quinta-feira, dezembro 23, 2021

Sugestão de presentes natalícios para homem.
E, a propósito (ou talvez não), a evolução da lingerie feminina ao longo dos tempos



 


Para quem ainda tenha presentes por resolver, caso se trate de presentes para homens, aqui vão algumas dicas: que sejam coisas úteis, bonitas, de preferência com qualquer coisa de não banal. Desejavelmente que não sejam muito dispendiosas, que não sejam pretensiosas, desejavelmente que façam sorrir quem as recebe.

Em tempos, quando se fumava, poderia oferecer-se um belo isqueiro ou uma cigarreira. Uma vez ofereci ao meu marido uma cigarreira em prata na qual mandei gravar duas das iniciais do seu nome. Também se poderia oferecer uma bela caneta. Gostava de oferecer canetas. Numa escrivaninha há uma pequena gavetinha com canetas lindas (creio que por estrear). Agora já só se escreve no computador, canetas só para uma emergência e, de preferência, que sejam bic. 

Claro, há os livros. Para quem gosta de ler, é sempre presente seguro. E, de resto, se não gosta de ler, não merece presente. Aliás, não merece é nada. Homem que não goste de ler é homem sem h, é omem sem qualquer préstimo. Portanto, nos presentes para homem (homem com h, como é evidente) livro é âncora, é um must. 

Mas também pode ser uma guloseima, doce ou salgada. Requer alguma criatividade ou pesquisa atenta mas, em havendo, é garantido. Claro que comporta algum risco. Imagine se a gente vai dar ovo de perdiz a quem tem horror a bicho e a qualquer seu subproduto...? Mas, em conhecendo bem a criatura, é de arriscar. Acho que não há quem não goste de uns comes. Só se for um biquinho de rosa, uma mariazinha. Mas dessas também não reza a história, esta história.

E há as camisas, claro. Há as que são feitas à medida, com monograma. Para mim isso é muito betinho mas conheço muito bom menino que é do que papa e que diz que não é betinho. Mas está bem, abelha.

Contudo, reconheço, camisas é coisa muito pessoal. Dantes oferecia ao meu marido. Agora está como eu: diz que não precisa de mais. O meu filho, sim. Mas o meu filho é bem mais exigente que o pai. Sabe qual o porte, sabe qual o corte. Não é fácil agradar-lhe. Tem que se ter cuidado ao oferecer uma camisa a um homem. Quando escolhia camisas para o meu marido também sentia alguma dificuldade pois eram sempre brancas ou, excepcionalmente, em azul muito claro. Para conseguir que não fossem exactamente iguais, tinha que me esforçar. Mas eu é que queria que não fossem sempre exactamente iguais pois, por ele, não havia qualquer problema nisso.

Ou alguma coisa que a gente ache que faz falta. Dou um exemplo. O meu marido recusa-se a usar calças que pareçam mesmo que remotamente de fato de treino. Usa jeans. Em casa é o que usa, verão ou inverno. Mas agora, de chuva e com o urso felpudo a pôr-lha as patas nas calças, andam sempre sujas. E custam a secar. Passo a vida a dizer-lhe que, para estar em casa, seria mais prático umas calças mais confortáveis. Nem queria ver os modelos que eu lhe escolhia online. Mas eis que um dia o apanhei de feição e lhe mostrei umas que pareciam macias, elegantes, quentinhas por dentro (quentinhas mas não muito, claro). Não disse redondamente que não. Aproveitei o esboço de receptividade e encomendei dois pares para o Natal. Já as viu e experimentou umas pois ainda estava naquela de que, se não gostasse, se mandava de volta. Gostou, sentiu-se bem com elas. E começou a usar um par. Até o cão, quando ele as vestiu pela primeira vez, ficou parado, admirado. Cheirou-lhe as pernas e ficou  pensativo, intrigado com o volte face.  

Uma outra hipótese para pessoas do sexo masculino que tenham algum sentido de humor são cuecas ou boxers. Não sei se os homens, quando escolhem a sua roupa interior, privilegiam o seu gosto e conforto ou se também têm em conta o gosto das mulheres que o veem. Do meu marido eu sei: acho que nem faz ideia do que eu prefiro, apenas pensa no seu próprio conforto. Claro que o conforto é essencial mas não sei se tem que ser o único critério. Mas, enfim, já se sabe que os homens são mesmo algo limitados no que à empatia diz respeito. 

Podia aqui dizer qual a marca de cuecas ou boxers de melhor qualidade, que se ajustam melhor ao corpo, que não alargam nem desfalecem e que, por sinal, até têm um preço muito acessível. Mas não digo não vá as janitas e as antonietas desta vida ainda me aparecerem por aí a sugerirem que sou accionista da marca. Quem me dera. Não sou. Mas não digo. Quem quiser que adivinhe.

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Já agora. Quem queira saber como evoluiu a moda no que ao underwear masculino diz respeito, pode ver o vídeo abaixo. Tem graça.

Eu o que tenho a dizer em relação a ele (ele = vídeo) é que tenho pena de não ter sido eu a estar ali, a filmar. Tirando disso, por mim está tudo bem.


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Como não sou tendenciosa, aqui vai o vídeo fêmea do outro.

A evolução da lingerie feminina


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Desejo-vos um dia muito bom
Saúde. Janelas abertas. Boa disposição. Máscara. Cuidado. Boa sorte.

quarta-feira, dezembro 22, 2021

Uma das grandes diferenças entre o MasterChef Australia e o MasterChef Portugal é que o primeiro nos inspira e nos desperta para um mundo de possibilidades

 


Gosto de cozinhar. Mas, pela minha maneira de ser ou pela permanente falta de tempo para o tanto que sempre tenho que fazer, nunca me dá para fazer cozinhados muito elaborados. Também não sou de consultar ou, muito menos, seguir receitas. Sou de improvisar e de me deixar guiar pelo instinto. 

Por isso, não sei de técnicas ou truques. Simplesmente, vou fazendo, arriscando, provando, ajustando.

Contudo, também aqui como em tudo na minha vida, aquilo que aprecio não é, em geral, aquilo que faço. 

