domingo, dezembro 11, 2022

Há vários caminhos e só me apetece ir pelo mais desconhecido

 


Não faço ideia como funcionam as vendas online em regime doméstico (ie, não empresarial). Como não frequento facebooks ou instagrams não estou habituada a ver como é que as coisas se processam. De vez em quando ouço falar em alguém que começa a divulgar coisinhas que faz e que, pouco depois, já não dá mãos a medir. Não sei se abrem actividade nas Finanças, se têm contabilidade, se emitem factura, se há mecanismos de devoluções, etc. Estou habituada a processos certificados e auditados em grandes empresas e padeço de total iliteracia quanto a processos caseiros. E também não consigo meter-me numa situação sem ter a certeza que estou a fazer as coisas como deve ser.

Digo isto porque tenho bibelots que vieram da outra casa e que aqui não tiveram cabimento, tenho quadros e posso vir a ter coisas que me dê na cabeça produzir. 

Nem sei como se divulga uma coisa assim. 

Em paralelo com actividades mais absorventes, podia fazer uma coisa que não me desse muito trabalho, como fotografar uma peça, colocar num site. Mas também não sei como atribuir um preço, como garantir que enviava a coisa e que depois me pagavam, etc. como me manter em dia a nível fiscal. Ignorância total. 

Claro que vou tendo ideias mas, como me falta tempo e conhecimento, ficam em carteira para um dia. Mas é esse absoluto desconhecimento que me atrai. Ir aprender, fazer as coisas de raiz num território totalmente estrangeiro para mim. Foi como quando comecei o blog. Desconhecia tudo o que se relacionava com a blogosfera, outros blogues, técnicas. Mas desconhecia ao nível mais básico: como se fazia, como se inseriam imagens, como se inseriam vídeos, como tudo. E o prazer da descoberta, o perceber que devagarinho as pessoas iam descobrindo o que eu fazia, a quantidade de pessoas que fui conhecendo e que de outra forma jamais conheceria, toda essa descoberta foi (e ainda é) fascinante. 

Quando penso em actividades que posso desenvolver um dia que deixe de trabalhar tenho muito claro que quero fechar completamente a porta a tudo o que tenha minimamente a ver com a minha actual actividade profissional.  Anseio pelo tempo em que posso limitar-me a ser um espírito livre, sem compromissos, sem horários, sem fazer fretes ou sacrificar um milímetro da minha liberdade de movimentos, sem ter que aturar quem não faz o meu género. Anseio também pelo tempo em que possa começar a desbravar novos terrenos, a ir à procura de quem esteja disponível para me ensinar.

Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.


The Road not Taken by Robert Frost (read by Tom O'Bedlam)

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Enquanto escrevia isto, o dog de guarda, que dormia profundamente, desatou a ladrar.  Fui ver o que se passava. Sentado, a olhar para a porta, depois para outra porta. Fui ver. Chove de novo a cântaros. Acordou com a intensidade da chuva. Esperemos que não haja problemas como no outro dia. Para quem vive na rua, em casas frágeis ou situadas em zonas de cheias isto deve ser um susto.

Seja como for, e sem querer imitar o outro senhor que disse para a gente intervalar na preocupação pelos direitos humanos, tenho que confessar que gosto de estar aqui à noite, sozinha, a ouvir música... e a ouvir a força da chuva.

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E, pelo meio, vou vendo estes vídeos que me descansam a cabeça e me dão algumas ideias

(Tem legendada mas o português não é de primeira água, vou já avisando)

Parisienne's home tour/Family of three, artist-ceramic artist, full of unique style/ France vlog


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As pinturas são de Gerhard Richter ao som de uma canção de embalar (lobos)

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Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Força. Paz.

Fim de ciclo para Cristiano Ronaldo? Fim de ciclo para Fernando Santos? Qual o verdadeiro significado das palavras da Georgina? A culpa foi do árbitro argentino ou da falta de estratégia do Engenheiro?

 

Pois, não sei. Deixo as prementes dúvidas para os entendidos que, neste momento, enxameiam os balcões televisivos onde se serve comentário a copo. 

