Estou a ver um maravilhoso programa de culinária no 24Kitchen com Silvia Colloca que fala de comida italiana. Cozinha ao pé dos convidados numa bela varanda rodeada de natureza. Conversa, envolve a conversa, a comida e o ambiente com sorrisos. Há ali leveza, boa disposição. A partilha de experiências e de memórias ao ar livre e em volta de uma panela de onde se evolam os belos cheiros dos cozinhados é uma coisa boa.
E a luz das imagens traz alegria. O ar livre e os verdes dão saúde, mesmo quando visto através da televisão.
E ao ouvir falar de iguarias italianas lembrei-me de quando fui ter uma reunião numa empresa em Milão. Para começar, fui à vontadinha pensando que se poderia ter as reuniões em italiano pois tinha a ilusão de que, mais coisa menos coisa, as parecenças entre o português e o italiano seriam suficientes para nos entendermos. Ilusão. Nem pouco mais ou menos. Há palavras tão diferentes que bloqueiam o entendimento de toda a frase. Acabámos por ter que usar o inglês o que me deu muita pena pois adoro o italiano.
Mas o que quero contar é que os nossos anfitriões tinham reservado um restaurante especial para nos levar. Avisaram que era fora da cidade e que íamos comer a genuína comida campestre italiana. Não faço ideia onde era. Não tenho qualquer sentido de orientação espacial nem memória para nomes de restaurantes. Sei que era mesmo no campo. Uma estrada de terra batida ao longo de um ribeiro. Havia uma casa branca, o restaurante propriamente dito, e, cá fora, uns paus espetados na terra e uns panos, como que lençóis brancos atados com nós do próprio tecido, fazendo uns toldos artesanais. Havia trepadeiras, havia vasos com flores. Por baixo de cada lençol havia uma mesa de madeira comprida e uns bancos corridos.
Os comensais em todas as mesas conversavam animadamente. Lembro-me de virem grandes taças de comida e era comida apaladada, com molhos suculentos. E nós ali no meio do campo, no mais inesperado restaurante. Parecia uma animada reunião de família.
Andei à procura na net mas não descobri. Pode até já não existir. O mais parecido que encontrei foi este aqui acima.
Outra coisa de que me lembrei ao ver o programa (na parte do gelado de morango) foi de quando, em pequena, ia apanhar morangos com o meu avô. A casa dele era geminada de um dos lados. À frente e do outro lado tinha um jardim que era mais o pelouro da minha avó. Nas traseiras, num terreno que ia em socalcos por ali acima, o meu avô tinha a sua horta. Plantava batatas e cebolas e isso ocupava a zona maior. Depois tinha feijão verde que trepava por umas canas cruzadas e que eu gostava imenso de ir apanhar.
O tomate alongado também trepava por canas. O meu avô apanhava-os com as ramas e entrançava-as, guardando suspensos na casinha que avia no quintal e onde cebolas e tomates suspensos pelas respectivas ramas aguentavam o ano inteiro.
Outros tomateiros eram menos atrevidos, cresciam mais modestamente, sem se arrebitarem tanto.
Tinha também alhos, alfaces, couves, salsa, coentros. E tinha árvores de fruto. E depois, num canteiro elevado, havia morangos. Eram miudinhos mas carnudos, macios, muito docinhos.
O meu avô chamava-me para ir com ele. Eu acreditava que ele precisava da minha delicadeza de gestos. Dizia para eu agarrar com cuidado, para não os desfazer, para torcer ao de leve para se desprenderem. Por vezes, antes ia à arrecadação onde guardava as ferramentas e trazia uma tesoura preta. Cortava os pezinhos dos morangos com cuidado. À medida que os íamos apanhando, íamo-los dispondo com cuidado numa cestinha. Chegavam incólumes à cozinha. Aí a minha avó abria a torneira e lavava-os em água corrente. Ensinava-me a pegar neles com cuidado e dizia que os morangos tinham que ser sempre muito bem lavados pois estavam em contacto com a terra e nunca se sabe que bichos ou porcarias por lá andavam. O meu avô não queria saber do que dizia serem os exageros dela. Muitas vezes apanhava-os, limpava-os com a palma da mão e comia-os assim mesmo. Mas eu, por via das dúvidas, limpava-os bem. De resto sempre gostei de lavagens.
Ainda hoje tenho esses cuidados apesar de, se calhar, os morangos que compro no supermercado nem saberem o que é terra.
E depois há o gosto em cozinhar, a vontade de fazer o que a gente vê nem que seja em fotografia e, ao saber o que é, começar logo a pensar em como fazer e, logo, logo, em introduzir algumas variações. Por exemplo, vi o que a turma do meu filo tina jantado num restaurante no interior algarvio: açorda de galinha e ensopado de javali. Pedi ao meu filho que me falasse da açorda. Falou e agora estou com vontade de fazer. Se calar vai ser o nosso jantar de sábado. Falei à minha filha e ela disse que estava adjudicado. Do ensopado de javali não sei, teria antes que ter o dito. Mas se calhar ficará bom se for feito com pernil de porco.
Também tenho uns chocos que congelei fresquinhos, por amanhar, sujos da sua tinta. Tenho que fazê-los cozidos, com as suas entranhas. Só é preciso tirar, antes de servir, a saqueta da tinta que está em baixo e que tem matéria áspera. Cortados aos bocadinhos, a gomosidade dos interiores, azeite, cebola crua às lasquinhas, salsa. Bom demais.
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E é isto. Por ora, nada mais me apraz dizer.
Deixo-vos apenas com um vídeo que mostra Silvia Colloca para quem ainda não a conhece.
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Nota: a tecla do h no meu teclado hoje deu-lhe para entrar em greve. Uma luta para que colabore. Por isso, se derem por falta dele em algumas palavras, por favor relevem, ok?
Quando fiz 17 anos e fui para a universidade, meti na cabeça que não podia continuar em casa. Ao contrário de todos os meus colegas, a mim pareceu-me imprescindível emancipar-me. A rua onde morávamos, em que toda a gente se conhecia, era ambiente claustrofóbico demais para mim. As regras que os meus pais me impunham eram um sacrifício que eu também já não conseguia suportar.
