terça-feira, janeiro 25, 2022

Too funky: a sensualidade feérica de Thierry Mugler e de George Michael

 

Apesar de não ser utilizadora nem grande conhecedora de alta costura, aprecio a arte seja sob que forma ela se manifeste. 

Na moda há os perfeccionistas, os impecáveis. Armani é um desses. O tecido, o corte, a confecção. Tudo perfeito. O meu fato de calças e blaser Armani tem vários anos e mantém-se perfeito. É intemporal, elegante e não passa de moda. Qualquer mulher fica bem com um fato Armani.

Mas depois há os outros, os que arriscam, os que não seguem padrões, os que desenham à mão livre, os que materializam sonhos ou loucuras. Também não passam de moda, também são belos para sempre. Mas não ficam bem a todas as mulheres. Provavelmente só podem ser vestidos por algumas mulheres, por poucas mulheres.

Thierry Mugler, que morreu esta segunda-feira aos 73 anos, foi dessas criaturas tocadas pelo génio. Talvez por isso tenha colaborado nos magníficos figurinos do Cirque du Soleil. Talvez também por isso pessoas como David Bowie, Diana Ross, Beyoncé, Demi Moore, Lady Gaga, George Michael ou Madonna gostavam de ser vestidas por ele. 

São icónicas as imagens de  Jerry Hall, Eva Herzigova, Nadja Auermann, Claudia Schiffer, Gisele Bündchen, Linda Evangelista, Tyra Banks e outras desfilando ou fazendo-se fotografar com as suas belíssimas criações. 

Também entrou no mercado dos perfumes e aí já não sou tão apreciadora. Angel e Alien são bons perfumes mas, para o meu gosto, ao fim de algum tempo na pele parece que lhes noto um toque algo doce, algo oriental e isso não combina comigo. Em mim, o perfume tem que ser íntimo, floral, cítrico, fresco. Nem quente, nem doce.

Estava agora afastado da moda. Devido a acidentes, ficou com o rosto desfigurado que as cirurgias não retocaram completamente. Na verdade, parecia uma tosca caricatura do que tinha sido. Mas continuou a cuidar do corpo que queria esculpido. 

E deixou de usar o segundo nome, Thierry, e passou a usar o primeiro, Manfred. Não faço ideia qual a vida que agora levava tal como não faço ideia de que morreu. Segundo a informação divulgada, morreu de causas naturais. Não sei o que seja isso mas, para o caso, também não interessa. 

Não faz sentido dizer que é uma perda irreparável ou que não haverá outro igual pois, de uma maneira ou de outra, mais depressa ou mais devagar, tudo e todos somos perecíveis. Haverá sempre alguém que aparece e que também é genial e que deslumbrará os seus contemporâneos e os que um dia conheceram os que em tempos foram magníficos também irão desaparecendo. Os melhores dos melhores deixarão de ser uma memória para passarem a ser um nome, uma marca e ficarão algumas das suas criações. É sabido: vão-se os criadores, ficam as criações. Algumas ganham honras de peças de colecção com direito a exposição como a retrospectiva  Thierry Mugler - Couturissime que está no Musée des Arts Décoratifs de Paris, de 30 de Setembro de 2021 até 24 de Abril deste ano.


O vídeo que aqui partilho tem muitos anos e junta Thierry Mugler e George Michael (que morreu há já 6 anos). É um vídeo feérico, sedutor, sensual. Sendo ambos assumidamente gay, é fascinante a forma como souberam amar, compreender e louvar as mulheres.

I gotta get inside of you
And I'll show you heaven if you let me
I'd love to see you naked baby
I'd like to think that sometime maybe
Tonight, if that's alright. Yeah!

I'm gonna be the kind of lover that you never had)
Hey you're just too funky
(You're never gonna have another lover in your bed)
You're just too funky for me

(Would you like me to seduce you, is that what you're trying to tell me?)
(Everybody wants a lover like that)
Baby



Would you like me to seduce you?
_______________________________________________________

E, enquanto há vida, 
que viva a criatividade, a beleza, a exuberância da aventura e da descoberta e o amor pela vida 

_______________________________________________________

Uma terça-feira muito feliz

segunda-feira, janeiro 24, 2022

Passear em Lisboa, ao Chiado
[Com reportagem fotográfica]

E dúvidas sobre como funciona e a quem ataca este Omicron

 



Dormi que me fartei. Quando acordei e vi as horas nem queria acreditar. 

Para não acordar com notificações, tinha retirado os dados do telemóvel. Ao repô-los, uma boa notícia. Em casa da minha filha, todos negativos, excepto o menino que desde a outra semana tinha sido diagnosticado com covid. 

Em simultâneo com o alívio pelas boas notícias, o espanto. O menino, durante essa semana, antes de saber que estava infectado, tinha-se queixado com dores nas costas. Nada de mais. A mãe pensou que seria da mochila pesada. Depois, levemente constipado. Normal. Enquanto isso, sempre na brincadeira e às lutas, ele e o irmão inseparáveis, sempre em cima um do outro. Para além disso, dormem no mesmo quarto, em beliche. E, também para além disso, é super chegado à mãe, andam sempre abraçados e no mimo.  

Porque na turma do menino um dos professores tinha testado positivo, na quinta-feira fez o teste. Na sexta-feira, o menino já estava constipado mas nada de mais. E ele e o irmão em cima um do outro no sofá. No sábado veio o veredicto: positivo. 

Toda a gente pensou que lá em casa seria inevitável que estivessem todos infectados. 

Entretanto, o menino ficou apanhado, com dores de cabeça, muito constipado. Ficou no quarto e o irmão acampou na sala. No dia seguinte, o campista também já estava apanhadíssimo. Espirrava, assoava-se em contínuo. Murcho, enrolado em mantas no sofá, atacado. Lenços e lenços molhados. Não estranhámos. O contrário é que seria de espantar. 

Contudo, ao fazerem testes, os coabitantes, incluindo este outro que já estava doente, a surpresa: negativos. Pensou-se: ainda não estavam com carga viral suficiente. 

Repetiram ao 7º dia. Este resultado que chegou agora: negativos.

No entanto, o menino que comprovadamente teve, continua positivo. Os outros, incluindo o irmão que tão apanhado esteve, nada. Não se percebe. 

Quais os mecanismos de contágio? Sendo esta variante tão contagiosa, como não contagiou quem estava ao lado, em cima, a respirar o mesmo ar?

E o que significa isto: se não foram contagiados, significa isso que são imunes? Podem andar à vontade? Ou o quê?

Se alguém aí desse lado consegue explicar estes fenómenos, muito agradeceria que me explicasse.

Entretanto, do lado do meu filho, os primeiros testes também deram todos negativos (excepto o menino que está positivo). Irão repetir o teste dentro de dias mas, a manterem-se, repetir-se-á o espanto pois os irmãos também andam permanentemente em cima e agarrados uns aos outros. Aliás, os dois rapazes também dormem no mesmo quarto. 

