segunda-feira, agosto 23, 2021

Quando a casa é o lar

 


Fomos para o campo. De caminho, satisfiz uma vontade com que andava há algum tempo e que me era contrariada desde sempre: comer um menu do McDonald's. Não sei se dá para imaginarem a birra que o meu marido fez. Contudo, não tinha comida feita para levar e não estava a ver ir com comida congelada para lá chegar e estar a cozinhar, isto com tanto que fazer. Nem estava a ver onde ir comprar comida feita àquela hora. E, para mais, as saudades com que eu andava de um daqueles hambúrgueres. 

[E se ainda dúvidas houvesse em relação a mim ou em relação à questão filosófica de que ninguém é perfeito, aqui têm a prova.]

O diabo é a falta de cultura da coisa. Lá chegados, aquilo tudo modificado. Segurança à porta, mesas apenas na esplanada. E cartazes a dizer o que há  ou aquele placard que havia dantes atrás dos empregados, népias. Uma falta de referências e coordenadas que não se deseja. Só, em imagens deslizantes, as novidades. Mas os clássicos, os extras, nada. Pensei: na volta isto também já só lá vai com app. Mas, claro, não tenho cá app do McDonald's coisa nenhuma. Portanto.

O meu marido ficou cá fora, que para ele podia ser de frango. Cá para mim, ele acha que, sendo de frango, é mais saudável do que se for de vaca. Eu, nestas coisas, não acho nada, sou agnóstica pura. Portanto, meio às cegas, sentindo-me quase labrega, encomendei os que estavam a passar: o Rustic Chicken com mostrada e mel para ele e o Smoky Alabama para mim. Quase a medo, perguntei se, em vez de batatas fritas, poderia ser uma salada. Dantes podia. A menina disse-me que sim. Vá lá. De bebida, trouxe água. Tudo num saquinho. O meu marido reage mal a estas coisas. Para ele isto é sinónimo de que estamos a bater no fundo, vir com um saco com dois menus do McDonald's em take away. E eu desejando era de chegar a casa para papar o meu Smoky Alabama.

Com tanta fome deveria estar que não protestou enquanto o comeu. Cá para mim, comia era mais um. No mínimo. Mas, já se sabe, não quis dar parte de fraco. Eu também gostei do meu. E da saladinha também. E fiquei bem.

E ainda não contei tudo.

Desde que para cá viemos, tinha vontade de ter uma mesinha branca, metálica, com duas cadeirinhas idênticas. Ora não encontrava nada assim, como imaginava. Acontece que, no outro dia, num daqueles armazéns chineses que têm tudo e mais um par de botas, vi um que não teria um design tão romântico como eu desejaria mas que, enfim, andava por lá perto. Claro que a perspectiva de ir comprar mobiliário para o jardim a um armazém chinês deixa o meu marido fora de si. Não quer, diz que não precisamos, diz que não gosta, diz que não está para carregar com aquilo, diz que eu esqueça, que não vai, que só eu para me ir enfiar num chinês (salvo seja -- digo eu) para comprar coisas para o jardim. Mas tanto insisti que lá fomos. Furioso, quase sem me falar. 

Não alimento quezília. Não quer falar, não fale, é um direito que lhe assiste.

Um preço muito razoável, especialmente quando comparado com afins (mas não tão bonitos) das lojas mais clássicas. Trouxemos. Aquilo desmontado, uma caixa que pesava para burro. Quando vi a caixa, pensei que ele reagisse pessimamente, que dissesse que a levasse eu para o carro e a montasse eu. Mas não, furioso mas zangado demais para falar. Fomos o caminho quase todo sem falarmos. Eu cheia de sono e sabendo que, se abrisse a boca, era só para ouvir acusações e queixas. Portanto, caladinha.

O que valeu foi que, depois de comer o rustic chicken parece que ficou mais bem disposto. E depois deitámo-nos ao trabalho e a zanga passou.

Para se pintar a cómoda e as mesas de cabeceira teve que se esvaziar tudo. A roupa em sacos, no estúdio. E lãs de tapetes de arraiolos que estavam num cesto, tudo no estúdio. Bibelots, livros, almofadas, mantas, mantinhas, tudo no estúdio. Uma barafunda.

Agora tem sido escolher, deitar fora o que não serve ou que já não está bom. A minha roupa da cómoda ou da minha mesa de cabeceira, depois de expurgada, foi toda arrumada como deve ser. 

A meio da tarde, ele disse que andava ele no trabalho pesado e eu a brincar, armada em Maria do Ku. Ao princípio nem percebi mas depois atingi: Marie Kondo. Sim, arrumei a roupa toda dessa forma. Muito melhor. 

Convenci-o também a voltar a pôr uma prateleira de parede que, no outro dia, por engano, tinha dito que não queria, tendo ele tirado parafusos e buchas. Para este pedido, fui um bocado a medo, confesso. Mas, afinal, já estava melhor humorado: já lá está posta e os livros arrumados. 

Não sei se contei que, no outro dia, aconteceu um desastre: a mesa da sala de jantar, a tal que é de origem, proveniente ainda dos anteriores proprietários, era daquelas extensíveis. Só que, uma das extensões estava meio solta. E a mesa estava meio desengonçada. Tínhamos que ter algum cuidado, especialmente quando a queríamos estender toda. Pois bem. Estava a lavar o chão, toquei com a esfregona numa perna, ela vacilou, a perna cedeu e, lentamente, a mesa praticamente desconjuntou-se. E só não se separou em mil peças pois ajoujou em cima das cadeiras que estavam em volta. Presumo que, durante as pinturas, os homens não a tenham tratado com os cuidados que o seu periclitante estado de saúde requeria.

Eu, que tinha a ideia de a levar para debaixo do telheiro, temo bem que já não a possamos aproveitar. O meu marido já decretou: não olhes para mim, não sou marceneiro. Mas às vezes, depois destes decretanços acaba por tentar. Por isso, vamos ver. O que sei é que agora nem se pode lá pousar o que quer que seja. Tomara que chegue a nova. 

Ainda há muita coisa para arrumar e outra que ainda está naquele limbo de que falei no outro dia: a meio caminho entre ir fora ou ser guardada. 

E, agora que a casa está mais clara e luminosa, olho para o que ainda subsiste em cor escura e só me apetece pintar tudo. O meu marido hoje reparou naquela mesa alta e estreita (coluna?) que pintei de verde e disse que gostava. Fiquei contente. Para ele reparar e dizer é porque gostou mesmo. 

Também acho que não contei que agora, de vez em quando, aparecem coisas que não sabemos onde estavam antes. Dois espelhos, por sinal, bonitos. Nós intrigados como se os espelhos tivessem aparecido ali por geração espontânea. Por fim, lembrei-me que deviam estar na pequena saleta da parte antiga da casa. Mas não me lembro de lá os ver, apenas me lembro de em tempos, tempos para além de remotos, ter tido a ideia de lá pôr espelhos. Muito estranho. O que sei é que, em cima do sofá que está em frente da televisão, estavam dois quadros e sempre nos pareceu que não ficavam particularmente bem ali. Pois bem, foram os espelhos para lá. E parece que foram feitos para ali. Dão uma luz à sala que só vista. Moral da história: o que tem que ser tem muita força. 

Agora sobra uma mesinha de tipo coluna mas baixinha. Não tinha a mínima ideia de onde estava antes. Até que me lembrei. Mas ao lembrar-me, à luz de hoje, parece-me que não faz qualquer sentido que ali estivesse. Agora tenho que pensar num sítio. E tenho que pintá-la.

