É sabido que, sempre que os russos ocupam uma região, não apenas matam e esfolam como roubam tudo o que apanham. Televisões, máquinas de lavar louça, frigoríficos, tapetes, o que calha. Até tractores e outras máquinas agrícolas eles roubaram. Tudo lhes serve. Saque geral.
Há nisto qualquer coisa de miserável (e triste). Muitos jovens soldados russos ficam espantados pois pensavam que iam encontrar um país pobre, refém de nazis, gente explorada ainda mais carente que eles e, afinal, encontram um mundo civilizado, livre e em que muitas casas têm manifestos sinais de conforto e modernidade. Roubam, pois, o que podem. Não sei se é numa de levar um recuerdo ou se é numa de que já que nos obrigaram a vir fazer isto, ao menos que alguma coisa se aproveite e bora mas é levar o que se consegue.
Imagino que, quando caírem neles, a par das violações, torturas e assassinatos, terão vergonha e arrependimento também de se terem portado como verdadeiros gatunos. Claro que, ao não serem impedidos de o fazer, a responsabilidade passa para os superiores que, directa ou indirectamente, o permitem. Juntam, assim, a delinquência às suas características.
Putin celebra o Dia da Vitória e da Paz com uma parada militar e gosta de ostentar o imenso poderio bélica da Rússia. Dantes tinha sempre muitos convidados. Este ano, de mantinha nos joelhos, o assassino teve menos equipamentos de guerra a desfilar e, claro, convidados decentes e civilizados não teve um único.
O vídeo abaixo é uma graça. Não há como o sentido de humor para caricaturar as situações, expondo o lado ridículo dos que gostam de se julgar importantes.
Frequentemente deixa-me a pensar. Fala com entusiasmo, fala com clareza.
Acho-o inteligente e um bom comunicador.
Em contrapartida não tenho um pingo de paciência para o sonso e enviesado Major-General Agostinho Costa. Se o apanho, desvio-me. Hoje apanhei-o numa zaragata malévola com a Helena Ferro de Gouveia que estava que não podia, capaz de lhe atirar com um copo de água cabeça abaixo. E percebe-se. Aquele Agostinho fala sempre inclinado para um lado, não fala como um comentador ou estudioso isento, derrapa a cada palavra para desculpabilizar ou louvar a actuação russa. Tira qualquer pessoa de bem do sério.
E, se do Agostinho eu fujo, ao Mendes Dias eu procuro. Parece experiente e perspicaz. E parece conhecer a arte da guerra. E sabe conjugá-la com a história. E, ainda por cima, sabe falar. E sabe chamar a atenção para as subtilezas destas coisas da informação, contra-informação, diplomacias ocultas, etc.
Virá o dia, talvez não muito longínquo, em que os russos, em geral, vão revoltar-se contra o que está a acontecer na Ucrânia. Quando as avós, as mães, as mulheres, as namoradas e as irmãs começarem a perceber que os seus bem amados jovens que foram para uma "operação especial" na fronteira e de quem nada sabem afinal não vão voltar, nem vivos e, se calhar, nem mortos, quando souberem que há dezenas de milhares de rapazes russos mortos nas morgues da Ucrânia que a Rússia não reclama, quando for público que, quando tinham tempo, oz próprioz colegaz de armaz queimavam os que tinham morrido ou os escondiam em valas comuns, a revolta vai ser incontrolável. In-con-tro-lá-vel.
Que ninguém subestime a ansiedade de uma mãe que não sabe do seu filho e a sua raiva quando suspeita que alguém o tratou mal. Todas as mães viram lobas, todas as mães lutam seja contra quem for pelos seus filhos. No receio e na raiva de que a vida dos seus filhos tenha sido ceifada, qualquer mãe arrisca tudo -- porque nada mais tem a perder.
Se agora os que se manifestam são presos -- e desde a invasão mais de 15.000 russos já foram presos --, depois será impossível reprimir a revolta popular e prender todos quantos se insurjam. As ruas encher-se-ão de gente que chorará, gritará, exigirá a verdade -- e os corpos dos seus filhos. As mulheres russas não perdoarão o que Putin fez aos seus meninos. Mesmo os meninos que sobrevivem, virão transformados, loucos de arrependimento pelos roubos, pelas violações, pelas torturas, pelas mortes que cometeram. Virão loucos de raiva pelo que foram obrigados a fazer. E as suas mães, as suas mulheres, não encontrarão desculpa para o que Putin obrigou os seus meninos a fazer.
Além disso, a contestação pública começa a ganhar novos contornos: na televisão estatal um comentador militar já teve coragem para assinalar o fracasso da dita "operação" bem como a rejeição mundial generalizada.
Os russos vão acordar. Vão perceber que afinal andaram a ser manipulados, enganados, vão perceber que estão mais pobres, mais isolados e que os seus familiares, involuntariamente, causaram crimes imperdoáveis contra um país que não tinha feito mal a ninguém.
Não vão perdoar.
Cercado, humilhado, derrotado em toda a linha, não haverá, então, quem defenda Putin.
Apenas aqui, na ponta da Europa, encostados ao Atlântico, uns quantos sobreviventes do comunismo lusitano continuarão a defendê-lo. Talvez não mais que uma dezena. Talvez ainda mais uns quantos, que se contarão pelos dedos da mão, de pessoas baralhadas, daquelas que, desnorteadas por teorias da conspiração e filosofias descontextualizadas, nunca sabem bem como interpretar o que se passa à sua volta.
Não sei como vai acabar Putin mas a sua história não terá um final feliz.
