domingo, setembro 20, 2020

Escandalosamente belas





Não há verdadeiramente muito a contar. Compras, bastantes, a ver se nos organizamos para não estar sempre a faltar qualquer coisa. A ver se esta semana não voltamos a ter que ir ao supermercado. Temos congelado pão e fica óptimo. Este supermercado tem um pão muito bom, pães variados, inovadores, saborosos. Para o almoço fiz bacalhau cozido com todos. 

Depois, fui lá atrás apanhar gamboas para levar à minha mãe. Como a árvore está carregada, levei muitas, pode dar às amigas e vizinhas. 

Há lá aqueles cactos gigantes, não sei o nome. Podia ia procurar, informar-me, mas não me apetece. Dá aqueles figos da índia. Penso que também se chamam figos de pita. São bichos ultra tinhosos por fora. Não se consegue pegar neles, mesmo com muito cuidado ficamos com picos muito fininhos infiltrados na pele. Também não sabia se eram bons para comer. Mas, no supermercado, vi umas caixinhas com uma meia dúzia por uns dois euros. Vi na net e fiquei a saber que são riquíssimos em vitaminas. Então calcei umas luvas de pele, daquelas das obras ou lá o que é, que o meu marido tem, e fui apanhá-los. Levei também à minha mãe. Provei e é mesmo bom. Mas é preciso cuidado, nem ao de leve se pode roçar na casca. Espeto um garfo, abro ao meio e como com colher. Fotografei mas ainda não passei as fotografias para o computador. Logo mostro.



Depois fomos à minha mãe. Agora, distraída, ia dizer 'aos meus pais'. A minha mãe está bem mas falta-lhe actividade. Isto da covid dá-lhe conta do juízo, não a deixa circular à vontade. Depois viemos para casa. Já cá estava a minha filha. Adoram cá estar. O menino mais novo adora o balouço que está ao canto, junto ao que era o canil. O bebé no outro dia perguntou-me se podia ira para o camilo. Só depois é que percebi que era o canil. 

Também veio o senhor para trocar as centralinas dos portões. Creio estar a dizer bem. No fundo, trocar os códigos para os comandos antigos deixarem de conseguir abrir os portões. 



E varremos e os meninos andaram de bicicleta e depois lanchámos. Já a tarde caía, os meninos sempre esfomeados de dar gosto, pão com leitão, pão com tomate, queijo feta e azeite. Tentei convencê-los com os figos da índia mas não se entusiasmaram. Apanhámos romãs. Ainda não estão muito doces mas os pássaros comem-nas todas.

No outro dia, a minha nora disse que, quando chegaram, estava um gatinho preto no jardim. Hoje vi-o lá atrás. Pareceu-me ainda muito novinho. Não sei se será selvagem ou de alguma outra casa. Gosto que os animais se aproximem de nós. Dos melros, então, nem vale a pena falar. Grandes, descontraídos, perto de nós como se não nos estranhassem. 



Depois, quando ficámos só nós, pus a máquina a lavar, jantámos, um jantar ligeiro pois o lanche tinha sido pouco antes e, ao aterrar aqui no sofá, adormeci. Foi daqueles sonos pesados do qual só consegui sair porque me forcei pois senti que, se o não fizesse, corria o risco de ficar a noite toda. O meu marido também adormeceu. 

Este domingo temos muito que fazer. Anseio por poder não ter nenhuma incumbência para ver se me dá para inaugurar aquilo que se agita no meu inconsciente, pedindo para eu dar uma oportunidade. Mas há sempre isto e aquilo e o outro.

Também já estou farta de todos os dias pensar no que hei-de fazer para o almoço, para o jantar. Sinto uma falta danada de ir jantar fora ou de, em tempo normal de trabalho, ir almoçar ao restaurante. Tenho saudades dos belos petiscos nepaleses, indianos, italianos. Tenho saudades dos petiscos à beira da praia. Ainda não consigo vencer a resistência de pegar em talheres ou copos que não sei se não têm coronas agarrados ou de estar numa mesa. E tenho receio que passe alguém infectado por perto sem que eu esteja de máscara. Sei que deve ser mariquice mas é uma barreira que ainda não consigo transpor. Portanto, aqui estou há meses a puxar diariamente pela cabeça para variar, para fazer comida boa, para ser peixe e carne, para não ser a mesma coisa que no outro dia, para ser saudável e sei lá mais o quê. Uma saturação pegada.



E só mais uma coisa: hoje, quando fomos visitar a minha mãe, perfumei-me. Quando entrei no carro, o meu marido admirou-se, perguntou porque é que me tinha perfumado. Respondi que simplesmente porque tinha saudades de, depois de me vestir e antes de sair, me perfumar. A trabalhar em casa, vou perfumar-me para quê? Para me sentir perfumada? Sim, poderia ser para isso mas parece-me estúpido. Claro que, quando vou trabalhar presencialmente, me arranjo e perfumo. Mas também não é a mesma coisa: não dá para pôr uma cor ou um simples brilho nos lábios. No primeiro dia, nem me lembrando do 'novo normal', acabei com a máscara toda suja de baton por dentro. Porcaria do corona. 

E, pronto, nada mais a declarar. Foi um dia mesmo sem grande coisa para contar, já tinha avisado. 



Só tenho mesmo para vos mostrar algumas das belas flores do meu jardim. Acho-as magníficas, escandalosamente belas. Um excesso fica-lhes bem. É o que tenho para vos oferecer.

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E, se quiserem, juntem-se ao baile.


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Desejo-lhe um bom dia de domingo. 
E força. Com saúde e esperança chega-se onde se quer chegar.

sábado, setembro 19, 2020

As Avós da Razão respondem a todas as suas dúvidas, mesmo às mais cabeludas:
tamanho é documento? o sexo depois dos 60 é bom? dar ou não dar no primeiro encontro? etc.


Descobri umas youtubers fantásticas. Comecei a ver e só quero ver mais. Meninas mais saradas, mais afoitas. O meu marido diz que as mulheres, à medida que envelhecem, vão ficando mais malucas. Mas não é maluquice no sentido da senilidade, é no outro. Também acho. Quando eu era mais nova era muito velha. Até na forma como me vestia ou decorava a casa. Quanto mais o tempo passa mais eu vou estando pronta para conhecer o pleno gosto da vida, sem peia ou pudor que me trave. Não que alguma vez tivesse sido muito conservadora, pudica ou travada. Mas agora estou melhor. 

Estas que aqui vos mostro são umas verdadeiras influencers. Tenho que mostrá-las à minha mãe. Vai adorar. Ainda hoje me dizia que admira as mulheres que sabem divertir-se e que dizem o que pensam sem querer saber de nada, que gostava de ser assim, que não percebe de que é que tem medo. E eu incentivo: medo de quê? fazer o que se quer é que é bom. 

Pois estas três aqui são uma graça. Não sei se, em relação a elas, me é permitido dizer que são desbragadas, se me devo ficar por desbocadas. Por via das dúvidas, talvez apenas francas. Meninas francas. E há lá melhor que uma menina franca? Inocente e franca. Irresistível.

