Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, junho 26, 2019

Apesar das tormentas,
para sempre voamos
século após século no ressalto dos ventos





Há um aspecto nas cidades portuguesas que é muito diferente do que se pode encontrar noutras cidades europeias. Não precisamos de ir muito longe, basta ir aqui ao lado, a Espanha. Se estivermos depois das cinco da tarde na Plaza Colón ouviremos como que um muito sonoro chilreio: são crianças. Montes de crianças. Correm, brincam, chamam umas pelas outras, riem. Grande parte está com as empregadas, grande parte delas da América do Sul. Mas o que verdadeiramente impressiona é a quantidade de crianças. Numa outra cidade espanhola, aquela que prefiro, em minha opinião uma das mais belas cidades euopeias, San Sebastian, a Donostia do País Basco, também, a partir de meio da tarde, as ruas e os jardins estão cheios de crianças, aqui já muitas com os pais e não tanto com as babás como no centro do Madrid. Em Amesterdão, tenho ideia que é ao longo de todo o dia que se vêem jovens mães ou pais com crianças nas bicicletas. Tantas crianças.

Por cá, durante a semana, pouco se vêem. Não apenas não há muitas crianças como as poucas que há têm que ficar nas escolas até tarde já que os pobres pais têm que trabalhar até tarde e, depois, enfrentar longos e demorados percursos, presos no trânsito.


Se há aspecto francamente descurado por todos os governos, incluindo pelo da geringonça, é o demografia. É certo que tem havido uma ou outra medida mas, reconheçamos, nada que seja efectivo, tudo muito em ponto pequeno, medidas desgarradas, timoratas. E, por isso, não espanta que os resultados sejam tão desoladoramente incipientes.

Uma das filhas da senhora que vai ajudar a minha mãe a tratar do meu pai vive na Alemanha e tem duas filhas pequenas. As licenças de maternidade são extensas, os horários são reduzidos enquanto as crianças são pequenas, o ensino é completamente gratuito, incluindo todo o material escolar, e nem sei que outros apoios tem, pois, volta e meia, quando me contam, fico tão admirada que acabo por não fixar, quase como se fosse uma quimera em que nem vale a pena pensar. Apesar de não ter um emprego por aí além e de ser emigrante, ela não teve qualquer problema em ter uma criança e, pouco tempo depois, uma outra. E quando fala com a mãe, via Skype, está fresca e bem disposta, nunca se queixando de nada.


Um país com muitas crianças é um país com futuro, em que a população pode viver tranquilamente, encarando o futuro com tranquilidade, sem o peso do receio de uma possível falência de sistemas de segurança social. Em países como Portugal, em que há cada vez menos pessoas a entrar como novos contribuintes para um sistema repleto de idosos que vivem cada vez até mais tarde, paira sempre sobre o pescoço, em especial dos que caminham para a madura idade, o receio de que o cutelo do corte das pensões empobreça a sua velhice.

Por isso, é vital que se reforcem todos os apoios ao incremento da natalidade, e que se seja criativo, arrojado, que se tenha uma visão abrangente -- que haja subsídios de apoio ou redução fiscal (o que for mais eficaz) para famílias com crianças, que haja infantários e escolas públicas, obviamente gratuitas, com actividades e horários alargados e funcionando todos os meses do ano, que haja amplo apoio pediátrico, que se reduzam os horários para pais com filhos até aos doze anos, que se fomente o teletrabalho, que haja uns quantos dias para ausências para que os pais possam acompanhar os filhos, que haja também alguns dias para avós que tenham que prestar apoio aos netos.

E estou a escrever ao correr da pena. Mas que se abra um debate público, que se faça um inquérito junto de jovens pais para saber quais as suas dificuldades e outro junto dos que não têm filhos para saber o que receiam.

Dir-me-ão que receiam os ordenados baixos o desemprego. Claro. Mas isso combate-se com uma economia pujante -- e é outro lado da equação. 

E não é apenas para a sustentabilidade dos sistemas contributivos que é indispensável ter um equilíbrio demográfico: é também porque cidades sem crianças pequenas e sem jovens irreverentes são cidades soturnas, tristes. E, quem diz cidades, diz vilas ou aldeias.

E, enquanto não estejam no terreno todas essas medidas e que comecem a produzir efeito, pois que se incentive a imigração.