A única coisa que posso acrescentar é que almocei durante a primeira parte pelo que não estive concentrada e, durante a segunda, lamentavelmente adormeci.

Acordei em plena revoada comentadeira, meio mundo babando perante a possibilidade do fim do CR7 e do palestrante e autoproclamado católico Engenheiro e o outro meio em torno das bocas do georgino rabo falante. Perante isso, batatas.

sábado, dezembro 10, 2022

Perguntas indiscretas
(com autorretrato dentro)

 

Primeira lembrança?

Não creio que possa ser verídico mas, quando penso na primeira lembrança, é sempre o que me ocorre. Estava ao colo e tínhamos ido visitar uma casa. Quando disseram que eu já falava, quiseram testar. Acenderam a luz e eu disse: luz. 
Quando descrevi a casa à minha mãe ela soube qual era, era de uns conhecidos, a casa ao lado da dos padrinhos do meu pai. A minha mãe diz que, de facto, iam por vezes visitá-los e diz também que ninguém acreditava que eu falasse (aos seis meses tinha dito cão ao ouvir ladrar, dizia Lel quando via o meu tio, irmão mais novo do meu pai, a quem chamavam justamente assim) e que teria sido normal que isto tivesse acontecido.

Tenho uma outra lembrança de que também duvido pois diz-se que só se guardam lembranças a partir dos três ou quatro anos. Tinha feito um ano, tinha um vestido branco com bordadinhos e umas cuecas com rendinhas a condizer. Já não usava fralda. Já andava bem. Os meus pais tinham ido visitar uma das minhas avós e eu fiquei cá fora, ao pé de um menino um ano e tal mais velho que eu, filho de uns vizinhos da minha avó. E aí eu fiz chichi pelas pernas abaixo e ele foi, comigo pela mão, levar-me aos meus pais. Guardo a memória que ele, com a sua voz de criança, se limitou a dizer com voz neutra: 'ela fez chichi'. Mas lembro-me de me sentir muito envergonhada. A minha mãe não se lembra, diz que pode ter acontecido mas não era coisa que para ela tivesse tido importância, não reteve.

Maior loucura na adolescência?

Foram algumas mas, lamento, não posso contar. Um dia que conte as minhas memórias impróprias talvez inclua essas peripécias. Só de me lembrar de algumas já estou a rir. Aqui não pode ser, os meus filhos leem o blog, os meus netos por vezes também. Há que manter a imagem da pessoa respeitável, certo?

Na tenra idade qual o primeiro crush famoso?

Nunca fui muito de crushes, de amores platónicos. Tenho ideia de, na altura, ter achado interessante o Duarte Mendes que ganhou o festival da canção. Agora, ao revê-lo, deu-me vontade de rir. Como as pessoas se vestiam e penteavam, credo... 

 

Também achava piada ao Alain Delon mas nunca fui de perder tempo com o que não é para o meu bico.  

Se pudesse ter presenciado um evento histórico, qual seria?
Qualquer um em que as mulheres tenham tido papel preponderante na luta a favor da independência do meu País. Por exemplo, gostaria de ter assistido de perto à intervenção de Luísa de Gusmão que não se deixou ir em conversas e que terá dito que "mais acertado de morrer reinando do que acabar servindo". Penso nisso quando se ouvem os ucranianos que dão a vida pela independência do seu país pois preferem a morte a viver sob o jugo de um ditador tirano, psicopata, assassino. 
Quando em fúria defendem as suas convicções, a força das mulheres é imparável, desconhecem a cobardia. 
Em que profissão não levaria jeito?
Tantas. E nada contra, algumas até tenho o máximo de admiração, eu é que não consigo ver-me lá. Por exemplo. Investigadora de História. Freira. Apresentadora de telejornais. Deputada. Secretária. Ginecologista. Enfermeira. Dentista. Electricista. Árbitra. Etc.
Se pudesse ser uma pessoa por um dia, hoje, o que escolheria ser?
Agente secreta, na Rússia. 
O mundo vai acabar. Como deve ser?
Ou sem aviso prévio, sem ninguém se dar conta, ou, pelo contrário, com aviso no próprio dia, a tempo de a gente se juntar com os nossos, e havendo distribuição de ansiolíticos, erva, you name it, a malta toda numa boa, peace and love, música nas ruas, dança, petiscos, amor e alegria. Uma despedida em festa, na maior descontração, tudo a dar graças pelo afecto, pelo riso, pela música, pela partilha de sentimentos, pela bondade de todos.
O que quer escrito na lápide?
Foi um ar que lhe deu mas aproveitou o que pôde😜  (com o smile a piscar o olho e de língua de fora e tudo)