Obviamente fico satisfeita (e descansada) mas, ao mesmo tempo, fico intrigada. 

O que eu gostava mesmo era que se pudesse concluir que, quando em circunstâncias de absoluto contacto, as pessoas não ficam infectadas é porque geneticamente têm características que as tornam imunes. Ou, então, que já tiveram covid sem o saberem e ficaram fortemente imunizados.


Covid à parte, como só por volta das sete iríamos deixar umas coisas a casa do meu filho, nomeadamente um empadão para o jantar deles, ao início da tarde resolvemos rumar ao centro da cidade, mais concretamente ao local em que Lisboa é mais Lisboa: a zona do Chiado, a zona a que sempre me apetece voltar.

Deixámos o carro na 24 de Julho e fomos a pé. Subimos a Rua do Alecrim, descemos a Garrett, fui à Fnac, fui à Bertrand, fotografei, cirandei.


Gosto muito de ver e fotografar pessoas. Tal como acontece em todas as grandes cidades, há várias Lisboas. Mas é desta Lisboa urbana, cosmopolita, aberta e inclusiva que eu mais gosto.

Quando, há mil anos, comecei a andar sozinha em Lisboa, era por aqui que eu gostava de andar: pelas livrarias, pelos alfarrabistas, entre estrangeiros. 

Acontecia, por vezes, dirigirem-se-me em inglês ou francês, convencidos que eu própria era estrangeira. E é sempre assim que aqui me sinto: estrangeira, turista, viajante de primeira viagem, deslumbrada com tudo o que vejo, integrada no apetecível desconhecido.


A luz, o movimento, as cores, a decoração das montras, o vidro das montras que funciona como espelho, as casas e as pessoas que aí se reflectem e a música de quem canta na rua -- tudo me agrada.


As minhas memórias tão presentes, o rio lá em baixo e o casario, os candeeiros, os passeios, as árvores, as vozes de quem passa conversando -- tudo me encanta. Por mil vezes que por aqui passe, sempre me encantarei.


Como tantas me acontece, apeteceu-me fazer a reportagem completa: fotografar, entrevistar quem passa -- quem são, onde vivem, o que fazem, o que pensam, o que as preocupa, o que as anima, de que gostam, o que gostariam de me contar. 

Será que um dia vou ter coragem para fazê-lo? 

Como reagiriam as pessoas se me abeirasse delas e lhes pedisse autorização para as filmar enquanto conversasse com elas...? Seriam compreensivas, achariam piada?


Poderia ter um blog assim, apenas com reportagens, apontamentos, a voz dos outros em discurso directo. Tentaria arranjar algumas perguntas que os deixassem desarmados, disponíveis para conversar. Tentaria que eles próprios me dessem ideias para novas perguntas, para novas reportagens. Pedir-lhes-ia conselhos. Ouvi-los-ia.


Este domingo fiz, pois, muitas fotografias. Agora ao escolher algumas, deixei muitas de lado. Por exemplo, tinha pensado fazer um post só com montras e, por isso, fotografei muitas. Há uma elegância muito lisboeta, muito bcbg nestas montras. Mas ficarão para outro post. 

Contudo, houve uma das que deixei de lado que não tem a ver com montras e que me deixou com pena por não a usar. Tinha visto um casal bonito, elegante, numa posição de proximidade que me pareceu sugestiva: fotografei-os pensando que iria ser uma boa fotografia.

Contudo, agora ao tê-las passado para o computador e ao vê-la fiquei com a sensação de que se trata de um casal clandestino. Há ali qualquer coisa de misterioso, de cúmplice e, ao mesmo tempo, de fugaz. Mais: olhando melhor, fico com a sensação que o homem está, na verdade, a desculpar-se ou a tentar convencer a mulher -- e que ela resiste. Fiz zoom e parece-me perceber nela alguma mágoa, algum cepticismo.

Por tudo isto, essa fotografia não está aqui. Mas, em torno dessa fotografia, eu gostaria de contar uma história.

Mostro outras. Em algumas veem-se os rostos. Como sempre, se algumas das pessoas aqui retratadas não quiser aqui estar, bastará que mo diga que logo retirarei a respectiva fotografia.


Entretanto, o nosso cão-pastor, nascido num monte do Alentejo profundo, gostou do passeio pelo Chiado. Entre tantas pessoas e carros e um movimento e ruído a que aqui ou no campo não está habituado, portou-se às mil maravilhas. 

O mesmo não posso dizer do seu dono que se queixa das minhas paragens e do muito tempo em que fico perdida dentro das livrarias. Desculpa-se com o urso cabeludo, diz que é ele que fica inquieto quando eu fico para trás ou quando entro numa loja e não reapareço de seguida. Mas não é: é ele que não tem paciência para andar devagar ou para ficar parado a olhar coisas que, segundo ele, já vi e fotografei mil vezes. 

Mas é assim mesmo: nem ele nem eu vamos mudar... E enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar.

___________________________

Desejo-vos uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira

Alegria. Bons ares. Bons passeios. Boa disposição. Coragem para ir em frente.

domingo, janeiro 23, 2022

Que dizer deste sábado?

 


Há pouco, depois de jantarmos, ao sentar-me aqui, adormeci. E não estou a conseguir pôr a máquina em funcionamento. Um sono... Vou tentar mas não sei se isto vai dar a algum sítio.

Let's go. Let's see. Se não for dar a lado nenhum, por favor, relevem.

De manhã fomos buscar a minha mãe e fomos passear com ela à beira mar. Ali o piso é plano, o pavimento bom -- e isso é fundamental pois tem andado com uma dorzinha numa perna --, há sol, bom ar, boas vistas, gente com ar despreocupado, crianças a brincar. Sabe bem andar ali. 

[Isto não está fácil... Debato-me... Ao fim de semana o meu corpo pede algum descanso mas hoje não havia margem para me levantar mais tarde. Por isso, acordei com despertador e vi logo que ia passar o dia a sentir que precisava de descansar. E eu, certamente padecente de alguma debilidade mental, em vez de ir dormir, estou nisto...]

O little teddy bear fica numa alegria com a minha mãe, tal como ela o fica com ele. Amor mútuo. Tirei-lhes fotografias à beira-mar. Já lhe mandei. Agora que tem o tablet e que se habituou a receber mails, já é outra coisa. 

Enquanto passeávamos, contou-me que não tem paciência para ver debates ou o que quer que seja relacionado com a campanha. Diz que não consegue ver 'aquela gente' que, em vez de se mostrar agradecida com a forma como este governo tem conseguido gerido o país debaixo desta pandemia, nem falam nisso e só sabem é dizer mal. 'Como se eles alguma vez fossem capazes de fazer a mesma coisa...' e acrescenta com ar de desprezo: 'Estúpidos...'. Dou-lhe razão.

Depois fomos ao supermercado. Fui sozinha pois o meu marido ficou a passear no parque de estacionamento com o cabeludo que, segundo ele, ficou muito intrigado ao ver-me ir sozinha lá para dentro.

