quinta-feira, setembro 16, 2021

Vou já avisando:
o texto não apenas não tem nada a ver com as fotografias como está muito longe de as merecer...

 


Regressei ao trabalho nesta segunda-feira. Não sei se posso dizer que tive férias. Dez dias de muito trabalho, isso sim. E foi até ao último minuto de domingo. 

Esta semana foi o retomar de uma coisa que, verdadeiramente, não chegou a ser interrompida. Um ano atípico a todos os títulos.

Mas, no fim de um período muito intenso (e os últimos dias das supostas férias foram-no), chega a ressaca. Mais uma ressaca. 

Mal me sento aqui à noite, começo a adormecer. Depois são micro-sestas mas, ainda assim, pequenos instantes em que perco a consciência. Micro sonos profundos mesmo que durem apenas dois a três minutos. Mas, mal acordo, logo volto a adormecer. 

É fruto dos dias actuais e do lastro dos dias de ««««férias»»»»

Nestes dias, de cada vez que me chega um problema só me apetece dizer que já chega. Ainda no outro dia, a minha menininha, num dia em que esteve cá em casa, vendo-me a ter reuniões ou a fazer telefonemas (e, numa das reuniões, estava sentadinha ao meu lado, num plano mais baixo e muito lateral, longe do alcance da câmara), perguntou-me: 'Mas... exactamente o que é que tu fazes...?'. Deu-me vontade de rir mas fiquei sem saber bem o que dizer. Se calhar disse-lhe que resolvo problemas. É que a toda a hora me dizem: 'Temos um problema'. Quantas vezes confesso: também não sei, não tenho varinha de condão, vamos pensar nisto, vamos ver se surge uma boa solução. 

Estes dias têm sido férteis: ainda agora, perto da meia-noite, recebi mais um mail daqueles que me deixam sem saber o que fazer: ou adopto a linha dura e que se lixe ou me encho de paciência e vou ver se há uma soluçãozeca de compromisso. De tarde uma daquelas longas conversas: complicações umas atrás de outras. Às tantas eu disse: resolver isto não é de um dia para o outro, é trabalho de anos. E tive vontade de acrescentar que não sei se vão poder contar comigo durante todos os anos que seriam necessários. Depois a conversa já tinha a ver com problemas em empresas noutros países e que o melhor seria lá irmos. Ouço isto com uma apreensão que se move em segundo plano. Se isto fosse há dez anos, talvez eu encarasse todos estes problemas como estimulantes desafios. Agora vejo-os quase como se se tratasse de uma realidade que vai para além da minha linha do tempo.

Há dias recebi uma mensagem de uma amiga que, na sequência de uma queda na praia, à beira-mar, imagine-se, arranjou um sério problema numa perna. Tanto tempo teve que estar em casa, mal andando e em fisioterapia, que, às tantas, pensou que o melhor que fazia seria reformar-se antecipadamente. Não quis saber de penalizações. E perguntava-me ela se eu também não tinha vontade de mandar bugiar 'esses gajos'. Não sei responder. Gostava que fosse menos intenso, que não tivesse que estar a toda a hora a saber de chatices sendo que sei que não apenas toda a gente acha que estou lá para os resolver como, também eu, acho que o dever e o sentido de responsabilidade me impelem a isso.

E isso cansa-me. Ou melhor: desgasta-me.

Entretanto, a minha mãe vai recomeçar as suas aulas. E, com isso, recomeçam os seus dramas. Há um programa que, se não me engano, se chama 'Depois vai-se a ver e nada', Assim os dramas da minha mãe. Grandes dramas e, afinal, não há qualquer crise. Contudo, a ela são cenas que lhe tiram o sono, que a enervam e a fazem ter vontade de desistir -- e que, por incrível que possa parecer, quase a põem a chorar. Para a ajudar, abro a caixa de correio dela para perceber o que é que desapareceu ou o que é que tem um rectângulo branco à frente que não a deixa ver e... está tudo normal, tudo à vista. 

Uma coisa, tudo isto....

Às seis e tal parecia que a jornada tinha terminado. Peguei no computador e fui lá para fora. Tinha um vestido de alças e estava descalça. Abri uma cadeira ao sol, preparei-me para ver uma série. Pus o pc ao colo. Entretanto, ao olhar para um dos pés, o que estava no alinhamento do computador, pareceu-me a atirar para o verde. Olhei melhor. Parecia o pé de uma morta. Fiquei um bocado espantada. Pensei que era do sol. Pus-me à sombra. Olhei para os pés. Não havia dúvidas: um dos pés parecia descorado, para além de doente, aliás num tom mais para lá do que para cá, esverdeado mesmo.

E, às tantas, tive uma epifania. No domingo, tinha pegado na lata de spray verde claro e tinha voltado a pulverizar os més da mesa de apoio. Como ando sempre descalça, devo ter apanhado com o spray no pé. E, como não dei por nada, não o esfreguei convenientemente. Provavelmente já esteve mais verde e foi saindo com os banhos dos dias in between. 

Agora, para descansar a cabeça, voltei à Netflix. Depois da extraordinária Mare of Easttown, segui para uma recomendação do meu filho. Homeland. Segurança Nacional. E, uma vez mais, estou agarrada. Que série extraordinária. Quantos layers, quanta densidade, que textura. O argumento, as representações, tudo. 

Ao ir ao Youtube ver se havia um trailer para aqui o colocar, percebi que esta é uma série que tem anos, super premiada, que já passou na Fox. Provavelmente é uma das que o meu amigo viciado em séries já estava farto de me recomendar. Mas, uma vez mais, chego atrasada. Estou a ver isto como se fosse absolutamente actual, absolutamente novidade, absolutamente imperdível. E, para meu espanto, tem já carradas de temporadas. Portanto, não vou fazer o papelinho de absolutamente totó partilhando aqui o trailer de uma coisa podre de conhecida.


