Se eu fosse Mr. X começaria este post dizendo qualquer coisa parecida com isto:
"Recebo uma carta com a letra manuscrita na caligrafia cuidada nos clubes de Oxford, onde reconheço a tinta azul da S. T Dupont Olympio de J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College em Oxford..."
mas, plebeia das palavras que sou, não ouso arriscar-me a esse ponto e nem sequer vou referir os títulos académicos do ilustre autor a que a seguir me refiro.
Limito-me, pois, a dizer que recebi um mail do J. com uma graça que muito aprecio e onde se inclui uma inesperada citação, referências a cinema e a música e, como sempre, a simpatia franca de quem respira o ar limpo e azul das serranias.
Dizia suspeitar que eu acharia a citação interessante. Acertou na suspeição, J.: acho as afirmações -- como direi...? - deliciosas. E tanto que aqui vou partilhar. Revejo-me no que aqui é dito. A inteligência é fundamental. A inteligência e, já agora também a beleza, são essenciais.
“A world without intelligence is a primitive place, Doctor, not an enchanted place. Intelligence is part of the advancing scheme of evolution. Without it, nature reaches a plateau very quickly and does not progress beyond raw survival. The full flavor of possibility goes unsavored. And that... is a true shame.”
Tal como ele no seu mail, também não vou aqui referir o autor da citação. Contudo, aqui fica uma pista juntando aquilo que refere: 'uma nave a navegar no espaço, uma música de fundo, e uma voz cativante que anuncia:
Space: the final frontier. These are the voyages of the starship Enterprise. Its five-year mission: to explore strange new worlds, to seek out new life and new civilizations, to boldly go where no man has gone before.'
Ao ouvir as perguntas de alguns jornalistas no fim da conferência de imprensa durante a qual António Costa explicou as medidas para os próximos quinze dias, voltei a pensar que deve ser preciso ter muita paciência para aturar gente que parece não perceber nada de nada e que não se coíbe nem um bocadinho em mostrar a futilidade em que se movem.
Perante a imprevisibilidade do que está a passar-se, parece que ninguém se preocupa a sério com as tremendas dificuldades pelas quais todos os profissionais ligados à saúde estão a passar, a lidar com um fluxo crescente de doentes que não é compensado pelos que se curam, em que muitas vezes devem desejar que alguns morram mais depressa para haver vaga para acudir aos que entram. Ninguém pergunta se há tratamentos que estejam a provar bem ou se não há receio de efeitos secundários, ninguém quer saber sobre quais as instalações e pessoal de recurso para quando falharem as vagas em todos os outros hospitais. Ninguém quer saber das investigações em curso em Portugal para se ter produção de vacinas ou tratamentos. Ninguém quer saber de nada de relevante. Apesar de ter sido pacientemente explicado pelo Costa que as medidas são aferidas regularmente face à evolução dos números e ao conhecimento que se tem das circunstâncias, o que a maioria dos jornalistas quis saber foi o que vai acontecer daqui por um mês, pelo Natal. Ou, então, depois do Costa ter lido a legislação e explicado que o Presidente e o Governo estão limitados face ao que podem fazer no caso do Congresso do PCP, o que queriam saber era se o Governo não achava mal ou se isto e aquilo.
Uma futilidade que até dói.
De cada vez que o PCP quer organizar alguma coisa, levanta-se uma onda de indignação empolada pela comunicação social que até parece que estão a querer andar a espalhar covid pelos próprios e pela população circundante. Já quando foi a Festa do Avante foi a mesma coisa. Depois o que se viu é que aquilo até foi uma coisa triste, quais gatos pingados meio abandonados, pelos cantos, afastados -- sem qualquer risco. Agora, em Loures, deve ser a mesma coisa: máscaras, afastamento, sem drama. As pessoas do PCP podem não ser especialmente criativas, podem não ser capazes de perceber l'air du temps e ter o golpe de asa para dar corpo a novas preocupações e tendências, mas são pessoas responsáveis, honradas e sérias. O seu historial deve merecer-nos respeito.
Tanta histeria por causa das pessoas do PCP e depois silêncio e desinteresse totais perante o facto de o dobro das pessoas terem estado juntas no Campo Pequeno?
E, note-se, não tenho nada contra isto do Campo Pequeno. Primeiro, percebo a sua preocupação. O mundo das artes está em desintegração. Não sei se alguma vez voltará a ser o que foi. Não faço ideia. Imagino que tenham que ir pensando em reinventar-se. Espectáculos como antes não sei quando voltará a haver. Ou se voltará a haver. O mundo está a mudar para toda a gente. Mas, enquanto muda e não muda, são muitos os que estão com os pés no ar, sem chão. Muitos ou quase todos. Percebo que tenham que reflectir em conjunto e, em conjunto, pedir a atenção dos outros. Tempos complexos para quase toda a gente. Mas agora o ponto nem é esse: o ponto, o segundo, é se, estando tanta gente junta no mesmo recinto, não houve risco agravado de contágio. Vi-os. Estavam de máscara, afastados. Diria que sem problema. Mas se isto é sem problema para uns, tem que ser sem problema para todos. Para mim, que os artistas tenham estado no Campo Pequeno não é problema tal como não será que as pessoas do PCP se reúnam, cumprindo as directrizes da DGS.
Nisto dos ajuntamentos, o problema não é propriamente o número de pessoas: é a forma como estão juntas. Se não houver abraços, brindes, festança, malta sem máscara à mesa em animadas almoçaradas (como há nos casamentos, aniversários, despedidas de solteiros, baptizados, etc) e se o espaço estiver bem ventilado, então, em princípio não deverá haver problema. A menos que o problema, para quem tanto se insurge, seja o de serem comunistas.
Carl Sagan, afirmava que vivemos numa sociedade absolutamente dependente da ciência e da Tecnologia (grandes motores da civilização e do bem-estar) mas que a maioria das pessoas é ignorante nestes assuntos. Ou seja, uma receita para a desgraça.
Em regra, até aqui passava para a sociedade conhecimento testado, verificado, com potencial de previsão e que era globalmente aceite pela comunidade científica. Isto leva tempo. O que se passou com o SARS-Cov2 foi o processo científico em directo nos média, “live”.
Seria preciso perceber o processo científico, os avanços, os ziguezagues e os becos sem saída, a validação e reprodução pelos pares, para a maioria das pessoas compreender o que se está a passar. Sobretudo perceber que informação não significa conhecimento. Informação pode ser um código zero/um. E também que o conhecimento é parcial, nunca absoluto e que a ciência é o domínio da dúvida, do cepticismo, da permanente correcção. Não afirma o que está certo ou o que está errado mas o que se conhece com graus distintos de certeza. Se a isto juntarmos, a divulgação da informação feita por leigos, a vaidade de alguns investigadores à procura de notoriedade mediática, a competição entre as big pharma (fazer ciência custa muito dinheiro) e os especialistas do “achismo” e do “bitaitismo” (para não mencionar os charlatães) a mandar as suas postas por todo o lado, o cenário para a confusão fica muito bem composto.
