segunda-feira, outubro 15, 2018

O que valeu à Lady Louise é que ia com cuecas da avó.
Imagine-se se aquele golpe de vento revelava um descarado fio dental...



Como não podia deixar de ser, o casamento de Eugenie de York teve alguns momentos fortes. Um casamento das realezas é sempre um acontecimento mediático. Mesmo os republicanos não viram a cara quando uma princesa sobe ao altar. Está certo que todas as noivas, no dia do seu casamento, são umas princesas mas aquelas em cujas veias corre um sanguezinho azul são outra coisa. Não me perguntem porquê porque a minha sabedoria não chega para muito mais nestas matérias.

O pior mesmo foi o vento que ia levando os chapéus, os cabelos, os vestidos e as composturas pelos ares. Os polícias bem tentaram impor algum respeito, ali todos apertadinhos a guardarem o desfile, mas aquela maltinha estava ali mesmo para dar ar à pluma e, com ventinho, a coisa ainda corre mais de feição.


A noiva, que é uma simpatia, ia linda e, para começar, o vestido teve um elemento de surpresa que deixou toda a gente enternecida. Aos doze anos, Eugenie foi operada a um desvio da coluna e o vestido foi desenhado para que a grande cicatriz fosse gloriosamente mostrada. 


Gestos destes fazem mais pela autoestima de quem se envergonha das suas marcas do que mil preleções. É um lugar comum dizer que a beleza de uma pessoa é a que vem de dentro -- e ou se tem ou azarinho, nada a fazer, não há maquilhagem que disfarce a feiura interior -- mas acho que é mesmo verdade. Uma pessoa que se sente bem consigo própria olha em frente, emana uma luz que transporta a beleza. Rugas, cicatrizes, flacidez, peso a mais ou a menos, nada importa quando as pessoas se sentem seguras e disponíveis para ser felizes. Mas, enfim, não são horas para altas filosofias.

Adiante, pois.

Outro momento alto foi a chegada da mãe da noiva que vinha acompanhada pela outra filha. 


Sarah é uma labareda e não me refiro apenas à cor do cabelo. Sarah é excessiva, heterodoxa. Desafiou a disciplina férrea da família, portou-se mal, muito mal, andou às cavalitas de um amante, deixou que ele lhe lambesse os pés. Os tablóides iam dando cabo do coração da sogra com a fogosidade da mulher daquele filho, ele próprio danado para a brincadeira. Mas consta que o ex-marido continua a ser amigo e cúmplice da mãe das suas filhas. Sarah chegou de verde, exuberante, curvilínea, correu a cumprimentar alguém, correu a recuperar o caminho. Apesar de marginalizada pelo inner circle, Sarah mantém-se igual a si própria. Não consegue passar despercebida, nem tenta. E faz ela muito bem.

Claro que o desfile de toilettes e chapéus foi outro acontecimento. Um espanto. Monarquia à mistura com top models e com um toque de Hollywood -- uma inspiração. Ponho-me a ver isto e fico sem vontade de ir comentar a remodelação governamental ou outros funfuns e gaitinhas. Há lá tema mais perfumado do que um royal wedding?
O ministro não sei quê ou a nova ministra que é e não esconde ou a outra que disse o que os outros não disseram ou sei lá que mais... Bahhh. Que discreto charme é que isso tem? Nada. Bola. Usam capelina, elas? Fraque ou casaca, eles? Não...? Então, esqueçam. Não quero saber. O Costa que arrume a casa à vontade que eu não tenho nada a dizer. Acho que faz bem. Também ando numa de remodelações como ontem já disse.

O chapéu de Naomi Campbell era um espectáculo. Aliás todo o outfit era um espectáculo. E ela, linda. Cada vez está mais bonita. Uma verdadeira cougar. Os anos passam por ela com o único propósito de a deixarem melhor. Uma pantera real.

Mas, de tudo, aquilo de que mais gostei foi do chapéu de Poppy Delevingne. Que maravilha. Toda ela estava elegante e divertida. Aquele vestido. Caneco. Lindo. Ousado e lindo. O que eu adoraria poder usar um dia um chapéu assim. Do vestido não digo o mesmo porque teria que ter meia dúzia de quilos a menos e, claro, no mínimo cem anos também a menos. Só tenho pena é de, quando me casei, não haver nada disto. Se fosse hoje, a ver se não ia a bombar numa toilette de deixar todos de olhos em bico.


Por contraste, a mana Cara. Não poderiam ir mais diferentes. A rebelde Cara, que já namorou várias beldades, apareceu com sugestiva toilette masculina e... igualmente divertida.

Mas o momento mesmo inesquecível não foi o da chegada das cunhadas Kate e Meghan e os seus reais e esvoaçantes maridos,




... não foi a graça das crianças que acompanhavam os noivos, príncipezinhos e princezinhas, louros e realmente bonitos (entre os quais, o pequeno George, o possível futuro rei lá do burgo e a mana Charlotte que já revela que herdou o olhar malicioso da sua avó e, tal como ela, também uma real apetência pelo exercício do flirt),


... não foi o da chegada nonagenária Rainha e do seu companheiro de uma vida, ainda ambos bem autónomos, sem bengalas, ainda com energia para aguentar estas cenas que, parecendo que não, cansam, olá se cansam,


... o momento alto foi a subida da escadaria quando Lady Louise Mountbatten-Windsor, que ia a acompanhar as crianças, mostrou mais do que seria suposto. Um desafio. O vento não lhe deu descanso. 


As fotografias e o vídeo (da Madame Figaro) que tenho são mínimos mas talvez dê para ver: umas cuequinhas sem gracinha nenhuma, completamente ao léu. Uma graça de tão desengraçados aqueles culotes. A nobre Lady Louise de cueca à mostra para o mundo inteiro ver. Tanta etiqueta, tanta aula de protocolo, tanta regra, tantas nove horas... e afinal Lady Louise é uma jovem mulher como qualquer outra, usa cuecas e tudo. 

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Bem. E agora que já cumpri com a minha função de serviço público, vou ver as fotografias e os filmes que fiz de manhã e a seguir ao almoço, a ver se se aproveita alguma coisa. Temo que não, estava uma ventania, a voz nem se deve ouvir. E as fotografias não sei. Só se algum flamingo salvar a coisa.

Ou isso ou, se nada prestar, a ver se me ocorre alguma coisa apropriada de que possa falar. E claro que não vou falar das análises do Cagalhoças nem das lições majestáticas do Ex-Vice nem da brutal armadura dos óculos da Judite. Nada disso hoje me assiste. Temos pena.

Só lamento é que não esteja a chover. Nada me inspira mais do que estar aqui e ouvir a chuva a bater na janela. Agora assim. Uma monotonia. Só me apetece mesmo é falar de casamentos reais ou de outras reais pepineiras.

domingo, outubro 14, 2018

Estantes, decorações, arrumações.
Estou na cidade enquanto ouço sinais de que a Leslie está a passar ao largo mas que, ainda assim, se faz ouvir.