E aceitem-se miúdos de países em risco, famílias de refugiados com filhos pequenos. E 'importem-se', por exemplo, médicos e enfermeiros.
Não os há que cheguem nos hospitais porque cada vez há mais clínicas e hospitais mas as Faculdades de Medicina são basicamente as mesmas. Como é que os médicos e enfermeiros hão-de ser suficientes? Não são, claro. Mas não é drama: incentive-se a vinda de médicos de outros países. 
Ou engenheiros informáticos, que estão também em falta. Ou engenheiros de ambiente, engenheiros sanitários, engenheiros de materiais, ou físicos ou bioquímicos, ou gente que venha investigar seja o que for. Muita falta nos fazem.  Todos os que cá tivermos serão sempre poucos.

E, já agora: uma vez que começam a rarear muitas profissões, criem-se muito mais escolas técnico-profissionais onde se ensine a ser electricista, canalizador, mecânico, instrumentista, torneiro, etc, para ter oferta diversificada a nível de ensino, incluindo para jovens que não querem fazer cursos superiores.

E outra coisa. Uma muito importante.

Estou a falar de algo que, em meu entender, é vital nas cidades para lhes dar vida, uma vida jubilosa, uma vida com irrequietude de espírito, alegria e criatividade: a arte.

Uma vez escrevi uma carta ao presidente da autarquia com um conjunto de sugestões: que enchesse as ruas de arte, que oferecesse prémios e bolsas para artistas que fizessem trabalhos para a cidade, que tivesse residências e ateliers para artistas vindos de onde quisessem vir, que tivesse galerias públicas.

A arte atrai bons espíritos, atrai mais gente, e mais gente atrai mais trabalho e prosperidade, maior qualidade de vida e maior qualidade de vida é segurança, e segurança e qualidade de vida dá mais vontade de criar família, de ter crianças, de renovar o mundo.

Terras sem artistas, sem arte pública, sem comunidades de artistas vibrantes, criativos, diferentes, são terras tristes, ensimesmadas, com tendência ao esvaziamento, terras com triste futuro.

É outro aspecto fundamental nas políticas públicas: muita arte, arte ao dispor de todos, arte a inspirar todos.

Forte apoio à natalidade, forte apoio à imigração, forte apoio às artes -- são três medidas que espero que estejam bem presentes no programa do próximo governo. Isso a par da defesa do planeta que, espero bem, há-de ser uma das principais causas dos anos que aí vêm.

Claro que muito mais que isto. Bibliotecas públicas abertas de manhã à noite e ao fim de semana, também, por exemplo. E mais, claro. Mas a estas políticas a que aqui dei destaque eu dou total importância. E defendê-las enche-me de entusiasmo, como se tivesse uma suave brisa a tocar-me o rosto, como se tivesse os braços cheios de braçadas de flores, como se tivesse outra vez dez anos e largasse a correr por um sinuoso caminho descendente, a saia voando, os cabelos compridos pelos ares, eu com a vida pela frente, eu ainda nunca desiludida, eu ainda inocente e crente na força da minha vontade.


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E, já agora, queiram dar uma espreitadela a este lugar onde fervilha a arte: Dubai



E outro: Leipzig


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E para o Leitor que hoje chegou aqui depois de ter escrito num motor de busca 'o que é a beleza de uma mulher', aqui deixo uma possível receita:


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Usei pinturas de Georgia O'Keeffe e o Smile pela Madeleine Peyroux para dar alguma graça a este post. O título é um excerto do poema Eternidade de Maria Teresa Horta

E desejo-vos uma feliz quarta-feira

10 comentários:

Anónimo disse...

A quem possa interessar:

- Um ensaio por Catherine Ingram (versão áudio Youtube).

Atentamente.

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

Muito bem!
Curiosamente somos muito elogiados pelos turistas e viajantes por sermos muito "children friendly"...

Um abraço.

Abraham Chevrolet disse...

Acerca do ar de felicidmade dos trabalhadores portugueses e da maioria de os demais,lembro a afirmação de John Maynard Keynes,insuspeito salvador do Capitalismo,no distante ano de 1929:
-Com o desenvolvimento económico e científico que acontecerá no futuro imediato,o meu filho agora bebé,quando adulto não precisará de trabalhar mais de 18 horas por semana!
Pobre Keynes,como se enganou;não com o desenvolvimento que aconteceu de facto, mas com a hipertrofia da ganância humana e só humana,porque não há outra!
Desconhecia Keynes todos os avanços conseguidos ate hoje. Como não coraríamos de vergonha se ele cá voltasse,visse os avanços alcançados e o destino que lhe damos...

Paulo B disse...