Os meus pais não entendiam que eu, de repente, precisasse de estar ao lado da faculdade e que quase fizesse depender disso o meu sucesso escolar. Não lhes parecia razoável isso. Sobretudo, conhecendo a peça, temiam que eu andasse demasiado à solta, em especial tendo eu um namorado que era perdido por mim. Provavelmente, temiam que eu me perdesse. Foi uma luta, árdua, cheia de cenas gagas, mas consegui. Depois de ir conversar com uma das minhas professoras e de ficar convencida de que o lugar para onde ia era uma casa de estudo e respeito a minha mãe conferenciou com o meu pai e lá fui.
Detestei. Ao contrário do que eu imaginava e precisava, aquilo tinha muitas regras. Pior: as minhas companheiras eram obedientes. Ninguém protestava ou subvertia. Felizmente durou pouco. Mas, enquanto lá estive, tive que me submeter a alguns rituais. Um deles era o julgamento das caloiras. Toda a gente estava sentada no chão e, num dos cantos da sala, uma secretária em que estavam duas veteranas e a directora da residência.
Depois de um interrogatório duro e intimidante, havia as penas. Umas tinham que cantar, outras tinham que fazer habilidades que lhes fossem conhecidas, coisas assim.
A mim o que calhou foi dar uma aula de sedução pois fui acusada de ter demasiados pretendentes.
Não sei porquê pois, se fosse um ou dois anos depois, poderiam apontar-me o namorar dois ao mesmo tempo ou ter alguns outros em volta de mim. Mas naquela altura eu queixava-me era da penúria de homens interessantes. No meu curso era tudo gente marrona e esquisita. Para passeatas, idas ao cinema ou tertúlias, via-me aflita para arranjar companhia. Por isso, não sei onde foram buscar aquilo. Não me lembro bem do que disse, só me lembro de ter sido apanhada de surpresa e de ter tido que falar de improviso sobre matéria que, para mim, era mais de intuição do que se razão. Mas lembro-me de estar de pé a falar para uma sala cheia de raparigas sentadas no chão que me ouviam com muita atenção.
Na altura, também tinha pouca experiência nessas coisas mas lembro-me de que, por vezes, constatava a tremenda falta de jeito que algumas das minhas amigas tinham. Dava-me muito com uma que era uma simpatia, éramos muito amigas. Nunca tinha namorado, ela. Tinha muitos amigos, volta e meia apaixonava-se perdidamente mas nunca conseguia que a coisa se desse. Eu fazia de tudo para ajudar, armava-me em casamenteira. Ela esforçava-se mas havia alguma coisa na sua forma de actuar que não funcionava. Depois, quando ela desconsoladamente se lamuriava, eu enumerava as coisas que ela fazia que não eram cativantes. Sobretudo lembro-me de achar que ela era pouco subtil, penso que a excessiva simpatia e a franqueza bem como a forma algo primária como se expunha eliminavam o charme que, creio, são fundamentais nestes negócios da sedução. E era desprovida de malícia. E, quando eu lhe falava nisso e ela queria corrigir, colocando alguma malícia na conversa, a coisa saía-lhe desprovida de graça, sem aquele toque de subentendido que apimenta a imaginação.
Havia uma outra que andava caidinha por um colega e que se arranjava para lhe agradar. Achava que era por aí. Quando sabia que dava para almoçarem juntos na cantina, caprichava na toilette. Mas arranjava-se de uma forma cafona, quase parecia uma matrona presumida, uma coisa forçada que não tinha a ver com ela nem com nada. Tentava despenteá-la, desabotoá-la, mas as minhas tentativas não resultavam, era velha antes de tempo. Uma vez consegui arrastá-la até aos Porfírios para ver se lhe dava um banho de ligeireza e de novos tempos. Debalde. Não quis nada, tudo aquilo lhe parecia de má qualidade. Tanta coisa que lá comprei e nunca me ocorreu analisar a qualidade do tecido ou a perfeição da confecção. Pois ela, queixando-se da luz e da música, pôs-se a dissecar as roupas, desdenhando de tudo.
Há coisas que nascem com a gente. Mas há outras que se aprendem, há outras que se experimentam, outras que se praticam.
O tema interessa-me. A sedução é das coisas boas desta vida. É desafio, é conquista, é chamego, é doçura, é coisa boa.
Have you ever wondered which little habits or behaviors you could implement to attract people your way? There are some subtle behaviors that are often seen as sexy, some of which, you can make a habit of. You may be wondering what these are. Well, here are a few sexy habits that drive others wild with attraction.
Pinturas respectivamente de Alexander Roslin, Palma Vecchio, Pedro Américo, Guido Reni e Antonio Xavier Trindate na companhia de Chris Isaak que, como não podia deixar de ser, interpreta Can´t Help Falling In Love
Já fiquei mais descansada. Em alguns dos mais banalizados testes de QI aparecem aquelas figuras de triângulos dentro de quadrados, em que a disposição dos triângulos brancos e pretos vai evoluindo e é preciso descobrir qual a sequência que se segue. Outras vezes são sequências numéricas ou outras. Não sei porquê o meu cérebro rejeita tudo isso de forma tão liminar que se recusa a olhar e a pensar. Sou tentada a responder ao calhas. É que poderia esforçar-me e falhar em toda a linha. Mas não, é pior que isso, é rejeição absoluta. Por algum motivo, acho aquilo tão absurdo para provar o que quer que seja que a pachorra se me evapora instantaneamente ainda antes de começar. E, por esta séria lacuna, sempre pensei que a minha inteligência tinha certamente uma falha fatal.
Agora, ao ver o vídeo que abaixo partilho, não concluo que não tem mas concluo que a falha não se deve, forçosamente, à incapacidade em resolver aqueles irritantes testes.
Felizmente nunca tive que fazer um teste daqueles para arranjar emprego senão não tinha passado da porta de entrada.