Quanto mais ouço os ignorantes a quem as televisões põem um microfone à frente mais me agonio. As televisões e as redes sociais são um perigo, estão cheias disto. Obama diz que a internet é um dos maiores riscos para a democracia e eu concordo. Charlatões e ignorantes são do pior que há. Não percebem nada, deturpam o que ouvem, propagam aldrabices e parvoíces de toda a espécie -- e, pior, falam muito, falam em todo o lado; e o pior é que, quanto mais disparates dizem, mais os outros gostam de ouvir. O espaço público está invadido por parvoíces, asneiras, maldades. Em vez de haver opinião informada, sensata, há um ruído de fundo que inflama descontentamentos, descrenças, que alimenta a apetência por discursos simplistas, populistas.
Por exemplo, a que propósito (ou com que propósito) contratam um João Miguel Tavares desta vida? Alguma vez gente desta diz alguma coisa que se aproveite? Palermas que falam do que não sabem, que não sabem pensar, que opinam usando as patas e não os neurónios para tentar raciocinar. Mesmo o Ricardo Araújo Pereira, que é culto e não é burro, para que é que é contratado para dar opinião? Por vezes lá diz alguma coisa de jeito, em especial quando contraria o JMT, mas, na maior parte das vezes, cede à mais soez e gratuita maledicência na ânsia de apelar ao riso fácil. Falei destes mas são estes e mais dezenas deles e delas. As televisões cheias. E imagino as barbaridades que grassam nas redes sociais. Uma poluição insuportável.
Tudo o que é mentecapto gosta de ter de que dizer mal. Como nunca conseguem ver a floresta, vão andando às cabeçadas de árvore em árvore e, claro, vão acusando cada árvore em que se espetam. Não percebem que o problema é deles que não sabem orientar-se, que não conseguem ver; não conseguem perceber que, se forem de encontro a elas, se vão magoar. É escusado. Não percebem. Assim são os burros: por mais que a realidade lhes entre pelos olhos adentro eles não percebem.
Nisto da covid não há conhecimentos para poder dizer uma coisa hoje e dizer a mesma coisa passadas duas ou seis ou doze semanas. Há cientistas a seguir diversas linhas de investigação, por todo o mundo. Andam às apalpadelas. E é normal que andem. Este vírus é novo e, ao que parece, com um comportamento algo atípico. Por uma questão de partilha (a ver se, em rede, se chega lá mais depressa), as pequenas conclusões, algumas certas, outras nem tanto, vão sendo conhecidas. Mas alguém, a esta altura do campeonato, sabe alguma coisa ao certo? Creio que não. À medida que se vai sabendo mais algumas coisinha, vão-se adaptando as instruções. É o melhor que se consegue fazer.
Mas os burros não percebem isto. Os burros acham que o corona veio com manual de instruções. Ao fim de todo este tempo, ainda não perceberam que não.
Por exemplo, ainda não se sabe porque é que, numa mesma casa, dos quatro habitantes, o marido, quarenta e tal anos, está positivo e seriamente doente, a mulher, da mesma idade, positiva e apenas doente, o filho positivo e completamente assintomático e a filha negativa. E isto está a acontecer com uma conhecida, tudo gente longe de pertencer a grupos de risco, saudáveis, com vidas saudáveis. O que há neles que os leva a que, perante o contágio, os seus corpos reajam de maneiras tão distintas? Ou porque é que um jovem médico, menos de quarenta, saudável e forte, e que trata todos os dias, desde há meses, doentes covid, sabendo os do's e os dont's e como tratar-se quando a coisa aperta, está agora seriamente doente? Que conclusão é que os burros, que sabem tudo, retiram disto? Face a isto, se fossem governantes, que recomendações emitiriam que fossem válidas para toda a população in saecula saeculorum?
Acham que a directora da DGS, antes que qualquer outra pessoa no mundo, deveria saber como prevenir o contágio. Não percebem que se os sinais e as recomendações da OMS vão num sentido, à falta de melhor informação é nesse sentido que se deve recomendar que se vá. Se, passado algum tempo, os cientistas e as evidências apontam noutro sentido, então é nesse sentido que as recomendações devem passar a ir. A isto chama-se inteligência. Ora, como é sabido, a inteligência é algo a que os burros têm aversão. Por isso, mal vêem qualquer coisa que não percebem, a primeira coisa que fazem é zurrar e dar coices.
Os burros acham que não: acham que se antes se pensava uma coisa, então, para não se sentirem baralhados, é nesse sentido que se deve continuar. Os burros não percebem que a coerência -- ou melhor, a inteligência --, quando se navega por mares nunca antes navegados, é ir ajustando a rota.
Os burros não percebem outra coisa: não percebem que quem governa tem que tentar traçar a bissectriz entre múltiplos vectores: o da saúde pública, o da economia, o dos recursos existentes, o da estabilidade social. Etc. Os burros não percebem -- porque geometria ou cálculo vectorial não é com eles -- que encontrar uma bissectriz nestas circunstâncias é impossível e que o melhor que se pode conseguir, em contexto de geometria variável, é ir fazendo iterações.
Os burros não percebem que isto, o que está a acontecer, esta pandemia, não é uma coisa simples que eles possam compreender. Se nem os inteligentes e estudiosos compreendem, como podem eles compreender? Portanto o que se espera é que os responsáveis pela comunicação social não dêem palco aos burros, sejam eles comentadores, comunicadores ou simples amadores. Numa altura destas, o ruído e a poeira só servem para atrapalhar.
E depois há alguns políticos. Refiro-me agora, em concreto, aos burros. Acham que há aqui matéria para se armarem em revolucionários -- como se a saúde pública em caso de emergência fosse tema com que se brincasse às liberdades. São uns irresponsáveis e, em matérias destas, a irresponsabilidade é imperdoável.
Se não tivesse havido estas medidas mais restritivas que o estado de emergência permite, dentro de dias estaríamos com mais de dez mil infectados por dia e com o dobro no mês seguinte. Não há camas, não há médicos, enfermeiros, técnicos ou ventiladores que cheguem para acolher quem precisa numa extensão desta ordem de grandeza. Mesmo assim, com estas medidas e com estes números, a situação é dramática e mais dramática ainda vai ficar.
Os burros acham que a culpa é do desinvestimento no SNS. Burros. Não há -- nem aqui nem em alguma parte do mundo -- sistema de saúde apto a lidar com uma pandemia como esta, caso extremo, de dimensões imprevisíveis. Os recursos dimensionam-se -- aqui e em qualquer parte do mundo -- para as situações médias, admitindo-se a possibilidade de escalar dentro de percentagens razoáveis. Mais do que isso é desperdício. E o desperdício sai dos bolsos de alguém, mormente do dos contribuintes.