No outro dia, uma das pessoas mais entendidas nesta raça, alertou: 'Têm que ter mão nele pois é um cão áspero'. A conversa era com o meu marido e ele pediu que ela explicasse. Que é teimoso, possessivo, territorial, que quer ser o pastor, o macho alfa da matilha. Se não lhe mostrarmos que somos nós que mandamos iremos ter problemas. De facto, é isso tudo. 

Mas converso com ele e ele entende-me. No outro dia, ao caminharmos, ia só a querer arrancar a luva que o meu marido levava calçada. Punha-se de pé, dava saltos, apanhava-lhe a luva. O meu marido já estava passado com aquele desassossego. Quanto mais se zangava, mais ele o desafiava. Ia com trela curta mas tentava morder a trela. Um desacato. Eu parei e disse-lhe muito calmamente: 'Queres ir-te embora? Se não te portas bem, vais para casa. Porta-te bem. Vai no chão'. Ouviu-me atentamente, sacudiu a cabeça e, a partir daí, foi a andar tranquilamente. 

Se subo até ao piso de cima ele vem comigo e fica a ver o que vou fazer. Eu digo-lhe o que vou fazer e digo para ele esperar um bocadinho. Ele senta-se e fica à espera. Quando me despacho, digo-lhe: Vá, já está, vamos embora' e ele vem comigo para baixo. Quando apanha alguma porcaria na rua e não a quer largar, antes tentávamos e ele rosnava. Agora dizemos: 'Queres um biscoitinho?'. e ele imediatamente larga o que tem na boca. O pior mesmo é quando ao fim do dia tem um pico de energia que custa conter. Quer brincar, mordisca-me o braço para eu brincar com ele, quer saltar para o sofá para tentar arrancar-me o travessão que tenho a prender o cabelo, poe a patorra peluda no computador. É uma luta. Tenho que ter uma boa dose de biscoitinhos. Digo: 'Senta' e mostro um biscoitinho. Recua, senta-se e fica à espera. Segundos depois volta a fazer o mesmo. E eu faço o mesmo. Ao fim de umas quantas vezes já nem digo nada que ele se senta quieto só de imaginar que o vou mandar sentar.

Depois de almoço, já era tarde, comecei a cozinhar. 

Enquanto as carnes cozinhavam, fui para o jardim, para um recanto em que dá o sol. Levei o livro. O bicho foi comigo. Começou por querer festa mas eu estava a querer estar sossegada. Lá percebeu e deitou-se a roer uma pinha aos meus pés. Adoro estar assim, sentada ao sol, a ler, o meu amigo ao meu lado. Vou lendo devagar, parando em frases que me deixam encantada. Continuo a maravilhar-me com a harmonia e inteligência de algumas combinações de palavras. Vou dobrando as pontinhas das folhas que contêm qualquer coisa especial. Mas são tantas. A ver se um dia tenho energia para aqui partilhar algumas convosco.

O meu marido aproveitou para se deitar no sofá a ver qualquer coisa. Ou seja, a dormir.

A seguir fui terminar o cozinhado, levar o tabuleiro ao forno, arranjar as coisas, lavar a louça, arrumar a cozinha.

Depois, vesti-me para sair. Com o forno desligado, fomos fazer uma brevíssima, ultra-brevíssima caminhada, e regressámos.

E saímos. Já passava das sete e era de noite. Um friozinho muito cortante. À noite a temperatura cai. A casa arrefece durante a noite. Acho que a caldeira deve ficar ligada durante a noite. O meu marido não concorda. Não gosta de ir dormir e deixá-la a funcionar. 

Quanto à maltinha... nada de original. Estão todos confinados, nas respectivas casas. A Omicron está a varrer as salas de aula a uma velocidade estonteante.

Este sábado fomos a casa da minha filha. Um dos meninos está positivo. 

Este domingo iremos fazer a mesma coisa em relação ao meu filho. Um dos meninos também está positivo.

Não entramos. Eles do lado de dentro, de máscara, nós do lado de fora, de máscara. Só deixarmos umas coisas, vermo-nos. O dog doido, a puxar, quase a estrangular-se de tanto puxar. Gosta tanto deles e não o deixamos ir para a farrinha do costume. Percebo-o. Também me apetece abraçá-los, dar-lhes beijinhos. 

Estão bem. Um deles esteve como se estivesse com gripe mas já passou. O outro, nada. Os irmãos e pais parece que nada. A ver o que dão os testes. Mas felizmente, até ver (e, noc-noc-noc, já bati três vezes na madeira) estão bem. 

Mas, já agora, contenho-me. Aliás, o meu marido obriga-me a conter-me. Não apenas puxa pela trela do urso felpudo como pela minha.

Depois regressámos. 

Mais algumas coisas para fazer. Acabámos de jantar por volta das dez. 

E, ao aterrar aqui, como já o disse, adormeci profundamente. De vez em quando, a minha cabeça põe o interruptor para baixo. Off.

Acordei com frio e sem conseguir pôr os neurónios a laborar. 

Tinha fotografias do passeio de domingo passado e do campo na quinta-feira mas não consigo energia para as passar para o computador. Por isso, preguiçosamente, vou usar fotografias aqui do jardim, já feitas no outro dia.

E, como é bom de ver, não vi televisão nem faço ideia se o Rendeiro ainda está com febre, se o Rio já não está a deitar sangue pelo nariz ou se as sonsas do Bloco e os marafados do PCP continuam focados em dizer mal do PS, fazendo tudo para abrirem a porta à direita. Por isso,  sobre essas matérias, nada poderei dizer. 


O que posso dizer é que estamos já com um pé na primavera. Aliás, mais do que isso: a minha cabeça também já está na primavera. E á só me apetece é dias a ficarem grandes, sol a ficar quente e, tomara, daqui a nada o jardim e a casa a ficarem cheios de crianças, de risos e com todos à volta da mesma mesa. Só não sei é se isso será na primavera ou só no verão. Mas qualquer dia estamos lá. Na boa.

_____________________________

Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, janeiro 22, 2022

Votómetro do Observador: treta? manipulação? chico-espertice?

 

Mais uma reconfissão. No carro, depois das 19, é na Antena 3 que gosto de vir. Sou fãzaça do Alvim. Acho-o um daqueles malucos inofensivos que trazem alegria às nossas vidas. Vir a ouvir o Prova Oral era daquelas coisas boas quando diariamente vinha do trabalho depois dessa hora. Claro que tinha os telefonemas à família mas geralmente arranjava maneira de me divertir um bocado com o Fernando Alvim.

Esta quinta-feira calhou, ao virmos do campo, passar das 19. Portanto, claro que ali nos posicionámos. Tinha faltado a convidada, covid oblige, e, portanto, o programa foi de tema livre. Quando isso acontece é do melhor que há. As pessoas ligam para lá e falam do que querem. E querem tudo. Piadas, provocações, desafios -- aparece de tudo. Por vezes é maluqueira atrás de maluqueira. Outras vezes, no meio daquilo, alguém liga para falar a sério. E isso ainda me dá mais vontade de rir. 