Sábado atípico. Contudo, bom. Mas todo na cidade: nem campo, nem rio, nem mar. Cidade da cabeça aos pés.
[E isto para não falar na sexta-feira, ainda mais atípica, com um acontecimento que prova que isto a gente não deve desistir de nada por achar que é tão improvável que jamais acontecerá. Aconteceu-me e, no momento em que estava a acontecer, só pensei: Não é possível, isto não está a acontecer, não pode ser. Mas aconteceu. E não foi bom. Mas há coisas piores e eu sacudo para trás das costas tudo o que não me agrada. Não alinho em teorias da conspiração, não alimento paranóias, não fico a achar que 'só a mim...', não desanimo nem deixo que a apreensão me tolha os movimentos. Em bom português, e pardon my french: cago para as malapatas. Bola para a frente.]

Na sexta à noite cheguei a casa ainda meio apardalada mas, em vez de ir enfiar-me na cama ou de ir acender velas a pedir protecção a quem quer que fosse, fui pôr-me a fazer medições -- a móveis, a paredes --, a tirar livros de uma estante para a mudar de sítio só para ver se ficava bem ali, para o espaço ficar livre para outra maior. O meu marido passado. Não concordava com nada daquela mudança. Não queria sequer pensar em ir para o Ikea. Não percebia como tinha eu ainda disposição para andar naquilo. Eu a precisar de ajuda para ensaiar, para perceber se aquelas trocas resultariam, e ele contrariado, mal-disposto.

Depois, não apenas porque era tarde para fazer jantar como porque nos apetecia laurear, resolvemos ir jantar à praia. Uma humidade boa, a maresia bem activa, cheirosa. Não deu para ir passear à beira de água porque me tinha esquecido de levar um agasalho e o frescor das noites de Outubro estava a fazer-se anunciar.


Hoje de manhã o meu marido comunicou-me: acordei a pensar nessa coisa das estantes e tive uma ideia. Sobressaltei-me: pensei que ia ser uma parvoíce daqueles dele em que inventa tudo o que lhe vem à cabeça para não ter que ir ao ikea.

Mas não: uma ideia disruptiva. Acabar com o escritório até porque raramente é usado. Levar a secretária grande para o espaço de estar na zona fechada do terraço, perto do cadeirão americano, da conversadeira e dos banquinhos baixinhos. E, na parede da secretária, colocar uma big estante. 

Adorei a ideia. Boa. Fiquei mesmo contente.


Almoçámos lá, no Ikea, e fomos às compras a seguir.

Escusado será dizer que mal entrou no parque de estacionamento o meu marido entrou logo em desespero. Estava cheio. Por ele, dava logo meia volta. Mas lá o convenci a ficar. Depois, mal chegámos ao restaurante e vimos aquelas longas filas, disse outra vez que não tinha nada que aturar aquilo, que não foi feito para estes números. Mas lá ficámos. E foi bem bom. Ficámo-nos pela sopa, pelo wrap de salmão, pela salada de cuscuz, salmão, queijo, passas, tomate e rúcula, depois almôndegas vegetarianas com um arroz de legumes, para mim um sumo de cenoura, maçã e gengibre e, para rematar, uma tarte de frutos vermelhos. Muito bom. E arranjámos uma mesa junto à galeria, quase isolados, agradável. Quem diria que iríamos gostar de almoçar no ikea?

A seguir lá nos dirigimos às estantes. Tanta gente. Até eu me impaciento no meio da barafunda, de caminhos labirínticos. Mas, enfim, é o que é e thanks god there is ikea. Trouxemos a estante grande mas também uma estreitinha, de quarenta centímetros de largura mas com dois metros de altura, para encostar à coluna aqui da sala da televisão. A comodazinha que agora lá estava foi para um pequeno recanto no hall dos quartos. E ainda mais uma estante-cubo, com quatro compartimentos, para pôr ao lado de um dos maples.


Quando nos dirigimos ao piso de baixo para recolhermos as caixas, o meu marido bufando em contínuo, vimos aquilo que esperávamos: volumes grandes demais para o carro. Já tínhamos dado como adquirido: tem que ser com entrega. Só que, ao tentar retirar da estante a primeira das caixas, percebemos que era um peso bruto. Ele fulo, claro, que ia dar cabo das costas, que não comprasse eu tanto livro e não tinha ele que andar sempre a acartar e a montar estantes, etc, etc. Lembrei-me: mas será que não podemos simplesmente dizer o que queremos, sem termos que andar a levar as caixas para o balcão dos despachos?

Fui informar-me: têm esse serviço, sim senhor, mas pago. E assim fizemos: pagámos. O levantamento das embalagens, o transporte e a montagem. Portanto, só tivemos que fazer a encomenda detalhada do que queríamos e levá-la à caixa para pagar. Claro que agora vou ter que esperar um pouco mais de duas semanas quando estava mortinha por me pôr já a virar a biblioteca toda do avesso para arrumar numa nova disposição os livros que por aqui andam a monte. Mas não havia outra alternativa: era um peso, um tamanho e um trabalho de que só eu e ele não daríamos conta.


Antes de regressarmos a casa ainda me apeteceu um gelado. Depois, cá, deitámos mão à obra. A secretária ainda tinha as gavetas cheias de tralha do meu filho e de mais nem sei já bem o quê. E havia para lá mais uma data de coisas. Tudo passado a pente fino e muita coisa para o lixo. Transportá-la para o outro lado da casa foi um bico de obra. Em tempos, numa era pré-ikea, havia perto da minha casa uma loja de móveis muito bons. O dono negociava em antiguidades e tinha uma loja especializada em fornecimento de mobílias e decoração de embaixadas. Grande parte dos móveis da minha casa provém de lá. A secretária também. É enorme, pesada, em nogueira, com o tampo em pele verde. Se me lembrar, um dia destes fotografo-a. Para conseguir tirá-la de lá, o meu marido teve que tirar um outro móvel e os dois andámos com ela às voltas, tombada, para conseguir passar pelas portas e dar curvas. Arrumei também as gavetas da pequena cómoda que agora está no hall. A grande cesta onde tenho a juta dos arraiolos e as lãs também foi arrumada e mudou de sítio. Idem com os desenhos dos vários tapetes que já fiz.


Claro que não fiz outra vez jantar. Mandámos vir uma bela pizza em forno de lenha que comemos quentinha e saborosa. 

Agora estou aqui, meio a dormir (como de costume...), contente com a perspectiva de ir ter estantes novas e de conseguir ter esta sala minimamente arrumada, sem livros a transbordarem por todos os cantos, sentados em cadeiras, cadeirinhas e sofás, encarrapitados em cima da mesa redonda, das estantes baixas e das mesinhas de apoio, em pilhas ao lado de tudo. 

