domingo, junho 16, 2019

Uma pseudo-realizadora lê sobre escândalos e antecipa outros encantamentos aqui, in heaven





Hoje de manhã, o meu tio mal me via, estava a regar o jardim. Está mais encurvado e reparo nas rugas; mas o sorriso é sempre o mesmo. Fica contente por me ver, pousa a mangueira e vem logo ter comigo, sorridente. Sempre foi uma pessoa serena. Nunca se ouviu que levantasse a voz, nunca se soube que se tivesse zangado. Muito diferente do irmão, sempre apressado e stressado, este meu tio é a calma em pessoa. O meu pai sai à mãe que sempre conheci em estado de alerta, sempre ansiosa com alguma coisa. O irmão sai ao pai, o meu avô tranquilo. Tenho cá o cadeirão onde o meu avô se sentava a ouvir rádio ou a ouvir televisão ou a ler o jornal. E tenho o pequeno móvel onde estava o rádio que também ali tenho. A minha avó sempre com coisas, que ele não limpava bem os pés à entrada e trazia terra para dentro de casa ou que ia à pesca quando estava mau tempo ou coisas assim e ele sempre sorridente, como se nenhuma daquelas reprimendas o afectasse. Recostava-se no seu cadeirão e ela que reclamasse à vontade.


Perguntei ao meu tio pela minha tia. Esmoreceu-se-lhe o sorriso, que não está nada bem, as dores nas pernas, a pouca vontade de se levantar, parte do dia na cama. Nada lhe disse, encolhi apenas os ombros: sempre assim foi, pouco dada à acção, sempre com receio de estar doente.
Lembrando-me dela, digo muitas vezes que ter medo de estar doente é, em si, uma doença. Foi disso que, desde que me conheço, ela sempre sofreu. E sofreu mesmo, como se estivesse doente de verdade. 
A minha prima habituou-se aos sintomas de tudo que a mãe tem. Sendo médica, sabe bem o que valorizar  e aquilo de que mais vale é distrair a atenção. Perguntei por ela, pela minha prima. O meu tio sorriu de novo, diz que está para a Dinamarca, a passeio. Faz ela bem. Penso que quem me dera.


E depois penso no meu pai, cada vez mais ausente, preso à cama, tendo que ser virado de tanto em tanto tempo para não ficar com escaras, alimentado através de uma sonda, já sem conseguir falar de forma que se perceba, pouco ouvindo, nada vendo. Por isso, faz-me muita impressão ir para longe por muitos dias. E tanto que sempre gostei de passear, e tanta a falta que me faz ir por aí, à descoberta. É certo que dele, não fora o AVC, se poderia dizer que tem uma saúde de ferro. Não sei quantas pneumonias já teve, quantas bactérias hospitalares já apanhou, quantas vezes pensámos que estava por um fio e, afinal, a verdade é que continua vivo e, tirando o declínio que a falta de massa muscular acarreta, tudo o resto vai funcionando bem. Quando me lembro que, quando teve o AVC, toda a gente ficou consternada, como se fosse impossível um homem daqueles ter uma coisa destas, e, afinal, tantos desses, saudáveis na altura (ou que assim se julgava), afinal, já cá não estão. Tanto que, por exemplo, me lembro dos meus outros tios, que tanto ajudaram, tão cheios de saúde e de alegria, e que um após o outro já lá se foram. Por isso, digo para comigo que o meu pai está há tantos anos assim e sempre ultrapassando os problemas e sobrevivendo, que não tem grande lógica eu estar sempre com medo de me afastar por uns dias. Mas nestas coisas dos medos não há grande lógica, há apenas medos.


Estamos in heaven, descansadamente, sem nada que fazer. De tarde, dormi durante um bocado. Soube-me tão bem. Durante a semana o meu corpo aguarda por estes pequenos momentos de repouso.

O campo está de uma suavidade que dá gosto mas há festa na aldeia e tudo o que cantam ou anunciam ouve-se como se estivessem quase aqui à porta. Não posso dizer que não me incomoda um pouco. Não que esperasse ouvir a Callas. Isso não que o meu bebé não está de DJ à festa. Também já nem esperava genuína música portuguesa. Isso já nem se sabe bem o que seja, creio eu. Mas ouvir uma misturada de covers, barulheira pegada, anúncios de sorteios misturados com uma chinfrineira excessiva, isso é poluição sonora que fere a minha sensibilidade. De qualquer maneira, à tardinha fez-se silêncio e os pássaros saíram das árvores a cantar, esvoaçando baixo, pousando por perto.

Infelizmente, o ruído recomeçou mal anoiteceu e durou até há pouco.


Ao fim de tantos anos, estreei-me hoje num lugar bom para se estar ao fim do dia. Do lado da sala da televisão, a luz do ocaso dilui-se em ouro sobre as árvores, luminosidade que me encanta muito, e eu limitava-me a abrir as portadas de vidro para o ar e o sol entrarem pela casa ou, então, ia lá para fora, para o banco de madeira que está encostado à parede da rua, mas que não é especialmente confortável para se estar a ler. É que gosto de ler reclinada. 

Disse ao meu marido que havia era de ter uma daquelas cadeirinhas baixas, inclinadas, que se põem na areia. Ele disse que o que não faltam são cadeiras, na despensa. Lembrei-me que, de facto, ao fundo da despensa (que aqui é uma divisão razoavelmente grande, em especial comprida) há cadeiras mas não tinha nada ideia de haver muitas e, muito menos, dessas. Fui logo ver. Só duas cadeiras e um banquinho pequeno. As cadeiras são iguais, de tipo realizador. Peguei numa e pu-la junto à pedra grande.


Portanto, pude estar reclinada na cadeira de realizadora mas mais na base da pseudo: esticada, cabeça encostada atrás, pés em cima da pedra. Muito bem instalada, sob a copa de uma robinia também pseudo, pseudoacácia. Ouvindo os passarinhos, olhando a luz dourada, respirando o ar limpo e perfumado. E fotografando, fotografando tudo.


