segunda-feira, novembro 21, 2022

A depressão e a ansiedade de Marta Rebelo, a corajosa maluquinha assumida

 

Mais um testemunho muito sincero sobre um problema de saúde mental vivido na primeira pessoa. E, uma vez mais, uma surpresa. Desta vez é Marta Rebelo de que me lembro quando era deputada da Nação, socialista e fashionist. Looks sempre modernos, por vezes arrojados, ela era uma imagem arejada em meios que tantas vezes tresandam a convencionalismos.

Depois perdia-a de vista e nunca mais me lembrei dela. Algum tempo depois houve aquele episódio sobre o fim de uma relação porque o namorado tinha deixado fugir o gato. Foi o fim do mundo em cuecas, a gargalhada geral. Nestas coisas há sempre quem queira parodiar o desgosto e as aflições dos outros. Mas a verdade é que os tempos mudam e talvez hoje não houvesse a crueldade jocosa a que então se assistiu. Depois despareceu outra vez do meu radar.

Surge agora em mais uma das utilíssimas e muito bem conduzidas entrevistas do Observador, na Série Labirinto - Conversas sobre saúde mental.

Aqui Marta Rebelo fala da depressão que a atormentou durante anos e sobre a ansiedade, nomeadamente os terríveis ataques de ansiedade, que condicionaram toda a sua vida.

Conta como disfarçou e escondeu a sua condição, por vezes quase incapacitante, com receio do estigma a que certamente estaria sujeita se se soubesse. Uma deputada maluquinha? Ficar em casa, incapaz de sair da cama, e telefonar a dizer isso, que não conseguia ir trabalhar...? Nem pensar.

Acredito. Aconteceu com ela e deve acontecer com muita gente: o receio de ser visto como fraco, o receio de ser considerado incapaz de estar à altura dos desafios profissionais, incapaz de dar conta do recado com os filhos, o receio de ser olhado de lado pelos outros. 

Para evitar isso, muita gente esconde, tenta fazer de conta que está tudo bem. Marta Rebelo conta como ria e disfarçava mesmo quando se sentia como se estivesse a ter um ataque cardíaco fulminante. Hoje espanta-se como conseguiu enganar tanta gente durante tanto tempo. Diz que hoje 'fareja' quem está a passar pelo mesmo e fala em geral sobre o tema mas não assumindo, na primeira pessoa, que vive essa circunstância. Mas não se admira pois ela própria fez isso.

Marta Rebelo tentou o suicídio. Não foi apenas o pensar nisso. Não, tentou mesmo. 

E todos os que estavam junto a ela ajudaram a esconder o que se tinha passado. Fizeram-no para a proteger, para a ajudar a melhor superar esse momento terrível.

E, no entanto, Marta Rebelo, às tantas, começou a sentir que o secretismo em volta da sua condição estava a atrofiá-la e a prejudicar a sua recuperação. Quando decidiu falar no assunto, sentiu que o sofrimento pelo qual vinha passando há tanto tempo talvez fosse útil para chamar a atenção para os problemas e os estigmas associados às doenças mentais.

E é verdade: é da máxima importância que se fale nisso.

Há contudo um tema que ainda não vi abordado e que seria útil que viesse para o conhecimento público: como se deve lidar com alguém que tem uma depressão ou que sofre de crises de ansiedade?

Eu não sei. Se eu estiver junto a alguém que pressinto que está a padecer de depressão ou com crises de ansiedade mas se a pessoa o negar e disfarçar, como devo agir para ajudar? Intuo que não se deve forçar... mas não sei o que fazer. Assistir ao sofrimento de alguém que se ama e que não quer tratar-se nem quer assumir o seu problema é uma coisa terrível, uma pessoa sente-se impotente. Seria importante que esse tema fosse abordado. A depressão ou a ansiedade não são apenas problema para quem disso sofre mas também para os que os amam.

Marta Rebelo e a depressão. “Cheguei a tomar nove medicamentos diferentes”

Esteve “no inferno” várias vezes durante mais de 10 anos. O ponto mais duro chegou quando era deputada. Sente que se escondeu e isso pesa-lhe, por ser “cúmplice” do estigma. Parceria Observador/FLAD


Precisa de ajuda? Estas são as linhas de Apoio e de Prevenção do Suicídio em Portugal

SOS VOZ AMIGA
Horário: 16:00 – 24:00
Contacto Telefónico: 213 544 545 | 912 802 669 | 963 524 660
Linha Verde gratuita: 800 209 899 (21:00 – 24:00)

CONVERSA AMIGA
Horário: 15:00 – 22:00
Contacto Telefónico: 808 237 327 | 210 027 159

VOZES AMIGAS DE ESPERANÇA DE PORTUGAL
Horário: 16:00 – 22:00
Contacto Telefónico: 222 030 707

TELEFONE DA AMIZADE
Horário: 16:00 – 23:00
Contacto Telefónico: 222 080 707


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Continuo sem responder a mails ou a comentários. Por bizarro que possa parecer (a mim parece-me), continuo submersa numa onda de moleza absoluta e de grande sono, com mais frio do que é costume e com algumas dores nas pernas. Sei que estas vacinas têm este efeito em algumas pessoas. A mim nunca tal me tinha acontecido pelo que é novidade. Presumo que amanhã ou depois esteja melhor. Também estive, este domingo de manhã, com um familiar que veio a saber horas depois que está com Covid. Mas estivemos ao ar livre pelo que não há-de ser nada. Mas isto para pedir a vossa compreensão para a minha ausência de respostas. Haverei de sair em breve desta letargia.


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E queiram continuar a descer. Abaixo há um comovente momento de união e afecto em torno de Jorge Palma. Muito bonito. Não percam, por favor.


Enquanto houver ventos e mar

 

Do melhor. Grande homenagem ao grande Jorge Palma. Todos ali a dar corpo à admiração e ao afecto que o País sente por ele. Comovente. Homens e mulheres, da nova e velha guarda, do fado e do rock, das baladas e do rap, dos amigos aos filhos -- todos à uma. Todos presentes para darem corpo ao hino 'a gente vai continuar'.

Uma maravilha. Uma grande ideia e um grande trabalho da Rádio Comercial. Para ver e rever. Para sempre.

Homenagem a Jorge Palma - A Gente Vai Continuar

“A Gente vai continuar”. Foi o que pensámos, quando decidimos homenagear, em vida, grandes nomes da nossa música. Este ano, Jorge Palma está a comemorar 50 anos de Carreira. A Comercial assinala assim a efeméride, com esta música. Os artistas disseram todos que sim, com entusiasmo de fãs, o André Tentugal realizou, o João Só fez o arranjo e o resultado é o que partilhamos aqui. Uma canção daquelas que já não é só de Jorge Palma, é de todos os portugueses. Uma letra de esperança, de inconformismo, que apela à coragem de seguir em frente, sobretudo em tempos de incerteza, dúvida e dificuldade. Nunca esquecendo que “a liberdade é uma maluca, que sabe quanto vale um beijo” e de como isso é, muitas vezes, decisivo e pode fazer a diferença. Enquanto houver estrada para andar… Parabéns, Jorge Palma. E obrigado por tanto.

