilíssimos, nem para com os agora eleitos teve o gesto de os levar para o palco.

Da mesma forma como na política nacional não se sabe rodear de figuras de enorme qualidade como Mariana Vieira da Silva ou Fernando Medina ou Duarte Cordeiro (e outros a quem António Costa soube valorizar). Parece apenas dar ouvidos aos geringônticos Alexandra Leitão (e, de certa fora, Mendonça Mendes).

Ao parecer querer livrar-se de todos os que eram figuras de destaque na governação de António Costa e ao parecer não saber compreender a nova realidade, o PS não sabe ir buscar um eleitorado novo nem sabe recuperar a classe média que se deslocou para a sua direita por não se rever neste PS que, com Pedro Nuno Santos, aparece aos olhos do eleitorado como anquilosado e encostado a uma esquerda moribunda.

Ouvi Pedro Nuno Santos anunciar que vão lançar uns novos Estados Gerais. Espero que daí nasçam novas ideias. Espero que percebam que não é com Carlos César e outras peças de museu ou com Alexandra Leitão e outros saudosos da Geringonça que vão conseguir contrariar a tendência descendente que se vem desenhando. De resto, também não sei se a noite eleitoral era o momento ideal para falar nisto. Sendo estas eleições europeias tão relevantes, Pedro Nuno Santos esqueceu-se disso e só falou de política nacional. Muito curto em termos de visão estratégica. O que ali vi foi sobretudo o PS a olhar para o seu umbigo, parece que incapaz de olhar para o que o rodeia e para o contexto europeu.

Espero que consigam mudar (para melhor) pois o País precisa de um bom partido social-democrata.

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AD - Beneficiam da inércia e da deficiente informação dos eleitores tal como beneficiam do colo que a comunicação social lhes dá. Com Portas e Marques Mendes a fazerem campanha activa em horário nobre, ao domingo, em canal aberto (com a conivência da Comissão das Eleições) e com uma profusão de comentadores a manipularem a opinião política, conseguiram aguentar-se. Com o que têm demonstrado desde que formaram Governo, com um eleitorado bem informado e com um PS mais assertivo e inteligente, a AD teria levado uma banhada. Não levou. Mas é o que temos. De qualquer forma, penso que é uma questão de tempo.

Montenegro, na noite eleitoral, também não se lembrou de que se estava a tratar de eleições europeias. Não deve sequer saber quais os problemas europeus. Tudo o que disse me soa a conversa videirinha, saloia, a falar muito e sem acrescentar nada.

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Chega - Felizmente sofreram um trambolhão. Gostava que lhes acontecesse qualquer coisa como a que aconteceu ao PRD, ou seja, que um dia destes o Chega acabasse. Mas não sei, não. André Ventura não acabará, arranjará maneira de andar por aí pois nitidamente tomou-lhe o gosto, é um populista que não vai ser capaz de parar. André Ventura é inteligente, é ubíquo, é uma máquina, e, como sabe lançar sound bites em permanência, a comunicação social não o larga e isso chama os eleitores. Mas, enfim, assim como assim, os eleitores souberam dar-lhe um chega para lá e isso talvez faça André Ventura refrear a sua energia destrutiva.

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Iniciativa Liberal - Subiram e subiram bem. A democracia liberal é um caminho aberto e o eleitorado jovem e com sangue na guelra  bem como uma classe média informada e exigente que se vê abandonada pelos partidos do dito centrão dar-lhe-ão ímpeto para subir ainda mais. A nível europeu, o espaço da democracia liberal será, creio que cada vez mais, o oxigénio de que a democracia precisa para impor, com alguma modernidade e juventude, os seus valores, fazendo uma barreira contra o populismo e contra a direita reaccionária que tanto nos ameaça.

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Bloco de Esquerda - Caiu e caiu bem. O Bloco é um partido que por vezes está bem mas, na maioria das vezes, está mal, sendo frequentemente populista, agarrando-se a causas marginais, assumindo atitudes justicialistas e arvorando-se em dono da verdade.

Na intervenção que tiveram a propósito dos resultados eleitorais, considero patética a sua  alucinação a cantar vitória, a rirem, às palmas, todas contentes como se não tivessem percebido que a sua representação se viu reduzida a metade. De loucos.

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CDU -- Caiu e caiu bem. Continuam agarrados a ortodoxias de antanho, defendem já não se sabe bem o quê, não percebem que já não representam quase ninguém, ignoram tudo o que de novo e relevante se passa à sua volta. A intervenção de João Oliveira e do Raimundo é alienação em estado puro. Marimbaram-se para a política europeia (realidade que, a bem da verdade se diga, lhes passa ao lado), marimbaram-se para os temas mais relevantes da actualidade e sorrindo de gosto, eufóricos, cantaram vitória e reincidiram na única e estafada lenga-lenga que conhecem. Já vão em 4% dos votos, só conseguiram um deputado, e ali estiveram, contentes como se tivessem ganho as eleições. Não sei se isto deve ser visto como uma perturbação do foro psicológico ou cognitivo mas alguma é.

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Livre -- Tenho pena que não Francisco Paupério não tenha sido eleito. O Livre é uma esquerda moderna, ambientalista, humanista, informada. Como tenho vindo a dizer, acho importante que haja uma esquerda inteligente, informada, aberta aos novos temas. Gostava que, em Portugal, o Livre crescesse pois a democracia precisa de partidos assim. E a Europa precisa também de vozes jovens, civilizadas, democráticas, abertas ao futuro.

ººººººººººººººººººº

Abaixo, as Primeiras impressões

Europeias 2024 -- primeiras impressões

 

A nível nacional:

Continuo triste e apreensiva com as elevadas taxas de abstenção. Não me interessa que seja menos 1 ou 2% ou por aí face às últimas. Mais de 60% das pessoas não se darem ao trabalho de votar.

Continuo triste a apreensiva com a capacidade de análise e com a inércia na reacção dos votantes, ao verificar que, sendo patente a inequívoca falta de qualidade, a todos os níveis, da AD e a estupidez que foi pegarem num comentador arrogante e agressivo (o facto de ter 28 anos até é pormenor) para cabeça de lista, ainda há tanta gente a votar neles.

E, para já, neste momento, só isso é certo.

Face à votação em mobilidade, como o Pedro Magalhães explicou, as sondagens à boca das urnas que serviam para a abertura das notícias este ano não estão calibradas. Portanto, não se consegue garantir a sua fiabilidade dentro dos intervalos que, noutras condições, era seguros.

Portanto, com as devidas reservas:

  • A ser verdade que o PS não descola, fico apreensiva por os Socialistas ainda não terem percebido que os tempos são outros. Se já nem os anteriores votantes no BE e na CDU votam neles, a que propósito o PS continua enleado na doutrina gerincôntica? 
Além disso, verifica-se que a nível de votantes, a faixa maioritária é a das pessoas com mais de 55 anos. Ora isto não é bom. Se um partido não sabe perceber e responder aos anseios dos mais novos e dos intermédios, acaba como o PCP... (ie, à medida que os mais velhos forem desaparecendo, o partindo tende para a extinção. Claro que ainda está longe disso mas os sinais já aí estão)
  • Não me espanto com o que se anuncia como a subida da Iniciativa Liberal. A ver vamos.
  • Ficarei bastante contente se se verificar que o balão do Chega desinflou. Mas vou esperar pelos resultados.´
  • Não fico admirada ao verificar que a esquerda-esquerda continua a caminho da extinção. O PCP e o BE bem podem reflectir. 
  • Gostava que o Paupério fosse eleito. Nos tempos que correm, o Livre é a esquerda inteligente e era bom que continuasse a subir e a ser reconhecida.
A nível europeu:
  • Estou deveras apreensiva com o que aconteceu em França. Muito.
  • Aparentemente, é uma tendência geral na Europa, embora talvez não tão acentuada como em França. O que sempre temo, que a democracia "por delicadeza se deixe matar", pode acontecer se não formos capazes de pensar com uma cabeça nova, uma mente aberta.