Mas partilho estas fotografias, incríveis Obtive-as via Guardian e a identidade do fotógrafo encontra-se na legenda das fotografias que lá estão. Poderão também saber como contribuir para tão nobre causa.

Photographic print sale to raise funds for Afghan’s female journalists

The Taliban takeover of Afghanistan has severely affected women’s rights, and especially the lives of female journalists. The NWMI (Network of Women in Media, India) has launched a print sale, with all images donated by the Associated Press, to raise funds to help those journalists with evacuations and resettlement, to rebuild their lives, and to tell their stories

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Desejo-vos uma bela quinta-feira 

quarta-feira, setembro 15, 2021

Os bizarros, os maravilhosos e os políticos
-- ou quando a moda é irreverência, sonho, manifesto e diversão

 


Imagino que quem saiba fazer leituras sociológicas consiga estabelecer correlações entre a moda e a sociedade em que se insere.

A minha mãe há dias falava da moda dos vestidos a dois tons de que eu nunca antes tinha ouvido falar. Explicou que isso mais não era do que aproveitar restos de tecidos e, com eles, fazer uma peça única. Contou que se lembra de, quando era miúda, ter um vestido verde com florzinhas e outro num outro verde -- e um terceiro com o tecido que sobrara de ambos. Penso também na disruptiva moda da minissaia que era quase um manifesto a favor da liberdade por parte das mulheres.

Nestas minhas limpezas e arrumações saíram-me à cena alguns vestidos do final dos anos 80, princípios dos 90. Havia umas lojas nas Amoreiras que tinham vestidos vindos de Inglaterra que me faziam perder a cabeça. E como por essa altura ia com alguma frequência a Paris trazia também de lá vestidos que me encantavam. Vestidos e não só. Lembro-me de ter comprado um casacão encarnado, desestruturada, largo, macio, que adorava usar. Agora, ao ver essas peças que guardei com carinho, acho uma moda exagerada, exuberante. Seria talvez a época dos yuppies, dos deslumbramentos. Talvez essa moda espelhasse o ar daqueles tempos. Deitei tudo fora.

Depois a moda foi-se simplificando, democratizando, nivelando estratos e estratos etários. A profusão de grandes lojas de pronto-a-vestir de boa qualidade a valores acessíveis veio a reflectir aquilo a que se assistia noutros fóruns: a grande circulação entre países, os  programas Erasmus, os voos aéreos a baixo custo, os acordos entre países do espaço europeu -- e tudo o mais --  deitaram abaixo as fronteiras e as barreiros e a moda perdeu o elitismo, a exclusividade. Novos e velhos, ricos e pobres e, por vezes, homens e mulheres, vestem-se agora, no mundo ocidental, praticamente da mesma maneira.

E eis que chegamos a 2021, um dos malfadados anos Covid mas também o ano em que, graças à vacina, as sociedades começam a dar passos no sentido da retoma de alguma normalidade. Depois de os grandes espectáculos, galas e desfiles terem estado suspensos, eis que os temos de volta. Com os devidos cuidados e as necessárias adaptações mas, santíssimo sacramento, com que vigor os temos de volta!

Vale tudo: os vestidos de princesa, os vestidos de diva, os vestidos de maravilha, os vestidos-manifestos, os vestidos andróginos, a pura loucura, o puro nonsense. Não sei se é um tremendo boom de criatividade, se é uma explosão da vontade de liberdade, se é um valente pontapé nos preconceitos e nas baias. Vale tudo. E vale tudo com um sorriso de provocação e boa disposição. É como se, em tudo, houvesse um statement: viemos para ficar, faremos o que nos der na bolha. 

A gala que teve lugar no pátio do Metropolitan Museum of Art de Nova York -- onde se junta tudo o que é personalidade que sabe usar a moda -- mostrou modelos que certamente ficarão para a história. Desde a exuberância ficcionada do mundo dos youtubes, dos influencers, até à irreverência mais inesperada, à leveza etérea de modelos saídos de contos de fadas, a modelos inusitados e fantásticos que parecem inventados para o mundo do gaming, desde a sensualidade mais tradicional è exibição mais arrojada da animalidade que existe dentro da mulher -- de tudo ali se viu.

E que não se olhe para isto como um desfile em que a futilidade se deu a luxos e provocações nunca antes vistos. Não. O tema não é para leigos, é para sociólogos e para antropólogos.

E, estou em crer, para estetas. 

Na ligeirinha só para curiosos como eu.


























TAX THE RICH


The weird, the wonderful and the political: highlights from the 2021 Met Gala red carpet


The Met Gala has returned to the steps of the Metropolitan Museum of Art after a year off due to Covid-19. There were multiple show-stopping outfits from Lil Nas X while Kim Kardashian and her estranged husband Kanye West turned heads by dressing entirely in black, even their faces. Amid the glamour, some guests highlighted social issues. The Democratic congresswoman Alexandria Ocasio-Cortez had 'tax the rich' written in red across the back of her white gown and the sports star Megan Rapinoe carried a clutch bag with the words ‘in gay we trust’ 



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Podem ver-se mais modelos ou o nome dos designers ou de quem veste na Madame le Figaro, no Harper's Bazaar ou na Vanity Fair

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Desejo-vos um belo dia


terça-feira, setembro 14, 2021

Quando um estranho confessa o seu amor através de uma carta...

 


De vez em quando o algoritmo do YouTube sugere-me os vídeos de Thoraya Maronesy, uma jovem simpática que consegue a proeza de arrancar os mais sentidos e secretos testemunhos a estranhos que se cruzam com ela nos jardins em que monta arraiais com o seu equipamento.