Um hospital é um edifício físico. Tem lá dentro enfermarias, espaços para cuidados intensivos, blocos cirúrgicos, salas de recobro, etc. Quando se intensificam os doentes, há alguma elasticidade. Por exemplo, há corredores onde se podem ir pondo macas ao lado umas das outras. Até caberem. Mas, como não se quer misturar doentes covid com doentes não covid, a elasticidade não é tão grande quanto isso. Podem ainda montar hospitais de campanha no lugar de estacionamento. Certo. E os enfermeiros, médicos para tudo? Dizem os políticos burros e as histéricas do costume: contratem-se. Boa. Onde? Há médicos e enfermeiros no desemprego? Não me parece.
E quando há médicos, enfermeiros e técnicos infectados ou em quarentena e as equipas começam a diminuir? O que se faz? Vai buscar-se ao privado? Boa. E os doentes que estão nos hospitais privados? Vão para casa? Ou deixamo-los morrer? Ou será que os burros pensam que quem vai para os hospitais privados são só os ricos e, portanto, não há mal nenhum se quinarem? Se é isso, explico: sabem que os funcionários públicos, via ADSE, frequentam os hospitais públicos? Ou que as empresas pagam seguros aos seus funcionários e eles, mesmo os de mais baixos recursos, vão a hospitais privados?
Agora mesmo ouvi um burro a dizer que acha mal que Marcelo tenha falado na 3ª vaga de covid lá para Janeiro ou Fevereiro. Insurgia-se, dizia que sabe lá o Marcelo se vai ou não haver uma terceira onda. Mas eu -- que não sou cientista nem bruxa -- daqui posso assegurar: se se aliviarem as medidas, nomeadamente se a malta puder dar largas aos afectos e desatar a matar saudades com ceias, abracinhos e todos juntos a abrirem os presentinhos no Natal, de Janeiro para Fevereiro a coisa dá um pinote que vai lá, vai. Chame-se terceira onda, pinote da curva ou desgraça da grande tanto faz, é uma questão semântica.
Agora uma coisa eu continuo a dizer. Continuo a achar mal -- e aí critico Governo e Presidente da República -- a não existência de campanhas de divulgação em força, básicas, que entrem pelos olhos adentro dos burros e dos distraídos, e concertando-se com os canais de televisão para que haja uma permanente atenção a comportamentos de risco.
Continuo a ver montes de gente de nariz de fora. Se o contágio nasce sobretudo de quem tem a boca de fora da máscara, seja porque falam, bocejam ou o que for, porque se expele com maior vigor pela boca, projectando as gotículas, o contágio dá-se, certamente, em quem tem o nariz de fora. Portanto, quer para evitar contagiar quer para evitar ser contagiado, o uso da máscara tapando boca e nariz é essencial, sobretudo quando se está em espaços fechados ou em espaços muito povoados, mesmo que ao ar livre.
Hoje vieram entregar uma coisa cá a casa. O rapaz que a veio trazer não usava máscara. Quem o atendeu foi o meu marido que, quando lhe agradeceu, recebeu de volta uma tentativa de aperto de mão. Um caso entre tantos. Mesmo agora vejo nas televisões programas de debate em que não há distanciamento nem separadores de acrílico e, claro, não há máscara. Que exemplo estão a dar?
Mas, enfim, vinha para aqui hoje para me divertir e não para isto. Mas passei pelo Expresso da Meia-Noite, pelo O último apaga a luz e pelo Governo Sombra e o que vi e ouvi tirou-me do sério. Mas também quem me manda a mim armar-me em masoquista? Querem lá ver que, na volta, a burra sou eu...?
Não vá dar-se o caso de acharem que as imagens e a música lá de cima não são suficientes para não darem a vossa visita por perdida, permitam que partilhe mais um vídeo, desta vez com um pouco de dança.
Nederlands Dans Theater (NDT) | Medhi Walerski -- 'SOON’
Um colega meu, ao princípio, dizia que, quando eu tomava alguém de ponta, coitada dessa pessoa. Agora já não diz o mesmo porque, em relação às poucas pessoas a quem ele achava que eu não podia ver nem pintada, também ele está na mesma, acabou a dar-me razão.
Só para dar um exemplo. Havia um que eu dizia que era uma lesma traiçoeira e ele gozava, dizia que lá estava eu a ser mazinha. Uma vez, numa daquelas coisas maravilhosas que dá pelo nome de avaliação 360º, esse meu colega teve uma avaliação desgraçada pois um dos colegas que o tinha avaliado lhe tinha dado 1 a tudo numa escala de 1 a 5. As avaliações são anónimas mas a pontuação dele foi tão má que ele, coitado, fez tudo para perceber quem o tinha apunhalado pelas costas. Com espanto, descobriu que tinha sido a 'lesma traiçoeira', por sinal um que ele tinha por seu amigo. Quando antes ele ainda achava que eu é que embirrava com o outro, se eu dizia alguma coisa em seu desabono, ele passava o indicador sobre o pulso da outra mão e eu já sabia que ele estava a dizer-me que aquilo era para mim uma questão de pele, não racional.
Essa dita lesma era beijoqueira. Mal me via, vinha direito a mim. Eu tentava evitar, fazendo um aceno de mão que era mais um adeusinho que um olazinho. Mas nada o demovia: 'Dê cá um beijinho'. Toda eu me encolhia. Tinha a boca sempre gelada o que me deixava na cara a sensação de estar babada. Tinha que me conter para não passar logo as costas da mão para limpar a baba. Por isso, a partir de certa altura passei a referir-me a ele por lesma babosa. o meu colega, volta e meia, quando via o outro, avisava-me logo: cuidado, vem aí a lesma babosa. E toda eu me encolhia, antecipando a horrível sensação de ficar com uma gosma fria colada à cara. No entanto, aqui entre nós, acho que não me babava, apenas tinha os lábios nojentamente gelados.