NOTA: Interessante a análise que o Sérgio Sousa Pinto tem vindo a fazer na CNN.

domingo, junho 09, 2024

As Zebras, esses animais maravilhosos e indomáveis.
Têm listras particulares que podem salvá-las de muitos perigos. São magníficas e devem orgulhar-se disso.

 

Gostei do comentário. Gostei mesmo, é original, tem graça. Muito obrigada.

No título da mensagem transcrevi a citação mas não acrescentei o autor. Está aqui: Jeanne Siaud-Facchin

E, já agora, esta fotografia e a outra lá em baixo são da autoria de Lucien_Clergue.

Tal como diz quem escreveu o dito comentário, eu também penso que 'o outro' não tem historial. Por isso, confesso, não vou tranquilizada. Vou numa de 'pagar para ver', numa de 'vamos ver'. 

De vez em quando temos que negar a inércia. O mundo anda. As ideias, as atitudes e a nossa visão sobre o mundo também têm que mudar. Agora ia dar um exemplo mas não posso pois, supostamente, estamos a reflectir. Mas o que eu queria dizer é que, quando o mundo anda mas nós não, acabamos por ficar a falar sozinhos.

Para que as coisas mudem, alguém tem que arriscar. Depois, se a coisa correr bem, outros virão atrás. Arriscar é isso mesmo: correr o risco. Se der para o torto, a gente arrepia caminho e corrige a rota. Se correr bem, bora, vamos lá.

O mundo hoje já não é o mundo que existia quando eu comecei a trabalhar. Agora é o mundo no qual os meus filhos trabalham. E há de ser aquele em que os meus netos trabalharão. Não posso continuar a pensar nos problemas que havia antes e a manter-me agarrada a soluções para esses problemas quando agora há mil novos problemas, mil novos desafios. 

A minha decisão representa, para mim, um salto impensável. Ontem acrescentei no título a última parte (a explicitação de quem, obviamente, não seria contemplado) pois a minha filha alertou-me para que eu deveria deixar isso bem claro, não fosse alguém ainda pensar que eu tinha ficado destravada de todo. E, há pouco, o meu filho, que, tal como a irmã, me conhecem a apontar sempre no mesmo sentido desde o início dos tempos e que não tinha lido o que eu ontem escrevi, tendo-lhe eu comunicado a minha decisão, ficou pregado ao chão (ou ao tecto -- não sei, não vi, a conversa foi por telefone). Tentou chamar-me à razão, assegurar-se de que eu estava plenamente consciente da minha decisão.

Mas é assim mesmo. Estou consciente.

Quando eu trabalhava, uma vez tomei uma decisão que fez o vice-presidente de uma gigante multinacional enfiar-se num avião e, sem aviso prévio, aparecer-me, ao fim da tarde, no gabinete. As empresas tinham uma parceria de longa data que definia que, em condições de igualdade, cada uma daria primazia à outra na celebração de negócio. Ora, uma vez, estava em jogo um negócio várias vezes milionário e a empresa dele estava a querer impor condições muito favoráveis para eles e não muito para nós. E eu ameacei que ou eles se ajustavam ou eu avançaria com o principal concorrente deles. Não acreditaram pois tínhamos uma sólida parceria, de anos. Mas eu não vendo jogo branco. Trabalhar com outra empresa, com a qual não estávamos habituados, ferir a parceria que era sólida e duradoura, era uma facada numa empresa que era uma fiel amiga e era, sobretudo, um arriscado tiro no escuro. Mas dei-o.

Quando ele me entrou no gabinete, pela primeira e única vez na minha vida profissional senti-me intimidada. Fisicamente, ele devia medir para cima de um metro e noventa, era um homem com um grande charme, um francês de se lhe tirar o chapéu. Sempre tínhamos tido um relacionamento cordial, afável. E, de repente, tendo perdido um negócio importante, tendo ficado evidente no mercado que não nos tinham na mão, ele não estava disposto a digerir o que sentia como um atentado.

Estava furioso, varado. Vinha exigir explicações. Creio que, até, vinha pedir a minha cabeça. Mas, obviamente, eu tinha cobertura. O presidente com quem eu trabalhava na altura, um temível homem de negócios, dizia que a minha frieza, ao negociar, o assustava. (A mim também. Mas sentia, também, uma adrenalina à qual não conseguia fugir).

O francês extraordinário não me matou. E eu consegui esconder que, por dentro, me sentia um pouco intimidada. Pelo contrário, ele percebeu que voltaríamos a fazer negócio sempre que fosse bom para os dois, não apenas para ele. Acabou a chamar-me la femme infidèle. Dizia o meu nome em francês e acrescentava, sorrindo, 'la femme infidèle'. Fizemos muito mais negócios e habituou-se a que, quando não conseguia acompanhar a concorrência, a coisa lhe fugia das mãos. Mas mantivemo-nos amigos, embora nunca mais tivesse deixado de me tratar por mulher infiel.

Se calhar, é o que vou também fazer este domingo: ser infiel. Seja. 

Não garanto que não vá arrepender-me. Estarei cá para avaliar se é opção a merecer continuidade. Se não forem merecedores, na próxima não contarão comigo.

Não sou conservadora. E acho que não sou medrosa. Também acho que não sou burra de todo. Portanto, vamos ver. Bola para a frente.

Para já, cá estão elas, as zebras, o tema deste post. Magníficas, na verdade.


Um belo dia de domingo a todos

sexta-feira, junho 07, 2024

Antes que se entre em período de reflexão, se é que isso ainda existe, informo já que, desta vez, não vou votar no PS
[Acho que seria escusado dizer mas, para que não fiquem a pairar quaisquer dúvidas, claro que não é no Chega]

 

Depois de aturada reflexão, achei que tinha que ser consistente nos actos face ao que pensava. Concretizo:

  • Não gosto de ver que algumas das vozes mais relevantes do PS estejam reduzidas a uma injustificada insignificância (ex: Mariana Vieira da Silva, Duarte Cordeiro, Ana Catarina Mendes, etc.), 
  • não gosto de ver a razia que foi feita na lista das Europeias, afastando deputados de reconhecida qualidade e centrando toda a campanha em Marta Temida (não obstante ser uma respeitabilíssima socialista e uma ministra da Saúde a quem muito devemos) e não dando qualquer voz a outras pessoas de igual qualidade, 
  • não gosto da escolha de Alexandra Leitão para líder parlamentar pois é palavrosa para além da conta e tem um pensamento que não descola da Geringonça, 
  • não gosto de ver o PS a pautar a sua actuação política encostado às ideologias do PCP e do BE, tratando a classe média como se fosse uma seita de privilegiados que importa castigar.

Considero que com estas escolhas e estas atitudes, o PS está a fazer uma deficiente oposição a uma AD que é tragicamente incompetente (e saloia e chica-esperta e burra) e a deixar a descoberto a defesa de uma classe média amiga do desenvolvimento, dos valores humanistas, da liberdade, classe média essa que deveria ser acarinhada pois é, e sempre foi e sempre será, o verdadeiro motor da economia. Ao actuar assim, este PS está a deixar espaço para quem o queira ocupar.

Portanto, em coerência com o que penso, nestas eleições vou mandar o PS às urtigas e vou votar num outro partido que me parece civilizado, europeísta, humanista, com ideias arrumadas, sem estar preso a geringonças ou a ideias antiquadas, capaz de pôr o pedal no desenvolvimento inteligente da sociedade. 

Devo dizer que deixei o meu marido estupefacto. E percebo-o. Mas as coisas são como são e eu penso que a inteligência está em sabermos interpretar as circunstâncias, em avaliar alternativas, em avaliar o que melhor se adequa ao que defendemos. Não há escolhas bacteriologicamente puras, não há partidos perfeitos, não há pessoas ideais. Mas é face às condicionantes e aos momentos que vivemos que deveremos equacionar qual a melhor resposta para se alcançar o que parece ser o melhor caminho.

Portanto, num salto quântico que deixou o meu marido em total estado de perplexidade, vou votar em quem nunca votei (nas legislativas, que me lembre, sempre votei PS) e em quem há algum tempo não me passava pela cabeça que viesse a receber o meu voto. Não o faço por impulso ou por uma reacção emotiva: faço-o racional, conscientemente. E, como sempre, decisão tomada, é decisão concretizada. Não volto atrás.