Mas isto para dizer que, já nem sei a propósito de quê, alguém disse que tinha experimentado responder 'neutro' em relação a todas as perguntas do Votómetro do Observador e que a conclusão tinha sido que aquilo era uma tanga, que lhe tinha dado que o partido com o qual tinha mais afinidade era o Chega e, logo a seguir, o PSD. Achei curioso. Ainda percebo que uma pessoa que não tenha opinião sobre nada, às tantas, vote no Chega. Mas... o PSD em 2º lugar....? Hummm....

E então tocou uma campainha. A mim tinha-me dado o PS com 80% de afinidade e, inesperadamente, a seguir o PSD. Tinha achado aquilo um puro nonsense mas, num esforço de compreensão, até poderia perceber porquê.

Para já, as perguntas daquilo são simplistas e, algumas, parvas. Por exemplo, eu defendo em absoluto o SNS e a Educação Pública. Contudo, para os melhorar, não acho que a solução seja despejar-lhes em cima mais dinheiro. Acho que o que faz mais falta é reorientação, reorganização, simplificação, revisão de processos e procedimentos. Portanto, à pergunta: "A despesa pública em educação e saúde deve ser aumentada?" eu respondo que não. É que a pergunta é estúpida e destinada a enviesar resultados. A pergunta correcta deveria ser: "A educação e a saúde públicas devem continuar a ser uma prioridade?" E aí eu responderia que sem dúvida que sim.

Ou seja, provavelmente a minha resposta é usada pelo algoritmo para me aproximar do PSD quando isso é errado. Mas, enfim, se consigo identificar quais as minhas respostas que, por deficiente e enviesada formulação das perguntas, foram usadas para isso, já não consigo perceber que uma pessoa que responda 'neutro' a todas as perguntas tenha também o PSD como 2ª opção, o CDS em 3º e a IL em 4º.

Fiz outra experiência: à vez, escolhi como resposta 'neutro' e 'sem opinião'. Pois bem. Qual a conclusão do Votómetro do Observador? 

Aqui está.


 Ou seja, mais uma vez Chega, CDS, PSD e IL nos quatro primeiros lugares.

A seguir troquei: onde antes tinha escolhido 'neutro', agora escolhi 'sem opinião' e vice-versa. Conclusão...? Ora adivinhem...

Cá está. Novamente os mesmos partidos nos 4 primeiros lugares: PSD, CDS, IL e Chega.

O que concluo é que o algoritmo está viciado, tentando indiciar opções de voto puxadas à linha editorial do Observador. Se isso for mesmo assim, será manipulação pura (para ser branda no que digo). E o Observador, ao albergar tretas destas, perde ainda mais a cara como imprensa de confiança. Mostra-se à descarada como uma agremiação de direitolas, de farsolas, de chicos-espertos sem dois dedos de testa. 

Mas uma coisa é o que eu, leiga na matéria, concluo. Mas deve haver maneira de validar isto.

Não sei quem deverá zelar pelo rigor das supostas ferramentas de apoio à decisão na escolha da opção de voto divulgadas pelos órgãos de comunicação social mas alguma deve haver e, havendo, deverá agir atempadamente: auditar, validar e, se for mesmo treta, denunciar e proibir.

___________________________

sexta-feira, janeiro 21, 2022

Outfit recomendado para que nos dias muito frios fiquemos hot para caraças

 



Não sei se já aqui o confessei mas, pelo sim pelo não, aqui fica a confissão: tenho coisas que irritam um bocado os mais pragmáticos. Por exemplo, em algumas situações -- aliás: em frequentes situações -- entre a estética e o conforto, opto pela estética.

Dou um exemplo: a casa in heaven, apesar de ter paredes que, numa parte da casa, excedem o metro de espessura e, na outra, são duplas e supostamente energeticamente eficientes, no inverno é um gelo. Está numa zona desabrigada e em que as temperaturas são extremadas. Quer nos dias muito frios quer nos dias muito quentes, ali as amplitudes térmicas são sempre destemperadas.

Acresce que, não sendo, na maior parte do ano, uma casa habitada diariamente, se arrefece durante a noite e não está lá ninguém durante o dia para fazer entrar o sol, quando chegamos, o frio penetra-nos até à medula.

Ainda ontem. Fomos trabalhar para lá. Um frio, um frio de rachar. Frio, frio, frio.

Pois bem. Temos uma lareira na sala maior, que é simultaneamente de estar e jantar, e temos uma salamandra numa das salas mais pequenas, aquela em que vemos televisão. Mas o resto da casa não tem nada. Colocar caldeiras, obrigaria a abrir as paredes para passar tubagens. Fora de questão. Por isso, durante anos, a família queria pôr ar condicionado. Recusei-me. Não conseguia conceber o desconchavo de ali ter aparelhos na parede, quer dentro quer fora. Pareceia-me esteticamente aberrante. Durante anos esta luta.

Até que este ano cedi. Pusemos na cozinha, que é grande e onde frequentemente tomamos as refeições, pusemos na sala grande e na sala da televisão. 

São aparelhos discretos, ficam num canto, e a bem dizer a gente nem dá por eles. E o conforto daquilo é uma coisa fantástica. Apesar disso, estando lá só um dia, apesar de ligarmos os três aparelhos não dá tempo a que o resto da casa aqueça. Saímos ontem de lá meio enregelados apesar de completamente encasacados. 

Pois hoje, ao folhear à hora de almoço alguns onlines, chego também à conclusão que, tal como levei anos a perceber que devia pôr ar condicionado em casa, também provavelmente tenho enganada quanto ao vestuário adequado. 

Ou seja, vi hoje que a milionaríssima modelo Kendall Jenner se desloca na neve com um reduzido biquini e umas botas quentinhas. E parece que está bem disposta e bem encarada. Olha-se e não se percebe que esteja a bater o dente. Na volta, o segredo para combater o frio está nos pés. 

Mas, curiosamente, parece que não é caso inédito. Já a fogosa Dua Lipa se tinha mostrado ao mundo dessa maneira. 

E vi que Nabilla Vergara, uma daquelas influencers de que nunca tinha ouvido falar e que faz parte do grupo dos excêntricos gurus dos novos tempos, também já se tinha feito fotografar nesses mesmos curiosos preparos.

Portanto, quem esteja aí desse lado a ler-me cheio de casacos e mantinhas, toca a largar tudo isso. Façam o favor de seguir o exemplo destas meninas. E depois mandem fotografia para ver se a coisa viraliza e se conseguem transformar-se também em influencers. Combinado?

__________________________________________________

Já agora, como será que a Philippine Leroy-Beaulieu encara os dias frios? Cá para mim, é menina para acrescentar um plus ao outfit. Acrescentar ou retirar... 

______________________________________________________

E até já.