Outra vez, foi admitido um alemão para um cargo relevante. Toda a gente se derretia com a eficiência e o charme do dito cujo. Era, de facto, uma simpatia. Tratava-me pela inicial do meu nome, era divertido, dizia piadas com muita graça. Mas eu, vá lá saber-se porquê, achava que era um embuste. Na volta é aquele sexto sentido coisa que sempre irritou os meus colegas quadradamente racionais. Tudo o que o alemão dizia, e com que segurança o dizia, me soava a banha da cobra. Mas ele era um animal de palco, as suas apresentações punham o resto da malta a rir, a beber-lhe a prosa. Era convincente. Conseguia usar palavras dúbias. Quando, em privado, eu o confrontava com as suas mentiras, ele demonstrava-me que não tinha mentido, tinha apenas dito aquilo que nós queríamos ouvir. Eu passava-me. Ele dizia que havia ali pessoas que não lhe perdoariam se ele falasse verdade. E dizia-o como se falasse com o coração nas mãos. Era hábil. Fazia o que queria. Correu mundo, ficou nos melhores hotéis, viveu à grande e à francesa, tudo à conta. Às tantas, ocorreu-me que aquela formação dele parecia feita à medida para a função. O meu colega bonzinho dizia que lá estava eu de embirração, que não tinha motivo, que o alemão era topo de gama, presa de head hunter internacional, coisa fina, bife do lombo. E, a julgar pelas excelentes condições, devia mesmo ser bife do lombo. Resolvi ver os cursos daquela universidade. Não tinha nem nunca tinha tido aquele curso, coisa nenhuma. Tinha inventado um curso universitário. Contei ao meu colega. Disse que era melhor eu ficar calada, que quem acabaria mal vista seria eu. Fiquei. Tempo depois veio a descobrir-se que trabalhar não era com ele, as viagens eram mesmo só passeio e rica vida. Veio a saber-se também que a formação dele era outra, nada a ver. No seu último dia lá, veio ter comigo, despediu-se, e com ar malicioso, disse-me: vou trabalhar na minha área... E riu. Sabia que eu desconfiava. Era, na realidade, um oportunista e um tratante de primeira.
E esta conversa vem a despropósito do que aconteceu esta quinta-feira a uma execrável criatura. O meu colega bonzinho, se aqui estivesse, talvez agora passasse o dedo pelo pulso oposto a dizer-me que o problema não estava na execrável criatura mas na brotoeja que, volta e meia, brotava da minha pele. Mas não. Talvez haja quem, perante o estado de decomposição em que a fétida criatura se encontra, o desculpe, pensando que já foi uma pessoa em condições. Pois. Mas não vem ao caso. Não é disso que estou a falar. Estou a falar do presente. Da falta de moral, da falta de escrúpulos, da falta de tino, do cliente que representa e da forma como o representa. Fétido.
Pois bem. Numa daquelas sessões macacas em que tudo parece uma comédia de quinta categoria, mais concretamente uma conferência de imprensa em que defende que as eleições foram uma fraude, uma fraude na qual participaram a China, Cuba e Venezuela, acusação da qual, como sempre, não apresentou qualquer evidência, Rudy Giuliani, advogado de Donald Trump, desatou a suar a bom suar, a transpiração cobrindo-lhe a testa, a cara. Até aqui, nada de mais. O que teve de extraordinário é que a tinta do cabelo começou a escorrer-lhe pela cara. De cada lado, um escuro fio escorrente, uma coisa meio estranha. Claro que era tinta do cabelo. Mas parecia que lhe estava a sair um sangue negro, prutefacto, neurónios dissolvidos em sangue estragado.
Depois daquela cena ordinária, a mão dentro das calças, deitado numa cama de hotel e apanhado em flagrante pelo Borat, agora isto. Há qualquer coisa de fim de linha nesta desonrosa derrota de Trump, a avançar para os tribunais com queixas absurdas e a ser acompanhado por um advogado decrépito, ordinário e a escorrer tinta escura pela cara 'abaixo'. Chega a ser triste. O meu colega bonzinho estaria a dizer: embirra com ele, não lhe perdoa nada. Mas não é uma questão de embirrar, é que isto é mesmo deprimente. Mau demais para ser verdade. O advogado do presidente dos EUA ainda em funções não pode ser isto.
Rudy Giuliani appears to sweat hair dye as he makes election claims without evidence
Rudy Giuliani borat 2 scene everyone needs to see
Como é que tudo isto vai acabar?
Mal, só pode.
Já vi chamar a atenção para esta cena do maravilho filme Morte em Veneza mas, embora a situação da tinta a escorrer seja a mesma, a envolvência é outra. E até custa associar a ideia de um filme tão belo a um espectáculo tão deprimente. Mas, enfim, de facto, a ambos a tinta do cabelo escolhe-lhes pela cara parecendo sangue negro a sair-lhes da cabeça. Não é bonito de ver.
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Voltando a Giuliani, tal como a Trump, seria bom que poupassem ao mundo a indignidade do seu comportamento, das suas atitudes. É que é preciso saber retirar-se, preservar a dignidade.
Há um blogger muito especial. Olha-me como se eu fosse uma abstração, um sopro, uma sombra, a carícia que em mim adivinha e que quer fixar na tela. Olha-me e sinto que não é a mim que ele vê. Vê os pássaros que esvoaçam em torno das suas ideias, vê a luz dançando na parede, vê a harmonia que a doçura do meu olhar esconde dele, vê o caos que o entontece nas longas noites de insónia. Sou mais do que eu, sou uma companhia, uma presença, sou a sua imaginação. Por vezes cobre-me de branco e desenha sonhos sobre telas brancas, outras pinta-me com mil cores, fotografa-me, recorta-me, refaz-me. O que ele me dá, inventando-me, só eu sei. E nunca lhe pagarei o que ele me dá de si.
Há um blogger. Um ser diferente. Um construtor. Um mestre. Um provocador. Um divertido espectador. Um repórter do tempo que passa. Um guardião. Um historiador. Um coleccionador. Um paciente relojoeiro. O que nasce dele surpreende-me. E tudo lhe interessa. O mundo é uma arca de mil tesouros que diligentemente regista. É engagé e implacável. O seu lema é bem capaz de ser: straight to the point. Acho que ele prefere que eu não esteja nem aí. Não é dado a cortesias ou delicadezas. Passa bem sem as minhas atenções. Mas penso que sabe que estou aqui. É gauche e gosta de ser gauche na vida. E eu, sabendo que essa sua forma de ser gauche é a sua segunda pele, tapo-me com uma toalha e com o meu cabelo molhado para melhor esconder dele qual a minha primeira pele.
Há um blogger que vive nas alturas. Os caminhos que ele percorre só ele sabe. Habita a solidão dos largos horizontes, o olhar esvoaçando sobre os cumes azuis das montanhas -- e só ele e eu sabemos como o azul é a cor mais quente. Percorre as brumas que precedem a noite, cruza os arvoredos, ouve a música dos riachos, investiga a gradação das cores com que o tempo tinge a natureza, arrepia-se com as bramas, estremece com os vultos que se esgueiram por entre os troncos, por entre as ruínas, por entre o seu pensamento que vagueia por aqueles caminhos que apenas ele percorre. Monstros, divindades, gatos vadios, veados, raposas, lobos, mulheres inventadas que aparecem e desaparecem por entre as suaves neblinas que cobrem os montes, que embalam a consciência. Este é o seu mundo. E eu posso não saber muito mas isso eu sei.