Já o contei: se vissem as pinturas que adquiri e tenho nas paredes, cores neutras, abstractas, não acreditariam nas coisas que pinto, coloridas, provocantes. São o oposto. É como os blogs. Aprecio-os discretos, contidos, com pouco espalhafato, neutros na cor, minimalistas na forma e no conteúdo. O oposto do meu. Não sei porque é isto. 

Ao comentar esta desconformidade, pessoa entendida e que muito prezo escreveu uma coisa sobre mim que me agradou. Transcrevo:

Tem que ver o lado positivo das coisas. Essa contradição permite-lhe juntar um gosto que apesar de não praticar é alimentado teoricamente e uma prática que igualmente aprecia embora a teoria lhe diga o contrário. Perfeito!:)

Tendo a levar a sério o que ele escreve pelo que não tenho por que duvidar que, desta vez, se tenha enganado. Portanto, aceito e agrada-me. Ou seja, acredito que não seja uma doida varrida mas, sim, alguém que consegue conjugar vertentes contrárias.

Isto para dizer que gosto de provar e de ver fazer pratos com criatividade, sofisticação e cuidado na confecção e... no entanto, quando vou para a cozinha é meia bola e força.

Quando falo com a minha mãe, ela refere-me frequentemente esta ou aquela que vão ao programa desta ou daquela. Nunca sei de que fala. Cada vez me falta mais a paciência para prestar atenção ao que dá na televisão. Programas nacionais, então, evito. Parece que está tudo contaminado pela maledicência, pela superficialidade, pela ausência de rigor e de lógica. 

Isto não é um bolo
Mas é televisão e, pelos vistos, também a rádio. 

No outro dia, ia de manhã no carro, estava no Fórum TSF e entrevistavam a Graça Freitas. De uma forma muito objectiva e clara, ela falava dos riscos acrescidos da Ómicron e da conjugação com os riscos acrescidos da época festiva, em que as pessoas tendem a juntar-se em casa, isto é, em ambientes fechados. Dizia ela que é bom conviver mas que não devem ser descuradas as várias camadas de protecção: em primeiro lugar a vacinação, mas também a máscara, o afastamento (possível), o arejamento, a higienização das mãos. E tudo num registo pedagógico de bom senso e afabilidade. Pois bem. A seguir, abriram a antena para o público e, para meu espanto, apareceram uns estupores que falaram com voz irritada como se tivessem ouvido outra coisa, muito diferente do que ela tinha dito. Um dizia que era tempo de acabar com tanta mentira, que há não sei quanto tempo que andam a prometer que vão acabar com a epidemia e que afinal nunca mais acaba. Outro dizia que a Drª Graça e outras pessoas parece que vivem numa cúpula a falarem de usar de máscara como se fosse possível na casa dos pais em Trás-os-Montes convencer alguém a andar de máscara ou a abrir a janela, com o frio que está. E falavam com voz irritada, zangados com a Graça Freitas e contra incertos. Nada do que diziam tinha a ver com o que ela, acertadamente, tinha aconselhado. Limitavam-se a dizer baboseiras, despejando irritação para cima de quem merece agradecimento e não palavras desagradáveis. 

Parece que as pessoas, ou algumas delas, andam parvas, maldosas, venenosas. 

Mas até nos blogs. Volta e meia leio coisas que me deixam perplexa. Penso: mas esta gente lê ou ouve ou vê o mesmo que eu? 

De pessoas ou conversas assim eu guardo distância. Fujo. Se necessário, até que desamparem a loja, fico anos isolada, a deixar crescer o cabelo e a barba, numa toca no meio do deserto. Gente rancorosa é tóxica, corrói a alma, a carne e os ossos de quem está por perto. Xô.

Bem. Mas isto para dizer que há um programa que não perco (excepto quando adormeço...), que me deixa de queixo caído, que me deixa maravilhada, que me deixa com pena de não ter tanta imaginação e habilidade e conhecimentos -- o Master Chef Australia.

Uma coisa extraordinária. Uma permanente superação. Num ápice aquelas pessoas têm ideias, decidem o que fazer, como fazer, num ápice a mestria ganha asas. Aparecem pratos artísticos, aparentemente gostosos, gulosos, elaboradíssimos, verdadeiras obras de arte. 

Bolas. Se estou bem acordada, nem tolero que a minha atenção seja desviada para o que quer que seja. Ver aquilo ali é a gente assistir a milagres que acontecem once in a life time. Que me desculpem os muito crentes mas vou mesmo dizer uma heresia: assistir aos milagres que ocorrem nas bancadas do Master Chef Australia é mais emocionante do que ver aparecer a Nossa Senhora a pairar numa azinheira.

Em contrapartida, no outro dia, pela segunda vez, calhei passar pelo Master Chef de Portugal. Nem dá para perceber. O que é que aconteceu para aquilo ser assim? Não havia melhores candidatos? Somos um país de pés de chumbo culinariamente falando?  É que tudo aquilo, ao pé do de Austrália, é coisa brega, indigente, paupérrima, coitadinha. 

Porque é que chamam àquilo MasterChef? Engodo para atrair gente distraída como eu?

Não me parece nada bem. Devia haver limites para a publicidade enganosa.

Não sei como funciona isso pois supostamente deveria haver padrões de qualidade e exigência uniformes ou, pelo menos, equivalentes. Mesmo a nível de júri. O trio australiano tem pinta, tem graça, tem espontaneidade, tem entusiasmo, imprime ritmo e uma permanente boa onda. O trio português não descola, não tem pingo de piada, não tem jeito, não agarra nem chama audiências. Nem voz têm, parece que falam com a voz agarrada ao rabo. Não têm culpa, claro. E há ainda outra coisa: lamento dizê-lo mas parece que não sabem alimentar-se de forma racional, pouco calórica. E até acho que devem ser simpáticos. Não precisavam era de ali estar. 