Gilda tem 77 anos, Sonia 82 anos e Helena 91 anos. Qualquer delas com cabeça mais franca e arejada que muito chato e maçador que por aí anda, exibindo a sua frescura. 

Ora vejam.











E tudo bem. 
(E há mais por aí abaixo). 
E advirtam-se que o sábado é um bom dia para isso.

Tu perguntas-me mas, perdoar-me-ás, vou responder-te sem palavras


Não foi comigo e, no entanto, também me sinto enojada, enjoada

 

Ela sentiu a língua dele enfiada até à garganta, as mãos dele a percorrerem-lhe o corpo, o rabo, os seios, todo ele agarrado, um polvo alapado do qual não conseguia desprender-se. O asco que sentiu ainda hoje transparece do seu semblante. E eu ouço-a e imagino o nojo, o incómodo, a sujidade a alastrar, a vontade de esquecer. E, agora, a vontade de denunciar, a vontade de envergonhar a besta imunda. 

Transcrevo do The Guardian:

Amy Dorris alleges she was sexually assaulted by Donald Trump in 1997, when she was 24. Speaking publicly about the alleged incident for the first time, the former model claims Trump grabbed her as she came out of the bathroom of his VIP box at the US Open tennis event, forced his tongue down her throat and held her in a grip from which she could not escape. Trump's lawyers said he denied in the strongest possible terms having ever harassed, abused or behaved improperly toward Dorris

sexta-feira, setembro 18, 2020

A diferença entre amizade e amor

 


De amores sei bem falar e posso falar de vários e de vários tipos. Todos intensos, todos exigentes. 

De amizades também, mas aí sou mais de amizades com o sexo masculino. Se eu quiser falar de uma grande amiga, amiga para a vida, não sei bem. Amigas, várias, mas grandes, grandes amigas, que me lembre, acho que não. Com homens, sim. Desde sempre. Desde que me lembro de mim, os melhores amigos sempre do sexo oposto. Grandes, grandes amigos. Ainda hoje. Se me apetecer falar com alguém para estar na conversa, para comentar coisas, para ouvir uma opinião, para me distrair, é de um amigo que me lembro, não de uma amiga. É certo que de um há quem se me refira a ele como 'a tua amiga' mas eu não dou troco a provocações. 



E confirmo aquilo de que se fala: com os amigos, a gente pode estar séculos sem se falar que, quando volta a falar, é como se estivéssemos a retomar uma conversa da véspera. Não há recriminações, não já justificações. Há apenas o retomar natural. E a gente a um amigo desculpa tudo, encontra explicação para as suas falhas, tenta ajudar, não tem vontade de retaliar se alguma coisa foi ao lado, não exige provas, não requer assiduidade. Não há cá dúvidas sobre a gradação do afecto, não há ciúmes, não há vontade de picardias, não há cá tentação de querer juras ou promessas.

Pelo contrário, num amor caem por terra todas as santidades. Bons íntimos, isso é com a amizade. No amor, quando os demónios dentro de nós se agitam, saem à cena todas as armas e é com a nossa mais apurada pontaria que as empunhamos. No amor a gente sofre com saudades, a gente sofre com receio que tudo venha a definhar envolto em memória, no amor a gente reclama, a gente zanga-se, a gente embirra, a gente duvida, a gente pena, a gente quer proximidade, quer presença, quer o olhar do outro fixado em nós, a gente quer a nossa alma desvendada pelo outro.

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Mas isto sou eu. E que sei eu? Sei de mim e, mesmo assim, é conhecimento escasso e volátil. Para se saber mesmo, de certeza absoluta, haveria de se reunir uma amostra que respeitasse as mesmas proporções da população toda -- em idade, sexo, escolaridade, condição social, religião, etc, etc. -- e, junto dessa amostra representativa, colher opiniões. Depois de ter colhido um ror de sentenças e dúvidas se faria um mix, se coaria a mistela para lhe retirar borras e espumas e da substância se traçaria o correcto retrato. Amizade é isto. Amor, aquilo. Assim... tudo o que se diga são simples tentativas de separar algumas águas.


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E se, em vez de estar a ver qual a teve maior maior, se o avante, se o santuário, ou a dissertar sobre o apoio de uns e outros ao tal que a mim pouco me diz, o tal que agora prescindiu do polémico apoio, coisa que a mim também me deixa de fora, estou aqui nesta conversa velha e relha da diferença entre amizade e amor é porque o meu soul mate, o algoritmo do YouTube, hoje tinha para me mostrar um little video no qual Borges, com aquele seu enternecedor sorriso inocente e cego, aborda o tema.


Borges habla sobre la amistad y el amor


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Talvez que os bem nutridos do Botero não sejam discretos o qb para aqui estarem mas que é lá isso de descriminar alguém em função do peso ou das curvas?

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E tudo bem

quinta-feira, setembro 17, 2020

Cativar ou não cativar -- eis a questão





O meu marido disse: esta casa começa a estar desarrumada. Eu também já tinha dado por isso. E tinha-o sentido com gosto. Quando vieram os móveis e se arrumaram nos sítios certos, quando a minha filha escolheu peças e as dispôs onde lhe pareceram mais em harmonia com o espaço, foi como se a casa tivesse nascido ali, para nós. Era uma casa de revista, nada fora do sítio, ainda não era um ser vivo.

Agora que já aqui estamos há cerca de um mês, já aqui tenho livros ao meu lado, no sofá, já há almofadas descaídas, já há um computador fora do sítio. Hoje, apressada, entre reuniões, a meio da manhã, a minha filha chegou com os meninos. A partir desta quinta-feira deixa de ter esta mobilidade pelo que veio aproveitar o dia. Eles, de imediato vieram para esta salinha pela qual parecem ter especial predilecção. A bela e espessa coberta branca de algodão que cobre o sofá já aqui tem uma mancha nas costas, marca de um pé que, antes de aqui aterrar, andou descalço na terra. Vi-os aqui sentados, um em cima, outro num canto. De tarde chegou o meu filho e aí, as cinco crianças todas felizes, foi a animação e a graça de sempre. Têm espaço e largueza verde e, ao mesmo tempo, recatada para jogarem às escondidas. Tirei-lhes umas fotografias, o bebé à frente, dizendo: 'bora, malta'. 

Mas, depois de se irem todos, ao reentrar em casa, reparei em copos por aqui e por ali, cadeiras desarrumadas, as almofadas da sala todas desalinhadas. Tive vontade de rir. Esta é cada vez mais a minha casa. 