Sobre aquele tal outro blogger...? Ah, uma criação do seu criador. Uma criatura que se diverte. Desenha personagens que olha no espelho e com elas pretende iludir quem olha sem saber se é a ele que olha se a sua imagem de pretenso macho alfa. É alguém que finge tão perfeitamente que acredita que está a fingir e eu, que sou invisível, acredito que ele acredita que está a fingir. E acredito que viaja para os mais recônditos lugares, que lê os mais clássicos de entre os clássicos, que bebe os melhores e mais sumptuosos vinhos, que conduz os melhores e mais luxuosos carros, que fuma os melhores e mais perfumados tabacos, que sabe perceber as mulheres mesmo as mais difíceis, que lhes conhece as manhas e os mais secretos pensamentos. E, fingindo que acredito que sou invisível, saio para a rua coberta de brilhos, descaramentos, ousadias, finjo também que não lhe ligo patavina, finjo que não sei de nada e rio-me, rio-me de gosto, porque a vida assim é uma graça, um teatro que a nós próprios nos surpreende. Aplausos, risos.
Há um. Se me fosse permitido dizer, diria: poderia ser o único. Mas desse blogger não quero falar. Não saberei usar as palavras certas. Nunca saberei usar as palavras certas. Inibo-me. É um connaisseur. O mais perfeito connaisseur. Conhece as mais perfeitas palavras e sabe desenhá-las com a mais elegante caligrafia. Um perfumista. Destila palavras. Decanta-as. Conhece-lhes a íntima essência. Tece abraços e beijos com palavras e há arte na forma como os abraços e os beijos são tecidos. A pureza sai-lhe das mãos e é uma pureza tão perfeita e límpida como o encantamento que se adivinha no seu olhar. Algures há uma namorada que se encanta, infinitamente enamorada, que bebe o mel dourado que as suas palavras encobrem. Mas dela eu não posso falar. Não posso porque não sei como, não conheço o alfabeto que os príncipes das palavras usam. Eu que me cubro e que quanto mais me cubro mais me dispo e que quanto mais me ofusco mais existo, deslumbro-me com os enleios ocultos que atravessam os longos e indizíveis espaços e, de longe, para ninguém, envio malícias, sorrisos, inocentes e silenciosos murmúrios.
Há outro. É sempre o outro, ele. O blogger das mil faces. Aparece, desaparece, disfarça-se, encobre-se, vigia, aparece, desaparece, disfarça-se, vigia, aparece. Mil faces, mil nomes, mil máscaras. Sendo muitos, é único. Reconheço-o. Não posso dizer que seja pelo rasto que deixa. Não sei dizer. Reconheço-o. Por vezes os corpos reconhecem-se. Mas aqui não há corpos. Aqui há abstracções. Mas reconheço-o. O tempo pode ter toda a elasticidade do mundo, o tempo pode agigantar-se, o tempo pode tecer elegias, o tempo pode ir passando em mil línguas, em mil geografias, envolto em mil histórias, que ele, o blogger das mil faces e mil nomes, está sempre presente. O tempo passa e ele permanece. Nunca o mesmo. Não sei se ele sabe quem é mas eu sei. Ausenta-se, aproxima-se, desafia-me, disfarça-se. O tempo passa. Alimenta-se de derrotas, alimenta-se de poemas, alimenta-se de enredos, alimenta-se de paixões proibidas, inventadas, desejadas, alimenta-se de arrependimentos, de medos, de loucuras. Há anjos sem remissão, nasceram para pecadores, para sofredores. O canto da terra e a luz dos céus jamais lhe trarão a paz que desconhecem. Assim é ele. Sempre presente. Impossível esquecê-lo.
As mulheres saíram da Vogue francesa desta quarta-feira e, ao vê-las, tive vontade de as pôr a falar de alguns dos bloggers presentes na minha galeria lateral dos Frescos e Bons. Achei que estas mulheres pediam a companhia de uma outra, Melody Gardot, num Sunset in the blue.
Está a fazer um ano que a coisa começou a desenhar-se. Ouvia-se e parecia coisa distante. Coisa lá deles que gramam comer bicharada comprada vivinha da silva. Nós não, a malta cá é evoluída, vegan e tal, não somos cá de comer pangolins e o escambau.
Depois começou a abeirar-se. Coisa estranha. Os italianos a cantarem à varanda, uma coisa a fazer lembrar que la vita è bella. Vocês querem lá ver...?
Depois foram os que tinham ido lá para a neve que, ao virem, espalharam por cá. Um aqui, outro ali. E a malta a fazer contas de cabeça. Mas será possível que...? Ná, a gente não saíu de cá, tá tudo bem.
Ainda me lembro da malta das minhas convivências a depreciar. Uns valentões. Que não tinham medo, que era uma gripezinha de nada. Um para mim, desafiador, marialva, sorrisinho gozão: 'Mas quê...? Tá com medo...?'. Maroto.
Em meados de Março, tudo para casa. Mas só porque sim. Exagero, diziam eles.
Até que o Vieira Monteiro foi desta para melhor. Aí... upsss... alto lá... mas então isto também limpa malta destas...? A percepção começou a mudar lá para os meus ex-lados.
Aqui ao lado, em Espanha, uma mortandade. Não conseguiam dar conta da fera. Assustados. E nós assustados a ver tamanha devastação.
E uns acreditando mais, outros menos, uns fazendo isto, outros aquilo, cada um fazendo o que podia, a verdade é que se achatou a curva.
No verão a coisa estava melhor, a malta basicamente na rua não se contagiou tanto. Só mais os velhinhos, tadinhos, fechados nos lares, a respirarem o arzinho contaminado. Primeiro a malta pensava: isto é nos lares clandestinos, coisa de pé rapado, não têm condições. Mas depois foi nos outros, nos oficiais, nos certificados. E vá de brigadas a ver o que se passa. Até o Ferro questionou. Mas, pelos vistos, continuam a não retirar conclusões.
Ainda no outro dia, um lar todo exemplar, tudo desinfectadinho, todos longe uns dos outros, a família através de acrílico, coitadinhos, para bem deles tem que ser. Todos numa sala, afastados, nada de velhinhos em círculo, ná, tudo como numa plateia. E... todos sem máscara. As janelinhas fechadas para não entrar friozinho, tadinhos, são tão friorentos, tão frágeis. Ou seja: claro que é só até o bicho lá entrar... que ficam todos. Às dezenas de cada vez. E ninguém vê o óbvio: o mal é o ar, o ar quando está contaminado. E, sem máscara, vai tudo. A comer ou a dormir tem que ser sem máscara.
Então...? Então, como têm que estar dentro de casa e com as janelas fechadas, tem que se rever o sistema de ar condicionado. É caro? Ah, pois é. Mas então? Será preferível morrerem pessoas a este ritmo? E vão as brigadas ver se está tudo afastadinho, se as funcionárias sabem os protocolos. E está tudo bem. Só os velhinhos é que continuam a morrer à força toda. Enfim, adiante.
Entretanto, acabou o verão, veio o tempo do indoor. E, claro, os números dispararam.
Não é segunda vaga. Qual segunda vaga? É a mesma. Pensam o quê: que o bicho deu tréguas e agora se assanhou outra vez? Disparate. A malta é que se põe mais ou menos a jeito.
