quinta-feira, outubro 19, 2023

Amigos contra as tempestades

 

Por aqui ainda não dou pela Aline. Mas parece que vem mesmo. A ver se não faz estragos, pelo menos, estragos de maior. 

Passa da meia-noite e meia e agora é que estou a pegar nisto. Não sei como me arranjo mas parece que, sejam quais forem as minhas circunstâncias, arranjo sempre maneira de andar sempre ocupada. 

Hoje foi na conversa com uma amiga de longa data. Impressiona-me muito como algumas amizades resistem ao tempo. É como se fossemos sempre as mesmas pessoas. A nossa história vai mudando, já vivemos muitas vidas, temos mais experiência, mas nós, nós mesmas, estamos aqui, capazes de falar horas a fio, compreendendo-nos, com vontade de conversar, de saber mais, de mostrar as nossas coisas.

Há algum tempo, quando estava na fase de me desligar do meu trabalho, eu a querer sair e a quererem que eu ficasse mais e mais, e eu, sobretudo por solidariedade e estima para com um colega que não estava bem de saúde, ia ficando e ficando, mas cheia, cheia, cheiinha de vontade de me pôr ao fresco, eu desejava dar uma volta completa na minha vida. 

E isso está a acontecer. Tenho a gestão do meu tempo, tenho a minha vida, posso estar na minha casa, que era uma coisa que eu desejava tanto, posso ler e escrever. Tenho escrito muito. Sei que tenho que passar por algumas provações até chegar onde quero. Mas passarei. Sou resistente. E resistente. E confiante. 

E o reencontro e reaproximação de amigos de quem a vida me tinha distanciado está a ser uma surpresa e uma alegria muito grandes.

...

Hoje pouca televisão vi. Entre uma e outra coisa, não me sobrou tempo. Está agora a televisão ligada mas estou a escrever ao mesmo tempo pelo que a atenção está um pouco desligada.

Sei que o mundo está muito perigoso, que o malvado e hipócrita Putin deve estar feliz por toda a atenção e esforços estarem concentrados na crise Israel/Hamas, sei que as ameaças terroristas saltaram de imediato para a Europa. E isso custa-me imenso. Uma vez, estávamos para ir a Paris mas havia atentados e ameaças de atentados e tivemos que adiar. Até há pouco tempo isso parecia-me longínquo. Paris sempre foi dada a greves a sério (uma vez fomos de comboio pois os aeroportos estavam em greve e o meu marido tinha reuniões de trabalho e eu tinha metido férias para aproveitar para ir laurear), dada a manifestações atribuladas. Mas os atentados ou as ameaças terroristas pareciam ter dado algumas tréguas. Agora, voltaram. E isso é um terror. A imprevisibilidade do local e da hora do ataque e a barbaridade que assumem é de estragar a tranquilidade a qualquer um. Dir-me-ão que é isso que sofrem os desgraçados da Palestina, de Israel, da Ucrânia e de todos os países assolados pela guerra, sempre na contingência de ser atacados, de perder a vida, de perder a casa e a família. É certo. Mas eu falo da minha realidade, a de viver numa realidade pacífica e temer, por mim e pelos meus, que aconteça alguma coisa que me parece impensável nos dias de hoje.

Enfim.

Não vos maço mais. Não vale a pena estar para aqui com ladainhas. 

Vou mudar. Não vem a propósito, pelo contrário, mas, nestas situações, apetece-me sempre, distrair a cabeça. Por isso, com vossa licença, que entre quem possa fazer-nos sorrir.

Chaplin and Keaton Violin and Piano Duet 


Desejo-vos um dia feliz, tranquilo

Saúde. Afecto. Paz.

quarta-feira, outubro 18, 2023

O que diz Fareed
(Vídeo publicado antes do sangrento ataque desta terça-feira mas, nem por isso, menos actual)

 

Gosto sempre de ouvir as opiniões, fundamentadas, bem informadas e sensatas de Fareed Zakaria. Há sempre um enquadramento e uma visão que situa os acontecimentos nas perspectivas histórias, geográficas e político-económicas.

Neste vídeo (legendado), divulgado antes do que aconteceu (e cuja autoria está a ser discutida), Fareed fala de Israel, da Autoridade Palestiniana, do Hamas, da Arábia Saudita e dos Estados Unidos e dos players que intervêm nesta triste e insana situação.

É um vídeo de curta duração e merece atenção.

Fareed shares what the 'severest setback' would be for Hamas now

CNN's Fareed Zakaria explains why he believes the Hamas attack on Israel was predictable and argues what the goal of the country should be now

Quando um príncipe se encontra em frente a um rei

 

Em dia de dúvidas e perplexidades, movo-me para um território mais seguro. Dois grandes, um ainda jovem, outro maduro (maduro mas não a cair de maduro, calma...), numa gostosa conversa.

Está legendado.

Timothée Chalamet & Martin Scorsese Have numa conversação épica | GQ

It's the pairing of a lifetime and Timmy brought notes. Our newest GQ cover star Timothée Chalamet sits down with legendary director Martin Scorsese for an epic conversation. From their collaboration on new Blue de Chanel fragrance campaign to "Killers of the Flower Moon" and the death of "mainstream," the native New Yorkers are equally in awe and inspired by one another during this interview.


terça-feira, outubro 17, 2023

Momentos de devoção em noite de ventania

 

Não me apetece falar do meu dia. Não que tenha sido mau e, à tarde, até tive uma experiência interessante sobre a qual aqui poderia falar e, em especial, fazer comparações com uma realidade antagónica que é que a que melhor conheço.

Mas não está a apetecer-me. 

Talvez esteja preguiçosa. Cheguei tarde a casa. Acabámos de jantar já passava um bom bocado das dez e meia da noite. Depois ainda estive a trocar uns dedos de prosa com alguns amigos. E ainda estive a fazer, aqui no google e chatgpt, algumas pesquisas. Por isso agora estou um pouco off. Não respondi ontem aos comentários e acho que hoje vou pelo mesmo caminho. Li-os, claro que sim, e agradeço-os mas acho que as minhas pilhas se vão extinguir no fim deste post. As minhas desculpas. Tentarei responder amanhã. 

Mas também acontece que está muito vento. E eu gosto de ouvir o vento, gosto mesmo. Apetece-me estar sem fazer nada, a cabeça encostada ao sofá, a ouvir o vento. Mais nada. Tenho o estore corrido mas a janela de vidro está a bascular. Gosto de sentir o ar fresco da noite. Por isso, ouço tão bem o vento. E quando há árvores por perto, como é aqui o meu caso, ouve-se como que uma espessa valsa, um sopro forte como se mil tigres soprassem ao mesmo tempo.

Mas isto é o lado poético do vento. Há o outro lado. Há sempre outro lado. Há pouco, começámos a ouvir barulhos não identificados. Depois percebemos que vinham do outro lado da casa. O meu marido foi ver lá fora. O estendal de pé tinha caído e um regador andava a rebolar pelo chão. 

Gosto de ouvir o vento mas sinto sempre algum temor perante os mais indefesos (sejam pessoas, animais ou árvores). Lembro-me de quando um pinheiro grande, in heaven, ajoelhou. E um cipreste caiu. E um cedro enorme tombou e, quando se quis endireitá-lo, as raízes desenterraram-se. Dias de susto para as minhas árvores.

Mas pior é para as pessoas que não têm boas casas em que possam estar abrigadas.

E, de tudo o que fui conseguindo ler, aos poucos, ao longo do dia, o que mais despertou a minha atenção foi o último post do Steve McCurry. Moments of Devotion. 

These are people who are capable of devotion, public devotion, to justice. 
They meant what they said and every day that passes, they mean it more.

– Wendell Berry


For the person who is religiously or spiritually inclined, 
work even becomes a vehicle for devotion, a way of utilizing one’s gifts and talents to serve others.

– Marsha Sinetar

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Quanto ao que homens loucos andam a fazer pelo mundo não consigo dizer nada. Pessoas em que não habita a bondade, a tolerância ou a compreensão são seres que me são estranhos. 

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Desejo-vos uma boa terça-feira
Saúde. Serenidade. Paz.

Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz.

segunda-feira, outubro 16, 2023

O que éramos, o que somos. Os que deixaram de ser.
E o mundo que não compreendo.

 


A minha mãe encontrou uma carteirinha de fotografias pequenas daquelas a que, há milénios, se chamava 'tipo passe' com algumas fotografias de colegas de liceu. Nem todas têm o nome atrás. Naquela altura devíamos pensar que não fazia falta escrevê-lo. Agora olho para algumas dessas, lembro-me das pessoas que elas representam mas não tenho ideia do nome.

Partilhei com outros colegas dessa altura. Duas dessas foram identificadas. Outras não. Desapareceram nos meandros da memória de toda a gente.

De uma disseram que não está bem da cabeça, ausente, desinteressada do mundo. Fez-me muita impressão, isso.