Entretanto, mais de oito milhões de pessoas foram desalojadas, muitas das quais fugindo do país, muitas das quais perderam empregos, casas, familiares. Pessoas mortas não têm ainda um número. Vão-se descobrindo. Gente que ficará traumatizada para o resto da vida é algo que talvez nunca se consiga contabilizar.
Gente que viu morrer outros, alguns viram morrer os pais, os filhos, as mães, os irmãos. E gente que viveu com familiares mortos ao seu lado. Dores que não se esquecem nem se perdoam.
E agora mais uma história: um de três irmãos sobreviveu depois de ter sido enterrado vivo. Os irmãos não sobreviveram.
E isto porquê? Porque Putin e a seita que o acoberta têm como ambição reconquistar os países que antes pertenceram à União Soviética, porque Putin e os seus só conhecem a força bruta, porque Putin e os seus ignoram a sua condição humana e a condição humana daqueles a quem destroem.
Há quem pense que deveríamos todos ter achado muito bem que os russos os tivessem tentado matar à fome e à sede, destruindo, en passant, completamente um dos grandes complexos siderúrgicos da Ucrânia. Eu não penso. Há quem pense que são, todos eles, nazis. Eu não penso.
E acho que, independentemente de tudo, são heróis e comovo-me quando penso no que sofreram, tanto, tanto, e na sua inacreditável coragem.
É hoje claro e documentado que se alguns dos militares de Azov são da extrema direita há muitos que são apenas tropa de elite, militares de eleição, certamente muitos daqueles que gostam de lutar até ao fim, gente com alma de comando ou fuzileiro (conheço alguns, daqueles que falam com saudade de quando andavam a rastejar na lama, às escuras, daqueles que passavam fome e sede e não se queixavam, daqueles que achavam, e acham, que se a missão era defender um pedaço de terra ou levar até porto seguro os 'seus homens', era isso que fariam até ao último pingo de sangue).
Estes, nos subterrâneos da fábrica, defenderam os milhares de civis que lá se abrigaram, defenderam os camaradas que caíram feridos, defenderam aquele pedaço de terra, defenderam os corpos dos que morreram e lá ficaram. Defenderam o que puderam até que, humanamente, não conseguiram mais.
E quero aqui dizer uma coisa. Se o meu país estivesse a ser atacado, destruído, se a população do meu país estivesse a ser dizimada, se os russos atirassem mísseis e uma verdadeira chuva de munições sobre o meu país, se os russos quisessem anexar o meu país, se eu fosse corajosa como gostaria de ser eu aceitaria ajuda de quem nos quisesse ajudar a defender a nossa independência e a nossa liberdade, mesmo que fossem de extrema direita. Depois de expulso o agressor, eu e os de extrema direita ou de extrema esquerda ou quem quer que tivesse sobrevivido logo nos entenderíamos.
Contudo, há que ter em atenção que nas últimas eleições na Ucrânia, a extrema-direita ficou-se pelos 2% (quanto teve o Chega...? Tomáramos nós que tivesse tido apenas 2%).
Ukraine does have a far-right movement, and its armed defenders include the Azov battalion, a far-right nationalist militia group. But no democratic country is free of far-right nationalist groups, including the United States. In the 2019 election, the Ukrainian far right was humiliated, receiving only 2% of the vote. This is far less support than far-right parties receive across western Europe, including inarguably democratic countries such as France and Germany.
Ukraine is a democratic country, whose popular president was elected, in a free and fair election, with over 70% of the vote. That president, Volodymyr Zelenskiy, is Jewish, and comes from a family partially wiped out in the Nazi Holocaust.
Ao som de um basso profondo da Rússia, todas as fotografias pertencem ao Guardian (daqui e daqui) com excepção para a segunda que pertence a um vídeo dilacerante, daqui
Por exemplo: gosto de ver às outras mulheres mãos com nails em vermelho rubi, carmim, bordeaux, grenat ou mesmo em quase negro. Além do mais, sei que a saison, talvez para espantar as pesadas nuvens negras que por aí andam a pairar, requer nails multicores, uma unha de cada cor, e cores alegres, cor de laranja, verde pistachio, azul turquesa.
Em abstracto tudo isso me agrada. Melhor: seduz-me.
Mas depois vem o lado prático. Não consigo ter unhas compridas nem consigo paciência para as pintar ou retocar frequentemente. Além disso, há que ter precisão para que o colorido não transcenda a pequena superfície que lhes é destinada. Debato-me, pois. Imagino que vendam pequenos estojos com frasquinhos multicores, pincelinhos pequeninos, e sinto-me tentada a experimentar. Mas, depois, já sei que acabarei sem aplicar nada ou, quanto muito, apenas um brilhozinho transparente, quanto muito um discretíssimo nude.
Dilemas.
Se não trabalhasse, também ousaria uma maquilhagem divertida. Sombras nas pálpebras também em cor-de-laranja. Ou em verde-alface. E lábios em morango suculento e brilhante. Assim, trabalhando, não dá. Não seria levada a sério se me apresentasse assim a discutir propostas que, já de si, deixam alguns com os cabelos em pé. Tenho que me reservar para um dia mais tarde.
No domingo, quando fomos passear com a minha mãe, estava fresca, colorida e jovial: calças justas, alinhadas, em branco, uma tshirt justinha em verde seco e uma blusinha de lã fina em cor-de-laranja sobre os ombros. Ténis brancos. Completava a toilette com um chapéu de palhinha e de abas largas. Elogiei-a, disse-lhe que finalmente se veste como lhe fica bem, sem se preocupar se a toilette é adequada à idade ou com o que amigas e vizinhas pensam. Riu-se. Disse que finalmente tinha começado a libertar-se. Pensei -- mas não disse -- que já não era sem tempo.