"A Gente Vai Continuar", com arranjo de João Só e participação de Tiago Bettencourt, Aurea, Quatro e Meia, Nena, João Só, Tatanka, Héber Marques (HMB), Fernando Daniel, Mafalda Veiga, Tomás Wallenstein (Capitão Fausto), Rui Veloso, Virgul, Bárbara Tinoco, Ivandro, Miguel Araújo, João Pedro Pais, Syro, Carolina de Deus, Rui Reininho, David Fonseca, António Zambujo, Salvador Sobral, Ana Moura, Tim, Sérgio Godinho, Marisa Liz, Paulo Gonzo, Carolina Deslandes, Agir. Mariza, André Sardet, Carlão e os filhos de Jorge Palma, Vicente e Francisco Palma.


E abaixo a reacção de Jorge Palma à maravilhosa homenagem organizada pela Rádio Comercial à qual colegas, amigos e filhos se juntaram, sorridentes e agradecidos. Há coisas bonitas. 

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira
Saúde. Serenidade. Paz.

domingo, novembro 20, 2022

Em dia de vacinas, na companhia dos grandiosos símbolos históricos 'Mecanismo. Folha de Gengibre. Passarinho'

 

É sábado e, afinal, continuo sem conseguir dar uma para a caixa. Aliás, ainda pior um pouco que ontem. 

No entanto, a culpa não é do dia. Pelo contrário, o dia foi bom, tranquilo, nada a lamentar.

Mas não dormi bem. As preocupações e revelações da véspera fizeram-me acordar a meio da noite, deixando-me algum tempo sem conseguir dormir. 

Depois, estando de novo já a dormir, acordei com um sonho. Já era de manhã, seis e meia da manhã. Uma vez mais, acordei a rir à gargalhada. O meu marido, que já estava acordado, admirou-se. Acontece que eu estava numa daquelas de quando nem consigo falar. Ria, ria, ria. Quase sufocava a rir. Levantei-me, fui à casa de banho, e fui e vim a rir. Quando regressei à cama fiz um esforço para lhe contar. Mas não consegui, ria, ria, ria.

Quando fomos fazer uma caminhada, de novo tentei contar-lhe mas voltei a rir até mais não poder. Ele sorri ao de leve. Já nada o espanta. 

Vou contar-vos, porque a escrever é mais fácil, mas peço que não levem a mal. A sério: sem ofensa. Foi um sonho. Vou contar tal como me lembro. Foi assim:

Estava com um grupo de amigas e resolvemos ir lanchar. Uma disse que tinha ouvido falar num sítio. Fomos. Era num primeiro andar, parecia uma casa de habitação transformada. Havia uma mesa grande com uma toalha encarnada e com bugigangas em cima. Fomos ver. Nem percebi o que era aquilo. Uma senhora disse: é uma quermesse. Olhei e vi pratinhos ínfimos de barro, mas toscos, sem história, bocadinhos de vidro, tretazinhas sem qualquer estética e que não vi como servirem para alguma coisa. Cada coiseca com um papelinho com o preço. Começou a dar-me vontade de rir. Depois olhei para as paredes e vi símbolos pintados em faixas encarnadas. Reparei que havia símbolos que se repetiam. Junto a cada símbolo uma letra. Perguntei: 'São símbolos?' Disseram que sim com ar de quem nem percebia a dúvida. Perguntei: 'Mas que símbolos são?' E então uma senhora com ar de sargentona disse-me, muito compenetrada: 'Mecanismo. Folha de gengibre. Passarinho.'. Ouvi sem querer acreditar, a tentar conter o riso. Uma que estava comigo, não percebeu bem: 'Folha de cálculo?'. E a outra, agastada, quase ofendida: 'Não! Folha de gengibre!'.

E eu já mal conter o riso. Quando tenho vontade de rir e quero conter-me, fico quase a explodir, a gargalhada pronta a desbragar-se. Depois, olhando bem, em volta, ocorreu-me: 'Mas isto aqui é o PCP?'. E a sargentona: 'Claro, havia de ser o quê? Não conhece os símbolos?' E eu, quase a rebentar a rir: 'Mas têm significado?'. E ela, séria, institucional: 'Têm valor histórico'. Toma e embrulha. 
E eu cada vez mais aflita para não me desatar a rir.

Então uma das minhas amigas chamou-nos à varanda. Havia música na rua. Um homem baixo, encorpado, careca, os pelos do peito grisalhos, de calções curtos de futebol, tshirt de alças, decotada, e com uma coisa no corpo de tipo catavento, dançava desengonçadamente, de forma destrambelhada e cómica. Dizia: 'Como saí do partido, agora para usar o mecanismo só cá fora, na rua'. E eu, perdida de riso com os movimentos de baiana desasada dele, parecia uma bicha maluca mas com corpo e traje de campista, com o dito mecanismo a mexer-se em cima da cabeça e em volta do corpo, quase como uma hélice ou umas asas mal amanhadas. Não me contive, desatei a rir, a rir. E a pensar: 'Como será que dançam usando o símbolo da folha de gengibre? Ou o do passarinho?'. 

Só maluquices, bem sei. Os meus sonhos têm o seu quê de surreal, acho que já aqui o confessei. E fazem-me rir perdidamente. Tenho passado o dia todo a rir, lembrando-me da sargentona a falar com orgulho dos símbolos históricos do partido: 'Mecanismo. Folha de gengibre. Passarinho'. 

Juro, estou a escrever e a rir. Fazer o quê? Falta-me um parafuso, provavelmente.

Resultado: primeiro que voltasse a adormecer foi uma chatice, desatava a rir a toda a hora. Depois, certamente muito pouco depois, estando a dormir, tocou o despertador. Portanto, a noite não foi o repositório de descanso de que estava necessitada.

A seguir ao almoço fomos levar a vacina. As vacinas. Covid e gripe. Muita gente mas a fluir. O acto em si, normal, tranquilo. 

E depois, mais ao fim da tarde, fomos dar o nosso passeio higiénico com o urso cabeludo. Também tranquilo.

O pior foi que, ao chegar a casa, vínhamos os dois meio KO. Eu adormeci no sofá, mas profundamente. Ele não sei. Jantámos meio mongas, espapaçados. Foi o resto do almoço, ele é que aqueceu, que pôs a mesa. 

Depois arrastámo-nos, de volta, até à sala. Ambos quase a dormir, com frio. Fomo-nos encasacar. Agora já não estou a congelar mas está a pesar-me tudo, sobretudo a cabeça, nem sei se é a querer doer, se é a querer que me deite.

Nas outras vezes que as levámos não nos deu pancada alguma. Agora, não que seja grave mas é uma moleza em cima do corpo que nem vos digo nem vos conto. E dói-me cada braço, no lugar da picada. A jovem enfermeira disse para pormos gelo. Mas, com o frio com que, apesar de tudo, ainda estou, nem pensar em despir-me para me pôr de braço ao léu com gelo em cima. Disse também que tomássemos paracetamol se tivéssemos sintomas. Mas dá-me ideia que, da forma como estou, se tomo um paracetamol, durmo, de seguida, até segunda feira. Não sei se isto é efeito secundário da vacina ou se é do mecanismo, folha de gengibre, passarinho, mas de alguma coisa é.

Vou, pois, ver se consigo arrastar-me até aos meus aposentos. O que me vale é que a cama, a esta hora, já deve estar bem quentinha. 

Fui.

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Mas antes: desejo-vos um bom dia de domingo

Saúde. Boa disposição. Paz.

sábado, novembro 19, 2022

Umas ceninhas cá minhas, incluindo uma culinária a la minute
-- Isto e, na voz de quem a sabe toda, a Liberdade e a Segurança --

 


Ando atrasada na resposta aos comentários e a alguns mails (e peço desculpa por isso), ando com várias leituras atrasadas, ando com sono atrasado, ando com vontade de escrever várias coisas e receosa de não ser capaz por temer adormecer a meio. Ando assim.