Já algumas vezes aqui tive Thoraya. Esta coisa de alguém, quando instado a isso, ser capaz de contar os segredos mais intensos ao mundo, surpreende-me. E o facto de parecer que toda a gente guarda um segredo pronto a ser divulgado parece-me extraordinário.

No outro dia contei como, por vezes, pessoas desconhecidas se acercavam de mim e, sem preâmbulos ou justificação, me contavam assuntos muito seus, íntimos, aflições. A mim nunca me aconteceu isso: ter vontade de desabafar junto de estranhos. Pode parecer que não mas a verdade é que sou demasiada reservada para isso. 

Em contrapartida, perante os que me são mais próximos não guardo segredos. Falo abertamente e, se calhar, até um bocado desabridamente, do que penso. 

Em momentos em que alguns rodeios ou meias palavras seriam aconselháveis eu falho: digo o que penso sem delongas. Nisso como em tudo na vida acho que é um disparate perder tempo ou persistir em caminhos errados -- e não consigo dizê-lo de outra maneira. Se alguma coisa me preocupa, não está na minha natureza escondê-lo. Verbalizo-o abertamente. Por isso, intriga-me a capacidade que algumas pessoas têm para esconder o que pensam, o que sentem, o que querem. Pensarão que têm duas vidas? Esta para ser desperdiçada e outra, então, para compensar o tempo perdido na primeira? Não percebo. 

Imagino-me a ir um dia num parque e a ser abordada por uma qualquer Thoraya desta vida. Não gosto de virar as costas a um desafio, muito menos a um tão engraçado e, ainda por cima, conduzido por uma pessoa tão simpática. Mas, mesmo que quisesse corresponder, de que segredo poderia eu falar? 

Mas o desafio desta vez é outro e é ainda mais tentador: escrever uma carta a alguém que se ame ou amou. E a este desafio eu não viraria costas. 

Gosto de cartas de amor. Já o disse: prefiro recebê-las. Mas, se tiver que escrever uma, escrevo. 

Aliás, aqui, vendo bem, quantas vezes já as escrevi? Se me desse ao trabalho de reuni-las, obteria um livro inteiro de declarações de amor. 

Aquilo de que não tenho experiência é de escrever cartas de amor, ou melhor, declarações de amor, a quem não me ame. Não me lembro de alguma vez ter gostado de alguém que não gostava de mim. Acho que não é mérito: é pragmatismo. Lá está: aversão a perder tempo. Também não me lembro de esconder o meu amor, mesmo no início. Sou mais de seduzir, desafiar, agir à descarada. 

Vita brevis. Esse é o meu lema, esse é o fio condutor dos meus actos. Vita brevis. Ou seja, bola para a frente e força nisso.

Não me imagino a consumir tempo de vida a esconder um amor. Claro que poderia acontecer estar apaixonada por quem não gostasse de mim. Mas aí acho que via a coisa com realismo: santa paciência, não dava, não dava. Partia para outra. O que não falta são homens e, no meio de tantos, algum haveria de ser a meu gosto e sensível aos meus encantos. Agora estar a querer alguém e, em vez de ir à luta, às claras, deixar-me estar a queimar tempo com platonices, fosquices, suspiros pelos cantos, tristezas eternas, isso não. Não faz o meu género. Pode ser muito poético mas não é para mim. Eu, nisto dos amores, sou mais prosa. Poesia sim mas como preliminar, como acompanhamento ou como sobremesa. A substância, para mim, está na prosa. E prosa em versão hands on. 

Carta de amor? Sim, até poderia aqui escrever uma a um amor imaginário, ficção da pura a fingir de verdadeira. 

Meu amor, por onde andas? Espero por ti e nada me dizes. Saberás a dor em que a minha alma fica? Saberás o vazio que cresce no meu coração? Espero que me procures, todos os dias o espero, todos, e não vens. Como negar, amor meu, que sinto a falta das tuas doces palavras e das tuas tórridas tentações? Sinto tanto a tua falta. Por onde andas? Os anos passam e as nossas mãos não se tocam e os nossos corpos não se encontram. Porquê? Que sentido faz isso? O que andamos a fazer? Não queres experimentar o azul dos mais longos abraços ou o branco da luz do êxtase? Não fujas de mim. Não fujas. Estou à tua espera. Vem.

Poderia continuar, escrever uma carta de amor a preceito. Gosto de derramar palavras de amor. Mas não escrevo. E não o faço por respeito para com os pinga-amores que suspiram, suspiram mas não passam disso, ou que sonham, sonham e não acordam para a vida. Também têm direito a achar-se especiais. Por isso, não escrevo. Fico-me por aqui na companhia dos bem dispostos amantes impossíveis que Thoraya tão bem sabe apanhar.

Strangers Confess Their Love Through Love Letters
Um projecto de Thoraya Maronesy


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E, já agora, a propósito de cartas de amor, com vossa licença, uma vez mais:

“My dearest one" Benedict Cumberbatch reads Chris Barker’s letter to Bessie Moore



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Haley Reinhart interpreta Can’t Help Falling in Love 
Pinturas e escultura representando Diana, essa grande dissimulada, essa grande maluca.
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Nota:
Não tenho conseguido responder aos comentários pois o tempo não me chegado ou, se me chega, o sono tira-me o tapete. Adormeço mesmo sem dar por isso. As minhas desculpas. A ver se consigo pôr o sono em dia para ver se isto entra os eixos. Aceitem as minhas desculpas.

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Desejo-vos uma terça-feira muito boa
Saúde. Motivação. Força.

segunda-feira, setembro 13, 2021

Um dia normal da minha vidinha, um dia triste para o País

 


Saímos muito tarde do campo. Só vi as imagens da cerimónia de adeus a Jorge Sampaio à meia noite ou quase, nem sei. Momentos muito dignos e muito emotivos. Do que vi, em especial nas palavras dos filhos, pareceu-me que houve uma autenticidade e uma clareza que honraram a memória de Jorge Sampaio não apenas enquanto figura pública mas também enquanto pai, certamente um pai muito querido.