Tenho estado a ler o Escândalo do Século do Gabriel Garcia Márquez. Tenho também aqui o Wagneriano Perfeito que continuarei a ler amanhã e já antecipo a minha admiração pasmada pela inteligência e elegância da escrita. Estranhamente, quando me deixo encantar desta forma, acontece-me parecer nem prestar atenção à informação contida no texto, fico totalmente entregue à fruição da beleza que se desprende da inteligência das palavras. Gostava de um dia poder dizer que sou discípula de Shaw tal como Estela Canto mas não tenho disciplina para ser discípula de alguém. Pessoas como eu são puras diletantes, cultivadoras de indisciplinas e desconhecimentos. Além disso, não sei se seria prudente: as discípulas de Shaw produzem perigosos efeitos em quem também o admira. Ah, sim, como é poderosamente afrodisíaca a inteligência. Borges que o diga, não é...?


E, por agora, é isto.

Estou com vontade de pegar na máquina fotográfia e ir fotografar chávenas antigas ou copinhos de vidro que têm bem mais que a minha idade e que vieram de casas de quem há muito partiu. Se verá se o faço e depois se as fotografias ficam boas para vos mostrar. Conservo peças antigas que guardam memórias e que outra utilidade não têm senão essa. Felizmente aqui tenho espaço para isso mas lá chegará o dia em que alguém delas se desfará por não ter qualquer vínculo emocional que justifique o espaço que ocupam. Por isso, se puser aqui a sua imagem, talvez seja uma forma de se manterem junto à minha memória para todo o sempre. Se é que isso importa para alguma coisa.



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E um bom dia de domingo a todos

sábado, junho 15, 2019

Com a Callas à mesa


Há aniversários todo o ano mas, quando começa a chegar o verão, eles começam a apertar. Hoje foi um.

No fim do dia de trabalho, que hoje aconteceu um pouco mais cedo, fui buscar um pequeno bando ao pé do rio. Viémos cá para casa e os meninos, depois de lancharem, estiveram a jogar à bola com a big bola azul. Eu a dizer que bola pelo ar não, pontapés com força não, na direcção de portas de vidro não e, mal as costas viradas, já uma barulheira de futebol a sério. Não vale a pena querer que se portem bem. A avozinha consegue isso que lá em casa dela ninguém salta ou corre ou joga à bola. Nem sequer falam alto. Há pessoas que impõem respeito. Eu não.

Depois fomos para casa da aniversariante.

Estiveram todos a jogar à bola no relvado, grandes disparos de bola com o bebé a passar por entre eles e eu a temer que uma bolada o deitasse ao chão. Até a menina, à falta de outras meninas, jogou à bola.

Depois foram chegando mais pessoas, incluindo mais primos e incluindo um primo para a futebolada e uma prima bebé que não quis misturas, preferindo sentar-se ao piano e cantar com microfone, o que, mais tarde, viria a dar confusão pois o primo bebé fez de tudo para tirar-lhe o microfone. Isto no intervalo de comer folhado de salsicha, massa com carne, tigelas de arroz doce e carradas de melancia e, no fim, bolo de anos -- um bebé devorador, com boa boca.

E quando a mesa grande toda aberta se revelou insuficiente para os grandes -- porque os sete pequenos estavam numa mesa redonda à parte (a bebé menina ficou ao colo da mãe, senão seriam oito) -- teve que ser aberta uma outra mesa para juntar à grande.

E toda a gente conversou em várias conversas cruzadas, eu com a minha parceira do lado, o meu parceiro do lado conversando com o vizinho da frente, os do fundo conversando uns com os outros, outra brincando com um e outro e etc e tal e as crianças chilreando e rindo -- porque toda a gente tem coisas para dizer e piadas para contar e o meu filho esteve a contar coisas de mim, uma coisa muito recente, e pôs toda a gente a gozar e a rir. E depois o bebé quis sair da cadeirinha e os outros meninos também se levantaram e foram cirandar para a outra sala e eis senão quando uma música imprevista ecoa pela casa.

Ficámos todos parados, em silêncio, a olharmos uns para os outros. Perplexos.

E, então, o bebé  apareceu à porta da sala de jantar como se a ver se aprovávamos a escolha. Perguntámos se tinha sido ele. Disse que sim. E tinha mesmo sido. O pai, que estava sentado na direcção da coluna, disse: 'Tirou o CD que lá estava e pôs este'. 

E a música que se ouviu foi esta:


Perguntei-lhe: Gostas desta música? E ele, com ar de quem responde a uma pergunta parva, diz: 'Sim...!' e o tom foi o mesmo que se dissesse  'óbvio...!' ou 'dahhh...'.

E até ao final do jantar estivemos a ouvir a Callas, alto e bom som. E os outros meninos, ao contrário do que se poderia esperar, também não protestaram. E todos, espantados, ficámos de gosto na conversa, a Callas ali connosco à mesa.

Tão bom. Tão inesperado e tão bom.



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O primeiro bolo é de Elena Gnut e o segundo de Ksenia Penkina

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Um belo fim de semana a todos

sexta-feira, junho 14, 2019

Madame X é a camaleónica agente secreta de quem se fala.
E Madonna fala, nervosamente, sobre ela.


E, por falar em mulheres cuja vida quase parece despertar tanto ou mais interesse do que a obra, depois de Frida, Madonna. A Madonna Louise também se conhece tudo: o que faz, por onde anda, com quem namora ou desnamora, os filhos, os passos, as provocações, as rebeldias, os descaramentos.


E se Frida, a ser dela aquela voz, apesar das dores do corpo e, tantas vezes, da alma, aparenta falar com segurança, já Madonna, a segura e confiante Madonna, que arrisca, que beija na boca bailarinos e amigas, que desafia as regras por onde passa, ao falar do seu próximo trabalha, aparece com uma voz que denuncia alguma ansiedade, uma certa ulnerabilidade.


Não sou grande fã de Madonna, não me dá para procurar as suas canções. Mas gosto de ver os seus espectáculos preparados ao milímetro, de um profissionalismo irrepreensível, com um sentido de palco ímpar. E era a última coisa que esperaria, a esta altura do seu campeonato, que aparecesse assim, quase ofegante, demonstrando um surpreendente nervosismo.