Claro que, de tudo, o que me faz impressão são os vários que já morreram. Parece-me uma coisa muito contra natura. Já falei disso e estou a repetir-me. Mas a sério que isso me incomoda muito.

Não sei se também falei no seguinte: dou por mim a olhar para as fotografias em que estão os que já morreram. Tento perceber se, neles, naquela altura, já alguma coisa poderia fazer prenunciar o que iria acontecer. De uma delas já não me recordava. Ao ver as fotografias, reparo que estava sempre um pouco isolada, parecia um pouco distante. Ou triste. Um outro era muito divertido, gordinho, muito simpático. Vejo-o nas fotografias. Qualquer coisa nele me parece agora assimétrico. Uma outra era muito carismática quer na maneira de ser quer na maneira de se vestir. Vejo-o nas fotografias. Parecia quase nossa mãe, muito mais desenvolvida, rosto já um bocado marcado. Uma outra, médica, disse-me agora que foi terrível, que era a médica dela. Como me viu muito perturbada, disse-me que naquela família todos têm morrido de cancro. Ela disse-me isso como para me dizer que eu não estivesse impressionada pois ela já estaria 'fadada' à morte por aquela doença. Mas eu fiquei a pensar que os filhos e netos dessa que morreu devem estar bem apreensivos com essa triste sina.

De uma outra de quem fui muito próxima e a quem depois perdi completamente o rasto, disse-me a minha mãe que, tendo ela engravidado ainda miúda, foi afastada, levada para uma quinta que tinham no campo.

Mas agora soube que está bem, que se reformou agora, que também tem uma mão cheia de netos. Vejo a fotografia dela. Tão bonita e alegre que era. Já aqui falei delas algumas vezes. Gostava de voltar a vê-la. 

Uma coisa que, olhando para aquelas fotografias, também reparo é que antes, alguns de nós, quando éramos pequenos parecíamos mais velhos. Por exemplo, uma que, deveria ter uns catorze ou quinze anos, já parecia ter uns vinte e tal ou trinta. Não dá para perceber. Mas mesmo as que tinham ar de miúdas, frequentemente se mostravam circunspectas. 

Poder-se-ia pensar que o mundo hoje é mais leve para as crianças.

E, contudo, sabemos como isso pode não ser verdade em algumas partes do mundo. A televisão mostra crianças a sofrerem horrores pelos quais nem os adultos deveriam passar. Vejo-as a falarem, cheias de medo, a chorarem e o meu coração quase me dói. Não falo por falar, não é uma metáfora. É mesmo dor. E é sobretudo uma grande incompreensão.

Por vezes penso que se um dia um grande meteorito ou uma qualquer outra coisa chocar com a Terra e der cabo de grande parte dela, se calhar até fará algum sentido já que parece que grande parte dos humanos têm uma pulsão brutal pela autodestruição, não só de si próprios e dos outros, como do seu habitat. 

Tirando isso, vou falar de quê?

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Só se, por exemplo, partilhar um vídeo. Um qualquer. Talvez este aqui abaixo.

President Joe Biden: The 2023 60 Minutes Interview

President Biden answers questions on Israel, efforts to locate American hostages in Gaza, the state of the war in Ukraine and more during a wide-ranging conversation with Scott Pelley.

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Lá em cima, Jakub Józef Orliński interpreta "Amarilli, mia bella" (Giulio Caccini)

A fotografia lá em cima é da autoria de Ali Jadallah/Anadolu Agency/Getty Images e outras poderão ser vistas no Guardian

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Desejo, a todos, uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Força. Paz.

Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. 

domingo, outubro 15, 2023

O horror antes e depois do horror

 

Sábado tranquilo. Até me pareceu mentira não ter aparecido nenhuma crise. Por isso, aproveitámos a calma e o sol para lavar e estender roupa, caminhar, descansar. 

Escrevi. Li. Dormitei. Escovámos o cãobeludo e cortámos-lhe alguns nós.

Tenho quatro novos vasos de flores. Recebi de presente. No prazo de dois meses já recebi, de três pessoas diferentes, várias plantas. Estas que recebi agora, segundo me disse quem mas ofereceu, são plantas que trazem alegria e boa energia. Parece que cada uma tem sua função mas agora não me lembro. Mas sei que é tudo na base das coisas boas para a casa e para quem aqui vive. Sobretudo, sinto-me agradecida por haver quem goste de me oferecer plantas. 

Parece que este domingo vai chover e é bom que chova. Complica-nos um pouco as caminhadas e o dog chega encharcado que nem um pinto e, para o limpar, é uma tourada, corre, rebola-se, sacode-se, anda aos saltos à nossa volta. Por fim, estamos nós cansados e ele ainda molhado e todo contente. Mas faz tanta falta, é tão bom que ela venha.

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E depois há o que as notícias nos trazem. A agonia. A dor. A destruição. A perda. Podem os mais cépticos, os que já viram de tudo, os que já assistiram à morte, ao silvar das balas, ao estrondo das bombas, ao esgarçar dos corpos, à desistência, olhar para tudo isto com indiferença. Mas eu, que vivo no conforto abrigado da minha casa, que tenho a alegria consolada da proximidade dos meus, olho para todo isto com uma grande aflição. Não consigo conceber como se pode fazer mal a alguém. Não consigo compreender como se pode pensar que a destruição de pessoas e bens pode servir para alguma coisa.

A nossa vida já é, em si, tão difícil de justificar que, se a usamos para destruir outras pessoas, tornamo-la, então, inútil, desprezível.

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Partilho um vídeo que talvez nos ajude a pensar. Talvez. Nisto uso talvez, talvez, talvez. Não sei nada. 

Yuval Noah Harari on CNN Amanpour - Hamas' aim was 'to assassinate any chance for peace'

Watch Christiane Amanpour's interview with Yuval Noah Harari, exploring the long-term implications of Hamas' attack on Israel and the subsequent retaliation in Gaza.


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Desejo-vos um belo dia de domingo

Saúde. Esperança. Paz.

Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz.

sábado, outubro 14, 2023

Dias sombrios

 

Esta sexta-feira tive mais um daqueles dias. 

Se não morrermos cedo, um dia damos por nós e estamos velhos. E não sei se é um processo progressivo em que vamos admitindo que, aos poucos, o nosso corpo vai ficando mais débil, ou se vamos indo, na boa, e, quando damos por ela, não queremos aceitar, julgamos que é maleita que deve ser tratada, imediatamente tratada, tratada com rigor, com ciência.

E, se for este o caso, como, por mais que nos tratemos, nos examinemos, nos aconselhemos, não sentimos que voltámos a ficar como éramos quando tínhamos menos vinte ou trinta anos, entramos num ciclo de ansiedade, medo, preocupação exacerbada. E queremos mais médicos, mais exames, mais cuidados.

Se calhar uns são assim, outros são de outra maneira.

Tenho uma amiga cuja mãe está perto dos cem e, segundo ela, a mãe, apesar das muitas limitações, nunca se queixa, mostra-se sempre agradecida e bem disposta.

Não sei como será comigo. Nem sei se chegarei lá. Mas, se chegar, do que me conheço, o que desejo é estar ocupada e animada, agradecendo todos os dias as flores, os frutos, as palavras, a luz, os sorrisos. E, se me vir limitada (como, por exemplo, o meu pai tão radicalmente se viu), recolher-me ao meu interior, às minhas memórias, viver apaziguada e não revoltada.

Mas não sabemos, de facto.

Acontece que, portanto, o meu dia foi outra vez assim.

Os meus amigos, no grupo, questionaram o que era feito de mim que não dava ar de minha graça. Pois. Não é fácil ter tempo para o que tem que ser e, depois, ter disposição para o resto.

Ao fim do dia, a televisão a mostrar o impensável. Não há explicação nem perdão para quem faz tanto mal aos outros. Mas uns fazem porque os outros começaram e os outros fazem porque não podem admitir e têm que vingar e os outros fazem porque os outros também fazem. E, no fim, agora, o ponto em que estamos, o mal anda à solta porque tem que ser. 

E, quando o mal parece obrigatório e incontornável, onde podemos encontrar o espaço para a bondade, para o afecto, para a humanidade? 

Em lado nenhum...?

Claro que é o que o Corvo diz num comentário abaixo. Nós, na nossa cultura, agarramo-nos, com unhas e dentes, à vida. Mas há aqueles para quem a vida vale zero e bom é morrer a lutar pela fé. Não há convergência possível. 

Nem faz sentido, perante isto, tentar perceber quem são os bons e quem são os maus porque haverá sempre quem venha com uma adversativa diabólica justificar que o sangue e o horror são devidos porque antes houve quem também o fizesse.