Pode parecer futilidade -- e quem sou eu para o negar -- mas a forma com a gente se arranja é meio caminho andado para a forma como a gente se sente. Se estamos com roupas tristes e desiluminadas, vai ser difícil sentirmo-nos especiais. E claro que é importante sentirmo-nos especiais. Pode haver quem pense que não quer sentir-se especial, quer apenas sentir-se vivo/a, e tudo bem -- só que não é a mesma coisa.
Há também a questão das flores. Vi umas florzinhas lindas, delicadas, em suave lilás. Estavam nas areias, nas dunas, junto à praia. Estou com vontade de ir colher umas quantas e pôr numa jarrinha. Hoje, nas reuniões, pensei que aquelas florzinhas ali ao meu lado fariam toda a diferença. Mas o que gostava mesmo era de apanhar com raiz e plantar um canteiro por aqui. Mas será que flor de beira mar vai dar-se bem em terra? Não sei. Nem sei se tente. Não quero fazer coisas contra natura mas, por outro lado, quem garante que elas não gostariam de mudar de ares?
Dilemas.
E depois há os pássaros. O meu marido reclama da gaiola grande que trouxemos da garagem para pôr aqui no jardim. Diz que está ali para nada, que não sabe porque quis eu trazê-la para aqui. Expliquei que pensava que, tendo a portinha aberta, os passarinhos entrariam e dali fariam a sua casa, podendo sair sempre que quisessem. Mas toda a gente me explicou que era uma armadilha, que os passarinhos que entrassem não conseguiriam sair. E a verdade é que a gaiola ali está de portinha aberta e nem um pássaro lá entra. Mas aí lembro-me de uma coisa. A anterior proprietária tinha periquitos. Nunca prestei atenção a essa ideia. Mas no outro dia lembrei-me de uma vez ter falado ao telefone com uma amiga e só ouvir uma orquestra de pássaros por trás. Ela disse: são os periquitos que a minha mãe aqui tem, são muitos, às cores, cantam que só visto. E era uma alegria. Sou muita contrária a pássaros prisioneiros. Mas será que os periquitos não se tornaram bicho de gaiola? E sendo a gaiola grande e estando no meio de árvores, não será para eles um resort que apreciem? Não sei.
Dilemas.
E estou com esta conversa nem sei bem porquê. Será que fico com vontade de me remeter à maior simplicidade sempre que ouço falar de temas que me deixam as entranhas num frenesim?
Estive a ouvir três previsões muito prováveis para os próximos tempos. Algumas são-me, à partida, um pouco incómodas. Robots que se auto-fabriquem parece-me coisa meio assustadora. Mas se isso acontecer em Marte talvez não seja mau de todo. Robots que construam fábricas e enviem o fruto da sua produção para a Terra. A Terra transformada em paraíso, sem poluição, sem esforços, só desfrute. Talvez a vida ainda possa vir a ser uma coisa boa e o mundo um lugar feliz e pouco perigoso. E também me é estranha a ideia de fazer download do cérebro e pôr máquinas a usarem as ideias e memórias. Ou a perspectiva de se transmitirem emoções ou sensações e não apenas informação. Não sei bem o que pensar nisso. Mas parece-me provável e potencialmente estimulante. E depois há a promissora ideia de aprendermos, ab initio, se temos células que vão degenerar em cancro. Termos em casa sanitas com auto analisadores que detectem sinais de alerta que permitam que não se formem tumores -- o fim do cancro. Uma maravilha. Um alívio para todos.
Michio Kaku: 3 mind-blowing predictions about the future | Big Think
Carl Sagan believed humanity needed to become a multi-planet species as an insurance policy against the next huge catastrophe on Earth. Now, Elon Musk is working to see that mission through, starting with a colony of a million humans on Mars. Where will our species go next?
Theoretical physicist Michio Kaku looks decades into the future and makes three bold predictions about human space travel, the potential of 'brain net', and our coming victory over cancer.
"[I]n the future, the word 'tumor' will disappear from the English language," says Kaku. "We will have years of warning that there is a colony of cancer cells growing in our body. And our descendants will wonder: How could we fear cancer so much?"
Os mesmos que não conseguem condenar Putin pela absurda e injustificável matança e destruição levada a cabo na Ucrânia ou pelo seu inqualificável atentado contra o direito internacional e pelos seus incontáveis crimes de guerra são os mesmos que agora se insurgem por o voto popular ter premiado a canção ucraniana no festival da Eurovisão.
Há sempre alguns que se acham mais inteligentes que o resto do mundo e que sabem o que mais ninguém sabe: que a Covid é uma invenção, que as vacinas são uma golpada da indústria farmacêutica, que a Ucrânia é que fez tudo para ser invadida e destruída, que a chacina de uma dimensão inimaginável que jornalistas de todo o mundo aí testemunham em tempo real não passa de uma farsa, que o Elvis está vivo e, claro, que a terra é plana. A estas pérolas, juntam agora o pitéu conspirativo do momento: que isto da vitória ucraniana na eurovisão foi uma golpada. Não lhes interessa que tenha sido usado o mesmo método de apuramento já testado e sempre auditado em emissões anteriores. Não senhor, agora é mais estava bola que têm para tirar do saco.
Pois eu não me canso de me admirar com a coragem ucraniana. Os jovens vencedores, depois de terem ganho o troféu, foram entretanto para o terreno minado em que o combate se faz com outras armas. Abraçados às mulheres em lágrimas, com os filhos ao colo, emocionados, lá foram eles depois da despedida.