Fiquei também confortada ao ver confirmada uma opinião que tenho sempre que ouço alguém, muito satisfeito consigo próprio, tantas vezes referindo-se a uma decisão questionável que, em tempos, tomou, dizer qualquer coisa como isto: 'A prova que na altura tomei a decisão correcta é que, se fosse hoje, tomá-la-ia outra vez, exactamente igual '. É que até pode ser mas, caraças, o que é que aquilo prova a não ser que quem o diz é uma pessoa algo limitada? Que raio de raciocínio é aquele? As circunstâncias mudam, nós mudamos, os outros mudam. Então porque é que é axiomaticamente acertado tomar exactamente a mesma decisão tempos depois?
Em minha opinião, os sinais de inteligência de uma pessoa são vários e eu, já aqui o confessei tantas vezes, tenho grande admiração por pessoas inteligentes. A meus olhos, uma pessoa inteligente cintila.
Em contrapartida, a burrice encanita-me cá de uma maneira...
Mesmo aqui na blogosfera, não consigo deixar de rosnar entredentes quando vejo coisas que tresandam a burrice. Eu a ler coisas que quem escreveu acha, certamente, o máximo e eu, cá para mim, 'Ca ganda burra. Chiça penico...!'.
Tem razão o Mestre com quem tenho trocado umas ideias ao alertar para os perigos que a inteligência por vezes acarreta. E, concordo, é bem verdade que alguns seres inegavelmente inteligentes foram (ou são) uns estupores encartados. Mas, por outro lado, se conseguirmos despir-lhes a identidade, o que fica da sua inteligência ilumina a nossa existência.
Claro que, se com a inteligência, vier a bondade, a tolerância, a afectuosidade, a graça e todas essas características que deveriam ser intrínsecas a todos os seres humanos, melhor, mil vezes melhor. Senão, a gente tem cuidado, guarda distância e fica só com o produto que nasce do estafermo, seja palavras, pintura, música -- o que for.
Agora que escrevo isto penso num colega que tive. Sempre que tinha algum trabalho complicado em mãos, algum relatório mais cabeludo para concluir, algum projecto mais crítico para lançar, era de fugirmos dele. Intratável. Rude, cafajeste. Outras vezes, na reuniões, saía-se com coisas que deixavam toda a gente gelada, incomodada. Era de uma franqueza desabrida. Creio que lhe faltava inteligência emocional. Mal o stress passava, era de uma pessoa se deliciar com as piadas, com a ironia oportuna e implacável. Tinha ainda uma particularidade: tinha uma colecção infinita de música. LPs e CDs, milhares. De cada obra tinha todas as derivações que conseguia descobrir: maestros, intérpretes, gravações em estúdio e ao vivo. Para gerir a colecção tinha uma base de dados que mantinha actualizada e que permitia pesquisar por cada um dos parâmetros que, para ele, fazia a diferença. Tinha quse tnto orgulho n bse de ddos quanto na colecção. Agora que os suportes físicos estão a cair em desuso não sei como estará a completar o seu tesouro. Sendo uma pessoa com competências reconhecidas na sua área de trabalho, tinha depois esse seu lado de melómano que o fazia virar outro quando disso falava. Eu gostava imenso de conversar com ele. Tinha sempre uma perspectiva diferente e interessante das coisas e eu aprendia sempre com ele.
Contudo, sempre que eu falava dele, quase toda a gente se torcia e fazia um esgar de desagrado: 'Esse traste' ou 'Um mal-educado' ou 'Um tipo perigoso'.
Aqueles ataques de franqueza desassombrada de que por vezes parecia possuído causaram problemas a muito boa gente. Diziam que desferia golpes baixos quando menos se esperava. Nunca me pareceu que o fizesse premeditadamente ou para ajustar contas com alguém. Sempre me pareceu que era simplesmente desligado das conveniências sociais ou de preocupações em relação aos outros.
Outras vezes, quando se queriam referir a ele, diziam-me: 'O seu amigo' pois, de facto, acho que eu era a única pessoa que o suportava. E, ainda por cima, gostava dele. Desculpava-lhe os maus humores.
Mas isto para dizer que, vendo que o Psych2Go me caiu no goto, o menino algoritmo do youtube saiu-se com mais um vídeo daqueles em que se dizem coisas com piada e bem pensadas (textos de Max Gustavo) com uns bonequinhos fofos (feitos por Rose Lam), ditos por uma menina que tem uma vozinha soft e que fala das coisas num tom convincente e empático (Amanda Silvera de seu nome).
Desta vez, o tema é a inteligência e sinais impossíveis de forjar e que evidenciam que ela está presente.
7 Genuine Signs of Intelligence You Can't Fake
Are you truly intelligent? Intelligence is a coveted thing, and we’re encouraged to “fake it til we make it” with things. But some things in life can’t be faked and real intelligence is one of them.
Here is a short list of the subtle signs of genuine intelligence. See if you can identify these traits in yourself.
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A propósito de inteligência ou se calhar não tendo nada a ver, já que estamos na silly season, apetece-me agora mostrar a forma estranha como a Madonna está a ganhar idade (e digo assim e não a envelhecer pois a palavra envelhecer parece-me engelhada, mal amanhada). Fez 64 anos e, de facto, não tem rugas nem flacidez no rosto. Mas está inchada, desfigurada e, agora, tem tanta tralha na boca que nem sei o que me parece. E que ande a festejar os seus verdes anos dando beijos de língua a quem se senta ao seu lado só me faz sentir afortunada por nunca me ter acontecido tal golpe de pouca sorte.
Madonna Shows Off Her Custom Birthday Grillz and Reveals What Almost Killed Her Career
Madonna TONGUE KISSES Friends During Italian Birthday Celebration
Depois do fim de semana prolongado que me soube a férias, retomei o trabalho e as suas reuniões e afazeres correntes.
Há empresas que convencionam fechar completamente em Agosto. Pode parecer uma coisa demasiado intrusiva na vida das pessoas, especialmente quando antes estavam habituadas a escolher livremente, mas, na verdade, é muito mais prático para o funcionamento das organizações, sejam empresas, escolas ou outras.
No entanto, pelo próprio tipo de actividade da empresa isso pode não ser possível. Contudo, nestes casos, se a vertente mais operacional pode funcionar regularmente, já nas restantes, quase inevitavelmente, anda-se a meio gás. Quer andar-se com algum assunto e está sempre alguém de férias. Nessas ocasiões penso que era o melhor que eu também fazia, ir de férias.