Mas há uma coisa que talvez possamos convencionar: não faz sentido o fanatismo religioso, não faz sentido considerar as mulheres como um animal de segunda, não faz sentido a pena de morte ou a tortura. Etc. Coisas assim. Talvez a gente possa, em casos limites, quando não há consenso sobre quem começou ou quem são os maus e os bons da fita, dizer que regimes assentes em conceitos maus a gente não quer. E pôr aí a linha vermelha.

Mas a verdade é que, no meio de consecutivos bombardeamentos, de tantas e tantas casas destruídas, de tantos mortos, de tanto terror, de tantas ameaças, do pavor pelo que ainda está por vir, do pó que tudo cobre de ruína e dor, não há espaço para pensar em nada.

Nunca pensei chegar a esta fase da minha vida, em pleno 2023, e viver num mundo tão perigoso, tão insano, tão desumano. Nunca pensei que o mundo em que os meus filhos e netos iriam viver seria este lugar tão cheio de maldade e falta de esperança.

Por mais que puxe pelo meu optimismo, não estou a conseguir ver uma saída feliz para a tragédia que se abateu sobre tantos países, sobre tantos milhões de pessoas.

Que tristeza.

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Estava a querer acabar isto com um toque de bom ânimo mas não vejo como. O melhor que consigo é ir buscar a Chuva, até porque o dia esteve sombrio e, ao anoitecer, choveu que se fartou.


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Um bom sábado.

Saúde. Harmonia. Paz.

Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. 

sexta-feira, outubro 13, 2023

Quando um pai, em lágrimas, diz que sorriu e gritou: 'Boa!' ao saber que a filha de 8 anos tinha sido assassinada e não raptada, violada, agredida, deixada morrer à sede e à fome

 

Tudo é horroroso demais. O horror escancarado, cheio de pó e de sangue, em que os gritos e as lágrimas quase são de somenos, as pessoas transformadas em corpos, os corpos na rua, no chão, enrolados em plásticos ou panos, no meio do pó, dos escombros, do sangue. Ao pé crianças chorando, os rostos também cobertos de pó ou de sangue. Outras rindo e brincando, inocentes, convivendo com o horror.

As cidades destruídas e sem um raio de sol ou de esperança. 

A agonia. A aflição. O medo. 

A raiva. A sede de vingança.

Um ciclo infernal de destruição.

O fundo de um poço tenebroso, onde há almas afogadas, corpos em decomposição, sonhos destruídos, vísceras. E sangue e pó.

Não sei o que sobra.

quinta-feira, outubro 12, 2023

Noites em que se desce ao fim da noite


O que está a acontecer em Gaza e em Israel deixa-me sem palavras. Parece que, por vezes, em algumas partes do mundo, alguma pessoas parecem querer fazer-nos convencer que o mundo é de loucos. 

Há gente que consome a própria vida e a dos outros a congeminar no mal, há gente inclemente, há gente que parece desabitada, gente sem amor à vida ou aos outros.

De quantas mortes precisam pessoas assim até conseguirem perceber a finitude e a irracionalidade de tudo? De quantas mortes precisam pessoas assim até perceberem que a loucura que as habita é absurda, sem propósito?

Numa situação dramática como a que se vive neste momento, não vou desfiar argumentos ou fazer contabilidades. Tudo isso é contraproducente. Numa situação destas, uma pessoa só pode querer que acabe depressa e que se enterrem todos os rancores. Qualquer ajustamento de contas que se faça só levará a mais mortes. Há ciclos ruinosos, letais. A única coisa a fazer é enterrá-los. Começar de novo. 

A solução tem que ser política, generosa. 

Mas temo que muito sangue ainda vá correr e que muita dor, muito sofrimento, muita desumanidade venham ainda a ver a luz do dia.

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Palestinian Poet Describes Life in Gaza Amid Israel’s Retaliatory Attacks 

| Amanpour and Company

With Gaza’s main electrical plant shut down, the Ministry of Health is saying hospitals on generators will run out of fuel by Thursday. These facilities are already overwhelmed, as Israel continues to hammer Gaza with retaliatory airstrikes. More than 1,100 have been killed, according to the latest statement from the Palestinian Ministry of Health. The number includes four paramedics whose ambulance was reportedly bombed. Christiane speaks with a resident of Gaza about what is happening on the ground.

Originally aired on October 11, 2023


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Mas, se os humanos, alguns humanos, são desprovidos de humanidade, há animais que a têm e muita. Veja-se os burros.

Orphaned Donkey Can’t Stop Hugging Her Rescuer

The beautiful and emotional journey of an orphaned donkey getting adopted by a pack of dogs will surely make your day.

Kadife’s mother was abandoned on the streets while she was heavily pregnant. The mother died giving birth to Kadife and the little donkey was confused and stayed beside his dead mother until she was found by the right people who changed her life. 



Desejo-vos um dia tão bom quanto possível. 
Saúde.
Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz.

quarta-feira, outubro 11, 2023

OE 2024 -- perna curta no IRS, rendas, poupanças.
E, ainda por cima, pernas atadas no combate à fuga ao fisco?

 

Sobre o que já consegui saber sobre o Orçamento para 2024, tenho a dizer que, para além de algumas medidas que me parecem positivas, há aspectos que acho pouco positivas e que deveriam ser corrigidas:

1 - A receita fiscal assenta, em montantes consideráveis, no IRS. E, no IRS, há que ter em consideração o aspecto referido por Pedro Nuno Santos: 42% das famílias não paga IRS. Ou sejam são beneficiários líquidos do que os outros andam a pagar. Quando ouço imensa gente a queixar-se de tudo e mais alguma coisa quando não pagam 1 euro de IRS fico chocada. Estas pessoas não dão valor a nada pois não têm noção do que é andar-se a trabalhar para deixar ficar grande parte nos cofres do Estado. Claro que, se não pagam, é porque ganham pouco. Mas também se será tudo assim pois há muita gente que também recebe 'limpo', 'por fora'. 

E não estou a falar apenas de quem faz biscates ou trabalhos simples (que, aí, a excepção, a raríssima, quase invisível excepção, é quem passa factura). Falo também de empresas que pagam ao pessoal ordenados baixos e, por fora, como subsídios de transporte, quilómetros, isto ou aquilo, que não pagam impostos. E são os empresários e os trabalhadores que querem isto. 

Tudo isto deveria ser passado a pente fino. Se há área que merece investimento a sério (e pôr algoritmos de inteligência artificial, em força, em cima disto e pôr fiscais em campo) é este, o da fuga ao fisco. 

Ou seja, tenho muitas dúvidas de que todos os 42% que não pagam IRS recebam, de facto, os valores que declaram.

E há um outro aspecto que deveria merecer muita atenção. 53% do IRS é pago por apenas 6% das famílias.

Ou seja, 6% das famílias andam a levar às costas grande parte do que os outros usufruem. Ora será que estes 6% são os muito ricos? Não, nem pouco mais ou menos.

Quando se fala em grande injustiça fiscal, é também disto que se fala. Taxar como milionários pessoas que são classe média pura é um abuso, um esbulho.

Uma coisa seria taxar como milionários quem ganhe de facto valores folgados como, por exemplo, acima dos 150.000€ (que, mesmo assim, do que se pratica, na realidade, por aí, é absurdo chamá-los de milionários). Quando há tempos escrevi sobre isso, considerei um escalão com um imposto já razoável para os que ganham entre 150.000 e os 250.000€ e pela medida grossa, então, os que ganharem mais de 250.000€. 

150.000 ou 250.000 É muito? É. Não digo que não. Mas compare-se com o que ganham futebolistas, treinadores, etc...

O que me choca, nisto, não é tanto o que ganham mas que os ganhem, na realidade, e não paguem impostos.

Por tudo isto, uma coisa é certa: taxar tão pesada e injustamente quem ganhe acima de 80.000€ é absurdo, é pesado e muito injusto.


2 - O que acima escrevo tem a ver com aquilo de que falei acima e também aqui, há pouco tempo. A fuga ao fisco. 

Quem, em Portugal, é de facto rico ou muito rico é mais, mas muito, muito mais, do que os tais que são taxados pela medida grossa. Já o referi: bastaria ver quantas casas caríssimas há neste país, de norte a sul, para perceber que, as famílias que as adquiriram e mantêm não são apenas os que pagam o IRS máximo. 

Há, com certeza, muitos que continuam impunemente a fugir ao fisco. Profissões liberais, comerciantes, empresários, senhorios, etc. Do que se ouve falar quase generalizadamente há muitos senhorios, alguns em bairros ou condomínios caríssimos, que não declaram as rendas. E os explicadores? Quantos declaram o que ganham? E das inúmeras profissões liberais quantos não recebem 'limpinho' já que os clientes também preferem pagar menos? E comerciantes? Nos restaurantes, por exemplo, quantos são os que passam facturas apenas se o pedirmos?

Se todos esses pagassem impostos, de certeza que os 6% que hoje são tão penalizados seriam muito mais que 6% e, certamente, menos penalizados.