Dir-se-ia: com tanto tempo para aprenderem, a malta já percebeu que isto é para levar a sério. Nada. No domingo, como aqui contei, vi o impensável: centenas de portugueses exemplares (certamente mais de mil), nem sei, uma concentração de gente a correr, a andar de bicicleta, tudo a ofegar à força toda, ao lado umas das outras e a cruzarem-se em permanência uns com os outros -- e a grande, grande maioria sem máscara. Nem todos ficaram infectados? Claro que não: o vírus é selectivo, escolhe bem em quem se instalar. E depois há os que estão infectados mas o vírus também é sonso, faz de conta que não está lá, finge-se de morto. Mas, com certeza, que alguns a esta hora estão a caminho de ficar doentes.
E vendo bem: com tanta malta a pôr-se a jeito, muito pachola é o corona. O pior é que, apesar disso, aqueles em quem ferra o dente e que não se aguentam à bronca são mais do que as camas (e o pessoal) disponíveis para os tratar. Pior: há muito pessoal clínico infectado ou em confinamento, as equipas começam a estar reduzidas, não chegam para as encomendas. Portanto, ajuizado é a malta ter juízo, ficar sossegado, não conviver, usar máscara, ficar em casa sempre que puder.
Só que, no meio disto, ainda muita sorte tivemos nós. Ouçam o que vos digo: muita sorte. Uma sorte do caraças.
Então não é que um pedregulho desencabrestado veio lá do infinito, pôs-se em chamas, destravado por aí afora, e por um triz não veio dar-nos uma traulitada no toutiço, abrindo, acto contínuo, um mega fuinho debaixo dos nossos pés, atirando com a malta toda para o mais inesperado e absurdo beleléu...?
Caraças. Desta vez escapámos.
Por isso, já não vou queixar-me da burrice deste e daquele porque, na hora de levar com uma bola de fogo a 227.000 quilómetros por hora, não há cá burros nem espertos, nem cuidadosos nem grunhos. Vai tudo desta para melhor que nem dá tempo a olhar para o céu e perguntar: oh caraças, mas que raio de brincadeira é esta?
Hoje não consegui ler. Tenho o livro ao meu lado mas ponho-me a ver televisão e o tempo vai passando. Primeiro vi a entrevista de Fátima Campos Ferreira a Lídia Jorge. Superei a aversão que tenho à forma como a Fátima Campos Ferreira fala -- quase como se estivesse a falar com crianças ou com atrasados mentais, a fazer perguntas parvas, frequentemente a apelar à lamechice -- só para ver e ouvir Lídia Jorge. Não é escritora de minha especial afeição mas acho uma certa graça à forma como ela fala do Algarve rural. Há ali raízes que mergulham num chão que também sinto como um pouco meu. Toda a minha família foi, até certa altura, algarvia. Todos os meus quatro avós são algarvios. Contudo, saíram de lá ainda muito jovens. Para os meus pais, o Algarve era apenas a terra dos seus pais, tios e avós. Para mim, o Algarve ainda é uma realidade familiar ainda mais distante. Contudo, quando ouço falar do Algarve penso sempre no que são os caminhos do acaso.
Já aqui o falei: se ainda não o ocuparam, ainda deve lá estar um terreno que era do meu bisavô e que, em herança, passou para o meu avô paterno. As irmãs ficaram com a casa grande, ele com aquele terreno. Mas nunca ninguém tratou de nada. Milagrosamente, o terreno e as casas grandes, que cheguei a conhecer, tinham escapado aos pagamentos de dívidas do pai dele. Fugiu do país para fugir às dívidas de jogo e às avultadas despesas com mulheres, depois de ter perdido outras casas e outras terras. Como não havia certidão de óbito do meu bisavô para fazer a habilitação de herdeiros, não se passou para o nome do meu avô. Depois foi o meu avô que morreu e também ninguém mexeu uma palha. O meu pai também já cá não está e tudo continua na mesma. Nem eu nem a minha prima estamos para isso. Trabalhos para quê?
Do lado da minha avó paterna, foi o mesmo desinteresse: tinha herdado terrenos e casas. Desfez-se de tudo. Conheci apenas uma propriedade contígua a uma que tinha sido sua: era a casa de uma sua sobrinha, uma casa grande, um terreno imenso com alfarrobeiras, figueiras, amendoeiras, uma ribeira, animais. Eu gostava daquilo. Muito sol, muita liberdade. Campo, campo. O meu pai ficava doido com o que a mãe fazia, vendendo tudo por tuta e meia, grande parte das coisas a essa sobrinha de quem ela gostava muito. O meu pai achava a prima uma oportunista e a minha avó não gostava que ele falasse assim da prima. Essa prima tinha nome francês. Tinha nascido em França. Não sei que voltas deram os meus antepessados. Como o meu pai e o meu tio não queriam saber de contratar pessoal para apanhar e secar as alfarrobas, os figos ou para fazer azeite, a minha avó, sem os consultar, achava que não valia apena ter tudo aquilo. Com os terrenos a valorizarem-se exponencialmente, ela não queria saber disso.
E o meu pai tinha vários primos e quase todos debandaram, para França, para o Canadá. A filha mais velha de um dos primos, um pouco mais nova que eu, ainda apareceu uma vez, parisiense de gema. Elegante, bonita. Não a vi, contou-me a minha mãe. Sei que tem uma irmã, também parisiense, também muito bonita. Até nunca mais. Não sei como poderia saber deles. Perderam-se no mundo, sem quererem saber de laços familiares. Nem eles nem eu.
Do lado dos meus avós maternos, era outra coisa, gente mais citadina. Do lado da minha avó, só sei que era gente dada à política, um irmão que vivia na clandestinidade, primos da minha bisavó que eram gente de cultura e da política, feitos e factos conhecidos, um deles faz parte da história política e cultural do país. Muito primo e prima. A minha mãe e o meu tio ainda mantiveram laços com os primos mas pouco entusiasticamente. Eu nada sei deles. Soube quando era pequena. Íamos a Faro visitar as primas da minha mãe. Uma casa grande na cidade. Tenho ideia que as portadas estavam quase fechadas, a casa sombria, móveis altos e escuros.
Do lado do meu avô materno nada sei. Todo ele era diferente: muito alto, muito louro, de olhos claros. Não sei se tinha família, nunca ouvi falar. Tenho ideia que a minha mãe dizia que era de Alte. Mas não garanto. Não sei se tinha irmãos, não sei se a minha mãe teria primos desse lado. Não sei se a minha mãe conheceu avós do lado do pai. Também nunca me lembrei de lhe perguntar.
No entanto, curiosamente, os meus avós maternos guardaram até ao fim da sua vida muitos hábitos da sua infância e adolescência algarvia. E falavam nesses tempos, uma ancestralidade que lhes ficou colada à pele.
