Aqui no campo, podemos ver todos os canais através da internet, mas, por preguiça, por vezes deixamo-nos estar nos básicos. Eu estava com o computador a ver a conversa que mais abaixo partilho e, na televisão, numa daquelas viagens rápidas em zapping, o meu parido parou no 5 para a Meia Noite no momento em que duas jovens convidadas conversavam com uma outra que nos pareceu residente. As duas, que nunca tínhamos visto nem de quem tínhamos ouvido falar, foram apresentadas como tendo um Podcast muito famoso. Até já foram ao programa (ou ao podcast) da Júlia Pinheiro, disseram como sendo a inegável coroa de glória... e, por toda a conversa, parecia que meio mundo corre para não perder o que elas dizem. Isto tudo no meio de risos, conversas sobrepostas, tontices. O meu marido virou-se para mim: 'Já tinhas ouvido falar nelas?'. Nunca. Ele pediu: 'Procura lá aí, para ver se se percebe'. Fui ao youtube e procurei. Abri um vídeo e, ao fim de um minuto, o meu marido sentenciou: 'Pronto. Já chega.' e acrescentou: 'Porra.'
Se eu quiser reproduzir o que elas disseram naquele minuto não sou capaz. Não estou com défice de memória pelo que admito que não consigo porque elas, simplesmente, não disseram nada. Só me ficou que, em cada três palavras, aparece a palavra 'tipo' pelo menos quatro vezes. Pelo meio 'ya'. Tipo ya, tipo ya, tás a ver, tipo.
Riem, interrompem-se, comem -- e não dizem nada.
Para ter a certeza de que não estou a ser injusta, voltei agora a ver mais um pouco e nem um minuto voltei a aguentar. Palavrão da pesada, mas ponham da pesada nisso. Uma vulgaridade, asneiras a granel misturadas com tipo e com ya e com tás a ver. E não passa disso, uma cansativa indigência. A todos os títulos, uma miséria.
E, uma vez mais, parece que há muita gente a consumir uma porcaria sem ponta por onde se pegue. Sinceramente, não sei que retrocesso civilizacional é este.
Elas são a Bruna Magalhães e a Mia Fernandes e o podcast chama-se Más Influências -- uma coisa que, se vivêssemos tempos normais, ao fim do primeiro episódio, por falta de audiência, deixaria de ver a luz do dia. Agora não. Nestes tempos em que reina a estupidez, estas duas criaturas têm audiência e são convidadas para programas de televisão como se fossem pessoas com alguma coisa para dizer. E não têm.
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Felizmente, há o reverso. Foi de gosto que vi e ouvi a conversa entre o Luís Osório e a Violante Saramago Matos, a filha de José Saramago. Ele faz uma pergunta e deixa-a falar, dá-lhe espaço e tempo, ela escuta-o, pensa -- e nós podemos respirar, escutá-los, olhá-los. Há todo um tempo, uma história, um vocabulário, memórias intelectuais e emocionais, um saber pensar, um saber falar.
Claro que, ao olhá-la, me ocorre o lugar comum de que 'o tempo corre'. Aqui está a filha de Saramago já com 78 anos, já com mais 2 anos do que o pai tinha quando recebeu o Nobel... Ainda o tenho presente, as suas palavras, e aqui está a sua filha já a pensar que o fim se aproxima. Inclemente, o tempo.
Falam no Ensaio sobre a Cegueira, livro que ela tem na cabeceira. Para mim também um livro fundamental, daqueles momentos em que se cava um buraco sob os nossos pés para que a literatura desenhe uma nova fundação.
Não é daquelas conversas que se ouça em dois ou três minutos -- não, é para se ouvir com tempo. Falam de muita coisa, incluindo da demagogia do Durão Barroso, para mim uma alforreca com que nunca pude, e da sua mulher, muito melhor que ele e que por ele se apagou, a Margarida Uva por quem sempre tive muita simpatia.
"Vencidos" com Violante Saramago Matos | Antena 1 / Luís Osório
José Saramago só tem uma filha e dois netos. A filha chama-se Violante e é uma mulher extraordinária e discreta. À conversa com Luís Osório. Saramago como nunca o ouviu.
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