É isto.

A Clara Ferreira Alves é mal informada, ignorante, demagoga, fala-barato, tendenciosa ou apenas intelectualmente destituída?

 

Pergunto.

E pergunto isto depois de mais um exercício de auto-flagelação ao forçar-me a ouvi-la no Eixo do Mal apesar de o meu marido ter estado aqui ao meu lado, furibundo, revoltado, insultando-a, querendo fazer zapping.... (Acontece que eu estava a querer ouvir o Pedro Marques Lopes e, portanto, achei que, por hoje, não morreria se tivesse que a gramar. Contudo, reconheço que aturar a pesporrência, a inconsistência, os disparates consecutivos, o populismo barato daquela mulher leva qualquer um ao desespero. Criatura horrível.)

O Ministério Público está entregue à bicharada?

 

Pergunto.

A beatagem nunca foi de confiança

 

Pergunta a Penélope e eu pergunto o mesmo: porque é que não foram fazer buscas em Belém?

O beato Marcelo não vem a público defender Lacerda Sales e oferecer-se para arcar com as culpas porquê?

Sim, porquê?

quinta-feira, junho 06, 2024

Feira do Livro

 

Sou tão velha, mas tão velha, que ainda me lembro de duas coisas revestidas de muita antiguidade:

1. Ir à Feira do Livro com os meus pais. A escolha de livros sempre foi, para mim, coisa muito minha. Ir com os meus pais significa que era uma altura em que ainda não circulava livremente por Lisboa

2. Ir à Feira do Livro na Avenida da Liberdade, tenho quase a certeza que do lado esquerdo de quem desce para o rio.

Ir com os meus pais não era grande coisa pois cada um tem o seu próprio ritmo e eu gostava de ver cada stand e o meu pai não tinha paciência. Mas tenho ideia de que ali era mais fresco. Não tenho ideia de calorões quando a Feira era na Avenida.

Outra coisa que não era fácil era ir com os meus filhos, quando eles eram miúdos. Aí era barra pesada. Claro que eles não queriam ver aquilo que eu queria. Mas, mais do que tudo, eu tinha pavor de perdê-los. Sempre tive. Então tinha que descurar os livros. Sempre que podia fazia assim. Um dia saía um pouco mais cedo e ia lá ao fim da tarde, fazer uma recolha de catálogos. Era tudo tão manual, tão analógico... Depois, nos dias seguintes, fazia pré-selecções e selecções até chegar a uma lista minimamente comportável. Depois, num fim de semana, arranjava maneira deles ficarem com os meus pais e ia lá com o meu marido. Muito dirigidamente, ia para os stands em questão e abastecia-me.

Nessa altura ainda só conhecia a FNAC de Paris. Ainda não tinha chegado cá. Grande e com uma boa oferta, conhecia a Bertrand ao Chiado, cujos saldos também frequentava. Também não havia cá compras online. Ou seja, a Feira era aquele sonho que se materializava uma vez por ano.

Depois tudo mudou. Começaram as grandes livrarias com cartões de desconto e com promoções várias vezes por ano, começaram a proliferar as editoras, multiplicaram-se os livros que são lixo, as celebridades passaram a ser os autores de referência e tudo se mercantilizou de uma forma exuberante.

Estive lá hoje. Stands que não acabam. As grandes editoras têm montes de chancelas, cada um com seu stand. Há editoras que não acabam, muitas de que nunca ouvi falar. Carradas de stands de livros infanto-juvenis. Por onde se passa, há capas e capas e capas numa disputa de cor, brilhos, letras gigantes sobrepondo-se à bonecada. E há stands cheios de caras que a gente conhece das televisões, quiçá até dos Big Brothers desta vida.

Isto já paar não falar nos stands dados à religião, seja lá o que isso for pois há religiões também para todos os gostos.

Isso e barraquinhas de comes e bebes. Lá em cima, a ligar as duas alas, há um plateau grande, um deck em que estão muitas esplanadas e quiosques de toda a espécie e do qual se tem uma vista fantástica. Provavelmente, está-se lá lindamente. Mas como essa não é a minha praia nunca lá parei. 

E podem chamar-me preconceituosa mas há uma coisa que me incomoda um bocado: andar a ver livros e cheirar-me a bifanas ou a feira popular. Mas pode ser do calor que parece que sinto sempre quando lá ando. 

Conclusão: comprámos uns quantos livros. O meu marido comprou dois e eu sete. 

Ando numa fase em que gosto de ler memórias, apontamentos pessoais, diários, cartas. Parece que é aí que está verdadeiramente a essência dos escritores. Também comprei um livro de contos e outro que é uma espécie de biografia. E digo 'espécie' pois não sei bem se é biografia ou se é uma ficção em torno de uma biografia. 

Vinha cheia de vontade de os folhear a todos mas estou assim, ou velha ou ainda com algumas sequelas covid. Sentei-me no sofá e adormeci. Parece que nunca mais me curo deste sono que, volta e meia, se abate sobre mim. Tinha dormido menos de noite, é certo, mas durante toda a vida dormi pouquíssimo e aguentava todo o dia sem ter necessidade de dormir a meio da tarde. Mas não sei se foi o défice da noite, se foi por andar na Feira para cima e para baixo cheia de calor, a verdade é que adormeci profundamente. Acordei com o meu marido a chamar-me para irmos fazer a nossa caminhada de fim de dia. Portanto, ainda não os folhei. Leitora degenerada.

Só mais uma coisa: apanhámos, de passagem, a Grande Entrevista com o José Gameiro. Muito interessante. O sentido de humor, a graça e a leveza com que ele fala de temas potencialmente sensíveis torna a conversa estimulante. E o Vítor Gonçalves é um bom entrevistador. Ouve, é oportuno, dá tempo. O tema foi a infidelidade. Quem não viu e possa pôr a box a andar para trás, penso que se justifica.

quarta-feira, junho 05, 2024

Tosquiadelas, caracoletas e etc.

 

Hoje não há cá notícias sobre televisões, cabos coaxiais ou outras aventuras que tais. A esse nível parece que está tudo estabilizado. Continuo a achar que ficou um pouco mais acima do que devia mas também já percebi que, no curto prazo, não vou ter sorte nenhuma. Mas percebo. Se tivesse que ser eu a desmontar tudo e a ter que repetir todo o processo provavelmente também me recusaria. Portanto, ou me habituo a ter o pescoço levemente inclinado ou dou um tempo para que haja maior receptividade à mudança.

Hoje a novidade é que foi dia de ir dar banho ao cão. 

Cães assim que gostam de se rebolar no chão, em que o spot preferido para dormir ao ar livre é um buraco que fez na terra, de preferência na terra húmida, que gosta de se enfiar no meio dos arbustos, que não é muito adepto de ser escovado e lavado por nós, de vez em quando precisa mesmo de um tratamento radical. Mas isto é como aquela coisa que se vai à lã ou lá o que é e se sai tosquiado. 

Não está tão rapado como na outra vez mas, coitado, depois de lá ter deixado um brutal volume de lã, até parece que fica outro. Uns olhões todos à vista (atenção que me refiro mesmo aos olhos, não foi nenhuma letra que me ficou esquecida), até parece um infeliz, coitado, um corpinho que afinal, estando à vista, se vê que é alto e esguio. Pobrezito do meu fofo.

Claro está que já lhe fiz mil mimos e já o iludi dizendo-lhe que está muito lindo, muito lindo. Coisa mais fofa da dona.