Cheia de preguiça e mais lá do que cá, à falta de notícias estrepitosas, tenho estado aqui entretida a ler 'O caminho estreito para o longínquo norte' de Matso Bashô; e, pelo meio, quando sinto que vou adormecer, ponho-me a navegar à bolina entre imagens de decoração quer da Madame Figaro quer da Elle parisiense; e repesquei umas quantas para acompanharem o texto, ao som de Finn Andrews que interpreta ‘Nobody Gets What They Want Anymore' de Marlon Williams.

E, para já, é isto que tenho a reportar. E domingo será um novo dia. E que seja, para todos, um dia feliz.


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E não me lembro se, no outro dia, vos mostrei uma coisa belíssima. Podia ir verificar mas estou tomada pela indolência. Por isso, pelo sim, pelo não, mostro. Une merveille.

Sarah Lamb e Steven McRae do The Royal Ballet ensaiam Mayerling


sábado, outubro 13, 2018

Fogo! Fogo! O ministro demitiu-se!
Chamem os binómios cinotécnicos! Rápido!!!!




Há uns dois anos fui tomar conta de umas áreas de uma empresa. Herdei colaboradores, processos e uma cultura enraizada que vinha de há séculos. Um castigo. Ninguém merece. Mas devo ter passado parte da vida a pecar, e a pecar à grande e à francesa, porque acharam que eu merecia.

E estava a empresa bem governada se, de cada vez que alguns daqueles artistas faziam asneiras, eu me demitisse. Pelo contrário. Se gastavam dinheiro à tripa forra, se se baldavam airosamente, se se estavam a marimbar para o trabalho em equipa, se faziam disparates sem o assumirem, o que os accionistas e os outros elementos da equipa de gestão pediam a todos os santinhos é que eu não desse de frosques. E não sei quantas vezes a vontade de me pirar foi mesmo mais do que muita. Mas o sentido de responsabilidade levou-me a ficar e a tentar resolver os problemas. Hoje as coisas estão mil vezes melhor, mais controladas. Mas há práticas que quase fazem parte da genética das pessoas e, portanto, por muito que a gente as contrarie e tente que as coisas entrem nos eixos, mal uma pessoa se distrai já a bagunça está à espreita. Quando, em petit comité, digo: 'Eh pá, não há pachorra, aquela malta não atina, estou pelos cabelos, não há pachorra', logo me pedem mais algum tempo, que me mantenha firme e hirta naquela missão. 


Mas em Portugal, na política partidária, há uma cultura diferente. À mínima barracada, em vez de se exigir que o responsável máximo se mantenha em funções e resolva os pepinos que lhe aparecem pela frente, não senhor: querem é que os responsáveis sejam os primeiros a saltar fora, virem as costas e digam adeusinho por aqui me desbaldo, quem vier a seguir que feche a porta. Cá para mim quem assim pensa é malta que pratica o culto da irresponsabilidade. Houve aquela suprema barracada do roubo de armas de Tancos, uma coisa de bradar aos céus, uma escandaleira. E em vez de se proibir o Chefe das Forças Armadas e o Ministro que as tutela de saírem de funções até estar tudo explicadinho, em pratos limpos -- não senhor, exige-se é que saiam e vão para casa, descansados da vida.


Mas já não fico perplexa. Cada vez encontro mais gente que, perante uma simples operação aritmética de dois mais dois, conclui categoricamente que o resultado é cinco. E fazem um banzé desgraçado, vão para o Facebook e o escambau a apupar os pobres coitados, uma minoria cada vez mais isolada, que continua a defender que dois mais dois são quatro.

Portanto, já não fico estupefacta ou indignada perante o que me parece pura estupidez. Fico apenas com vontade de seguir em frente, de me abstrair. 


É o que faço agora. Enquanto as televisões estão ao rubro, com comentadores e mais comentadores a comentarem a demissão de Azeredo Lopes, eu vou mas é chamar os bombeiros. Mas desta vez não quero cá bombeiros dengosinhos, todos derretidinhos com gatinhos miau miau. Não. Agora quero bombeiros valentes, com cães feras, cães de meter medo.


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Bem. Não encontrei cães ferozes nenhum bombeiro com ar de mau. 
São todos lindos, fofinhos e depiladinhos. 
Paciência. É o que há.

[E, claro, esta rapaziada faz parte do corpo de bombeiros australianos que deu o corpinho ao manifesto por boas causas, nomeadamente para angariar fundos através de um calendário]

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PS: No meio da cegada de Tancos, já ouço que há para ali um mariola Frazão que armou encrenca para entalar o ministro. E o ministro, coitado, sem ter uma Georgina de rabo alçado a dar-lhe apoio nem uma rede de advogados e gestores de imagem a lançarem notícias nos trombones, não teve outro remédio senão meter a viola no saco. Só espero é que este sábado, agora que o ministro saíu, já se tenham apanhado todos os ladrões das armas. Eferre-á,eferre-á, alecuí, alecuá, á.

sexta-feira, outubro 12, 2018

Bombeiros so hot que quase pegam fogo.
De tal ordem que a gente nem se importa que o ano tenha muito mais do que os habituais doze meses.
Aqui, os que são afeiçoados a gatinhos.
E feliz ano de 2019!




Gosto de homens bonitos e com corpinho bem feito. Parafraseando o grande Vinicius, os feios que me desculpem mas beleza é fundamental. Não vou agora falar com pormenor dos que namorei e que depois deixei mas falo daquele com quem me casei. E, com vossa licença, vou repetir-me. Quando vejo homens bonitos, gosto de me lembrar. 

Num pavilhão cheio de gente, vi entrar aquele por quem, de imediato, me apaixonei. Tudo nele me agradou. Os olhos deles vaguearam pelo vasto pavilhão e foram pousar na que, sentada no parapeito de uma janela, o fitava com encantamento. Barba cerrada, cabelos quase pelos ombros, moreno, olhos cor de mel, era um autêntico cristo mas em bom. Um físico invejável, uma forma elegante e desportista de andar. Quando a seguir estive com o meu namorado, com franqueza, confessei: 'Vi aquele que acho que é o homem da minha vida'. Escusado será dizer que o pobre coitado ficou pregado: 'O homem da tua vida não sou eu?'. Já não me lembro como me saí. Se calhar disse aquilo que era verdade: não sabia quem era, nunca tinha visto e, se calhar, não ia voltar a ver.

E, de facto, passaram meses sem que o voltasse a ver. Até que um dia, estando numa sala perto da escadaria, vejo uma colega entrar em estado de apalermada estupefacção: 'Não vão acreditar. Vi o fulano mais giro da faculdade. Não imaginam. Lindo.' Pensei que só podia ele. Saí a correr mas já não o vi. Ela disse: 'Tinha o braço partido'. Tempos depois, entrei na cantina e vi um ajuntamento ao fundo. Muitas raparigas, muito sorrisinho. Pensei: 'Querem lá ver...' Espreitei. Era ele. Rodeado de mulheres por todos os lados. Estavam a escrever dedicatórias e parvoíces no gesso. Pensei cá para mim: 'Deixa-as. Guardado está o bocado para quem o há-de comer'. Afinal eu continuava a namorar, por sinal um namoro muito a preceito. Por essa altura, já ele tinha ganho o cognome de 'o borracho'.