Portanto, se aliviassem os impostos nos escalões mais altos e, ao mesmo tempo, caíssem a pés juntos sobre os que fogem ao fisco, tudo seria mais transparente e justo.

Assim, é uma injustiça e uma estupidez.


3 - Volto ao imposto sobre as rendas. É de tal forma alto o imposto sobre as rendas que é um convite directo e explícito à fuga ao fisco. Tem que baixar mais, mas baixar a sério. Para os senhorios, para os inquilinos (e até para as pessoas das agências imobiliárias que lidam com esta realidade) é normal que se aceite que não vale a pena declarar as rendas pois ficam todos a ganhar. Acho que é imperioso andar em cima do assunto mas só se consegue alguma coisa se se baixarem os impostos sobre as rendas, muito a sério.

O plafonamento das rendas é outro disparate. Não têm que ser os senhorios a ter um papel social junto dos inquilinos. As rendas devem aumentar conforme a inflação. Há muitos senhorios que têm nas rendas um auxílio ao seu rendimento e que cumprem com todas as suas obrigações fiscais.

Em contrapartida, os que agem na ilegalidade, nos domínios da informalidade e da fuga ao fisco, fazem o que querem.

Mas, se o problema das rendas altas tem a ver com a falta de casas, pois que se incentive a construção de mais casas. E o mercado encarregar-se-á de ajustar os valores ao equilíbrio entre a oferta e a procura. 


4 - Há pouco, de raspão, ouvi o Bagão Félix, pessoa sempre objectiva e isenta, falar de um outro aspecto. Antes, o imposto sobre os juros das poupanças era de 20%. Passou para 28% e aí ficou. Ora, num país em que a poupança é tão baixa, como se consegue incentivá-la se o pouco que se consegue de juros é tão descaradamente comido pelos impostos?


5 - Não vou falar muito mais pois não conheço o documento em pormenor nem este será o espaço mais indicado para grandes análises económico-financeiras.

Mas, ou o OE24 ainda é ajustado ou será, apesar dos pontos positivos, uma decepção. Se há altura para fazer ajustamentos estruturais, profundos, é esta.

Evitar o défice, tentar que haja excedentes e pagar o mais possível da dívida parece-me importante, garantir a realização de investimentos críticos também. Mas mexer nos aspectos que referi e que têm a ver com sustentabilidade, transparência, equidade e justiça parece-me indispensável.


terça-feira, outubro 10, 2023

Num diazinho (bom por um lado, menos bom por outro), chego à noite a preocupar-me com o que diz o padrinho da Inteligência Artificial

 

Dia tranquilo. 

No meio, as coisas da minha mãe. O que ela arranja para levar a dela avante... A racionalidade dela é, sempre foi, muito diferente da minha. Sempre me disse que eu era excessivamente racional. Sou racional, sim. Pelo menos, tento ser. E não sei se, no que se refere a racionalidade, há medida, há isso de se ser excessivamente racional. Para mim, ou se é racional ou não se é. Para mim, se A implica B e se B implica C, então A implica C. Ou 2 mais 2 é igual a 4 (isto na base decimal que é aquela em que usualmente trabalhamos). Coisas simples. E não é função da gradação da racionalidade. Não é por eu ser mais ou menos racional que o que é, deixa de o ser.

Mas, eu falar de coisas lógicas e racionais com a minha mãe em situações em que está tolhida pelo medo e pela ansiedade (e não é preciso muito para ficar assim), deixa-a ainda mais fora de si.

Complicado.

Mas, tirando as muitas que ela apronta -- e que, obviamente, me afectam --, o sol, o calor, o tempo de verão foram bons. No entanto, há que reconhecê-lo: este calor em Outubro não é normal.

Trabalhei bastante. De manhã à noite. A minha filha diz que não consigo deixar de ser workaholic, que ainda continuo na lógica de despachar projectos. Alcançar os objectivos a que me proponho. Sem um desvio, nem em prazos nem na quantidade e qualidade do que faço. Talvez tenha razão, ela. Mas parece que, afinal, é assim que me sinto melhor.

Mas, apesar disso, caminhámos por aqui e, à tarde, fomos à praia e caminhámos lá, a maré estava vazia, o areal plano e duro. Quando regressámos a casa já era de noite (mas os dias também já estão pequenos).

Estive a ver as mensagens trocadas nos grupos dos meus amigos. Centenas. Escrevem muito, partilham fotografias, piadas, vídeos divertidos ou apimentados, creio que muitos provenientes do facebook. É um grupo fantástico.

Agora, aqui à noite, estive a ver o vídeo abaixo. Também concordo que, bem orientada, bem controlada e bem regulada, a Inteligência Artificial pode ser muito útil. Na medicina, na radiologia, por exemplo, pode ser um veículo precioso. A máquina analisará com maior rigor e minúcia (e em menos de nada) possíveis problemas, mesmo os que escapam ao olhar humano. 

O pior é o resto... o pior é sermos ultrapassados por ela... É ela começar a conceber linguagens que nos deixem de fora. É ela tomar decisões que escapem ao nosso controlo.

Os riscos são imensos e, sinceramente, não faço ideia de como mitigá-los. As vantagens também são muitas mas já sabemos que tendemos a ficar deslumbrados com as coisas boas e a cagar para os riscos, pois somos muito de nos fiarmos na virgem (e só darmos pelo buraco depois de termos caído nele).

"Godfather of AI" Geoffrey Hinton: The 60 Minutes Interview

There’s no guaranteed path to safety as artificial intelligence advances, Geoffrey Hinton, AI pioneer, warns. He shares his thoughts on AI’s benefits and dangers with Scott Pelley.

[Geoffrey Everest Hinton CC FRS FRSC (born 6 December 1947) is a British-Canadian cognitive psychologist and computer scientist, most noted for his work on artificial neural networks. From 2013 to 2023, he divided his time working for Google (Google Brain) and the University of Toronto, before publicly announcing his departure from Google in May 2023, citing concerns about the risks of artificial intelligence (AI) technology. In 2017, he co-founded and became the chief scientific advisor of the Vector Institute in Toronto]


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Uma boa terça-feira
Saúde. Força. Paz.

segunda-feira, outubro 09, 2023

Viajar. Ler. Estar.

 


Tenho uma amiga a passear em Itália, outro anda pela Grécia, outra está na Turquia. Outras duas, separadamente, vieram há pouco dos Açores e uma pessoa da minha família próxima chegou hoje de uns dias de férias em Paris. Outro anda em Trás-os-Montes e outra, que vive fora e cá veio de férias, sei que anda por aí, por 'este nosso belo país', mas neste momento não sei por onde. 

E eu, que tanto gostava de passear e que tanto passeei, parece que me fui desabituando disso ao longo dos anos em que, por o meu pai estar mal e sempre naquele limbo em que qualquer coisa de pior poderia acontecer a cada momento, ganhei receio a afastar-me não fosse dar-se o caso de não estar por perto em caso de emergência.

Além disso, agora não há o permanente estado de quase alarme em que vivia na altura do progressivo declínio do meu pai, mas há a minha mãe que, com os seus noventa anos e a sua tendência para a ansiedade quando algum sintoma se anuncia (mesmo que ao de leve), faz com que também não me sinta confiante em afastar-me.

Como entretanto mudei de casa e adoro aqui estar, nesta minha tranquila casa que tem um jardim tão romântico e sereno, já para não falar naquele lugar tão especial a que aqui chamo heaven, e porque, por ter deixado de trabalhar, tenho agora tempo para os desfrutar, parece que deixei de sentir o apelo por me pôr a caminho.

Com tudo o que já visitei, com todas as viagens cá e lá fora que já fiz, com as fotografias que toda a gente envia de todo o lado, com os sites, com os documentários, os vídeos e tudo o mais que por aí há, parece que tenho a sensação de que já não me surpreenderei muito com o que tenho por ver, se lá estiver, ou seja, in loco. 

Sobretudo, sabe-me muito bem estar. Permanecer. Desfrutar. Não ter que fazer malas, estar a ir e vir. E o meu marido está na mesma. Adora o sossego. Adora poder ler ou ver televisão ou passear com o cão ou o que lhe apetecer, sem a preocupação de ter que se despachar para ir fazer outra coisa qualquer.

Talvez daqui por algum tempo, me dê uma daquelas travadinhas que me leva a querer mudar de vida e não descanse enquanto não me puser a caminho. Mas, por enquanto, sinto uma grande felicidade em estar sossegada, poder acordar tarde, caminhar por aqui perto ou ir até à praia, jardinar, regar, lavar, varrer, cozinhar, etc., ler, escrever até às tantas, ter a família reunida ao fim de semana (ou nos dias feriados), comunicar-me com amigos, por vezes estar com eles. 