Philippine Leroy-Beaulieu tem 58 anos e não está nem aí para o falatório que por aí vai por ter ousado um vestido transparente

 

Ela é a Sylvie Grateau da Emily in Paris. E, na série, o que veste e como se porta talvez a tornem mais apelativa do que a personagem principal daquela série da Netflix. Vivendo a vida de uma mulher livre que não tem satisfações a dar, irreverente, segura de si e elegante, ela mostra-se como uma mulher interessante a quem o facto de não ter a tenra idade da Emily, o facto de não fazer uso de redes sociais como a Emily, o facto de ainda ser casada e o facto de, profissionalmente, estar a perder autonomia face às regras da casa mãe (americana) em que trabalha não atrapalham quaisquer movimentos. Sylvie ousa em toda a linha.

Aparentemente também é (quase) assim na vida real. E se não é a primeira vez que aparece despida nas passadeiras vermelhas desta vida, esta última vez deu que falar. Ao assistir -- e ter lugar na 1ª fila -- do desfile outono inverno 2022/2023 da griffe Ami Paris, apresentou-se orgulhosamente transparente. 

Está a caminho dos 60, é verdade. E daí?

Claro que eu não teria coragem para tal mas, confesso, tenho pena de ser tão betinha como sou. Tenho também pena de não ter o peso ideal que ela tem. Olho para Philippine e acho o máximo. Tomara eu conseguir fazer o mesmo.

A idade é, sem dúvida, uma coisa psicológica.

Ou melhor... também é física. Não precisa é de ser castradora. Pelo contrário, faz sentido que seja é libertadora. Uma pessoa fazer o que lhe dá na bolha, ousar, ousar à descarada, ousar à grande e à francesa, e não estar nem aí para o que digam. Isso, sim, deve ter uma coisa absolutamente fantástica.

_______________________________________________

Já agora

Para quem queira aprender a andar com uma mulher fatal, aqui está Sylvie Grateau | Philippine Leroy-Beaulieu em Emily in Paris


_______________________________

A ver se durante o dia arranjo um bocadinho para contar o meu dia de 5ª feira.
(com fotos e tudo)

_________________________________________

Desejo-vos uma bela sexta-feira.
As sextas-feiras têm tudo para ser danadas de boas. Aproveitem.

quinta-feira, janeiro 20, 2022

Há algum partido chamado 'Maioria Absoluta' em que a malta possa pôr a cruz?
Não...?
Então por que raio anda isso no centro da discussão política?!
Santa paciência. Prefiro ver macacadas do que aturar gente parva.

 


Nas eleições, seja para a escolha de Deputados, de um Primeiro-Ministro (que, nas Legislativas, é um dos factores determinantes), de um Presidente da República, da Direcção da Associação de Estudantes ou do Delegado de Turma, só há uma regra válida: escolhe-se a que nos parece a melhor opção.

Podemos não nos identificar a 100% mas devemos escolher o que achamos mais competente, mais confiável, que tomará melhor conta do recado, que melhor nos representará, que mais provavelmente agirá de forma a merecer o nosso apoio.

Por isso, se gosto mais da Lista A ou da pessoa X, só se for muito burra é que vou votar na Lista B ou na pessoa Y.

Portanto, toda esta conversa da maioria absoluta que assola a comunicação social e a campanha eleitoral é puro nonsense, é conversa de gente desfocada ou desocupada, treta saída da cabeça de jornalistas, de comentadores e gente fútil dos partidos que gostam é de armar confusão e inventar caso. 

Obviamente não tenho pitada de perfil político para me meter em partidos ou a fazer qualquer tipo de campanha. Mas, se um dia sofresse uma valente pancada na cabeça e me metesse nisso e se me visse com um bando de jornalistas à perna a moer-me a paciência sobre se eu queria a maioria absoluta, acho que não me conteria: 'Não chateiem, pá. Desgrudem. Vão dar banho ao cão! Xô! Melgas...'

Se a maioria das pessoas votar na Lista A e a Lista A obtiver a maioria absoluta tudo bem, será o que a maioria das pessoas mostrou querer. O absurdo seria as pessoas quererem maioritariamente a Lista A e, ao votarem, votarem na B e, no fim, ainda haver o risco de ganhar a Lista B. Só se as pessoas forem parvas é que votam assim.

E depois há outra coisa: há algum problema em haver maioria absoluta? Não vejo. 

Com uma Assembleia da República a funcionar livremente, com um Presidente da República independente e com poderes para agir se a coisa derrapar, quem é o tolo que ainda tem medo da maioria absoluta como se fosse um bicho papão para assustar criancinhas? Pamordedeus.

Pois eu, pela parte que me toca, tanto se me dá. Gostava que ganhasse o PS e gostava que não fizesse acordo com as sonsas, hipócritas e desleais do Bloco nem com os fracos do PCP que, entre servirem o País e servirem a ala reaccionário do partido, optam por fazer o que os fundamentalistas da velha guarda querem.

Se o PS tiver que fazer algum acordo, que seja com gente de bem, gente confiável, democrata, madura, leal. Mas se conseguirem governar com o seu programa e sem terem que andar à babugem de agradar a uns e outros que usem isso para chantagear o Governo, também tudo bem.

Sei o que quero e acredito na democracia. Tirando isso, batatas. 

E por isso mesmo, porque não há pachorra para tanta parvoíce, não vi televisão. Não sei por onde andaram os candidatos, o que fizeram, o que disseram nem, muito menos, o que andou por aí a dizer essa praga dos comentadores.

Entre trabalhar, cozinhar, caminhar (debaixo de um frio de rachar), brincar com o urso felpudo, telefonar, ler e sei lá mais o quê não sobrou disponibilidade para me maçar. Só se fosse masoquista... -- e eu posso ser muita coisa, muita maluca, mas masoquista não sou. 

Ou melhor, geralmente não sou. É que, de vez em quando, para confirmar que as modas não saem do mesmo sítio, cedo à tentação de ver. Não me aguento muito mas, por pouco que seja, acabo sempre por confirmar que, se a maioria dos partidos parece andar à deriva sem saber a que porto aportar, pior ainda é o que a comunicação social faz deles. 

E, assim sendo, mal dormida e perdida de sono, ao sentar-me hoje aqui à noite, foi com agradável surpresa que vi que o meu amigo algoritmo me tinha presenteado com vídeos com macacos. Gente boa os macacos. Chimpanzés, orangotangos, tudo gente inteligente e com sentido de humor. Melhores que Catarinas, Rios, Venturas e por aí vai. Estes aqui são uma ternura, uma graça. Que bom vê-los.




_____________________________________________________

Pinturas de André Derain na companhia de Cat Power a interpretar These Days

_____________________________________________________

E, para si que está aqui ao pé de mim, um belo dia

Uma boa onda. Uma boa notícia. Uma boa saúde. 

quarta-feira, janeiro 19, 2022

Quando a vida fica para trás
ou
quando o centro não consegue suster-se

 


No dia em que o pai teve o AVC eu estava fora de Lisboa, num evento que tinha sido eu a impulsionar e organizar. A minha mãe, ao início da manhã, ligou-me e contou-me que o meu pai se tinha sentido mal de madrugada, estava no hospital, em observação. Mas tranquilizou-me, disse-me que ele estava estável e que não valia a pena eu ir para lá pois ele não recebia visitas. Fiquei inquieta. Custava-me abandonar aquele evento, logo no início, mas estava preocupada, não sossegava. Passado um bocado, vim cá fora e voltei a ligar. A minha mãe disse-me que já estava ao pé dele e que ele estava bem, lúcido, e que já mexia um pouco o braço. Fiquei ainda mais preocupada pois antes ela não me tinha dito que o braço tinha estado paralisado. Embora insistisse que não valia a pena eu ir, fui mesmo. 