Bem... não vou continuar nisto, que já devem estar pelos cabelos com tanta conversa desta.

Com isto, viemos de lá tarde. Enquanto andava naqueles trabalhos esforçados, ia pensando que, com sorte, na vinda, o convenceria a desviar-se do trajecto e ir à casa dos gelados. Umas saudades... Afinal nem isso. Já viemos depois da hora do fecho.

Tarde, tarde sobretudo para ainda ir cozinhar, com fome e quase sem comida feita em casa, apenas um resto de arroz branco e um resto, pouco, de entrecosto, disse: na ausência de gelado, só me ocorre ervilhas com ovos. Ele disse: sim, de facto tem tudo a ver, uma coisa substitui bem a outra. Continuei para corrigir: mas não pode ser pois não tenho bacon. Ele lembrou: ainda lá deve haver um bocado de chourição. Fiquei contente.

Então, mal cheguei fiz assim: 

Numa panelinha coloquei azeite, uma cebola gigante aos bocados, salsa, uma folha de louro e o bocado de chourição cortado aos bocados. Alourou. Juntei dois tomates grandes, maduros. Cozinhou um pouco. Juntei ervilhas congeladas e um pouco de água. Umas pedrinhas de sal. Tinha uma maçã reineta que, de manhã, tinha apanhado na horta. Tirei-lhe a parte do meio e cortei-a aos bocados. Abri quatro ovos e coloquei-os por cima, para escalfarem no caldo. Quando ferveu, baixei o lume. 

Estavam boas... (modéstia à parte). Ou, então, era a fome. O que posso dizer é que as comemos de gosto.

E, pronto, agora é que é: calo-me já.

Deixo-vos apenas dois vídeos com casas bonitas. O último refere-se à casa de uma filha da proprietária da casa do primeiro vídeo. Opções curiosas. Pode não se gostar de tudo mas há ideias interessantes. Acho que ver a decoração -- e a arquitectura! -- de outras casas nos faz ver a nossa de outra maneira, dá-nos ideias, calibra-nos a perspectiva.

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At Home in Montecito with Suzanne Rheinstein



At Home in the Hamptons with Kate Rheinstein Brodsky



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Ilustrações de Alphonse Mucha na companhia de Ben e de sua mãe Ellen Harper que interpretam A House Is a Home

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Desejo-vos uma semana muito boa a começar já por esta segunda-feira
Vida longa e feliz.
Saúde. Motivação. Energia. Motivação. Esperança.

domingo, agosto 22, 2021

Um dia de trabalhos, brincadeiras e risos. Uma noite de silêncio

 



Na sexta-feira à tarde juntaram-se cá no jardim. A tarde foi boa. Os meninos alegres, como sempre. Quanto aos adultos, uns a trabalhar, outros de férias. 

A tarde começou com brincadeiras no jardim e acabou em guerrilha, na horta. 

Este sábado a trupe do meu filho veio de manhã. Foram andar de bicicleta, excepto a minha menininha que ficou e que foi connosco fazer uma pequena caminhada enquanto pais e irmãos pedalavam. Depois regressaram eles e nós e, qual equipa de trabalho na festa do avante, desataram a limpar o jardim. Mas limpeza a sério, com assertividade e determinação: o casal a varrer energicamente com vassoura e com ancinho, a menina a levar o carrinho de mão para  transportar o lixo para a compostagem ao fundo da horta, o mano do meio a varrer o caminho para a garagem e o mais pequeno a segurar a pá para o pai lá pôr o lixo. O mais pequeno disse: 'Isto é trabalho de equipa'. E foi mesmo. O meu marido andou também a apanhar os montes de folhas para pôr em grandes sacos que, depois, ir despejar na compostagem e eu, sentindo-me mal por ver aquela azáfama, fui buscar um balde e andei também a apanhar os montes que se iam formando.  Mas aquela cena do coração criou um certo medo no pessoal e têm sempre receio que me dê algum fanico. Mas não, não me deu nem me sinto cansada ou incapacitada.

Depois, os meninos brincaram, arreliaram-se uns aos outros, disputaram as mais insignificantes coisas como os irmão sempre fazem. O do meio é com a irmã, que é mais velha, como o pai dele foi com a irmã: sempre a pregar-lhes partidas, sempre a picarem, sempre à beira de as levarem ao desespero. Just for the fun of it. Iguais. Quando grito pelo nome dele para ver se pára de atazanar a mana, é como se o tempo não tivesse passado e estivesse a gritar o nome do pai dele (é que, ainda por cima, têm o mesmo nome -- que é também o nome de um dos primos e, claro, do avô --; e este é um daqueles casos em que não tem que enganar, o nome não engana, são danados para a brincadeira e com uma energia e persistência que facilmente levam os outros ao tapete. What's in a name...).

E, no meio da confusão, espantei-me, como sempre me espanto, com o vocabulário e com o raciocínio do mais pequeno. Por exemplo, os irmãos estavam a dizer que viram um insecto amarelo. Ele disse: 'É uma abelha!'. E eles que achavam que não, que era também um bocado preto. E ele: 'Uma vespa?'. E eles que não, que também não era uma vespa. E ele, encolhendo os ombros, 'Então é uma combinação das duas...'.

E, quando quis desinfectar-lhe as mãos com álcool-gel, numa embalagem nova, e não conseguia que aquilo deitasse, carreguei no manípulo, tentei que se desprendesse e voltei a carregar... e nada..., diz ele: 'Porque é que não tentas à moda antiga?'. Desatei a rir. Como é que ele, com quatro anos, me fala na moda antiga? Perguntei-lhe o que era a moda antiga. Fez o gesto, com a mão, de desenroscar a tampa.

Maravilho-me com eles. Com todos. Ele, o mais novo, um espertalhão e um querido. O mais crescido já com a voz quase grossa, já com coisas de quem não tarda é um teenager a sério. O irmão sempre meigo, sempre atencioso, uma força da natureza. Surpreendem-me todos os dias. A menina, enquanto caminhávamos, sempre conversando. Que, para ir jantar na véspera, tinha posto sombra nos olhos. E que tinha posto também batom e que tinha sujado a máscara. E eu: 'Sua vaidosa... Porque puseste...?' E ela, com aquela sua malícia indiferente, 'Então... teve que ser...'

Depois do rápido almoço fomos buscar a minha mãe. Antes de virmos para casa, fomos ao supermercado. Estava sem fruta em casa, sem tomate, sem alface, com poucos ovos, sem massa, sem bolachas, com pouco pão. Aproveitei para trazer mais uma esteira espessa e larga. No outro dia tinha trazido uma e tinha sido apreciada. Para se estar ao sol sem que a caruma pique (como a minha nora referiu ao deitar-se nela) ou para se fazerem picnics na relva, à sombra, é uma opção interessante. Trouxe também um conjunto de caixas de plástico para guardar comida no frigorífico. O meu marido não achou graça, diz que já temos caixas que sobrem. Mas não é verdade. Desaparecem. A minha mãe trouxe também um conjunto dessas caixas e um dicionário francês-português e português-francês pois diz que o dela é só francês-português e que já está muito gasto. 

Quando chegámos, já cá estava a minha filha com os miúdos, eles, como sempre, na maior brincadeira. 

Entretanto, fomos arrumar as coisas do supermercado e eu fui pôr uma máquina de roupa a lavar. Fomos também regar os vasos. As rotinas domésticas vêem-se aflitas para encontrarem o seu espaço -- mas têm que existir.