Enquanto ele estava a ser cuidado, fomos até a um centro comercial para irmos ao supermercado. Por via das dúvidas, antes fui dar uma espreitadela às lojas. Vi uns calções bem giros. E vi umas blusas maneiras. Quando estava a equacionar a situação, inclinada para sucumbir, o meu marido disse: 'Vá, despacha-te, não nos podemos demorar. Se precisas disso, despacha-te.'. Aquelas palavras assassinas calaram-me fundo. 'Se precisas disso'. Caraças. De facto, não preciso. Dei meia volta e fomos para o supermercado. Com a roupa é quase como com os livros: mesmo se não comprar mais nada, tenho até aos últimos dias da minha vida (mesmo que dure até aos 200). E é que nem se põe a questão da moda pois desde que a moda se tornou uma questão em aberto, deixando espaço a que o estilo se sobreponha, visto o que me apetece sem querer saber de tendências. Portanto, não me choca nada pensar que quando tiver 107 anos vou estar a vestir os calções brancos que vesti hoje (se resistirem até lá; mas, se não resistirem, no problem, tenho outros equivalentes) e a blusinha também branca com grandes flores em tons diversos de rosa que há de estar tão na moda como está hoje. 

Posso ainda acrescentar que, de caminho, comprámos caracóis e que, mais coisa menos coisa, foi o meu jantar. E a rapariga que me atendeu foi uma querida. Quando ia servir-me, perguntei-lhe se também havia caracoletas. Ela disse que sim, se eu dissesse que queria. Disse logo que sim, que queria. E tanta alegria devo ter mostrado que ela caprichou na dose: caracoletas em grande número. Gosto imenso de caracóis mas ainda gosto mais de caracoletas.

E ao escrever isto ocorre-me que a ver se, daqui por algum tempo, não penso neste petisco com o incómodo com que hoje penso no belo petisco de passarinhos fritos da minha infância. Comia-os com enorme prazer e tenho ideia de que, por vezes, até lhes comia os ossinhos. Hoje, que me deleito a ouvi-los cantar e me maravilho a vê-los a saltitar por aqui, só de pensar na desumanidade de se matar passarinhos para os comer me dá ânsias. Mesmo polvos, agora que os sei super inteligentes e comunicativos, já me faz impressão comer. Por isso, a ver se daqui por algum tempo não me sinto incomodada, quiçá uma bárbara criatura, por estar a devorar caracóis e caracoletas.

Mas, enquanto isso não acontece, desforrei-me. Tão bom...

terça-feira, junho 04, 2024

Um cabo que afinal não é AV mas sim coaxial.
E uma televisão que... me parece que ficou mais acima do que devia...
Mas que é completamente indiscreta. Agora até vi um cabelo na camisola preta de uma senhora que ali estava...

 

A dita já está na parede. Com uns parafusos ligeiramente mais finos e um pouco mais curtos, a coisa resolveu-se. Depois foi enfiá-la no suporte. Estava à espera que o suporte que se prende à televisão encaixasse melhor nos que estão na parede. Mas não, só entra um bocadinho. Fiquei com receio que não estivesse bem mas o meu marido disse que era mesmo assim. E, de facto, parece que ficou bem presa. Mas depois há uns parafusos que se aparafusam por baixo e por detrás do suporte da televisão, provavelmente como segurança adicional. Aí foi outra provação pois a televisão é fininha, fica quase encostada à parede. Portanto, não se veem e não há mão que lá chegue. O meu marido sentou-se no chão, todo torto, com a mão enfiada e a chave de parafusos e eu com a lanterna do telemóvel a dar-lhe luz e foi uma cegada pois, para a luz dar no parafuso, quando ele enfiava a mão tapava a luz. Tentei eu, que tenho a mão pequenina, enfiar a mão por baixo a ver se conseguia rodar o parafuso com a mão. Qual quê... não dei com eles. 

Ele já dizia que caguava para os parafusos. E eu que não, que tivesse paciência e tentasse mais, tentasse melhor, senão a dita ainda vinha parar ao chão.

Enfim. Lá conseguiu. Ou não... Pode ter dito que sim porque já não aguentava mais a posição e o esforço. 

Não percebo que método é aquele. Quem inventou este processo devia estar com os copos. Nem que fossemos anõezinhos conseguiríamos atinar bem com aquela cena dos parafusos pretos, para prender a suportes pretos que estão atrás de uma televisão preta, num espaço ínfimo, a não mais de uns cinco centímetros da parede.

O pior é que, quando olhei para ela, achei que estava levemente descaída para um dos lados. 

(Escusado será dizer que nestas situações o meu casamento fica por um fio).

Ele declarou categoricamente que estivesse como estivesse não ia agora desfazer tudo e voltar a fazer mas que, além disso, estava boa. Pus-me em cima de um banquinho para lá pôr em cima o nível. Estava com a bolhinha levemente mais para um lado que outro. Para confirmar, Medi com a fita métrica. Encontro uma diferença de uns 3 mm. Furioso, pôs ele o nível e disse que estava bom. Para ele, se a bolhinha estiver entre os dois riscos centrais, está bom, não tem que estar escrupulosamente ao centro. Não sei se isso é assim. Só se for para vesgos (que não se importam de ver uma coisa a descair).

Mas o pior nem é isso. O pior é que, estando agora sentada no sofá, acho que ela devia vir ligeiramente mais para baixo. Quando não estava posta, grande como era, não dava para imaginar bem. A minha filha viu na net que há uma regra: o meio deve estar entre metro e vinte e metro e sessenta do chão. Para ficar no mínimo, isto é, a metro e vinte, pareceu-nos que ficaria demasiado junto do irradiador que está fixo na parede. Pareceu-nos que onde está agora, em que o meio está a 1,36 m do chão não apenas estava dentro do recomendável como guardaria uma distância razoável do irradiador. Mas agora que estou sentada no sofá em frente, parece que tenho que inclinar um pouco mais para cima o pescoço do que devia. Fui medir e penso que sete centímetros abaixo ficaria melhor.

O meu marido ao ouvir isto, levantou-se, a modos que furioso, e disse que era uma questão de hábito e que de uma coisa posso eu estar certa: não vai passar outra vez pela complicação de fazer quatro buracos completamente bem alinhados e depois pôr dois parafusos num sítio inacessível. Isto para além de não querer ter a parede esburacada.

Portanto, a ver...

Agora uma coisa é muito certa: as imagens têm uma qualidade incrível. Estivemos a ver uma reportagem sobre as Canarias no National Geographic e é uma coisa... Estávamos mesmo impressionados. Agora estou a ver um programa na RTP 1 sobre os que vivem para lá dos 100 anos e quase parecem imagens 3D. Até apareceu uma senhora com um casaco ou uma capa de malha cheia de borbotos. Tive mesmo vontade de estender o braço e arrancar-lhe os borbotos para ficar mais apresentável. Não sei se a definição é excessiva ou se os borbotos é que eram mesmo exuberantes demais. E hei-de ver o abominável mistério das flores, sim. Muito obrigada pela dica.

Resta ainda acrescentar que, enquanto ele estava a prender o suporte e a fazer mais não sei o quê, eu estive a ver se conseguia pôr a funcionar a televisão que levei lá para cima. Liguei a energia e o cabo da antena. E digo cabo da antena pois é igual aos cabos antigos das antenas. Mas não sei de onde é que o cabo vem pois lá em cima está o router do operador de comunicações e cá em baixo, aqui na sala onde estou, está a box. Portanto, não sei. Só que, depois de ligar, mais uma vez não tinha canais, não tinha nada. E, mais uma vez, andei às voltas com o comando da televisão. Percebi que tinha tinha a ver com a fonte, a entrada da coisa. HDMI não era, as tomadas daquelas em forma de trapézio com muitos piquinhos lá dentro também não. Sobrava uma coisa designada por AV. Portanto, optei por isso. Mas depois aquilo deriva para televisão digital ou analógica e eu fui tentando uma e outra. E nada. Fazia a sintonização e nada. Mais uma vez, um desatino. Então, uma vez mais, ó tio, ó tio, ChatGPT diz lá o que é que eu faço. Descrevi o problema: a marca e modelo da televisão e o que tinha ligado, a energia e o cabo AV, o que tinha feito e que não conseguia nada. 

Sábio que só ele e delicado como começo a perceber que também é, começou por me dizer que os cabos AV tem três cores e mais não sei o quê e que, pela minha descrição, aquilo era um cabo coaxial. Quando li aquilo senti-me mil vezes burra. Claro que é um cabo coaxial. Caraças. Parece que estou parva. Então já não sei que aquilo é um cabo coaxial? Qual AV? Burra, pá. E disse-me para eu, no comando, ir ao Home e às Configurações e para escolher a Televisão e depois a opção Cabo. Assim fiz. Depois, quando fiz a sintonização, ao contrário das outras vezes em que a percentagem de sintonização ia subindo e os canais detectados zero, desta vez, era eles a aparecerem que era um gosto. Qualquer dia não passo sem a ajuda do Tio Chat.