Claro que daqui não concluo nada. Por isso, fico-me por aqui e passo ao vídeo.



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E queiram fazer o favor de descer caso queiram ouvir o que pode ser a única gravação com a voz de Frida Kahlo.

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É esta a voz de Frida?


Há casos em que o criador é quase mais conhecido que a obra.

Frida é um desses casos. A sua vida dava um filme. E deu. Vários. E, antes dos filmes, os livros. Biografias várias. E as suas fotografias.  Também tão conhecidas. Sobrancelhas espessas, buço farto, flores no cabelo, roupas bastamente coloridas, grandes brincos, ostensivos colares -- indígena, exótica, diferente. E as dores, os espartilhos, as temporadas na cama, a perna muito doente. E o amor pelo gordo e os e as amantes, a desempoeirada bissexualidade. A última exposição, já tão doente, levada na cama. Mas sempre muito arranjada, galhardamente engalanada.

E, claro, as pinturas tão dolorosamente autobiográficas. O sangue escorrendo, a criança que não nasceu, as dores infames, o amor ingrato, as costas doendo tanto, o coração sangrando. Dores tão imensas em quadrinhos geralmente tão pequeninos.

Tudo muito conhecido. Viveu lá tão longe e morreu há tanto tempo e não há quem não conheça e não se apiede pelo sofrimento e não arregale os olhos pela sexualidade fluida e não sorria com tanto pêlo naquelas sobrancelhas que parecem asas de anjo negro e naquele bigode sorridente nos cantos da boca.

Mais: há posters, sacos, canecas, mil objectos, um fértil merchandising. E abundam as pinturas tipo Frida. E exposições sobre tudo o que se relacione com ela e a coisa já está a virar kitsch? Frida virou quase uma commodity. Dizem-na a percursora das selfies. O mainstream adoptou-a, adaptou-a. Não culpa dela, coitada, que já partiu há sessenta e cinco anos. Além disso, quem compra saias ou adereços para o cabelo a la Frida se calhar nem sabe que, na altura, bem desinserida ela se mostrou. Mas enfim. É daquelas coisas sobre as quais a gente, não sabendo o que dizer, diz que as coisas são o que são e dá o assunto por encerrado.


Mas a voz, a voz, ninguém conhecia. Como seria a voz de Frida?

Compreende-se a curiosidade. Quando se conhece tudo, a história toda, a obra toda, e apenas se desconhece a voz pode imaginar-se tudo. Rouca? Grave? Forte? Sofrida, um fio de voz? Como é a voz de uma mulher assim, uma mulher em cuja curta vida cabem amores, dores, seduções, rebeldias, coragens, coquetteries, cores, frustrações e sempre dores, dores, e tanto mais?

Até que apareceu uma gravação. E parece que é a voz de Frida.

Explico. 
The National Sound Library of Mexico has unearthed what they believe could be the first known voice recording of Frida Kahlo, taken from a pilot episode of 1955 radio show El Bachiller, which aired after her death in 1954. The episode featured a profile of Kahlo's artist husband Diego Rivera. In it, she reads from her essay Portrait of Diego.


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quinta-feira, junho 13, 2019

Vicente ou António?
E macacos e crianças discutem a questão dos direitos, da justiça e da igualdade de géneros.
Ao som da Francisca, junto ao rio.





Passei de carro numa rua perto da Baixa e, para meu espanto, vi duas mulheres estranhamente vestidas, penteadas, pintadas, calçadas. Vestidas exactamente de igual. Apressadas como se nem se dessem conta que estavam completamente descontextualizadas, no meio de gente que saía dos trabalhos e de turistas em veraneio. Assim de repente, pareceram-me duas gémeas bizarras. Aperaltadas que só visto. Cabelo apanhado, com o que me pareceu ser uma flor no puxo, saia com um farto rodado em godé, num tecido estampado, espampantemente florido, pareceu-me que de tamancas altas. Pensei: Mas onde é que aquelas duas vão naqueles preparo, ó senhores?

Só depois de ter passado por elas me ocorreu: Ehh...! Vão para as marchas, só pode... vão representar algum bairro. 

E tive pena de já terem ficado para trás, de não poder observá-las com o devido cuidado e admiração.


E, naquela de ir distraída no meio do trânsito e de ter sido surpreendida por aquele curioso par de gotas de água colorida, pensei: que estupidez, amanhã é feriado e nem me ocorria que é feriado não por um qualquer motivo abstracto ou facto histórico mas por ser dia do santo da cidade. Estamos nos Santos, caraças. E, por uma breve fracção de segundo, vacilei: Qual é mesmo o santo? O santo de Lisboa...? Vicente? Vicente e os corvos? Mas os santos são João, Pedro e... António. António e não Vicente. E senti como que um buraco negro na cabeça onde as ideias se baralharam, uma espécie de vertigem. Como é possível ter tido uma espécie de branca sobre o santo de Lisboa...? Mas logo recuperei o tino e, convictamente, acertei o passo comigo mesmo: É dia de Sto António e não se fala mais nisto. Mas, logo que pude, no primeiro semáforo encarnado que apanhei, tentei perceber qual a raiz da dúvida: Sto António é o Santo Padroeiro de Lisboa? E percebi a razão da minha perplexidade. Ser o Vicente até é, embora quase ninguém se lembre de tal coisa, mas o carequinha casamenteiro destronou-o no coração dos alfacinhas que são mais dados a casórios do que a corvos esvoaçantes.

E adiante.

Hoje não é véspera de fim de semana mas é como se fosse e, por isso, fomos passear à beira do rio e ver a noite a tombar sobre os veleiros, ver a escuridão a misturar-se com tudo, as luzinhas cintilando. Não fomos dançar, comer sardinhas sobre o pão ou festejar os santos: pelo contrário, andámos ao vento, sentindo o ar frio, conversando.


E se durante o dia algumas arrelias vieram ter comigo e se a impaciência por vezes parece querer toldar a minha consciência, a verdade é que basta um cheirinho de maresia, o olhar deslizando sobre as águas, para logo os incómodos voarem para longe e a serenidade vir pousar docemente sobre a minha pele. Isto de uma pessoa ser completamente primária não é mau de todo.