O dia foi, de novo, pesado, cheio de suspeitas e, ao fim do dia, com uma revelação bombástica que me fez fazer um telefonema denunciador. Dia pesado, repito.

Faz-me falta ter algures, a meio do dia, uns minutos de descanso. Não sei se é da idade, se é de, este ano, apenas ter conseguido tirar cinco dias de férias, se é da sucessão de maçadas a que esta fase me obriga, se é de tudo isto junto. Mas, seja pelo que for, o facto é este: preciso de intervalar.

Soube bem, no meio disto, caminhar à beira da praia. Aliás, no meio não porque isto aconteceu já à noite. Um frio de rachar. Digo-vos: de rachar. Ainda por cima, com vento a potenciar o frio. Aproveitei para fazer os meus telefonemas enquanto andava. Por isso, nem deu para contemplar o reflexo da lua no mar. Se calhar nem havia lua para reflectir. Não faço ideia. Às tantas, a ver se aquecia, dei uma corrida. O bicho não costuma ver-me a correr. Veio também a correr e a saltar como se aquilo fosse uma brincadeira a dois. Como estava com a trela, embora extensível, o meu marido mandou-me parar de correr para não ter que vir também a correr atrás de nós.

Antes de irmos à praia, fui, numa corrida, ao supermercado. Comprei uma dourada grande. Isto para além de fruta, legumes, kéfir, pão, queijo. 

Quando chegámos da praia, atirei-me aos tachos. Fiz assim:

Chamo chapa mas é aquela coisa às ondinhas que se põe no fogão e que tem uma pega comprida. Aqueci a dita ao máximo. Juntei um fiozinho de azeite, uns salpicos de sal, folhas de louro. Quando tudo bem quente, coloquei a dourada, também salpicada de sal e de orégãos e levemente regada por um fio de azeite. Passado pouco tempo, virei-a. Ao lado, num tacho com um pouco de água, coloquei batatas com casca cortadas aos bocados, feijão verde e brócolos. Quando cozidos, escorri e coloquei-os na chapa ao lado do peixe. Virei os legumes para ganharem o sabor. 

Quando servi, coloquei por cima um pouco de sumo de lima. Tudo bem bom. 

(Gaba-te cesta)


Abro ainda um parêntesis no meu estado de fadiga para contar só mais uma coisa. Desde a semana passada o dog andava com um cheiro estranho. Não identificávamos. Cada vez pior. Cada vez mais notório que era o hálito, um hálito diabólico. Uma coisa cavernícola. Não compreendíamos que raio de cheiro fétido era aquele, cada vez mais impossível. Ao princípio, como tínhamos aberto um saco novo de ração e embora fosse da mesma marca e de frango, admitimos que qualquer coisa na composição produzisse um estranho efeito, misto de peixe podre, de lixo fora de prazo. Mas já era demais e cada vez pior. Há dois dias, à noite, ainda fomos comprar daqueles sticks para higiene dental. Efeito zero. 

Pesquisei na net, e, avaliada a evolução da coisa, resolvemos marcar consulta no veterinário.

Face ao temperamento tumultuoso do bicho-fera quando estranhos tentam fazer coisas de que ele não gosta, já estávamos a imaginar o stress de ter que açaimá-lo, provavelmente ter que ser anestesiado para ser observado.

Mas eis que ao fim do dia ouço o meu marido a dizer que lhe tinha visto um pau no céu da boca, ao fundo, entalado entre os dentes, de lado a lado. Nem consegui perceber. Pensei que ele tinha visto mal. Fui tentar inspeccionar. Não foi fácil mas, ao fim de algum tempo, confirmei. Uma coisa inacreditável. Um pau atravessado, entre os últimos dentes de cada lado do maxilar superior. 

Mas, forte como é, um baita cão pastor, o valentão não se queixava de nada e comia e bebia normalmente. Isto com um pau daqueles, ainda grosso, quase como um lápis, preso no céu da boca.

Atalhando: o meu marido tentou fazer a extirpação, o bicho saltou, o meu marido tentou enfiar-lhe a mão na boca, ele furioso já a reagir um bocado à bruta, o meu marido muito calmo... até que conseguiu mesmo e lhe sacou o pau. Fétido. Há mais de uma semana na boca, o pau devia estar podre, exalando um cheiro nauseabundo. 

Não há explicação.

A boca deixou instantaneamente de cheirar mal. Portanto, saiu-nos esse peso de cima. 

Posso ainda deixar aqui um outro insignificante apontamento. De manhãzinha, vendo que estava um ventinho de feição e um solzinho modesto mas quiçá efectivo, fiz uma máquina de roupa em velocidade rápida. Em boa hora pois não choveu e secou que foi um mimo. Roupa seca ao vento e ao sol é de uma super-eficiência. Fica lisinha e fresca, boa para guardar directamente.

E, pronto, já chega de prosa solta, fico-me por aqui. Posso apenas ainda dizer que o dia teve outra coisa boa: não tive que me empoleirar em saltos altos. E outra: não tive que falar em inglês nem em espanhol. Isto de uma pessoa poder passar um dia inteiro a falar português é daqueles prazeres que não deve ser dado por adquirido.

Finalmente: uma vez mais, as minhas desculpas por não agradecer ou responder aos comentários e aos mails mas estou pedrada de sono. Pedradérrima. Juro.

Mas deixem que, antes de me ir, partilhe um pequeníssimo vídeo com umas palavras que fazem algum sentido e talvez vos tenham alguma utilidade. Ou seja, haja por aqui alguém que diga coisas assisadas...

"Escravidão e caos" | Zygmunt Bauman


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Fotografias respectivamente de Boguszak, Thaddäus "hozzography" Biberauer, Wendy Stone uma vez mais daqui
Acompanha-nos Mitsuko Uchida que interpreta Piano Concerto No. 25 in C Major K. 503 de Mozart

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Um bom sábado
Saúde. Bom descanso. Paz.

sexta-feira, novembro 18, 2022

Um dia de saltos altos e estômago vazio

 



Os dias têm sido longos, algo pesados. Para além de me acordarem mais cedo do que o decoro aconselharia, tenho-me visto forçada a ter que começar de imediato a pensar e a agir quando gosto é de avançar devagarinho pela manhã até estar bem desperta. Reuniões longas, algumas em línguas que não a nossa. Muita coisa going on. E depois maçadas, fugas de informação, a gente sem saber de quem desconfiar, em quem confiar. Chatices. 

E, pelo meio, o business as usual, decisões para tomar, muitas sob urgência, sem uma pessoa ter tempo para pensar ou para se documentar convenientemente, sem tempo para respirar. E se, antes, tudo isto me era normal e não me cansava, agora já me sinto um bocado a precisar de intervalar. Num dado ponto da reunião, olhei lá para fora e pensei: o que vale é que amanhã é sábado. Não sei porquê, pareceu-me que já era sexta-feira. Mas depois lembrei-me que isso é que era bom. Quinta-feira do caraças.

Hoje foi daqueles dias em que os saltos altos, bem altos, tiveram que sair à cena. E o resto a condizer com os sapatos, bem entendido. E um Daisy, Marc Jacobs, para suavizar. 

Acho graça ao dog: fica sentado, intrigado, a olhar para mim. Vê-me numa azáfama, a vestir-me, pentear-me, perfumar-me, calçar-me, tudo bem à pressa. Percebe que não vem comigo, isso é bem claro, pelo que a estranheza não vem daí: creio que é a velocidade com que me arranjo e as vezes em que vou ver-me ao espelho, ora num espelho de corpo inteiro, ora num mais curto mas melhor iluminado. Ou seja, percebe que há coisa.