Portanto, a televisão lá de cima já a funcionar também. Acresce que, ao retirar a televisão pequenina, apareceu uma coisa de que eu andava à procura e cujo desaparecimento já parecia um mistério. Alguns dos miúdos tinham lanchado lá em cima e eu, para além das tostas e da salada de frutas, tinha levado uma garrafa de uma bebida à base de chá verde e limão, sem açúcar. E a garrafa tinha levado sumiço. O meu marido garantia que não a tinha deitado fora. Levado para a cozinha, ninguém a tinha levado. Espreitei em todo o lado. Nada. Pois bem, ali estava atrás da televisão. Isso e um copo. 

Aparecem sempre coisas. Ontem também cá ficou uma bola de basket. Não sei se já contei daquela vez em que a minha neta ia chorando a rir quando o irmão desatou a tirar havaianas de um vaso de flores: ele andava à procura de uns chinelos (pretos) e eu disse que a última vez que os tinha visto, alguém os tinha posto no vaso grande que está no terraço, onde estávamos. Então ele tirou um chinelo verde. Depois um encarnado. Depois o par verde. Depois um cor de laranja. Depois o par encarnado. Parecia para os apanhados. Finalmente lá apareceu um chinelo preto. Depois um cor de laranja. Finalmente o outro preto. Eu também não parava de rir. Não sei explicar. Por causa do cão, pelos vistos quem se descalça esconde os chinelos no vaso. E, pelo que se constata, depois esquecem-se deles ali. Só visto.

E é isto. Ao fim da tarde ainda fui estender-me ao sol e ler um pouco mais da perversa Venturini. E ao fim do dia fomos fazer uma caminhada à beira da praia e comprar sushi para o jantar.

Vida de pensionista é isto: uma pessoa vai levando uma santa vidinha e, ao mesmo tempo, parece que vai ficando mais desligada das complicações tecnológicas e das coisas que supostamente vêm cada vez com mais funcionalidades, apesar de a gente só querer mesmo as coisas básicas, simples, que não nos põem a cabeça à roda.

Bem, fico-me por aqui. Vou ver se me habituo à altura a que está a televisão... Senão não sei se não terei que voltar a pôr o casamento em risco...

segunda-feira, junho 03, 2024

Televisores LED, QLED, QNED ou OLED? No móvel ou na parede? E com comando digital ou verbal? E etc, etc, etc...

 

Acontece que nos estava a dar jeito ter uma televisão nova pois, in heaven, a que está na cozinha (que é sala de jantar quando somos só os dois ou, sendo mais, quando somos poucos à mesa) é antiquíssima, com péssimo som e deficiente imagem. 

E a que está aqui, no piso de cima, é pequena. Quando, aqui, querem ver futebol e o meu marido não quer que perturbem a sua concentração (nomeadamente, quando joga o Sporting) e pede que vão lá para cima, de facto a televisão é pequena de mais para muita gente dispersa pela sala. Ora, essa pequena dava mesmo jeito era na cozinha, no campo. 

Portanto, uma solução natural passava por fazer um upgrade, levando a da sala de baixo lá para cima, e condescendermos à pequenina o direito a tornar-se rural. 

Contudo, para que essa movimentação fosse possível, carecia-se de uma nova. Mas somos um bocado renitentes a bugigangadas destas. Diria que a tínhamos aqui na sala seria moça para uns quinze anos, talvez mais, quiçá deveras mais. Mas não sei porque, apesar de a acharmos idosa, já era smart TV. Por isso, não sabemos.

No outro dia, quando foi a final da Taça e o meu marido tinha dito que não queria a malta toda à volta dele a fazer barulho e, afinal, acabou cercado, com a sala a rebentar pelas costuras, o meu filho perguntou porque não aproveitávamos as campanhas em curso, cheias de descontos à pala do Euro, e comprávamos uma maior, com melhor definição.

Ficámos a pensar no assunto pois isso, de facto, permitira resolver as situações acima descritas. 

No sábado à noite indaguei junto do oráculo. Ó ChatGPT, diz-me lá quais as diferenças entre as tecnologias Led, Qled, Qnet e Oled, e diz-me em termos de durabilidade, qualidade de imagem e preço, o que recomendas. E vai ele, bicho amestrado a preceito, dissertou de forma organizada. Vantagens e desvantagens de cada uma, observações e, trás-pás-trás, a recomendação vai para... (e só não digo pois resisto a tornar-me influencer).

O que sei é que fomos a duas lojas e testei as respostas do ChatGPT. Bingo. Certíssimas. E fiquei até a saber que as mais sofisticadas não gostam de programas com imagens fixas como, por exemplo, o telejornal em que aparece, em imagem fixa, o logo do canal. Parece que isso pode queimar os leds ali naquele canto. Coisas assim, surpreendentes.

Mas, coração ao largo, que as coisas já não são o que eram. Eu, que gosto de comprar coisas que durem uma vida, agora vejo-me perante estas novidades que me deixam com vontade é de dar meia volta no tempo e recuar até às remotas eras em que tanta tecnologia não era feita para ser descartável ao fim de meia dúzia de anos.

E, portanto, trouxemos uma da marca e tecnologia recomendada, quer pelo Chat quer pelos funcionários, e, em concreto, uma que, imagine-se, estava com um desconto de 55%. E no fim ainda tiraram mais 7 euros que era da campanha do Euro. Vá lá a gente perceber estas coisas. 

O pior foi carregar com a dita. Bicha graúda e pesada que só visto. Entregavam em casa mas, assim como assim, resolvemos trazer logo, sobretudo para aproveitar estar o pessoal cá em casa de tarde. Ainda davam uma ajudinha. Fui buscar um carrinho ao supermercado e muito a custo conseguimos pô-la atravessada, ao alto. Depois, já no estacionamento, para a pôr no carro, fiquei de segurar o carrinho enquanto o meu marido a tirava para a pôr no porta-bagagens e, não sei como, o carrinho acabou deitado, de lado, no chão. Uma cena.

Atalhando. 

A ideia é prendê-la à parede pois é a única possibilidade porque, onde estava a outra, entre um móvel e um aquecedor de parede, não cabe uma maior. Pacífico pois também trouxemos um suporte de parede. Tivemos que acertar com os lugares para fazer os buracos e aquilo até trouxe um nível para ver se a televisão não fica a descair. O pior é que, nos buracos, couberam as buchas que vinham mas não foi possível atarraxar os parafusos até ao fim. Não se percebe. Portanto, não conseguimos pôr a televisão na parede. Conclusão: até que se arranjem parafusos mais finos, está com o pé que o meu marido, entretanto, que remédio, lhe montou. Está aqui à minha frente, a impor a sua presença, muito mal jeitosamente, descabidamente, em cima de um móvel que agora parece mínimo.

Depois foram os meus netos que ligaram os fios e configuraram as primeiras coisas. Senão, provavelmente, ainda aqui estaríamos os dois à cabeçada. Claro que poderíamos ler o manual. Mas é enorme e, pior, tudo incompreensível.

À noite, depois da última caminhada do dia, dog oblige, já os dois sozinhos, liguei a dita e estava na RTP 1. Fui com o comando mudar de canal e aquilo foi parar não sei onde. Para ali andei, para a frente e para trás, e não conseguia fazer nada. Dizia-me que não encontrava a fonte, depois que não tinha canais guardados, e eu para a frente e para trás, já a tentar arranjar canais de todas as maneiras, incluindo através de satélite. Depois já pensava que os cabos tinham sido ligados nos buracos errados. Andei com a lanterna do telemóvel a ver o que poderia trocar e também não vi que fosse por aí. 

O meu marido a tomar banho e a querer jantar a seguir, que já era tarde e eu ali naquela labuta, sem conseguir perceber como ver televisão nem atinar com nada aquilo.