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 Adnet, Falabella e Catarina Abdalla contam seus crushes da infância
| Que História É Essa, Porchat?


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Um bom sábado
Saúde. Boa sorte. Paz.

sexta-feira, dezembro 09, 2022

Olha quem ele é...

 

Só para dizer. O que aqui se vê junto ao ex-cãobeludo é a carpete que costuma estar sob os meus pés. No canto superior esquerdo da fotografia acima está o ossinho que levou a isto (abaixo, em grande plano).

Quando se sentou para descansar um pouco, chamei-o para o fotografar e ele, obedientemente, virou a cabeça na minha direcção e olhou até eu dizer 'já está'.

Quando nos acomodamos na sala, o meu marido costuma dar-lhe um ossinho para ver se ele está entretido a roê-lo. Sim, sim... era bom... Entretém-se é a escondê-lo, dá grandes saltos quando o reencontra, depois volta a escondê-lo e, no acto, certamente simulando os movimentos de escavação, enrola e puxa a carpete, volta a esconder o ossinho, salta, vem ter comigo para eu ver a proeza. Eu digo 'o ossinho é muito maroto' e ele volta à luta. 

[Às vezes vem da rua com um destes ossinhos já meio moles, sujo de terra. Ou seja, leva os ossinhos lá para fora e enterra-os.]

E eu acho graça. Não me zango. Está entretido e feliz a brincar, não estraga nada. Daqui a nada irá deitar-se sozinho, na sua caminha. Longe vão os tempos em que se recusava a deitar-se. Mas ontem fez uma coisa curiosa. Quando fui deitar-me, não estava na sua cama nem em nenhum dos spots que costuma eleger para se recolher. Chovia que deus a dava, um ruído incessante de vento e chuva. Pois bem, tinha ido para o piso de cima, encostado ao vidro de onde se vê o jardim, a rua e as causas de todo aquele fuzuê. Cão de guarda não descura a vigilância em situação de crise.

Entretanto, agora anda a comer à maluca. Talvez seja para armazenar calorias para resistir melhor ao frio. Não sei. É apenas uma suposição. Come, come, come. Depois arrota como um abade. Ouve-se de longe. A seguir vem ter connosco, a lamber-se. Eu digo: 'Muito bem, esteve a comer a papa'.

[O meu filho diz que eu falo com ele como com um bebé, diz que parece que é o meu sexto neto. É involuntário. Creio que com a nossa cãzinha mais fofa era a mesma coisa. Sai-me, sou assim].

Mas isto para dizer que, com tanto salto e de barriga tão cheia, deu uns puns malcheirosos. Ora esse é um tema ao qual o meu marido é assaz sensível. Ou seja, embora contrariado, resolveu ir com o urso à rua. Achou que tinha que ser. Tentei dissuadi-lo, mas em vão. De noite, tão tarde, a chover, para o cão vir todo molhado, que disparate... Mas lá foram.

Já regressaram, o cão mais parecendo um pinto. E não fez cocó. 

Portanto, agora está o meu marido a limpá-lo. Mas já sei que acabarei por ter que ir completar a secagem pois fartam-se ambos muito rapidamente. Ora, se o bicho fica húmido, não apenas não deve ser nada confortável como a caminha ficará a cheirar a lã molhada e a cão malcheiroso.