Sobre livros, a minha filha queixa-se que parece que não encontra agora livros que a encantem. Frequentemente deixa-os a meio, sem paciência para esforços que sabe de antemão que não vão compensar. Eu, desde há algum tempo, também estou assim. Mesmo muitos daqueles livros altamente propagandeados ou ditos clássicos agora me parecem básicos, sem substância ou arte. Disse-me ela que, do que tinha lido ultimamente, só um lhe tinha parecido digno de realce, 'As primas' de Aurora Venturini. Por isso, comecei hoje a lê-lo. E é verdade, ela tem razão: só não foi de penalti porque se meteram outras coisas. Mas amanhã com certeza que vai. Depois digo porquê.

Ela estava a ler e acabou-o cá, hoje à tarde, 'O quarto do bebé'. Eu já o espreitei e também me pareceu demasiado plain mas ela diz que se lê bem, que não é nenhuma obra literária, que, por ser de quem é, também estava à espera de outra coisa, que é um diário e que se percebe que é autobiográfico e que, por isso, à parte os bocados em que Anabela Mota Ribeiro descreve sonhos e outras partes mais nhec-nhec, se deixa ler sem sacrifício.

Não sei se é como nas viagens. A gente já leu tanto de tudo que, às tantas, já tudo parece simplório ou dispensável.

Por acaso o meu filho no outro dia disse que estava a ler um livro e que era talvez dos melhores livros que já tinha lido. Sabendo-o também exigente, fiquei curiosa. Mas era um nome algo estranho, não fixei. Não posso esquecer-me de lhe perguntar. Só que receio que seja um daqueles livros gigantes que ele lê com facilidade mas que a mim já me custam. Parece que agora também já tendo a sentir um certo sentimento de rejeição em relação a livros muito grandes, com mais de trezentas ou quatrocentas páginas.

Enfim, cenas.

Tirando isso, é pena que o mundo não se amanse, que as pessoas não ganhem tino. O próprio planeta devia arranjar maneira de espalhar pelos ares uns pozinhos de perlimpimpim que deixassem as pessoas todas numa de peace and love.

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A fotografia é da autoria de Matt Coughlin e Eva Cassidy interpreta Autumn Leaves

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Amor. Paz.

domingo, outubro 08, 2023

Em dia de casamento real para os pequenitos e de tiroteios para doer ali onde a gente sabe, há tempo para se falar nos reais riscos que a IA pode trazer?

 

Casou-se a filha do rei de faz de conta e a TVI, que provavelmente bancou o espectáculo, cobriu o evento como se estivessem às portas de Buckingham. E o povo (sic) colocou-se no exterior para ver, aplaudir e comer qualquer coisa à conta.

Tenho que confessar: só vi durante uns cinco minutos. A infanta (sic) vinha num coche (ou caleche?) com o senhor seu meio acabado pai, acenando à populaça. 

Lá dentro, os nobrezinhos, os newcomers e mais uns quantos vestidos a rigor aguardavam. E algures o Goucha e mais umas pessoas comentavam.

Desandei pois tudo ali me pareceu desfasado da realidade.

Podia ser apenas um casamento, e um casamento é sempre um momento com a sua graça. Mas não: quiseram fazer daquilo uma encenação fajuta de um casamento real como se Portugal fosse uma monarquia. E esse faz de conta elevado a esta escala faz-me um bocado de espécie.

E sei que o tema do dia é a desgraça que para ali vai no Médio Oriente mas como não serei a pessoa mais indicada para falar nisso, limito-me a dizer que não compreendo como podem os países envolver-se em guerras tão sangrentas quando têm tudo a perder. Bem sei que assiste aos humilhados e perseguidos o direito à indignação mas, se entramos por aí, logo virão os agredidos dizer que lhes assiste o direito à retaliação face à agressão. A uma escala planetária o que se vê é que por incapacidade de serem inteligentes, os humanos passam a vida a matar-se uns aos outros.

Claro que com estas cabeças, uns a iludirem-se feitos totós, outros a, maquiavelicamente, espezinharem populações, outros a invadirem outros países, e os atacados a defenderem-se, o que sobra são uns pobres coitados, cada vez mais velhos.

E sobra espaço para que tudo o que é dispensável avance como cão por vinha vindimada. E aqui incluo os populistas, os chico-espertos, os pequenos génios que inventam o que lhes dá na gana e que ninguém controla.

A entrevista abaixo é interessante. Recomendo-a. Ali Harari fala para os riscos reais da Inteligência Artificial. Estivesse a humanidade atenta e cautelosa em relação a isto, poderia usar-se apenas o seu lado bom. Mas andando tudo aos tiros uns para os outros ou para os pés e outros distraídos a brincar às divas, aos reis e princesas, às selfies e beijinhos, não sei se há quem seja capaz de pôr um travaão quando for caso disso.

(Dá para pôr com legendas a partir de tradução automática para português. Para quem não se entende com o original sempre é uma ajud)a. 

Piers Morgan vs Yuval Noah Harari On AI | The Full Interview

Piers Morgan Uncensored is joined by historian and philosopher Yuval Noah Harari for an in-depth conversation about the intricacies, benefits and threats of Artificial Intelligence and how the world should move forward using AI and the risks of what could happen without regulation.

Yuval believes that AI development needs to be regulated in a similar manner to how new medicines are studied and introduced. He feels that new technology needs to be thoroughly tested before being deployed for public use.

Yuval believes the main threat of AI is that it will break the trust of human-to-human interaction with 'fake humans' and believes our entire society, democracy and economy are based on the trust of human-to-human transactions and relationships. Yuval suggests we should look to ban 'fake humans' and 'deep fake' AI before it reaches a point of self-design and starts creating independent-thinking fake humans.


Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Boa sorte. Paz.

sábado, outubro 07, 2023

Sexta-feira presencial

 

Lembro-me de um dia, uma sexta-feira de um Março que me parece longínquo, participar numa reunião ao mais alto nível, na maior e mais nobre sala de reuniões. Estávamos todos surpreendidos e muitos sem perceber ainda o que estava a acontecer.

Sendo uma empresa tão grande, dispersa por várias geografias e com muitas instalações a funcionarem vinte quatro horas por dia, todos os dias do ano e operando num sector estratégico e crítico para o país, tínhamos que tomar uma decisão. E tomámo-la. Ali mesmo foi criado um comité de crise, traçadas as linhas gerais, escrito um comunicado com carácter de urgência. 

E ali mesmo combinámos que todos os que tivessem computador portátil pegariam nele e trabalhariam a partir de casa até ordem em contrário e durasse isso o tempo que durasse.

É uma imagem de desolação que guardo desse dia. Naquele escritório, em concreto, toda a gente tinha portátil. Uma pessoa estava cheia de tosse e sentia-se febril. Foi mandada embora de imediato.

E todos pegámos nos computadores e, olhando uns para os outros com espanto e preocupação, despedimo-nos sem saber quando voltaríamos a vê-los.

À maioria deles não voltei a ver.

A partir daí a empresa entrou numa voragem para tentar que todos conseguissem fazer o seu trabalho a partir de casa e para que os que tinham que estar 'presenciais' o fizessem em segurança.

Poucos dias depois, o pai de um colaborador directo morreu de covid. Os casos na empresa sucediam-se. Tínhamos que arranjar maneira de recompor equipas. Foram meses muito difíceis.

De seguida, surgiu-me um convite que não podia recusar, um desafio de loucos. Fui trabalhar para outra empresa. Portanto, deixei de trabalhar com aqueles de quem me tinha despedido em Março.

Durante muito tempo, por segurança, o trabalho foi remoto para quem isso era possível.

Depois passou a híbrido.

Ainda bem que assim é. O normal é que se ajuste a forma de trabalhar. Desde que o trabalho se faça, é bom que haja flexibilidade de parte a parte. 

E é verdade: quando alguém se recusa a trabalhar a partir de casa e defende intransigentemente o trabalho presencial não arredando pé do local físico de trabalho, já parece um pouco estranho. Confirmo que, por exemplo, ao ver um colega que entrava todos os dias quase de madrugada e era o último a sair, eu e toda a gente pensávamos que o fulano só podia ser alguém sem vida própria.

É disso que o episódio de hoje da Porta dos Fundos trata. O que aqui abaixo está escrito e que transcrevi do Canal deles não tem nada a ver.

Sexta-feira presencial

É sexta-feira, o expediente começa às 10h. Mando uma figurinha de "bom dia" no grupo da firma e continuo caminhando pela praia. Vou pro judô, tomo banho, chego ao computador de cabelo molhado às 11h30. Vejo vídeos no Youtube enquanto uma reunião acontece. Opa, meio-dia, hora daquele almoço de 2 horas. Mais uma reunião começa e eu entro no link ainda do restaurante. A partir das 15h, ver séries. 16h? Passar um café. Ok, hora de mandar um e-mail que enrolei tanto pra escrever, já são 16:55, hora de uma parada pra um cigarro porque às 17h encerro meu expediente mais cedo. Mais tarde é meu vôo pra Itália. Muito bom ser um CEO que exige trabalho presencial obrigatório.