Vi ali uma dimensão superior que não é muito habitual. Parece que, de repente, se sentiu uma convergência no sentido de uma escala de altos valores morais, éticos, cívicos, bem acima das pequenas irrelevâncias que parecem corroer o quotidiano da vida social e política em Portugal.

A organização do espaço, um certo distanciamento a que a covid obriga, a contenção e, ao mesmo tempo, a emoção que perpassava por todos parecem ter contribuído para que a despedida a Jorge Sampaio tivesse sido um momento ímpar.

Perante estes momentos e perante a saudade que ele nos deixa, pouca vontade tenho de falar das minhas coisinhas. 

Mas a vida da gente é também a vida de todos os dias, a vidinha, a nossa vidinha. E este blog é apenas o despretensioso canto para onde venho ao fim do dia para descansar a cabeça. 

Por isso, apesar de sentir o peso emocional da partida de um homem bom que era uma referência da defesa da democracia, da liberdade, da inclusão, do respeito pela dignidade e do direito ao futuro, vou escrever algumas palavras sobre o meu pequeno dia.

Arranjámos duas pequenas plataformas com rodinhas e porque devo ser casada com um hércules de verdade, ele conseguiu levantar o bisonte em peso enquanto colocávamos as ditas plataformas por baixo. E assim, com o bisonte montado num carrinho, levámo-lo caminho afora até à casinha das ferramentas. 

Só que cometi um tremendo erro. Estava incumbida de medir o animal e a porta da casinha por onde deveria entrar. Concluí que passaria à justa. Contudo, lá chegados, percebemos que qualquer coisa não estava bem. Medi o corpo do animal e porque à vista desarmada se via que a base e o tejadilho eram mais largos, medi o que estava mais à mão: a base. Só que, hélas, o tejadilho tem mais dois centímetros que a base. Portanto, missão abortada.

Uma vez mais o meu marido tinha uma solução: desfazermo-nos do pouco-amado guarda-fatos. Mas eu não desisto assim tão facilmente. 

Pensei, então, em colocá-lo no quarto do estúdio. Para isso, ter-se-ia que retirar o pequeno roupeiro que lá estava, o que era do quarto da minha filha quando era miúda, que iria, esse sim, para a casa das ferramentas. 

E foi o que fizemos. Foi uma empreitada pesada, a la Ilha de Páscoa. O meu marido, sempre com medo que me dê algum fanico, está o tempo todo a mandar-me não empurrar, não levantar, não puxar, não fazer força. Por isso, para além de empurrar, levantar, puxar, carregar, estou sempre a ser impedida de fazer o que me apetece ou, pior, a ser admoestada.

Mas fez-se.

A arca, a famosa arca, está a esta hora na mala do carro. Tivemos que rebater os bancos. Agora era tarde e estávamos exaustos e cheios de fome, já não deu para tirá-la do carro.

De lá, da arca dos mil tesouros, saiu um grande e quentinho cobertor, vários naperons de renda e lá continuam lençóis e toalhas e renda e bordados, parte dos quais, provavelmente, do enxoval de tias há muito falecidas.

Entretanto o 'tasker' que ia montar o roupeiro no nosso quarto e outas insignificâncias e que estava escalado para as dez da manhã, apareceu às cinco da tarde. E, em vez de trazer um ajudante, apareceu sozinho. Portanto, em desespero de causa, o meu marido acabou a montar sozinho duas das peças cuja montagem pagámos ao tasker e, ainda assim, acabámos por sair de lá à hora a que deveríamos estar aqui, banhos tomados, jantares despachados. Um desespero.


Antes de sairmos ainda lavei o chão das divisões por onde o artista andou e arrumámos parte das roupas no novo e alvo roupeiro. Mas a casa ficou longe de ficar bem arrumada. Não gosto nada de sair e deixar a casa sem ser como gosto de vê-la ao regressar: tudo limpinho e arrumadinho. Mas estávamos cansados, com fome, com a viagem pela frente. Coração ao largo.

Mas o quarto está outro. Parece que cresceu. E é agora um lugar de serenidade e leveza. A diferença que faz ter as divisões com móveis escuros ou com móveis claros. A nossa disposição, queira-se ou não, ilumina-se. Acho que o guarda-fatos, que agora navega noutras paragens, não vai escapar a, um dia destes, ser pintado de verde claro ou de cor-de-rosa suave, pó de giz (quiçá até às cores).

Sobre duas das pequenas outras peças que vieram para além do roupeiro falarei noutro dia: cada uma tem um uso atípico e, diria, algo arriscado. Mas não digo nada. Talvez mostre fotografias daqui por uns dias.

Esta segunda-feira retomo a rotina pré-férias e talvez consiga ter uns dias mais descansados. Não sei se posso dizer que tive férias mas, nestas coisas, é mesmo assim: cada um tem aquilo que merece.

E, por ora, é isto. 

Ah, só mais uma coisa: ao telefone com a minha mãe, disse-me ela com voz embargada, certamente com os olhos cheios de lágrimas: 'Se o teu pai ainda fosse vivo, fazíamos hoje...' Interrompi-a para ver se não rompia mesmo em pranto: 'Eu sei, faziam anos de casados'. Sinto muita pena por ela, por saber que fica triste por não tê-lo cá para festejar com ela.