Enquanto agora estava a olhar para a televisão, depois de o limpar, mal o meu marido se levantou do sofá para ir dormir, o marquês saltou ele para lá. Para tudo é preciso sorte. Podia estar num monte alentejano a guardar ovelhas e, em vez disso, pode refastelar-se em sofás e receber tratamento de princesa.


Mas deve ter sido apenas para ir sentir o calor do dono pois, entretanto, levantou-se, espreguiçou-se e foi para o seu cantinho, para a sua cama. Cão mais fofo.

De resto, tenho a dizer que o jardim está coberto de folhas, um outono molhado, com cores lindas. E eu fotografo, encantada.



Enquanto ando nestes números bucólicos, o artista desafia o cão da casa ao lado, ladra com convicção, atira-se contra a vedação que os separa, dá grandes saltos e faz piruetas no ar. Já conseguiu arrancar a relva naquele sítio, tal a maluqueira dos saltos. O outro quase não lhe liga mas ele não descansa enquanto o outro não se abeira, do outro lado, e não alimenta este picanço. Aí é a fúria total: parece ele que tem o diabo do lado de lá da vedação. Fica possuído. O meu marido já pôs uma rede de ocultação naquele sítio para ver se não se verem -- olhos que não veem, coração que não sente. Mas não serviu de nada.

Uma vez, um entendido que aqui esteve disse-nos que um cão assim precisa de outro com quem brincar e, se calhar, é.

[Dúvida: devo dizer "com quem brincar" ou, dado que se trata de um cão, "com que brincar"?]


E é isto. Continua a chover a rodos. Não sei como andam as barragens mas presumo que já estejam com os níveis regularizados. A chuva é uma bênção dos céus. É uma pena que não saibamos lidar bem com ela. 

Deveríamos meter na cabeça que deveríamos ser capazes de viver em harmonia com os elementos da natureza: bichos, pedras, árvores, rios, mares, luz, nuvens, ventos, palavras.

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Desejo-vos uma boa sexta-feira

Saúde. Boas notícias. Boa sorte. Paz.

quinta-feira, dezembro 08, 2022

Adenda ao post anterior: o Marcelo já está em Alcântara a acompanhar as inundações! Iupi!

 

Depois de falar dos bichos com cara de mete-nojo, tinha eu estranhado que o nosso incontornável e hiperactivo Marcelo ainda não andasse a distribuir beijinhos aos populares e sapadores no meio da água que submergiu a cidade.

Pois bem. Antes de me recolher aos meus aposentos, resolvi agora fazer zapping para saber em que param as modas: se já se nada ou se o dilúvio começa a dar tréguas. E eis que ali está o Marcelo. Nem mais. Não falhou! Mandando bocas, todo ele prosa, deixando no ar dúvidas e suposições, enviando condolências. Marcelo being Marcelo. Até dá vontade de fazer uma canção de rap. Debaixo de chuva, coriscos e trovões, aí está o Marcelo com água pelos calções. Iô. (Tratando-se do Sr. Presidente não ia dizer que ele estava com água pelos testículos, certo? Respeitinho é bonito e eu gosto).

Atrás dele, subalterno, Moedas. Os jornalistas, em momentos de aperto como estes, não querem saber de actores secundários. Por isso, não sei o que teria ele a dizer sobre o sucedido.

Pena é que Marcelo tenha vindo de carro e à paisana. Acho que pinta, pinta mesmo, teria se comparecesse numa lancha e com o seu bem conhecido fato de banho azul claro, ali mesmo, em plena Alcântara, fizesse um remake da sua inesquecível cena de natação no Tejo e saltasse de mergulho para a avenida para nos mostrar o seu escorreito crawl. Ou, para que não digam que, em hora de aflição, se pela para atrapalhar os bombeiros, se apresentasse de escafandro e barbatanas pronto para participar em operações de resgate.

Claro que caguou  para o alerta da Protecção Civil que está a pedir para a malta se manter em casa. Mau exemplo. Mas, enfim, a gente dá desconto. Já se sabe que o Marcelo padece de bicho-carpinteiro e se, ainda por cima, lhe cheira a microfones e câmaras de televisão, então, não resiste, tem que estar lá caído. (E calma, eu disse caguou o que, que eu saiba, não tem nada de escatológico ou inapropriado).