Meses depois, encontrei uma amiga minha dos tempos de liceu que estava noutro curso. Vinha com um saco com mantimentos. Vinha nas nuvens. Contou que andava com o gajo mais giro da faculdade, que ia fazer o jantar porque ele ia a casa dela, um andar um vivia sozinha. Contou que não era apenas lindo: era culto, era meiguinho. Tudo do melhor. Pensei: 'Querem lá ver...'. Certa de que com tanto elogio só podia ser 'o borracho', perguntei-lhe o nome dele. Disse-me. E foi assim que fiquei a saber o nome daquele que, não muito tempo depois, viria a ser meu.

E isto para dizer que me apaixonei só pelo físico, pelo olhar, pelo andar. Nada sabia dele, nunca lhe tinha ouvido uma palavra. Mas nada disso me fazia falta para ter a certeza de que não descansaria enquanto não o tivesse para mim.

Continuava a namorar outro e, no entanto, dentro de mim eu sabia que aquele lá, o outro, 'o borracho', é que era o tal. Mas ainda não se tinha proporcionado.


Andávamos em cursos diferentes, tínhamos horários distintos, apenas nos cruzávamos (e era de raspão) a espaços de meses. Mas, de cada vez que isso acontecia, ele ficava com os olhos presos aos meus e eu presa aos dele. Aos olhos... e ao corpo -- e ele ao meu. Era inevitável que aquilo tivesse um desenlace.

Teve. Não propriamente um desenlace mas, sim, um enlace. Dura até hoje.

Nessa altura, as minhas amigas diziam que eu era açambarcadora. O meu namorado era bem bonito, tinha (e tem) uns olhos num azul quase violeta, umas pestanas compridas. E um enorme talento. Elas queixavam-se: 'Com o que já tens, para que queres mais outro?'. Mas era mais forte do que eu.

E o anterior ao dos olhos azuis. Irreverente, uns olhos muito bonitos, um ar sensual e todo ele provocação. Um grande amor, esse. O primeiro.

Ou seja: toda a vida fui sensível a homens bonitos. É genético.


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E isto para dizer que. Aproxima-se o fim do ano e, com ele, começam a chegar os calendários. Este de que aqui vos dou conta chega da Austrália e traz um belo naipe de bombeiral. Cada um mais jeitoso do que o outro. Corpinhos bem feitos, carinhas larocas. As australianas, volta e meia, devem pegar fogo aos rissóis na frigideira só para os chamar lá a casa. 

A graça é que vejo um montão de fotografias, bem mais que os habituais doze meses. Mas não me espanta. Perante coisa assim, a gente até lhes perde a conta, que venham mais. Vinte, trinta meses... quem é que se prende a minudências dessas perante tão belos exemplares do género humano?

Claro que, ao vê-los só fico a lamentar que se tenham rapado. Não gosto. Salvo uma honrosa excepção, não se vêem ali pêlos no peito, no baixe ventre. Espero que não tenham depilado mais do que isso mas, ainda assim, faz falta algum pelinho para a gente sentir uma coceguinha boa quando se lhes encosta. Só perdoo a estes meninos porque, estando tão longe, lá na Austrália, não vou conseguir pôr-lhe a mãozinha em cima. 

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Se conseguir manter-me acordada, ainda aqui volto para mostrar bombeiros que gostam de piu-pus, outros de cãezinhos, outros de cavalinhos upa-la-lá.

quinta-feira, outubro 11, 2018

Uma cena muito misteriosa, uma vontade muito estranha
-- e muita divagação




Tive hoje uma reunião tão do outro mundo que saí de lá azamboada. Por todos os motivos e, na verdade, por mais um, não posso aqui falar dela. Mas hei-de assimilar bem o que ali se passou, hei-de processar e, daqui por algum tempo, num qualquer contexto em que não se perceba que tem a ver com o que tem a ver, pode ser que conte uma ou outra pequena coisa. Tudo interessante demais. E, para mim que volta e meia sinto que já vivi muito, que já passei por muito, que já sei muita coisa, foi um daqueles banhos (ou melhor: banhada) em que uma pessoa percebe que passa por esta vida conhecendo apenas uma ínfima partícula da infinita imensidão que há para conhecer. De facto, fui confrontada com um mundo novo que, em absoluto, desconhecia. E, ao ter tido esse vislumbre, parece que passei a ver todo o mundo de uma outra maneira.


Ao almoço, tinha a ideia de ir comprar um cartão para a máquina fotográfica. Mas tão baratinada estava das ideias que não me restou outra solução senão ir à Zara. Ando há uns tempos a pensar que tenho roupa que me chega até ao fim dos meus dias (isto se não desatar a crescer ou a engordar, claro). Mas hoje despensei. Para grandes males, grandes remédios. Mas entrei a querer acreditar que era só para matar saudades, só para ver em que param as modas. Dei uma volta com passada larga, 
a olhar ao largo, intimamente a fingir que desdenhava. Mas depois vi um casaco lindo. Espreitei o preço: Não..!, pensei, incrédula. Barato de dar raiva. Determinada, segui. Depois vi blusa-camisa num tecido e numas cores que não dava para acreditar. Espreitei o preço: Não...! Um preço diabólico de tão tentador.

Segui. Mas depois assomou uma dúvida: caneco, mas será que não mereço ser uma consumista parva? E logo concluí que mereço, sim senhora. Voltei atrás, peguei no casaco e na blusa e fui provar. Oh coisa boa, um provador da Zara... Ficava tudo às mil maravilhas. E que não ficasse. Trouxe.


Quando saí da Zara com o saco de papel preto, ocorreu-me uma coisa que me pareceu ser a solução para o novelo sombrio que me tem cercado. Vinha outra. Capaz de levar o mundo à minha frente, a pontapé. 

Durante a tarde tive tantas mil porcarias e outras tantas coisas faz de conta que muito importantes que não tive tempo para voltar a pensar no assunto. Quando me meti no carro para voltar a casa já a ideia me parecia trabalhosa demais quando quero é abrandar. 

Agora não me apetece pensar no assunto. Não gosto de pensar em cenários. Prefiro esperar que as ideias se formem sozinhas e venham ter comigo.


Então, quando há bocado me sentei aqui, cheia, cheia de sono, em vez de pensar nestas confusões e propostas e pressões que parecem não querer sair de cima de mim, fui pôr-me a ver estantes do Ikea, a fazer contas aos metros lineares de prateleiras, a estudar onde pôr o quê. Devia ter começado a escrever isto mais cedo, deveria pensar na minha vida, deveria aprender a deixar mais espaço para dormir. Mas não. É isto. 