Ao chegar ao pé dele, apercebi-me que não me via. Explicaram-me depois que tinha perdido metade do campo visual. Percebi que mal mexia um dos lados e constatei que tinha dificuldade em falar. Ficou emocionado ao ver-me e penso que, sobretudo, ficou triste por perceber que uma parte da sua vida anterior tinha sido interrompida. E senti a sua tristeza também pela sua fragilidade perante mim. Até ali ele tinha sido o meu pai, um homem forte. Mas, naquele momento, o meu pai sentia que isso tinha acabado, que, naquela altura, ele era o elo mais fraco.

A médica falou connosco e falou na recuperação que poderia ser muito boa, com excepção do campo visual. Nesse dia eu estava incapaz de processar o que estava a passar-se, dividida entre o que me diziam, entre aquilo em que queria acreditar, entre o que observava.

Mas uma das coisas que mais me impressionou foi quando, nesse dia, ao chegar a casa com a minha mãe, ela me disse: 'Acabou'. Não percebi. Além disso, nestas situações, a minha mãe é muito fatalista, tem medo de tudo, antecipa sempre o pior. Perguntei-lhe o que é que tinha acabado. Disse: 'A vida que tínhamos'. Achei que, de facto, estava a ser pessimista. Eu estava, nessa altura, a acreditar que o meu pai ia recuperar-se e que aquilo do campo visual era de somenos e custava-me que a minha mãe não acreditasse nisso. A minha mãe não foi em conversas: 'Acabou. A vida que tínhamos acabou'.

E estava certa. Na realidade, nesse dia o meu pai iniciou o seu longo, doloroso e lento caminho para a morte. Nem ele nem a minha mãe voltaram a ter uma vida normal. 

Assisti de perto, por dentro, o que foi esse percurso. Mas, apesar de tudo, eu não estava lá a viver o dia a dia, as noites, os sustos, as perplexidades, os cansaços, os desalentos.

Nem fui eu que deixei de ir de férias, de ir ao cinema, de fazer o que antes fazia e de que tanto gostava.  Durante todos os muitos anos em que o meu pai esteve em casa, dependente, a minha mãe não quis fazer o que ele não fazia. Apenas saiu de perto dele quando foi operada. De resto, éramos nós que íamos lá, tentando que se sentissem sempre acompanhados. Mas sei que a minha mãe, para além do desgosto por ver o lento declínio do meu pai, sentia também desgosto por ter perdido a vida que antes tinha.

Quando o meu pai morreu, a minha mãe sentiu desgosto, claro, um grande desgosto, mas não foi um choque. Era uma morte anunciada e, na verdade, todos sentimos que era um descanso merecido para o meu pai.

Em contrapartida, foi um choque muito grande para uma grande amiga que um dia, do nada, perdeu o marido. Eram apaixonados, inseparáveis, e muito amigos um do outro. Eram ambos alegres, muito educados, pessoas de quem toda a gente gostava. Todos os dias, sem excepção, ele ia levá-la e buscá-la ao emprego, eles iam passar o fim de semana para a casa que tinham na costa vicentina e que tinham reconstruído e decorado, iam a concertos, eles ajudavam-se e apoiavam-se. Todos nós o conhecíamos não só de o vermos todos os dias no carro mas também do que ela, com tanto amor, falava dela. De vez em quando, se ela se atrasava, ele subia e ficava por ali a fazer tempo, paciente, compreensivo, bem disposto. Sempre o vi sorridente e encantado com ela. 

Até que, inesperadamente, uma vez à tarde, ela me disse que tinha ficado preocupada com um telefonema que tinha recebido dele: tinha-lhe dito que não se tinha sentido bem e tinha ido para casa. Ela dizia, o coração inquieto, que isso nunca tinha acontecido, que, para ele, o trabalho era sagrado. Sair a meio da tarde era coisa que nunca tinha acontecido. Tentei descansá-la. Passado um bocado, veio dizer-me que estava intrigada, preocupada, e que também se ia embora para ver o que se passava. Fui com ela até ao elevador. Ela estava numa ansiedade: 'Estou preocupada. Passa-se alguma coisa. Estou com medo'. Era uma sexta-feira. Eu disse-lhe que podia ser stress, qualquer coisa, mas que vinha aí o fim de semana, era bom, ele ia descansar e ficar bem. Mas ela sentia que alguma coisa se passava, estava inquieta.

No dia seguinte, sábado, tínhamos ido passear com os miúdos e com os meus pais ao campo. E então recebi uma chamada de um amigo comum. Disse-me: 'Tenho uma notícia triste. Morreu o Rui.'. Como sempre me acontece nestas circunstâncias, nunca sei de quem se trata. Instintivamente, tento lembrar-me de alguém que eu conheça com aquele nome e que pudesse ter morrido. O meu amigo ajudou-me e disse que se tratava do marido da nossa amiga. Fiquei sem acção. Como era possível tal coisa? Não estava doente. Tinha cinquenta e poucos anos. Ele esclareceu-me: tinha tido um ataque cardíaco. 

Dias depois, foi ela que me contou. Ao fim da tarde, o filho, adolescente, tinha percebido que algo estava a acontecer, quis perceber o que o pai sentia, parecia que estava engasgado, com dificuldade de respirar. O pai, sempre tão delicado, tinha soltado um grito rouco: 'Chamem uma ambulância! Estou a morrer, porra!'. A minha amiga diz que tinha sido a primeira vez que ele tinha falado assim com o filho. Quando os do inem chegaram, já ele estava inanimado e ela aflita, a chorar. Foi na ambulância com ele. No percurso, ele acordou, olhou para ela, suspirou e fechou os olhos. Ela disse-me que achava que ele tinha morrido naquele instante. No hospital tentaram reanimá-lo mas já não foi possível. No enterro, ela estava absolutamente debilitada, num estado de grande fragilidade, quase irreconhecível de tão transtornada que estava. Tinha que estar amparada e, quando o caixão desceu à terra, desmaiou. Saiu de lá ao colo de um dos sobrinhos. 

Não se recompôs do desgosto. Ficou sempre triste. Perdeu a juventude, perdeu o sorriso. Deixou de trabalhar ao fim de não muito tempo pois não conseguia seguir uma rotina da qual o marido já não fazia parte. Nem queria ir para a casa tão bonita na costa vicentina nem queria saber que o filho, de quem era tão chegada, fosse para fora. Desinteressou-se. Aos poucos, depois, foi retomando alguma actividade mas nunca mais foi a que era. Uma parte dela morreu quando o marido a olhou para nunca mais.