E, pronto, é isto. 

E queiram continuar a descer pois há caras do além à vossa espera.

Que nunca me apareça à frente ninguém com esta cara ... please....

 


Há uma palavra para a mania de ver caras em coisas. Creio que a palavra é pareidolia. Na casa dos meus pais as paredes da casa de banho eram de mármore, em antracite e branco, e uma mancha que havia na parede ao lado do lavatório parecia-me a cara de um homem zangado. Teria eu uns doze ou treze calhou ler os contos de Allen Poe. Nessa altura eu tinha aulas de manhã e a minha mãe dava aulas à tarde. Quando eu chegava a casa já ela não estava. Deixava-me o almoço e eu almoçava sozinha. E sozinha ficava até que ela e o meu pai regressavam ao fim da tarde.

Por isso, nessa altura, cada som não identificado que eu ouvia me assustava. O terror escorria da literatura para dentro da minha casa. Receava ouvir suspirar de dentro das paredes, receava que uma mão saísse de um estante para me agarrar ou que um pássaro sinistro entrasse dentro de casa e me arrancasse os olhos, que sangue escorresse das torneiras. Temia sobretudo as almas do outro mundo. E quase receava ter vontade de ir à casa de banho pois sabia que lá estaria aquela cara medonha a ameaçar-me com o olhar.

Em contrapartida, uma das cenas que recordo como mais intimidantes prende-se com uma ausência de rosto.

‘Something extraordinary’: dorsal, ventral and lateral views of a sawshark. Photograph: Simon Weigmann/Natural History Museum

Teria uns quinze ou dezasseis anos e tinha estado até mais tarde com os meus amigos. Era inverno, anoitecia cedo e estava um nevoeiro cerrado. Ia apanhar autocarro para casa mas mal via onde estava a paragem. Consideravelmente assustada, ia no passeio sem ver nada. Nada de nada. E, do nada, uma voz de homem disse o meu nome. Não vi ninguém nem reconheci a voz. Como o meu nome foi dito no diminutivo admiti que seria alguém que me conhecia de pequenina. Até hoje recordo o arrepio que me percorreu. Não sei se era o medo de que fosse um voz do além ou de um um monstro assassino se escondesse sob o espesso manto de névoa que envolvia o negrume da noite. Tenho uma vaga ideia de ver um vulto a afastar-se. 

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E os bichos assustadores que aqui pairam com a sua horrível cara quase humana são tubarões-serra. 

Com a ajuda de pescadores em Madagascar e na Tanzânia, cientistas descobriram duas novas espécies raras de tubarão-serra de seis guelras.

Nadando no oceano estão tubarões que parecem ter um corta-sebes preso à cabeça e um bigode pendurado no meio. Estes são os tubarões-serra e usam o seu formidável capacete para cortar cardumes de peixes. O bigode é um dispositivo sensorial que ajuda os tubarões a detectar presas.

[Artigo completo:  Discovered in the deep: the extraordinary sawshark with a weapon-like snout]

Agora imagine-se se um dia estou a nadar ao lusco fusco e me aparece um monstro destes com estes olhinhos de pipi-cagão e a boca num esgar de profundo desprezo e diz o meu nome... Medo...

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Entretanto, choveu, ventou e trovejou como se não houvesse amanhã. A ver se as barragens ficam au point. As televisões mostram as ruas de Lisboa e arredores cheias de água, carros meio submersos e, num túnel, até mergulhadores. Só me espanta que o Marcelo ainda ali não esteja a observar in loco as ocorrências, quiçá mesmo a mergulhar.

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Mas se o omnipresente Marcelo desta vez falhou, quem não pode falhar em dia de chuva é  Mariza com uma das canções que volta e meia aqui marca presença. Gosto demais.