E esteve-se ao sol, os incansáveis meninos nas suas lutas, saltos, risotas, a minha mãe sempre espantada com a energia deles. 

E lancharam, sempre com aquele bom apetite de dar gosto. 

Com eles, todos, a conversa dos pais vai sempre no sentido de que parem de comer pois parece que o que neles cai vai para um poço sem fundo. Quando se lhes pergunta 'queres isto ou aquilo?' respondem 'tudo, manda vir'. Lancham que se fartam e, pouco tempo depois, estão prontos para almoçar ou para jantar. Ainda no outro dia, quando cá passaram a manhã, por volta das dez e tal ou onze, não sei, ao perguntar-lhes se queriam um lanchinho disseram logo que sim e, quando lhes perguntei o que queriam, o mais novo exclamou: 'Comida!'. E eu: 'Claro que é comida... mas o quê? Que comida queres?'. E ele, como se nem percebesse qual a dúvida: 'O almoço...'

Ao fim do dia fomos levar a minha mãe. Quando regressámos, obviamente noite bem feita, a roupa já estava seca. Depois, fizemos a cama de lavado. Arrumámos umas coisas. 

E aqui, na sala, pus-me a ver o vídeo abaixo. É um vídeo bonito. Os vídeos da Green Renaissance são sempre bonitos. As pessoas falam devagar, dizem o que lhes vai na alma. Isso é bonito. Geralmente não o fazemos.

Depois pus-me a ver na 1 o Stone - ninguém é inocente. Deixei que o tempo passasse enquanto ia vendo e escrevendo isto.  

Ao fim da tarde reparei que o sol dourava os pinheiros e que o outono começa a aproximar-se. Algumas folhas começam a cair. Mas está ainda um calorzinho tão bom que vou agarrar-me a ele, esperando que o verão e os dias grandes perdurem. 

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Seek Silence

What does silence mean to you?  Is it something you fear and fill up with distractions?  Or is it something you actively seek as an antidote to a stressful life?  

Visiting silence can be an adventure, a life changing journey into peace and quiet. In silence we can hear our own thoughts. Silence speaks for the part of life that is beyond words.  There is space, inner freedom and creativity. We find a place within us that is centered, a place of trust. 

As the noisy demands of daily life make us shrink inside, in silence we expand.  Don't underestimate the power of silence.


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Pinturas de Wang Keju enquanto Angelina Jordan interpreta Autumn Leaves

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Desejo-vos um sábado feliz.
Saúde. Alegria, Esperança. Força.

sábado, agosto 21, 2021

Comer o bolo ou ficar com ele

 


Nunca sei se devemos desfazer-nos do que, na altura, nos parece dispensável ou se deveremos guardá-lo para ocasião posterior. Muitas vezes, na dúvida, guardo. E sou censurada por guardar tralha inútil. Anos depois, alguém (frequentemente alguém que antes me censurou) se lembra disso ou as circunstâncias o fazem relembrar e, graças à minha persistência, as coisas voltam à cena.

Mas não sei se faço bem pois, se já tivesse ido fora, tirávamos daí o sentido e não vinha daí morte ao mundo. 

Por isso, não sei. A Marie Kondo tem aquele critério de guardar apenas o que nos faz feliz mas acho isso redutor: o que não me faz feliz num dia pode fazer no outro. No outro dia, a minha menininha, ao ficar toda molhada, pediu-me roupa para se trocar. Fui à gaveta de blusas que já mal me cabem e foi só escolher uma. 

Quando nos mudámos pensei: se calhar não faz sentido guardar roupa que não voltará a servir-me. Mas, à última hora, pensei: e se alguém aqui em casa precisa de uma blusinha ou coisa do género, como resolvemos a situação? E é o que tem estado a acontecer.

Mas, ao mesmo tempo, de vez em quando, por revoadas, apetece-me viver entre coisas novas, espaços mudados. Acho que é coisa congénita: preciso com frequência de alguma mudança na minha vida. Ainda hoje de manhã, estando eu a propor uma alteração em casa da minha mãe, ela disse: 'detesto obras, não consigo, se puder evitá-las, evito'. Bem sei: sempre assim foi. Sempre achei que a minha mãe, apesar de poder ser tomada pelo contrário, no fundo, no fundo, o que é é muito conservadora. Eu sou o oposto. Fico furiosa quando penso que uma intervenção é para estar acabada até fim de Junho (isto no máximo dos máximos) e se prolonga por Agosto adentro, quiçá mesmo início de Setembro. Mas, tirando esse pormaior que acaba sempre por me enfurecer, parece que só estou bem a pensar no que hei-de fazer para melhorar os espaços, o que, muitas vezes, requer obras.

Acho que já contei: quando era miúda, a minha mãe temia ficar de férias só comigo. As nossas férias quase coincidiam mas o meu pai tinha menos dias que nós. Por isso, parte delas estávamos só nós duas  ou me entretinha por ali, em casa ou com amigas. Mas, fosse como fosse, a primeira tentativa era fazer mudanças em casa, o que, para minha frustração, a minha mãe abominava. Queria era descansar depois de um ano lectivo a aturar alunos, queria que eu a deixasse dormir a sesta em vez de andar a moer-lhe a paciência.

E parece que isso ainda hoje me acontece: olhar à volta e só ver coisas que bem poderiam ser melhoradas. Estofar cadeiras, pintar móveis, mudar os bibelots de sítio -- por exemplo.

Quando às vezes, ao falar com a minha mãe, relato algumas dificuldades ou algumas decisões difíceis de tomar, ela diz: o que faz isso é ter muito, quem tem pouco não sente essas dificuldades.

E concordo. A abastança nem sempre é sinónimo de felicidade. Não sei se há um ponto de equilíbrio, um break-even point. Aquele ponto de equilíbrio perfeito em que a gente percebe como mais favoravelmente resolver o dilema: come-se o bolo ou fica-se com ele? Não é fácil. Quantas vezes queremos desfazer-nos de uma coisa ou de uma pessoa e, ao mesmo tempo, não perder a função que essa coisa ou função representa. Qual o ponto em que se percebe: já era? Ou como perceber se é coisa que valha a pena ainda o esforço de uma reparação ou se o desgaste já é tanto que mais vale partir para outra....?

No outro dia, ao trazer os bibelots do estúdio para a casa principal in heaven, peguei numa taça verde de que gosto muito, com tartaruguinhas à volta. Quase parece um laguinho com tartaruguinhas à volta, em terra firme. Em tempos partiu-se. Fiquei desgostosa. Apanhei cada pequeno bocado e consegui concertá-la. Agora o meu marido, ao vê-la, perguntei: não será altura de deitares isso fora?

- Obviamente que não. Fica bonita na sua imperfeição.

Mas, sobre isto, não sei que dizer. Os anos passam e não me trazem sabedoria. Não consigo estabelecer regras que algum tempo depois ainda sejam inequívocas ou defender teses que, com o passar do tempo, continuem a parecer-me intemporais. As certezas vão ganhando matizes com o tempo e sei agora que apenas os estúpidos acham que sabem tudo. Conheço alguns. 

Na realidade, comovo-me mais, sou mais tolerante, reconheço cada vez mais o valor das pequenas coisas mas, ao mesmo tempo, sou mais impaciente com o que não me agrada, com o que diminui a minha qualidade de vida. Tenho aquela sensação que o que falta da minha linha do tempo não deve ser gasta com o que não vale pena. Mas como saber o que não vale definitivamente a pena? Como saber se a imperfeição com que unimos os pedaços já não torna aquilo uma aberração a que mais vale pôr fim?