Enquanto aqui escrevo preguiçosamente vou espreitando a televisão, vou espreitando os livros que, aqui ao meu lado, preguiçam também e hesito em mostrar um vídeo fantástico que me deram a conhecer ou deixá-lo para mais tarde. Se calhar fica para depois, que eu gosto de guardar distâncias e também não quero explicar porquê. Sou de alguns mistérios e tenho as minhas razões para isso.


Mas se o vídeo que gostaria de aqui partilhar a mim me diz muito -- para além de que tem a ver com um tema muito actual, e ponham actual nisso -- para não defraudar a minha vontade de vos mostrar um vídeo com uma mensagem (e agora apetece-me encafuar a mensagem também entre aspas porque acho que isto de as coisas terem mensagem é daquelas coisas cafonas para as quais não tenho o mínimo de pachorra), deixem que partilhe outros dois vídeos, um que mostra como até os animais não aguentam a injustiça de retribuições díspares para trabalhos iguais e outro que mostra o mesmo mas entre sexos.

As escolas deveriam passar a ter aulas de cidadania, ensinando as crianças a lutarem pela justiça a todos os níveis. Isso é que deveria mesmo ser.









E, a todos, um bom Dia de Santo António!

[E um bom Dia Feriado aos sortudos que, tal como eu, têm uma semana santa]

quarta-feira, junho 12, 2019

Sinais. Ruben. Olhares. Árvores. Memórias.
E um tango com o perfume de uma mulher.





Há gente que a gente não conhece e de quem, no entanto, já se habituou à companhia. Dois deles são da rádio. Não são só esses mas desses eu hoje quero falar. Poucas vezes consigo ouvir os Sinais do Fernando Alves mas, quando posso, não perco e, mesmo antes dele começar, já antecipo o arrepio que sempre sinto quando aquela voz encorpada roça aquelas suas melódicas palavras que caminham para o final no qual tudo converge, como braços de rio a avançar para uma doce enseada. E não desconheço a mecânica dos rios, não, usei mesmo aquela imagem por deliberação porque assim as palavras dele, correndo, sobressaltando-nos ou levando-nos nos braços e, no fim, não se perdendo no mar mas, antes, tudo se resolvendo e aquietando, represado em nós.


Hoje consegui ouvir. Falava de olhares, de uns olhos azuis e de uns outros, verdes que ficavam amarelos, falava de duas mulheres, uma que recordava e outra que ouvia, e falava também de um poema de Octavio Paz.

Cheguei aqui para ouvir outra vez, o arrepio a querer de novo percorrer-me a pele. E, então, aparece-me o Nónio, que quer que me registe se quero ouvir os Sinais. Um desconsolo. As belas palavras e profunda voz do Senhor Rádio a serem condicionadas por uma treta contra a qual os jornalistas deveriam manifestar-se. Gostava de aqui poder partilhar convosco o que senti ao ouvi-lo. Não posso, não quero ser condicionada desta forma tão escancaradamente absurda. 


E queria, a propósito do que ouvi e de outras coisas cá minhas, falar de olhares, de como, para mim, é indispensável o contacto visual com o olhar do outro. Pelo olhar me desnudo, pelo olhar procuro a alma do outro. E queria contar como os meus olhos mudam de cor e como me desreconheço quando espero um tom do fundo do mar e os vejo, no espelho, da cor de pedras reluzindo ao sol e não sei se é o espelho que lhes dá a luz ou se são os meus olhos que inventam cores novas quando se vêem ao espelho. E queria contar que os meus olhos míopes parece que não precisam de ver para me darem a conhecer o que dizem os olhos dos outros e adivinham até o temor dos que não deixam que os meus os olhem de frente e em profundidade, como que receando que eu mergulhe fundo demais. Mas isto, se calhar, não é bem assim, isto, se calhar, sou eu que sou dada a rêveries, a inofensivas loucuras.

Mas, pronto, não tendo eu para aqui partilhar convosco os Sinais, não falo. 


E foi também no carro que tive uma má notícia: tantas vezes a nossa companhia ao sábado junto à hora do almoço, Ruben de Carvalho -- que se divertia à grande com Jaime Nogueira Pinto, os fantásticos Radicais Livres -- tinha-se libertado das amarras da vida. E escrevo assim não porque a hora careça de metáfora mas porque não gosto de usar a palavra certa. A palavra certa assusta-me quando a a ceifa atinge pessoa que me faz boa companhia. Parece que receio que contagie, que seja mau presságio. Evito.

Muitas vezes tínhamos que levantar o som, apurar o ouvido, eles falavam ao mesmo tempo, riam-se, tinham o prazer da concordância, sempre contentes por se lembrarem das mesmas coisas ao mesmo tempo, avindos apesar de tudo. Histórias, episódios, apartes -- e sempre ambos a completarem-se, rindo da sintonia. Riam um do outro, o da esquerda e o da direita, gozando com a própria irreverência face à ortodoxia. Radicais e livres. E agora o Jaime Nogueira Pinto não terá o seu amigo para desfiar memórias e opinião a par e par e nós, no carro, não teremos o prazer de o ouvir trocando postalinho com o seu companheiro. 


Se calhar vai chegar o dia em que vou começar a sentir que o meu mundo vai ficando mais pobre, sem muitos daqueles que acompanham os meus passos. Ainda não quero dizer isso porque não sou fatalista, não gosto de curtir tristeza. Mas custou-me mesmo que ele se tivesse ido embora e, ainda por cima, sem dar aviso, sem que eu fosse criando mentalização para o que estava para vir. E falo de forma egoísta, não falando no sofrimento dos que lhe são próximos, falando apenas de mim, no carro, a ouvi-lo. Mas acredito que, quem fala na rádio, fala como se falasse para cada um que o ouve e é dessa tertúlia agradável e culta que vou sentir muita falta.

Mas é assim mesmo a vida, cheia de coisas destas, de olhos que se fecham, coisas nem sempre esperadas, coisas que nem sempre causam arrepio bom na pele.

Mas continua. Sempre continua, a vida. 