Para grandes males, grandes remédios. Liguei à minha filha. Atendeu logo assim, voz de gozação: 'Então...? A televisão não funciona...?'. Claro. Adivinhou. Confessei: 'Não dá nada. Quando ligo, aparece na RTP 1 mas, quando quero mudar, não muda e começa a ir para sítios que não têm nada a ver.'. Pergunta ela: 'Mas, para mudar de canal, estás a usar o comando da box, certo?'

Errado.

Estava a usar o comando da televisão... Daaaaah...

Ou seja, pois claro, usando o comando da box, tudo joia. Nem sei o que me deu para me ter esquecido que para mudar de canal não é com o comando da TV mas da box... 

Estou a vê-la, fantástica. Mudo de canais que é um mimo. Ponho a box a andar para trás. Vou à Netflix. Essas coisas. Na boa. O pior que vejo a malta toda em ponto grande, excessivamente nítidos, quase como se estivessem aqui em casa. Nalguns casos, um horror. Por exemplo, claro que não consegui suportar o Portas nem o Marques Mendes, muita propaganda AD ao vivo e a cores para o meu gosto sensível.

Portanto, agora só falta encontrar uns parafusos à medida para a pôr na parede, e esperar que depois disso não surjam mais contratempos.

Claro que aparentemente a televisão faz tudo e mais alguma coisa, coisas que nem imagino o que sejam, e, pelos vistos, até obedece à voz. Obviamente, nem ouso. Receio as consequências. Imagine-se que lhe dou uma ordem verbal mal dada e que ela pega nela e, sozinha, sai porta fora... Não sei. Menina para isso. Estas coisas parece que têm vida própria.

Por isso, cinjo-me ao básico: usa-a para ver televisão. 

(E, ao dizer isto e ao pensar no que escrevi ao longo de todo este post, só me ocorre que, na volta, oh caraças, estou mas é a ficar velha. Será?)

Ainda vou mas é pôr-me para aqui a fazer experiências a ver onde é que isto me leva...

E, com isto tudo, agora já nem sei de que vos hei de falar mais.

Olhem, desejo-vos uma bela semana, a começar já nesta segunda-feira. Tudo de bom para vocês.

domingo, junho 02, 2024

Tempo de dúvidas, de perplexidades, de receios - apesar de também ser tempo de arraiais...

 

As aulas, não sei como, estão prestes a acabar. Parece que esta semana já vai ser a última semana de aulas. Não sei como é possível cumprir os programas com tão pouco tempo de aulas. Parece que é porque vão começar os exames. Mas uma coisa impede a outra? Ou não seria suposto que os exames fossem mais tarde para haver mais tempo para dar aulas sem ser a mata cavalos ou deixar parte do programa por dar?

Não percebo nada disto.

Independentemente disso, constato que já há arraiais e festejos típicos dos santos populares por todo o lado. Isto sendo que o primeiro santo, que eu saiba, só dará as caras no dia treze de Junho. 

Que não se veja crítica nisto. Sou totalmente a favor de convívios, festas populares, malta na rua a conviver e a festejar. Se há coisa que abre a mente e o coração às pessoas é o ambiente leve, alegre, de convivência e festejo. Música, canto, dança, petiscos, conversa, cor, luz. Tudo isto é meio caminho para que a felicidade entre na vida das pessoas.

Contudo, ao mesmo tempo, numa realidade paralela, chegam notícias que não são boas. Bem tento pensar que é coisa longínqua, coisa que não belisca a nossa liberdade, o nosso direito e a real possibilidade de fazermos o que nos apetece, mas, num canto de mim, temo que de escalada em escalada, um dia destes acordemos com uma notícia que nos deixe gelados de medo.

Ao contrário do que eu, antes de 2022, pensava, Putin continua a bombardear, a destruir e a matar, e ninguém consegue detê-lo. Se deixarmos cair a Ucrânia, estaremos a pactuar com o delírio imperialista de um psicopata (um não, vários) que resolveu reescrever a história, redefinir fronteiras, anular o direito à autodeterminação de um país. 

Contudo, à medida que o tempo passa sem que ninguém o consiga travar, ouvem-se as vozes dos que, tentando fazer-lhe frente, dão passos que podem servir ao ditador louco para dar ele um passo ainda mais tresloucado. E um dia podemos estar todos ensarilhados, num sarilho que não desejamos. Espanta-me que não haja quem consiga ter um ascendente sobre os malucos para chamá-los à razão, aconselhando-os a parar. Não há um líder que se erga e consiga apelar à razão os malucos que parecem tê-la perdido (neste caso, Putin e comparsas). Em Israel tenho esperança que Netanyahu vá de asa e que, a curto ou médio prazo, as coisas se componham. Entre a população na rua e um empurrãozinho da opinião mundial e dos States, acredito que o patife não se aguente muito mais tempo. Mas na Rússia parece que não se vê jeitos disso. Por isso, tenho receio que Yuval Noah Harari tenha razão ao temer que já estejamos a meio da 3ª Guerra Mundial. 

De facto, a estupidez humana é uma desgraça.

Stupidity: A powerful force in human history

Are we in the midst of World War III? What's the role of fiction in human evolution? Why do we tend to overconsume food?

Big or small, every detail in our behavior can be explained by looking at the past, from dietary choices to how we've used stories to advance. But if progress is narrative-driven, what comes next? 

In Yuval's extended Brief But Spectacular take (@YuvalNoahHarari) he speaks on humanity's superpower, the paradox of wisdom and the relationship between government and war. 


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De qualquer forma, tenho esperança que algum milagre aconteça e que voltemos a sentir que vivemos num lugar seguro, um lugar onde podemos ser felizes em liberdade

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Um feliz dia de domingo

sábado, junho 01, 2024

Férias num mundo muito meu

 

Muito calor, muito mesmo, mas, à sombra, está-se menos mal. E a partir das cinco ou seis da tarde, à sombra, num local em que sopre a aragem, está-me mesmo bem.

No outro dia, no supermercado, fui ver se encontrava uma cadeira levezinha e confortável para facilmente deslocá-la. As que tínhamos eram grandes, pesadas, pouco práticas apesar de terem rodinhas à frente. 

Estava já capaz de me vir embora a achar que não havia nenhuma que servisse quando o meu marido sugeriu uma que talvez não fosse má. Fiquei na dúvida, parecia que, em a gente se distraindo, a cadeira balouçaria para trás e facilmente iríamos com a cabeça ao chão. O meu marido sossegou-me, um ferro nas costas da dita, travaria. Não percebi lá muito bem mas talvez. Depois, numa lógica de investimento, custava trinta euros. Ou seja, mesmo que não fosse exactamente o que eu queria, também não seria prejuízo por aí além.

Pois bem. Não quero outra coisa. 

Se lhe der o dito balanço, ela tomba para trás, os pés levantam-se. E o dito ferro trava-a mesmo. 

Tenho lido que me tenho fartado só com a preguiça de me levantar dela. Melhor que a chaise-longue do Mies Van Der Rohe. E estou a falar a sério.

Li a Outra Biografia da Rita Lee e, tal como da anterior, gostei muito. Muito sincera. Dramaticamente sincera. E agora vou a meio da A família Caserta da Aurora Venturini. Tal como 'As Primas', é um bocado barra pesada mas é boa escrita, a gente vai pela mão dela e vai bem.

Mas a chaise é de tal ordem que fiquei a imaginar que, quando cá estiver o resto do pessoal, ao experimentarem a cadeira já não a vão largar. E eu? Ficava como? Por exemplo, já estou a ver a minha filha também a não querer sair de lá. Ou os netos, a darem balanço a ver se caem ou não. E eu, pelos filhos e netos, abnego. Claro que abnego. 

Mas... para quê abnegar...?

Portanto, teve que ser. Voltámos ao supermercado para trazer outra. Se calhar, até devia ter trazido mais. Mas, como pouco param sentados, acredito que a coisa vai ser gerível. Desta vez, o meu marido compreendeu a necessidade e a pertinência. Portanto, uma fica minha, só minha. E os demais que se revezem na segunda. Não quero saber, entendam-se. Só não mostro a fotografia da Der Rohe e não digo onde se compra para não parecer que estou armada em influencer. Mas posso dizer que, ainda por cima, é lindinha, verde-água, subtil. Um achado.