Diria que o nosso coração sabe a resposta mais depressa que a mente. Sabemos com as emoções primeiro do que com o raciocínio se há espaço na nossa vida para o que, de momento, nos parece estorvo ou inutilidade ou, se pelo contrário, precisamos é de reconquistar espaço para que coisas ou pessoas novas ocupem o espaço entretanto deixado livre.

[PS: Claro que o que acima escrevi não se refere a livros. Livros são livros são livros]


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Make Mistakes - Abandon your 'Perfect Life'


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Pinturas de Wolfgang Lettl ao som de Vanessa Paradis em Walk On The Wild Side

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Desejo-vos um belo sábado

sexta-feira, agosto 20, 2021

Ideias lebres


Ideas liebres son las ideas que corren, y, por consiguiente, las que nadie tiene

José Bergamín


Ontem, quando pensava que o meu marido se tinha ido deitar, apareceu-me aqui dizendo que tinha ido ao jardim ver o sistema de rega. Deve ter ido ver se estava a funcionar, não sei. Sei é que lhe disse que me podia ter dito que ia lá fora àquela hora. Pela configuração da casa, não se ouve o que se passa do outro lado e, por isso, nem tinha dado por nada. 

O sistema esteve sem funcionar alguns dias e a relva ressentiu-se. Pois bem, de madrugada, acordou-me para me dizer que ia lá fora pôr a funcionar. Virei-me para o outro lado, convencida que estava a levantar-se. Levanta-se sempre cedíssimo. Passado um bocado, voltou para a cama. Fiquei espantada. Que ideia era aquela? Perguntei que horas eram. Cinco. Fiquei passada. Porquê tão cedo e porque me tinha acordado? Explicou a razão de ser tão cedo e disse que me tinha informado pois, de noite, eu lhe tinha dito que me deveria ter avisado. Fiquei fula: nem três horas eu tinha dormido desde que me tinha deitado. Como sempre, disse-me que deixasse de protestar e que voltasse a adormecer. E eu, fula, disse-lhe que não funciono como um interruptor. Mas parece que não percebe isso.

Só voltei a adormecer quando ele saiu da cama mas, passado um bocado, tocou o telefone. Portanto, o meu défice de horas de sono, agudiza-se.

Como habitualmente, desejei amargamente poder dormir durante meia hora a seguir ao almoço. Mas, também como habitualmente, não consegui. 

Fomos almoçar já tarde, depois de uma caminhada à hora do calor. Aproveitei para lhe pedir que, a menos que haja urgência com a família ou que o céu esteja a cair aos bocados, jamais voltasse a acordar-me. Fingiu que estava a receber este pedido pela primeira vez. Mas isto dura há anos e anos. 

Quando os nossos filhos saíram de casa, para ver se conseguia dormir sem interferências, fui dormir para o quarto da minha filha. Geralmente a meio da noite, aparecia no quarto e ia enfiar-se na cama comigo: dizia que não dormia bem sozinho. Portanto, era pior a emenda que o soneto pois, sendo a cama mais estreita, ainda mais perturbação me causava. Acabei por desistir com a promessa que não me acordava de noite. Mas está bem, está. Acha que não está a acordar-me, que eu é que tenho o sono leve ou que embirro. Um chato.

De tarde, uma reunião que pensei que não duraria mais do que uma hora acabou por durar cerca de três. Do outro lado, uma pessoa ia de férias e queria deixar o trabalho em marcha e, sabendo que não tarda irei eu, ainda mais assuntos vieram para cima da mesa. Às tantas, recebi um mail do meu marido dizendo que me despachasse pois queria que fossemos escolher uma tinta para pintar o portão da horta para ver se o pintava ainda hoje.

Enfim. A gente bem tenta mas parece que há sempre um pequeno motivo que nos impede de conseguir algum tempo para nós. E assim vão passando os dias. Ou seja, passa o verão e não consigo apanhar sol no jardim ou tempo para pegar num livro.

Quando me despachei, estava também ele a despachar-se e lá fomos. Já à pressa, já atrasados.

Enfim. É o que é.

Tenho aqui dois livros que trouxe no outro dia da pequena e agradável livraria de bairro onde consegui ir, numa inesperada incursão. 

Fica longe e nada em caminho mas queria mesmo lá ir. Encomendar livros online não se compara com o contacto presencial com uma livraria de verdade onde existe uma Livreira de verdade e onde tudo é muito genuíno e onde os livros são livros e não meras embalagens de uma qualquer fancaria. Ir lá é um gosto, não apenas pelos livros mas, também, pela simpatia da Livreira. 

Achei graça que, quando lhe falei num certo livro, ela me tenha dito que não tinha lido nem recomendava pois embirra com o autor. Disse-lhe que também eu, e deu-me vontade de rir a reacção espontânea dela, e acrescentei que o livro me tinha surpreendido pela positiva. Rimo-nos com a coincidência de opiniões e ela contou-me o que lhe tinha lido nas redes sociais e que só provava que o tipo é um vaidoso e um convencido. Contei-lhe que é também essa a ideia que tenho dele. Estivemos à conversa, pois, e para concluir ela disse aquilo que eu também tendo a pensar: que mais vale a gente nem saber nada dos escritores, que há com cada estupor... e que, depois, ficamos com preconceitos contra a obra. 

Gosto de conhecer a vida de alguns escritores mas não para entender melhor a sua obra. Aliás, acho que nem me lembro de relacionar com a sua obra. Acho que gosto apenas porque, por vezes, são pessoas com vidas cheias de contradições, com uma maneira curiosa de ser. Gosto de os conhecer quase como se lesse sobre um personagem interessante. 

Há poucas pessoas com quem goste de falar sobre livros pois a maior parte das pessoas com quem falo sobre livros diz coisas que não me interessam ou interessam-se por livros que a mim não me interessam. Mas quando as pessoas têm coisas para me ensinar ou têm gostos compatíveis com os meus gosto muito de falar de livros. Aprendo. Gosto de aprender. Assim de repente sou capaz de pensar em duas ou três pessoas com quem a conversa sobre livros me abre portas e, ao mesmo tempo, me conforta. Pessoas raras.

Os dois livros que trouxe para mim foram 'Ideias lebres' de Ernesto Sampaio e 'Zonas de baixa pressão' de António Guerreiro. E estou desejando de os ler. Enquanto escrevo isto, olho-os: capas elegantes. Passo-lhes a mão pelo pelo: capas macias. Folheio-os: as palavras chamam por mim.

A ver se arranjo tempo para elas.


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Livraria Escriba



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Pinturas de Faith Ringgold na companhia de Nina Simone em I Wish I Knew (How It Would Feel To Be Free)

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Desejo-vos uma feliz sexta-feira!

quinta-feira, agosto 19, 2021

Perseguições, tiros, esguichos, cartazes, slogans e etc.

 

Foi a minha filha que, no outro dia, in heaven, se lembrou de que ali seria bom para fazerem paintball. Claro que isso desencadeou logo um movimento a favor. E até que a coisa se concretizasse foi um ápice. O meu filho, antes fervoroso praticante, ocupou-se do procurement. 

Hoje juntaram-se todos aqui para jogar na zona da horta. Não há a largueza que há lá no campo mas dá para principiantes. Antes, o meu filho enviou as regras para que todos os guerrilheiros as soubessem de cor e salteado. Enviou também instruções para o dress code (calas de ganga, blusas de manga comprida, ténis).