__________________________

E se me ocorreu evocar estas memórias foi porque comecei a ver o documentário sobre Joan Didion (Joan Didion: o centro não consegue suster-se) na Netflix. Ainda não vi muito mas estou a gostar bastante. Como geralmente faço, para ver se me agrada, fui saltitando a espaços. É o que faço com os livros. Folheio ao acaso. Se gosto, volto então ao início e vejo direitinho. 

E agora, ao escrever este post, lembrei-me de ir ao Youtube ver o que encontrava sobre ela. Partilho convosco os excertos que aqui partilho (texto de um dos livros de Joan Didion, justamente aquele em que ela descreve como, num dia, sem aviso prévio, o marido morreu deixando-a em estado de total desamparo). As desgraças na vida dela não se ficariam por aí mas foram tão mais difíceis de suportar quanto ela não o tinha a seu lado para a amparar.

"The Year of Magical Thinking" by Joan Didion

Vanessa Redgrave


Seana McKenna

________________________

Joan Didion: The Center Will Not Hold 


________________________________________

O texto é ilustrado com retratos de Joan Didion

_________________________________________

Desejo-vos um dia feliz
Boa sorte. Boas notícias. Boas decisões. Boas ideias. Bons sonhos.

terça-feira, janeiro 18, 2022

Legislativas 2022 / RTP: Grande Debate televisivo entre os 9 maiores
-- balanço final
(e disclaimer sobre o meu quadrante político)


Acabou o debate e, no fim, pouco tenho a acrescentar ao que escrevi no início. O facto é que adormeci e, ao acordar, voltei a ouvir  o que estavam a dizer no início. Déjà-vu.

Por isso fico-me por onde já estava:
  • O António Costa obviamente está com a sua gravata verde. Continua bem disposto, tranquilo e a falar com segurança.
  • Tirando isso, isto ainda nem arrancou e o Rui Rio já está a falar alto de mais, dando mostras de querer desorientar-se.
  • Catarina Martins continua loura e com aquele seu arzinho sonso e teatreiro. Não aprende. Julga que está a falar para parvos e que pode continuar a vender a sua hipocrisia como se alguém acreditasse que é a santinha que finge que é. Aquele sorrisinho já não se aguenta.
  • João Oliveira continua entroncado e tisnado, com ar de quem se alimenta bem. Poderia ser um potente motorista ou um valente agricultor. Vem com a conversa engatilhada e fala compulsivamente, sem ser capaz de ir straight to the point. Não sou de dizer isto mas hoje tenho que dizer: o homem engoliu a velha cassete do PCP.
  • O Chicão começou por dizer uma anedota, o que fez o António Costa desatar a rir. Está aqui para fazer um número de stand up e tentar mostrar que é um sarrafeiro ainda pior que o Ventura. Trazer putos que estão na idade da ramboia para uma cena destas só podia dar em baderna. Alguém o leve, se faz favor, com os seus lindos olhos azuis, de volta para a escola infantil. E vistam-lhe um bibe para ficar ainda mais fofo.
  • A Inês Sousa Real veio com um look discreto que lhe fica muito melhor do que o último em que estava muito gaiteira. Mantém-se assertiva, bem preparada e continua a surpreender-me. 
  • O Ventura falou, falou, falou e, como sempre, não disse nada. É um espalha-brasas, um vendedor de banha da cobra, uma nódoa
  • O Cotrim Figueiredo está com ar lavadinho, parece que saiu do banho, mantém-se bonitinho como sempre... mas hoje está irritadiço. A continuar assim deixo de lhe prestar atenção. Não gosto de gente que se arma em agressiva. 
  • O Rui Tavares mostra que é inteligente, parece ser sensato e ter bom senso. O drama dele é não saber escolher equipas. Ainda estou traumatizada com aquele mau passo dele ao escolher a Joacine. 
--------------------------------

Quanto ao meu posicionamento político e partidário, aproveitando a boleia do Provas de Contacto (Provas de Contacto: ... não sei, não... The Political Compass  Votóm...), fui fazer os testes. As perguntas do Observador são simplórias e enviesadas mas, ainda assim, respondi. Depois fui para o teste mais apertado

O resultado aqui está. Não me admiro. Diz-me que tenho uma coincidência de 80% com o programa do PS. É o que é. Ou melhor, sou o que sou.

A nível da bússola estou no quadrante balizado pela esquerda e pelo look libertário cosmopolita. Está certo.


Quanto ao teste mais completo, confirma-se: esquerda libertária. 
Tá-se.

---------------------

E agora?

segunda-feira, janeiro 17, 2022

O humor é uma coisa subjectiva? Ou uma cena geracional?

 

Por sugestão da mãe de uns dos meninos, enviei-lhes uma selecção de vídeos para ver se fazia rir em especial um deles. Enquanto os escolhia, fartei-me eu de rir. São vídeos que não me canso de ver e que sempre me fazem rir.

Imaginei o menino a rir a bom rir, a pôr o vídeo do início uma e outra vez. 

Enviei vários e este aqui abaixo não foi um deles. Mas este, icónico, é tão fantástico que me apeteceu partilhá-lo agora convosco..

Depois, estava a jantar, recebi uma mensagem a ver se não queria juntar-me ao meet para ver se animava os meninos, sobretudo o que estava digamos que menos animadinho. Claro que, de imediato, interrompi o jantar. E juntei-me a eles. 

Estavam a jantar, separadamente, enquanto confraternizavam por estas novas vias. Perguntei se tinham visto os vídeos. Só o mais novo tinha visto. Para meu espanto disse-me que achava que não tinham piada. Não quis acreditar, impossível não achar engraçado. Diz-me ele: Não me ri uma única vez...

O avô, ao ouvir a conversa, disse que eu achava graça porque o actor era moço do meu tempo, que devíamos ser da mesma idade. 

A mãe disse que era uma cena geracional. E, para se perceber melhor qual o tipo de humor da mais nova geração da família, pediu então que o menino partilhasse connosco um vídeo a que achasse graça.

E ele assim fez. Pediu um tempo, escolheu um e partilhou-o. 

Foi este que aqui abaixo vos mostro. 

Desconcertante, vou já prevenindo... 


Nem sei que diga.... (Vocês acharam graça...?)

A mãe dos meninos até se lembrou de quando estava no hospital a ter uma criança e nós fomos com o mais crescido almoçar à Gulbenkian e, de passagem para a casa de banho, espreitámos uma exposição temporária. Estava um vídeo em que se viam ovos a serem partidos. Um ovo, depois outro. A clara escorria, depois a gema. Só isso. Uma e outra vez. Pois bem. O menino, que tinha dois anos e tal, achou aquilo o máximo, estava divertidíssimo, não queria sair. Eu a querer que ele fosse conhecer o irmãozinho e ele nem aí, queria era ver os ovos a serem partidos. Eu a puxá-lo e ele só a puxar em sentido oposto, a pedir que ficássemos só mais um bocadinho. Ria-se e queria sentar-se no banco que lá tinham posto, queria ver sem parar. Eu sem perceber qual a piada daquilo (aliás, qual a lógica, qual a arte...) e ele encantado, sem querer desgrudar.