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Pinturas de Lucien Freud e uma fotografia dele, em plena acção. Jack Johnson interpreta Gone com Ben Harper

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Uma semana feliz a começar já por esta segunda-feira

domingo, setembro 12, 2021

Quanto vale o sangue dos outros?
Ou como é fácil fazer nascer unicórnios

 

Muito loura, uns olhos muito azuis que a maquilhagem tornava maiores e que pouco piscavam, uma voz estranhamente grave (aliás, forjadamente grave), uma toilette a la Steve Jobs (quase sempre de gola alta preta), um sorriso charmoso, uma conversa convincente (para quem queria deixar-se convencer), uma audácia mascarada de assertividade, uma opacidade mascarada de transparência, um à-vontade perante potenciais investidores e representantes do poder político, um descaramentos que não desarmava -- tudo ingredientes que fizeram de Elizabeth Holmes um caso sério no mundo dos negócios emergentes e muito promissores.

Em especial os homens mais velhos babavam-se perante a jovem e formosa fundadora e gestora daquela fantástica empresa que se anunciava como the next big thing. Era uma nova Apple que estava a nascer. Uma tecnologia inovadora que revolucionava o mundo das análises de sangue e que renderia milhões e milhões. 

E, perante a inexistência de evidências, apenas levados pela lábia da juvenil e sorridente loura de olhos de boneca e voz grossa, os investidores abriram os cordões à bolsa e o dinheiro começou a entrar. Num instante. a Theranos valia brutalidades. Ninguém queria ficar para trás. 

Na minha vida profissional já testemunhei um caso idêntico embora, obviamente a uma mais modesta escala: uma mão cheia de nada a ser apresentada como um tiro certeiro num mercado em brutal expansão. Quem mantivesse a cabeça a funcionar facilmente percebia que só um maluco investiria um cêntimo numa coisa que até podia ser mas que, de facto, não era nada. Quando a máquina da mentira é posta em marcha dificilmente pára. 

Só pára se alguém, totalmente descomprometido com o projecto, à bruta e de forma pública e irrefutável, a parar. Caso contrário, os enganados não querem aparecer como uns patos e vão ficar calados, os que apadrinharam não vão querer parecer uns otários e ficam caladinhos, os que lá trabalham não querem perder o emprego e nem um pio, os mais próximos não querem dar uma facada nas costas e fazem de conta que não sabem de nada. Todos, de uma maneira ou de outra, se tornam coniventes, todos encobrem o inexistente unicórnio. 

No caso de Elizabeth Holmes o caso é mais grave pois não apenas enganou os investidores como se esteve nas tintas para a saúde das pessoas cujo sangue era analisado naquelas máquinas da treta que vendia como se fossem revolucionárias e fiáveis. Resultados errados que levavam a medicação inadequada podendo pôr a vida dos doentes em risco enquanto o sucesso da empresa era incensado e recompensado -- dois mundos antagónicos que existiam sob gestão da sua CEO que continuava a apresentar-se em conferências, entrevistas e encontros com altas figuras da política e do mundo dos negócios. Sempre segura, combativa e sorridente.

Agora, cerca de três anos depois de ter sido publicamente desmascarada, apresenta-se a julgamento menos maquilhada, já sem a farda a la Steve Jobs, toda ela num estudado low profile, responsavelmente grávida -- e sorridente como se não fosse nada com ela. Já não se mostra como a grande empreendedora mas como a inocente que os outros querem derrubar e que está ali disponível para contar como foi manipulada, enganada.

Como qualquer psicopata, não assume a responsabilidade pela gravidade dos seus actos. É capaz de invocar desculpas, fazer-se de vítima e, de olhar tranquilo e ingénuo, continuar a apresentar-se como bem intencionada. 

Descrita por quem sabe como uma narcisista, tudo nela evidencia os traços psicológicos de gente assim. Em maior ou menor grau os narcisistas têm sempre qualquer coisa de psicopata, de sociopata, de tóxico, de perigoso. No caso de Elizabeth Holmes estar-se-á perante um expoente máximo mas não nos enganemos: de gente assim a única coisa a fazer é guardar distância pois desde que começam numa de ser cativantes até à fase em que se fazem de vítimas, nunca assumem responsabilidade pelo mal que espalham à sua volta. Esvaziam animicamente os que os rodeiam e que, tantas vezes, ingenuamente tentam ajudá-los.

O vídeo abaixo mostra bem toda esta história. Poderia ser ficção: a ascensão e queda de uma extraordinária lunática. Mas não é ficção: é verdade. A lunática, Elizabeth Holmes, é bem real.

Elizabeth Holmes exposed: the $9 billion medical ‘miracle’ that never existed

Elizabeth Holmes promised the world a medical revolution. At 19, she claimed to have invented a miniaturised machine that with a single drop of blood could map a person’s health quickly, reliably and cheaply. She boasted that her technology meant serious diseases like cancer would be prevented before they happened. And it was not only a “wow” moment for patients. High-profile investors rushed to pour a fortune into Holmes’ company, Theranos, and she became Silicon Valley’s first self-made female billionaire. But as Tara Brown reports, her invention was an invention – it simply didn’t work. Elizabeth Holmes is no visionary. She’s a cruel fraudster who has put people’s lives at risk, and because of that, now faces 20 years in jail.



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Desejo-vos um bom dia domingo

[Apesar de ser um dia triste]

sábado, setembro 11, 2021

Jorge Sampaio

 

Logicamente sempre votei no Jorge Sampaio. E não me refiro apenas às suas candidaturas a Presidente da República. A sua visão civilizada, humanista e moderna do mundo sempre me interessou e cativou. 

[Não gosto de obituários ou de palavras de circunstância, em especial em momentos em que há uma quase cacafonia e uma disputa entre os que querem ter a melhor memória, o mais picante episódio, o mais emotivo pensamento. 

Mas também não quero deixar passar a sua partida sem uma palavra de reconhecimento pelo tanto que acho que lhe devo. Por isso, falo. Mas sei que o que disser estará sempre aquém do que haveria a dizer.]

Sempre vi em Jorge Sampaio alguém que olhava a sociedade em geral, quer a nível nacional quer a nível internacional, segundo uma perspectiva ampla, culta, bem informada, inclusiva, disponível para acolher o desconhecido. Jorge Sampaio era um homem com mundo.