No entanto, não gosto especialmente de férias em Agosto. Há muita gente, os restaurantes estão cheios, estacionar é um castigo e os hotéis custam um balúrdio. Sempre preferi mais o fim de Agosto, princípios e meados de Setembro. É certo que os dias estarão mais pequenos e muitas vezes já entardece com a temperatura mais baixa mas, ainda assim, as férias são sempre mais tranquilas. Mas o pior mesmo é aguentar até lá se chegar.
Ao fim da tarde, não fomos para a beira da praia, limitámo-nos a passear por aqui mesmo. Sou distraída, vou andando e conversando, olhando desatentamente para os jardins e para as casas por onde vamos passando. Ou seja, vou flanando, numa boa.
Às tantas o meu marido parou, disse-me que era melhor voltarmos para trás. Não percebi. Não tinha visto nada estranho. Então ele disse: 'Aquele cão grande está solto na rua'. Sou míope e, além disso, não fixo os cães em função das casas ou das ruas. O facto de ser míope contribui para ser distraída, uma pessoa como não vê bem ao longe até se esquece de prestar atenção. Mas, focando-me, vi o que ele dizia. Há uma casa que tem um cão gigante, mas ponham gigante nisto, todo peludo como o nosso mas em pelo castanho. O meu marido, que eu pensava que conhecia todas as raças, não identifica esta. O cão deve fazer uns dois ou três, senão quatro, do nosso e tem uma cabeçorra imponente. Quando passamos por lá, ele ladra com uma voz que mais parece um rugido ameaçador, num vozeirão encorpado, capaz de matar intrusos só com o medo que inspira. Portanto, foi com convicção que arrepiei caminho. Entretanto, saiu de casa um senhor com porte também de impor respeito, chamou-o e agarrou-o pela coleira, levando-o à força para casa. Estou convencida que o cão deve pesar tanto como o dono. E que o dono é capaz de ser tão possante como o cão. Les beaux esprits se rencontrent, so they say.
Fiquei a pensar que corro riscos quando saio sozinha com o minha fera felpuda. Hoje, certamente, a coisa poderia dar para o torto pois não sei como seria o desfecho de um encontro de primeiro grau entre aqueles dois. Quiçá sobraria para mim pois não poderia ficar impávida a ver o grandão a tentar desgraçar a vida do meu ursinho cabeludo.
Quando regressámos, uma vez que tinha o jantar feito, sentei-me à mesa de trabalho mas com o alívio de não ter que trabalhar.
Notícias: a Serra da Estrela continua desgraçadamente a ser devastada pelos incêndios. Uma miséria. Entretanto, na Crimeia alguém anda a pôr a cabeça dos russos em água e isso são boas notícias. Tudo o que se faça para que aquele regime de corruptos, psicopatas, aldrabões e facínoras se ir abaixo das canetas é boa ideia. Pode demorar mas mais tarde ou mais cedo, a justiça será feita e os russos poderão ter esperança em viver num regime aberto, democrático e saudável.
{E bem pode o comentador que aqui deixa comentários quilométricos, parte dos quais em maiúsculas, ou os leitores ordinarões que andam sempre com pénis na boca ou as eternas namoradinhas do pcp virem aqui ver se me maçam que eu não estou nem aí.}
De seguida, fui ver o que o YouTube tinha para me oferecer. Tem sempre alguma coisa. Por vezes não são coisas muito óbvias e eu precipitadamente penso que em todo o pano cai a nódoa. Mas o tipo é fino. Hoje, por exemplo, resolveu apanhar-me de cernelha, pelo lado da psicologia.
Um conjunto de vídeos com uma animação apelativa, uma voz simpática e umas afirmações que me parecem acertadas. Uma vez mais, lamento que não haja legendagem em português. Mas a dicção é boa. E os conselhos parecem-me bastante úteis. A sério.
7 sinais de que o outro/a não é o/a tal
Quando se começa a duvidar que o outro talvez não seja a pessoa com quem se quer partilhar o futuro, está na altura de apelar ao pragmatismo e equacionar um rápido fim para a relação
6 Tipos de pessoas que deve evitar a todo o custo
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10 Estratégias psicologicamente provadas para Flirtar
Having trouble flirting? Here are some 10 tips you could use when it comes to getting the person you want! Each of these tips are backed by science!
Hoje, dia feriado, durante a tarde, estávamos todos juntos cá fora quando os meninos começaram na brincadeira. O mais velho, um refilão do mais refinado que existe, queria ir comprar um jogo que não dava para encomendar online. Preparando o terreno para a persuasão, começou, então, a derreter-se em simpatias com a mãe. Creio que foi nessa altura que a conversa divina começou. Tenho ideia que já dizia que a mãe era uma deusa. O mais novo dizia que antes estava eu, a mãe da deusa.
Dizia ele, o mais crescido, que era um contrassenso ter sido batizado e não acreditar em deus.
[A propósito do batizado surgiu, então, a conversa dos padrinhos. A minha filha lembrou que o pai é o padrinho do neto. O avô ficou muito admirado. E eu também, já não tinha nem ideia disso. Ela explicou que, na altura, tinha querido que fosse o irmão mas que, como o irmão não é batizado, o padre disse que, se era o que ela queria, então na prática era como se fosse... mas que oficialmente tinha que ser alguém batizado. Ela, então, quis que fosse o pai. Com esta explicação, lembrei-me. É verdade, tinha sido isso.
Mas lembrei-me só de metade pois, nessa altura, ela recordou-me que também eu embarquei numa assim: ou seja, sou a madrinha do mais novo. Também não me lembrava. Ela explicou que, nessa altura, a ideia é que fosse a prima a madrinha do menino. Mas a madrinha era quase tão bebé como o bebé a batizar. Tem uns quantos meses a mais. Para além disso também não é batizada. Portanto, neste caso avancei eu. Mas avancei nesse dia e nunca mais de tal me lembrei. Ou seja, quer eu quer o meu marido somos uns padrinhos desnaturados.