Pois agora é o irmãozinho nascido nesse dia que acha graça a uma torrada a tombar...

Portanto, vá lá a gente saber o que é que faz rir os outros...


___________________________________________________

E agora vou ver se passo as fotografias do passeio de hoje de manhã para o computador para ver se vos mostro, ou ainda hoje ou amanhã (ou um dia destes).

____________________________________________________

Desejo-vos uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira.
Saúde. As melhoras a quem está doente. Boa sorte. Força. Ânimo. Alegria para todos.

domingo, janeiro 16, 2022

Já não se pode falar de felicidade...?

 


Foi um dia atípico e sobre ele não vou falar. 

Falarei antes das florzinhas que aparecem agora por todo o lado. Até uma planta grande que está num vaso grande do lado de fora de uma das portadas da sala está em flor. Não me lembro de o ter visto florido anteriormente. Deve ter estado mas não me lembro. Aparecem florzinhas como se fosse primavera. Hoje, quando a pequena fera, ao passear, queria cheirar cada ervinha, o meu marido, impaciente, puxando-o, disse que ele antes não ligava às ervas. Tentei uma explicação: 'Se calhar é porque está tudo a despontar, os cheiros da primavera despertam-lhe a atenção'. O meu marido respondeu: 'Mas... já é primavera? julgava que ainda estávamos no inverno...'. E é verdade, parece que não mas ainda estamos no inverno. Só que a natureza parece que anda com o calendário desprogramado. 

Na horta, a tangerineira que o ano passado esteve carregada este ano nem uma tangerina tem. Em contrapartida, uma outra em que o ano passado não me lembro de ter reparado, este ano está cheia delas. Não sei porque é isto. Se calhar, as tangerineiras frutificam ano sim, ano não. Mas são umas tangerinas rijas e pouco doces. Não sei se ainda vão amadurecer ou se são mesmo assim, de raça pouco doce.

A árvore das limas parece que se converteu definitivamente em limoeiro. Dá uns limões de casca lisa e que fica amarelinha. E não há dúvida que sabem a limões. São limões sumarentos e pouco ácidos. 

De noite fica muito frio. O nosso pequeno urso felpudo agora nunca quer ir à rua à noite. O meu marido quer à viva força que ele vá, senão acorda às seis da manhã, ou antes, com vontade de ir à casa de banho (que é como quem diz). Mas às dez e tal da noite está a dormir, quentinho, e naturalmente não quer ir lá para fora. Além disso, está demasiado habituado às nossas traições. Ainda hoje, quando fomos ao supermercado, atraí-o lá para fora, comecei a brincar com ele e, quando andava a correr a brincar comigo, apanhei-o de costas e enfiei-me rapidamente em casa. Sinto-me muito mal ao fazer isso. Não sei o que sente o ursinho quando percebe que desapareci e que a porta de casa está fechada. Quando regressamos, ao ver-nos, vem de rabinho entre as pernas, a andar quase agachado, orelhinhas para trás, humilde, como se tivesse feito alguma coisa mal e estivesse de castigo. Depois, quando lhe fazemos festinhas e o deixamos entrar em casa, fica numa alegria que só vista: salta, brinca, parece mesmo que ri. Cada vez o percebo melhor e ele, então, já me conhece de ginjeira.

Hoje não vi televisão. Há pouco pensei que, dos poucos debates e dos resumos que vi, acho que nenhum candidato falou daquilo que deveria ser um dos desígnios principais de um político: conseguir que a vida dos cidadãos e a das gerações vindouras seja mais feliz.

Presumo que nem uma única vez a palavra felicidade tenha sido usada.

A felicidade tornou-se coisa vulgar, pior que babaquice viralizada entre os frequentadores do subúrbio do subúrbio, pior que pechisbeque em saldo na loja do chinês, conceito que os auto-escritores a metro pintaram de banalidade e luzinhas movidas a pilhas, selfie sempre sorridente nos instas mainstreams desta vida. 

Por isso, ser feliz passou de moda junto dos bem´-pensantes. Ser feliz tornou-se sinónimo de mediocridade intelectual. Quem sabe escrever ou sabe pensar não quer ser feliz nem quer ouvir falar de felicidade, muito menos de felicidade alheia.

As televisões ajudam: toda a gente fala dos seus dramas, de vícios passados, de traumas medonhos, de infelicidades eternas. 

Ser feliz saiu de moda. Pior: ser feliz virou sinónimo de ser alienado.

A sociedade aos poucos vai, assim, esquecendo uma das coisas mais básicas: se não for para sermos felizes e para ajudarmos os outros a serem felizes e para prepararmos o mundo para ser um lugar de felicidade... então qual o sentido de tudo isto?

Uma sociedade em que grande parte dos postos de trabalho se concentram nas grandes cidades, em torres longe dos espaços habitacionais, em que, para se ir para lá as pessoas gastam horas no trânsito, uma sociedade em que os pais não conseguem ir buscar os filhos à escola senão muito ao fim do dia, uma sociedade em que os mais velhos, quando perdem a autonomia, se não tiverem uns milhares mensais para pagar boas residências assistidas ou vão para lares miseráveis ou ficam em casa a definhar, uma sociedade em que os jovens adultos não se sentem confiantes ou não têm mesmo meios para terem filhos e só os têm, quando têm, tarde e más horas e, na maioria das vezes apenas sai um rebento ou, no máximo dois... é uma sociedade que se esquece de pugnar pela felicidade das pessoas.

Mudar isto deveria ser prioritário para um político.

Tenho pena de não ver alguém sensato, ponderado, racional e sincero a falar disto de uma forma aberta e obectiva. Por exemplo, gostava que algum dos que reconheço como bom político os tivesse no sítio e dissesse: estou aqui para tentar que os portugueses sejam mais felizes. E depois dissesse o que se propunha fazer para dar corpo a essa pretensão. Gostaria que conseguíssemos fazer a agulha e passássemos a louvar o que é bom, a agradecer o que de bom fazemos e recebemos, a colocar a nossa criatividade, empenho e generosidade ao serviço da felicidade, da nossa e dos outros. 

Por isso, aqui chegada, o que me apetece ver são vídeos em que as pessoas sorriem, falam do que as faz felizes e se mostram agradecidas pelo que têm.


As palavras de sabedoria de Beatrice Stroud


Obert Jongwe, o homem mais rico da terra


_____________________________________________

Na minha modesta opinião é bem capaz de as fotografias (algumas das vencedoras de 2021 Nature Photographer Of The Year) e a música (José Afonso a interpretar "Que amor não me engana") não terem muito a ver com o texto. Ou, então, têm mas não se percebe. Mas é o que é, nada a fazer.
______________________________________________________

Desejo-lhe, a si que está agora a ler-me, um feliz dia de domingo