Ei-los a explicarem o que significa a canção Stefania.
A mãe do vocalista vê, assim, o seu nome tornar-se a bandeira de um novo hino de resistência.
What's the history of Ukraine's Eurovision entry Kalush Orchestra and song Stefania? - BBC News
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PS -- E não vale a pena presentearem-me com comentários pretensamente ofensivos e ordinários -- mas, na verdade, apenas delirantemente pornográficos -- pois não apenas não os publicarei como nem sequer lhes acho graça, são simplesmente parvos e infantilóides.
A meio da semana fomos até ao campo. Saímos de cá ao fim do dia, dormimos lá e nesse dia trabalhámos a partir de lá. Como tive uma reunião gigante nesse dia, mais de metade do dia foi à vida.
Claro que a primeira coisa que fiz quando lá cheguei foi ir à procura do esquilo. Como é bom de ver já não o vi na árvore em que estava no dia em que foi descoberto.
Contudo, não apenas debaixo dos outros pinheiros onde já tinha visto as pinhas escaroladas, já lá estava mais uma porção delas em igual estado como, debaixo de um outro, a cena era a mesma. Lots and lots of pinhas roídas. Portanto, mantenho que não deve ser um único esquilo mas uma comunidade de fofinhos.
Aqui dá para ver como é uma pinha normal e como fica depois de roída
Isso deixa-me feliz. Feliz mas desconsolada porque não consigo descobri-los. Tenho que ir para lá com mais tempo para tentar tirar a dúvida a limpo. É que viemos ao fim do dia e, a bem dizer, ando sempre com os minutos contados. Ora isso não é compaginável com a disponibilidade necessária para que os bichinhos se acheguem.
O fim de semana foi tranquilo. Passeámos, descansámos. O meu marido esteve na horta a desmanchar lá umas coisas enquanto eu fiquei a ler.
Entretanto, quando estávamos a caminhar à beira da praia vi uns cadeirões feitos com paletes pintadas. Como na horta há umas três ou quatro paletes, fiquei com ideia de fazer um desses cadeirões, pintar, arranjar umas almofadas, ter ali uma zona de chill out. Não sei se pinte uma ripa de cada cor, azul claro, verde claro, branco, ou se tudo de branco ou se tudo de azul escuro, por exemplo, ou verde-relva. Inclino-me para uma mescla de verde-água clarinho e um verde-azulado também clarinho. Tenho que fechar os olhos e tentar imaginar.
Também ando com ideia de levantar o jasmim amarelo e pô-lo a passar por cima de uma pérgula. Não sei é como fazer isso. Há lá atrás uns barrotes e umas ripas e umas redes. Não sei é se têm a dimensão suficiente. Por mim, atirava-me já a isso. O meu marido teme estas minhas ideias pois diz que sobram sempre para ele. Mas claro que sim. Obviamente não tenho força para barrotes ou para pregar ripas em barrotes. Já para não falar que não sei como pregar os barrotes ao muro e aos pilares. Ou seja, estou em crer que, com estas minhas ideias, abri nova frente de batalha.
Já agora: por falar em frente de batalha.
Quando o meu ursinho peludo é valente e brincalhão e fofo eu às vezes chamo-lhe Zelelinskyy ou Zelelinkas. Mas agora, quando se porta mal, chamo-lhe Putin. E bem podem os PCP's ou os pró-Kremlin vir protestar que eu chamo e chamo e chamo mesmo. Mesmo que me perguntem porque é que não chamo isso ao gato assanhado que vi no outro dia na rua ou ao pastor-alemão que aqui ao lado ladra com voz de poucos amigos, não quero saber. Quanto muito, porque apesar de tudo não tem nada a ver com o outro, o pêro-saloio que invadiu a Ucrânia, adoço a coisa e chamo-lhe Putini. 'Ai! Seu feio! Isso faz-se? Ai, ai, ai! Putini mais feio! Zango-me contigo! Pára! Mas tu queres ver...?'. Só quando ele ouve esta de 'Mas tu queres ver...?' é que ele pára e fica sossegado, a olhar.
Na volta é isto que têm que dizer ao outro:' Olha lá! Mas tu queres ver?', que é como quem diz: 'Искать там! Но хочешь ли ты увидеть...?'. Na volta assustava-se e ficava parado à espera do que viria por aí.
Bem. Daqui a nada começa o meu dia de trabalho pelo que. com vossa licença, vou à deita.
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Mas, antes, deixem que partilhe convosco um vídeo com uma bacana, muito bacana, muito boa onda, a mostrar a sua casa colorida e feliz.
Most Colorful Home in America
You've never seen anything like this Washington, D.C. house...I promise. Imagine an old home from the 1700s right in the middle of a bustling city filled with things like a Disney crown that's been to Buckingham Palace, a goat statue wearing false eyelashes, and collections of curiosities like pink gnomes and plastic bunnies. It's truly a magical home.
The home belongs to former Vogue editor Deb Waterman Johns, her husband, Ben, and their four kids. Deb is the co-founder of SCOUT, a brand known for stylish, functional, and affordable bags. She has more than four decades of experience in the fashion industry and her love of pattern, color and design is on full display at her whimsical Georgetown home.
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Fotos feitas in heaven
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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira
Foi, entretanto, divulgado o vídeo oficial da canção que ganhou o Festival da Eurovisão e, não inesperadamente, tem como cenário a destruição, a separação e a dor que os crimes que a Rússia vem levando a cabo sobre a Ucrânia têm causado nas terras, nas pessoas.