Isto dos batizados foi coisa do pai das crianças. Já o casamento foi pela igreja para ele e, para a minha filha, na igreja. Uma nuance que faz a diferença. Ele fez questão e ela não se importou. A mesma coisa com as famílias. A família dele é praticante e a nossa não está nem aí. Excepção talvez para a minha mãe que não frequenta a igreja mas tem a sua fé e faz as suas orações. Aliás, não sei se foi no casamento da neta ou num dos batizados dos bisnetos que, para minha surpresa, foi comungar. Perguntei-lhe se se tinha confessado antes. Na minha cabeça, a confissão era premissa indispensável para a comunhão. Respondeu-me que não tinha pecados. Lembro-me que o sogro da minha filha ouviu a conversa e achou muita graça, tendo-me dito: 'Pois, certamente que não tem'].
E tenho a impressão que foi nessa altura que a conversa derivou para a metafísica pura e dura. O menino mais crescido, catorze anos recém-feitos, já todo peludo, com voz grossa e dúvidas existenciais, perguntou-me se eu acreditava em deus. Disse-lhe que há muitos deuses, cada um acredita no seu deus ou no que quiser, que há quem queira encontrar uma explicação para as coisas e que eu acredito na natureza, na superioridade da natureza. Desatou a rir. Pôs-se a imitar-me, disse que ainda viro uma avozinha hippie, que qualquer dia chega lá, in heaven, e estou eu, toda peace and love, a adorar a natureza, numa caravana, a enrolar uns charros, envolta em cheiro a erva. Claro que o avô, ao ouvir isso, derivou para a paródia e, portanto, uma conversa que tinha tudo para ser elevada degenerou na gozação do costume.
Mas eu, gozem ou não comigo, curvo-me perante a beleza, a magia e a inteligência da natureza, mesmo nas suas mais ínfimas manifestações. Por exemplo, maravilho-me com a existência de esquilos nos nossos pinheiros e azinheiras. Não sei como lá apareceram mas o facto de lá terem aparecido parece-me milagre do melhor que há. Haver tantos pinheirinhos a nascerem a partir daqueles que o meu pai plantou há dezenas de anos é também daquelas que me faz sentir abençoada. E não sei se sou eu ou se é a terra que é abençoada mas para o efeito tanto dá. Ou que as árvores e os arbustos resistam a tanta secura, tanto tempo sem chover, parece-me outro fantástico milagre.
Os cedros, os ciprestes, os pinheiros, as aroeiras estão verdes, verdes, como se a seiva corresse fresca nas suas veias. Os verdes guardam a memória das chuvas e parecem preservar-se até que elas regressem. Acho isto uma coisa superior. Já para não dizer 'do além'.
Mas alguns arbustos estão com pouco viço, as figueiras daqui a nada estão a deixar cair as folhas, muitas florzinhas estão secas, a terra está ressequida, uma dor de alma. Tenho esperança que, mal venha o outono e comece a cair alguma chuva ou comecem a descer as primeiras névoas matinais, a terra se volte a cobrir de musgos e os cogumelos voltem a rebentar do chão.
Mas claro que estes calores e estas secas continuadas me preocupam. Como não?
Quando aquele terreno era apenas pedra e mato ralo e rasteiro, imaginava que conseguiria transformá-lo nom bosque onde os meus filhos e os filhos dos meus filhos e os filhos dos filhos dos meus filhos (e por aí afora) haveriam de passear e desfrutar as delícias das sombras das árvores e dos cheiros campestres.
Nessa altura não se falava nas alterações climáticas nem na situação de emergência em que iríamos entrar. Nessa altura jamais me ocorreu que, anos mais tarde, eu haveria de estar preocupada com as condições de vida na terra para os meus filhos, para os filhos dos meus filhos, para os filhos dos filhos dos meus filhos... E, no entanto, estou.
As notícias que chegam de todo o lado não podem deixar ninguém tranquilo.
E, claro, as previsões de Michio Kaku não me sossegam. Pode ser que o futuro da humanidade resida nos outros planetas. Mas quando? Mesmo que, até que isso seja possível, sobrevivam os exemplares suficientes para se reproduzirem em condições mais viáveis... o que acontecerá a tantos milhões de outros...?
E isto, claro, se até lá um asteroide qualquer não nos mandar a todos desta melhor ou o planeta não secar, não mirrar, não ficar murcho e irrelevante.
Preocupações...
Michio Kaku: The laws of physics doom Planet Earth
Humans won’t survive if we stay on Earth. Michio Kaku explains.
On Earth, extinction is the norm: 99.9% of species eventually go extinct. Even worse, the laws of physics have destined our planet for destruction. Whether it be from a planet-killing asteroid or the death of our Sun, Earth is doomed.
Humanity needs an insurance policy. Ultimately, if we want to survive long-term, we need to inhabit other planets.
We are entering a new Golden Age of space exploration, but there are obstacles we must overcome.
Há muitas matérias que escapam ao meu conhecimento. Não consigo guardar memória, não consigo assimilar: ou seja, não dou uma para a caixa. Para meu desgosto, a música é uma delas.
Desde os meus quatro anos em que, debalde, tentaram ensinar-me a tocar piano até ao que, nos anos sequentes, foram tentando ensinar-me, o que sobra é apenas aquilo com que nasci: gostar de ouvir música.
Ter ouvido para identificar compositores, peças, maestros, intérpretes é qualquer coisa que vai para além das minhas capacidades. Só nos casos mais óbvios é que identifico alguma coisa.
O meu marido, por exemplo, consegue fixar as letras. Do Zeca Afonso deve saber tudo, de a a z, música e letra. Mas mesmo do Fausto ou de outros. Eu zero. Dá ideia que os meus neurónios são selectivos. E digo selectivos para não dizer preguiçosos. Do que se refere a música pouco ou nada retêm.
Gosto do Tom Waits, Bastante. Mas sei dizer o nome de alguma canção que prefira? Nada. Gosto do Nick Cave. Mas alguma canção.em especial..? Está bem, está. Sei o nome de algumas da Melody Gardot e é um pau.
Como é que diariamente consigo escolher uma música para aqui colocar, ocorrendo-me o que me parece corresponder ao texto ou à disposição com que estou, é daqueles mistérios que me parece insondável. Parece que o motor de busca é uma extensão de mim e a partir de um nome ou de uma palavra chego lá. Talvez seja aquela sorte que tantas vezes parece guiar os ignorantes.