Já não ia ali, onde fui, há algum tempo. A última vez foi também num daqueles andares bem altos de onde se vê Lisboa de cabo a raso, o rio, a outra banda. Mas o dia estava murcho e a névoa cinzenta envolvia a cidade em melancolia. E ainda a tarde ia a meio e já estava de noite. Ter reuniões numa sala envidraçada envolta em noite é daquelas bem típicas. Uma mesa grande, grande, cheia, cheia, mais os que estavam remotos. Os mais novos notoriamente empolgados com a operação, o que me é quase enternecedor. Quando tinha a idade deles também me empolgava com cenas destas, quase convencida de que ali se tratava de coisas de vida ou morte.

Não tive tempo de almoçar. Comi apenas um iogurte daqueles ricos em proteínas. Tinha pensado que antes, no meio ou depois, teria oportunidade de, num ápice, ir tasquinhar uma buchazita. Mas não. Não houve cá tempo para pão para malucos.

No fim, mais do que em cima da hora, desandei para o médico, para uma consulta de revisão marcada há meses. Felizmente, ao que parece, so far so good. 

Saí já depois das oito. O meu marido estava à porta, à minha espera e, imagine-se, com o urso cabeludo. Carros a passar ali, em contínuo, montes de gente, cheiros novos, luzes com fartura. Tudo novo. E, de repente, eis que daquela babel sai a dona. Gostava que tivessem visto a surpresa e a alegria. Fofo. Saltou, abraçou-me, rodopiou no ar. Uma alegria. Ia a andar e a virar-se para mim, para saltar e para me dar abracinhos. (Refiro-me ao urso, não ao meu marido). 

E eu deserta de fome. 

Resolvemos que o melhor era irmos comprar uma pizza. Encomendei e fomos buscar. Quando chegámos, o meu marido achou que deveria ir até ao fundo da rua a ver se o bicho queria ir fazer alguma necessidade. Como hoje não tinha andado, resolvi acompanhá-los. E aí o urso ficou espantadíssimo. De saltos altos no alcatrão, de noite, ouvia-se cada passo. Quando vamos andar com ele vou sempre de sapatos confortáveis, nomeadamente ténis. Hoje, isto, toc toc toc. Eu andava e ele virava-se, estupefacto. Olhava para mim, olhava-me para os pés. O tempo todo à ida, intrigado. À vinda já não ligou muito ao fenómeno. Aliás a viagem foi curta pois, depois de horas montada neles, já só queria era chegar a casa e desmontar-me. Nestes dias, só descanso quando me descalço, me dispo, retiro brincos, anéis, colares, me desmaquilho, me lavo. Caraças. 

O bem que a pizza me soube, aquecida para estar bem quentinha, o queijo molinho, eu já descansada, consolada. 

Com isto, não é hoje que vou gastar o meu latim com o segundo reformado ressabiado a dar à costa, uma tal mosca morta que, curiosamente, até parece que é amiga do outro. Não há pachorra. Se eu, quando me reformar, me der para escrever memórias destas, a sacudir a água do capote e a querer incriminar ou difamar outros, alguém que faça o favor e a caridade de me impedir nem que seja à força. Ele há com cada um. Caraças.


E agora, com a vossa licença, vou-me retirar para ir mergulhar no azul de um sono lento e descansado.

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As fotografias são da autoria, respectivamente, de Anne-Claire Vimal Du Monteil, Yves Léonard, Michelle Simmons e Edita Bizova. Podem ser vistas, estas e outras, aqui. Acompanha-nos Fiona Apple com Across the Universe. 

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Uma happy friday

Saúde. Paciência. Paz.

quinta-feira, novembro 17, 2022

O mistério do míssil caído na Polónia
-- uma hipótese que não deve ser descartada

 

Não sei, não estava lá, não vi, não investiguei, ninguém me contou. É apenas uma suposição baseada no que tenho ouvido. E é o que eu faria se eu estivesse em posição de decidir coisas nestes domínios.

Penso que uma hipótese que não deveria ser descartada é que tenha sido mesmo um míssil russo mas que tenha sido um infeliz acidente: falta de pontaria, falta de qualidade do material ou dos sistemas, um atirador com os copos ou uma gaitada do género. Dito de outra forma: um azar dos távoras. 

Perante o sucedido tocaram todos os sinos e sinetas: o que mais se temia, aconteceu, um ataque a um Estado membro da Nato. E, nisto, todos por um, um por todos, quem ataca um ataca todos. Ou seja, a ser verdade, estava a cegada armada. E, nisto, quando as grandes cegadas começam, ninguém sabe como é que acabam, até porque, no fim, poderia não estar cá ninguém para avaliar a situação.

Felizmente, para nossa sorte, parece que terá havido alguns adultos na sala. 

E rapidamente terão composto a narrativa: a culpa foi da Rússia mas o míssil era ucraniano. Ou: houve um acidente, um incidente do caraças, raios partam a pouca sorte, o míssil era de defesa antiaérea e, por acaso era da Ucrânia, mas a culpa, que fique bem claro, foi da Rússia. 

Ou seja, ninguém foi verdadeiramente culpado e, portanto, segue o baile e ninguém fala mais nisto. 

E, logicamente, alguém dos serviços secretos ocidental falou com o equivalente russo, por sinal pessoa que parece ser um bocado civilizado (e talvez por isso até tenha sido publicamente achincalhado pelo Putin) e ter-lhe-ão dito: por esta passam mas vejam lá se atinam, parem lá com aquela morteirada de mísseis e com a porcaria gratuita que andam a fazer, se não, para a próxima, quem acorda com bombas em cima da cabeça são vocês. E, no meio disto, assim como assim, até porque os ucranianos já estão habituados a sofrer e, de resto, daí não virá mal ao mundo, vamos todos, à uma, dizer que o míssil era deles. E fica assim e não se fala mais nisto.

Claro que, nisto, o Zelensky não gostou de ficar com a fava e mostra não estar muito pelos ajustes, quer defender a honra, que não foi nada um míssil ucraniano. Mas já deve haver meio mundo a dizer que esqueça lá isso até porque, a troco de fazermos todos de conta que não percebemos nada disto, ficamos com o Putin um bocado na mão.

E é isto. Uma hipótese que não deveria ser descartada. Contudo, como é natural, coisas destas são tratadas por baixo da mesa, por quem sabe fazê-las, são coisas que não são para ser badaladas. 

Claro que morreram duas pessoas e, de cada vez que morre alguém por motivos tão absurdos, é uma tragédia. Mas uma coisa, contudo, deve ser louvada: o escalar da guerra para outras geografias e para patamares descontrolados foi evitado. Quanto ao resto, é deixá-los pousar. 

(E vamos fazer de conta que tudo isto não passa de uma frágil da teoria da conspiração). 

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Amanhã tentarei falar de um outro mistério: o do reformado que resolveu dar uma de castigador e, totó como sempre foi, conseguiu meter-se numa tremenda de uma alhada. Por que raio de carga de água o fez? Ninguém percebe. A única coisa que me apetece escrever é: ahahahahha! ahahahahaha! ahaahhahhaha!