E depois, em vez de pensar no que ia escrever ou se amanhã devo dar algum passo, pus-me a olhar para as pilhas de livros que estão em cima da mesa redonda, em cima das estantes baixas, em cima do cadeirão, ao lado do sofá, e a pensar se caberiam nas estantes novas. E como reorganizar a lógica da biblioteca? E já só me apetece tirar tudo, começar a fazer montes no chão, faltar ao trabalho e ir encomendar estantes, depois faltar para ficar em casa a rearrumar numa nova sequência.


Tirando também a vontade de me virar para uma vida nova. Começar uma vida nova. Tudo novo. Já algumas vezes na minha vida começo de novo: tudo novo. Lugares novos. Gente nova. Projectos novos. Um salto no desconhecido. A atracção que tenho por isto ninguém imagina.

E, em simultâneo, uma ideia: arranjar um agente literário. Ainda os livros não estão escritos e já esta estranha vontade de ter um agente. E umas ideias meio tresloucadas associadas a isso. Mesmo sabendo que só daqui por algum tempo e que, se calhar, pelo meio, ainda atravessarei o desconhecido e correrei riscos. 

E assim vai passando a noite. E eu nesta improdutividade. E, tendo já escrito tanta palavra, espremendo tudo, nada.


Talvez só isto. Estava a almoçar, vi dois rapazes altos e bonitos. Um deles era um conhecido actor. Podia não ter reparado porque nada neles era incomum ou chamativo. Facilmente passavam despercebidos. 

Quando ia a sair, passei pelas salas de cinema. Na entrada, um cartaz enorme com esse actor em ponto grande. Ali, em papel, dava nas vistas. Poderia ele, em carne e osso, passar ali à frente que toda a gente repararia no cartaz e não nele. E apeteceu-me inventar uma história.

Mas, preguiçosa e deambulante à toa como sou, em vez de aqui me pôr a ficcionar, pus-me nisto. Vocês desculpem lá, está bem?


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quarta-feira, outubro 10, 2018

Depois de um dia danado na cidade que até incluiu uma panada traseira (fruto dos tempos...), nada como acabar com mais um fabuloso travelling in heaven.
A cineasta UJM sai de novo à cena.




Como se não bastasse ter tido pouco tempo ter para dormir, ainda por cima não o aproveitei. Custei a dormir e, quando a meia noite acordei, estava com frio e não dava com o lençol para me tapar. Com a manobra de andar à procura, o meu marido acordou, acendeu a luz e, ao ver as horas, disse que já pouco faltava para serem horas para se levantar. Depois disse que foi ironia mas a verdade é que espertei. Não dormi mais. Ou seja mal dormi. Também estava um bocado preocupada e passada com o dia de cão que tinha vivido. O meu marido, para se desculpabilizar, disse que não tinha sido por acender a luz e dizer que já faltava pouco para serem horas de acordar, que tinha sido era a preocupação que tinha. Não quero saber. Sabendo disso, não deveria ter acendido a luz nem dar-me a ideia de que já nem valia a pena tentar adormecer.

Em cima disso, ter que ir cedíssimo. Depois um dia cheio, sem um minuto de descanso. Uma pessoa não tem tempo para respirar, para olhar pela janela. E a sentir-me cada vez mais constipada. Espirros, um friozinho a subir dos pés, pelas pernas (sem meias) acima. E como os meus dias andam mesmo assim, com sombras a pairar sobre a minha existência, vinha eu de regresso, já totalmente lusco-fusco, absorta, quando, na avenida, parada no semáforo, abre o verde para a via à direita e se mantém encarnado para que, como eu, ia em frente. Estava eu a acabar de espirrar, sinto o carro a dar um valente salto e um estrondo. Percebi logo. Pelo retrovisour vi um homem jovem a pôr as mãos na cabeça. Saí. Nestes momentos, sempre muito calma. Enervantemente calma, disse uma vez um colega para me caracterizar. 


Ainda por cima, o meu carro estava na oficina, para revisão, aquele era um carro de substituição. Quando com carro de substituição, vou com mil cuidados não vá fazer um risquinho de nada e meter-me em trabalhos. E era nisso que pensava: caraças, eu com tanto cuidado e fazem-me isto. A parte de trás do carro toda amachucada, transversalmente partida. O jovem, bonito, muito simpático, pediu desculpas, que se tinha distraído com o semáforo da outra via, queria saber se eu estava bem, todo ele preocupado comigo. A grelha da frente do carro dele partida, metida para dentro. Enquanto se preocupava com o meu estado, olhava também para o seu próprio carro. Todo aborrecido, coitado. Perguntei-lhe se tinha seguro. Que sim, claro, mas só contra terceiros. Cabelo curto, barba, ar de menino muito bem. 

Confirmei: então agora preenchemos a declaração amigável, não é? Ele disse que sim mas, para não estarmos a atrapalhar o trânsito, que fossemos lá para a frente, ao pé da placa. No entanto, a minha calma é aparente e, de tal modo, que até a mim me engana. Então não é que me meto no carro e avanço? Nem me lembrei de ver se o semáforo estava verde. Não estava. Os carros que vinham de lá todos a apitar e eu ali no meio do cruzamento. Quando pararam, avancei e, de novo, os que vinham da direita a cruzar para o outro lado, todos a apitarem. Pensei: era mesmo o que faltava. Depois de levar uma à Ronaldo (salvo seja, claro) vou meter-me no meio de um cruzamento, à maluca, e levo mais uma pela frente e outra de lado?


Não sei como, lá escapei incólume. Quando preenchemos a declaração amigável constatei o pedigree do nome. De facto. O nome da detentora do seguro falou por si: nome sonantíssimo da nossa praça. Pensei: soube educar bem o filho, sim senhora. 

E pronto. Cá estou. Amanhã tenho que ir outra vez cedíssimo e, ainda por cima, antes de uma reunião que estou curiosa para saber no que vai dar, tenho que explicar, a quem me vai levar o carro e trazer o meu, o que se passou. E, com isto, dói-me a garganta e sinto-me mesmo constipada. Daqui a nada vou tomar um anti histamínico. Já sei que vai pôr-me a dormir durante uma semana. Mas tem que ser. Não posso estar assim não apenas porque não me sinto bem como não é civilizado estar numa reunião com gente muito importante e cheia de nove horas e eu ali a espirrar e a assoar-me feita inconveniente.

Acho que não vou, outra vez, conseguir responder aos comentários. Acreditem que não é falta de educação ou de consideração: é mesmo isto. Peço desculpa. Custa-me porque acho que se temos a caixa de comentários aberta é para interagir com os Leitores. Mas, juro, acho que não vai dar.

Há bocado deixei-me dormir. Mal dormida, constipada e cansada, foi, uma vez mais, tiro e queda. E isto antes do anti-histamínico, fará depois. Acordei cheia de frio. Já fui pôr uns pezinhos, aquela espécie de meiinhas que a gente põe para cobrir a sola, os dedos e o calcanhar, para os sapatos não ficarem em contacto directo com a pele dos pés. São de algodão bege, coisinhas de nada. Mas são-me confortáveis, aquecem-me.