Desejo-vos um bom sábado

Saúde. Bom descanso ou bom trabalho ou bom passeio. Paz.

sexta-feira, outubro 06, 2023

Tostas saborosas em família e um belo, belíssimo, Animaris Rex
Never gonna be alone

 


O dia foi dos bons. Um dia feriado é dia de férias e é bom ter o pessoal todo cá em casa. Almoçaram, descansaram, foram jogar padel, foram dar um mergulho. Depois, de volta a casa, todos os homens fecharam-se na sala de televisão para verem o futebol sem interrupções do sector feminino ou do cão. Mesmo os benfiquistas se solidarizaram com os sportinguistas e permaneceram na sala.

Portanto, o lanche foi dividido entre o que levei para os que estavam fechados e para as meninas que aproveitaram o sol e o ar livre.

Tinha trazido dois pães de forma de Rio Maior que fatiei, um de chia e mais qualquer coisa e um pão rústico, tudo fatiado no supermercado. Não aproveitei as fatias que se partiram ou enrolaram umas nas outras. 

As duas grelhas do forno já não são suficientes para as tostas. Enquanto o pão está no forno, vou tostando mais fatias na torradeira.

Fiz de três tipos. Como todos gostam muito, partilho convosco pois podem querer aproveitar a ideia.

1 - Levo umas fatias ao forno. Quando já estão a alourar, tiro-as e pincelo-as com um pouco de azeite com alecrim. Vão de novo para o forno. Depois de lourinhas, retiro-as. Tiro o alecrim pois já lá deixou o sabor (e não vão eles embirrar com as folhitas secas; se fosse para mim, deixava ficar). Ponho uma fatia de queijo em cada tosta (no caso, era Terra Nostra). Vai ao forno outra vez, para amolecer. Quando está praticamente derretido, tiro do forno, ponho uma fatia finíssima de presunto em cima. Antes de servir, passo por cima, muito ao de leve, uma brisa invisível de azeite e uns quantos subtis orégãos.

Dios pratos, dos grandes, destas.

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2 - Já contei mas, para ficar aqui, repito. Num copo misturador ponho dois tomates de rama, grandes e bem maduros. Ponho um pouco de sal e um pouco de orégãos. Com a varinha mágica, moo muito bem. Depois de moído, junto um fio de azeite enquanto continuo a bater com a varinha, o que faz engrossar. Esta emulsão é muito boa e saudável.

Tiro mais um tabuleiro de tostas do forno e, com uma colher, ponho uma boa quantidade desta emulsão em cada tosta. Por cima de cada, ponho uma fatia de salmão fumado. Em algumas ponho, ainda, um apontamento de queijo mozarella de búfala. Noutras, polvilho um pequeno nada de alface ou de cenoura ralada. Por cima, o mesmo sopro invisível de azeite e uns salpicos de orégãos.

2 pratos destas

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3 - Os restantes 2 pratos são parecidos mas apenas com a emulsão de tomate, umas fatias bem generosas de mozarella de búfala. Em algumas salpico, por graça, com uns discretos toppings de salmão fumado.

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Desaparece tudo, num ápice.

Uns acompanham com bongos, outros com iogurtes líquidos magros, outros com minis.

A seguir, uvas.

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Um pormenor relativo ao almoço. A pedido de várias famílias, tudo o que é doce ou engordativo deve ser banido. Portanto, para sobremesa, fiz assim: para uma taça grande de vidro, cortei aos bocadinhos dióspiros bem maduros, pêssegos maduros e doces, maçãs, muitas uvas inteiras e sem grainha. Depois deitei lá para dentro um iogurte magro de frutos vermelhos e seis embalagens de gelatina sem açúcar acrescentado, de pêssego e manga. Envolvi tudo e coloquei no frigorífico até ser servido. Ficou muito agradável. Gostaram. As crianças assim comem bastante fruta, sem protestarem

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E, para terminar, um momento maravilhoso. A perícia de Theo Jansen é surpreendente pois alia a inteligência da técnica à leveza da poesia.

Animaris Rex

Since the beginning of this summer I have been trying to connect several running units (Ordissen) in succession. Animaris Rex is a herd of beach animals whose specimens hold each other as defense against storms. As individuals they would simply blow over, but as a group the chance of surviving a storm would be greater. It is 18 meters long (5 meters longer than the largest Tyrannosaurus Rex found.)

Theo Jansen


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Lá em cima, obra de Oliver Marinkoski

Jacob Collier - Never Gonna Be Alone (feat. Lizzy McAlpine & John Mayer)

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Desejo-vos uma feliz sexta-feira
Saúde. Harmonia. Paz.

quinta-feira, outubro 05, 2023

Os jovens desactivistas que andam a atrapalhar a vida a quem trabalha e a serem levados ao colo pelos desjornalistas.
[Isto em mais um belo dia de férias]

 


Mais um belo dia de férias. Praia. Tempo bom. Uma luz branca, levemente enevoada, muito levemente, quase um tule.

Fazemos umas boas caminhadas. Parte do caminho faço-o dentro de água mas apenas os pés. Tão agradável. A água está em boa temperatura.

As pitangueiras estão plantadas. São uma pontinha, apenas, uma ervinha. Espero que vinguem e que se cubram de pontinhos amarelos e encarnados. 

Tratei do que tinha a tratar e tive tempo para escrever. 

Escrevo, escrevo, escrevo. Não sei de onde saem tantas palavras.

Aconselham-me a que escreva menos, que pondere mais. Mas isso é o mesmo que me dizerem que pense menos ou que respire menos. Não sei pensar antes de escrever. Quanto muito, penso depois de escrever.

Aliás, hoje estava a caminho do fim de uma história e, sabendo já como ia acabar, a minha cabeça começou a deslizar para uma próxima. É muito estranho, bem sei.

Tirando isso, vi, num relance, meia dúzia de jovens com aspecto vagamente alternativo que por aí andam a fazer parvoíces, cortando o trânsito, atrapalhando a vida a quem anda a trabalhar. Quando entrevistados, os jovens só dizem palermices, vacuidades. Estão desfasados da realidade, são incultos, mal informados. São um vulgar subproduto das redes sociais. Contudo a televisão ouve-os, dá-lhes palco. Uma gentinha desqualificada, tanto eles como quem lhes dá palco.

Enfim.

Enquanto estou a escrever, estou a ver uma entrevista com o Woody Allen. Diz que o trabalho é fundamental mas que a sorte é muito importante, que se pode trabalhar bem toda a vida e nunca ter sorte. Um médico que conheço diz o mesmo:  a gente tratar-se ou monitorizar-se é importante mas mais importante é ter sorte.

E é mesmo. Por isso gosto tanto de desejar boa sorte. A mim própria me desejo boa sorte.

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A fotografia foi feita há dois dias. 

As Boygenius interpretam Cool About It

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Um bom dia feriado

Saúde. Boa sorte. Paz.

quarta-feira, outubro 04, 2023

A felicidade através das pequenas coisas

 


Por acaso hoje não fomos à praia, isto é, para a areia, para a água. Ontem, sim. O meu marido mergulhou e eu estava afoita, convencida que não teria dúvida em ir também. Mas à última hora vacilei. Não passou do peito.

Estar na praia nesta altura do ano é uma maravilha. A praia quase sem ninguém, a temperatura amena, a luz muito limpa. Por todo o lado pequenos gaivotinhos, saltitando à beira de água.

Enquanto lá estava pensava que há menos de um ano estava eu a trabalhar, com toda a gente a trazer-me problemas para que eu, com invisíveis varinhas mágicas, os resolvesse num ápice. Isto enquanto o meu colega (e amigo) lutava contra os medos por ter descoberto que o cancro, que julgava extinto, afinal, silenciosamente, se tinha espalhado. Mas, para não desastabilizar, não quis que se soubesse. Ausentava-se para exames ou por não estar bem e eu tinha que aguentar tudo sozinha, inventando desculpas para as ausências dele. Foram tempos muito complexos e pesados. 

Por mil motivos, estas minhas belas férias sabem-me pela vida. Sinto-me feliz por poder estar a desfrutá-las.

Poder andar a fazer exercício dentro de uma piscina funda, durante o dia, também me enche de bem estar a satisfação. Antes trabalhava de sol a sol sem tempo para mim. Agora posso levantar-me às horas que me apetece, posso ir à praia, andar na piscina, escrever, dormir a sesta, ler, apanhar sol, caminhar... e isto durante o dia.

Muitos antigos colegas de escola, da minha idade, portanto, ainda trabalham. Dizem que não se imaginam sem nada que fazer. Digo-lhes que é uma sensação tão boa, que, se soubessem, não quereriam outra coisa.

Não fomos para a praia mas, ao fim do dia, fomos caminhar à beira dela, respirar o pôr do sol, ver o mar.