Dito isto. Ainda não comprei parte dos mantimentos para o jantar da véspera nem sei bem o que comprar. Também ainda não separei os presentes por destinatário, não tenho embalagens nem papel de embrulho, nem vejo quando vou tratar disso. Para agravar a situação, sinto preguiça. Apetecia-me ter férias para poder dedicar-me ao espírito natalício, mas dedicar-me como deve ser, com vontade de pôr luzinhas em grinalda à minha volta e tudo. Apetecia-me não ter que fazer nem resolver nada a nível profissional durante uns dias, apetecia-me que não me colocassem não sei quantos problemas por dia, apetecia-me ser artista para fazer pratos surpreendentes, apetecia-me que cá em casa fossem todos de boa boca para eu não me sentir inibida a inventar misturas malucas, apetecia-me que não fossem uns gozões da pior espécie para não sentir receio de que, se a coisa desse para o tordo, fizessem pouco de mim durante anos (como acontece só porque uma vez me esqueci de uma colher dentro de um bolo). Olhem, apetecia-me nem sei bem o quê. Essa é que é essa.

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Desejo-vos um dia bem passado
Alegria. Saúde. Máscara. Cuidado. E força nisso.

terça-feira, dezembro 21, 2021

O meu querido Alf

 

Não dou novidade a ninguém: choveu que deus a deu. Junto à hora de almoço, pus o pobre coitado do ouso peludo na rua e pirei-me. Não dá para deixá-lo fechado e sozinho em casa. Com o vento a dar na chuva, até debaixo do terraço e do toldo da cozinha a bandida caía. 

Mas, embora de coração apertado, lá fui. Consolo-me pensando que aquilo ali é bicho do campo, não de sofás, cadeirões e chaise-longues.

No domingo tinha trazido do viveiro quatro plantas para pôr junto a uma pequena vedação e afinal percebi que deveria ter trazido cinco. E tinha trazido também um jasmim que tinha pensado pôr num vaso e afinal o vaso que era para ser não dava. Por isso, porque quando é para fazer uma coisa, só quero é tê-la feita, meti-me no carro e fui até ao viveiro.

Debaixo de chuva, abasteci-me. Há anos que ouvia falar mas nunca lá tinha ido. De facto, é um lugar especial. Gostei imenso. Quase parece um jardim botânico. Tem árvores, arbustos, flores, rochas, caminhos, recantos. 

E tem também muitos vasos, de barro, de terracota, de pedra, vidrados. Uma big tentação.

Quando regressei, a fera, coitadinha, pingava. Deu-me uma pena...

Limpei-o e ele, coitado, deixou-se limpar. Curiosamente dá ideia que, junto à pele, na maior parte do corpo, não estava molhado. Sobretudo parecia molhado na barriga, onde tem menos pelo. Mas, nitidamente não estava enregelado nem especialmente incomodado. A mãe natureza sabe o que faz.

O meu marido chegou a casa a seguir e, como havia uma aberta, fomos fazer uma caminhada. 

As ruas tinham lagos e choveu parte do tempo. Mas o bicho cabeludo nem aí, na maior, feliz da vida.

Ao regressar a casa, fui ao quarto mudar de roupa. 
Ainda não tinha feito a cama. De manhã gosto de deixar a cama a arejar, a janela do quarto aberta. Já agora: tinha sido mudada de véspera. 
Eis senão quando o urso entra disparado e, num salto, se pôs lá bem no meio. Depois ficou sentado, ao alto, olhando-me bem de frente, como que a perguntar: 'Qual é o mal?'. E eu, furiosa, 'Chão! Chão' e ele, todo contente, a experimentar a fofura do colchão, rodopiou e voltou a instalar-se. Gritei: 'Chão!'. E ele molhado, impávido e sereno. Disse-lhe as palavras mágicas: 'Ai é? Ficas aí?' e virei-lhe costas. Num salto, pôs-se no chão e veio atrás de mim.

Resultado, roupa de cama toda para lavar.

Estávamos a jantar, apareceu uma cabeça felpuda à altura da mesa. Espreitou e por pouco não saltou para a cadeira para se pôr à mesa. E eu só me lembrei do meu estimadíssimo Alf. Peludo, mal comportado, irreverente, levado da breca.

Não sei se já vos contei. Eu era fã do Alf, fãzaça. Não perdia. Ria que me fartava. Como não sou saudosista até tendo a esquecer-me do que gosto (e de quem gosto). Mas, se me lembro, às vezes sinto mesmo algumas saudades. Do Alf, por exemplo, sinto. E aí está uma série que bem poderia ser continuada. Pelo menos não teria aquela coisa realista e desagradável de aparecer grisalho, enrugado e mal encarado. Bicho felpudo e do além como é, haveria de estar pandegamente igual. 

Há lá coisa melhor e mais divertida do que um animal (ou homem) inteligente, bem disposto e mal comportado?

[Desde que não morda, claro. E, bem entendido, desde que não me roube as meias. E, claro está, desde que não me salte para a cama sem ser convidado.]

Qualquer dia começo a fazer listas para quando me fazem perguntas eu ter algum material de apoio. Por exemplo, aquilo de perguntarem qual o personagem preferido. Na volta ainda me daria para me tentar lembrar de personagens literários de livros ou de grandes filmes e esquecia-me dos que, na realidade, mais me entusiasmam. O Alf, por exemplo, é um deles.

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Um cheirinho dele

[Não encontrei com legendas de Portugal]







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Desejo-vos uma bela terça-feira, mesmo que chova a potes
Saúde. Risota. Força nisso.

segunda-feira, dezembro 20, 2021

Desta vez sou eu que respondo ao Questionário Colbert

 


Sanduiche preferida?

Às vezes, ao almoço, comia uma sandes. Agora já não, ando a ver se como menos pão. Adoro pão mas quero ver se não engordo mais do que a conta. Mas, a escolher uma que comesse de bom grado, talvez feita em pão de sementes com alface, uma fina rodela de tomate, ovo cozido, salmão fumado. Também gosto de sandes com ovo mexido e, como verde, canónigos.

Coisa minha que deitaria fora?

Um chinelo roído (pela fera felpuda, claro). Ainda não deitei pois o outro está bom. Chateia-me deitar fora coisas que estão boas. 

Animal mais temido?

