quinta-feira, março 19, 2026

Conversar, ouvir

 

Quando estou com alguma das minhas amigas mais antigas, mal nos vemos desatamos a conversar como se não tivesse havido tempo de permeio. Aquelas com quem mais gostava de estar em miúda continuam a ser aquelas de quem ainda mais gosto. Não são iguais a mim. Cada uma delas tem coisas que vão quase em sentido oposto ao que eu sigo. Mas, ainda assim, nas nossas diferenças, entendemo-nos. Gostamos de ouvir as opiniões umas das outras. Para quem não tem problemas de maior, conversar assim deve ser tão bom e tão válido como fazer terapia. Tudo o que alguma de nós diz não encontra espanto ou censura nas outras, encontra aceitação, vontade de compreender. Não há vergonha nem inibição.

Nunca fiz terapia, nunca senti necessidade. Pelo contrário, gosto é de ouvir as outras pessoas. Já contei muitas vezes este fenómeno: sem que me conheçam, as pessoas desatam a falar-me da sua vida. Sempre assim foi. Mesmo agora no ginásio isso acontece. Uma companheira, digamos assim, com quem lá me cruzo com alguma frequência, quando estamos as duas ao lado uma da outra, conta-me tudo e mais alguma coisa sobre a sua vida. No fim, já despachado, o meu marido fica à minha espera no sofá, a ver televisão, pois a conversa costuma demorar. Nem sei o nome dela nem ela o meu, e no entanto sei como se chamam o marido e os ex-maridos, sei porque se separou dos ex, sei o que a encanta no actual, sei dos desaires da filha, sei de muita coisa. E a sensação que tenho é que mal abro a boca. O meu marido costuma dizer, ao ver como as pessoas se abeiram de mim e desatam a falar: 'se não desses conversa, a ver se a conversa durava tanto...' Mas a conversa que ele diz que dou não é nenhuma, limito-me a ouvir com atenção, eventualmente faço uma ou outra observação. 

Quando no fim do outono passado almoçámos passámos a tarde com uns amigos, alguns com quem já não estava há bastante tempo, para o fim, um que é muito conversador desatou a contar-me coisas. O meu marido sentou-se num banco, incapaz de acompanhar. Mas um outro que estava também sentado nesse banco, levantou-se e veio mostrar-me umas fotografias, de certa forma interrompendo a conversa do outro. E eram fotografias de uma mulher muito bonita, que ele mostrava embevecido. Eu não a conhecia. Disse-me depois que era a mulher, que tinha morrido há uns dois ou três anos, salvo erro e que eu nunca tinha conhecido. Vi que continuava apaixonado por ela. Ora ele estava lá, naquele dia, com a namorada, namorada essa que, quando me tinha apanhado sozinha, também me tinha estado a contar toda a sua vida e como, agora, com este namorado, continuava a morar cada um em sua casa, tanto mais quanto, em casa dele, havia fotografias da mulher por todo o lado. Então, quando ele estava a mostrar-me as fotografias da mulher, linda, eu estava a modos que meio desconcertada por ver como, se calhar, ele ainda não estava preparado para estar a viver um namoro quando ainda se derretia todo a mostrar fotografias da mulher. Claro que não disse nada, não apenas porque o meu outro amigo, que este tinha interrompido, estava à espera que ele acabasse para retomar a conversa, como o meu marido não parava de me fazer sinais para nos irmos embora.

Quando chegámos ao carro, queixou-se do que se queixa sempre, que me deixo ficar a ouvir as pessoas, que não percebo que, se não as interromper, as pessoas não se calam. E eu, de certa forma, até concordo: as pessoas começam a falar comigo e não param de falar, e, por isso, custa-me desligar-lhes o botão. Pergunta porque é que não faço como ele. Respondo que não faço porque não sou capaz. Ele desliga. Ora como posso fazer isso com as pessoas a confidenciarem-me sobre as suas vidas?