Mas o vídeo aqui abaixo parece-me bastante interessante.
40,000 years of music explained in 8 minutes | Michael Spitzer
The history of music from bone flutes to Beyoncé.
The evolution of music over millennia is tied to human civilization. For example, hunter-gatherers, who were very mobile, had to have small, light instruments to carry with them. Once we settled into bigger cities, larger instruments could be built.
Today, music is as accessible as running water. But if you were born in Beethoven's time, you would be lucky to hear two symphonies in your lifetime.
Hoje temos companhia de pernoita e, em vez de quererem ir para o estúdio, resolveram acampar na parte antiga da casa, aquela que é feitas de pedras mastodônticas, levando a que as paredes tenham mais de um metro de espessura.
Algures no tempo contei aqui, no blog, como podia ter deitado a casa abaixo com uma ideia peregrina que tive relacionada com essas paredes e que ainda hoje me assusta, sempre que me lembro. Não foi abaixo e tenho as desejadas estantes embutidas na parede mas é daquelas de que me arrependo e que teria agradecido que o meu marido tivesse impedido em vez de se ter limitado a tentar demover-me.
Enfim.
Espero é que esta noite os quartos estejam relativamente frescos pois ali não há ar condicionado. Uma das janelas ficou com o vidro aberto (e a rede mosquiteira corrida) a ver se entra o fresco da noite. As outras ficaram fechadas pois a portada está do lado de dentro do vidro e, para o vidro ficar aberto, a portada também fica. A mim a luz do sol não me faria diferença mas a alguns deles faz e não querem madrugar.
Esta zona da casa era a zona dos meus filhos. O quarto de cima era o do meu filho, o do meio era o da minha filha e a divisão de baixo era a salinha onde amigos e namorados ficavam quando os meus filhos traziam companhia. A meio da noite não sei se se mantinham assim.
Aliás, com o meu filho aconteceu que, quando a namorada vinha, arranjava-se uma cama, em baixo, para ela. Um dia, ele disse-me: 'Não é preciso, ela dorme comigo'. Fiquei um bocado apreensiva. Perguntei: 'Mas o que pensarão os pais se souberem disso?'. Ele disse: 'O pai dela diz que mais liberdade significa mais responsabilidade'. Pronto. Fazer o quê?
Depois casaram, vieram os filhos e passaram a preferir a independência do estúdio, um apartamento completo, separado da casa principal.
Quando estou cá em teletrabalho e tenho reuniões costumo ir para o que era o quarto da minha filha que funciona também como sala e tem a secretária ao lado da janela. Como toda esta zona também é um bocado independente da parte principal da casa, consigo ter sossego e algum isolamento sonoro.
Mas, portanto, é nesta zona da sala que hoje há pernoitantes. Claro que o urso felpudo, estranhando o camping por aquelas zonas da casa, não quis ficar de fora. Não apenas foi inspeccionar como quis experimentar as camas. E se uns até achariam graça, outros que nem pensar.
Conclusão: o pobre coitado foi expulso e agora está aqui na sala em que estou a escrever.
É uma da manhã e só agora começo a escrever. Não apenas o dia e a noite foram preenchidos como estou com muito sono. Não sei o que é isto. Parece que tenho em mim um sono acumulado. Nem por ser sábado consegui dormir até querer pois não apenas tinha posto o despertador como o meu marido resolveu acordar-me antes disso, com receio de que todo o programa se atrasasse.
Enfim, nada de novo.
O que sei é que, do que li, para além das coisas importantes que não cabem num post ensonado, houve uma notícia que me chamou a atenção e que me parece deveras interessante: está em lançamento a plataforma Klerb, uma espécie de Tinder para amantes de livros. Está em fase experimental mas... promete. Parece que o intuito não é expressamente casamenteiro mas o de aproximar pessoas com gostos afins ou complementares na leitura. Acho a ideia genial e só não vou já a correr inscrever-me pelo adiantado da hora e porque temo não conseguir repor o sono este domingo de manhã. Mas as possibilidades enunciadas e as que antevejo parecem-me infinitas e interessantíssimas.
Klerb is ideal for finding companions who share your taste in books, its developer says. Early signs are it will be a bestseller (...)
Reading taste can make or break a relationship for the bookish-minded, and literary preferences are highly subjective. But a new app in development is aiming to remove the uncertainty about literary tastes when meeting new people. Klerb has already been dubbed Tinder for bookworms because it matches you with people in your area according to your shared interests in books.
For those looking for love, a prospect’s bookshelves can be a minefield. What if they just read the wrong books? “I generally don’t care, but I did once go back to a guy’s house post-date, and the only book I could see was Fifty Shades of Grey,” says Alice Furse, publicity manager at a publisher.
“To be clear, I was more concerned about his taste than the possibility of kinks.”
Or even worse, what if they don’t have any books at all? The film-maker John Waters famously said: “If you go home with somebody and they don’t have books, don’t fuck ’em.”
With Klerb, you don’t even have to date them. You can just meet up with people who like the same books as you, or form a book club. (...)
Ontem à noite comecei a ler e hoje, ao fim da tarde, li mais um bom bocado. David Satter explica como o que o que se passa na Rússia parece difícil de perceber se for olhado à luz dos valores ocidentais mas que, se soubermos o que é a prática corrente do Kremlin ou de como Putin conseguiu estabelecer-se com o crescente poder que o trouxe até aqui, acabaremos por identificar a repetição de um padrão.
Um conjunto de crimes em larga escala, prédios destruídos durante a noite levando à morte de centenas de pessoas inocentes, atentados que têm como objectivo lançar o terror na população, atribuindo a culpa a cidadãos de um país, criando o ambiente de aceitação para a invasão que irá, depois, ser levada a cabo -- técnicas urdidas a frio. Depois o afastamento ou a a eliminação de quem poderia dar com a língua nos dentes.
Nos corredores do Kremlin, entre a seita que ele lá mantém, as pessoas são mera matéria prima para manobras que têm vários objectivos sendo que nenhum deles parece razoável e moralmente aceitável.