Cobra. No campo há algumas. Quando vou a andar e ouço daqueles barulhinhos tão típicos no campo, por vezes penso que ficaria assustada se uma viesse na minha direcção. Vi uma vez uma cobra a perseguir um rato e a comê-lo. E o pior é que o ratinho estava tão apavorado que se deixou comer. Penso que comigo aconteceria o mesmo. A cobra poderia engolir-me que eu, tal o pavor, nem me mexeria. Acho que uma cobra sibilante e sinuosa me daria um medo paralisante.

Maçãs ou laranjas?

Laranjas. Gosto muito de laranjas. Na época delas, e agora é quase sempre época delas, como uma laranja todos os dias (ao pequeno almoço). De todas, as laranjas da laranjeira mais antiga da minha mãe são as melhores. De longe, as melhores. Doces, sumarentas, frescas e bonitas.

Já alguma vez pedi um autógrafo?

Sim. Numa livraria no Chiado, vi o Fernando Namora. Gostava muito dos seus livros. Já os tinha lido todos. Então, fui à estante buscar um livro dele e pedi-lhe um autógrafo. E, feita estúpida, ofereci o livro ao meu namorado da altura. Foi-se, pois.

O que acontece quando morremos?

Descansamos. Deixamos de ser vistos como éramos. Apareceremos por aí de outras maneiras: uma árvore, um tapete de musgo junto ao tronco dessa árvore, um gato, uma nuvem, uma suave aragem, uma boa recordação. 

Filme de acção preferido?

Braveheart. Não sou grande apreciadora de filmes de acção. Este foi aquele de que primeiro me lembrei. Tenho ideia de que era um filme poderoso. Tenho ideia do Mel Gibson ter um poderoso grito de liberdade. Freedom!

Cheiro preferido?

O que sinto quando caminho in heaven. Uma mistura de pinheiro, de cedro, de eucalipto, de alecrim, de rosmaninho, de silencio e de paz. 

Pior cheiro?

Borracha queimada. Lixo. Batatas podres.

Exercício: vale a pena?

Claro que sim. Mas que pareça espontâneo. Caminhar, todo o ano. Nadar, no verão. Varrer, todo o ano. Rir, sempre.

Liso ou cintilante?

Não sei se percebo a pergunta mas, em abstracto, simples, liso, sóbrio.

App mais usada no meu telemóvel?

Google maps. O GPS do meu carro é estúpido. Prefiro o google maps. Mesmo para andar a pé, uso quando estou num sítio novo. O pior é quando me manda ir para noroeste ou coisa assim pois nunca sei para que lado fica isso. Nunca consigo situar-me. 

 Se só pudesse ouvir uma música até ao fim da vida, qual seria?

Lili Marlene. Gosto de tudo mas, sobretudo, do simbolismo. E, sobremaneira, na interpretação de June Tabor.

Em que número é que quem faz a pergunta está a pensar?

225.

Como descrever o resto da vida em cinco palavras?

Presumo que a pergunta se refira a como gostaríamos que fosse o resto da nossa vida. A ser isso, em cinco palavras: feliz, independente, interessante, venturosa, plena.
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Sugiro-vos, Caros Leitores, que, na falta de melhor alternativa, também respondam. 

Meryl Streep e Sting juntam-se-nos à conversa com Stephen Colbert.




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Pinturas de Walter Launt Palmer 
ao som, aqui pela milionésima vez, de June Tabor a interpretar, justamente, Lili Marlene

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Desejo-vos, meus Caros Leitores uma boa semana a começar já por estar segunda-feira
Boa sorte. Alegria. Saúde. Ânimo.

domingo, dezembro 19, 2021

Ghislaine Maxwell e Jeffrey Epstein, dois personagens ainda por desenhar

 


Haverá documentários, filmes, séries. Nuns casos os holofotes incidirão nele, noutros incidirão nela. 

Não tenho tempo para acompanhar de perto. Vou apenas lendo os títulos, tentando estabelecer as ligações, perceber de que se trata. Por isso, posso não ser muito precisa no que vou dizer. 

Se dele poucas dúvidas restam de que se tratava de um simpático e cativante predador, riquíssimo, rico para além do usual, socialmente bem aceite apesar de se lhe conhecerem as preferências, já dela, quanto mais sei (e quase nada sei), menos percebo. 

Qual o papel dela? Que necessidade tinha ela de se prestar àquele papel? E o que me parece é que não o fez por necessidade mas por prazer. Ou talvez eu não esteja a colocar bem as coisas, talvez devesse dizer que não o fez por estar a ser compelida a isso por ele mas porque necessitava disso para se sentir completa. Talvez gostasse de ser angariadora de meninas, talvez gostasse de tocar o corpo de meninas, talvez gostasse de assistir a violações. Talvez seja, apenas, a cúmplice de Epstein. Não a namorada mas a amiga, a companhia dedicada.

Talvez tão doente fosse ele como ela o é.

Ele convidava Trump, Clinton, o Príncipe Andrew e tantos outros -- e eles iam. Iam no avião particular dele, iam para a sua ilha privada ou para uma das suas mansões. Porque iam? Porque ele era muito rico e estarem na companhia de uma pessoa muito rica faz bem ao ego de algumas pessoas? Acho que talvez seja mesmo isso. 

Conheço algumas pessoas muito ricas. Um deles, muito, muito, muito rico gosta de cozinhar para os amigos chegados, gosta de convidá-los para as suas casas e para o acompanharem nas suas viagens. E os que são convidados alimentam-se dessa amizade como se merecerem esses convites e merecerem estar perto e partilharem a privacidade de um homem tão rico fosse o alimento de que necessitam para se sentirem igualmente importantes. Sujeitam-se aos horários exigentes e à hiperactividade desse homem muito rico, sujeitam-se a tudo, e sujeitam-se voluntariamente e felizes por isso, porque, genuinamente, se sentem como se estivessem sentados à direita de deus-pai-todo poderoso.

Não será exactamente assim mas apenas um pouco assim para os que frequentaram as casas de Jeffrey Epstein. Alguns terão partilhado também as adolescentes que eram abusadas pelo multimilionaríssimo Epstein. Outros talvez apenas as boas casas, o bom vinho, as piscinas, as praias, o deboche das conversas sobre dinheiro e sobre mulheres.