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Os teus olhos  -  Octavio Paz

Tus ojos son la patria del relámpago y de la lágrima, 
silencio que habla, 
tempestades sin viento, mar sin olas, 
pájaros presos, doradas fieras adormecidas, 
topacios impíos como la verdad, 
o toño en un claro del bosque en donde la luz canta en el hombro de un árbol y son pájaros todas las hojas, 
playa que la mañana encuentra constelada de ojos, 
cesta de frutos de fuego, 
mentira que alimenta, 
espejos de este mundo, puertas del más allá, 
pulsación tranquila del mar a mediodía, 
absoluto que parpadea, 
páramo.

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E para não chegar ao fim num tom dolorido, com saudades de olhares longínquos, com a melancolia de amores perdidos uns dos outros, com a nostalgia de vozes que gostaríamos de ter perto de nós, vou lá acima trocar o Nocturno pelo Redemption e vou colocar as minhas palavras sob a copa das minhas tão amadas árvores que me abrigam quando estou in heaven. 

Ou melhor: vou acabar a dançar. E vou buscar um dos tangos mais enternecedores e mais sedutores de que tenho memória. E com uns olhos que, na realidade, vêem mas que ali, não vendo a fingir, vêem mais do que todos os olhos que com ele deslizam no salão, a menina deslizando nos seus braços, rendida, transportada.



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Entretanto, por gentileza de um Leitor num comentário abaixo e a quem muito agradeço, recebi a indicação de aqui se consegue ouvir a crónica do Fernando Alves:

http://podcast.static.tsf.pt/sin_20190611.mp3



terça-feira, junho 11, 2019

Relato de um náufrago


Tinha levado dois livros e fiquei-me pelo que me foi oferecido e de que falei ontem. Um dia lê-lo-ei de seguida, como merece ser lido. Por enquanto, não resisto à surpresa e espreito e leio e volto a abrir ao calhas, espreito, leio, mais à frente, de novo no início, quase no fim. Qualquer coisa ali me transporta a um outro mundo no qual não posso entrar senão assim, devagar, às espreitadelas.

E ficou lá à minha espera para ser lido com calma e alguma cerimónia, onde possa esconder do mundo alguma da minha perplexidade por, tal como ontem confessei, ter desconhecido até agora esta escrita.


Para ler no caminho de volta, trouxe o outro, 'Relato de um Náufrago'. Como a volta foi maior já que fomos a casa dos meus pais antes de regressarmos, deu para ler bastante. E para ficar agarrada. Gosto de ler histórias bem escritas, as palavras no osso, desadjectivadas, em que o autor nos agarra pelos colarinhos e, nós, ali presos, não nos importamos porque não há uma palavra que desiluda.


Pena esta terça-feira não ser feriado que ficava a ler até acabar e acordava quando acordasse. Assim tem que esperar.

Entretanto, que nem de propósito, tinha no YouTube um outro relato surpreendente de uma outra história verídica. Steven Callahan sobreviveu 76 dias no mar, à deriva, coisa que não dá para acreditar.


Mas acredite-se: aconteceu. E aqui, no vídeo abaixo, pode perceber-se como foi. Não se pode dizer que seja breve mas é muito interessante. As histórias de luta pela vida, ainda por cima quando acabam bem, e quando os próprios sobreviventes contam como foi, são sempre emocionantes.


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[E vão por mim: estou em crer que não vale a pena darem-se ao trabalho de descerem para saber o que acho do discurso do João Miguel Tavares (de que ouvi apenas um excerto) e, sobretudo, da escolha do Presidente Marcelo]

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E dias felizes a todos

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O discurso de João Miguel Tavares em Portalegre, no dia de Portugal


Não vi na hora nem a desoras. 

Mas vi, sem querer, há pouco -- já o 10 de Junho se aproxima do fim -- um excerto num noticiário. Muito contido, sem aquelas fífias tão típicas dos seus momentos de excitex, encenou o coitadinho, o portuguesinho lamechas que se compraz a desfiar ladainhas.

Deprimente. Deprimente e, lamento dizê-lo, Senhor Presidente, escusado. 

A ver, Senhor Presidente, se reflecte no que o levou a ceder ao facilitismo, escolhendo uma criatura a quem nunca se conheceu nobreza de atitute, elevação moral ou intelectual, palavra ou gesto superior de qualquer espécie.
Muito pelo contrário, a João Miguel Tavares o que se conhece aconselha a não lhe dedicar atenção. Dali nunca vi sair ideia que se aproveite. Por isso, JMT é um mau exemplo e nada o recomendaria para presidir à Comissão Organizadora do Dia de Portugal. De cada vez que fala ou escreve, JMT parece querer provar que é frívolo, leviano, justiceiro-popular, maria-vai-com-as-outras, maria-vizinha, fofoqueiro, sectário, tuga boateiro, cultivador de vacuidades e raivinhas de estimação. E estou a medir as palavras porque não me apetece dizer exactamente o que acho dele, limito-me a dizer o que ele próprio parece esforçar-se por mostrar que é.  
Quando o ouço ou leio (o que acontece cada vez mais esporadicamente e, em regra, por mero acidente), penso sempre que é com criaturas assim, a quem se dá púlpito, que se abre caminho ao populismo. 
E também me ocorre sempre aquela sábia dos chineses: "Quando o sábio aponta para a lua, o idiota olha para o dedo." 
E, a partir da amostra que vi, assim me parece ter sido o discurso do João Miguel Tavares em Portalegre: quando se desejaria que apontasse em frente e falasse do futuro, querendo apontar o dedo nem se sabe a quem, limitou-se a olhar a ponta do próprio dedo.