Não lhe vi, em toda a sua vida política, um gesto populista, uma palavra que revelasse tacanhez, um olhar sectário, um pensamento menos nobre. A todos ele tratava com respeito. Dava-se ao respeito. Toda a gente lhe tinha respeito. 

Jorge Sampaio dignificava o País. Ao contrário dos que lhe sucederam, muito em especial o que imediatamente lhe sucedeu, Jorge Sampaio nunca nos envergonhou. Sendo uma pessoa afável e próxima, era fácil reconhecer nele a indesmentível superioridade que as pessoas que fazem da elevação moral o fio condutor da sua vida nunca veem negada.

Fotografia proveniente do Expresso

E nas suas funções públicas, quando se fazia acompanhar pela mulher --  e era fácil perceber a estimulante e carinhosa relação que os unia -- algo o tornava ainda mais moderno a meus olhos. A inteligência e independência de espírito de Maria José Ritta dizem muito não apenas do que ela é mas também do que era Jorge Sampaio. Diz-me com quem antes, dir-te-ei quem és. O amor entre eles era uma relação virtuosa e um exemplo de independência e, uma vez mais, de modernidade. 

Havia um conjunto de políticos de grande envergadura intelectual, ética, moral e cultural que eram, em Portual, um garante da defesa dos mais profundos valores democráticos. Um a um têm estado a partir e, para meu desgosto e preocupação, não vejo que estejam a ser substituídos em igual número e, sobretudo, por quem tenha mérito e qualidades equivalentes. 

A cedência ao facilitismo mina os pilares da democracia e ajuda a propagar a mediocridade e, perante maus exemplos, são necessárias vozes que se elevem e denunciem o que for de denunciar. Jorge Sampaio era uma dessas vozes e a sua autenticidade e autoridade moral elevavam-se de forma soberana. 

Tenho pena que essa sua voz se tenha calado. Saibamos honrar a sua memória.


(... e a vida continua...)

sexta-feira, setembro 10, 2021

No glorioso reino dos memes, dos bazares chineses e dos casais à beira de um ataque de nervos





Por acaso tive um dia muito eclético. Para começar, recebi um mail determinante para o meu futuro próximo. Poderia ter procrastinado na resposta, debatido alternativas, estudado hipóteses. Mas sou mais o oposto disso: se tenho alguma destas pela frente, quero atirar-me logo ao assunto não vá a coisa esfriar. Além disso, em regra acredito que a melhor solução é a mais imediata, a mais simples, a mais intuitiva. Por isso, antes que a cabeça comece a dar nós, vou em frente. 

Ou seja, parte da manhã foi a elaborar a resposta. Comecei a escrever com uma ideia e, depois, aconteceu o que aqui acontece tantas vezes: as ideias tomaram o seu próprio rumo. Refiz o início do mail para que a coisa parecesse coerente.

A seguir fomos para a praia: maré vazia, espaço amplo, um tempo agradável. Uma bela caminhada. Pensei que era bom que as férias estivessem a começar e não, estranhamente, já a acabar.

Depois veio o almoço e, logo a seguir, chegou novo mail: a resposta ao meu. Para que ficasse tudo bem claro, enviei novo mail. Gosto das coisas inequívocas.

Depois fomos até à cidade para tratarmos de uma série de expedientes. Quando regressámos, fui varrer o jardim. Parece que o Outono já chegou. Tantas folhas secas. Pelo meio fui apanhando ameixas. Gordas e doces. O meu marido chamou-me a atenção: não deveria comer mais do que três peças de fruta por dia por causa do açúcar e onde é que as três já lá iam. Respondi que não sei se uma ameixa conta como uma peça de fruta. O meu marido disse que sim. Perguntei se um bago de uva também conta como uma peça. Respondeu com uma pergunta: achas que só um abacaxi é que conta como uma peça de fruta? Portanto, ficámos por ali quanto à dose diária de frutas. 


Entretanto, ele estava cheio de afazeres profissionais: telefonemas de seguida, mails para fazer. Aproveitei para varrer melhor. Fui buscar o ancinho e fui fazendo montes que depois apanhei e levei para o monte da compostagem.

Já passava das sete quando saímos. Passámos por um restaurante para trazer jantar e pusemo-nos a caminho do campo. Ou melhor, para ser completamente sincera, houve uma outra coisa. Reparei que perto do restaurante havia um big chinese bazar. Como tínhamos que fazer tempo para a comida estar pronta, fui lá. Ele ficou no carro a fazer e a receber os seus telefonemas e a ranger os dentes. Diz que estas férias, por razões que o transcendem,  estão a ser passadas maioritariamente em lojas chinesas e isso chateia-o. Gosta de exagerar, como se sabe. Mas, implicações e preconceitos dele à parte, trouxe de lá duas caixas de plástico de arrumação, para colocar no móvel debaixo do lavatório da casa de banho grande. Agora os pacotes de lenços de papel ou coisas assim andam por lá um pouco ad hoc. 
No século passado, o móvel foi construído à medida e, na altura, preocupei-me com o design e com os acabamentos, deixando a funcionalidade para enésimo plano. Hoje, obviamente, tudo se passaria de maneira bem diferente. 
Agora, com estas duas caixas, tudo ficará devidamente acondicionado. Mas ao meu marido tudo isto lhe passa ao lado e embirra é com as lojas dos chineses. Mas, se não fosse aos chineses, onde é que ia comprar as caixas? Só se fosse ao Leroy mas ele também embirra com ir ao Leroy... Portanto, o melhor é não dar muita importância aos seus remoques.