Havia também na rua dos meus pais, a rua da casa em que cresci e onde a minha mãe vive, uma vizinha algarvia. Conhecia parentes dos meus avós. Falava sempre desses tempos, desses hábitos. Ouvido de fora, tudo aquilo era muito irreal, antigo, as coisas descritas com explicações que pouco tinham de racional. O meu pai aborrecia-se: ignorância. Não conseguia aguentar um minuto daquelas histórias ou recordações. Impacientava-se por achar que era ignorância a mais. A minha mãe não, a minha mãe achava graça, gostava daquelas conversas. A vizinha dizia mal os tempos dos verbos. Em vez de 'fomos' dizia 'foramos'. A minha avó, quando relatava o que os familiares e conhecidos diziam, usava os verbos da mesma maneira. O meu pai irritava-se, dizia-lhe que parecia que não sabia falar. Ela dizia que estava a imitá-los. O meu avô ouvia aquilo e não dizia nada, não se metia em discussões.
Gostava de fazer cestos. Já o contei. Sei que me repito mas gosto de recordar esses gestos vagarosos em tardes que me pareciam eternas. Apanhava folhas que punha a secar e, depois, sentado num banco baixo, punha-se a entrançar aquelas folhas resistentes: baracinha. Penso tantas vezes: porque não consegui conservar nenhum desses cestos se gostava tanto deles? Ali ele punha a fruta ou os ovos que a minha avó ia buscar à capoeira. O meu pai não ligava nada àquilo, acho que nem olhava. A minha mãe também achava que aquelas cestinhas tinham algumas imperfeições. Eu não, eu adorava.
Não sei se por tudo isso, gosto de ouvir a Lídia Jorge a falar do seu Algarve, das suas histórias de antes, daquele Algarve rural, antigo, as raízes bem fundas em tempos de outros tempos.
A Lídia Jorge não falou nisto mas falou em coisas que me fizeram lembrar isto.
E, a seguir à Lídia Jorge, virei para o Master Chef Australia. Pura magia. Ver criar obras de arte daquela forma é para mim um prazer. A forma arrojada e inteligente como combinam ingredientes e a perfeição dos gestos deixam-me presa. Gosto mesmo. E mais gostaria se pudesse provar...
E, nesta mansidão, o tempo vai passando e eu aqui preguiçando.
Tirando isto, posso apenas acrescentar que ontem ao fim do dia colei aquela grande taça de cerâmica onde estava o aloé vera, que se partiu. Depois de muito procurar, descobri um tubo com alguma cola-tudo. Temi não ter trazido nenhum tubo da outra casa mas, surpreendentemente, encontrei um. Colei e depois atámos um arame fininho em volta do rebordo para ajudar a manter a coesão entre as partes. O meu marido acha isto uma coisa do além. Por ele, partiu-se, vai fora. Eu não. Acho aquele grande vaso uma peça mesmo bonita. Falei-lhe no kintsugi. Ele não sabia o que era e também não quis saber. Eu é que não tenho nenhuma tinta dourada, senão haveria de tornar o vaso ainda mais bonito.
Sempre me custou deitar fora coisas de que gosto. Se estão danificadas, penso que devo tentar recuperá-las e não desfazer-me delas. No fundo, tenho este meu lado zen. O meu avô paterno tinha traços orientais. Traços e atitude. Pescava nas horas vagas, cuidava da horta, fazia cestos, lia. Era uma pessoa calma, silenciosa. Nunca o vi gritar, nunca o vi exaltar-se. Entretinha-se com coisas simples. Eu gostava muito dele. De pequena até ele ser bem velhinho sempre tivemos um amor muito grande um pelo outro. Custou-me muito quando ele cegou. Sentia-se muito diminuído por não poder fazer nada do que gostava. Ninguém merece.
Hoje à hora do almoço, fomos buscar terra lá abaixo, enchemos a taça, transplantei uma planta que tinha trazido do supermercado e da qual não me lembro do nome. Coloquei umas pequenas estacas de outras plantas para compor. Se me lembrar, amanhã mostro. Na entrada de lado há um pequeno terraço para que se sobe por um lance de meia dúzia de degraus. Já lá coloquei umas quatro plantas. A ver se se dão ali. Acho que está a ficar bonito.
Pelo meio, trabalho, essencialmente reuniões, confecciono as refeições, faço uma caminhada, vejo as laranjas a crescerem nas árvores. O tempo precioso que antes gastava no trânsito agora uso desta forma. Podia usá-lo para conseguir deitar-me mais cedo... mas esqueçam, isto é genético: sou noctívaga, nada a fazer. E estou bem assim, obrigada.
Despeço-me com um vídeo comovente que invadiu a comunicação social depois de ter invadido as redes sociais. Tocante. Marta Cinta, bailarina, doente com Alzheimer, recorda a dança ao ouvir o Lago dos Cisnes. Tão extraordinário, tão comovente. Que seres vulneráveis e indefesos somos.
Vê-se e não se acredita. Estão sem oxigénio, às portas da morte e, ainda assim, ficam furiosos com ela por lhes perguntar se querem falar com alguém da família. Não acreditam que estão com Covid porque acham que isto do Covid é tudo uma tramóia. Explicam-lhes que estão com Covid, mostram-lhes o resultado dos testes, explicam-lhes o que se passa -- e eles não acreditam. Não conseguem respirar e preferem acreditar que estão com pneumonia ou com cancro do pulmão. Qualquer coisa menos Covid.
A Governadora lá do sítio gabava-se de que por lá andavam todos felizes pois ela respeitava a sua liberdade: queriam ajuntamentos? Pois ajuntassem-se. Queriam andar sem máscara? Pois, que andassem. Covid? Qual covid, a malta quer é liberdade.
Coloquei a opinião da Governadora no passado pois não quis aceder a uma entrevista na CNN pelo que não se sabe se já cortou os pulsos perante a devastação que a sua burrice causou ou se ainda vive em negação.
É um problema, a burrice.
Ouça-se o que a Enfermeira diz da sua cidadezinha. Ouça-se. E espantemo-nos com a burrice dos que continuam a achar que andar de máscara é uma chatice, que o distanciamento é uma maçada, que a malta deve poder andar na boa, como antes da pandemia.
E rezemos a todos os santinhos -- a todos! -- para que um estafermo como Trump ou Bolsonaro ou André Ventura nunca se achegue, cá pelo burgo, a um lugar onde possa mandar. Livra!
What dying Covid-19 patients told nurse stuns Camerota
Um passo atrás, e regresso a sábado. Dia tranquilo, de passeios vagarosos por entre as árvores, pisando o musgo, a caruma molhada, a terra macia e perfumada.
A casa estava fria depois de ter estado fechada durante duas semanas. As casas entristecem quando se sentem sozinhas.