Olá UJM,

Cada vez mais me convenço que não se resolve o "problema" da demografia com medidas (sejam ou não "criativas"), que invariavelmente se foram no "incentivo à natalidade" ou na "importação" de migrantes "a martelo".
A decisão de ter filhos está, em primeiro lugar, intimamente relacionada com as condições de vida e a estabilidade que essas condições geram; em segundo lugar com a própria cultura dominante - se ela tem um caráter comunitário e solidário marcado (que propicia a "natalidade", como forma de perpetuação cultural) ou pelo contrário é marcadamente individualista e competitiva (onde a natalidade acaba por ser o resultado subalterno do sexo).
Portugal parece que ainda mantém uma cultura comunitária e solidária mas não conseguiu atingir um equilíbrio entre essa cultura e o novo patamar de desenvolvimento socioeconómico em que naturalmente se foi integrando... sem grande estratégia e sem capacidade de fazer frente à galopante vampirização dos parcos recursos existentes.
Se as cidades do litoral são um deserto de crianças, as "cidades" do interior são um deserto. Ponto. Quando, numa reunião recente numa câmara municipal do interior profundo, onde apenas sobram os serviços públicos como geradores de emprego, dos quatro participantes do município (um vereador, 3 técnicos superiores), 3 moram foram desse município, dois deles (incluindo o vereador), numa cidade capital de distrito a cerca de 100Km / 1h de viagem, deixou-me estarrecido sobre as possibilidades reais destes territórios. E até foram criadas infraestruturas razoáveis, até existe fibra e 4G, até existem cine-teatros, os espaços urbanos foram reabilitados e têm uma qualidade razoável, existem espaços verdes de qualidade, transformou-se grande parte do território para receber turistas com muita qualidade (com a consciência que essa era a última medida de salvação económica disponível). E basta ir aos subúrbios de Lisboa ou do Porto para ver como tudo é muitíssimo pior nestes parâmetros urbanístico - territoriais. E mesmo assim.... e mesmo assim... nada.
É uma questão muito profunda e que ultrapassa a "infraestrutura" física e os próprios serviços públicos.
Na verdade, também as nossas cidades do "litoral" estão a desaparecer de forma acelerada, num fenómeno que só não é mais visível porque aqueles que saem têm vindo a ser "compensados" por aqueles que vêm de outras paragens - do que resta nesse "interior" ou mesmo de outras paragens.

Não sei se há sequer soluções de reversão. Não me parece. Talvez de estancar o processo nas áreas urbanas existentes e gerir o encolhimento do restante território. Assumir a sua re-naturalização. E as medidas não têm de ser muito criativas: uma sociedade mais justa e, sobretudo, muito, mas mesmo muito, menos desigual. Aplicar estes princípios gerais naquilo que está ao alcance do legislador e eleger um governo que saiba montar uma estratégia de desenvolvimento económico que respeite esses mesmos princípios, quer através do investimento público quer penalizando fortemente os agentes económicos que não prossigam esses objetivos. Parece tudo muito abstracto? Talvez. Poderia enunciar mil medidas que, pessoalmente, acharia bem. Mas, sinceramente, o problema é que como sociedade nem percebemos bem o que implicam estas abstrações, nem queremos refletir nelas. No fim, é isso que mais me preocupa.

(não estou muito animado hoje, concedo)

Abraço!

Um Jeito Manso disse...

Olá Anónimo/a

Não quer inventar um nome para eu poder agradecer-lhe de forma mais personalizada? É que acho simpático e generoso da sua parte deixar a informação que aqui deixa e custa-me um bocado estar a tratá-lo/a por Anónimo/a...

E, para além do que ela diz, a voz bonita que ela tem, não é?

E tive que ir informar-ne, não sabia o que é a dharma. Uma coisa que aprendi hoje... e ainda o dia está a começar.

Muito obrigada.

E uma quinta-feira feliz.

Um Jeito Manso disse...

Olá Francisco,

Até acredito que sim, que tratamos bem. O que se passa é que somos dos países da Europa com mais baixa taxa de natalidade. E um país sem crianças tem que pensar bem como poderá dar a volta a isto porque não é apenas um país envelhecido: é um país que tenderá para a pobreza.

Mas acredito que ainda estamos a tempo de sair desta onda.

Abraço, Francisco!

Um Jeito Manso disse...

Olá Abbraham,

Já sabe: fico sempre numa alegria quando o vejo a opinar aqui por estas bandas. E, como sempre, vem com uma coisa que me deixa a pensar e a concordar com o que diz.

Que mundo estúpido, este, não é? Em vez de gerirmos a noosa própria evolução no sentido de não sermos escravos do trabalho e em vez de criarmos condições para uma vida tranquila, andamos nisto, a trabalhar de sol a sol, a trabalhar para além da conta, cheios de stress, depressões.