Portanto, todos vestidos a rigor e na posse da sua arma, com a máscara posta e sabendo já as regras, deu-se início à refrega. O meu marido esteve de árbitro. Num lugar mais elevado zelou para que não houvesse batotas nem lesões desnecessárias. A minha filha ficou a cronometrar os ataques. Eu a fazer a reportagem. Os demais participaram, alinhando-se em equipas adversárias. O mais pequeno, que estava de máscara mas como mero acompanhante do pai, aborreceu-se fortemente, também queria uma arma. Como tal não é possível, desatou a chorar, desgostoso. Melhor: furioso. Felizmente a tia tinha no carro uma arma de água, usada na praia. E assim foi que, no meio daquela guerrilha, o mais pequeno desestabilizou toda a gente, guerrilheiros, árbitro e repórter, encharcando-os a todos. Creio que apenas poupou a tia, vá lá saber-se porquê.

Durante os raids, com disparos, gritos e corridas, o que se ouvia mais eram os gritos contra o jovem aguadeiro.

E, no final, no rescaldo, ninguém se tinha lesionado ou ficado especialmente magoado mas quase toda a gente estava um pinto. 

A maior vítima foi a irmã, jovem guerrilheira que evidenciou ter, sobretudo, espírito pacifista. Ao invés dos demais que se perseguiam, atacavam ou armavam emboscadas, ela ficava escondida, esperando que ninguém desse por ela. De vez em quando disparava umas balas (para quem não saiba, as balas aqui são umas bolinhas biodegradáveis, de gelatina com tinta no meio), sem se perceber qual o objectivo pois, aparentemente, não visava nenhum alvo. Foi, pois, vítima fácil do irmão que a deixou a pingar.

Entretanto, eu tinha encomendado pizas. Por razões que devem ter tido a ver com a elevada procura, apenas chegaram cerca de hora e tal depois, já tudo estava cheio de fome e o meu marido impaciente e, como é seu costume, a atirar-me as culpas, no caso por não as ter encomendado logo às seis da tarde.

Jantámos já noite, de luz acesa -- na rua, claro -- e toda a gente conversou enquanto devorava as ditas. 

Quando aqui cheguei ao sofá pensei que não ia conseguir escrever nada, de tal forma estava cheia de sono. É que hoje, para mal dos meus pecados, a alvorada tinha sido, uma vez mais, com as galinhas. E, também para mal dos meus pecados, não apenas, de véspera, tinha ido para a cama a horas inconfessáveis como tinha ido sem sono. Portanto, foi mais uma noite de descanso insucedido. Enquanto eles cá estão, estou bem, sem sono ou cansaço. A alegria de os ter juntos e alegres na companhia uns dos outros é tanta que qualquer vestígio de cansaço se dissipa na íntegra. Mal viram costas e chego ao sofá, volta em força. Chama-se a isto falta de férias. E, para esse padecimento, só há um tratamento possível: férias.

No meio destas minhas azáfamas e little afazeres ainda nem prestei atenção às autárquicas. Os cartazes já por aí andam mas parece que o espírito da coisa ainda não baixou em mim. Acho que já tenho claro em quem vou votar mas, ainda assim, gostava de conhecer as alternativas. 

Mas há com cada cartaz... Em alguns casos é o mau gosto da pose ou o ridículo excesso de photoshop tirando vinte anos aos visados, noutros é o próprio fácies dos próprios que não ajuda. 

Sei que não o devia revelar pois há coisas que, a priori, se sabe que não são especialmente bem comportadas ou politicamente correctas. Mas ninguém aqui é perfeito nem tenta fazer-se passar por isso. Portanto, vou contar.

É que o máximo de atenção que temos prestado às autárquicas é quando, indo de carro, nos deparamos com os cartazes. De um, o meu marido disse: 'Não deviam ter feito um cartaz com esta gaja. Com uma cara destas, haverá alguém que vá votar nela...?' e eu dou-lhe razão. Há caras que não enganam. Pior foi o comentário quando viu um cartaz com três mulheres. Disse: 'Deixem passar, deixem passar, nós somos fufas e o mundo vamos mudar'.

Parafraseava, como é óbvio, os ditos da célebre manif abaixo reportada e da qual tive conhecimento através de Mestre Plúvio ao partilhar tão preciosa pérola:


E, de facto, olhando aquelas três naquele cartaz, a ideia de participarem numa manif com aquele maravilhoso grito de ordem parece-me muito possível. Não que a orientação sexual dos candidatos tenha alguma coisa  a ver com a orientação política de quem neles vota mas, ainda assim, não sei se aquele cartaz, com aquelas três, com as expressões e, sobretudo, os penteados que têm, faz muito sentido.

Apenas acrescento que o meu marido tem uma característica: pega na letra de uma canção e mantendo a métrica e o tom, troca-lhe as voltas, vira-a do avesso, torna-a absurda ou maliciosa. Felizmente só exercita esse seu dom ao pé de mim pois, geralmente, é altamente inconveniente. Desta vez, trocou parte do slogan e tornou-o absolutamente impróprio para salão. Mas, lá está, manteve a métrica e o sentido. Levou-o foi ainda mais longe. Tanto que obviamente não o posso aqui revelar. Private, private jokes.

E, para já, sobre autárquicas, é o que me apraz dizer. E, sobre qualquer outra coisa, para já, é a mesma coisa: aos costumes digo nada.


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Pinturas de Hsiao Chin ao som de Catrin Finch que interpreta Clear Sky

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Um dia bom.
Saúde. Alegria. Força. Esperança.

quarta-feira, agosto 18, 2021

Agora e na hora da nossa morte. Ámen.

[Felizmente cada vez se consegue conhecer melhor a longa cauda do π e, parecendo que não, isso talvez sejam boas notícias]

 


Tenho andado numa de cenas domésticas, incapaz de alinhar duas palavras sobre temas que não metam vassoura ou balde e esfregona. 

Estiveram cá os meninos e é sempre uma ternurinha boa e uma alegria. Meninos lindos e queridos. Por isso, hoje o dia foi tranquilo e bom. Contudo, agora à noite surgiram uns mails algo inesperados que requereram a minha atenção e consumiram o meu precioso tempo livre. 

Por isso, só agora estou a pegar nisto, e já passa bastante da meia-noite. Mas acho que não devo passar ao lado de mais uma daquelas enormes incompreensões históricas: o que está a passar-se no Afeganistão. O precipitar de uma situação inimaginável e as imagens que nos chegam parecem coisa de loucos. Parece uma história mal contada. Parece que adormecemos a meio do filme e que, ao acordar, percebemos que perdemos o fio à meada e já não conseguimos captar patavina do que está a passar-se.

Mas a vida, especialmente a este nível, está cheia de coisas mal explicadas. Ainda me lembro do dia da invasão do Iraque. Eu achava um absurdo e um abuso. Estava revoltada. Parecia-me inconcebível que a comunidade internacional apoiasse uma tal perfídia. Nesse dia, tinha um compromisso num local muito bem, nada mais nada menos que uma belíssima moradia no Restelo. O ambiente não era propício a discussões sobre temas destes até porque a pessoa com quem eu estava, por sinal um conservador encartado, acreditava piamente que haveria razões para a invasão, dizia que não lhe passava sequer pela cabeça que eu pudesse duvidar da veracidade do que presidentes de vários países diziam. Achava que a minha discordância era mais do que blasfémia, era uma coisa inimaginável. Duvidava até da minha inteligência. E eu achava que decisões daquela natureza só poderiam tomar-se mediante a evidência de provas inequívocas e que isso ainda não tinha acontecido e que, portanto, tudo o resto era, em minha opinião, um intolerável atropelo às mais elementares regras que deveriam regular o mundo. 