Por isso lhe digo, Presidente: lamentável, esta sua escolha, muito lamentável. Para a próxima, a ver se escolhe melhor quem vá presidir à comissão organizadora das comemorações do Dia de Portugal, está bem?  O País merece mais e melhor.

segunda-feira, junho 10, 2019

Banho de sol, de sabedoria e de floresta -- in heaven





Ontem, esqueci-me de referir que, a meio da tarde, quando voltámos para mais perto da casa, quase todas as meninas grandes e quase todos as meninas e meninos pequenos pegaram em vassouras e pás e desataram a varrer e a apanhar folhas secas e a transportá-las nos carrinhos de mão e que foi uma alegria ver como, num instante, todo aquele espaço ficou limpo e como todos estavam felizes pela ajuda. Até o bebé andava de vassoura e pá no meio daquela azáfama. Não colaborei porque estava de repórter. E não apenas enviei fotografias aos próprios que ali estavam em acção, para memória futura, como à minha mãe porque sei que ela gostaria muito de também ali estar, e certamente naquela altura estaria também a varrer, e que, não podendo vir (ou melhor, não querendo deixar o meu pai em casa, ao cuidado de outra pessoa), pelo menos pôde ir vendo a sua família e amigos na maior boa disposição.

Mas isto foi no sábado, dia grande in heaven, mais um daqueles alegres dias em que nem se ouviram os pássaros tanta a conversa e risota que ocupou todo o espaço. Imagino que os pássaros ficaram em suspenso, lá em cima, nas árvores, a observar toda a correria e brincadeira que decorria cá em baixo.


Este domingo, pelo contrário, foi um daqueles dias de completo descanso, sem horários, sem compromissos, sem ter que ir a lado nenhum, sem ter nada, mas mesmo nada de nada, para fazer.

O meu marido, como sempre, madrugou. Acordei por volta das oito, vi o relógio, e já ele não estava em casa. Anda pelo campo, curte o nascer do dia, aprecia as cores e a frescura do nascer da manhã, vai dar os seus passeios solitários. Já desistiu de me convencer a acompanhá-lo. Eu voltei-me para o outro lado, a largueza da cama toda por minha conta, e adormeci de novo. Levantei-me manhã alta. E fui fazer a minha caminhada, até que dei com ele. Os passeios já tinham ficado para trás e já andava na sua luta com o tojo e com as silvas. 

E eu continuei a caminhar por entre as árvores. Pequenas lagartixas fugiam à minha passagem e, certamente, outros bichinhos que, apesar de não ver, ouvia a esconderem-se por entre a folhagem. E os pássaros, na maior alegria, cantavam de gosto, de vez em quando esvoaçavam à minha passagem. 


O almoço foi um resto do de ontem quando ainda só estava metade do grupo. Portanto, nem isso tive que fazer.

Depois de almoço fui lá para fora, para uma espreguiçadeira, ao sol, com um curioso livro que um amigo me deu no outro dia. Os livros que vêm dele são sempre do mais incomum que se possa pensar, nem imagino onde os descobre. Este sei que encomendou de propósito para me dar pois um dia, numa das longas viagens que fazemos, veio à conversa. Mas nunca mais eu me tinha lembrado de tal coisa. Agora, ao ler o livro, espanto-me com a qualidade da escrita, com a inteligência de quem o escreveu, com a superioridade intelectual que revela. E, como tantas e tantas vezes, pasmo com o meu nível de ignorância. Como pude eu desconhecer a qualidade desta escrita até aqui? Como é assustadoramente vasta a minha ignorância... E fala de um compositor e das suas obras e eu constato como era superficial também o meu conhecimento desse compositor. Fui à wikipédia ler sobre o autor do livro e desconhecia tudo o que ali li, inclusivamente que ganhou o Nobel. Pensava-o apenas dramaturgo e mesmo isso que sabia não passava disso -- ou seja, na prática, não sabia nada.


E, como sempre que me confronto com uma situação destas, penso que alguma coisa tem faltado no meu processo de aprendizagem. E presumo que, se isto acontece comigo, se calhar acontece com quase toda a gente. A escolaridade deveria ser obrigatória até ao fim da nossa vida e deveria haver escolas sempre dispostas a acolherem alunos avulsos, ad hoc, gente curiosa ou gente bronca, gente escolada ou analfabrutos, escolas vocacionadas para ensinar a aprender: aprender a pensar, aprender a procurar, aprender a descobrir diferentes perspectivas -- escolas que abram janelas imensas para a diferença, para a os outros, para a cultura em geral, para a sabedoria. 


Mas isto foi de tarde e depois o sol começou a baixar e eu já não conseguia ler a menos que fosse para a sombra mas aí ficaria com frio (até porque estava vestida à verão) e, por isso, voltei para casa. E tapei-me, porque estava fresco, e adormeci. Não foi por muito tempo mas soube-me bem. E, quando acordei, estava uma luz dourada, aquela luz suave que faz brilhar as folhas em contraluz e de que tanto gosto. Então, fui outra vez para a rua, fui andar no meio das árvores, cheirar o alecrim, aspirar o ar fresco e depurado pelos eucaliptos, pelos cedros e pelos pinheiros, passando a mão pelo rosmaninho, pelos orégãos já tão floridos e cheirosos, fotografando tudo, absolutamente despreocupada de tudo, entregue ao momento.

Agora que aqui estou, revejo as fotografias que fiz durante o dia e constato como os motivos se repetem e como ao longo dos anos me continuo a encantar-me com as mesmas coisas: as árvores, as flores, os frutos, a cor vibrante da natureza, a luz, a minha sombra reflectida nas coisas, o tempo suspenso.


Li, outra vez, que andar na floresta é tão saudável que no Japão é recomendado como terapia. Shinrin-Yoku. Já aqui falei nisso, no banho de floresta. Dizem, e eu acredito, que reduz o stress, melhora o estado geral de saúde, pacifica. Estive a ler o artigo Getting back to nature: how forest bathing can make us feel better, no The Guardian.
The Japanese have known for years that spending mindful time in the woods is beneficial for body and soul. Now western doctors – and royals – agree.  
Every day, apart from when it’s raining heavily, Dr Qing Li heads to a leafy park near the Nippon Medical School in Tokyo where he works. It’s not just a pleasant place to eat his lunch; he believes the time spent under the trees’ canopy is a critical factor in the fight against diseases, of the mind and body. 
Once a month Li spends three days in forests near Tokyo, using all five senses to connect with the environment and clear his mind. This practice of shinrin-yoku – literally, forest bath – has the power to counter illnesses including cancer, strokes, gastric ulcers, depression, anxiety and stress, he says. It boosts the immune system, lowers blood pressure and aids sleep. And soon it could be prescribed by British doctors. (...)