Tirando isso, tenho varrido, regado, cozinhado. 

Já fiz favas com entrecosto e chouriço-mouro, sardinhas assadas e chocos cozidos com tinta. Pode parecer pesado, e se calhar é, mas se for comido com conta peso e medida e acompanhado por salada, a coisa aligeira-se. Agora, quando cozo batatas, faço sempre com pele. Parto-as ao meio. Depois de prontas e escorrida a água (temperada com sal, bem entendido), tempero-as com azeite, orégãos, coentros picados e um toque de vinagre. Ficam mesmo boas. Como-as com pele e tudo.

Além disso, no supermercado, lembrei-me de procurar outra coisa. Vi-me grega para a achar. Ninguém sabia o que era nem ninguém fazia ideia de onde pudesse estar. Escusado será dizer que andar nestas expedições com o meu marido que, mal entra no supermercado, já fica deserto para de lá se pôr a milhas, é obra. Mas sou persistente. Dei com a coisa. 

Nunca tinha bebido, e gosto. Kombucha. Fresquinha, bem fresquinha. Faz lembrar cidra embora seja um bocado doce. Mas bebe-se bem. O meu marido também gostou.

No outro dia o meu filho também me levou uma novidade, um kefir de fruta. Não é de leite com fruta ou com sabor a fruta. Não, é mesmo uma bebida de fruta, como se fosse um sumo assim a modos que aguado. Quando bebi, ia dando um salto até ao tecto. Um gasoso fininho, daqueles que trepam, trepam e sobem que nem um foguete direito ao cérebro. E um sabor inexplicável. Fiquei assim: 'caraças, o que é isto!?' 

Mas o curioso é que, a cada dia que bebia, ia ficando a gostar mais. Portanto, também fiquei fã. 

A vida está cheia de novidades. A gente tem é que ser curiosa, estar receptiva ao que parece estranho, ousar, dar tempo.

Uma alegria.

sexta-feira, maio 31, 2024

Gostava de ser amiga dele. Gosto de pessoas assim.

 

Já esteve aqui algumas vezes pois tudo nele me agrada: é animado, é divertido, tem uma graça natural, é irreverente, mostra ser inteligente e informado. O seu jeito excessivo só o torna ainda mais engraçado. Parece ser daquelas pessoas espontâneas e genuínas que não deixa ninguém indiferente. 

Mas podia ser só excêntrico e, sob a capa da cor, do brilho e do glamour, não haver nada. Mas há. 

A sua infância e adolescência, como seria de prever, não foram fáceis e obrigaram-na a escolhas difíceis. Mas, pelo que se constata, a sua natureza é guerreira. Não se deixou vencer nem se tornou amargurado. 

Sendo como é, para além de ser, certamente, uma boa companhia, deve ser alguém com quem se aprende ou que nos deixa a pensar.

Sei bem que ao escrever isto haverá quem me ache fútil ou burra. Mas quem diz é quem é.

Milton Cunha relembra infância SEM ACEITAÇÃO por ser uma criança gay 

| Conversa com Bial | GNT

Milton Cunha foi o convidado do Conversa com Bial e relembrou sua infância em Belém e como seus pais não o compreendiam por ser uma criança gay. Ele também fala sobre a mudança para o Rio de Janeiro e como se encontrou no Carnaval.

quinta-feira, maio 30, 2024

Oferecem o que os outros já deram, vendem banha-da-cobra, apregoam jogo branco --
é a este Governo que o Dissolvente quer que a Oposição passe um cheque em branco

 

Prometeu um alívio fiscal de 1.500 milhões de euros e, quando concretizou, percebeu-se que, afinal, 1.200 e tal já tinham sido aliviados pelo Governo anterior.

Agora deu à Ucrânia 126 milhões de euros mas, vai-se a ver, e 100 já tinham sido dados pelo Costa.

Agora saiu-se à cena com um pacote de Saúde em que em parte já estava em curso, a outra parte é inexequível (porque não há médicos e enfermeiros no desemprego que eles possam ir contratar), outra é vaga e não se percebe como se concretiza e outra parece experimentalismo engendrado por amadores (por exemplo, a Linha da Grávida parece que é coisa que não existe em mais lado nenhum e que, pelos vistos, foi inventada sem a participação de ginecologistas ou obstretas). E a outra parte passa por passar o serviço para privados só que estão a esquecer-se que os privados também estão pelas costuras (pela mesmíssima razão de que não há médicos ou enfermeiros disponíveis).

E parece que nas bolas a sair do saco se inclui o recursos a médicos reformados. Está bem, está... Como aqui tenho dito, e conheço muitos, estão-se nas tintas para se maçar para o dinheiro que ganham ir todos para impostos. 

Só se a seguir se saírem à cena com mais um pacote fiscal para caçar médicos.

Cambada de amadores e embusteiros. Este Governo não presta mesmo. E quer o Marcelo que a oposição lhe passe já um cheque em branco... 

Por acaso era uma boa se a malta fosse votar em força nas europeias e desse um valente chega para lá neste embrulho que dá pelo nome de AD, neste chico-esperto do Montenegro, neste puto atoleimado e pesporrente que dá pelo nome de Bugalho e mostrasse ao Dissolvente que tem andado a brincar com o fogo pelo que, muito provavelmente, vai sair queimado.

O Dissolvente já aí anda outra vez a lançar a confusão...
Se queria tanto ter a prévia certeza da aprovação dos Orçamentos de Estado, porque é que dissolveu a Assembleia da República em que havia uma maioria absoluta?

 

Depois de meses a criar instabilidade política não falando noutra coisa senão na possibilidade de dissolver a AR, eis que o Dissolvente-Mor arranjou outro pretexto para começar a minar a opinião pública. Como sempre, tem como alvo preferencial o PS. Agora não se cala com a necessidade de se aprovar o próximo OE. Estamos em Maio, o OE deve ir a votação em Outubro e, com quase meio ano de antecedência, ele já não se cala.

Ainda o OE não está feito e já ele quer à viva força que os partidos (leia-se: o PS) o aprovem.

Alguém acha isto normal?

Eu não acho.

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Bem esteve André Ventura ao dizer que Marcelo andava com este Governo ao colo pois é um Governo, na prática, lá posto por ele.

quarta-feira, maio 29, 2024

Como se consegue a biodiversidade em harmonia e em pequena escala?

 

Ando cheia de pensamentos a propósito do meu jardim. É todo lindo, e lindo de uma maneira que nunca teria sido a minha. É como em tudo. Gosto de pinturas claras, quase transparentes, silenciosas, abstractas para além da conta. Mas, se ponho a pintar, parece que toda a (muita) cor que tenho dentro de mim, todo o (muito) movimento que tenho dentro de mim saem como numa enxurrada. Fica um tal excesso que em nada tem a ver com o que gosto de ter nas paredes. Nos jardins, olho para o meu, quase minimalista e adoro. Mas sei, sei bem, que, se tivesse sido eu a concebê-lo, teria plantado tudo em maior quantidade variedade, mais flores, maior exuberância.

Mas aquilo que eu teria feito seria mais fácil de manter pois gosto da rebeldia inerente à natureza, gosto que as coisas cresçam, se misturem. Em contrapartida, um relvado tem que ser muito regado, muito aparado. Uma trabalheira.

Já deixei crescer a sebe que bordeja o muro, e ela cresce e floresce que é um gosto. A antiga proprietária, ao vê-la, abre a boca de espanto. Durante vinte anos nunca conseguiu que ela crescesse. Agora não para de crescer. Penso que percebe que está à solta, em liberdade. O jardim está perfumado que dá gosto. E há passarinhos por todo o lado. As buganvílias também transbordam de flores que atraem abelhas, borboletas, pássaros. Os jasmins não conseguem conter-se. Crescem e deitam hastes floridas por todo o lado. As roseiras sobre os portões estão exuberantes, quase excessivas de tão carregadas que estão de mil rosinhas, lindas, lindas. 