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Cabecinha fresca. Paz.

quarta-feira, novembro 16, 2022

A saudade dos três doces bárbaros na partida de uma deles

 


Hoje soube da morte de uma pessoa que conhecia. Conhecia-a apenas de vista mas, de todas as vezes que estive com ela nos mesmos eventos, via-a sempre vibrante, cheia de alegria e de vida. O seu próprio rosto irradiava. Sempre alegre, entre amigos, rindo, na paródia, ela era daquelas pessoas que não passava despercebida. Soube há algum tempo que estava doente, mais recentemente soube que estava mesmo mal, ontem soube que estava por pouco e hoje soube que o seu sofrimento tinha acabado. 

Fez-me muita impressão. Há pouco vi uma fotografia sua e a sua morte parece-me ainda mais impossível.

Até há uns anos quem morria eram avós, tios de idade, depois mais recentemente começaram a morrer alguns pais -- pessoas de outra geração. Mesmo fazendo-nos impressão e sentido a saudade e a dor da separação, inevitavelmente aceita-se. É a lei da vida, diz-se nestas ocasiões. E é verdade. 

Lembro-me de andar no primeiro ano do liceu e de ter morrido uma colega, vizinha e amiga. Toda a gente sofreu imenso e a mim causou-me uma aflição muito grande. Contudo, desde pequena que eu ouvia dizer que ela sofria do coração e que havia nela uma bomba sempre prestes a explodir. Lembro-me de ouvir dizer que, antes de morrer, tinha tido muitas hemorragias e, para mim, pensei que tinha mesmo acontecido, o coração dela tinha mesmo explodido. 

Mais tarde, mas ainda no liceu, foi um vizinho da minha avó, colega de escola desde a infantil e amigo que também morreu. Tinha asma e sempre o conheci com uma tremenda falta de ar, sempre com pieira e sempre arfante, sem poder brincar, por vezes quase sem poder falar ou mexer-se. Falava-se da bomba como se vivesse dependente dela. Quando morreu foi uma pena muito grande mas foi quase como se fosse uma morte anunciada, a fatalidade que todos receavam.

Foram mortes muito precoces mas, em ambos os casos, no meu mais íntimo foi quase como se a natureza tivesse feito a caridade de reparar um erro irreparável

Não vou falar das mortes da minha família e que muito me custaram. Mas vou falar de uma morte que me fez mesmo muita, muita impressão. 

Volta e meia falo aqui dela. Quando no outro dia andei a limpar mails, passei várias vezes pelos dela e não fui capaz de apagar um único. Nenhum era de trabalho. Eram todos mails de anedotas, vídeos divertidos ou bonecada frequentemente maliciosa (muito maliciosa, muito mesmo, para dizer a verdade). Era uma pessoa que estava sempre de bem com a vida, que brincava com tudo e com todos. Ainda me lembro dela, uma vez, nos contar que uns dias antes tinha estado com um ministro e que ele a tinha olhado de alto a baixo. Mas logo acrescentou: 'Mas não era com ar de quem queria comer, era mais ar de 'onde é que ela terá comprado esta roupa?'. O meu marido desconcertado, o marido dela a rir, já mais que habituado, eu perdida de riso. Ou quando contava toda a espécie de safadezas entre colegas de trabalho, explicando: 'Sabem como é, há muitas camas...'. Até que um dia ele me contou, preocupadíssimo, que ela tinha pedido a um colega que lhe fizesse um exame e, nesse exame, o colega confirmou o que ela temia: um tumor. Depois foram os dias de expectativa em relação à biopsia. E depois o que se seguiu, ela sempre optimista, os tratamentos, ela optimista, o marido reticente mas, depois, o mal erradicado, já confiante. Os anos seguintes foram anos tranquilos, ela bem. Os filhos casaram, veio um neto, eles felizes. Por vezes, a medo, eu perguntava-lhe a ele: 'E ela, bem?'. E ele: 'Felizmente'. Há pouco tempo, andava eu e o meu marido a passear em Óbidos, entre o Natal e o Ano Novo, toca-me o telemóvel. Ele. Conversámos. O bebé dormia a sesta. Disse que a mulher estava 'aqui ao lado, manda-vos beijinhos. E um feliz ano novo'. Ouvi a voz dela. Retribuí. Não sei se no primeiro ou segundo dia do ano, eu a trabalhar, o telefone. Ele. Num fio de voz, se calhar ela tinha que ir para os paliativos. Não percebi. Ele disse que também não. Ela tinha escondido que estava muito mal. Tinha-se medicado. No hospital, os colegas contaram-lhe: sabiam, ela tinha dores mas tinha-lhes pedido para não dizerem nada. Intrigada, eu: 'Mas a semana passada disseste que estava bem... '. E ele: 'Estava cansada mas foram as festas, a miúda lá em casa, pensei que era normal, ela dizia que era normal'. Mas na véspera não se conseguia mexer, estava sem forças, levaram-na ao hospital, teve que ir ao colo. Estava no fim. Ele ainda incrédulo. No dia seguinte, em lágrimas, ligou-me de novo: ela tinha morrido. Não quis estragar as festas à família, não quis que a família e os amigos sofressem com o seu sofrimento. O que ela sofreu nem imagino. Da sua coragem nem encontro palavras para falar. Mas viveu até ao fim como sendo ela própria e não como uma doente terminal e acho isso extraordinário. No velório, o meu amigo estava inconsolável, destroçado. Ela era a sua força, ela era o motor da família.  E a mim fez-me muita impressão. Quase como se não conseguisse assimilar, não conseguisse perceber, não conseguisse aceitar que tinha mesmo acontecido. Ainda hoje me espanto. 

E agora foi esta... (ia dizer esta rapariga). Está a meio caminho entre a idade da minha filha e da minha. Tão jovial, tão saudável. Parece que não se pode acreditar.

Há situações em que parece que, ao desaparecer uma pessoa, se abre um buraco negro que jamais será ocupado. Pessoas luminosas. Deixam um rasto que perdura na nossa memória, que continua a brilhar.


Não há ninguém que cá fique pelo que, racionalmente, deveríamos encarar estas situações com alguma naturalidade, aprendendo a aceitá-las melhor. Mas nisto das emoções nem sempre se consegue ser racional.

Não é fácil.

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Caetano Veloso e Maria Bethânia falam sobre Gal Costa: 'Nossa história é amor'

A voz de Gal, apesar de única, sempre esteve perto de outras três vozes: as de Gil, Bethânia e Caetano. Juntos, eles transformaram a amizade em arte. A repórter Renata Ceribelli ouviu duas dessas vozes. Elas falam de lembranças doces e de uma bárbara saudade.


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A primeira pintura é Death on a pale horse, J. M. W. Turner. A segunda e a última são algumas das fantásticas mulheres de Armanda Passos. A terceira é da autoria de Gary Hume.
Lacrimosa - Mozart
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Um bom dia
Saúde. Ânimo. Paz.

terça-feira, novembro 15, 2022

WTF...?

 

Só mesmo isto hoje para me arrebitar. Que coisa insólita. Nem sei que diga. 

(Refiro-me ao vídeo que abaixo poderão ver.)

E falo em arrebitar-me porque uma reunião de mais de cinco horas corridas é daquelas para as quais já me é necessário algum fôlego. E quando acaba às oito da noite... e quando eu estava convencida que lá para as cinco estava despachada... caneco... Acabei mesmo estafada. Ainda por cima, estava na reunião e a receber mensagens e telefonemas. Por isso, sabia que depois dela ainda tinha chamadas para fazer. Enfim. Acabei de jantar às dez e tal. 