Não tive tempo para ler ou ouvir notícias, só sei que o Ronaldo se vai defender dizendo que afinal havia outro. Onde se pensava que aquilo tinha sido uma cena a dois, coisa simples, amor no coração e violinos em background, terá sido, afinal, uma picante e tresloucada ménage a três. Como parece que o nosso CR7 lá estava com um primo e um cunhado, na volta agora um dos dois é que vai pagar as favas. Aquela anedota do velho no comboio que, no meio da confusão, apanha uma bofetada quando o outro é que tinha curtido. Mas não interessa. Não faço ideia de nada destas cenas. Não estava lá para ver nem sou arraçada de Diácono Remédios portanto não me pronuncio. Let's wait and see que a coisa promete e os advogados estão em campo a facturar e a ter ideias. Li também que o buliçoso multimilionário rapaz antes tinha estado numa party com a Paris Hilton e que ela tinha dito que não tinha engraçado com ele, que era demasiado gay para o gosto dela. Assim. Parece que prefere os caniches. E o pobre Ronaldo, de repente, por aí anda a ver as suas intimidades aí expostas para que o mundo inteiro mande bocas, invente anedotas, faça comparações, evoque outros casos igualmente anais. Uma festa. À falta de coisa mais suculenta, o pagode agarra-se a qualquer coisa. Salvo seja, claro.

Bem.


Adiante que se faz mas é tarde.

O meu filho, ontem, quando me ligou, disse-me: A tua voz no vídeo. Falas muito baixo, parece que estás a segredar. Disse-lhe que não era a intenção mas que agora, pensando nisso, de facto, enquanto ia por ali com a máquina, a falar sozinha, se calhar ia falando baixo, sem querer quase disfarçadamente, não sei, se calhar para não me sentir amalucada se fosse conversando sonoramente. Para a próxima, vou tentar ir na descontra, conversando alto e bom som como se fosse acompanhada.

Mas perguntei ao meu marido:
O que achaste da voz?
   - Qual voz?
A minha, nos vídeos.
   - O que é que tem?
Diz lá.
   - Digo o quê? É a tua voz. O que é que há para dizer?
Não achaste muito coisinha?
  - É a tua voz, que é que queres fazer? 
Portanto, não sei.


Ou seja. Vou mostrar o segundo filme, aquele que acabou abruptamente por se ter esgotado o espaço de armazenagem. A qualidade é a mesma do outro: máquina aos pinotes, imagem revirada, deslizamentos apressados demais. Um dia destes ainda vou ver se descubro como editar, cortar bocados, dar vagar aos movimentos, retirar as bolinhas de contraluz. Mas, enquanto não, vai assim mesmo, coisa bruta, rústica como eu, como o tojo rompendo do chão.

Segundo passeio in heaven com a Sta UJM sussurrando* como se estivesse a dizer segredinhos


* No outro dia li que parece que agora estão na moda os vídeos em que as pessoas sussurram, murmuram, fazem barulhinhos silenciosos. Parece que o pessoal se amarra em coisa assim, vazia de conteúdo, só sonzinhos cúmplices, parece que fica tranquilizador, aconchegante. Vídeos de uma hora inteira só com suspiros, sussurros, papelinho a ser amachucado, barulhinho de água a gotejar. Li. Espreitei um ou outro. Pareceu-me uma seca mas eu também não sou exemplo para coisa nenhuma. E, de resto, eu sou mais mato, muros para pintar e maluqueiras assim. Mas pronto, para a próxima vou ver se me lembro de tentar fazer uma voz mais encorpada.

terça-feira, outubro 09, 2018

Ninguém nos pode parar.
["Seria incapaz de amar um filho homossexual" - palavras de Jair Bolsonaro, o preferido de muitos milhões de Brasileiros]


No outro dia recebi, via YouTube, notícia de um novo vídeo da União das Tribos. Fui vê-lo. Curioso: justamente no dia em que pessoa amiga me disse que tinha estado a almoçar com um conhecido nosso que eu pensava que ainda estaria a viver em Berlim.

Vendo o filme perceberão melhor a relação com o que vou escrever a seguir.


Como ontem referi, vou escrever com pinças. Não quero que alguém consiga saber de quem vou falar.
Lembro-me sempre de que uma vez escrevi aqui um texto violento, insurgindo-me contra uma situação que muito me abalou. Pelo tema que era, não disse o nome da pessoa envolvida nem, em meu entender, disse fosse o que fosse que a pudesse identificar. Mas penso que deixei transparecer o meu asco por quem tinha praticado tais actos. Pois bem: no dia seguinte recebi um mail da dita pessoa. Fiquei estupefacta. Era uma carta sentida. Dizia que se tinha reconhecido no que eu tinha escrito. Negava o seu envolvimento no caso e dizia que, de tudo aquilo pelo que tinha passado (e era muito), nunca nada o tinha feito sofrer tanto como as minhas palavras. Quando acabei de ler o mail, eu estava petrificada. Poderia ser que ele estivesse inocente? Seria possível que estivessem todos enganados, acusando-o injustamente, e que eu também estivesse a cometer uma tremenda injustiça? Li e reli. Eram palavras toldadas pela mágoa e nelas reconheci a verdade.
E, no entanto, relendo as minhas palavras, ninguém poderia adivinhar que era ele. Só ele. Escusado será dizer que fui alterar o meu texto e lhe pedi mil desculpas. E nunca mais deixei de me lembrar: toda agente é inocente até prova em contrário. E à Justiça o que é da Justiça. De facto, foi ilibado. De facto, eu e meio mundo estávamos enganados. Nunca me arrependerei o suficiente: como fui capaz de fazer sofrer tanto uma pessoa, ainda por cima uma pessoa inocente?

E nunca mais me esqueci de outra coisa: tem que se ter cuidado com o que se escreve aqui.
Outra vez falei aqui de uma pessoa com quem trabalhei, a pessoa com quem, até hoje, mais aprendi a todos os níveis. Um senhor. Um grande amigo. Aprendi o que é a confiança absoluta. Nunca ninguém confiou tanto em mim. Tinha defeitos e algumas pessoas odiavam-no. Eu reconhecia os seus defeitos mas gostava dele a ponto de tudo lhe desculpar. Nunca conheci ninguém tão inteligente, tão descarado, com tanto sentido de humor. Um sedutor. Um estratega. Um desafiador.
Não referi nome, traços fisionómicos, dados pessoais. Nada. No dia seguinte tinha um mail de uma Leitora que me dizia: conheci a pessoa de que falou, era exactamente assim. E dizia o nome e qual a empresa onde o tinha conhecido. Era verdade. Era ele e de facto, antes de ter trabalhado na empresa onde eu trabalhava, ele tinha trabalhado nessa empresa.
Mas isto para dizer que tenho que ter cuidado quando falo de alguém pois pode essa pessoa reconhecer-se e não gostar que eu esteja a fazer revelações sobre ela.
É o caso.