Muitas vezes, desde então, temos falado nisso. Ele costuma dizer que se enganou quanto a isso mas que eu também já me enganei, nomeadamente quando não acreditei que acabassem com o BES e ele me dizia que, por muito estúpida que fosse essa decisão e por muito que lhe custasse dizer que o Passos Coelho era um bronco irresponsável, tudo levava a crer que era ainda mais burro do que parecia e que acreditava que iam mesmo estourar com o banco. E eu teimava que, por muito bronco que o Láparo fosse, não cometeria burrice de tal calibre e, se cometesse, o cego, surdo e mudo do Carlos Costa do Banco de Portugal, haveria de travá-lo. Enganei-me. Quid pro quo.

Mas nestas coisas ninguém de bom senso se sente feliz por ter razão. Tem-se é pena de se ter tido razão. Nem se deve ter pena de não ter tido razão. Aqui, em matérias destas (e uma guerra não é comparável a destruir um banco mesmo causando ondas sucessivas de danos para todo o sistema nos anos seguintes), tudo o que se diga ou pense está a milhas de tudo o que haveria para dizer ou pensar. Por isso, a decisão inteligente, será ficar em silêncio. Ou rezar. 

(Uma oração em silêncio, sussurrada com temor e sob a maior incompreensão.)

Com o Afeganistão é quase a mesma coisa. Ninguém sabe bem a dimensão dos imbróglios nem quem está certo ou errado. Nada é linear, nada assenta em premissas francas e inequívocas. Há muita geo-política, muita geo-economia, muita geo-finança -- e muito disto tudo misturado e condimentado com informações geridas e geradas pelos serviços secretos. 

Qual a verdade é questão que, nestes casos, está para além da filosofia. A verdade aqui é um pot-pourri de meias verdades, de meias mentiras, de farsas indecorosamente engendradas, de conluios, de traições, de estratégias, de tácticas, de enganos, de erros, de escaramuças, de confusões, de exercícios de relações públicas, de jogos de espelhos, de raciocínios que se perdem nas traduções. 

No meio de tudo isto, por muito que custe aceitar, os que morrem, os que ficam estropiados ou traumatizados para o resto da vida são mero pormenor. 

Que vinte anos de intervenção não tenham servido para nada, que muitas vidas se tenham perdido para nada são pormenores, pequenos apontamentos que não contam para a história. E é no h minúsculo que manifesto a minha tentativa de mostrar respeito (e muita pena) pelos que, em tudo isto, ficaram para trás.

Aqui, o xadrez joga-se a outro nível: China, Rússia, Estados Unidos, Europa, Reinos do Petróleo e das Armas -- cavalos, bispos, rainhas, peões, torres. Nesta guerra há um tabuleiro: o mundo. Há peças: muitas. Duvido é que haja um rei. 

E, depois, colocando as coisas em perspectiva, não sei se alguma coisa neste jogo é mais relevante do que os mortíferos tremores de terra, os dilúvios nunca antes vistos, o degelo cada vez mais acelerado, os calores e os incêndios avassaladores, o mar que paulatinamente vai subindo, a pandemia que vai ceifando vidas -- tudo isto a que se assiste um pouco por todo o lado, desgraças que também sacrificam vidas humanas (e, em alguns casos, não humanas) e que igualmente resultam de decisões erradas e erráticas.

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No meio de tanta coisa terrível, uma notícia se destaca pelo insólito. 

Swiss researchers have spent 108 days calculating pi to a new record accuracy of 62.8tn digits. 

Na minha cabeça, para facilidade de memorização e para efeitos calculatórios, π = 3,1416. Claro que sabia que não era bem isso, que a seguir ao segundo 1 não era um 6, era um 5 e depois um 9 e depois.... um nunca acabar. Simplesmente, atalhava caminho e arredondava onde me parecia que já não fazia muita diferença. Num mundo analógico, as coisas eram 'mais coisa, menos coisa'. Mas o mundo em que vivemos já pouco tem de analógico. Ou seja, em determinadas situações em que a total precisão é fulcral, ter quatro, cinco ou cinquenta ou quinhentas casas decimais já faz diferença. O π entra em tudo o que é lado e a precisão, cada vez mais, é indispensável.  

Pi appears everywhere, from the general relativity of Einstein to corrections in your GPS to all sorts of engineering problems involving electronics

Pi is, of course, a mathematical constant defined as the ratio between a circle’s circumference and its diameter. The circumference of a circle, we learn at school, is 2πr, where r is the circle’s radius.

It is a transcendental, irrational number: one with an infinite number of decimal places, and one that can’t be expressed as a fraction of two whole numbers.(...)

The constant appears in Euler’s identity, eiπ + 1 = 0, which has been described as “the single most beautiful equation in history” (and has also featured in a Simpsons episode)

(...) Mathematicians have estimated that an approximation of pi to 39 digits is sufficient for most cosmological calculations – accurate enough to calculate the circumference of the observable universe to within the diameter of a single hydrogen atom.

O artigo é fascinante. É uma lufada de ar fresco e de poesia naquilo que, se nada fizermos para inverter a trajectória, bem pode ser o caminhar para o fim dos tempos.

[Mas vamos fazer, vamos inverter a trajectória, claro que vamos]


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Fotografias de crianças afegãs da autoria de Steve McCurry

Watan Jan - Orquestra feminina afegã "Zohra"

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Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, agosto 17, 2021

... e a tareia continua...

 


No domingo fui dormir tarde demais. Vi o episódio do Bodyguard até ao finzinho, agarrada, desejando que o seguinte fosse tão bom como aquele.  Lindo, espadaúdo, valente, inteligente, sensível, o sargento David Budd tinha tudo para me ter presa a ele noite após noite. Afinal foi o último episódio. Fiquei desiludida. Não se faz.

Fui para a cama por volta das duas e meia e custei a adormecer. Quando estou muito cansada acontece-me isto. Sempre que estava a adormecer, vinha a mim com as ideias que estavam a martelar-me o juízo: onde é que se põe isto? agora o que é que se faz àquilo?

Não sei a que horas consegui descansar mas já a madrugada ia avançada.

Passado um bocado, o alarme. Acordei sobressaltada. Uma vez mais o meu marido deixou o alarme parcial quando saiu para o seu passeio madrugador e, estando de volta, foi à zona abrangida fazendo-o disparar. Fiquei passada, precisava tanto de dormir. Diz-me ele: 'Desculpa lá, foi sem querer. Vai dormir'. Como se fosse possível. 

Ainda por cima, no meio do trabalho, tinha uma máquina de roupa para fazer. E, máquina feita, resolvi também lavar dois tapetes, mas lavados à moda antiga: estendidos no chão com mangueira, detergente, vassoura de arame, bem esfregados. Pensei: mal acabe de almoçar, sento-me a descansar. Está bem, está. Reunião, marcada de supetão, logo a seguir ao almoço. Tive foi que almoçar a correr. E prolongou-se tarde fora.

Quando saí do meu estaminé, o meu marido contou que o senhor da oficina dos alumínios finalmente lhe tinha ligado. 