É certo que a bolinha azul flutuando aí pelos ares está cada vez mais carregada de bicheza humana, parece que já vai em mais de oito mil milhões, uma cambada que tende a dar cabo de tudo em que toca. E nuns sítios a maltinha parece que brota dos poros uns dos outros e noutros é quase tudo já malta entrada e crianças é só na base do lá vai um. E nuns lugares chove que deus a dá e há vendavais que levam tudo pelos ares e noutros passam-se temporadas em que não cai uma pinga de água e onde tudo arde que é uma tristeza. Mas hoje não estou com fôlego para me afoitar por ecologias, antropologias, geografias ou outras coisias acabadas em ias.

E é também certo que o Cristiano Ronaldo, uma figura quase tão importante no nosso país como a Nossa Senhora aparecida sobre a azinheira, deu uma entrevista em que se queixou de tudo e mais alguma coisa, desde o treinador ao jacuzzi. Mas, tenho que confessar, não vi, não li sobre e nem sequer sei se Marcelo já se pronunciou. Nem sei o que as manas Cátia & Elma e mamãe Dolores tiveram a opinar. Portanto, embora reconheça a galáctica importância do tema, vou ter que deixar passar.

E parece que as big não sei das quantas, todas as high tech e os escambaus, está tudo a dar mostras de querer virar-se de pernas para o ar, tudo a despedir aos milhares, tudo a tremelicar: Twitter, Facebook, agora a Amazon. Certo que milhares na Amazon é coisa nenhuma e é também certo que o Bezzos anunciou que vai desfazer-se de grande parte da fortuna para apoiar isto do clima e mais não sei o quê. Mas também as crypto coisas estão a derrapar e tudo isso que estava por aí a bombar parece que se calhar tem um bocadinho de pés de barro, essas coisas que não se sabe bem a que é que correspondem na vida real, e, por isso, estou aqui ao lado a olhar para tudo isto e a pensar que não sei se é grave ou se deixá-los lá estar. E o pior é que nem pingo de fôlego para ir tentar descobrir o que se passa. Estou mais naquela: que se lixe. Que é como quem diz: que se f... QSF.

E, neste enquadramento, há um tema no qual me dá para me deter mas não para tentar perceber. Tudo naquela base.

What the f@ck? Mas que raio deu nele? Mudou de sindicato? Fartou-se do Bond que existia nele? Pois não sei. Mas que é do caraças é. 

E eu adorei. Of course, né? Tudo o que é meio amalucado me atrai.

Belvedere Presents Daniel Craig, Directed by Taika Waititi: Director’s Cut

Belvedere Vodka reveals a monumental campaign featuring critically acclaimed actor, Daniel Craig, as he has never been seen before. Directed by Academy Award-winning filmmaker Taika Waititi, the unexpected, fun and inspired collaboration, showcases Craig’s talent to surprise and innovate.

Courageous in spirit with a warmly rebellious energy, the campaign unites an exceptional community of collaborators. Craig has been skillfully and humorously choreographed by celebrated choreographer JaQuel Knight, to an original track written and performed by global superstars Rita Ora and Giggs and produced by hitmakers Invisible Men, Bandits and Hungry Man. The accompanying campaign stills were photographed by the iconic Juergen Teller, in the same suite that sets the scene of the movie’s grand finale whilst Christine Centenera, has styled the shoot with a clean, modern edge.


No time for tonic: Daniel Craig shows Bonds just wanna have fun

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Um dia bom
Saúde. Boa onda. Paz.

segunda-feira, novembro 14, 2022

Sandra Felgueiras na TVI. E o Paulo Portas. E a Cristina Ferreira.
E o que faz ele ali, entre aquelas duas...?

 

Ao domingo, se calha estarmos em casa e disponíveis, gostamos de ouvir o Paulo Portas no seu Global. Independentemente da sua orientação política, tem-se revelado um comentador bastante abrangente e bastante claro. Consegue, de forma geral, fugir das tricas e das mesquinhices do dia a dia e isso, já de si, merece um louvor. Ele aponta à big picture e fá-lo de forma fluente e interessante. Os slides que acompanham o que diz são claros, visualmente apelativos, e sabem cingir-se aos pontos fundamentais. Depois há um tour d'horizon sobre a actualidade, sem fronteiras e, mais interessante, relacionando o que é de relacionar por forma a estabelecer elos de ligação e a transmitir diferentes perspectivas sobre o mesmo facto. Acresce que põe a inteligência ao serviço do que diz e quase consegue ser isento. As suas sugestões culturais também se têm mostrado interessantes.

Portanto, ao domingo, era o noticiário da TVI que costumávamos ver, à espera que Paulo Portas aparecesse para o seu espaço de comentário global.

Até que alguém resolveu lá pespegar a Sandra Felgueiras. Com aquele seu ar justicialista, sensacionalista, populista, antes poluía a RTP. Depois perdi-a de vista. Não sei por onde andou. Apenas sabia que em boa hora a RTP se tinha visto livre dela. Até que há pouco, não sei por que raio de carga de água, apareceu em prime time nos domingos da TVI. Um desastre.

Ora cá em casa somos ambos alérgicos ao estilo. Desgraças, caça às bruxas, presumíveis escândalos e barracadas de toda a espécie e feitio não é coisa que faça propriamente o nosso género. Fugimos a sete pés. Portanto, ao domingo à noite, o meu marido anda entre a RTP e a SIC e, de vez em quando assoma, de raspão, a ver se ainda é ela que está no ecrã. Uma maçada. Enquanto ela lá está, com aquele seu sorrisinho insuportável a dar-se ares de quem está ali para descobrir a pólvora e para dar cabo de uns quantos, nós não nos aguentamos mais do que os escassos segundos necessários para ver se já podemos ficar na TVI ou se temos que nos raspar a toda a brida.

Por isso, agora muitas vezes não apanhamos o Paulo Portas de início, isto quando não o perdemos de todo. 

Não sei se quem tomou a decisão de levar a Sandra Felgueiras para a TVI tem aferido as audiências mas, se ainda não o fez, talvez seja bom que o fizesse.

Contudo, não é só o desastre de Sandra Felgueiras a preceder o Paulo Portas: é também o despropósito de, frequentemente, não o deixarem levar a sua intervenção até ao fim, sacrificando com alguma frequência as recomendações culturais. E, vai-se a ver, e qual a pressa? Pois, nem mais: é a Cristina Ferreira, essa bimba histriónica que não faz uma que se aproveite, às voltas com o submundo que levou para o Big Brother. 

E o Paulo Portas ali no meio daquilo.

A TVI não vai por bom caminho, não vai, não. Pelo menos, é o que penso.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já esta segunda-feira

Saúde. Boa disposição. Paz.

domingo, novembro 13, 2022

Sniper, grávida, unhas pintadas -- a extraordinária coragem e graça das mulheres ucranianas

 

Com a vida de pantanas, sem conforto, certamente com medo, é espantosa a força anímica das mulheres ucranianas. De todos os ucranianos, aliás, sejam mulheres ou homens. Mas agora centro-me nas mulheres. 

Há as mulheres em aldeias recônditas que percebemos serem humildes e que, quando os jornalistas conseguem falar com elas, nos aparecem assustadas, chorosas, contando que têm vivido escondidas, com pouco que comer, quase sem água, sem luz, as casas destruídas, familiares desaparecidos ou mortos. Sobreviventes. Mães e avós coragem.

Mas depois há as que vivem em meios mais urbanos e que nos aparecem vibrantes, arranjadas, cabelos pintados, unhas pintadas, olhos pintados. Podem viver em prédios meio destruídos, podem também não ter electricidade à noite, mas mantêm-se combativas, confiantes. Algumas são guerreiras. Melhor: todas são umas guerreiras pois, com a sua força e energia, ajudam-se mutuamente a não se entregarem nem ao inimigo nem ao desespero ou desalento. Mas algumas pegam mesmo em armas. 