Não me lembro se cheguei a falar-vos de uma coisa. Havia um pormenor que me trazia apoquentada: não sabia onde arrumar os meus colares. Na outra casa, tinha 'ocupado' o ex-quarto da minha filha e, sem regras ou limites de qualquer outra espécie, fui espraiando por lá todas as minhas coquetteries. Aqui a casa tem outra tipologia, outra topologia. Mas já resolvi também mais esse pepino. Já estão organizados: as pérolas, os brancos, os claros, os turquesas, os verdes. Os dourados, os neutros. Coloquei-os num recanto que há por detrás da porta da salinha de língua portuguesa, em cujo armário embutido (na parede livre) também já tinha arrumado écharpes, carteiras, adereços diversos -- enfim, os meus ex-bens de primeira necessidade. De vez em quando vou espreitar os meus livros, tão organizados, com espaço para se reproduzirem. Os meus colares, tão bem tratados. Hoje, um dos meninos, nessa salinha, olhou em volta e vi como estava admirado. Queria saber porque estavam uns ali e os outros noutro sítio. Expliquei. Ele ouviu com atenção. E eu gostei de vê-lo a prestar atenção a estas minhas coisas. Depois viu uma fita métrica, das metálicas. Pegou logo nela e foi fazer medições, disse que gostava mesmo de medir coisas. O irmão esteve a filmá-lo, depois editou o filme, fez montagens, inseriu efeitos especiais. Muito bom. Quando o elogiei, disse que ainda ia pensar se em vez de cientista investigador não vai ser realizador. Disse-lhe que talvez possa ser as duas coisas. Pensei que é preciso ter cuidado com o que se diz a um miúdo que acabou de fazer doze anos. Muitas vezes penso no que serão em adultos. Ainda não dá para perceber. Tomara que sejam pessoas motivadas, que venham a realizar-se, que sejam felizes. E que se mantenham unidos, amigos, apoio uns dos outros pela vida toda.

Tirando isto, só posso acrescentar que agora só tenho que arranjar energia para ir à outra casa fazer as escolhas definitivas, deitar fora aquilo que já não faz sentido vir para cá, embalar o que ainda tem ou pode vir a ter préstimo, trazer o resto dos armários que irão para a cave, depois arrumar o que, na cave, ainda está em caixas e sacos.

Sobre o dia de hoje, posso ainda contar que a noite passada foi noite de são joão. A meio da noite disparou o alarme. Como a casa é grande, de noite deixamo-la em alarme parcial. E disparou, sirenes por todo o lado. Um susto do caraças. Passado um bocado, de novo. Uma sensação tramada. Andámos à caça, vimos as imagens. E percebemos que vamos ter que fazer alguns ajustes ao sistema de segurança. Já cá vêm, logo de manhã, para tratar disso. Claro que pensei naquilo do cão. Sim, um cão seria uma boa ajuda. Não que um cão só se justifique pelo aspecto instrumental. Claro que não. Há o lado do afecto e aí eu rapidamente me torno tão cão como o cão se torna gente, amigos, iguais. Mas guardar-nos-ia, faria barulho se sentisse risco. Mas, enfim, nada na vida vem sem reverso e ainda não está na altura de darmos esse passo.

Também temos que pensar na trabalheira de mudarmos a nossa morada em tudo o que é coisa. Não sei como encaixaremos isso na nossa vida sempre tão cheia de afazeres. Não é só o tema de irmos buscar o correio pois isso já sei que pode ser desviado: é mesmo a necessidade de regularizar o que deve ser regularizado.

E outra coisa -- e esta eu nem devia contar aqui pois não sei se estou a fazer uma coisa acertada. Comecei a ir deixar os restos de comida lá ao fundo, onde vi a raposa. O meu marido passa-se. Explico que quero tornar-me amiga da raposa. Não se comove, diz que atraio é ratos e cobras. Digo que não, que é longe da casa, que quero é atrair a raposa. Cativá-la. Cativar um animal, tal como cativar uma pessoa, é coisa boa, misteriosa, tão boa que quase mágica. Vou pé ante pé, receando assustar-me, receando não saber como reagir se a vir. Às vezes isso acontece, a gente desejar muito uma coisa e, ao mesmo tempo, ter medo que aconteça.

Mas, enfim, é uma aprendizagem. Estou a aprender esta casa.

E agora vou descansar. Os dias, por mais que eu faça, alongam-se sempre noite adentro, um nonsense que não sei contrariar.


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Pinturas de Pierre Bonnard na companhia de Patrick Watson com Slip into yor skin

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E um dia feliz. Boa sorte. E saúde.

quarta-feira, setembro 16, 2020

Emocionar uma mulher





Como referi há pouco, ao responder à magna questão sobre vinco, sim ou não, nos punhos das camisas dos homens, outras palavras escritas nos motores de busca que remeteram para esta vossa humilde casa, despertaram a minha atenção: emocionar uma mulher.

Para começar, uma dúvida: quem escreve isto, quer satisfazer que tipo de curiosidade?
  • Quer encontrar poemas que emocionem uma mulher? 
  • Músicas emocionantes? 
  • Quer saber truques para, através da emoção, mais facilmente conquistar uma mulher? 
Ah, como eu gostava que quem aqui chegou pela via da emoção feminina viesse explicar-me o que pretendia. Como me ajudaria a tentar uma resposta condigna.

No entanto, não sabendo nada de nada, vou arriscar e dizer algumas coisas que emocionam uma mulher. Para não cair na abstração, terei que pensar em mim, claro. De todas as mulheres, supostamente sou a mulher que melhor conheço. Digo supostamente... porque não estou certa disso. Mas, enfim, arrisco de novo. Não será fácil mas vou apelar a todos os anjos e pensar no que me emociona.


Emociono-me quando vejo uma flor escandalosa, as pétalas como petulâncias desfolhadas em amarelo, cheias de sol, uma loucura de perfeição e luz

Emociono-me quando me sento ao sol, sob as buganvílias em flor, e vejo as finas hastes do chorão tombando, verdes, todas leveza, e ouço o canto dos pássaros e sinto o ar morno, dourado, sereno, a eternidade pousada ao de leve na minha pele

Emociono-me quando ouço algumas músicas que me fazem fechar os olhos e lembrar momentos raros, a paz envolvendo-me, a memória e os sonhos confluindo para receber a dádiva dos acordes que fazem vibrar todas as minhas cordas


Emociono-me quando ouço dizer um poema, a voz de quem diz entregue à toada, o fio de voz entregue à beleza das palavras, arrepio-me, entrego-me também ao prazer do mistério que a poesia sempre encerra

Emociono-me perante a força do mar, a quietude do rio, o verde do bosque, o inocente florido dos jardins, o desprendido e alegre cantar dos pássaros, a força telúrica das montanhas, o calor húmido da terra

Emociono-me com as crianças, com as brincadeiras inocentes e desbragadas das crianças, com a sua jovialidade, com a sua vida cheia de futuro, com a sua felicidade contagiante e, em especial, emociono-me, uma emoção reconhecida, agradecida, com a companhia e com a alegria das minhas queridas, queridas crianças

Emociono-me com a generosidade, com a bondade, com a simplicidade dos pequenos gestos, com a cumplicidade genuína que unem pessoas que se estimam

Emociono-me com os sorrisos que vêm do coração, com os sorrisos velados, com os sorrisos que me acariciam, com os sorrisos que me beijam, com os sorrisos que não vejo mas adivinho

Emociono-me quando alguém sabe adivinhar a ideia que derruba as minhas barreiras, que cria laços, que aproxima contrários, que inexplica o indecifrável, que abre portas e janelas e me mostra o outro lado do mundo

Emociono-me quando vejo dançar, o corpo feito ave, os braços feitos asas, o espaço feito música, o céu a envolver os movimentos soltos, livres, alados 

Emociono-me perante a pintura inexplicável, o sangue feito cor, a alma feita negrume ou alvorada limpa, virgem, o abraço feito azul, mil tons de azul, os beijos feitos de luz, os sentimentos tingidos, tecendo uma trama infinita, indefinida, imaterial e bela.