Não consigo dizer que este meu bocado de terra, aqui in heaven, é uma floresta. Claro que não é. Gostava que fosse, que da terra brotasse riachos, que as águas se enchessem de peixes, que aparecessem esquilos, raposas, veados. Gostava mesmo. Talvez um dia. Mas, para já, tem árvores plantadas por nós e acredito que tudo aqui floresceu muito por força do meu grande amor -- e eu sinto-me revigorada e feliz de cada vez que por aqui ando.

Ainda não comecei a abraçar as árvores ou, sequer, a afagar a sua pele ou a falar com elas mas acredito que, quando o fizer, me sentirei ainda mais próxima da verdadeira essência da paz intrínseca da natureza. Hoje, mesmo ao fim do dia, quando as árvores pareciam banhadas por uma suave poalha dourada, tive vontade de fazê-lo. Depois pensei que também gostava de me deitar no chão, com o ouvido encostado à terra. Gostava de saber se se ouve o que se passa no seu interior. Mas depois, apesar de estar sozinha, receei achar-me ridícula e não fiz nem uma coisa nem outra. Parvoíces minhas.

A ver se esta segunda-feira, Dia de Portugal, o faço.


[Ver o João Miguel Tavares é que não vejo. Ele personifica tudo o que não quero para o meu País; parvoíce, estupidez, ignorância, futilidade, superficialidade, incapacidade para pensar com um mínimo de neurónios. A promoção absurda que Marcelo fez dele é coisa que não sou capaz de entender (ou de perdoar). O País merece melhores exemplos]
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Forest Bathing



How forest heal people



E um bom Dia de Portugal a todos.

domingo, junho 09, 2019

Casa cheia e coração cheio in heaven





Acordei cedo, com o despertador, e foi como se estivesse no meio de um sonho. Tinha dormido como uma pedra e, se o despertador não tocasse, era capaz de dormir mais uma ou duas horas. Depois ouvi uma máquina ao longe e pensei logo que devia ser o meu marido a roçar o mato. Temo pelos oregãos pois receio que, com os óculos de protecção, não os distinga das outras ervas. Por minha vontade, apanhávamos as ervas à mão, uma a uma, para não se correr risco de danificar alguma plantinha aromática ou flor. Mas é impossível.

Arranjei-me rapidamente e fui lá a baixo à procura dele. Estava longe e espantei-me por. àquela distância, se conseguir ouvir no quarto. Aqui ouve-se tudo a milhas. É a total ausência de ruído e a absoluta limpeza do ar que permite que o som se propague sem barreiras. Chamei-o, não eram horas de andar naquilo, tínhamos que ir ao supermercado. Lá veio, admirado das hora que eram. Pelos vistos, entretido que andava, nem tinha dado pela passagem do tempo.


Viémos do supermercado com um carrinho a deitar por fora mais um daqueles cestos grandes com rodas também a transbordar. O meu marido fica um bocado passado com isso, acha que eu exagero nas quantidades, que perco a cabeça e trago o supermercado em peso. Mas eu tento imaginar quanto é que cada um come e faço contas de multiplicar. O frigorífico ficou cheio, a bancada da cozinha cheia ficou. Fui logo fazer o almoço enquanto o meu marido punha a mesa e depois limpava o pó da mesa, cadeiras  e espreguiçadeiras debaixo do telheiro.

Ao meio dia e tal ouvi um carro a apitar. E logo crianças a chamarem. Tinha chegado metade do grupo. Da carrinha-autocarro saltaram bicicletas, meninos de capacete que logo desataram a pedalar e, claro, crescidos com sacos e braçadas de casacos.

Depois de darem umas voltas e uns passeios, almoçou-se. Todos comem bem mas de salientar o bebé que, no fim, deve ter comido para cima de uma dúzia de morangos. Adora fruta e, como os morangos eram óptimos, foram uns atrás dos outros, praticamente de penalti. Dá gosto ver uma criança tão pequena comer tanto, de seguida, de gosto.

Depois de se arrumar a cozinha e tratar da louça, vim para a sala e estive com os meninos a jogar ao jogo das letras (nomes, países, animais, objectos, comida, marcas e mais não sei o quê começado por essa letra). Pouco tempo depois, tocaram à campainha e era o resto do grupo. Da carrinha-autocarro saltaram mais meninos, sacos, casacos, chapéus, bolas e, claro, gente crescida.


O grupo hoje esteve reforçado com amigos. E mais meninos. Ao todo foram sete meninos entre os dois e os dez anos e, felizmente, havia mais uma menina, pelo que a bonequinha linda, ao contrário do que é costume, hoje teve companhia feminina. Mal se viram, logo foram para a escrivaninha explorar gavetas e pintar e fazer desenhos com lápis florescentes e canetas douradas e prateadas e coisas assim.

E os rapazes foram jogar à bola e correr. E depois as meninas juntaram-se e foram todos jogar às escondidas no meio de esconderijos, todos a correrem nos caminhos atapetados de caruma entre árvores, todos devidamente incentivados e picados pelo mais azougado de todos, o meu filho, que os persegue, prega partidas, brinca às lutas e os diverte até mais não. 

As meninas grandes foram apanhar sol e conversar e, of course, pelo meio tomaram conta dos dois mais pequenos.

E depois foi hora do lanche e durante uma hora houve sempre alguém a pedir mais pão, mais sumo, mais iogurte, mais qualquer coisa.


A  seguir fui pôr o jantar a fazer. Entretanto, seguiu-se mais futebolada, jogos, uns a trepar a barreira, outros na casinha feita há um ano, e corridas de bicicletas, e perseguições, meninas pequenas e grandes a fazerem a roda e a fazerem passos de ballet, a fazerem ioga (e aqui até o meu marido fez), e filmes em câmara lenta, e risota, e fotografias de grupo e fotografias de semi-grupo, e palhaçadas de todo o género.