Os repórteres mostram-nas valentes mas graciosas, sorridentes mas determinadas, prontas para defender com unhas e dentes a integridade do seu território. Travam com a sua vida o avanço de Putin, esse fascista assassino, e, com a sua força de vontade, ajudam a defender, em conjunto com os seus concidadãos ucranianos, o direito a viver em paz e liberdade no seu país, na sua fértil Ucrânia. E defendem a paz na Europa.

Estas que aqui aparecem são verdadeiramente extraordinárias. Casam-se, engravidam e mantêm-se mulheres de armas, focadas em defender o seu país, em reconquistar a soberania plana.

Sniper Dubbed 'Ukrainian Joan Of Arc' Shares What Saved Her Life

In Ukraine, 31-year-old female sniper Evgenia Emerald tells Newsy’s Jason Bellini the story of the best and worst day of her life. Both happened on the front.

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Field tool for female Ukrainian soldiers amazes Amanpour

More than 50,000 Ukrainian women are under arms with the fight against Russians. CNN's Christiane Amanpour goes to a volunteer hub that is helping make the uniforms customized for women and sending other supplies to the front lines.


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Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Elegância. Paz.

sábado, novembro 12, 2022

Kherson e o tudo o mais que dificilmente compreendo

 


Há muitos assuntos relevantes, cada um em seu patamar. E eu não sei bem em que patamar hoje quero estar. E este 'querer' não tem a ver com afinidade mas com capacidade. Poderia até ter vontade de me abeirar de vários. Mas sei que não iria conseguir. 

Longe vão os tempos em que ficava bem com meia dúzia de horas de sono e, se falo em meia dúzia, até estou a pecar por excesso. Não há muito ia pelo menos uma vez por mês passar o dia em reuniões nas instalações da empresa a norte. Levantava-me às cinco e tal, saía de casa às seis depois de me ter deitado à uma ou duas. E, muitas vezes, com receio de não acordar com o despertador, quase não conseguia pregar olho nas escassas horas de cama. E, no entanto, estava fresca e aguentava um dia inteiro de reuniões, coffee breaks, almoço, viagens. Chegava a casa tarde, voltava a deitar-me tarde e no dia seguinte já estava fresca e a pé às sete e tal e pronta para outro dia.

Agora já não é bem assim. Nos últimos meses passei duas noites no hospital com a minha mãe (felizmente, saindo ela de lá bem) e, em ambos os casos, longas horas a pé (prefiro estar cá fora a andar de um lado para o outro do que estar no meio da apinhada sala de espera). E fiquei francamente cansada. Comparando com a minha resistência dos tempos dos esticões aquando das idas do meu pai às urgências não há comparação. Agora o meu corpo vai-se mais abaixo. Fico a sentir-me quase de gatas.

Ou seja, sinto necessidade de descansar, tenho vontade de ficar a dormir até mais tarde. 

E, por isso, chego a esta hora ou ao fim da semana e sinto que me falta a energia para falar de muitos assuntos. 

- As alterações climáticas e a nossa cultura e a nossa organização enquanto sociedade que nos leva a fazer uma vida assente no consumo de produtos produzidos a milhas, em viagens de avião a preço de uva mijona, em espaços industriais ou de serviços que se situam longe das zonas residenciais, em hábitos que são pouco saudáveis -- seria um dos temas em que hoje gostaria de falar sobretudo porque não vejo que estejamos colectivamente conscientes da inflexão que tem que ser feita, sobretudo porque não estou a perceber bem o rumo que isto está a levar.

- O Twitter, essa plataforma que meio mundo utiliza, nomeadamente políticos, empresários e tutti quanti foi tomada de assalto por um maluco encartado que despediu uns milhares e depois disse que os ia readmitir, depois que ia cobrar a certificação das contas verdadeiras e que ia fazer e depois desfazer,  montes de ideias ideias peregrinas, agora, perante a debandada geral, está nas bocas do mundo pelo risco de falência -- e esse seria outro dos temas sobre o qual também gostaria de falar. 

[A day of chaos brings Twitter closer to the brink]

[Two weeks after Elon Musk completed his acquisition of Twitter, the future of the company has never looked less certain. In the past week alone, one of the world’s most influential social networks has laid off half its workforce; alienated powerful advertisers; blown up key aspects of its product, then repeatedly launched and un-launched other features aimed at compensating for it; and witnessed an exodus of senior executives]

Sobretudo porque há em tudo isto muita coisa que não percebo, a começar naquilo que, pelos vistos, não oferece dúvidas aos milhões que tuitam. 

- Claro que também me apeteceria falar dos milhares de despedimentos do Facebook/Instagram e do que um dia aí virá para desgosto de quem se viciou na exposição pública da vida privada. Sobretudo porque um dia será muito claro que, para além dos fenómenos de adição ou de depressão, estas plataformas são um risco real para a democracia.

- Marcelo e as gaffes diárias (ou será horárias?) e a sua compulsiva necessidade de comentar tudo, seja de que natureza for, a qualquer hora, em qualquer contexto levando aos seus cada vez mais frequentes excessos, enganos, tons inapropriados, palavras deslocadas e/ou escusadas, tiradas infelizes, ideias trocadas e gatadas -- seria outro tema a que gostaria de deitar mão, em especial num dia em que, uma vez mais, se saiu com uma que logo mereceu reparos, correcções e sorrisos. Sobretudo não percebo se o senhor não está bem de vez ou se é achaque passageiro.

- Ou Matt Hancock, o bacano ex-ministro da Saúde inglês, demitido depois de ser apanhado abraçado e a apalpar o rabo a uma colega numa altura em que o distanciamento era obrigatório, e agora deputado, que está agora a participar num reality show, deixando os ingleses divertidíssimos e os conservadores em estado de rebuçado -- e disso eu apetecia-me mesmo falar. Sobretudo porque não percebo bem qual a dele e porque, para dizer a verdade, gostava de ver como reagiríamos se um qualquer nosso ex ministro e ainda deputado se metesse numa destas, a comer insectos e a conviver com cobras.

- E tantos mais temas... 

Mas não dá. O corpo está a pedir-me caminha.

Contudo, ainda assim, para que a vossa visita a esta vossa casa não seja completamente em vão, vou tentar falar de Kherson. Um bocadinho, que não dá para mais. E falo contente, claro. Como não...? Claro que fico contente. As imagens de felicidade dos ucranianos, a jovem a tocar violino na curva da estrada... Claro que tenho que me sentir contente. São momentos épicos.

Desde o dia um, quando -- petrificada e revoltada -- caí na real e constatei que a Rússia tinha mesmo invadido a Ucrânia, tive para mim que Putin não estava apenas a assassinar muitos inocentes e a arrasar um país, estava também a cavar a sua própria sepultura. 

Putin manda destruir prédios, pontes, escolas, teatros, hospitais, manda chacinar uma população e eu olho para o que a comunicação social mostra e o que vejo é a derrocada do regime corrupto e ditatorial de Putin, o que vejo é um perdedor, um desgraçado. E vejo também a incrível força anímica do povo ucraniano, um povo necessariamente vitorioso. 