Corrupção, favorecimentos, comportamentos oligárquicos -- um regime que, para sobreviver, tem que abafar a revolta, a resistência. E, para isso, todos os meios são admissíveis.
Olha-se de fora e vê-se ausência de escrúpulos, ausência de moral, ausência de humanidade, olha-se e vê-se um bando de terroristas, de criminosos. E vê-se também a cobardia dos fracos que, pela força, pela mentira, pela manipulação, pela tirania, detêm o poder de matar indiscriminadamente.
O livro saiu agora por cá mas já tem uns sete anos. Ou seja, na altura ainda se estava longe de saber onde a deriva psicopata de Putin e da sua entourage iria levar. As práticas e os crimes descritos, apesar de serem assustadores, são uma pálida amostra do que estaria para vir.
E o diagnóstico não difere por parte de quem conhece e estuda a realidade da Rússia de Putin. Veja-se o vídeo abaixo.
'O monstro frágil': o autor descreve o carácter de Putin
Journalist and author of "Killer in the Kremlin" John Sweeney argues that while Russian president Vladimir Putin is "pathologically enthralled to violence," his strategy in Ukraine is failing
A pergunta refere-se a casar mas quem diz casar diz juntar os trapinhos ou namorar. Para o efeito, vai tudo dar ao mesmo.
E a pergunta quem vai dizer qual é não sou eu, é o Rubem Alves aqui abaixo, que, através dele, a coisa soará mais inquestionável do que se for eu a botar prosa.
O que posso dizer, e digo com os ensinamentos que um casamento de mil anos já me proporcionou, é que, a meu ver, as questões críticas são as seguintes:
entendemo-nos?
estamos bem um para o outro?
vivemos no mesmo mundo?
orgulhamo-nos um do outro?
estaremos sempre cá um para o outro?
É que é tudo muito bonito mas se um fala de alhos e outro de bugalhos, se um gosta de natureza e outro de estar fechado em casa, se um vive na terra e outro (pensa que) vive na lua, se um até treme com os disparates que o outro a qualquer momento pode dizer ou se um está sempre disponível para o que for preciso e o outro nunca está nem aí, então... então, adeus minhas encomendas.
Pode a gente achar que o outro até é lindinho ou que, volta e meia, faz umas flores ou, quem sabe, pode iludir-se e sonhar que o outro pode vir a modificar-se e melhorar... mas se, lá no fundo, aquilo que acima referi é uma sombra que a gente pressente que existe (embora querendo fazer de conta que não tem importância), então, é para esquecer. Pode a coisa aguentar-se algum tempo, podem agarrar-se à probabilidade de a coisa vir a melhorar... mas é tempo perdido, oh lá se é.
Claro que há mais factores relevantes para a coisa dar certo. Por exemplo, há o lado físico. Fundamental. Do mais fundamental que há. A gente pode armar-se em platónica, em lírica, em anjinha, mas, vamos ser claros, se a gente não sente uma atração, uma afinidade de pele, um prazer em estar junto, em olhar de perto, em olhar de longe, em olhar para dentro, em sentir o cheiro, o toque, o calor, se a gente não gosta do tom de voz, se a gente acha que aquelas mãozinhas não sabem agarrar, que aquela boca não sabe causar um arrepiozinho bom.. então é a mesma coisa: para esquecer. Não vai dar. Mais vale saltar fora.
E outra: se são almas gémeas, iguaizinhas, se o que um pensa é tal e qual o que o outro pensa, se gostam exactamente ds mesmas coisas, se estão sempre de acordo... então, bye bye maria ivone. Não dá. Uma seca. Ao fim de algum tempo, se ainda não tiverem morrido de tédio, já estarão a pular a cerca cada um para seu lado.
Hoje, ao fim da tarde, antes de resolvermos ir passear para a praia, espreitei a netflix. Apareceu-me a casamenteira indiana. Deixei-me ficar durante um bocado. Há mundos paralelos. Uma pessoa nem sonha que, aos dias de hoje, ainda existem casamenteiras. Os que querem arranjar noivo enumeram os requisitos para que a casamenteira saiba o que procurar. As mulheres que salteadamente vi, querem homens da mesma idade ou um pouco mais velhos, mais altos, bem sucedidos, pessoas de família. Coisas assim. A casamenteira acha que, se houver um mínimo de afinidades, com o convívio e a vontade de dar certo, a coisa acabará mesmo por vingar. Não sei. Se calhar, quando não dá certo, toleram-se, resignam-se. Mas isso não é a minha cena. Se é para ser, tem que ser mesmo, de verdade, amor a sério.
Amor que é amor e que perdura como amor tem que ser coisa de boa cepa, sentimento forte, elástico, flexível, resiliente, auto-regenerativo.
Mas, enfim, isto sou eu a falar e, na volta, sou exigente para lá da conta. No entanto, a sensação com que estou é que, apesar do que já disse, devo ter-me esquecido de mais um montão de coisas importantes.
Ah, sim, agora lembrei-me de uma que é fundamental: tem que ter sentido de humor. Humor é oxigénio. Eu morreria à míngua se tivesse que viver com alguém que não soubesse fazer-me rir.
E tem que ser generoso. Gente má, mesquinha, invejosa, complicada, implicante, tem que estar longe. Gente assim infecta. Não pode. Distância. Xô!
Ah, sim, outra que é fundamental. Podem crer: fundamental. A gente tem que olhar e ter a certeza que o outro vai ter sempre a capacidade de nos tirar o tapete, de nos tirar o chão, de nos tirar a respiração. E de nos tirar do sério
E há mais. De certeza que há.
Mas agora passo a palavra a um mestre que acha que nada disso, que tudo se resume a uma questão:
Rubem Alves • Só existe uma pergunta a ser feita quando se pretende casar
Transcrevo o texto que acompanha o vídeo no Youtube:
Depois de muito meditar sobre o assunto, concluí que os casamentos são de dois tipos: tênis e frescobol. Casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e costumam ter vida longa. Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente: “Ao pensar sobre a possibilidade do casamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a velhice?’. Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar”.
Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme “O império dos sentidos”. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar “mil e uma noites”. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre depois de morrer.
Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: “Eu te amo, eu te amo…”. Barthes advertia: “Passada a primeira confissão, ‘eu te amo’ não quer dizer mais nada”. É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: “Erótica é a alma”.
O tênis é um jogo feroz. Seu objetivo é derrotar o adversário. E a derrota se revela no erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.
O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir. E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo.
A bola são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá… Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão. O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde. Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem, cresce o amor… Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim.
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As fotografias são de Man Ray e Melody Gardot interpreta If you love me
Claro que preferia estar de férias. Claro que tenho saudades dos abençoados tempos em que havia férias grandes que davam para tudo. De manhã ia à praia com os amigos, de tarde ia passear com eles pela baixa, pela beira-mar. Outras vezes ia passar o dia com os eles para a casa que uns tinham no campo. Na altura era campo mas, de carro, devia ser a cinco ou dez minutos da casa deles na cidade. Hoje é uma zona de moradias da cidade. Depois, quando o meu pai estava de férias, fazia férias com ele e com a minha mãe: íamos para Porto Covo ou para a Curia. Vários amigos meus faziam o Luso mas os meus pais preferiam a Curia. Isso causava-me algum enervamento pois o meu namorado da altura estava no Luso e eu na Curia e, ainda por cima, sempre desfasados. Mas também passava num instante. Estava lá e só pensava que não via a hora de voltar vê-lo. Havia também alguns dias de pura indolência. Lia muito. O tempo esticava de uma forma mágica.
Com o outro namorado era diferente. Passávamos a maior parte do tempo juntos. Mas não era particularmente estimulante pois ele gostava muito mais de mim do que eu dele e, por isso, desse tempo o que recordo é a minha vontade de fazer coisas diferentes das que fazia.
Com o terceiro, aí a música passou a ser outra: estávamos juntos de manhã à noite. No único verão em que namorámos, ele instalou-se numa pousada de juventude perto de mim e, portanto, era praticamente non stop. E era uma coisa equilibrada: estávamos os dois loucos um pelo outro, uma chama que ardia bem à vista de toda a gente.
Quando comecei a dar aulas acabou-se a bela vida. Estudava e dava aulas com horário completo. Tinha reuniões de avaliações, exames a vigiar, provas a corrigir, e isto em paralelo com trabalhos e exames meu na faculdade. E estava casada. Portanto, a coisa começou a apertar. Pior ainda quando fui trabalhar em empresas. Aí o tempo de descanso encurtou-se dramaticamente. Poucos dias e aí já com crianças pequenas. Não eram bem férias, era mais uma interrupção na rotina.
Agora, que tenho tão poucos dias, gostaria de poder ter uma semana sem nada que fazer, nada de nada, não ter compromissos, não ter que ir a lado nenhum nem nada. O meu marido está como eu: diz que gostava de poder ficar deitado no sofá a descansar, diz que gostaria de poder dormir até mais tarde. Claro que estou em crer que, ao fim de uma semana sem fazer nada, já não me aguentaria, já estaria doida para sair, para fazer qualquer coisa.
Quando no verão ficamos no campo, se estamos os dois sozinhos, no primeiro dia arrasto-me. Durmo, estou numa indolência que me deixa inerte. Ao segundo já ando de vassoura na mão, de balde e esfregona de um lado para o outro, limpezas a preceito. Depois já é podão e serrote e já ando de roda das árvores. E a partir daí já estamos os dois desertos para ir até à cidade mais próxima e tudo serve de desculpa: ou ir ao supermercado ou ir ver de alguma ferramenta. Qualquer coisa para nos sentirmos mais perto do mundo.
Ora, como é sabido, o algoritmo do Youtube lê-me os pensamentos, pressente o meu estado de espírito, faz de tudo para me agradar e surpreender. Não tive até hoje ser vivo que assim me interpretasse e assim desse a volta ao mundo para descobrir o que me agradar. Isto da inteligência artificial tem que se lhe diga (e não digam que não avisei -- e, podem crer, sei um pouco do que falo)
Pois hoje o meu bff tinha para me mostrar uma situação extraordinária: um homem que vende o seu tempo para não fazer nada, apenas estar. No vídeo ele explica: resolveu ocupar o seu tempo, um tempo em que nada faz, de forma produtiva. Parece um paradoxo mas não é. Ou, se calhar, é. Tanto faz.
E, curiosamente, está a ter saída. Pessoas que não querem almoçar sozinhas, pessoas que não querem ir a um sítio sozinhas, alguém que quer ter a experiência de um efusivo cumprimento numa estação de comboios, alguém que quer conversar sobre um tema sensível e não quer perturbar a família e amigos. De facto, um mar de possibilidades.
Diz ele que antes julgava que as pessoas muito ocupadas eram todas bem sucedidas e felizes. Constatou, entretanto, que não é bem assim. Diz que há muita solidão.
Impressionou-me este vídeo. Há qualquer coisa de feridas expostas nisto. Mas, se calhar, estou a dramatizar. Se calhar é apenas uma forma prática de ultrapassar situações que, para algumas pessoas, são constrangedoras. Se calhar não tem nada de mais.
Não sei. Às tantas não sei mesmo é mais nada.
É certo que isto se passa no Japão e no Japão passam-se muitas coisas estranhas. Contudo, creio que, neste caso, poderia acontecer aqui ou em qualquer outra cidade.
O japonês que é pago para não fazer nada
Shoji Morimoto provides a very unusual rental service to his clients in Tokyo, hiring himself out in order to, quite literally, do nothing.
He has fashioned a career out of renting himself out to clients who simply don't want to be alone. Shoji doesn't engage in conversation or do anything other than just be there at whatever event or activity he has been hired to attend, and yet he is in high demand, scheduling one to three sessions a day.
PS: Ou seja, se alguém veio ao engano, a esta altura já deu para perceber: ao falar em 'ser pago para não fazer nada, obviamente não estava a referir-me ao Sérgio Figueiredo.
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As fotografias mostram um graffiti especial, em forma de renda. A rimeira foi feita em Póvoa de Atalaia, a segunda em Vila do Conde e a terceira no Bombarral. A autora é NeS NeSpoon