Para esta sexta é que temos pela frente uma tarefa que temo que seja deveras hercúlea: retirar o guarda-fatos antigo do nosso quarto e levá-lo para a arrecadação das máquinas que é longíssimo do quarto, do lado de lá do estúdio. Ele diz que é impossível, diz que para o tirar daqui só partindo-o. Não posso aceitar isso pois preciso dele para arrumar telas e outras coisas que não sei onde pôr. E diz também que, para ele caber na arrecadação, só tirando de lá várias coisas que não se sabe onde pôr.   Aliás, deviam lá ficar só que não devem caber. Ou seja, segundo ele, por todos os motivos, uma equação impossível.

E depois está lá uma coisa mastronça que não faz lá falta nenhuma e que ocupa muito espaço mas que está cheia de coisas como lençóis bordados das tias. São lençóis que são estreitinhos, só mesmo em camas individuais. Mas alguma vez vou deitar os miúdos em camas com lençóis cheios de rendas e bordados...? Passavam-se. 
A coisa mastronça é uma arca enorme em madeira perfumada, creio que sândalo. Mais do que perfumada, a madeira é trabalhada, esculpida. Uma obra de arte. Comprámo-la, eu e a minha mãe, quando eu era jovem adolescente. Deve ter sido ideia da minha mãe eu precisar de uma arca para ir colocando o meu enxoval. Só ideias ultrapassadas e disparatadas. Ainda hoje tenho toalhas, jogos turcos e lençóis desse infinito espólio. Já na casa dos meus pais, aquilo ocupava um espaço precioso e o meu pai, então, embirrava fortemente com ela.
Não me lembro se ainda cheguei a levar a arca do tesouro para alguma das minhas casas mas sei que acabou em casa de uma das minhas avós. Queixava-se que ocupava muito espaço mas, enfim, acabou por receber a indesejável hóspede. 
Quando morreu, nem os meus tios nem os meus primos quiseram nada do que quer que fosse. Deram muita coisa, deitaram fora outro tanto e eu é que fiquei com algumas recordações. E, claro, com o raio da arca já que tinha começado por ser minha. Veio numa leva de mudanças e foi parar à casinha das máquinas. 
E eu só vejo que a solução para aquela casinha passa por tirar de lá a dita cuja. Poderíamos levá-la e colocá-la na cave da outra casa. Mas acho que não deve caber no carro. E é pesada que ninguém imagina. O meu marido fuzila-me quando falo nestas coisas. Mas para lá colocar o guarda-fatos, supondo que ele não o desfaz antes, acho que não há outra solução. 

Só tenho coisas que me ralem, é o que é.


Portanto, como se vê, esta sexta-feira avizinha-se problemática. Vai ser daqueles dias em que mais vale exprimir-me por gestos ou, melhor ainda, estar calada, talvez mesmo fazer-me de morta. A ver vamos, como diz o ceguinho, se chego ao fim do dia ainda casada. 

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Estou precisada é de ioga. 
A ver se, inspirada aqui pelo meu velho amigo Larry, no regresso ao trabalho tenho uma vida mais tranquila e se arranjo tempo e disposição para ir fazer ioga. 

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As imagens de sarcasmo clássico são da autoria de Adnan Cirak que tem uma página cheia delas
Roaring 20s - Panic! At the Disco com Therese Curatolo & Jabu Graybeal
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Desejo-vos uma happy friday cheia de coisas boas
Força aí

quinta-feira, setembro 09, 2021

A dor dos outros

 






Uma vez, não me lembro porquê, fui a casa à hora de almoço e regressei de autocarro. Foi há muito tempo. Ao meu lado sentou-se uma mulher mais velha do que eu mas que, certamente, seria mais nova do que sou agora. Eu ia calada, do lado da janela. Ela começou a falar. Contou-me que o filho se drogava, que a roubava, que lhe batia. Eu estava quase petrificada. Era muito nova nessa altura e ainda não estava habituada a que estranhos me contassem os seus dramas. Não sei o que lhe disse, não sei se na altura estava preparada para dizer o que, numa situação de angústia, uma pessoa precisa de ouvir. A senhora contava que morava num rés-do-chão e que tinha mandado colocar grades para o filho não entrar. Dizia que, sempre que ele conseguia entrar ou sempre que ela ia buscá-lo à esquadra ou que o apanhava caído na rua e acabava por deixá-lo ficar em casa, ao fim de pouco tempo, ele acabava por desaparecer e que, sempre que desaparecia, ela já sabia que ele tinha roubado alguma coisa. E que outras vezes, quando ela escondia o pouco que tinha, ele a ameaçava e agredia. 'Já me bateu tantas vezes...', disse 'tenho tanto medo dele'. Tinha a voz presa, por vezes quase não conseguia falar. Quando cheguei à minha paragem tive pena de sair antes dela, sentia que deveria continuar a ouvi-la. Nunca mais me esqueci desta mulher. Lembro-me perfeitamente dela e do que me disse. Não me lembro de uma única palavra que eu tenha dito.


Outra vez foi a senhora que, por vezes, via a passear o cão e que tinha um filho estranho que devia morar com ela. O filho deveria ter uns trinta e tal ou quarenta anos e era esquisito. O meu marido dizia que, se calhar, ele tinha tido problema com drogas e estaria a recuperar. Costumava andar com uma grande máquina fotográfica, uma objectiva das boas, equipamento dir-se-ia que profissional, e estava quase sempre a fotografar não sei bem o quê, acho que pormenores. Quando eu estacionava o carro, por vezes via aquele trio, a mãe, o filho e o cão. Uma vez estacionei e ela estava sentada no muro de uma das casas que dá para o pequeno parque onde eu tinha estacionado. Vi-a levantar-se e vir na minha direcção. Penso que, na altura, descrevi essa situação aqui no blog. Chegou-se ao pé de mim e disse-me: 'Morreu o meu filho', um fio de voz. De facto, estava vestida de preto. Lembro-me de me ter sentido aterrada perante a dor imensa daquela mãe. Estava numa angústia imensa. Disse que não conseguia estar em casa, que só queria estar no cemitério. Que ele tinha adoecido e que ela nunca tinha percebido que a doença era tão grave. Não lhe tinha ocorrido que o filho estivesse em vias de morrer. Que tinha sido muito rápido. Que quando lhe disseram que o filho tinha morrido não conseguia acreditar. E eu ouvia, esmagada pela dor dela, também sem saber o que dizer. Não sei o que lhe disse. Só me lembro do que ela me disse. Fiquei ali na rua a ouvi-la até ela querer, esmagada pela dor. Quando contei ao meu marido ficou muito admirado não apenas pela morte do filho da senhora como pelo facto da senhora, sem me conhecer, sem nunca antes ter falado comigo, ter chegado ao pé de mim para me dizer tudo aquilo.