O meu marido olha e acha que deve ser tudo aparado, cortado, contido. Diz que qualquer dia não vamos dar conta. Eu acho que cortar nem pensar. Logo agora que está um jardim mais lindo que eu nem consigo deixar de olhar.

O pior é mesmo a relva. Tenho vontade de deixar de aparar. Em parte já há ervinhas, florzinhas. O meu marido acha que não pode ser. E eu penso que tem que ser. Mas compreendo que, se calhar, tem que haver um meio termo. Não posso ter uma seara em vez de um relvado. Talvez possa haver musgo, trevinho, florzinhas, verdurinha miúda que se possa pisar e onde nos possamos deitar em cima como nos deitamos na relva. Mas ainda não percebi qual o ponto de equilíbrio e como é que lá se chega.

O meu filho no outro dia também me falou em ter um jardim sustentável. Não sei se foi essa a palavra que usou mas acho que foi essa a ideia. Também me falou em horta mas para isso não temos paciência. Não somos muito de andar a cavar e a arrancar ervinhas à volta, a afastar lagartas e caracóis. Acho eu. Pelo menos ainda não estou nessa fase (e o meu marido ainda menos).

Mas, portanto, por isto e por aquilo, tenho andado a ver uns vídeos. Este é apenas um deles.

Building Biodiversity in Central Park with Lisa


terça-feira, maio 28, 2024

Sem palavras
Ao cuidado do João Oliveira e de todos quantos, como ele, ainda não perceberem quem é que está a fazer a guerra

 

10-year-old boy describes missile attack that killed his parents


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Sim, eu sei, Israel está a portar-se também de forma criminosa, e escrevo criminosa com todas as letras, sim, eu sei, o que Israel está a fazer não se faz. 

Mas uma coisa não desculpa outra. A Rússia, apenas pela psicopatia de um imperialista narcisista, invadiu a Ucrânia para a anexar com a ideia megalómana de reconstituir, aos poucos, a antiga URSS ou, pelo menos, as partes que dela lhe interessam.

Israel não se tem portado bem, é certo, aliás, nada, nada bem, ninguém o contesta pois crimes de guerra são crimes de guerra e a dimensão do que está em curso ainda mais o empola, mas, não o esqueçamos, neste caso está a reagir a um bárbaro atentado levado a cabo por terroristas fanáticos que ainda mantêm um conjunto de reféns civis, inocentes. A reacção é bárbara, desproporcionada, indesculpável -- é um facto. 

Mas ao passo que a Ucrânia é um Estado de direito e a Rússia não teve qualquer pretexto para fazer o que continua a fazer, no caso da Palestina e de Israel não apenas o Hamas deu a Israel um pretexto como há uma situação histórica, religiosa, civilizacional que está longe de estar assimilada. Basear a constituição de países, de Estados de direito, em religiões não sei se será uma solução inteligente. Pelo menos, até ver, ainda não se conseguiu que resultasse. 

Claro que poderá sempre invocar-se que, por detrás do que se vê, há sempre equilíbrios geo-estratégicos, desequilíbrios e tentativas de reequilíbrios políticos, tudo isso. Mas só facínoras obtusos podem levar adiante crimes hediondos em que se violam leis internacionais e se mata indiscriminadamente em nome de estratégias fantasmagóricas. 

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Sobre a putativa borla fiscal que os cromos das Finanças da AD (com o Montenegro pela trela) querem dar a quem tem menos que 35 anos, aqui estão mais umas singelas observações

 

Para não sei quantos milhões de contribuintes (sejam eles trabalhadores no activo ou pensionistas) os 'artistas' da AD, afinal, têm apenas trezentos mil euros de alívio fiscal para oferecer.

Contudo, ficámos a semana passada a saber, para um pequeno grupo, os cerca de quatrocentos mil que têm até 35 anos, os totós das Finanças da AD têm, imagine-se!, mil milhões de euros de alívio fiscal.

Coisa mais iníqua e estúpida não pode haver.

Supostamente é para atrair e reter jovens até aos 35 anos. 

Mas, pergunto eu, passa pela cabeça de alguém que uma pessoa com trinta e tal anos e a ganhar bem no estrangeiro, muda a sua vida para Portugal, com o transtorno que isso provoca, para, passado um ou dois anos (quando fizer 36 anos), sofrer um agravamento fiscal de 30%? Os totós das Finanças não percebem que os ordenados em Portugal são, em média, mais baixos do que em vários outros países? Portanto, os jovens, segundo os totós das Finanças da AD, vêm para Portugal ganhar menos porque vão ter uma borla fiscal... E quando fizerem 36 anos? É que a borla fiscal nos ordenados da ordem dos 5.000€ (valor que, em certos países da Europa não são nada por aí além), só em IRS, é da ordem dos 30%. Portanto, quando fizerem 36 anos, azarinho, vão ser alvo do mesmo esbulho fiscal que os que têm mais que 36.

É que a medida e toda estúpida, toda. De uma ponta a outra. Os totós das Finanças da AD não percebem que o devem fazer é baixar globalmente todos os impostos? 

No Expresso, cingem-se ao absurdo de que a borla, só em IRS (ou seja, não contando com a borla, que também terão, em IMT e Imposto de Selo quando comprarem casa), pode chegar aos 19.000 €/ano (Jovens mais “ricos” podem poupar até 19 mil euros por ano no IRS).

Descontos no IRS não discriminam: salário milionário ou baixo, todos os jovens beneficiam. Quem está no último escalão de IRS enfrenta a taxa marginal máxima de 48% mas beneficia dos descontos nos escalões inferiores. Desportistas, ‘influencers’, consultores fiscais, advogados, engenheiros, jornalistas, pilotos, todos estão são abrangidos pelo alívio proposto pelo Governo aos jovens (...)

É chocante, não é? Já o tinha abordado aqui e aqui  (post escritos na sequência deste outro).

Claro que é chocante. Mas é estúpida por mais razões do que apenas essa. É estúpida e iníqua até porque a política fiscal não deve desonerar uns por sobrecarga de outros. Quando há cidadãos a pagar acima de 40% de IRS (podendo chegar aos 48%) e não há 'folga orçamental' para descer para uma percentagem menos onerosa mas há para descer para outros, é porque os primeiros estão a financiar os segundos.

E é estúpida porque não vai resolver o problema do País. Não vai resolver um único problema do País. Para reter jovens ou para atrair jovens qualificados é preciso que os salários subam, é preciso que (todos) os impostos baixem, é preciso que haja mais creches gratuitas ou a baixo custo, é preciso que haja mais médicos de família, é preciso que haja horários mais flexíveis para quem tem filhos pequenos.

Além disso, segundo fiquei hoje a saber o Governo PS já tinha medidas para fixar jovens, uma das quais bastante inteligente.

Mais de 158 mil jovens recém-formados já se candidataram ao prémio salarial de valorização das qualificações, que se traduz no pagamento de um apoio entre os 697 e os 1500 euros anuais a quem fica a trabalhar em Portugal.

Será que os totós da AD sabem desta medida? Se calhar não.

Só espero, e espero mesmo veementemente, que a oposição decente se una e em peso não deixe passar esta barracada da borla fiscal.

Enfim, uma desgraça. Depois do totó-mor andar a clamar contra as contas que encontrou, a falar em caos e colapso (mostrando que, das duas uma, ou não percebe nada da área que tutela ou não tem vergonha na cara e mente com quantos dentes tem), agora esqueceu-se disso e adoptou a política da perna-aberta. Quem quiser alguma coisinha, tem dele tudo o que quiser. Ele dá até mais do que pedem. Dá sem fazer contas. Agora parece estar numa de 'quem vier atrás que feche a porta'.

Claro que grande parte da comunicação social e das comentadeiras de serviço (de todos os sexos) ou não tem capacidade para perceber as coisas ou está ali para fazer o frete e não denuncia isto com todas as letras. Portanto, contra toda a racionalidade e lógica, continuo a ouvir elogiar o lindo serviço que este governo tem andado a fazer. Isto quando na prática pouco tem feito e o que tem tentado fazer é mais m... do que outra coisa. 

Pardon my french.