Conheci esse jovem de que falo lá em cima há uns anos. Discreto, afável, inteligente. Começou a progredir. Toda a gente lhe reconhecia valor. Passou a viajar bastante, em serviço. Era muito eficaz e alguém em quem se podia confiar para levar a cabo missões mais difíceis. Falava inglês fluente, tinha à vontade a falar em público. Low profile mas seguro, tranquilo. Almocei várias vezes com ele. Boa conversa, simpático. Os outros homens contavam viagens comuns, relatavam feitos. Sempre discreto, ele era um bom parceiro. Nada exibicionista mas também não excessivamente reservado. Lembro-me de um jantar no Porto, num restaurante escolhido por ele, o vinho escolhido por ele. Tudo irrepreensível.

Até que, um dia, um outro com quem tenho uma relação de uma certa cumplicidade, me disse: 'Cá para mim ele é gay'. Achei um disparate. Protestei: que disparate. Nem sinal disso. Nem um trejeito, nem um maneirismo, nada, nada, nada. Ele disse-me: 'Fui a um bar na sexta à noite e vi-o, numa mesa ao canto, estava com outro e tinham a mão em cima da mesa, como se estivessem prestes a dar a mão. Não me viu'. Achei uma conclusão despropositada. Às tantas tinha calhado porem o braço na mesa e ele ali, logo, a lançar tal suspeita. É que nunca, nunca, nada, nem uma forma de rir, nem um olhar suspeito, nada. 

De quando em quando, voltava à carga: 'Nunca se lhe ouve uma palavra de uma namorada, nada. Nunca nem uma palavra da vida privada. Não acha esquisito?'. Respondia: 'Não. Não acho nada. É discreto. E faz ele bem'

Pois bem. Continuou a sua justa progressão profissional, sem ninguém saber o que quer que fosse da sua vida. Sabia-se apenas que vivia num belo e caro apartamento numa das melhores zonas de Lisboa.

Até que um dia, do nada, a novidade estalou: demitiu-se. Pasmei. Toda a gente pasmou. Perguntei: Mas porquê? O que aconteceu? Faz aquilo de que gosta, parece sempre tão motivado, ganha tão bem. Disseram-me: 'Diz que vai viver para Berlim, diz que vai ter com a namorada. Diz que lá ia de vez em quando, ao fim de semana, mas que quer ir viver para junto dela'. Perguntei: Mas tem lá trabalho? Que não, que ia sem nada, simplesmente queria fazer lá a sua vida, e que arranjaria qualquer coisa. Fiquei admirada. Eu e toda a gente. Se houve ascensão meteórica, foi a dele. Toda a gente reconhecia o seu valor e era recompensado principescamente.

Mas foi.

Há uns anos. Esqueci-me dele. Pois bem, para minha surpresa, disse-me agora o meu amigo: 'Sabe com quem almocei?' E contou: 'Regressou. Telefonou-me. Fomos almoçar'. Perguntei: Mas então? O que aconteceu? Ele explicou-me: 'Parece que não conseguiu arranjar trabalho que lhe agradasse. E parece que o namoro também não correu bem. O não ter trabalho fez com que as coisas se degradassem. Voltou sozinho. Está a tentar montar a sua própria empresa'. Pensei logo que, se quisesse voltar, teria as portas abertas. O meu amigo disse: 'Também lhe disse isso mas ele disse categoricamente que não'.

Fiquei calada, sem perceber.

O meu amigo disse-me, então: 'Eu tinha razão. Ele é gay. Ele não diz nada e eu também não falo nada. Uma amiga contou-me. Contou-me que não era uma namorada coisa nenhuma em Berlim, era um namorado. Contou-me que ele saíu de cá porque vivia apavorado com medo que descobrissem'. Respondi: Mas que mal teria? Ele disse-me: 'Reconheça: é um meio conservador, machista. A minha amiga disse-me que ele não conseguia imaginar o que pensariam quando descobrissem. Tornou-se insuportável para ele manter a capa, esconder. Não conseguia mais. Ele diz que nunca ninguém desconfiou mas ele tinha horror de que um dia percebesse uma piada, de que desconfiasse de que os outros sabiam e falavam pelas costas'

E eu fiquei a pensar como deve ser horrível a vida das pessoas que se sentem obrigadas a esconder a sua natureza com medo da rejeição.


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A afirmação completa de Jair Bolsonaro, o candidato mais votado nas eleições do Brasil, é a seguinte:
"Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí" 
Bolsonaro, a par de Trump e de outros, é mais um caso extremo entre os políticos civilizados do nosso tempo --  mas a verdade é que a maioria dos votantes brasileiros escolheu-o a ele. E, para angústia dos democratas e das pessoas que prezam a liberdade e a tolerância humanista, pode acontecer que seja o próximo presidente do Brasil. 

Terá, com ele, milhões de pessoas que apoiam as suas ideias cavernícolas e assassinas. Parece mentira, parece uma loucura -- mas é o mundo perverso em que vivemos, um mundo a ser devorado pelo populismo.

Qual a vida das pessoas como aquele meu conhecido que, apesar de viver num meio civilizado e tolerante, teve medo que descobrissem a sua orientação sexual e fugiu? Como será para um homossexual viver num país presidido por um perigoso troglodita como Bolsonaro?

Quantos se esconderão atrás de máscaras --  em segredo sussurrando as palavras do refrão de 'Ninguém nos pode parar'?

Vamos fugir
Vamos deixar que as estrelas nos guiem
Vamos tentar
E começar noutro lugar
E vamos fugir
Vamos deixar que as estrelas nos guiem
Vamos lutar
E encontrar outro lugar 


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Não levem a mal que hoje não responda aos vossos comentários (e que bons eles eram...). O meu dia não foi fácil e, ainda por cima, foi longo. Cheguei a casa muito tarde e muito cansada. E ainda quero forçosamente tratar de um assunto profissional antes de me ir deitar; e, como um mal nunca vem só, amanhã tenho que madrugar. Por isso, desculpem-me mas não consigo. Se amanhã tiver a cabeça mais fresca, tentarei responder.

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segunda-feira, outubro 08, 2018

Reportagem vídeo feita in heaven pela grande cineasta UJM.
Uma revelação, é o que vos digo.
Sir David Attenborough teria muito a aprender aqui com a je




Inspirada pela fabulosa Gina Geia, a mais inspirada e descomplexada blogger que conheço, decidi voltar a fazer vídeos. Tinha feito uma meia dúzia deles por altura dos dois milhões de visitas ao Um Jeito Manso mas aquilo não me deve ter entusiasmado por aí além pois a verdade é nunca mais me lembrei de reincidir. Mas também, diga-se em abono da verdade, aquilo não era bem uma cena de vídeos-vídeos, era nem sei bem o quê com o telemóvel, talvez uma graça, uma diversão, uma experiência. Ou outra coisa qualquer, não faço ideia.