Uma vez íamos, à noite, para a nossa casa no campo e, pelo caminho, parámos no supermercado da cidade mais próxima. Eu tirei a senha para o peixe e o meu marido foi comprar fruta, legumes, queijo -- essas coisas. Eu fiquei à espera da minha vez. Estavam várias outras pessoas à espera. Então, uma das pessoas, uma mulher, abeirou-se de mim e começou a contar-me sobre os problemas que tinha com o filho, separado, incapaz de se fixar num emprego, só a falar em ir para fora, com uma criança pequena de quem não queria saber. A mulher, à beira das lágrimas, dizia que não sabia o que seria do filho se fosse para outro país, que ficaria sem saber como é que ele estava. E que perderiam o contacto com a criança. Que não sabia o que fazer. Que achava que ia perder o filho e o neto. O meu marido, que se tinha despachado, ao ver a senhora a falar comigo, ficou de longe, penso que era alguma pessoa minha conhecida. Quando chegou a vez dela ser servida, ao ir-se embora, agradeceu-me. Quando contei, o meu marido voltou a dizer que não percebe como é que, do nada, alguém chega ao pé de uma pessoa que nunca viu e começa a falar de assuntos tão pessoais. Também acho estranho. Mas é isto que acontece.

Ultimamente, quando percebo que isso está prestes a acontecer, afasto-me um pouco, agarro-me ao telemóvel para que as pessoas se retraiam. Aconteceu no outro dia à porta da farmácia. A lotação é limitada pelo que a espera se faz no exterior, esperando a vez da nossa senha. Estava ali e vi uma senhora que se foi chegando. Percebi que não haveria de faltar muito para me falar de assuntos muito seus. Fiz de conta que não tinha percebido e dei uma volta por ali. Não sei porque agora evito. Creio que é porque receio não estar à altura e não ter a palavra ou a atitude certa. 

Lembro-me de quando salvei uma mulher que tinha tentado suicidar-se. Também o contei, não sei se aqui se no outro blog. Andávamos a caminhar à beira rio e o meu marido foi por um lado e eu quis ficar ali, não sei se a fotografar, se quê. Já era lusco fusco ou noite, também não recordo com exactidão. Havia o barulho das ondas a bater na amurada. Só eu estava ali. O meu marido detestava que eu ficasse para trás, em locais ermos, ainda por cima já sem luz. E, então, pareceu-me ouvir uma voz, um choro, a vir da água. Abeirei-me e vi que estava uma mulher dentro de água, tentando segurar-se ao muro. Mas as ondas puxavam-ma e, por vezes, desaparecia. Quando me viu, suplicou-me que a ajudasse, suplicou-me que ficasse ali, que não a deixasse sozinha. Sem ver vivalma, sem ver o meu marido, sem saber se haveria de ficar a falar com ela se sair dali para ir em busca de alguém, vivi uns instantes de aflição. Não vou descrever em pormenor mas consegui chamar ajuda. Estive o tempo todo a dizer-lhe que se aguentasse, que tudo se iria resolver. Ela, mesmo quando estava a ser puxada com cordas, não parava de me pedir que não a deixasse, que a ajudasse. A custo, os bombeiros conseguiram resgatá-la. Estava gelada, perturbada. Pediu-me que ligasse ao marido, quis que fosse eu a falar. Pedi ao senhor para ir ter ao hospital. Ela não me largava a mão, pedia-me 'ajude-me, ajude-me'. Disse-me: 'sou muito infeliz'. Queria que eu fosse com ela na ambulância mas os bombeiros não deixaram. Fiquei muito perturbada. A mão gelada dela agarrada à minha não me sai da memória. Não a procurei no hospital. Pensei que ela deveria ter apoio clínico especializado, não o apoio de uma leiga, de uma desconhecida. Mas não sei se fiz bem.

Mesmo aqui já recebi apelos aflitos, pedem-me que lhes ligue e enviam-me o número de telemóvel ou pedem-me que vá ter a alguns lugares, já me disseram que não sabiam a quem mais recorrer, pedem-me ajuda, que não aguentam mais, percebo que estão no limite. Não acedo, não ligo, não me encontro. Tento ajudar de outra forma, tento que procurem ajuda especializada. Não tenho preparação para lidar com situações limite. Tenho receio de falhar.

No outro dia, quando fiquei em observação no hospital, perto de uma jovem suicida que toda a noite gritou e chorou, tive muita vontade de ir falar com ela. Várias vezes me soergui e me preparei para me ir sentar ao lado dela. Mas ela estava rodeada de enfermeiros que a seguravam e atavam à cama, e eu própria tinha que estar em repouso -- não iam aceitar. E, depois, que lhe diria eu? 

Mas, se calhar, em situações assim, não é preciso dizer muito, se calhar basta ouvir e sentir o sofrimento que os outros sentem.

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Excerto de pinturas de Pieter Bruegel, o Velho, ao som de A Garota Não que interpreta Mediterrâneo

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Desejo-vos um dia bom