Emociono-me quando penso nos que amo, quando estou com os que amo. 

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E, se estivesse aqui até chegarem, murmurando, os lobos, aqueles lobos que descem da noite e caminham em silêncio junto a estas paredes, olhos brancos e bafo ardente, acrescentaria mais uns quantos pontos ao que me emociona. E se estivesse ainda um pouco mais, até à hora em que os pássaros acordam e o dia desperta, mais ainda haveria de acrescentar.

Mas fico-me por aqui. Não quero que os lobos ou os pássaros da manhã se surpreendam com a minha presença. A noite a e madrugada são-lhes devidos.

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Pinturas obviamente de Van Gogh 
com Jane Siberry & KD Lang a ajudarem-me no apelo aos anjos: Calling all angels

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E um dia feliz e com boas emoções, sejam elas pr'ó menino ou pr'á menina

terça-feira, setembro 15, 2020

Coloca-se vinco no punho da camisa social ou não?


Hoje lembrei-me de ir às estatísticas ver as palavras que trouxeram pessoas até aqui. 

Não vale a pena dizer que uma das coisas que continua a ser recorrente é: 'quem é a autora de um jeito manso?'. Pois, gostavam de saber. Também eu... 

Esta semana uma outra chamou a minha atenção e, se calhar, faço um post a seguir sobre isso. Mas aqui, neste, vou dar resposta a uma outra pergunta que por três vezes trouxe a pessoa que a fez até aqui, a que coloquei como título desta mensagem: 'Coloca-se vinco no punho da camisa social ou não?'

Como não sei se quem procurou ficou devidamente esclarecido, daqui vai a minha peremptória resposta: não. Nem nos punhos, nem nas mangas. De alto a baixo, as mangas das camisas de homem não devem ter vincos, sejam elas casuais ou não casuais. 

Acrescento que há muita gente que pensa que é como nas calças de vinco: que as mangas devem ter vinco acentuado, bem definido. Engano. Nenhum vinco.

No entanto, devo confessar: muitas vezes, quando passo camisas a ferro e estou com pressa ou falta de paciência, por ser mais fácil, deixo-as com vinco. Claro que sempre com um certo sentimento de culpa. Passar mangas a ferro não é fácil se fizermos como deve ser: passá-las como o tubo que é suposto ser. 
Mas aqui vai: ajeitam-se pela costura, como se lhes fossemos fazer o vindo a meio. Mas não se chega lá. Depois viram-se e passam-se do outro lado. Seguidamente, colocam-se com a costura para baixo, a meio, e passa-se a zona central. Seguidamente, colocam-se outra vez com a costura de lado, apenas para rectificar, não vá, na manobra, algum vincozito se ter feito. Não é coisa compatível com pressas. Há aquelas tábuas que têm uma mini-tabuinha em cima. Aí é mais fácil, enfia-se lá a manga e vai-se rodando à medida que se engoma. Mas a minha não tem esse acrescento nem quero, não dá grande jeito a arrumar. Prefiro fazer como disse, trabalhosamente, ou, por vezes, como quem não quer a coisa, fazer às três pancadas, mal, com vinco (na esperança ou que ele não tire o casaco ou que dobre a parte de baixo da manga até abaixo do cotovelo, coisa que costuma fazer, ficando apenas metade do erro à vista).  Mas não sigam o meu mau exemplo, façam como deve ser. Valeu?

Era para ser sobre mulheres que não pensam duas vezes... mas afinal...





Foi como tinha dito: o que receava aconteceu. Talvez amanhã se deslinde e se tracem caminhos. Tomara. Mas, para já, a nebulosa paira sobre as coisas. E adensam-se as denúncias. Por algum motivo parece que quem calou queixas e acusações durante anos, de repente, encontrou alguém que os ouça. Mas ouvir coisas destas é um peso, uma responsabilidade. Não se pode fazer de conta que não fomos alertados. Temos que ir atrás, averiguar, ir até às últimas consequências. E, face a isto, não sei o que vai seguir-se. Quando mostro não saber como chegar às provas, recebo a seguir mensagens ou mails com novas pistas. 

E surgem outros factos: provas de deslealdade. Coisas feias. Surgem-me apenas com as palavras 'para conhecimento'. Por vezes, ainda mais laconicamente: Pc. E, abaixo ou em anexo, o comprovativo de que há pessoas que são cobras venenosas, hienas traiçoeiras. Olho e, uma vez mais, fico sem saber como digerir. Não é que me surpreenda. Nada. Fico é a pensar: e agora? o que faço com isto?


Enquanto escrevo, vejo a Paula Moura Pinheiro na Visita Guiada, na Serra da Estrela, com convidados que, fellizes, sorridentes, relatam a ventura da vida que ali se encontra, relatam aspectos relacionados com as espécies. O senhor, um biólogo, fala, com felicidade, das lagartixas da montanha ou das plantas que lá nascem, cor de rosa. Como o percebo... Penso muitas vezes que há boas profissões. Estas pessoas não sabem o que é a vida peregrina em lugares em que as lagartixas apenas dão pelo nome de répteis e as flores seriam fleures du mal se houvesse ponta de poesia nos enredos com que se cosem.


Ao fim do dia, a querer desligar, o tempo esfriava. Resolvi apanhar a caruma sobre a relva, regar, fotografar as flores. Fui duas vezes lá ao fundo, muito devagar, tentando não fazer barulho, na esperança de dar com a raposa. No domingo, falando sobre ela, perguntei como é que se faz para atrair uma raposa. O meu filho respondeu: 'Arranjas uma galinha'. Não arranjei mas não vou desistir. 

Estou cada vez mais convencida que há por aqui um pica-pau. Ouço um toc-toc-toc vindo das árvores, um toc-toc-toc firme, repetido. Também terei que tentar descobrir quem faz aquela espécie de martelar localizado nas árvores. E descobri uma romã oca. A romãzeira está carregada de romãs mas uma está oca. Tenho que me encher de coragem e, quando aqui chego ao fim do dia já sem pingo de energia, ir buscar a máquina e passar as fotografias para o computador. Deveria ilustrar o que estou a dizer com a imagem. Não percebo bem como aconteceu aquilo mas só me ocorre que os pássaros tenham comido, grão a grão, tudo, deixando apenas a casca.