E, sendo homens jovens, depois de terem participado no festival, já voltaram ao seu país para defenderem a sua liberdade e tentarem expulsar o invasor e agressor. São combatentes. E são vitoriosos.
Kalush Orchestra - Stefania (Official Video Eurovision 2022)
Recomendo a sua leitura pois tem conselhos muito abrangentes e, acredito, eficazes. Contudo, aviso desde já: não recomendo a leitura deste post a filósofos, cépticos, pessimistas ou infelizes por vocação.
Pensei em trazer para aqui os conselhos do Guardian mas, se me pusesse a traduzir, nunca mais acabava pois 60 conselhos são muitos conselhos. Claro que poderia ir ao tradutor automático e já estava. Só que não é bem assim pois o tradutor volta e meia pontapeia a minha sensibilidade e, portanto, tinha que estar a rever e corrigir. Não me apetece. Estive a ver a Eurovisão (comecei a ver e achei que aquela gente parecia estar numa boa onda, a produção era espectacular e, não menos relevante, estava cheia de preguiça para fazer outra coisa). E agora é tarde.
Portanto, vou repescar algumas daquelas dicas ou acrescentar outras ou escrevê-las à minha maneira.
Caminhe todos os dias
Não é preciso ser muito mas, se for, melhor ainda. Pode ser ir até a um parque e dar lá umas quantas voltas, pode ser dar umas quantas voltas ao burgo, pelo passeio, pode ser ir até à beira rio ou à beira mar, pode ser andar na montanha. Andar ao ar livre. Li no outro dia que, pelo menos durante 10 minutos por dia, a intensidade da caminhada deve ser razoável. Ou seja, pelo menos durante 10 minutos não andar a pisar ovos, em deambulação lenta e romântica. Chova ou faça sol, de chapéu de sol ou de chapéu de chuva, nada deve fazer-nos arranjar desculpa. Andar. Cumprimente as pessoas com quem se cruzar, de preferência sorrindo.
Eu tento andar pelo menos durante meia hora. De facto, ando quase sempre mais do que isso. À tarde, se puder, ando quase uma hora. E agora com o meu amigo felpudo tenho motivo para andar também a meio do dia. Contudo, se for só eu e ele, este é sempre um passeio pequeno. Mal faz as necessidades, quer vir para casa. E eu, como tenho que almoçar e geralmente não tenho muito tempo, também não me importo.
Leia ao ar livre
Leia no jardim, seja ele privado ou público, na varanda, no parque, numa esplanada -- onde for. E se não há jardim ou varanda, coloque uma cadeira ao pé da janela e abri-la. Por vezes ler ao sol é difícil. Pelo menos para mim é. O excesso de luz, incomoda. Então agora descobri o antídoto perfeito. Uso um boné daqueles que têm uma pala comprida. Dá um jeitão.
Coma bastantes saladas e frutas
Frutas e saladas são uma fonte de bem estar. Em todas as minhas refeições como salada (alface ou canónigos ou tomate, temperada com azeite e orégãos). A fruta é o meu ponto fraco. Como mais fruta do que devia e isso não é bom, tem açúcar a mais. Começo o dia com uma banana, uma laranja, meio abacate. Depois a meio do dia como uma maçã. Depois ao jantar como um kiwi ou uvas ou morangos ou nêsperas ou o que for de época. E, se há tangerinas e me dá a fome depois de alguma reunião, lá vai uma. Não deveria. Deveria cingir-me a três peças de fruta. Mas gosto imenso pelo que abuso.
Veja arte, de preferência em galerias ou museus
É daquelas coisas que faz bem à alma. Andar por lá, olhar, ficar parado a observar. Se houver bancos, ficar sentado a olhar. Por causa da covid e agora por causa do dog, isso são hábitos de que tenho andado arredada. Mas tenho que arranjar maneira de retomar. Museu de Arte Antiga, por exemplo. Depois vir para o jardim, olhar o rio, ficar sentada a sentir o fresco. Ou Gulbenkian. Ou outro qualquer. Não podendo, navegue por museus virtuais.
Faça arrumações
Despeje gavetas e arrume depois, tudo bem arrumadinho. Arrumar livros. É bom arrumar. Ver que fica tudo organizado e mais espaçoso. É uma boa sensação. Se for preciso, lave a roupa que estava guardada ou ponha-a ao sol, arrume depois, tudo mais direitinho, mais limpinho e organizadinho.
Experimente ir a sítios diferentes
Vá ao lançamento de um livro, ouça o escritor e o que os outros dizem dele. Se calhar é uma chachada mas não faz mal, ouvir gente que se acha é uma fonte de diversão. E, com sorte, pode ser interessante. Vá a uma conferência ao fim da tarde. Vá a um workshop de jardinagem, culinária ou maquilhagem. Vá a uma aula experimental de qualquer coisa. Inscreva-se num clube de leitura. Inscreva-se em aulas de dança. Ou seja, experimente, diversifique. Ouse.
Ouça reggae ou afins
No artigo to Guardian refere Country Music. Um estudo provou que quem ouve este tipo de música melhora a circulação e o seu estado físico. Contudo, para mim, se há coisa que me deixa automaticamente bem disposta e com vontade de dançar é aquela música toda ela boa onda que logo me faz lembrar Bob Marley. Podendo, é pô-la bem alto, abrir a janela e deixar que o corpo faça a festa. Dance, sorria, cante a plenos pulmões.
