quinta-feira, março 24, 2022

Christiane Amanpour versus Dmitry Peskov --
Uma mulher que tem tudo no sítio: cabeça, coração e o mais que importa quando se confronta um farsante com as suas mentiras e cumplicidades com um assassino em série.

 

Noutros tempos talvez eu falasse da composição do novo governo ou do meu agrado por ver mais mulheres que homens, por ver nomes de grande competência, por ver nomes que surpreendem. Mas estes são tempos estranhos e, por isso, digo apenas que acredito que vai correr bem. Apenas uma reserva: não sou grande simpatizante de Fernando Medina; mas as razões para isso talvez sejam de somenos face ao que se lhe exige. Tirando isso, há lá grandes nomes, a começar pela Mariana Vieira da Silva e a acabar em Elvira Fortunado. Portanto, boa sorte à nova equipa e bora lá para a frente, bora lá a tornar Portugal ainda melhor.

De resto, tenho a dizer que hoje estive a conversar com um jovem muito ligado à igreja e, familiarmente, com proximidade a um membro de um governo africano com ligações à Rússia. 

Bodies are buried in a mass grave on the outskirts of Mariupol, Ukraine. Photograph: Evgeniy Maloletka/AP

Nunca tinha falado com ele sobre política. É um jovem com trinta e poucos que gosta de música, que pratica desporto e muito activo na igreja, trabalhando com grupos de outros jovens. Pois bem: ao conversarmos sobre o que está a passar-se na Ucrânia, não consegui ouvir-lhe uma palavra de condenação em relação a Putin, uma única. De cada vez que eu mostrava a minha revolta pela chacina, ele vinha com a conversa típica dos que, acima do repúdio pelo assassínio em massa que os russos estão a levar a cabo, têm uma grande aversão à Nato. E, se queremos saber de que acusam a Nato, não sabem exactamente e enrolam-se em conversas abstractas e acusações pretéritas -- dizendo qualquer coisa que desvie a atenção da destruição feroz que Putin está a levar a cabo. Fiquei muito admirada. Conclui que os vínculos familiares e as afinidades com governantes de um país apoiante da Rússia estavam a falar mais alto mas fiquei chocada pois parece que isso era mais relevante do que a sua ligação à Igreja. Julgava eu que alguém tão ligado à prática religiosa ficaria chocado, esmagado, revoltado com tanto sofrimento. Mas não. Nem uma palavra sobre isso.

Fiquei perturbada com a conversa. Parece que ainda não estou refeita.

Agora, enquanto escrevo, estou a ver na RTP 3 uma interessante entrevista do Vítor Gonçalves ao Vítor Cotovio, psiquiatra. Mesmo muito interessante. A quem não viu, recomendo que, se possível, a veja. Caracteriza muito bem quer Putin quer Zelenskyy.

Entretanto, estive a ver os vídeos das últimas 24 horas. E, como sempre, a Amanpour, essa mulher de armas. Directa, sem dar abébias, sem meias palavras, atenta ao que os outros dizem, sempre com a observação ou a pergunta certa. Uma profissional de mão cheia.

No vídeo abaixo, Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, cuja filha se demarcou publicamente da guerra, repete a propaganda putinesca. Mas, apesar de manter afivelado aquele sorriso meio apalermado que o caracteriza e se limitar a papaguear uma conversa que pode colher dentro de uma Rússia informativamente às escuras mas que, no mundo normal, é incompreensível e absurda, tenho para mim que estava francamente atrapalhado e envergonhado. Christiane Amanpour não o poupou mas o palerma também não desarmou. É gente presa pela barriga, habituaram-se ao luxo. Mas, não fora isso, e talvez Dmitry fosse o próximo Anatoly Chubais.

Partilho o vídeo pois não apenas é um documento interessante como me parece um exemplo a seguir pelos nossos jornalistas.

CNN's Christiane Amanpour presses Russian spokesman Dmitry Peskov on the Russian invasion and whether they are achieving their objectives in Ukraine


Para esclarecer Dmitry, o pateta sorridente:

CNN military analyst: 'This is just war criminality'

CNN Pentagon correspondent Barbara Starr reports the US government is currently assembling evidence to potentially present a war crimes case in an international court. CNN military analyst Maj. Gen. James "Spider" Marks (Ret.) breaks down the current strategy of the Russian armed forces, arguing it can only be described as "war criminality."

Saúde. Boa sorte. Afecto.
PAZ

4 comentários:

Anónimo disse...