À hora de almoço passei a ferro os cortinados brancos que ontem tinha lavado e deixado de molho em água e lixívia. Um tecido vagamente alinhado, difícil de engomar. Bem lhes dei com vapor, bem os humedeci. Grandes, franzidos, metros e metros de tecido. A bainha é bonita, tem uma fiada em ponto ajour, aberto. No fim, para não se amarrotarem, coloquei-os abertos sobre os sofás. Pareciam dois grandes véus de noiva. Até me fez lembrar o lindíssimo véu de noiva da minha filha, comprido, branco, com o peso elegante da renda, muito bonito. Pensei que se calhar será a nossa princesinha mais linda, cada vez mais a ganhar jeito de pré-adolescente, que um dia o usará. Mas depois deixei esses pensamentos para lá pois, parecida comigo como é na maneira de ser, ainda vai achar que casar não é sinónimo de a gente se fantasiar e ainda se casa vestida de calcinha branca justa, túnica curta transparente e com rendinhas. Mas depois refinei no pensamento e pensei que se a vovó aqui ainda estiver cá para opinar, talvez a convença a ir como quiser mas a pedir o véu emprestado à tia. Amiga de arrojar como ela é, ficaria um espanto.


Agora à noite, antes de jantar, estive a pendurá-los. Acho que já contei: teve que ser varão novo. Por defeito trazia argolas e eu fiquei toda contente, um pack completo. Mas, afinal, eram poucas. Os cortinados são grandes e com muito franzido, não são daqueles que ficam ralos. Por isso, convenci o meu marido a, no regresso, voltar lá para trazer mais uma embalagem de argolas. Depois dele as ter posto no varão, subi eu para pendurar os cortinados. Ficaram bem bonitos. Aqui as janelas vão até mais acima do que as da outra casa e, além disso, o varão também está mais acima do que é costume. Mas as janelas, estas em concreto, não vão até ao chão. Vão quase mas não chegam. Ficam com um parapeito interior onde nos podemos sentar. Então os cortinados não chegam ao chão mas ficam ligeiramente abaixo da janela. Gosto de ver.


Também resolvemos um dilema que tínhamos e que a anterior proprietária me confessou que nunca tinha conseguido resolver. Ao fundo, ao canto, a cozinha tem uma reentrância. Lá dentro, a toda a volta, prateleiras. Uma despensa com tudo à mão de semear. Como há a cave para as arrumações, ali é mesmo só para os produtos de primeira necessidade. E tudo completamente à vista, nada encafuado. Só que eu não gostava de ver aquela reentrância. Tudo branquinho e depois aquela coisa ali, uma abertura para prateleiras à vista. Mas não sabia o que ali pôr. No outro dia, quando cá esteve, perguntei à senhora. Disse-me que tinha tentado um estore, uma porta dobrável, várias soluções ao longo do tempo mas que nada era prático. Tinha desistido. Lembrei-me de um varão branco extensível e de um cortinado branco, opaco. Fui aos chineses e ficou tudo resolvido. Mal se dá por ele, fica na continuidade. E é super prático, é só afastar. Ao todo devo ter gastado uns vinte euros. Abençoadas lojas dos chineses.


E assim vão correndo os meus dias. Em breve vou voltar ao regime presencial, pelo menos em parte (isto se, entretanto, os números não vierem a aconselhar maior prudência). Também quero ver se me habituo a vir para aqui mais cedo para ver se vou mais cedo para a cama e para ver se arranjo energia para responder aos comentários. Sinto-me sempre em dívida. Tenho que ajustar os meus hábitos para conseguir chegar ao fim do dia com capacidade para falar com quem aqui deixa a sua opinião. Não levem a mal. E saibam que vos agradeço.

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As pinturas são de Lee Kransner e vêm ao som de Joe Dassin que interpreta Et si tu n'existais pas.

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Mas o absurdo é que, antes de começar a escrever, tinha escolhido os dois vídeos abaixo e a minha ideia era escrever sobre mulheres que se chegam à frente, que dizem o que querem, que não se deixam ficar, que não se cortam, que ousam, que sabem divertir-se. Depois, sei lá como, distraí-me. Mas não faz mal, os vídeos ficam aqui na mesma. Acho-os um espanto. Espero que gostem.





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A todos desejo uma boa terça-feira.
Saúde, sorte e amor.

segunda-feira, setembro 14, 2020

Ó Senhora Professora, acha que vai vencer a guerra se andar com o nariz de fora da máscara...?


Ao ver na televisão um dos noticiários da noite, a reportagem mostrava o regresso à escola. Numa sala de aula, a professora, toda empolgada, exortava à máxima atenção e cuidado, dizia que vamos vencer esta guerra, que nada de beijinhos e abraços e que, sempre, sempre, sempre de máscara. E, ao dizê-lo, tinha o nariz fora da máscara. Os miúdos ouviam-na e viam-na atentamente. Creio que ela nem deu por isso. Ou, sabe-se lá, na volta, para falar com mais veemência, sente necessidade de receber ar mais fresco e alivia um bocado a coisa.

Tenho para mim que muita gente ainda não percebeu que o maior risco em termos de se ser contagiado é inalar directamente gotículas com o coronavírus. 
Inalar -- inspirar ar pelas vias respiratórias, boca ou nariz 
Portanto, quando é consciente, o que leva as pessoas a baixar deliberadamente a máscara ou, pelo menos, deixá-la descair? Não saberão o perigo que é, especialmente quando estão em espaços fechados? Ou, mesmo em espaços abertos, quando estão a menos de metro e tal de distância de outras pessoas?

No outro dia a minha mãe dizia-me que é normal, na televisão, nos programas da manhã ou da tarde, estarem todos próximos uns dos outros, sem máscara. 

Aliás, ainda ontem o referi depois de ver, em horário nobre, o escandaloso mau exemplo que jornalistas responsáveis como José Alberto Carvalho ou Pedro Mourinho estavam a dar ao país. Da madama patroa nem vale a pena falar -- a única coisa que lhe interessa é o culto da sua própria imagem e o dinheiro que ela lhe pode render. 

Talvez seja, pois, oportuno a DGS voltar a fazer campanhas públicas para reavivar os cuidados a ter, ensinando o correcto uso de máscaras, das luvas (quando é caso disso), do desinfectante para uso cutâneo, do desinfectante de superfícies ou quais os cuidados a ter ao entrar em casa ou ao trazer compras para dentro de casa (lavar as que são laváveis?, deixá-las um ou dois dias em repouso, em especial se forem plásticos ou metais? umas horas se se tratar de tecido ou de papel?).

Agora que as escolas voltaram a ter aulas presenciais, perdendo-se o controlo a quem contacta com quem seria bom que toda a gente tivesse bem claro quais as principais formas de contágio e a forma mais eficaz de as prevenir. Os números de Setembro deixam antever o que está à espreita. Por isso, todos os cuidados são poucos.

Quantas vezes já eu vi pessoas que ao reconhecerem-se na rua, para se cumprimentarem, baixam a máscara e ficam a conversar animadamente a cerca de meio metro de distância? A minha mãe, no outro dia, com alguma naturalidade pegou no telemóvel de outra pessoa para falar com uma terceira pessoa que estava do outro lado da linha. Quando, estupefacta, lhe perguntei se se tinha esquecido da regra básica de evitar partilhar objectos que andam próximo da cara (como é o caso dos telemóveis), caíu nela e disse que tinha sido um gesto espontâneo, que nem se tinha lembrado da covid.