Invente um cocktail
Uma boa bebida, fresquinha, a olhar a paisagem e a ouvir música é do melhor que há. Se não é de bebidas alcoólicas não tem problema. Tenha uma água tónica fresquinha (ou uma água das pedras), tenha um sumo, misture outro, misture uma casquinha de limão ou de laranja, uma pedrinha de gelo. Ou uma folha de hortelã. Ou, gostando de um cheirinho, junte-lhe rum. Ou vodka. Ou gin. Um copo grande, uma bebida colorida, o olhar descansado a olhar coisa nenhuma. Relax. Feel good.
Faça umas tostas variadas e boas
Torre um pãozinho cortado fininho ou tenha tostas já compradas feitas. Ponha na mesa manteiga, queijinhos, compotas, orégãos, azeite, tomate, mel Misture. Saboreie. Coma com calma. Acompanhe com uma bebida boa. Tenha uma musiquinha boa a tocar. De preferência esteja na varanda ou, pelo menos, de janela aberta. Se tiver amigos que possa convidar para lhe fazerem companhia, melhor. Senão, fica para a próxima.
Esqueça as redes sociais
Viva o prazer de estar e ser sem ter que estar a partilhar o que está a fazer nem sinta curiosidade em ver o que os outros andam a fazer. Descubra o prazer das coisas em si. Desligue-se da opinião dos outros. Procure encontrar a felicidade por si, nas pequenas coisas.
Brinque e faça mimos a um cão (ou a um gato)
Se tiver um na sua família, melhor. Se não tiver, descubra algum amigo que o tenha e combine encontrar-se com ele. Se não, veja se descobre algum grupo de voluntários para passear cães. Ou veja se isso pode ser um extra ou um hobby na sua vida. Ter um cão, brincar com um cão, passear com um cão é do melhor que há. Se calhar o mesmo se passa com um gato ou com uma tartaruga mas isso não sei.
Aprenda a fazer arranjos em casa
Pinte móveis antigos, pinte vasos, dê vida nova a objectos velhos, aprenda a pendurar coisas, pendure um espelho junto às flores, transforme um copo numa jarrinha, arranje florzinhas (de verdade ou artificiais, mas bonitas), conceba recantos confortáveis na sua casa.
Abrace a vida
Queira ser feliz. Queira estar de bem com a vida. Afaste-se de pessoas complicadas e procure a companhia de pessoas que transportam a vida com leveza. Sinta-se agradecido/a por viver em paz. Aprecie os milagres da perfeição espontânea. Sinta-se com sorte e com a vida pela frente. Sorria. Abrace alguém. Deixe-se abraçar pela alegria de viver.
Etc.
Não vou continuar pois, com isto, já passa das duas da manhã. E os conselhos, vendo bem, poderiam ser infinitos.
A brava rapaziada da Ucrânia venceu a Eurovisão 2022 e eu acho que, por todas as razões e mais uma, é razão para festejarmos. A canção é bonita, eles são fantásticos e, depois, há aquele pormenorzinho da situação que o país atravessa que faz com que mereçam todo o nosso apoio. Seria bom que para o próximo ano já conseguissem acolher o festival para mostrarem ao mundo o que faz a força de um povo que não se acomoda e luta, com toda a sua energia e todas as fibras do seu corpo e alma, para se manter livre.
Kalush Orchestra - Stefania - LIVE - Ukraine 🇺🇦 - Grand Final - Eurovision 2022
A nossa Maro também esteve lindamente pelo que também está de parabéns.
Quando há uma guerra sangrenta desencadeada por gente lunática e tanta gente morre, tantas famílias ficam desestruturadas, tantas casas e infraestruturas ficam destruídas, será difícil dizer quem é que, no fim, a ganha. Todos terão perdido muito.
No entanto, desde o início da invasão da Ucrânia pela Rússia que se intui que, apesar de esfacelada e derrubada, com dores e marcas que jamais serão apagadas, com uma imensa reconstrução social, económica e humana pela frente, será a Ucrânia a grande e digna vencedora e a Rússia a grande e humilhada perdedora.
Desde o início, quando a população ucraniana se uniu em uníssono para declarar resistência até ao último pingo de sangue, desde que Zelenskyy mostrou estar à altura da vontade do povo, desde que os países civilizados se uniram para estabelecer a possível rede de protecção ao povo atacado -- que se começou a desenhar a força da liberdade e da democracia sobre a tirania e a oligarquia, sobre o poder de um psicopata rodeado de yes men e de clones.
Dispondo apenas da força bruta dos mísseis disparados sobre o que calha -- civis, escolas, hospitais -- e da animalidade desordenada de soldados em roda livre, a Rússia viola, destrói, assassina à queima-roupa, de costas, como calha, e esventra cidades, vilas e aldeias mas, sem equipamento sofisticado e sem tropas treinadas e motivadas, sem uma estratégia alicerçada em pragmatismo, sem uma coordenação suportada em planos B, C, D ou E, a Rússia falha no plano A e mostra que, não tendo nada mais na manga senão as ameaças parvas, a desorientação e a brutalidade que ainda fervilha no que sobrou da velha alma russa, vai acabar sujeita a humilhações diárias enquanto, certamente, proliferam ameaças e ajustes de contas internas.
Desde o início que vou lendo e ouvindo referências à saúde de Putin. Nunca se sabe bem o que é informação e contrainformação. Contudo, agora isso já se fala de forma quase generalizada. Não sei o que é que isso pode significar. Custa-me a acreditar, mas já não digo nada, que a ameaça nuclear possa vir a concretizar-se. Tendo sempre a acreditar que no fundo, lá muito no fundo, qualquer facínora guarda um fiapo de humanismo, talvez um esgarçado fiapo mas, ainda assim, o suficiente para nos salvar da grande e definitiva hecatombe. Mas sei lá se, nos estertores finais, algum moribundo não se lembra de se vingar acabando a sua vida no meio de um glorioso foguetório nuclear...