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Um bom dia
Saúde. Boa sorte. Paz.

quarta-feira, dezembro 07, 2022

A minha prima

 

Não sei se alguma vez disse à minha prima, ou se alguém lhe disse, que fui eu que sugeri o nome dela. Eu devia ter uns cinco ou seis anos e ouvi numa entrevista na rádio o nome da filha de uma cantora que, à data, era famosa. A minha tia tinha ido para casa dos pais depois de ter a bebé e foi lá que os fomos visitar. Perguntaram-me como é que eu queria que ela se chamasse. E saiu-me esse nome. Ao ouvi-lo, pareceu-me um nome incomum, muito bonito, um nome de princesa.

A nossa diferença de idades levava a que as nossas brincadeiras andassem um bocado desfasadas. Mas, apesar de muito mais nova, eu gostava de brincar com ela. E ela de brincar comigo. 

Quando brincávamos juntas, eu era a cabeleireira e penteava-a a ela e às bonecas ou era a merceeira e vendia-lhe produtos a peso e fazia trocos numa máquina registadora. Ela, pequenina, era a médica e fazia-me curativos, auscultava-me, via-me a garganta, tratava das minhas filhas, bonecas doentes.

Sempre fomos muito diferentes. Eu gostava de brincar na rua, tinha muitos amigos, rapazes e raparigas, era respondona, com uma vontade própria muito determinada, sem receio de enfrentar os meus pais. Ela sempre foi muito de estar em casa, sempre muito chegada aos pais, muito educada. Sempre fui de me divertir e namorar e, para estudar, sempre fui mais de 'apanhar no ar' e estudar sobretudo o que sentisse que devia ser aprofundado ou treinado. Ela sempre foi o meu oposto: muito disciplinada, muito bem comportada, muito estudiosa. Era aplicada, obediente, estudava horas a fio com a mãe. A única vez de que me lembro de estudar com a minha mãe foi na preparação para os exames de admissão ao liceu e havia sempre zaragata, lembrando-me inclusivamente de, numa das vezes, a minha mãe acabar a chorar. Se calhava eu ter algum erro (nos ditados) ela queria que eu escrevesse essa palavra umas quantas vezes. Eu recusava-me. Coisas assim. Uma luta. Ela era professora, queria que eu seguisse a disciplina que ela impunha nas aulas dela. Não conseguia e sentia-se frustrada.

Ao passo que eu andava frequentemente meio despenteada, com roupas que, na altura, pretendiam ser mais 'alternativas' (Porfírios, por exemplo), ela sempre andou muito bem arranjada, sempre se vestiu com boas roupas, boas marcas. A minha mãe dava-a muitas vezes como exemplo: vê lá se a tua prima anda assim. Claro que sempre me entrou por um ouvido e saiu por outro. O estilo dela condizia com ela: respeitável, exemplar.

A verdade é que sempre senti admiração pelas pessoas diferentes de mim. Não sei como conseguem. 

Foi para Medicina, claro. Sempre muito boa aluna, sempre mantendo a disciplina de passar horas a estudar, sempre aceitando sacrificar-se. Aliás, creio que, para ela, não era sacrifício. Enquanto eu fiz questão de sair de casa quando fui para a faculdade e mudei de namorado e ia a festas e ao cinema e não parava, e, depois, cansada de tanta animação, resolvi 'assentar' aos vinte, a meio do curso, e começar a trabalhar, e todas essas coisas, ela, como todas as pessoas que conhecíamos, manteve-se em casa dos pais até se casar. E acabou o curso e a especialidade e tudo by the book. Casou com um rapaz simpatiquíssimo, igualmente bem comportado e disciplinado. 

Tal como eu, também teve dois filhos, um rapaz e uma rapariga, mas claro, nasceram quando os meus já eram crescidos. Também aqui, muito diferente de mim: batizou os filhos, fez festas de batizado. 

Profissionalmente manteve-se uma moura de trabalho. Tem cargos de responsabilidade num hospital, trabalha também no privado, e, uma vez mais, não sei como aguenta. Agora já não faz bancos mas, ainda assim, trabalha horas e horas a fio. E nunca a ouvi queixar-se de cansaço ou saturação. Gosta mesmo da profissão que tem. Quando fala de assuntos médicos, é sempre muito pedagógica. Ficamos a perceber bem as maleitas, os tratamentos, as probabilidades de as coisas irem para um lado ou para outro.