Oriundo de uma família de poucas posses, Epstein foi subindo, subindo, foi empregado, foi despedido, muita ambição, muita sedução e sorridente assertividade, depois já era consultor financeiro e finalmente já era dono de empresas que negoceiam fundos, nomeadamente os hedge funds e outras cenas perversas geradas e alimentadas pela especulação. Andando movido a adrenalina, alimentado pelo poder do risco e da movimentação de muitos milhões, com uma sexualidade que pedia carne nova, Epstein devia viver naquela realidade paralela na qual vivem os que enriqueceram muito e muito depressa e que começaram a habituar-se a ter à sua volta muita gente disposta a servi-los ou a acompanhá-los.

Mas...e Ghislaine? O que a movia_?

Rica de berço, filha do magnata Robert Maxwell com quem trabalhou, Ghislaine conhecia, desde sempre, o conforto das boas casas e o conforto que uma carteira recheada proporciona. 

Quando o pai morreu, mudou-se do Reino Unido para os Estados Unidos, criando um grupo sem fins lucrativos para proteger os oceanos. E, em paralelo, começou a colaborar com Epstein. Mas a colaboração era uma colaboração invulgar. Se Epstein tinha muito dinheiro, Ghislaine conhecia tudo o que era gente rica e importante. Uma colaboração virtuosa, assim parecia.

Só que a colaboração aparentemente não tinha a ver com negócios. Andando frequentemente juntos e abraçados, muita gente os tomava por namorados. Tinham-no sido, em tempos e, ao que parece mantiveram-se bons amigos. Ela casou-se e teve filhos mas a bizarra proximidade a Epstein manteve-se. 

Mas o que se passava é que Ghislaine sempre fez tudo para agradar a Epstein e, para lhe agradar, nada melhor do que angariar meninas para satisfazer o seu apetite voraz. Via meninas aqui e ali, contactava-as, prometia-lhes que lhes apresentaria uma pessoa que gostava de realizar sonhos.

E levava-as até às suas casas. Lá parecia ser a governanta. Ghislaine não apenas levava as meninas até às ricas mansões como até aos seus quartos. Até às suas camas. Muitas vezes ficava a assistir, muitas vezes participava nas sessões de massagens altamente erotizadas.

Pelo meio, ameaçava as jovens de que correriam risco de vida se falassem no que ali se passava. Ele fazia o mesmo. Ameaçava-as, obrigava-as a obedecerem a Ghislaine. As jovens sentiam-se presas, amedrontadas, culpadas. Calavam-se e obedeciam.

Até que um dia algumas começaram a falar.

Jeffrey Epstein foi julgado, foi preso. E um dia apareceu morto.

Ghislaine foi presa mais recentemente. Está agora a ser julgada. As meninas que angariou são agora mulheres adultas que descrevem o que ela fazia e dizia. Desejam a sua prisão, dizem-na perigosa, dissimulada, egocêntrica.

Diz-se que se arrisca a apanhar trinta anos de prisão.

Ninguém consegue explicar o que a levou a fazer aquilo. Tara? Pancada da pesada? Um narcisimo agudo que a levava a ignorar as consequências dos seus actos? Qualquer coisa ainda por descobrir?

Não faço ideia.

O que agora achei mais surpreendente é que, estando a ser julgada por tráfico sexual de menores e sendo proibidas as filmagens ou fotografias na sala de tribunal, é permitido que sejam feitos desenhos do que lá se passa. Jane Rosenberg é a desenhadora oficial. É através dos seus desenhos que a comunicação social consegue ilustrar as notícias do julgamento.

Pois bem. Para espanto geral não apenas Ghislaine se apresenta descontraída dizendo que não vai defender-se porque os acusadores ainda não apresentaram nenhuma acusação de jeito como pediu papel e lápis de cor e agora, em vez de se concentrar exclusivamente no que lá se passa e na sua defesa, também desenha. Desenha a desenhadora.

Enquanto Jane Rosenberg a retrata, Ghislaine retrata Jane a desenhá-la a ela. E isto, sim, isto eu acho ainda mais extraordinário.

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Para quem não esteja a par deste caso que ainda terá muito que contar, aqui ficam dois vídeos.

Inside the wicked saga of Jeffrey Epstein: the arrest of Ghislaine Maxwell | 60 Minutes Australia


Ghislaine Maxwell accuser shares new details of alleged torture in new book


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Quem tiver a explicação para isto, que se chegue à frente e diga.

Desejo-lhe, a si, um belo dia de domingo

sábado, dezembro 18, 2021

Saltos altos, Chanel Nº5 e as animadas ruas de Lisboa -- até me pareceram the good old times

 



Estive a dormir até há pouco. Um sono profundo. Já passa da uma da manhã e só agora acordei o suficiente para escrever qualquer coisa. Pedrada de sono. Depois de jantar, sentei-me aqui e apaguei.

Tive que me levantar muito cedo. A noite anterior tinha sido quase em branco e esta sexta-feira voltei a não ter tempo para dormir o suficiente. 

Ainda por cima, de véspera não tinha pensado na roupa, como dantes fazia. Levantei-me, estremunhada e sem ideia do que iria vestir.

Penteei-me e o cabelo estava solto e desordeiro demais. Pensei em prendê-lo em cima ou dos lados. Mas depois, pensando melhor, concluí que era assim mesmo que ia, na base da despenteação. 

Claro que, quando assim é, o resto não pode ficar atrás.

Ou seja, instantaneamente pensei que era dia de me montar em saltos altos. 

Fui à sapateira e hesitei entre uns de salto razoável e uns bem altos. Nestas coisas funciono na base da irracionalidade. Nem tento encontrar explicação. Experimentei e confirmei que era mesmo nas alturas que queria sentir-me. Depois, se os sapatos eram pretos, as calças teriam que ser pretas. Corte direito, levemente afunilado. Fiquei contente por ver que caibo tão bem nelas quanto antes de termos ingressado na era do novo normal. A seguir, pensei que aquele casaco meio comprido em verde-dourado ficaria a condizer com o meu estado de espírito. Matei o puzzle com blusa fina da mesma cor com umas leves flores abstractas em branco e uns quase inexistentes laivos de azul claro. 