Portanto, é altura de mais e mais campanhas, campanhas simples, sugestivas, que incorporem a experiência e os conhecimentos dos últimos meses.

Uma letter to you.
São letras mágicas





O meu dia foi bom: caminhada na praia, ida à outra casa buscar coisas, arrumar as coisas que vieram, lavar cortinados, depois pô-los de molho em água e um pouco de lixívia a ver se voltam à alvura inicial (coisa que a minha mãe, ao telefone, já me disse que tire daí o sentido). Coisas simples. Um dia descansado. O meu marido há bocado arreliou-se comigo quando lhe disse que não sabia porque é que ele estava cansado porque o dia tinha sido tão descansado. Lembrou-me que carregou com sacos pesados, pregou coisas nas paredes, um dos quais um armário pesado. Mas isso já me parece coisa ligeira quando comparado com o que foram as semanas da mudança. E eu para além de ter lavado e relavado pesados cortinados, carreguei-os para o estendal. Ah, e passei camisas a ferro. 
Há quanto tempo não o fazia? Meses. Gostei. Gosto de passar roupa a ferro. Quando era pequena, lembro-me bem de pedir à minha avó que me deixasse passar alguma roupa a ferro. Na altura os lenços de assoar eram de pano. O irmão mais novo do meu pai ainda vivia em casa dos pais. Não sei para que queria ele os lenços. Não tenho ideia de o ver andar sempre a assoar-se. Se calhar, era costume saírem de casa com um lenço de pano lavado todos os dias. Sei que a minha avó deixava que eu passasse a ferro os lenços do meu tio. Todas as semanas havia um montinho de lenços para o meu avô e outro para ele. Mas eu gostava era de passar os dele. Um algodão macio, fininho. Lembro-me muito bem de ir passear com ele e com a namorada que viria a tornar-se minha tia e de ele lhe mostrar o lenço para que ela visse como estava bem engomado. Ah, que orgulho senti. Como me senti agradecida. Ainda agora, quando o vejo, cada vez mais curvado, a pele cada vez mais enrugada, me lembro da sua gentileza, do seu afecto por mim.

E encontrei o livro que estava a ler, Narciso e Goldmund de Hermann Hesse. Não tive tempo para voltar a ele mas tenho agora tempo para transcrever algumas palavras (incluindo as 'palavras mágicas' que puxei para parte do título deste post). 
Naturezas como a tua, dotadas de uma sensibilidade forte e delicada, as pessoas dominadas pelos impulsos da alma, os sonhadores, poetas, amantes, são-nos quase sempre superiores, a nós, intelectuais focados no espírito. A vossa origem é materna. Viveis na plenitude, a vós foi-vos dada a força do amor e da capacidade da vivência. Nós, os intelectuais, embora possa por vezes parecer que quase sempre vos guiamos e governamos, não conhecemos a plenitude, vivemos na carência. A vós pertence-vos a pujança da vida, a seiva dos frutos, o jardim do amor, o belo território da arte. A vossa pátria é a terra, a nossa a ideia. O perigo para vós consiste em afogar-vos no mundo dos sentidos, para nós em sufocarmos no espaço rarefeito de ar. Tu és artista, eu sou pensador. Tu dormes no regaço da mãe, eu mantenho a minha vigília no deserto. Para mim brilha o Sol, para ti a Lua e as estrelas; tu sonhas com raparigas, eu com rapazes...
Mais do que no mundo real, vivia naquele mundo dos sonhos. O mundo real, a sala de aulas, a cerca do convento, a biblioteca, o dormitório e a capela eram só superfície, uma ténue membrana vibrando sobre um mundo de imagens surreais alimentadas pelos sonhos. Um nada bastava para perfurar essa fina membrana: algo sugestivo, intuído na sonoridade de um vocábulo grego no decorrer de uma vulgar lição, uma fragrância saída do herbário do padre Anselm, a visão de uma grinalda de folhas de pedra que brotava do alto de uma coluna que sustentava o arco de uma janela -- pequenos estímulos que bastavam para rasgar a membrana da realidade e desencadear, por detrás daquela amena e árida realidade, a erupção dos abismos fragorosos, das caudalosas torrentes e vias lácteas do mundo imagético da alma. 
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Rogier van der Weyden está aqui por tão bem pintar retratos de mulher. 
Bruce Springsteen está aqui porque, ao contrário de muitos outros, sabe escrever uma Letter to you.  

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A todos desejo dias felizes

Em dia de regresso da Cristina Ferreira feita patroa, pergunto: acabou a Covid na TVI?
Tudo a falar boca a boca, sem máscara.
Belo exemplo estão a dar, sim senhores.


Ligámos a televisão e fomos parar ao novo estúdio da TVI. Cheira a Cristina Ferreira por todo o lado. Os jornalistas passeiam, gesticulam, tudo naquela azáfama tenta mimetizar o estilo histérico da vendilhona da Malveira. Estão à espera que chegue o grande momento: a entrevista à directora que é também patroa, a populista-mor, aquela que vira as costas a quem calhar quando lhe acenam com dinheiro. 

Mas o que mais chamou a minha atenção foi o José Alberto de Carvalho a apresentar o noticiário das oito a meias com o Pedro Mourinho, ao lado um do outro, perto um do outro, a falarem quase boca a boca. Na realidade, um atropelo, quase tiram as palavras da boca um do outro --e a respirarem o ar que cada um expele, gotículas incluídas.

Neste momento, filmam o estúdio e o que vejo é toda a gente sem máscara. Tudo a menos de um metro, num espaço confinado -- e tudo sem máscara. Se o corona ali entra vai ser uma razia maior do que no lar do Reguengos. Um péssimo exemplo o que estão a dar ao país.

Percebo agora que vai também começar um novo Big Brother com Teresa Guilherme. O ramalhete composto: são ambas histriónicas, agudas, agitadas, sorrisos em exponencial máximo, todas elas graçolas, bocas, tudo ao mesmo tempo, tudo a grande velocidade para que não dê tempo a pensar no absurdo exagero que para ali vai.

E agora está a começar a entrevista à dita CF, a tal que, dizendo-se uma ex-coitadinha a quem nem o gps apanha a sua morada e que aplica nas acções as suas poupanças, milhões, num lugar em que diz que ficará até ao fim dos seus dias, na verdade já deu mais do que provas de que se pela por dinheiro como macaca por banana, deixando na mão quem se fica atrás na jogada. A entrevista começa com um vídeo que é uma verdadeira vénia à madame. O culto de personalidade em estilo coreano-reality-show à moda da coitadinha de queluz.

Não vai acabar bem, a madame. Quem é assim, como ela é, inevitavelmente dará, um dia, um passo maior que a perna. Se calhar é o que está a acontecer  agora. Diz que fica até ao fim dos seus dias esquecendo-se que a aquilo ppode desvalorizar que algum, provavelmente ainda mais patego que ela, compre as acções a preço de uva mijona e a ponha a fazer entrevistas ao frio e à chuva à frente de um quartel de bombeiros ou se limite a oferecer-lhe dez réis de mel coado e um pontapé na bunda. Ah, a fama quando chega à cabeça dos deslumbrados fá-los esquecer quão efémero é tudo isto.