Conheci este blog há alguns anos, a propósito, se a memória não me falha, de um post acerca da prisão preventiva de José Sócrates.
Pareceu-me um oásis de bom senso e lucidez, e a sua autora pareceu-me uma pessoa culta e racional. Mantive essa minha opinião durante anos, e isso levou-me a, pontualmente, fazer alguns comentários, que foram publicados.
Foi pois com surpresa que li –transversalmente a partir de 05/03 , e já lhe digo porquê - a sucessão de posts a propósito da invasão da Ucrânia pela Rússia. O bom senso e a lucidez desapareceram, substituídos ou contaminados pela histeria que grassa nas redes sociais e na comunicação social (quase toda ela). Mas o mais grave, e aquilo que definitivamente me afasta do blog, foi o comentário de 05/03, no qual claramente faz seu o entendimento e o apelo ao homicídio de Vladimir Putin feito por esse cowboy e falcão ignorante e perigoso que é o senador americano Lindsey Graham.
Não frequento espaços onde se defende o incitamento ao homicídio. Por isso, e durante muito tempo, limitei-me a frequentar outras paragens mais racionais e menos emocionais. Tenho no entanto um defeito – da mesma forma que recomendei o blog a conhecidos, passei a “desrecomendar” e a verdade é que nunca critiquei ninguém nas suas costas sem o fazer primeiro de forma frontal (continua abaixo, por limite de caracteres).MPDAguiar

Anónimo disse...

Sujeitei-me por isso à tal leitura transversal dos posts e comentários posteriores a 05/03, e deixe-me dizer que muito estimo que esteja do lado da liberdade, da democracia, do direito à livre escolha, e da paz. Eu também estou. E acredito que, quando se escolhe um lado, o critério escolhido tem de ser aplicado a todas as situações – deve recordar-se que já critiquei a duplicidade de critérios das redes sociais e da CS no caso do ucraniano morto pelo SEF por contraposição ao afro-americano morto pela polícia nos EU (isto quando ninguém queria saber de quem era Homenyuk, mas toda a gente vibrava com Floyd).
Pena é que não tenha detectado no seu blog a mesma indignação e defesa de valores relativamente a outras situações.
A título de exemplo, o bombardeamento da Sérvia pela NATO. Certo, foi em 1999 e se calhar ainda não existia o UJM, mas que diabo, nas vítimas desses bombardeamentos também estão incluídas mulheres e crianças, inocentes, doentes e velhos . Será que tais bombas pouparam casas, e teatros, e maternidades ?? E será que não poderia UJM ter apontado o dedo e dito que os cidadãos da Jugoslávia não mereciam ter sido tratados daquela forma, e sofrer e continuar a sofrer as consequências de decisões de países “democráticos”? Será que a nacionalidade dos agressores desculpa a agressão (recorde-se que a ONU não deu então cobertura à NATO e esta é - supostamente! – uma organização defensiva, sendo que nenhum dos seus associados tinha sido agredido pela Jugoslávia)?
E correndo o risco de que me acuse de “whataboutismo” recordo também os casos da Síria, do Afganistão, da Líbia, do Iraque, da Cisjordânia (olha a Cisjordância e a faixa de Gaza, tão actuais ...). Não vi nem vejo em nenhum caso a histeria bem pensante que agora ocupa espaço em tudo o que é informação ou rede social , UJM incluído – aliás, no caso do Iraque sabe-se bem que o primeiro-ministro português da altura fez de mordomo dos senhores da guerra e serviu salgadinhos. (cont.) MPDAguiar

Anónimo disse...