Depois de assim vestida, procurei o colar. Um comprido com pérolas pequenas com umas quantas pedras em água-marinha. Pareceu-me que era o match perfeito.

Procurei uns brincos. Pequenas borboletas em verde, dourado e azul claro, com pedrinha de brilhante para os indispensáveis pontinhos de luz.

Já estava atrasada, não descobri a aliança. Levei um simples anel com uma água marinha.

Tive pena de ter que usar máscara pois a ocasião pedia uns lábios a rigor. Mas isto não vale a pena a gente querer o que não tem. Portanto, os lábios saíram da equação. Os olhos já estavam com o smoky grey. Nem máscara nas pestanas eu uso. Simples que te quero simples.

Para finalizar, fui ao closet e abri a porta da estante em que imperam os sentidos. Perfumes. Não hesitei. Número 5, como é óbvio. 

Mal me perfumei senti l'allure of the good old times. Não há outro perfume que pouse em mim desta forma íntima, alada, subtil.

Como tem acontecido noutras vezes, voltei a usar o parque público. Não apenas me permite caminhar a pé nas ruas da belle Lisbonne como, no edifício, consigo passar incógnita, sem que saibam que lá estou. Só aqueles com que me cruzo me detectam. Os outros, quando descobrem que lá estive, já lá não estou.

Comme d'habitude fui para o último piso, para uma das salinhas secretas. Das melhores vistas da cidade, do rio. 

A conversa durou até à hora de almoço e foi boa. Conversa muito franca, por vezes muito pessoal. As nossas fragilidades, as nossas inseguranças. A nossa alegria, apesar de tudo. Os próximos meses combinados, a estratégia montada. Dúvidas partilhadas num registo de confiança mútua.

Voltei à rua, voltei a caminhar de saltos bem altos nas frequentadas ruas de Lisboa. As esplanadas cheias, muita gente. Muita gente de máscara, muitas sem máscara. Se não fosse esse apontamento, dir-se-ia que tudo está normal. 

De tarde tive reuniões em que estive como se não estivesse delineada uma estratégia de que ninguém pode sequer desconfiar. Aprendi a viver num registo de duplicidade em que tenho que me dividir em caminhos paralelos de forma a que ninguém detete pontos de inconsistência. No final, como por milagre, os caminhos convergirão. Pelo menos, assim o espero. Mas, até lá, serei duas.

E há pouco, quando acordei, lembrei-me que tinha ficado de agendar uma conversa. Com receio de voltar a esquecer-me, agendei-a. Não gosto de enviar convites fora de horas. Mas pior será se me esquecer. Para a primeira semana do ano que vem. E fiquei a pensar que tudo isto é um absurdo. Não dei pela passagem deste ano. Pelo meio ainda tenho que pensar nas ementas da véspera e do dia de Natal, depois as da véspera e do dia de Ano Novo. E, no entanto, como se fosse um arco temporal virtual, ultrapasso essas semanas para marcar reunião para 2022. Absurdo, mil vezes absurdo. Mas é assim a minha vida, cheia de absurdos. Pior: absurdos que encaro com naturalidade.

Agora ao fim do dia, o meu marido montou a árvore de Natal. Como detesto perder tempo com coisas efémeras, esta actividade sempre foi com ele. E está muito bonita. Tem um gosto sóbrio, ele, que me agrada. Jantámos já com as luzinhas da árvore de Natal a piscarem.

[Vamos ver se o urso peludo não se atira a ela. Até ver ainda não e espero que até ao fim o não faça.]

Quando penso em Natal, tal como quando penso em festas de anos ou em almoços e jantares em família, penso numa mesa grande, grande, com toda a gente em volta. Sempre assim foi. A mesa a ter que esticar, as cadeiras e os bancos a terem que se ir aproximando para cabermos todos. Agora, nestas circunstâncias, dividimo-nos por mesas e eu sinto-me meio perdida pois gosto da proximidade e das conversas simultâneas e cruzadas e assim não é exactamente a mesma coisa. Mas, enfim, as coisas são o que são e nem vale a pena chorar sobre leite derramado. Se cá nevasse fazia-se cá ski. Como não neva, não se faz. Ou seja, quando as variantes se devorarem umas às outras já podemos apinhar-nos outra vez à volta das mesas. O que acontece é que, como na minha cabeça me parece que Natal assim não é exactamente Natal, também não me sinto inspirada para preparar repastos como se fosse Natal. 

Mas isto agora também não vem a propósito. Só que também não sei o que é que vem a propósito... Pior: chego ao fim sem saber sobre o que é que estive para aqui a escrever nem que título hei-de dar a isto. 

Portanto, com vossa licença, vou mas é dormir.

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Fotografias de Florian Hetz na companhia de Facesoul com All I Need

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Peço muita desculpa mas não consegui responder aos comentários nem aos mails. Como gostava mesmo de fazê-lo, a ver se este sábado o consigo. Não levem a mal, está bem?

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Desejo-vos um sábado à maneira. 

Tudo a correr pelo melhor.

sexta-feira, dezembro 17, 2021

O mistério dos sucessivos disparos na central de segurança, cada um em seu lado da casa, in heaven

 


Ontem o meu marido teve que ir até à nossa casa in heaven pois iam lá tratar de uns arranjos. Como sempre acontece, quem tinha que ter chegado a uma certa hora chegou hora e meia depois. Por isso, veio de lá tardíssimo.

Quando já se tinha ido deitar, um alerta. Tinha disparado um alarme, numa zona da casa. Pensámos: o sensor deve ter pifado. Depois ele lembrou-se que tinha posto umas coisas em cima de outras. Talvez aquilo tivesse caído. Confiei e ele adormeceu. 

Estava eu aqui escrevendo, novo alerta, novo disparo. Desta vez num outro lugar da casa. Assustei-me. Ele ainda tentou dormir. Disse que, se calhar, era a central que tinha pifado. Não fui nessa. Equacionámos: ir lá? Sair daqui à uma e meia da manhã...? Chegar lá de madrugada...? E se houvesse ladrões? Ná...