Também parece ser evidente que Medvedev, a bonequinha pateta gémea de Putin, a que não há muito referiu que o objectivo é ter uma Eurásia de Lisboa a Vladivostok, vem ensaiando falar com voz grossa.
No entanto, com a minha lente optimista, quero antever que o regime putinista será vaiado internamente, desprezado, renegado e que, daqui por algum tempo, nem memória de Putin nem sombra de Medvedev. E que a Rússia há-de reerguer-se, lavar-se da vergonha com que Putin a cobriu.
Seja como for, tal como ouvi a um militar cujo nome não memorizei, não há guerra que se vença contra uma nação. A Ucrânia vai vencer. E a Europa sairá reforçada e teremos pela frente uns abençoados tempos de reconstrução e pacificação.
E, no fim, perante a derrota em toda a linha da Rússia, perguntar-nos-emos: para que foi tudo isto? Quanto sangue, quantas lágrimas derramados... porquê? Para quê?
Quem saberá justificar às cinco crianças que ficaram sem a mãe porque é que a mãe foi assassinada? Poderá o filho mais velho, aquele em cujos braços a mãe morreu, esquecer a imagem da mãe morta na rua? Conseguirá falar desse dia sem que os seus olhos se encham de lágrimas?
Eighteen-Year-Old Ukrainian To Raise Siblings After His Mother Was Killed In Shelling
Vyacheslav Yalov's mother, Maryna, 37, was killed in the Donbas by Russian shelling as they walked home together. He has now been evacuated to western Ukraine with his two younger brothers and two younger sisters, whom he plans to bring up alone.
Tanto sofrimento em nome de quê?
'Extraordinary humiliation': Ex-CIA director speaks about key moment for Putin
Hoje é um dia importante na minha vida. Não o festejei senão ao fim do dia quando fui caminhar para a beira da praia. Aí, não é que tenha festejado como costumam ser os festejos. Aliás nem comentei com ninguém. Nem me lembrei de comentar com o meu marido. Mas descontraí, aspirei o ar húmido e perfumado, havia uma maresia quase palpável que me refrescou a alma.
E tanta gente, tanta. Na areia, na água, no passeio. Parecia um dia de verão, de férias. A paz é uma coisa muito boa, uma dádiva.
Durante todo o santo dia trabalhei. A principal reunião da manhã foi tão boa que valeu por um belo festejo. Aquela reunião não devia ter acontecido. Aconteceu a pedido dele. Eu não sabia de que se trataria mas também não perguntei. Gosto de ir para as reuniões (algumas reuniões) sem saber a quantas vou, sem me preparar, sem rede. É o que prefiro: ser surpreendida. E fui surpreendida e foi muito motivante.
Os últimos tempos têm sido algo surpreendentes. Daqui por algum tempo falarei nestas situações, mas falarei en passant, recordações que virão ao correr da pena. Agora não, é tudo ainda muito recente. Agora apenas afloro. E faço-o apenas para eu própria tentar perceber o que me acontece.
Outro assunto.
Por vezes tento contabilizar: quantos homens já choraram ao pé de mim? Não sei. E falo de homens pois é suposto ser menos frequente chorarem do que as mulheres. Não sei se chorarão ao pé de outros homens. Não o creio. Que efeito produzo nas pessoas (em algumas pessoas) que as faz desabafar, confessar anseios, chorar quando estão a conversar comigo? Não sei. Não sou de me pôr a chorar o que poderia ser contagiante, não tenho conversas de apelar ao sentimento. Nada. Acima de tudo gosto de ouvir, de tentar compreender. E, no entanto, acontece.
Neste caso, no outro dia, eu estava a ouvir, a olhar com atenção, estava em silêncio a tentar compreender os argumentos que me estavam a ser expostos. Não esperava que acontecesse o que aconteceu a seguir. No segundo antes de acontecer, ainda o não tinha o antevisto. E foi tão inesperado que quase fiquei paralisada. Depois falei. Mas durante o resto do dia fiquei a pensar no que se tinha passado. Contei ao meu marido. E não tenho parado de pensar.
Há uma coisa que não sei: quando uma pessoa que não costuma chorar -- que cultiva a imagem de ser forte, imbatível -- desmorona e chora como uma frágil criança, será que consegue relativizar, no seu íntimo, a dor que sente? Ou, no momento em que as dores se transformam em lágrimas, todas as dores são imensas, iguais?
Os tempos vão atípicos. A finitude vai tocando uns e outros, vai-se fazendo lembrada, por vezes de forma subtil, por vezes de forma ameaçadora. Todos caminhamos para o fim, bem o sei e bem mo lembram, frequentemente, alguns dos meus caríssimos ensimesmados leitores. Mas, enquanto dura a caminhada, se estivermos bem e felizes, se não nos lembramos disso -- não é preciso, para quê a gente se haveria de estar sempre a lembrar disso, a pensar que estamos a caminhar para o fim? -- é melhor. É lugar comum: o objectivo da caminhada não é o lugar onde vamos chegar, não é chegar ao fim, o objectivo é a própria caminhada, é o que vamos vendo, descobrindo, o prazer que vamos sentindo, as agruras que vamos superando, as memórias que vamos guardando (ou partilhando).
E, nessa caminhada, vamos tomando como grandes desafios ou grandes problemas, coisas passageiras, sem importância nenhuma. Mas, ao resolvê-los, ficamos contentes e esse contentamento torna a caminhada mais agradável.