E eu, o tempo todo, a fotografar, a observar, a tomar conta, a rir, a dar água a um, água a outro, sumo a um, fruta a outro, pão com queijo a um, água a outro, iogurte a outro, gelatina a outro. E a fotografar. E a vir pôr água no dói-dói, e a dar água a outro, e a ir a correr atrás do bebé que se aproximou demais da barreira,  e evitar que o bebé terrível empurre o outro ainda não habituado a estas jagunçadas, e depois a limpar a mão a outro e a vir ver o jantar e a dizer onde está isto e onde está aquilo, e a ver como crescem tanto e como gostam tanto de estar juntos, os da família e os amigos, e a sentir-me feliz e agradecida.

Ao fim do dia, o frio já era muito e ainda tudo de tshirt na rua. Depois lá vieram todos para dentro para virem jantar.


A mesa toda aberta, apesar de bem grande, obviamente não era suficiente pelo que tivemos que montar a outra mesa ao lado. Era a chamada mesa dos pequeninos mas não cabiam lá os sete. Por isso, o mais crescido ficou na mesa dos grandes. E os dois pequeninos também. Ficaram os quatro do meio na mesa dos pequenos mas na mesa grande ficou tudo completamente à justa. Para estes dias de grandes enchentes teremos que arranjar uma terceira mesa ou arranjar outra maior para os mais pequenos. Comeram todos bem, excepto o outro menino pequeno que, apesar de corpulento, é de má boca: a mãe pena para o convencer a comer. Pelo contrário, o nosso bebé senta-se e despacha sozinho uma pratada. Aliás, tal como irmãos e primos. Penso que é de ninguém os forçar a nada que, de pequenos, se habituaram a comer sozinhos. sem darem qualquer trabalho, comendo de tudo. Havendo várias terrinas e travessas com comida, é normal, ao perguntarmos aos meus o que querem, dizerem: 'tudo'. Por isso, já estranho quando vejo uma criança sem querer comer e a mãe, coitada, a insistir, a dar-lhe à boca ou mesmo, eles no chão, a andarem de um lado para o outro e a mãe atrás a tentar que coma qualquer coisa. Se calhar se não insistisse, ele acabaria por ter fome. Mas sei bem o que isso é porque eu, com a minha filha, passei pelo mesmo. Era quase uma adolescente, eu, preocupava-me muito se ela não comia o que eu achava que era vital para o seu crescimento, queria que ela se alimentasse bem -- e ela era muito vagarosa a comer, não ligava muito a comida, não gostava de uma data de coisas que eu achava que ela tinha que comer porque eram saudáveis, proteicas, vitaminadas. O que eu fazia para a distrair e lhe enviar, à sorrelfa, colheres de comida na boca. Parvoíces que uma pessoa faz convencida que está a fazer o melhor possível. 

Mas, enfim, hoje comeu-se e bebeu-se, uma conversa e alegria pegada, os meninos numa festa, tudo numa animação.


Até que resolveram dar a jornada por concluida, recolher casacos, sacos, enfiar as crianças nas carrinhas, uns a quererem irem nos bancos lá mais de trás, outros já a dar-lhes a rabugice e sono -- e lá foram todos. 

Já estava um frio dos diabos. Fomos para a rua para nos despedirmos e não levei nenhum agasalho, fiquei enregelada. Que amplitudes térmicas estas...

O que vale é que, ao entrarmos em casa, estava quentinha, acolhedora.

Arrumámos o que pudemos arrumar e concluímos que, curiosamente, o frigorífico ficou quase vazio. Aliás, as queixadas e bochechas que fiz para o jantar, acompanhadas por puré de batata e puré de maçã, pouco sobraram. Eram duas sacadas de carne, um disparate. Quando estava a fazer até vacilei, achei que o meu marido, afinal, tinha razão, aquilo era bochecha para rebentar com as queixadas de um quartel em peso. Pensei não fazer todas. Mas depois, pensei que, se sobrassem, se quisessem levavam para casa e, senão, este domingo já estavamos servidos. Fiz tudo: a maioria estufadas, outras no forno. Pois marchou praticamente tudo. A minha filha ainda levou um restinho mas quase só aparas sobrantes. 

E, por falar em sobras, parece que só cá ficou um boné. A menos que de dia se descubram outras coisas lá fora.


Agora já são quase duas da manhã e passam na televisão imagens de leituras de Agustina na Feira do Livro. Deve ter sido bonito. Mas aquela confusão, tanta gente, tanto barulho, tanto best seller, tanta capa às cores e tanta gente a falar aos altifalantes, aquilo assim já não faz bem o meu género.

Enfim, é o que é.

Como se poderá imaginar agora estou capaz é de ir descansar. Dias assim enchem-me a alma, enternecem-me e motivam-me sob todos os pontos de vista mas, como é bom de ver, chego a esta hora da noite e o corpo pede-me algum repouso. Tenho amigos que, quando juntam alguém em casa, e é só quando o rei faz anos, compram comida feita ou contratam mesmo catering. Inclusivamente, contratam os serviços de mesa. Antes dos convidados, chega o pessoal do catering. Levam louça, talheres, toalhas, tabuleiros de comida, bebidas, etc, por vezes até cadeiras e mesas de apoio. Põem a ou as mesas, servem os convidados, vão levantando a louça das mesas e, no fim, levam tudo e deixam tudo arrumado. O meu marido acha que é bem pensado e ansearia por uma coisa assim. Eu não consigo nem conceber. Faço tudo por mim e faço de gosto.


Mas pronto, este domingo vou descansar e na segunda-feira é feriado e também será dia de dolce far niente.
E será dia de Portugal em versão pechisbeque, com o tal João Miguel Tavares a abastardar o dia e eu recusar-me-ei a ver na televisão para não ter que me enervar com o Marcelo que nisto deu um tiro no pé para o qual não há explicação. Querer agradar a gregos e troianos, não se importando de baixar o nível, é coisa que não lhe posso admitir. Mas, enfim, estou in heaven, é fim de semana e estou de coração cheio e cabeça tranquila, não quero pensar em coisas que me maçam.

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Grande parte das fotografias não são de hoje já que as de hoje, montes, carradas delas, resmas, paletes, são praticamente todas com as gentes que este sábado povoaram a minha casa, in heaven.

A todos desejo um feliz dia de domingo.

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