Perguntei se não teria deixado alguma janela aberta. Que não, que obviamente não. Portanto, alguma coisa (ou alguém) era. Medoooo....

Resolvemos ligar para a GNR. Expusemos a situação. Prontificaram-se a mandar lá uns agentes. Eram duas e tal e ainda estava eu ao telefone com um que transmitia instruções ao sargento que lá estava. O sargento fazia perguntas e eu ia esclarecendo. 

Então, saltaram o muro e foram fazer a ronda e que logo me diziam. Deviam ser duas e tanto, ligaram. Aparentemente estava tudo fechado, tudo tranquilo.

Fui-me deitar. 

Às três e tal, telefone. O meu marido levantou-se. Novo disparo, agora noutra parte da casa. Recomendação que fossemos perceber o que se passava.

A central é antiga, ainda não temos sensores de videovigilância. Os da empresa de segurança não vão lá ao fim de semana e não nos é fácil programar idas ao dia de semana. E nas férias não nos lembramos de tal coisa.

Resolvemos que, à primeiríssima da manhã, iríamos. 

Às seis e tal, novo alerta: outro disparo.

Às sete, a GNR. Para saberem se estava tudo bem. Relatámos. Disseram que eram melhor irmos ver. Aparentemente não havia movimento quando lá foram mas que têm estado a ocorrer muitas assaltos. Ainda conversámos um bocado sobre isso: a dificuldade em apanhar em flagrante, em ter certezas, a falta de meios.

Portanto, lá fomos. Nós dois e a fera. Pensámos que, apesar de ainda não ter feito cinco meses, já haveria de dar sinal se houvesse coisa.

Lá chegados e a porta da frente aberta, o meu marido foi à frente com o seu ajudante de campo, o nosso felpudo body gard.

Fiquei à porta a guardar a fortaleza e com o número da GNR à mão de semear. Depois, fartei-me de estar à espera. Gosto de estar no olho do furacão. 

Entrei, juntei-me ao pelotão da frente. Tudo normal.

Até que o meu marido espreitou para o quarto e... 'O cabrão de um rato!'. Afastei-me. 'Onde?'. E ele: 'Em cima da cama'. Com a vassoura que tinha na mão, bateu na cama, tentou descobrir onde se tinha metido. 

O feroz cão de guarda indiferente. Para ele, notoriamente, rato não é gente que se veja.

Fui buscar outra vassoura e fui esperar o intruso do outro lado da porta. Até que o vimos a fugir do quarto e a ir para a sala da televisão, para trás do sofá onde costumamos estar a ver televisão.

Não era ratazana mas também não era mínimo. E tinha um rabo compridíssimo.

Não me dá medo nem me dá nojo. É um bichinho do campo. O que me chateia é que fique em casa pois pode causar estragos e são esses estragos e essa porcaria que me causam alguma repugnância.

Os dois, cada um com sua vassoura, afastámos o sofá, batemos no sofá, batemos no chão, sei lá. Nada. Zero rato. O urso peludo intrigado com aquela movimentação. Cabeça de um lado, cabeça de outra. Ora olhava para um, ora para outro. Não consegui explicar-lhe.

Já pensávamos que o parvo do rato se tinha escapulido sem que tivéssemos dado por isso. Até que o vimos a sair não se sabe de onde, a fugir. Tentámos empurrá-lo para a rua, fizemos alarido. Nada. Fugiu para o outro lado da sala, para baixo da escrivaninha. 

Reiniciámos a perseguição. Nada. Sitiámos o bicho rabudo. Demos vassouradas, batemos, revirámos, espreitámos, tentámos assustá-lo, tentámos de tudo. Nada. 

Mais de meia hora naquilo. Zero, bola. Nada.

Armámos o alarme. Fomos dar uma volta pelo campo. 

Aqui o cão de guarda ficou feliz. Este é o seu elemento. Não faz um único disparate. Não se encavalita em nós, não mordisca. Nada. Anda pelos caminhos, fareja, investiga, escava. Se ouve algum barulho suspeito, põe-se em guarda, ladra, olha para nós procurando o nosso apoio. 

Durante esse tempo, o alarme não disparou. Então resolvemos fechar tudo e vir embora. 

Não sabemos que é feito do rato. Não o vimos ir para a rua. Mas não o descobrimos em lado nenhum nem o alarme voltou a disparar. Vamos fazer figas para que tenha fugido para a rua, para o seu habitat.

De tarde, o meu marido foi à sua vida e eu à minha. Reuniões de seguida, uma das quais de rebimba o malho mas em mau. Acabei a última já passava das sete e meia. Noite cerrada e fria. E depois várias coisas para tratar. 

Resumindo: depois de uma quase directa e de um dia assim, estou capaz de cair para o lado. Além disso, esta friday vai começar bem, com mais uma daquelas conversas tidas na secreta.

Portanto, lamento, mas hoje não tenho nada de nadica a dizer. Com vossa licença e pedindo muita desculpa por não conseguir responder e agradecer aos comentários (a ver se amanhã à noite o consigo), vou ver se descanso um pouco e esperar que o bicho rabudo, aka o cabrão do rato, não ande pela casa a fazer das suas e não faça disparar o alarme.


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Pinturas de Lucia Heffernan que resolveu pintar fofos pintainhos a fazer poses de ioga, pretendendo ilustrar o velho ditado: uma pose de ioga por dia não sabe o bem que lhe fazia.

Colors é interpretado por Black Pumas, Slash, The Pocket Queen | Playing For Change | Song Around The World

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Para si, uma happy friday. Tudo a bombar por aí, ok?
Daqui a nada é Natal e eu ainda não sei o que fazer para os comes. Oh oh oh. 
Vocês já sabem?

quinta-feira, dezembro 16, 2021

And just like that as moçoilas de O sexo e a cidade viraram grisalhas e, imagine-se, uma delas até ficou viúva....