Disse lá em cima que nunca fiz terapia, e é verdade. Mas, quando a minha mãe estava internada, nos Cuidados Paliativos, as médicas disseram à psicóloga que achavam que eu precisava de apoio e, então, ela procurou-me. Falei com ela, não me recordo se duas ou três vezes e foi muito útil, gostei bastante, ajudou-me. E, naquela altura em que eu estava meio perdida, desorientada, quase sem saber interpretar o que estava a acontecer e a querer que tratassem a minha mãe em vez de tentarem convencer-me que já não havia nada a fazer, foi bom ter alguém a fazer-me perguntas, a ouvir-me, a ajudar-me a interpretar. Lembro-me que desatava a chorar e que ela me dizia que era natural que eu estivesse assim, e continuava a falar como se, de facto, a minha reacção fosse normal, dizia que era normal eu estar até quase revoltada por a minha mãe ter escondido tudo e estar, até ao fim, a fazer de conta que não sabia o que tinha, deixando-me sem saber como agir.

Estávamos sentadas ao mesmo nível, ela num sofá, eu num outro, perto uma da outra. 

Não sei se funcionaria se eu estivesse deitada num sofá e ela sentada, num nível mais elevado. Não sei. Não sei se uma pessoa deitada, se abandona, se se expõe mais facilmente. Não sei.

Aqui à noite, sem televisão ligada, vou vendo o que o algoritmo do Youtube tem para me mostrar. E tenho gostado de ver as conversas de algumas pessoas interessantes, deitadas no sofá, com a anfitriã, sentada num outro plano. Com uma câmara apontada ao rosto, sabendo que a conversa está a ser gravada, não sei se conseguiria desinibir-me e conversar sobre tudo. E, mesmo pondo-me no papel de quem ouve o que outra pessoa fala sobre a sua vida, não creio que me sentisse confortável estando o outro ali deitado no sofá. Mas, se calhar, funciona. Pelo menos, aqui, como abaixo poderão constatar, funciona.

Neste caso a conversa é com Helena Bonham Carter, que admiro bastante, é uma excelente diseur e uma excelente actriz. E quem conduz a conversa é Bella Freud, filha do pintor Lucian Freud e bisneta de Sigmund Freud. E divertem-se imenso, a conversa é gostosa. E falam com vagar, o que é muito bom. Conversar requer tempo, disponibilidade.

Helena Bonham Carter fala sobre traseiros proeminentes, androginia e a Princesa Margarida | Fashion Neurosis

Helena Bonham Carter é uma atriz inglesa. Conhecida pelas suas interpretações de mulheres interessantes e singulares, alcançou a fama ao interpretar Lucy Honeychurch em Um Quarto com Vista, em 1985, e a personagem-título em Lady Jane, em 1986. Em 1999, Bonham Carter rompeu com a imagem de "rosa inglesa" ao interpretar a mulher fatal Marla Singer em Fight Club. Interpretou a malévola bruxa Bellatrix Lestrange na franquia Harry Potter e, mais recentemente, a Princesa Margarida em The Crown, papel pelo qual foi nomeada para vários prémios. Helena vai protagonizar uma nova adaptação de Os Sete Relógios, de Agatha Christie, para a Netflix em janeiro de 2026.

Helena Bonham Carter tem dois filhos com o realizador Tim Burton. Conheceram-se em 2001 no set de O Planeta dos Macacos, e o casal colaborou em sete filmes, incluindo A Noiva Cadáver e Alice no País das Maravilhas, até à separação em 2014.

Conhecida pelo seu amor por calças abalonadas, saias compridas e estilo vitoriano, Bonham Carter lançou a sua linha de moda, The Pantaloonies, em 2006. Protagonizou campanhas para Marc Jacobs e Prada, e citou Vivienne Westwood e Maria Antonieta como as suas inspirações de estilo.

Bonham Carter recebeu um prémio BAFTA, um Critics' Choice Movie Award, um Emmy Internacional e três prémios do Screen Actors Guild, além de ter sido nomeada para dois Óscares, nove Globos de Ouro e cinco Primetime Emmy Awards. Foi nomeada Comandante da Ordem do Império Britânico (CBE) na lista de Honras de Ano Novo de 2012 pelos serviços prestados ao teatro.

Neste episódio de Fashion Neurosis, Bella Freud e Helena Bonham Carter discutem sobre roupas andróginas, rabos proeminentes e a palavra "vagina" como o novo elogio.

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Boas conversas

Dias felizes

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