Mas pior, neste exacto momento, e foi isso que me levou a escrever isto, é a covid que deve circular à vontade ali nos estúdios da TVI -- é o que lhe correr mal a ela corre só a ela mas o que correr mal na TVI corre mal a muita gente. E o exemplo que dão pode, ainda por cima, fazer  correr mal a vida a muita gente.

Portanto, não gosto do que estou a ver. Estava à espera de ver o comentário do Paulo Portas, que parecendo que não, tinha o melhor comentário político das televisões portuguesas, mas nem sei se vai acontecer. Vou mudar de canal. Não gosto da televisão feita por gente como a Cristina Ferreira e a Teresa Guilherme nem gosto de ver, num estúdio de televisão, tanta proximidade descuidada em tempo de pandemia.

domingo, setembro 13, 2020

Dia que começou vacilante, com alguma irritação à mistura, mas que teve um final feliz, com os meninos quase a pularem a cerca e até com uma raposa a atravessar a noite





Custou-me a adormecer. Pela primeira vez, hesitava. Sentia-me como se uma corrente me tivesse arrastado e, exausta, incapaz de pensar, tivesse acabado conformada com o lugar onde tinha ido parar. E, de repente, questionava: mas será que este é o momento? será que é mesmo isto que quero? que queremos?

De manhã, eu ainda a dormir pesadamente, o meu marido foi acordar-me. Tínhamos muito que fazer antes que o novo habitante nos viesse ser entregue. Tinha-se levantado cedo, como sempre, já tinha estado a fazer uma série de coisas com vista a preparar o alojamento desse nosso novo co-habitante. Verbalizei: 'Estamos a tomar a decisão certa? Já pensaste bem no que estamos a meter-nos?. O meu marido disse: 'Mal dormi. Não sei.'. Fiquei perplexa. Sempre foi entusiasta de cães, muito mais que eu. Confirmou: 'Não sei mesmo'. De repente, todas as reservas assomavam ao meu espírito: íamos perder a nossa liberdade, a partir de agora toda a nossa vida seria agendada em função do cão. É certo que com a covid pouco se passeia mas a pandemia há-de perder vapor, haveremos de voltar a uma vida em liberdade. O meu filho diz que ficaria com ele, nessas alturas. Mas uma coisa é um fim de semana de vez em quando, outra seria duas ou semanas, duas ou três vezes por ano. E têm lá eles vida para isso? E se o cão fosse de qualidade de dar cabo dos jardins? Do nosso, do dele? Um jardim tão lindo, este meu jardim. E o deles também tão bonito, tão bem arranjado. E ambos só víamos o lado negativo. Claro que o afecto, claro que a segurança. Mas e a perda de liberdade...?

Já tinha nome. Na véspera, quando o tínhamos ido ver, logo eles a fazerem festinhas, logo todos cheios de amor pelo bichinho, o bebé (que já não é bem bebé pois já tem três anos e meio) disse: vai chamar-se Meny que é como os manos me chamam. Disseram-me depois que é Manny que se escreve. Eu não quis fazer nenhuma festa. Senti que, se fizesse, para sempre ficaria incapaz de pensar, para sempre afeiçoada a ele.

E é que, depois, há outra coisa: o absurdo e insuportável fundamentalismo das senhoras das organizações que tratam da adopção de cães. Parece elas que alguém lhes conferiu poder para se armarem em justiceiras, em juízas de costumes, em grandes decisoras, uma espécie de autoridade à direita de deus-pai-todo-poderoso. Querem saber se temos uma família estruturada, se temos uma casa com condições, querem conhecer a casa, querem conhecer-nos a nós, querem que garantamos que as autorizamos a vir cá regularmente a casa verificar as condições em que vivem os animais e, se a coisa não lhe agradar, a virem resgatar os animais. E temos que assinar termos de responsabilidade, dar-lhes a cópia do cartão de cidadão, e temos que aturá-las dissertando como se fossem donas do mundo dos animais. Pensámos: 'Mas vamos alinhar nisto? Vamos meter-nos numa fria destas...?'. E tantas dúvidas formulámos que acabámos a concluir que não. Pelo menos por agora.  Ainda não. E não desta maneira. Telefonei, enviei mensagens. Quando consegui falar com uma delas, toda sentenciosa, respondeu-me: 'Agora não posso falar mas isso não é bom'. Passado um bocado, ligou-me outra, toda prosa, toda doutoral, falando como se fosse a dona de todos os cães do mundo, a dona de todas as verdades, inspectora-mora, magistrada do grande reino dos céus para cães adoptados. Falei cordatamente com ela mas intimamente só me apeteceu mandá-la para um lugar bem feio. Uma das coisas que me chocou foi a exigência de esterilizar os bichos. Mas quem são elas para nos exigir que esterilizemos os animais? Qual a ideia? Dizem que é para evitar que nasçam ninhadas. Ouvi aquilo com uma repulsa que mal consigo aqui descrever.

Quando comuniquei à família a nossa decisão, ficaram decepcionados. Mas acho que perceberam. Sobretudo, senti que acharam muito bem que não assinássemos aquele absurdo termo de responsabilidade. Fascistas, disse o meu filho. Fundamentalistas, disse a minha filha. Gente estranha, digo eu.

De seguida, aliviados pela decisão (mas, intimamente, com pena: o cachorrinho era uma fofura), fomos caminhar pela orla do mar.

Dali fomos tratar das argolas para o cortinado. Como não as encontrámos tão grandes quanto necessitávamos (obrigada, Amofinado, mas precisava de vinte e duas bem grandes, de um castanho envelhecido, nada que o Preço Justo me resolvesse), tivemos que trazer outro varão. Dali seguimos para o supermercado. Almoçámos depois das três. Ainda deu para descansar um pouco. Quando chegaram os primeiros convivas, estava eu a dormitar. O meu marido trouxe para junto do alpendre um grelhador grande que os anteriores proprietários deixaram junto à horta. O meu filho preparou uma bela grelhada mista com carnes que trouxe: piano, bifes de borrego, asinhas de frango, alheiras. Fiz arroz e salada de tomate. Depois houve fruta, gelados e a minha filha fez o bolo de iogurte que fica sempre bom. 

E jantámos no jardim e depois ali ficámos. Os meninos a brincarem às escondidas, a trepar às árvores, a correr, e nós a vê-los. Depois as meninas do outro jardim começaram a meter-se com eles e depois eles com elas e depois foram buscar bancos para espreitar para o jardim dos vizinhos e foi uma festa, uma alegria, os rapazinhos todos malucos com as meninas. A minha filha fotografou-os e é um momento que vai ficar para a história. Uma imagem do mais inocente, divertido e inesperado que é possível.