Falar da Síria, do Afganistão, da Líbia, do Iraque, da Cisjordância, da Sérvia, não é feito para relativizar moralmente a guerra da Ucrânia. E por isso não estamos a falar de “whataboutismo”.
O que é necessário é criticar de forma igual tudo o que mereça ser criticado, e, já agora e se não der muito trabalho, perceber que nem o governo e presidente ucranianos são os inocentes heróis do filme nem Putin é o vilão a abater.
Informe-se acerca da violação do estatuto de neutralidade da Ucrânia, informe-se acerca do pedido de adesão da Ucrânia à NATO (porque será que na crise dos mísseis de Cuba Kennedy não admitiu ter mísseis soviéticos no seu quintal? Mas agora Biden e tutti quanti já acham bem pôr mísseis NATO no quintal da Rússia?), informe-se acerca dos acordos de Minsk e da forma como a Ucrânia sistematicamente os violou. Talvez então conclua que a Ucrânia tem feito tudo e de tudo para chegarmos aqui ( e com jeitinho manso ainda vai conseguir fazer alastrar a guerra, embora eventualmente depois não haja ninguém para contar a história, pelo menos na Europa), e talvez conclua que afastar Putin não é a solução.
Embora não tenha comprado o Expresso durante muitos anos, abri uma excepção para poder ler a opinião de Miguel Sousa Tavares, afinal transcrita no blog Estátua de Sal, que reproduz diversos artigos de MST. Só posso aconselhar uma leitura atenta dos mesmos, escritos por pessoa que reputo insusceptível de simpatias para com Putin. A ponderação, a inteligência e a isenção são de facto valores inestimáveis.
Inteligência, ponderação e isenção de que não deram mostras a Orquestra Filarmónica de Cardiff , que baniu Tchaikovsky do seu reportório por ser russo, ou a Orquestra Filarmónica de Munique que despediu o maestro russo Valery Gergiev .
Vamos em frente.
Vamos queimar os livros de Tolstoi, Dostoievsky, Pushkin, Tchekhov, Turguenev. Vamos queimar as partituras de Tchaikovsky, Prokofiev, Stravinsky, Scriabin, Shostakovitch. E os quadros de Kandinsky e Malevitch. E os discos do David Oistrakh, já para a fogueira. E ai do Sokolov se se atrever a vir à Gulbenkian…
Já sem falar do Ministério Público português que parece que até abriu um inquérito para zelar pela aplicação das sanções a “oligarcas” russos. Esquecendo-se que de acordo com a CRP o direito de propriedade só pode ser limitado nos casos previstos na própria constituição, e que eu saiba nenhum cidadão russo,”oligarca” ou não, foi submetido a um processo e condenado de forma a que, na sequência da guerra, os seus bens fossem expropriados, confiscados, congelados ou o que a imaginação dos lapdogs europeus inventou. Afinal onde pára a responsabilidade pessoal de cada um apenas pelos seus actos?? Estão a ser ultrapassadas fronteiras que nos irão custar caro.
Permita por último que chame a atenção para o seu comentário ao comentário ameaçador que excepcionalmente publicou. Há um provérbio qualquer que associa a semeadura de ventos à colheita de tempestades. Talvez a sua adesão entusiasmada ao clamor americano por um qualquer Brutus explique o 'nível' de quem a insulta ou ameaça.
Como UJM não é isenta nem é a casa da mãe Joana, como fez questão de sublinhar, não espero que publique o meu comentário de despedida.
Por mim vou reter e transmitir apenas o seu comentário de que as parvoíces definem quem as diz ou faz.
Cumprimentos,
MPDAguiar

Um Jeito Manso disse...

MPDAguiar

Este blog começou a meio de 2010 e, portanto, antes disso o que me passava pela cabeça não era exposto no blog. Depois disso, durante bastante tempo, usava o blog para falar de pinturas, livros, músicas, filmes, fotografia, fait-divers. Evitava a política ou a actualidade. Por isso, podia o mundo estar a cair aos bocados que até certa altura manifestava-me noutros fóruns.

Contudo, aqui já falei de guerras, perseguições ou falta de atenção e de humanismo para com refugiados e sempre me manifestaei frontalmente contra. Não há guerras boas ou refugiados de primeira ou de segunda.

Lamento não me ter apercebido da mão assassina de Putin por onde ele passou.

Desta vez não há como não perceber a sanha assassina desse mitómano. Nunca há pessoas 100% boas tal como não as há 100% boas. E podemos invocar mil pretextos para desculpar um violador tal como certamente também houve muita gente que fechou os olhos a Hitler e ao que ele andava a fazer. Sabe certamente que há juízes que desculpam os violadores dizendo que as mulheres é que usavam a saia curta demais. Também houve quem dissesse que os judeus fizeram por merecer a 'operação' de limpeza a que foram sujeitos.

Mas eu não penso assim. Perante crimes com a dimensão a que se assiste, há que condenar quem os pratica. Pode dizer-me que os milhões de ucranianos que foram desalojados, que viram as suas casas destruídas, que foram mortos, não eram perfeitos e fizeram mal em defender a independência e a liberdade do seu país. Talvez alguns nem fossem muito boas pessoas. Mas quem somos nós para o saber ou declarar? O que sabemos e vemos é o crime que está s ser cometido. E não vejo como não condená-lo veementemente. Não vejo.

O que está a acontecer é de uma gravidade tal que não há atenuantes que o possam justificar.

Um crime é um crime é um crime. E os criminosos, em especial deste calibre, devem ser travados, condenados.

Pode deixar de ler o que escrevo ou pode dizer mal de mim por onde quiser. A minha opinião é esta e não vou deixar de me manifestar.

Sempre o tive em boa conta, sempre gostei dos seus comentários. E espanta-me e dá-me pena que, perante a tragédia e a chacina que está à vista de toda a gente, em vez de vir aqui condená-la, venha é condenar-me a mim por me sentir revoltada e angustiada com esta guerra.