O que fazer?

Thanks pelas suas palavras, Abraham.

Um Jeito Manso disse...

Olá Paulo,

Está depressed hoje, pouco animado. E percebo que o tema não é especialmente animado.

A gente pensa na desolação que é termos um país desertificado no seu interior e, de facto, não pode ficar feliz. Mas vai ver, virão ecologistas de outros lados do mundo para povoarem as nossas aldeias, virão jovens que vão perceber que vida boa é onde se pode viver devagar.

E não é importar gente a eito, não senhor. É outra coisa: é pensar a longo prazo, é ter estratégia, é articular políticas, é ter visão.

E o Paulo está numa área de conhecimento em que pode dar um bom contributo. Força. Arranje maneira de se fazer ouvir.

E bora pôr-se a sorrir, ouviu?

E vai um beijinho, hoje, para ver se fica se fica mais animado.

Paulo B disse...

Olá UJM,

Tem dias assim. Mas nestes assuntos, nas últimas semanas, um contacto mais próximo com a realidade deixou-me mesmo um bocado derrotado. E não foi só em contexto de trabalho. Faz duas semanas fui passar um fim-de-semana ali para aquelas bandas do pinhal interior. Tenho um amigo alemão que os pais se estaveleceram lá quando era bebé (cresceu mais como Português do que como alemão). Este povo é o único que por ali sobra ainda com alguma juventude e crianças. Mas não chegam. De longe. Fui a um "festival" organizado por um inglês ali radicado com o apoio de gentes locais (muitos, jovens que trabalham e vivem em Lisboa durante a semana). Um festival de música que se pode classificar do indie-folk internacional. Bem ao gosto desses jovens ecologistas nacionais e internacionais. Sabe, pouquíssima gente (algumas dezenas de pessoas apenas). Amigos dos amigos. Muitos desses estrangeiros não falam português. Ou falam pouco. E os portugueses que ali vivem convivem pacificamente mas não comunga da mesma cultura (diria até que há um certo preconceito... com alguma razão de ser... que aquilo é malta das drogas... lol ... como se um charrozito fizesse o traficante e o drogado... quando para mais é no seio dos "autóctones" que há o verdadeiro problema de drogas!). Fui a uma praia fluvial magnífica. Nadador salvador e tudo. Fomos os únicos utentes o dia inteiro! O percurso até lá (20min da "cidade"), lindo (dos poucos sítios que não ardeu naquele fatídico incêndio que morreram.pessoas ali numa estrada na zona! 3/4 aldeias... nem se avistou vivalma (ainda que os campos à volta das casas estivessem arranjados).
É mesmo desolador.
E o pior é o custo. Nós nem nos lembramos disso. Mas... e levar água canalizada, electricidade, telecomunicações, estradas, transporte público até aquelas terras. Para servir, na melhor das hipóteses, umas dezenas de pessoas. Para mais quando não tivemos praticamente planeamento do território nenhum, num território quase todo privado, que resultou numa fragmentação / dispersão gritante. São custos astronômicos. As autarquias daqueles sítios vivem para suportar isto apenas. E agora, com a regressão demográfica na fase aguda, já nem as ipss / lares conseguem ter uma gestão sustentável financeiramente.
Não há turismo para encher e pagar isto tudo, mesmo vendido ao desbarato como se tem feito, em desespero.
Sinceramente, cada vez mais me convenço que temos mm de fazer escolhas e de tentar, ainda que seja já em desespero, pelo.menos as vilas. Mas a questão financeira é muito complicada.
E mesmo as cidades com potencial começam a desistir. Nem sei se por mera trica política se realmente porque o político percebe que o melhor que tem a fazer é gerir as expectativas das pessoas que lá estão, dar-lhes o conforto do conhecido ao invés de arriscar no desconhecido (falo agora concretamente tendo em mente Viseu e dos magníficos jardins efêmeros, que este ano foram cancelados).
Agradeço o beijinho e a força,as ainda não passou completamente.
Mas porque nem tudo são más notícias, está quase aí o festival de teatro de almada! Este ano vai ter a presença da isabelle huppert (no ccb) - embora seja sempre um bocadinho céptico a esta lógica dos "grandes nomes"... ainda assim, no cinema, é grande atriz. Consta que faz bom teatro tambem. Vamos ver.

Um Jeito Manso disse...

Paulo

Mesmo de saída para me ir deitar: a Huppert? Sério? Vou já ver qando é. Caraças. Nem sabia que ela ainda fazia teatro.

Gracias!

And cheer up, boy!