 



Não sei há quantos anos terá sido. Dez? Dez não, devem ter sido mais. Vinte? Se calhar. Ou quinze. Não faço ideia.

Poderia ir informar-me mas, quando aqui aterro, a esta hora e depois de um dia como o de hoje, já estou mais para deixar correr do que para ir à procura de respostas.

Sei que elas eram urbanas, desempoeiradas, irreverentes, bem vestidas, independentes, apaixonadas. O ambiente citadino, as suas casas, os seus amigos, a amizade com um amigo bicha, tudo aquilo me agradava. E depois havia o charmoso Mr. Big com tudo em grande: a elegância, a malícia do sorriso, a desfaçatez, a graça. 

Claro que ali tudo funcionava num daqueles registos light em que, mal a gente acaba de ver, já se esqueceu do que viu. Mas não faz mal: enquanto se vê, estamos bem. Não chateia, não cansa, não requer atenção. 

Não corria para ver o episódio e nem me lembro se dava para por a box a andar para trás. Sei que, de certeza, nunca pus, provavelmente porque nunca tal me passou pela cabeça. Mas, lá está, gostava de ver aquela parte em que ela colhia elementos do seu dia para escrever a crónica para a revista. Esse lado de reportar as insignificantes minudências do dia a dia é-me familiar e agradável. Na altura ainda não deveria ter blog pelo que provavelmente, na altura, não me ocorreu que, anos depois, também eu haveria de chegar à noite, sentar-me ao computador e desatar a escrever. 

Não sei que idade teriam elas na altura. Trintas e tais? Será que já pelos quarentas e poucos? Também não sei. 

Tenho andado a ver publicidade ao regresso das amigas, agora já sem Kim Catrall, a hot girl do grupo. Ao que parece o santo dela e o de Sarah Jessica Parker não cruzavam. 

Como não presto muita atenção a estas coisas, pensava que era uma sequela do filme (que não vi, apenas via a série). Afinal não.

O meu filho colocou-me também na HBO. Vi lá o extraordinário Mare of Easttown mas, de resto, tenho ideia que é mais fraco que o Netflix. Contudo, isto é opinião de fraca utilizadora pelo que não deve ser tomada à letra. 

No outro dia, numa daquelas preguiças que me dão quando não consigo suportar a televisão, fui espreitar. E dei de caras com And just like that. E vi os dois episódios que estavam disponíveis. 

E vi com aquele sentimento de desconforto que não é carne nem é peixe: desconforto pelo que estava a ver, desconforto também pela minha reacção -- os chamados mixed feelings.

Coloquei lá em cima o trailer mas o trailer mostra uma animação que o que vi até agora não tem.

A questão é que o tempo passa. Passou também para elas. E elas não o escondem (ou não conseguem esconder -- não sei...). São agora mulheres com outro corpo, com rugas, cabelo grisalho. 

Claro que Carrie Bradshaw se mantém magra e, portanto, ainda consegue vestir qualquer coisa e claro que Charlotte, a boneca de porcelana do grupo, tem o cabelo ainda todo escuro, assumidamente pintado. Aliás, acho que a boca também foi retocada. Preenchida, como creio que se diz. Mas a Carrie e a Miranda agora estão grisalhas e os rostos não disfarçam a erosão do tempo, a Miranda e a Charlotte têm as ancas mais largas, têm as pernas mais pesadas. 

Mas, lá está, quem sou eu para falar destes aspectos? Não sei eu também, tão bem, que o tempo, ao passar, vai deixando as suas marcas? E que mal têm essas marcas? Faria sentido chegar-se a velha com carinha e corpinho de adolescente? Seria até estranho.

Mas nem é tanto a idade que agora têm: é também todo o enredo. A Charlotte tem filhas adolescentes, uma das quais armada em rebelde, a Miranda também tem um filho adolescente que leva a namorada lá para casa (e para a sua cama) e o marido, sempre tão low profile, está também mais velho e mais low profile. E a Carrie está instalada, casada com o seu Mr. Big. 

E já não há aquele viço, aquela leveza, aquele espírito de brincadeira que as levava a rir mesmo quando falavam de desgostos de amor. Agora os semblantes por vezes ficam fechados e, quando se divertem, é um divertimento algo forçado, coisa de mulheres maduras que ainda wanna be fofas e leves. Falta a Samantha e a sua pimenta que incendiavam as conversas, falta a alegria.

E como se a coisa não fosse já suficientemente desconfortável resolveram matar o Mr. Big, caído no chão com um enfarte -- imagine-se. E, portanto, o segundo episódio foi passado nas cerimónias fúnebres do que era o gostosão da fita. Claro que tentaram polvilhar a coisa com algum humor mas, na realidade, um humor muito relativo. 

Portanto, até ver, o que fica é como que um amargo de boca. Já basta a vida de verdade ser tantas vezes uma seca e uma xaropada do piorzinho que há. A ficção, a este nível, numa série supostamente levezinha, não tem que tentar reproduzir a realidade senão vira também um desconsolo.

Pode ser que seja um arranque envolto em desgraça -- cabelos brancos, conversa de quase-velhas, a artista principal caída numa inesperada e triste viuvez --, para depois se lançar na paródia. Mas não sei, não...

Por enquanto estou naquela de que, na volta, aqui também se aplica aquela de que não se deve voltar onde já se foi feliz e que, se calhar, mais valia termos ficado com a recordação daquele grupo divertido numa Nova Iorque vibrante, cheia de eventos e de gente animadíssima. Se isto vai virar uma série de três velhas saudosistas e chatas vou ali e já venho. Mal por mal, antes a Candice Bergen toda descadeirada, a Jane Fonda toda emperiquitada ou a Diane Keaton, essa sim, sempre uma intemporal crazy girl.

O que vale, para nosso consolo, é que isto não interessa para nada. Importante, importante é que o jeitoso Vice-almirante voltou a ser chamado -- desta vez para coordenar as detenções. Boa. Estamos safos. A coisa vai correr bem.

E o resto é conversa.

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Desejo-vos um dia feliz

E cuidado com a bicha má, Ómicron de seu nome. 

Evitem espaços fechados, usem máscara... essas coisas.