Contudo, o que se passou com Kherson é qualquer coisa que não entendo bem. É uma vitória ucraniana, certamente. Mas se isso corresponder ao que parece, uma pesada e humilhante derrota russa, a situação será ainda mais caricata. Custa-me a crer que as forças do Kremlin sejam tão nabas e estejam tão desgovernadas como parece porque, se o que está a acontecer é mesmo o que se vê, então tudo isto será mesmo fruto de um delírio absurdo de um homem maluco e de uns quantos cobardes que vivem à sua sombra. No terreno, no dito teatro de guerra, o que parece é que tudo não passa de bandos de patifes deixados à solta, de bandidos descomandados, violadores, ladrões, esfomeados, ou simplesmente jovens espantados e desnorteados, sem uma estratégia que os guie. E, se assim é, como se explica que o mundo assista estarrecido a este circo bárbaro sem ser capaz de impedir o assassino de prosseguir?

A partir daqui, será que é a isto que se vai assistir: debandada geral dos russos, deixando tudo para trás, maquinaria, munições (para além de rastos de barbaridade)? Um dia, mais cedo do que pensamos, acordaremos com a notícia do fim do regime de Putin? Acordaremos, em breve, felizes com a notícia de paz na Ucrânia?

Ou isto não é exactamente o que parece...? Poderemos ainda ser surpreendidos com alguma outra cartada de violência e destruição?

Que Putin vai ser apeado e que a Ucrânia sairá vitoriosa e será reconstruída e será um dos mais felizes países europeus disso não tenho dúvida. O que não sei é se será em breve ou se, até lá, ainda muito mais sofrimento vai acontecer. Isto de Khersen deixa-me um bocado confundida. 

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Ilustrações, de novo, de Pawel Kuczynski na companhia de Nicolas Altstaedt que interpreta Bach/ Cello Suite nr. 1 in G – Sarabande

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Um bom sábado

Saúde. Tudo de bom. Paz.

sexta-feira, novembro 11, 2022

Ceninhas do meu dia a dia
[E dois momentos do humor: o do Klebão e o do supositício ex banqueiro Carlos Costa]

 


Só para dizer que, há uns três anos, na empresa, mudaram de empresa de cartões de refeição. Fiquei com saldo de dois euros no cartão antigo(e sei porque me enviam o saldo). Em relação ao seguinte, como mudei eu de empresa, passei a ter um cartão novo e do velho não sabia o saldo. A última vez que tentei usar no supermercado (para quem não saiba, estes cartões tanto podem ser usados em restaurantes como em supermercados) não consegui pagar, saldo insuficiente. 

Em relação ao primeiro, ainda não usei pois nunca mais me apareceu uma conta de dois euros. Em relação ao segundo, fiquei também com ele em stand by até perceber como saber o saldo e tentar encaixar uma conta nele.

Até que, no outro dia, no supermercado, a pessoa à minha frente, por sinal uma brasileira anafada, extrovertida e com um cabelo num louro ostensivamente irreal, ao pagar decretou: 'É pa parcelá'. Fiquei sem perceber. Parcelá? Já estou como o Bolsonaro, sem perceber. Seria 'parcelar? Mas parcelar a conta do supermercado? Contudo, o rapaz da caixa não estranhou: 'Quanto no primeiro cartão? E ela: 'Dezassete e meio'. Passou o cartão. A seguir passou o segundo. Fiquei bege. Afinal dá para pagar a conta do supermercado com dois cartões!? Como é que nunca me tinha lembrado de tal? Como é que nunca me tinha apercebido disso?

Mas, assim sendo, problema resolvido. Só tinha que descobrir o saldo do segundo que, pelas minhas contas, ainda teria dinheiro que se veja.

Então, hoje ao ir ao supermercado, tive uma ideia peregrina: ir primeiro à máquina do multibanco e ver se me dava o saldo do cartão. 

Enfiei o cartão. Ainda mal tinha introduzido o código já aquilo me estava a mostrar opções. Mas uma coisa atípica. Apenas duas opções 'Outras Operações' e 'Mb way'. Tentei  'Outras operações'. Em vez de me aparecer a opção 'consulta de saldos', não senhor, fui parar ao ecrã anterior. Tentei o Mb way. E, aí, nem saldo nem dinheiro nem nada. Zero. A máquina disse-me que, por razões de segurança, me ia reter o cartão e que contacte eu o banco. 

Fiquei siderada. Sou avessa a situações destas, sinto-me impotente, indefesa, fico a temer que o mundo me sugue, que um meteorito me caia em cima e me esmague para todo o sempre.

Mas, pronto, a vida continua. Fui fazer as compras. Pouca coisa e, sem saber como, cinquenta e dois euros. Isto está bonito, está. Imagino o sufoco para quem tem miúdos em casa e um ordenado curto ou para quem tem uma reforma baixa e medicamentos e despesas inadiáveis. 

Quando fui pagar, ao procurar o cartão normal, vi na carteira o outro cartão de refeição e constatei que, na máquina, me tinha enganado. Usei o cartão dos dois euros. Foi esse que, afinal, foi engolido. Ou seja, coloquei o código do cartão mais recente. Não percebo porque não assinalou que o código estava errado. Só sei que agora tenho que ligar para o banco e depois hei-de ter que ir buscá-lo. Ou deixá-lo lá ficar pois não sei se vale a pena grandes maçadas por dois euros.

Quando cheguei a casa, peguei no outro, o dito mais recente, aquele de que não sabia o saldo, e pus-me a vê-lo com olhos de ver. Vi que tem números de telefone. Nunca tinha reparado. Liguei. E fui guiada pelo atendedor automático: introduza o código. Depois: se quiser saber o saldo, digite 1. Digitei e aquilo disse-me o saldo. 29€.

Mas isto para dizer que andei este tempo todo sem saber como descalçar a bota e, afinal, era de caras: bastou ligar e fiquei logo a saber o saldo. E ando há anos a ir ao supermercado e desconhecia que dá para parcelar e pagar com dois cartões.


Às vezes acredito mesmo que devo ser de outro planeta, que não vejo e não ouço o mesmo que a maioria dos terrestes pois ignoro o que a maioria das pessoas sabe de cor e salteado. Ou então sou uma terrestre altamente limitada. É o mais provável, acho eu.

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As fantásticas ilustrações são da autoria do fantástico Paweł Kuczyński e lá em cima os Ok Go que, talvez por serem tão doidos eu acho o máximo, interpretam Here it goes again. 

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E, por falar em cartões, em especial os que parece que não têm saldo ou de que não se sabe se a culpa é do cartão, da máquina, do cu ou das calças, aqui fica o Klebão.

Aproximação segundo a Porta dos Fundos

Nunca foi sobre crédito ou débito, é sobre conexão, sobre estar junto em todos os pratos, em cada acompanhamento. É aquele acalento na alma na hora de pedir a conta e o coração chega a errar as batidas até a maquininha chegar. Ame seu garçom em praça pública!


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Já agora, o grande momento de humor do dia: o socialmente ainda respirante Carlos Costa parece estar a ver se ressuscita e, ao que consta, vai publicar um livro onde parece que faz de tudo a ver se se limpa. Está bem abelha. Aselha mais aselha não se conhece. Enquanto estava no posto armou-se em macaquinho tricéfalo: um não via, outro não ouvia, outro não falava. Os bancos a caírem como tordos, meio mundo a ficar a arder, e ele, tataranha, a fazer de conta que não sabia de nada e que, além disso, não era nada com ele. E agora, ao que parece, vai sair à pena com um livro em que parece que se põe a sacudir para cima de um e de outro. 

De gargalhada. Outra múmia paralítica que, volta e meia, quer fazer-se de viva. 

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Um dia bom
Saúde. Boa sorte. Paz.