E ainda mais um assunto.
No outro dia tinha uma coisa para dizer e, depois, meteram-se outros temas e acabei por não dizer. Digo hoje. Comecei um diário. Achei que era o dia certo. Nesse dia dei um passo importante. E, para o marcar, comecei o diário. Quis que fosse essa a primeira coisa a ser escrita.
Como sou muita dada a aspectos logísticos, comecei por criar uma pasta nos meus documentos. Pensei num nome sugestivo. Depois abri o documento de word e dei-lhe o nome. Depois escrevi a data, a primeira entrada, e comecei a escrever. Quando dei por mim, estava a escrever coisas que não interessavam para nada. Pensei apagar e começar de novo. Depois recebi um telefonema, depois isto e aquilo -- e não voltei a pegar-lhe. Nem ontem nem hoje. Há pouco, pensei que, se era para ser diário, mais valia escrever qualquer coisa em vez de escrever no blog. Mas, quando fui à procura dele, já não me lembrava do nome que tinha dado à pasta. Tive que entrar pelo word para encontrar o dito cujo. E agora estou aqui a escrever isto e a pensar que o melhor é esquecer aquilo. Não tenho disciplina para diários. Venho aqui ao blog porque isto é numa base anarca, escrita-livre: escrevo sobre o que calha e não me preocupo em ter uma sequência coerente. Num diário, digo eu, haveria de ser mais organizada na escrita, mais dissertativa. Não é para mim.
Enfim.
Bem, distraí-me e falei de tudo e de nada e não expliquei porque é que foi um dia importante para mim. E agora já é tarde.
E, agora, para que não se pense que me esqueci da suprema cavalgadura, aqui está ela. Sempre tive para mim que um tipo que nem sequer sabe estar à mesa é para esquecer. Olhem bem para este animal aqui abaixo. Tira um bocado, inspecciona, volta a pôr no prato. Um burgesso, um trongalaronga que nem sabe estar nem conversar. Se não tem maneiras para estar à mesa, como haveria de ter maneiras no resto?
Nem vale a pena a gente perder muito tempo com uma besta destas (pardon my french), há-de cair por si.
(Quanto ao pormenor da bota acho que também não há muito a dizer. É a kultura, dirão os amantes da grande alma russa. E o que eu tenho a dizer é que sim, sim, está bem, abelha)
Volto a ler -- aqui e ali, com mais ou menos sal e pimenta, com mais ou menos sofisticação -- que os ucranianos, os ocidentais, os americanos, os civilizados e outras aves que tais é que provocaram o coitado do Putin que apenas queria anexar a Ucrânia.
Dizem, aberta ou veladamente, que esta guerra teria sido evitada se a Ucrânia tivesse aceitado deixar de ser um país, se os seus cidadão tivessem aceitado ser russos e se nunca tivessem tido a veleidade de pertencer a qualquer associação que os defendesse caso Putin resolvesse pô-los com dono à viva força.
Defendem que muitas vidas e muito sangue teriam sido poupados se tivesse sido feito a vontade de Putin e dos seus acólitos.
Talvez fosse verdade.
Se a deixassem, a Mãe Rússia poderia voltar a sentir-se imperial, big mamma Russia. E a seguir poderia ir buscar o que Mikhail Gorbatchov, esse looser, deixou que se perdesse. Old mamma Russia poderia voltar a sentir-se imensa, medieval e poderosa. Poderia sonhar como os czares sonharam. Ah... os grandes salões dourados, os imponentes tronos, as intimidatórias mesas de seis metros, as tapeçarias, os espelhos, a obediente guarda de honra... tudo isso serve para quê quando a Rússia está reduzida à Rússia...? Porque haverá de haver quem tente impedir a sacred mamma Russia de anexar mais territórios?
Assim, contrariada, coitada da mamacita Russia, tem que invadir, violar, torturar, matar, passar por cima, destruir, reduzir a pó, roubar a Ucrânia e os ucranianos.
Putin não se importa, claro. Não obedeceram têm que pagar. Nada de mais. Mostra ao mundo que é o legítimo herdeiro dos czares. Forte. Capaz de todos os crimes deste e de todos os mundos. Impiedoso. E quem diz herdeiro dos czares diz de Estaline. Olha-se ao espelho e humildemente acha que ainda tem algum caminho para andar, muita gente para matar, até que fique ao lado do paizinho Estaline.
O mundo pode olhar com perplexidade para tamanha estupidez, tamanha burrice, tamanha depravação, tamanha barbaridade, que ele, o insuflado Putin, e os seus devotos, não estão nem aí.
Ele porque, para ele, só ele existe e quer lá ele saber da opinião dos que o criticam ou da dor dos que sofrem.
Os outros, os devotos -- uns porque acham que Putin, por ser russo, ainda representa o comunismo, outros porque acham que ele é o representante dos grandes mestres da cultura russa, outros porque gostam de se pôr do lado dos invasores e dos assassinos, outros porque nasceram para ser escravos e gostam de ser espezinhados e outros porque simplesmente gostam de ver os outros a serem reduzidos a nada -- defendem-no porque estão sempre ao lado dos que tentam sugar a alma dos outros. Esses continuam a defender Putin, o burro, cobarde e assassino Putin. E, pelo contrário, acusam os que não se deitaram no chão para que ele lhes passasse por cima.
Este mundo é assim. Uma tristeza. Enquanto houver assassinos torpes e insensíveis e gente que cegamente os defenda, este mundo será um lugar muito perigoso, muito triste.