Encomendámos as janelas e as portas para a casa in heaven em Abril e, por falta de materiais ou sei lá o quê, estávamos a ver que nada. Aliás, o senhor até já nos tinha dito que, se quiséssemos, nos devolvia o dinheiro já pago. Acreditámos na sua seriedade e esperámos. Mas já desesperávamos. Além do mais, a nossa ideia original era que tudo isto, janelas, portas e pinturas, tivesse ficado pronto antes do verão para que, quando lá quiséssemos ficar, estivesse tudo despachado. Mas estas coisas não são como a gente as quer mas quando podem ser.

Mas, então, o senhor tinha ligado: o material já tinha chegado e estava a apontar para ir montar tudo lá mais para o fim da próxima semana mas tinha uma dúvida nas portas e precisava que nós disséssemos como queríamos. Era coisa difícil de explicar, só vendo no local.

O meu marido olhou para mim e eu para ele: por umas e outras razões poderia ser-nos difícil lá ir durante a semana pelo que, se não fossemos, lá o trabalho se iria atrasar ainda mais. Então pensámos: vamos lá hoje? Ligou ao senhor e ficou combinado. No entanto, não deixou de se lastimar: um gajo não descansa...

Mal as coisas se acalmaram nos nossos trabalhos, no final da hora de expediente, lá fomos nós. Eu ia perdida de sono mas, como ele também ia na mesma, consegui manter-me acordada para o ir vigiando, não fosse a coisa dar para o torto. 

Pelo caminho, para minha surpresa, disse: se chegarmos antes dele, se calhar ainda tentávamos pôr os cortinados. Achei bem e fiquei satisfeita com a sua proactividade. Se tivesse sido eu a propor-lhe, teria ficado furioso. Assim, sendo a ideia dele, fiquei feliz da vida. Mas não me manifestei não fosse a sua boa vontade retroceder. Nunca se sabe. E, portanto, assim foi. De estendidos no chão da sala, os reposteirozões passaram a pendurados -- depois de aspirados e de muita luta e de muito palavrão pelo meio.

No fim, ele perguntou: mas agora que o gajo vai pôr as janelas é que fomos pendurar os cortinados? A pergunta era obviamente retórica. Até por isso nem respondi mas, sobretudo, não respondi para ele não se sentir derrotado. De facto, quando, no fim de semana, tínhamos resolvido pôr os cortinados, pensávamos que as janelas, na volta, só lá mais para o fim do ano. Afinal, galo, pelos vistos é para já. Mas, paciência, já estão postos. Logo se vê. Um tamanhão e um peso daqueles não tinham outro lugar para estar senão pendurados.

Enquanto o senhor não chegou, aproveitei para ir lavar as bancadas debaixo do telheiro e dar um jeito naquilo. Era onde a rapaziada das pinturas almoçava e para onde carregavam todas as traquitanas e baldes de tinta e alguidares. Estava mesmo tudo a precisar de limpeza. Ao lavar a bancada de tijoleira pensei que deveria raspá-la e encerá-la. Mas não posso querer fazer tudo ao mesmo tempo senão fico estourada. O que vale é que, até ver, o coração se tem portado bem (pelo menos que eu dê por isso).

Vi que me partiram um espanta-espíritos que tinha pendurado nas traves do telheiro, um de vidro e conchas, muito bonito, que tinha trazido de Lagos. Fiquei mesmo com pena. Estes pintores saíram-me cá uns desarrumados, desorientados, desplaneados... Deram cabo de algumas coisas e não foram capazes de informar. Acidentes acontecem... (embora a eles tenham acontecido vários)... mas, bolas, assumem-se. Estes não: tenho vindo a dar por a asa de um jarro de louça partida, o espanta-espíritos partido, o canto de outra coisa esfacelado... já nem sei.... 

Já não viemos cedo, como é bom de ver. Não sei como não caí a dormir durante a viagem, tão cheia de sono estava. 

A minha sorte é que tinha ovas de bacalhau cozidas no frigorífico. Para acompanhamento, ainda descasquei feijão verde, cenouras, batata normal e batata doce, juntei ervilhas congeladas e ovos, pus ao lume e, portanto, fiz uma salada russa. Mas, claro, não foi imediato pois há o tempo de preparação e cozedura.

Resumindo: cheguei aqui à sala perto das onze, senão depois. E aqui tenho estado a debater-me para não adormecer.

Esta terça-feira tenho que me levantar cedo pelo que não poderei atrasar-me muito aqui nas escrituras. De resto, pouco mais tenho a dizer.

Mas queria apenas acrescentar que, ao abrir a porta e entrar lá, pela primeira vez desde que as sacrossantas e intermináveis pinturas começaram (já não me lembro se em Abril, se em Maio), senti que estava a voltar a entrar em minha casa. As coisas já a começarem a estar no seu sítio, a lei e a ordem repostas, tudo limpo, tudo bonito -- um gostinho bom, bom, bom. E nem que fosse apenas por isso já  a viagem teria valido a pena.

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Pinturas de Bridget Riley.
Maria Bethânia e Adriana Calcanhotto interpretam 'Depois de ter Você'

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Um dia feliz

segunda-feira, agosto 16, 2021

Um fds de tareia

 



O meu marido, ao fim do dia, disse-me: Tu olhas para mim e não vês um idoso... mas olha que sou...'. E sorriu, dúplice. Estava em cima do escadote a colocar um varão metálico, enorme e pesadíssimo. Respondi-lhe que, de facto, o vejo como sempre vi: um homem à altura das circunstâncias. Riu-se e fez que sim com a cabeça, como quem pensa: está bem, abelha; dá-me música. 

Ficaram os três varões colocados e as cortinas levezinhas de uma das salas também mas os cortinados pesados já não deu. Estiveram ao sol, sacudimo-los, mas achamos que devem ser aspirados. São uns reposteiros de um tecido muito encorpado e, ainda por cima, forrados. Pegar neles requer músculos frescos e, ao fim do dia, a canseira já se fazia sentir. Deixei-os estendidos no chão da sala, a repousar, a ver se não se amarrotam. Quando lá voltarmos logo tratamos deles.

Ainda há muita coisa para arrumar. Como toda a casa foi pintada por dentro, na prática só lá ficaram os móveis. Bibelots, louças, roupas, livros, quadros, espelhos, tapetes, almofadas... tudo foi para o estúdio. 

Agora que já limpámos e lavámos a casa, começámos a trazer as coisas. Mas deparam-se-nos dúvidas. Como quero ter muito menos tralha à vista, há que arranjar local para guardar a remanescente. Não quero deitar fora coisas boas e de que gosto pois quem sabe um dia não me apetece voltar a ter algumas coisas à vista. No entanto, já foi fora imensa coisa.

Depois há os brinquedos e jogos que, por acharmos que os miúdos gostam de os ter à vista quando lá vão, estavam numa das salas. Agora acho que já estão grandinhos e, sobretudo, gostava de ter menos coisas que dificultem a limpeza. 

Acontece que a minha casa, por características arquitectónicas muito particulares, tem pouca arrumação. Também são opções decorativas minhas. Não gosto de móveis grandes que encham as casas, deixando-lhes pouco espaço para respirar. Já contei que, quando lá chegámos, in heaven, a casa era soturna, escura. Havia móveis escuros em toda a casa. 

Os anteriores proprietários tinham-se separado. Ele gostava daquilo e de fazer obras e melhorias em casa. Ela odiava a vida no campo, a pasmaceira, e o marido sempre entretido em coisas que pouco lhe diziam. Lembro-me de um vizinho contar que ela, às vezes, saía a correr de casa, como se quisesse fugir daquele fim de mundo. Divorciaram-se e deixaram tudo para trás. E o que deixaram revelava bem o desinteresse pela harmonia e a tristeza que a habitavam (melhor: que os habitavam a eles também).