Trouxemos sushi para o jantar, um sushi muito fresco, muito bem feito. Também é bom não ter que fazer todas as refeições.

Vi um vídeo em que um estudioso, um professor universitário, investigador, dizia que a felicidade se obtém com coisas simples: 

  1. ter amigos, amigos de verdade, não amigos virtuais, não amigos daqueles que fazem parte de um networking de interesses, pessoas que nos podem ser úteis, mas, sim, amigos de verdade, que não servem para nada a não ser existirem e serem nossos amigos
  2. partilhar afecto com a família, falar com a família, partilhar momentos e memórias, acarinhar as raízes comuns, cuidar do futuro com cuidado e devoção
  3. sentir que se faz parte de algo maior, seja porque se professa uma religião ou se está integrado num clube ou se adora e venera a natureza, ou coisas assim, em que nos sentimos bem
  4. sentirmo-nos agradecidos por estarmos vivos, por termos o que temos, por sermos como somos (diz ele que o maior inimigo da felicidade é a inveja)
  5. perceber que os outros não têm que ser iguais a nós, não querer, a todo o custo, encontrar almas gémeas, perceber que é das diferenças que nasce a aprendizagem
  6. procurar a beleza das coisas facilmente alcançáveis: ler, ouvir música, apreciar a arte, descobrir a perfeição das flores

Coisas simples. Não alimentar rancores, por exemplo. Não ficar preocupado por não ter o que outros têm. Não traçar objectivos difíceis de alcançar cujo não atingimento seja interpretado como um fracasso.

Gosto bastante de ler ou ouvir coisas assim. Revejo-me nelas. Gosto mais de ouvir isto do que estar junto de quem desfia viagens que fez ou de quem despeja citações, títulos de livros, ou exibe o que toma por sinais de um status superior. Isso cansa-me. Ouvir falar de coisas simples agrada-me.

Por exemplo, uma colega de piscina levou-me um vasinho com pés de pitanga para eu poder plantar no jardim. Fiquei agradecida e tocada pela generosidade dela, por se ter lembrado de mim, por ter tido essa ideia e por ter ido com o vasinho para me dar. 

E é isto, por hoje. Há pouco adormeci e custou-me a acordar. Lá o consegui pois queria escrever isto. E agora ainda quero ir fazer outra coisa. 

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Nick Cave & Warren Ellis interpretam We Are Not Alone 

(do filme La Panthère des Neiges)

Pintura de Kang Un

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Desejo-vos uma boa quarta-feira

Saúde. Alegria. Paz.

terça-feira, outubro 03, 2023

Marcelo & Melão

 

Não gosto de dizer mal daqueles de quem receio que não estejam na plena posse das suas faculdades ou de quem está na mó de baixo. Ora -- e estou a falar com toda a franqueza -- não estou certa que o Marcelo Rebelo de Sousa de hoje seja o mesmo de há uns cinco ou seis anos.

É certo que já lhe conhecíamos a grande apetência pela luz dos holofotes. Lembremo-nos, por exemplo, do seu mergulho no Tejo, numa altura em que o Tejo era mais impróprio para a natação que hoje, dando, com o seu acto, um mau exemplo aos cidadãos. Lembremo-nos do nonsense da vichyssoise, tendo sido desmascarado em directo por Paulo Portas que contou como Marcelo tinha engendrado, de alto a baixo, uma mentira descabelada.

Depois de anos em prime time na televisão, saltou para a Presidência da República. E, na sua mente, isso deve ter sido pensado como um mega palco no qual poderia ostentar a sua extraordinária ubiquidade.

Se teve, no primeiro mandato algumas atitudes correctas, agora parece ter entrado numa preocupante derrapagem. Por vezes, parece tomado por um complicado desvario que prefiro pensar que é cansaço, exaustão e que, tal como as crianças ficam insuportáveis quando não descansam, também ele fique assim. Depois, quando se excede. aparece a dizer que não era bem aquilo. 

A forma como se abraça a toda a gente, a forma como enche toda a gente de beijos, parece excessiva. Nós vamos desvalorizando, levando para a brincadeira, ah é um beijoqueiro... 

Mas, convenhamos, é excessivo, é, frequentemente, despropositado. 

No outro dia as câmaras mostraram-no a chamar a atenção para uma pessoa por ter algum peso a mais. Inconveniente, temos que reconhecer. Depois foi a 'boca' sobre o decote de uma rapariga. Bem pode desculpar-se... mas já são lapsos a mais.

Anda tanto de um lado para o outro, quer tanto estar sempre presente, que deve andar freneticamente à procura de situações onde possa estar presente, e isso, em qualquer pessoa, é uma canseira. Ora com 74 anos, e anos e anos de rodopio, só pode estar desgastado, mais parecendo estar em verdadeira roda livre, a precisar de uma cura de sono e, eventualmente, um retiro para praticar meditação e técnicas de relaxamento.

Andar a correr para ir ver um eléctrico que teve um acidente no meio de Lisboa ou para não sei onde para acudir a uma avioneta que se acidentou ou a aparecer no meio dos cenários de incêndio ou a ir a hospitais, cafés, feiras, ou ligar em directo para a Cristina Ferreira... este ano a reunir a comunicação social todos os dias na praia para mandar recados... tudo isto parece coisa de quem já não tem lá muito bem presente o que se espera de um Presidente da República.

O que fez com o Ministro Galamba foi inqualificável. Repito: inqualificável. Nessa altura pensei que Marcelo tinha batido no fundo e que, portanto, a partir dessa altura só poderia melhorar.

No entanto, infelizmente, isso não aconteceu. Não melhorou.

O que todos temos constatado, direi que com alguma estupefacção, é que não tem feito outra coisa senão tentar minar a confiança dos portugueses no actual Governo. Convoca Conselhos de Estado para tratar de assuntos que não são da sua competência, mete-se no tema dos professores (sem acrescentar coisa alguma), arma confusão no tema da habitação (mesmo que involuntariamente, quase incentivando um inútil e perigoso extremar de posições contraditórias entre partes), tenta infectar a opinião pública contra uma maioria absoluta (esquecido que foi assim que os portugueses votaram, em plena liberdade). Etc.

Marcelo hoje em dia, segundo creio que começa a ser opinião dominante, não é um elemento de estabilidade mas, sim, lamentavelmente, de desestabilização.

Hoje li que telefonou ao cantor Melão que teve um acidente e está no Hospital Garcia de Orta. Sem desmerecimento para o valor do Melão, pergunto-me se Marcelo telefona a todas as pessoas que tiveram acidentes ou que estão doentes. Pergunto-me também porque o faz. E pergunto-me ainda como é que a comunicação social sabe tudo o que faz. Será que há linha directa entre a Presidência da República e a Comunicação Social? E como consegue ele os contactos das pessoas? Faz da vida das pessoas da Casa Civil um autêntico inferno, pondo-os a procurar tudo isso, ligando para aqui e para ali para obterem os números de telefone das pessoas? E para quê' Para as pessoas gostarem mais dele? Mas porquê? Achará que foi eleito para isso?

Só espero, e sinceramente o espero, que Marcelo compreenda que deve fazer uma pausa e que, depois, com a cabeça fresca, reveja quais as atribuições de um PR e interiorize que não precisa e não deve ir além do que constitucionalmente lhe compete. E que, sem inibições, procure acompanhamento psicológico para ver se aprende a lidar melhor com as suas carências afectivas. Não tem que ser amado por todos. Ninguém é amado por todos. 

Se continuar nessa sanha, correrá o risco de se transformar em alvo de chacota, desprestigiando a Presidência da República enquanto instituição que deve ser prestigiada, respeitada.

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segunda-feira, outubro 02, 2023

Um domingo bom e dedicado a limpezas com uma tarde afável e feliz.

[E Joan Baez revela segredos, um dos quais bem pesado]

 

O que esta casa se suja, apesar de estar fechada, não dá para explicar. Tudo fechado, tudo, tudo bem fechadinho. Antes de sairmos, tudo limpinho. E chego lá, e não sei como, vejo teias de aranha nuns cantinhos, afasto os sofás e vejo pó ou, quando enfio a vassoura por debaixo dos móveis, constato que saem rolos de cotão. Posso fechar os olhos, fazer de conta que não vejo. Se estou cansada demais ou com pressa é isso que faço. Fica para a próxima, digo. Mas nunca saio sem limpar, pelo menos, a maior.

Hoje tinha tempo, foi a preceito, tapetes não apenas bem varridos mas bastamente sacudidos, sem esquecer de afastar tudo o que havia para afastar, tudo, tudo. Se há coisa de que gosto de fazer é isso. Parece que o ar depois fica mais limpo. Ou, então, é psicológico. Mas, seja o que for, é bom na mesma.

E, no entanto, há menos de quinze dias tinha deixado a casa limpa. 

Não sei se é por haver um cão em casa, se é por trazer paus que se entretém a roer como se fossem ossos, se é por trazer tojo seco agarrado ao pelo. Não sei. Creio que não pois quando saio a casa fica limpa. 