Quando se foram, por volta das dez da noite, o céu limpo e estrelado, ainda não estava frio. Pouco depois de ter estado, no portão, a despedir-me da minha filha, liga-me ela. Mas não era ela, era o mais crescido ao telefone, todo excitado: tinham visto uma raposa. Ao fim da rua, uma raposa. Grande, um rabo grande e peludo. Tinha estado a olhar para eles. Fotografaram-na. Mandaram-me a fotografia. Fiquei emocionada, arrepiada. Afinal, aquele vulto, no outro dia, com um grande rabo felpudo ali na horta, era mesmo uma raposa. É uma sensação estranha, curiosa. A sensação de um mistério vogando por aqui. 

Vai doce o mês de Setembro. E estes dias, com todos juntos, são ainda mais doces. Dias inesquecíveis.

Parece que o tempo vai mudar. Ainda não vivi esta casa em dia de chuva. Mas sei que vai ser bom, talvez ainda mais acolhedor. Se calhar, quando não pudermos estar no jardim, porque chove ou faz frio, iremos para o sótão que é amplo e, creio, confortável. Esqueci-me de dizer que quer os miúdos quer alguns dos graúdos estiveram de máscara. Eu não. Esqueci-me ainda de dizer que sinto saudades de os puxar para o meu colo, de abraçá-los e cobri-los de beijos. Se tento, logo alguém me diz: 'olh'ó covid...!'. Mas, havendo cuidado, haveremos de nos ir aguentando e logo, logo, já poderei andar agarrada a eles, meus meninos mais lindos, mais queridos.

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E, por hoje, nada mais tenho a declarar a não ser que as pinturas são de Sargent Claude Johnson com Patrick Watson interpretando Good morning Mr Wolf

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Desejo-lhe um feliz dia de domingo

sábado, setembro 12, 2020

Qual o seu maior segredo?





Hoje foi outro dia com o seu quê de especial -- um dia tranquilo, de novo a trabalhar entre bungavílias em flor, mas com um fim de tarde disruptivo e que pode bem influenciar os próximos não sei quantos anos da minha vida. Não gosto de falar antes das coisas serem coisas mas, claro está, estou aqui a dedilhar estas palavras e com a cabeça no sucedido. Não sei como é que estas coisas me acontecem nem como é possível que tudo na minha vida mude tanto, tantas mudanças em simultâneo. O que se terá passado dentro de mim para, de súbito, ter vontade de virar costas a um trabalho ao qual me dediquei durante tanto tempo, de virar costas a uma casa que adorava, de virar costas a hábitos que foram os meus durante anos? Ainda estou para saber. A tudo viro costas sem pensar duas vezes, sem pena, sem saudades, sem receios. E este ímpeto continua dentro de mim: vontade de desbravar novos lugares, novos percursos, novas actividades. 

Só ainda não me aventurei mais pois não me sobra muito tempo: a trabalhar, o tempo livre é relativo. E depois da loucura que foi a mudança, embora ainda não esteja 100% concluída, estou numa inércia desgraçada, de repente vejo-me incapaz de me esforçar, diria mesmo que me vejo improdutiva. 

Os dias passam a uma velocidade para a qual não encontro explicação. Quando dou por ela são horas de almoçar, quando dou por ela já estou a meio da tarde, depois daí a nada são horas de fazer o jantar, de regar, depois de telefonar à família, de tomar banho, de jantar, de arrumar a cozinha, depois já aqui estou, depois distraio-me, depois já é tarde, escrevo cheia de sono, não consigo energia para responder a comentários e mails, e, como sempre, vou para a cama tarde e más horas. E, enquanto isso, a pensar que deveria organizar-me melhor para arranjar espaço para começar a explorar novas áreas pois a vontade de me aventurar por aí está a latejar faz tempo.

Ao fim do dia, como sempre, preguiçosa, tentando descobrir temas que me digam alguma coisa (já que o covid ou a ana gomes não conseguem tirar-me das tábuas -- embora o galope a que vejo o número de contágios a avançar esteja a causar-me alguma apreensão), largo os jornais que só me trazem notícias maçadoras e desloco-me para a arca dos muitos mil tesouros: o youtube. E o algoritmo que, como é sabido, percebe mais dos meus humores do que muita gente de verdade, hoje tinha para me propor vídeos de uma série que já uma vez me tinha mostrado. Uma jovem coloca um microfone e uma câmara num jardim e pede a quem passa que partilhe um segredo. E acontece o que, à luz da razão, seria impensável. Se alguém tem um segredo, por que razão o partilha, sem hesitar, perante um microfone e uma câmara, sabendo que vai ser divulgado perante o mundo? Não percebo. Juro que não percebo. E acontece-me ainda uma outra perplexidade: o que faria eu em idênticas circunstâncias? Não sei. Mas não sei porque não me ocorre nenhum segredo que pudesse ser contado. Como é que tanta gente tem segredos? 

Não sou bissexual, não tenho traumas cabeludos, não me empanturro para espantar mágoas, nunca roubei coisas no supermercado, não me sinto atraída por toda a gente, não desejo a minha melhor amiga, nunca deixei que gravassem tatuagens parvas no meu rabo em noite de bebedeira. Nada. Nada a declarar. Banalidades? Até me sentiria inibida... Vou contar que, quando era pequena, às vezes, a caminho da escola para casa da minha avó, eu e outras meninas bem comportadas íamos tocar às campainhas das vizinhas mais rabugentas? Bahhh..., toda a gente o deve ter feito. Conto que, às vezes, quando via a vizinha chata lá do prédio a caminho da entrada, me punha a mexer na carteira, como se procurasse alguma coisa, só para fazer de conta que não a tinha visto, esperando que ela subisse no elevador para só então entrar no prédio? Bahhh..., quem mais no prédio não o deve ter feito...? Vou contar que, quando ia buscar livros à fantástica biblioteca da primeira empresa em que trabalhei, quando eram livros especiais, tinha sempre vontade de não os devolver e sentia vergonha por ter essa vontade? Bahhh...., que não-pecado mais betinho... Só se for contar que, uma vez, teria eu uns dezasseis ou dezassete anos, uma cabeleira farta de dar gosto, resolvi inovar e a apresentar-me com um penteado diferente numa festa de anos onde estava o meu grande amor. Pedi uma ondulação a preceito. Nos poemas o meu cabelo era descrito como sendo de ouro velho mas, depois de uma tarde inteira de cabeleireiro, para além de ouro velho, o cabelo era o do marquês de pombal, caracóis sobre caracóis, uma juba descontrolada que deixava quem me via de queixo caído e, a mim, me fazia rir sem parar, incapaz de me encarar no espelho. 

Enfim. 

Conclusão: a vida é uma coisa curiosa e, depois de ver o vídeo, só tenho pena é que haja pessoas que guardem segredos tão tristes e que sigam em frente, com eles, tenebrosos, no fundo do seu peito. Prefiro ouvir segredos malucos, inofensivos, divertidos. Mas isto é assim mesmo: os segredos não se escolhem.



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Pinturas de Alma Thomas ao som de Georges Moustaki com a sua eterna Chanson pour elle

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E um bom sábado também para si