A sala da lareira era tristíssima. Para começar, a própria lareira era acanhada, tímida. Mas o pior é que a parede maior estava preenchida com um daqueles móveis modulares, em mogno escuro, que, em tempos, se usaram. Portas em cima, portas em baixo, nichos, estantes, bar -- tudo aquele móvel tinha. Devia ter quase uns três metros de comprido e, de altura, não sei bem, talvez uns dois ou mais. Em madeira escura. De facto, aquilo tinha arrumação para tudo e mais alguma coisa mas tornava a sala sorumbática. Foi logo para a despensa. Vai de parede a parede e do chão ao tecto. E está cheio de brinquedos, de livros infantis, de trabalhos dos meus filhos de quando andavam na escola, de garrafas, de material de revelação de fotografia... sei lá. Um dia que me reforme hei-de dedicar-me a pesquisar o que por lá há... e certamente encherei vários sacos de lixo. Mas isto para dizer que o único móvel com arrumação está atafulhado, já não cabe lá mais nada, acho que nem um alfinete. 

Há ainda, cá fora, a casinha das ferramentas mas está na mesma, a precisar de arrumação à séria. Disse isso ao meu marido: Havíamos de arrumar a casinha a ver se arranjamos espaço. Respondeu-me: Força, estás à vontade. Calei-me pois aquilo não é petisco para uma lady, muito menos alone. 

Portanto, agora temos uns três caixotes com coisas que não sabemos onde pôr. 

Já tenho uma ideia mas não consegui expô-la cabalmente pois o meu marido ficou logo arreliado: não estejas sempre a arranjar coisas para eu fazer...  Não disse coisas, claro, utilizou uma palavra menos perfumada.

Agora, enquanto escrevo, reparo que ainda não consegui tirar a tinta toda de mim, ainda tenho um ou outro salpico no braço e uma unha quase toda coberta.

Já pintei uma mesinha de branco. Mas o branco é ingrato. Gastei quase uma lata de spray e o escuro do mogno não ficou bem coberto. Com as outras cores tem sido mais fácil.

Tinha também daqueles pequenos móveis que acho que se chamam colunas, umas mesinhas minúsculas, com pés fininhos, altos, com uma prateleirinha em baixo. Eram das minhas avós. Pintei uma de cor-de-rosa pastel, pálido, e outra, a maior, de um verde que pensei que ficasse mais pálido mas que, ainda assim, não ficou mal. Os móveis ganham logo outra graça e a casa também.

E ainda tenho mais umas duas ou três para levarem igual tratamento. 

Tinha, na parede da casa de banho maior, uma moldura escura em volta de um azulejo pintado à mão. Não gostei de ver. Pintei-a também. Mas deu luta pois tem um friso dourado que tentei preservar; não foi fácil. Tenho que arranjar fita-cola de pintor. Usei fita-cola larga normal e rapidamente percebi que não é a mais aconselhável.

Tenho umas outras que vou ver se arranjo spray dourado ou prateado para as aclarar e iluminar. 

Na sala da lareira também já há um tapete novo, mais claro que o anterior que foi para outro sítio.  A sala está muito mais alegre, iluminada, envolvente. Para a cozinha foi um outro que estava quase escondido. Talvez seja mais pequeno do que devia mas é bonito. Tenho que ver se me habituo à sua dimensão.

Não temos tido um minuto de descanso entre ir comprar o que nos faz falta e limpar, arrumar, colocar. 

Por exemplo, atrás das portas do quarto e das casas de banho, portas que eram de madeira escura, havia uns cabides de madeira, aparafusados às portas pelo lado de dentro. Agora com as portas branquinhas, nem pensar em atarrachar-lhes aqueles cabides. Entã,o fomos este domingo de manhã comprar uns branquinhos, daqueles que se põem a passar pela parte de cima da porta, não sendo preciso parafusos ou pregos. 

Nas mesas de cabeceira tínhamos uns candeeiros de pé dourado e com abat-jour de papel de tipo pergaminho com filet dourado. Dantes eu gostava sobretudo de coisas elegantes. E não pensava se eram ou não frágeis. E geralmente eram. Com o tempo, os frágeis abat-jours queriam separar-se do aro dourado que os sustinha e tínhamos que andar sempre a obrigá-los a um equilibrismo. Então, resolvemos dar-lhes tréguas. Comprámos uns simples e aparentemente indestrutíveis. Já lá estão. As mesas de cabeceira, tal como a cómoda, já não são escuras: são agora de um branco com toque a verde-água. Com o tampo em mármore, tudo fica clarinho a sereno. Os candeeiros ficam lá muito tranquilos, sólidos e, ao mesmo tempo, discretos.

Fomos no sábado e trabalhámos no duro até que, ao fim do dia, interrompemos para irmos visitar a minha mãe e virmos jantar a esta casa (a lindas horas, diga-se...). De manhã, neste domingo, estava eu a dormir o sono dos justos, acorda-me ele: 'estive aqui  pensar que, se calhar, o melhor era voltarmos lá para ver se damos cabo daquilo'. Não costumo ser receptiva a propostas desonestas quando sou acordada no primeiro sono mas, assim como assim, a ideia pareceu-me boa. Arranjei os mantimentos e fomos, parando para irmos às referidas compras. 

De facto, como balanço, posso dizer que ainda não foi desta que demos cabo daquilo. Mas trabalhámos alarvemente. Como de costume, andei descalça e não apenas andei de balde e esfregona como andei a lavar à agulheta uma série de coisas. E a pintar e a arrumar e a sacudir almofadas e tapetes. E sei lá que mais,

Viemos de lá tardíssimo, estafadíssimos. O que nos valeu é que os figos já estão bons senão também teríamos vindo varados de fome. 

Aliás, com este calorão, quer-me cá parecer que estão a ficar maduros à força, quase cozidos, sem terem tempo de crescer. 

Apanhei os que estavam à sombra, mais à fresca, e, logo ali, despachei o assunto. Estes aqui acima, que são os que estão mais perto de casa, são dos pardinhos, encarnado-rubi por dentro, doces que só visto. Depois de ter a barriga cheia, apanhei mais uma mão cheia deles para levar ao ancião que andava a esfalfar-se lá dentro. Isto por umas duas vezes.

Chegámos tarde e más horas e logicamente ainda fomos tomar banho. Portanto, jantámos (restos) bastante tarde. 

Passado um bocado de aqui estar deitado, adormeceu. Eu também estou capaz disso até porque já é tardíssimo mas, antes de me ir deitar, gostava de ainda ver um episódio da série que tenho andado a ver, o Bodyguard. Estou a gostar. O mundo dos Serviços Secretos interessa-me.

E ainda vou seleccionar umas fotografias quer feitas aqui quer in heaven. Já viram que consegui captar o pica-pau que por aqui estou sempre a ouvir?

E, pronto, é isto. 

Esta segunda-feira é dia de trabalho. Com sorte, consigo restabelecer-me da tareia que foi este fim-de-semana. 

[Tareia mas tareia da boa, note-se. É disto que eu gosto: de mudar, de limpar, de arrumar, de varrer, de lavar, de pensar em tornar a casa mais acolhedora, mais bonita]


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Desejo-vos uma semana muito boa.
Saúde. Alegria. Motivação.