Quando entro, sinto logo aquele cheiro tão característico. Parece que ainda guarda, meses após, o registo olfactivo dos últimos aconchegantes calores da lareira. Ou talvez seja da lenha que ainda ali está, a lenha dos cedros que o meu marido desbasta. Ou das azinheiras. Madeira tão perfumada e boa. Abro portadas e janelas, quero que entre a luz. Sinto a felicidade do reencontro. Admiro-me: deixei a almofada fora do sítio? Deixei. Recordo-me que não tive tempo de deixar tudo em ordem. Depois não quero saber, mal posso esperar por sair e ir ver o que há de novo.
Ontem não contei que voltaram a aparecer aquelas grandes pegadas. Um bicho que escava a terra nos sítios em que a terra é mais fofa. Tenho ideia que é na altura em que os cogumelos rebentam da terra que aparecem as marcas daquele bicho misterioso. Javali, talvez. O J. diz que sim, que aquilo é obra de javali, e eu acredito. Não sei onde se esconde. Talvez na gruta maior, mas não averiguamos. Há mistérios que não devem ser desvendados.
Depois, volto a casa. A sala de baixo, desde que a minha filha a transformou, está agora um elegante e clean lugar de tranquilidade. Apetece estar. Foi dia de leitura. Reclinada no cadeirão, uma mantinha macia no colo, aquele calorzinho bom das tardes de outono. Nas mãos, Sapatos de Corda. Mónica Baldaque fala das suas memórias, fala dos seus pais. Gosto do que ela diz da mãe. As filhas podem ser intransigentes, pouco benevolentes para com as mães. Por vezes guardam memória de apontamentos insignificantes que as marcaram sem que as mães sequer tenham ideia de que falam. Idealizam uma mãe perfeita e as mães são como elas são enquanto mães, mulheres normais, esforçadas, dedicadas e cheias de amor, mas humanas, imperfeitas. Mas Mónica, quando fala de Agustina, não se coloca como uma filha que avalia ou julga a mãe, muito menos como uma filha que acerta contas com a mãe que habita o seu passado. Não. Há ali uma muito genuína e muito profunda admiração. Mais do que como mãe, ela vê Agustina como um Ser.
Minha Mãe, mais do que uma filha, uma mulher, uma mãe, era um Ser. Um Ser raro, indefinível, pairante, impossível de encaixar em qualquer modelo. Exercitou a paciência para com Deus e a Vida, e sempre procurou o sentido dela e das criaturas que a habitam.
E fala do pai também com admiração, como se fosse outro ser especial, um guardião da liberdade e da criatividade da mãe, alguém que também reconheceu na mulher aquele toque da excepcionalidade que se presencia de perto once in a lifetime e, por tê-lo reconhecido e venerado, lhe deu todo o espaço e tempo do mudo. Viveu até ao fim, serenissimamente devotado à mulher da sua vida.
Para entrar na vida de minha Mãe, arrumou o seu próprio passado, não sei se com um sentimento de culpa, e caminhou ao lado de sua mulher. Aceitou partilhar um destino, construiu-o, por amor a minha Mãe e à inspiração que ela transmitia, e sustentava os sonhos.
Lê-se o livro e reconhece-se que Agustina paira naquelas memórias. São as memórias de Mónica a propósito da mãe e a influência daquela mulher misteriosa e ímpar está marcadamente presente.
De vez em quando saí para ver os verdes das árvores, dos arbustos, dos musgos ou o rubro das folhas das parreiras, aspirar os odores da terra e ouvir os pássaros. E, contei-o também, voltei a ver o gatinho. Não sei se é sempre o mesmo. Deixou-me chegar muito perto. Eu aproximo-me e ele, ou ela, deixam, expectantes. Há curiosidade de parte a parte, um namoro longo.
Fiz um vídeo. Não está capaz. Não sei filmar, já se sabe. Mas mostro-o, ainda assim. Talvez um dia volte a mostrar outro, já eu a fazer uma festa no enigmático animal que me espia. Senta-se a olhar para mim. Talvez ache estranho que, de vez em quando, ali apareça esta que passeia como se flutuasse, em estado de encantamento, olhando tudo como se fosse a primeira vez.
Por acaso não fotografei mas, se calhar, deveria tê-lo feito. Vindos do campo, ao regressarmos a casa, combinámos encontrar-nos com parte da família, junto ao rio, ali perto da Champalimaud. É lugar de passeio habitual, sempre agradável. Os meninos podem subir às árvores, andar de trotineta.
Mas hoje não foi fácil. Seriam onze e picos e estivemos lá até ao meio dia e tal. Pejado de gente. Tudo pejado de gente. Carros por todo o lado, chusmas de gente. Junto ao rio, na ciclovia: tudo, tudo, pejado de gente.
E, até aqui, nada de mais: eu também lá estava. O pior é, pois, outra coisa: o pior é que a larga maioria estava sem máscara. A correrem, ofegantes, sem máscara. A andarem de bicicleta, sem máscara. Não passava nem meio metro que não nos cruzássemos com várias pessoas: praticamente todas sem máscara.
Não percebo. Juro que não percebo. Não sabem que há covid? Num lugar em que não há qualquer distanciamento, onde meio mundo ofega de boca aberta, a maioria anda sem máscara. Não ouvirão as notícias? Não sabem que, em lugares assim, a máscara não é opção, é obrigação?
Como é que as autoridades e a comunicação social continuam a dizer que o comportamentos dos portugueses é exemplar?
Exemplar? Exemplar só se for do que é a burrice.
Têm que mostrar as imagens que estou a ver neste momento na televisão e dizer que os portugueses estão a meter os pés pelas mãos, a porem-se a jeito. E o Governo tem que mandar avançar a GNR, a Polícia ou os Militares para fazerem acção pedagógica junto desta gente. Ou autuar. Autuar e mostrar na comunicação social que estão a autuar. Qualquer coisa. Algumas coisa tem que ser feita. O que eu hoje presenciei deixou-me estupefacta e preocupada.
E depois há outra coisa: há muita gente que já não vê televisão. Vê netflix, andam pelas redes socias, não ouvem notícias. É, pois, aí também que muita campanha tem que ser feita.
Ou o Governo passa urgentemente à acção mas uma acção de divulgação inteligente, abrangente, persistente, quiçá até musculada, ou os números não vão parar de subir. Bolas para isto.
PS: Quanto aos grunhos que acham que não há covid, negacionistas de meia tigela que sujam a palavra Liberdade e violentamente se insurgem contra a comunicação social, contra a ciência, contra a racionalidade, contra a democracia, bem como a manif da gente da restauração que tem razão para estar assustada mas que não tem razão em vir tentar incendiar a opinião pública, com os oportunistas-populistas do Chega sempre à boleia, só fico mais tranquila pois sei que a malta do SIS não dorme em serviço. Estes momentos de crise profunda, em que parte da população está aterrada, são propícios a que os grunhos da extrema direita se infiltrem e manipulem os amedrontados e, em geral, lancem a confusão.
Espero que quem tem que agir o faça rapidamente, os identifiquem e os ponham com dono. É urgente neutralizar esses fachos, esses oportunistas, antes que a rua pegue fogo.