E, se eu estive dedicada aos interiores, o meu marido andou de volta das árvores. Depois de anos e anos a lutar por cada pé de árvore, agora estou outra. Percebi que quando há ajuntamento de pés, nenhuma árvore se desenvolve muito e há pés que ficam infelizes e esquálidos. Era minha ideia que a natureza era sagrada e que isso tinha que ser levado à letra. Mudei. Agora acho que devemos ajudá-la, fazendo a misericórdia de eliminar o que não está fadado a vingar. Leio-me ao escrever e sinto-me cruel. Mas não estou a falar do reino animal, apenas do vegetal.

Por isso, alguns aglomerados de pés de aroeiras e de azinheiras, justamente os que estão em frente das janelas da sala da televisão e da sala do lado, foram hoje aligeirados. Ele teve uma trabalheira a serrar aquilo tudo, a cortar aos bocados, a transportar ramagens e troncos.

Mas fica muito melhor, mais desafogado, uma visão mais ampla. Gosto muito mais. Quando me ouve a louvar a nova vista, o meu marido limita-se a dizer: 'Há anos... há anos que ando a querer fazer isto...'

Tenho constatado que, neste tipo de coisas, sou lenta, custo a perceber.

Deixo para fim uma mágoa, uma mágoa gigante. Estou quase certa que os esquilos debandaram. Aquela semana de máquinas a serrar ramos pelas árvores acima e de outras a desbastar mato devem tê-los assustado e muito. E, de facto, como não...? Eu tinha era esperança que, susto passado, regressassem. Mas, pelos vistos não.

O que fizemos tinha que ser feito e reconheço que há agora uma maior segurança (contra incêndios, por exemplo) e, apesar de tudo, não menos beleza. Mas afugentarmos os esquilos é daquelas que para sempre me ficará como uma grande pena. Voltei a deixar a banheira de quando os meninos eram bebés com água e à sombra. Mas não sei se, onde estão, os esquilos vão adivinhar que ali pus a água.

Tomara, tomara que sim. Vê-los, ou simplesmente sabê-los, nas árvores enchia-me de felicidade.

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Entretanto, de tarde, casa cheia. 

A alegria, o bom apetite de todos... e o que as crianças estão a crescer... Estão naquela idade em que espigam como feijões mágicos. 

O mais crescido já quase um homem, com a sua personalidade cada vez mais definida, já sem a mesma apetência pelas brincadeiras dos demais. Não tarda será ela. Também já mais esguia, coquette, meiga, toda ela decidida nos seus objectivos. Seguem-se os dois que estão ainda a espreitar de longe a adolescência, um com onze e outro com doze, brincalhões, amigos, com os mesmos interesses. E, depois, o mais novo, seis anos cheios de filosofia. Para um projecto na escola sugeriu como tema: 'Porque é que há seres humanos'. A professora chutou para canto, claro. Numa sala de 1º ano, como trabalhariam o tema durante todo um ano lectivo? Ele ficou decepcionado, bem entendido. Menino mais fofo (e mais terrivelzinho...)

Enfim, um encanto muito grande, um calorzinho bom no coração.

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Termino com um vídeo com uma pessoa de quem gosto bastante, Joan Baez. Não apenas fala da sua vida como faz uma revelação terrível. O que me espanta é como quem sofre abusos sexuais em criança consegue arrumar isso num canto da sua mente e fazer uma vida normal. Dir-se-ia que as vítimas ficariam com traumas tão avassaladores que não conseguiriam livrar-se dessa devastação. Mas conseguem. E, até por isso, temos que estar todos bem atentos a todos os mais ínfimos e subtis sinais pois, como se sabe, quer os abusadores quer as vítimas ocultam tudo bem ocultado.

Mas, para além disso, há a voz e a forma maviosa como Joan Baez interpreta o que canta.

Joan Baez, revealing secrets

In a new documentary, "Joan Baez I Am a Noise," which features the singer-activist's personal archive of home movies, letters and drawings, the Rock & Roll Hall of Famer opens up about her 60-year career and her life on the front lines of social change. Baez talks with correspondent Tracy Smith about the film and the surprising secrets she revealed; how Bob Dylan broke her heart; and how she expresses her less serious side.


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Desejo-vos uma semana feliz a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Amor. Paz.

domingo, outubro 01, 2023

O olhar perto chão no adeus aos Sinais de Fernando Alves, o Senhor Rádio

 

Quando ia trabalhar, tentava sempre ouvir os Sinais. Cheguei a ficar estacionada fora do edifício (porque no parque subterrânea perdia o sinal de rádio) para ouvir o apontamento do dia. Se não conseguia, tentava ouvir à hora de almoço.

Não eram apenas as palavras em si, tão bem escolhidas, e a forma como o Fernando Alves as entretecia mas também a voz e a maneira de as dizer. Qualquer coisa de poético. Frequentemente, arrepiava-me.

Claro que a sua intervenção na TSF ia muito além dos Sinais. E, fosse nas reportagens fosse nas entrevistas, ele era sempre exímio. Tudo o que ele fazia dava vontade de ouvir várias vezes. 

A sua voz e os seus trabalho  eram dos mais esplêndidos da rádio.

Reformou-se. Compreendo. Sei bem o que isso é.

E a TSF em particular e a rádio em geral perdem uma parte relevante da sua graça. Claro que virão novos jornalistas e que o rejuvenescimento, em si, não é mau. Mas o Fernando Alves é todo um património, um património que leva muito tempo a edificar. E tudo envolto numa toada que encanta -- e com esse talento nem todos têm a sorte de nascer.

Para que aqui fique como um saudoso pro memoria, transcrevo o último texto que disse no seu pessoalíssimo Sinais. 

Sugiro que cliquem no link para poderem ouvi-lo dito por ele.

O olhar perto do chão

No seu mais recente livro, "Montevideu", que nos é apresentado como "uma ficção verdadeira", Enrique Villa-Matas descreve-nos um dos seus vários encontros com Tabucchi a quem muito admirava desde "Mulher de Porto Pim", esse livro que, assim o vê o catalão, trata "com leveza poética" questões "difíceis e complicadas". Os dois haveriam de tornar-se amigos, partilhando experiências em várias cidades, em conferências literárias ou movidos pelos fios invisíveis de um acaso feliz.

Certa vez, sentados numa esplanada nas margens do Arno, em Florença, Tabucchi contou a Villa-Matas que tinha chegado à fala com um tipo estranho, um vagabundo que muito impressionara o amigo, em Paris.

Villa-Matas guardava do vagabundo uma imagem vincada. Todos os dias, ele sentava-se no chão, à porta de uma livraria, no Boulevard Saint-German. Em frente, havia um quiosque de jornais. O que retivera a atenção de Villa-Matas, nesses longínquos dias parisienses? O modo elegante como o vagabundo se comportava, cumprimentando quem entrava e saía da livraria. Por vezes, levantava-se, fumando, com o olhar perdido no horizonte, um magnífico havano. Durante a maior parte do tempo, permanecia sentado no cartão de vagabundo, lendo um clássico. Durante algum tempo, enquanto viveu em Paris, o catalão viu com muita frequência o estranho vagabundo. Anos depois, em Florença, conversando com Tabucchi, este confidencia que, certa vez, chegara à fala com o homem. Estava sozinho em Paris, vagueou pelas ruas e deu com aquele homem sentado no chão lendo o seu clássico. O vagabundo convidou-o a que se sentasse a seu lado, no chão, apreciando o mundo desse patamar ao nível dos pés. Tabucchi não hesitou. Sentou-se ao lado do vagabundo, ficaram ambos durante algum tempo em silêncio, observando os que passavam por eles com total indiferença.

Na noite estival de Florença, Tabucchi contou a Villa-Matas o modo como o vagabundo quebrou o silêncio. Ele nunca mais esqueceria aquelas palavras. Disse-lhe o vagabundo: "Estás a ver, amigo? Daqui uma pessoa pode vê-lo muito bem. Os homens passam e não são felizes".

Partilho convosco esta passagem do magnífico livro que me ocupa por estes dias, na última crónica que assino nesta rádio. A meu modo, vou ocupar as horas, em grande medida, um pouco à maneira do vagabundo desta história. Não penso sentar-me no chão, à porta de uma livraria. Mas procurarei, muitas vezes, bancos de jardim, à sombra. E assim me deixarei ficar, absorto, tomando notas para uma improvável emissão futura, feita de silêncios e de palavras elementares, assim me pouse no ombro a ave clandestina. Ambição chã. Ficarei a ver passar os transeuntes com o seu ar triste, como só os vagabundos sabem detectá-lo. Até sempre.

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Tomara que alguém da rádio o convença a voltar 

(nem que seja 'apenas' para continuar com os Sinais).

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

Saúde. Afecto. Paz.