Mas agora andava com vontade de fazer uma espécie de reportagem. Mas já se sabe que, em coisas assim, não sou capaz de ter paciência para me aplicar a sério. Podia estudar alguma coisa, ver uns tutoriais. Mas, a sério, não me chega o tempo e a paciência para grandes apuros em matérias que prefiro de puro gozo.


O caso é que hoje de manhã peguei na máquina fotográfica e usei-a para filmar enquanto andava. Nunca antes o tinha feito com a máquina. Sempre fui de fotografar, não de filmar. Mesmo dos meus filhos em pequenos: milhares de fotografias e uma coisa que havia na altura, diapositivos, mas zero filmes. Prefiro o imobilismo dos instantes.

Mas isto a gente tem fases. Ou vipes. Whatever. Apeteceu-me. Então, fui andando e filmando. Fiz um primeiro para ver se estava a gravar o som. Depois fiz outro. Às tantas aquilo começou a apitar, uns pi-pi-pis discretos. Olhei e não vi nada de especial. Continuei. De seguida fiz mais uns quatro ou cinco, pensei: 'se ficar razoável, publico um por dia' -- e aquilo com aqueles pi-pi-pis. Quando me ocorreu ir ver se tinham ficado bem gravados, vi que o segundo tinha sido interrompido e, portanto, acabava abruptamente. E mais nenhum. Fiquei a pensar no que é que teria feito mal. Depois percebi: a pastilha tinha ficado cheia. Portanto, fiquei com o primeiro que era só uma experiência para perceber se funcionava e com o segundo que acaba sem se perceber porquê. Um desastre.

Agora à noite estive a ver a obra no computador, com o meu marido ao lado. Escuso de reproduzir os seus comentários: minimalistas, irónicos, como se isto não fosse coisa para levar a sério e, portanto, nem valesse a pena comentar. E eu concordo com ele.


Estive, então, a ver se isto dava para ajeitar, para corrigir aquelas partes imperdoáveis em que, pensando que estava a fazer uma coisa habilidosa, pus a máquina ao alto e o resultado foi a imagem a fazer o pino ou a fazer uma prancha. Ou aqueles travellings tão velozes que até dão tonturas. Mas não descobri. Portanto, não levem a mal mas vai assim mesmo. Um nonsense pegado mas, acreditem, com a melhor das intenções. Amanhã ou noutro dia mostro o segundo. Não está melhor. As minhas palavras não são melhores que as imagens. Volta e meia não bate a bota com a perdigota. Se é assim que falo habitualmente vou ali e já venho. Mas agora não posso apagar o que digo e dizer coisas inteligentes. Fica assim e, se não se importam, conto com a vossa santa benevolência.


A ideia era tentar mostrar imagens do meu bocadinho de terra, captando o canto dos pássaros ou a música da aragem nas ramagens. Mas não consegui. Se calhar teria que accionar um outro modo de captação de som. Só que o manual da máquina é um tratado gigante e eu não me apetece pôr-me a ler aquilo tudo. Com tanto livro bom que tenho para ler não vou gastar o meu ex´guo tempo a estudar manuais de máquinas fotográficas. Penso sempre que, um dia que tenha tempo, aplico-me, esmero-me, apuro-me. Mas, cá para mim, isso nunca vai acontecer porque, quando tiver tempo para mim, hei-de dedicar-me à política, a missões não sei onde ou a outra coisa qualquer e marimbo-me para me aplicar a estudar para fazer coisas bem feitinhas.
[E, enquanto escrevo estou a ver as notícias desgraçadas sobre as eleições no Brasil e, por isso, estou meio desconcentrada. Era para aqui escrever sobre um tema inspirado por um vídeo muito interessante mas acho que terá que ficar para outro dia, talvez amanhã, pois, como perceberão se virem o vídeo e querendo eu escrever sobre casos reais, tenho que medir bem as palavras -- e isso não é consentâneo com estar com um olho no burro e outro no cigano]
E pronto. Esta conversa mole toda é para protelar o momento em que vou partilhar o vídeo "Passeio in heaven com a autora do blog Um Jeito Manso" porque sei que é uma maluqueira sem explicação. E a seguir vou ver se faço outra experiência aqui na máquina, a ver se dá para fazer filmes aqui em casa.


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As fotografias foram feitas este fim de semana in heaven e mostram telhas e reflexos do interior na janela da sala.

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Se quiserem saber o que acho da Clara de Sousa é só descerem

Clara de Sousa: eis a verdadeira chefe da oposição a António Costa.
Mais assanhada e tendenciosa do que a Cristas, o Rio, o Negrão, o ex-Passos, o ex-Portas, os Jotas mais fanáticos.


Confesso: não tenho paciência para ouvir dominicalmente o Garganta Funda de todos os regimes, essa pequena criatura que obtém informações não sei como e as processa para, de forma manipuladora, fazer de conta que está a ser isento. Não tenho. Há peditórios para os quais já mais do que dei. 

Mas este domingo estava distraída a pintar as unhas, não estava a prestar atenção e, às tantas, quando dei por ela, não me apeteceu ir à procura do comando e, sem querer, para meu espanto, prestei atenção foi a ela, à Clara de Sousa.

Não tinha ideia formada a propósito dela, tenho ideia que nunca se destaca muito. Se tivesse, assim de repente, de dizer alguma coisa acerca dela, lembrar-me-ia que publicou um livro de culinária e que tem aparecido a falar nisso. 

Mas hoje ouvi-a e fiquei petrificada: a senhora esquece-se que é jornalista. 

Tendenciosa, fútil na forma como faz oposição, o sectarismo a toldar-lhe as ideias. Notoriamente não gosta de António Costa, odeia o Mário Centeno, abomina o PS. Se vem à baila que o défice vai situar-se na vizinhança do zero, a senhora diz que é o Mário Centeno a trabalhar para a imagem. Se o orçamento de 2019 vai ter um alívio sensível, ela diz 'mas não tem nada para distribuir'. Teve que ser o Marques Mentes a corrigi-la: é bom um orçamento com o défice perto do zero e tem, tem muito para distribuir. 

Para meu espanto, o agente do PSD de serviço aos domingos à noite foi ali o moderado. A jornalista foi a fundamentalista, a agente da direita mais trauliteira.

Numa televisão séria, alguém lhe chamaria a atenção e a avisaria: se a menina Clara de Sousa quer fazer campanha política, inscreva-se num partido, desenvolva trabalho partidário -- agora não, mas não mesmo, enquanto estiver no seu exercício profissional de jornalista. Enquanto estiver a trabalhar, abstenha-se de fazer campanha. Seja objectiva, isenta, séria. E, se não for capaz, pois que desande e vá apresentar um programa de culinária.

Em resumo: se antes não via o Marques Mentes por ele ser como é, agora é que não vejo mesmo porque se há coisa que não suporto é ver péssimo jornalismo, ainda por cima em horário nobre. A SIC fede. Já chega.