Continuamos a tratar-nos pelos nossos diminutivos e sempre que falamos, por muito tempo que tenha passado desde a última vez, é como se tivéssemos interrompido a conversa na véspera.

E hoje, orgulhosa e feliz, deu-me a notícia de que também já é avó. E eu fiquei muito feliz por ela, muito -- por ela e pelos meus tios, por todos. A minha prima, que é ainda a menina que trato pelo diminutivo e com quem acho que nunca me zanguei, já é avó! Dá para acreditar? 

[Do meu primo sonhador já falei algumas vezes mas da minha outra prima, outra que é mais na minha onda, acho que nunca falei. Um dia tenho que falar. Também gosto muito dela.]

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Boa sorte. Paz.

terça-feira, dezembro 06, 2022

Patti

 



Para mim, durante algum tempo, Patti Smith era apenas a amiga especial de Robert Mapplethorpe. Sendo ele homossexual, não era claro para mim se alguma vez tinham sido friends with benefits ou se eram almas que se completavam sobretudo por partilharem aquele registo alternativo, chique, decadente, com agudo sentido estético.

Dela pouco sabia, pois. Era (e sou) grande apreciadora da obra dele e não senti curiosidade em conhecê-la. Era a amiga, o suporte e a musa dele e isso chegava-me. De aspecto andrógino, com feições ambíguas, com um corpo que não segue os cânones da feminilidade, Patti Smith tornava-se interessante sob a lente de Robert Mapplethorpe.

Depois foi envelhecendo e o seu carisma foi-se acentuando. Não sei se não se preocupa com a imagem ou se o que parece quase negligência é um produto trabalhado para ser assim. 

Seja como for, é uma pessoa interessante. E, estranhamente, já tem 75 anos. Estas pessoas quando envelhecem surpreendem-me. Patti Smith bem podia ter ficado para sempre naquela idade indefinida em que já tinha um passado bem desfrutado e ainda muita vida para viver. E olho para ela e é assim que a vejo. Não consigo pensar nela como uma idosa ou a caminho disso. Os seus cabelos caídos e compridos são um pouco estranhos, dir-se-ia que não a favorecem, dir-se-ia também que as suas feições são cada vez mais toscas. E, no entanto, olho para ela e não reparo nisso. Reparo, sim, na forma como sorri ao falar, na ternura e na serenidade da sua maneira de conversar. Creio que até a acho bela. É certo que é uma beleza não convencional, não óbvia. É uma beleza intemporal. E é uma simpatia. Gosta de arte, vive para a arte. E isso dá a quem assim vive aquela leveza e luz que abre os corações de quem a ouve.

Como cantora não a acho extraordinária. Mas acho-a uma intérprete especial. Gosto do grão da sua voz e das pausas e da densidade com que desfia as canções. 

Gosto de ouvi-la porque transporta a diferença. E transporta também a indiferença perante a banalidade. Não procura a perfeição e toda ela parece assumir orgulho, em toda a linha, na sua magnífica imperfeição. Faz o que quer e isso é do melhor que há. 

Salve Patti.

O vídeo abaixo mostra uma entrevista muito interessante e penso que dá uma boa ideia de quem é Patti Smith.

Patti Smith On Losing Her Voice & Mainstream Recognition | Explains It All | Harper's BAZAAR

Patti Smith's life changed when she stepped foot into an art museum as a little girl- and from that moment on, she committed her life to creation. Watch as Patti recalls her experiences with mainstream recognition, using Instagram for the first time, and what it was like losing her voice as a vocalist. 

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E queiram descer até Noé & Deus - uma parceria win-win. 

É caso para dizer: benza-os Deus.

Noé & Deus - uma parceria win-win

 

Se calhar, um dia destes, vai mesmo ser necessário criar cápsulas flutuantes, blindadas e impermeáveis, resistentes ao passar do tempo e às intempéries, em que se possa garantir a continuidade das espécies. Com chuvas diluvianas e com a subida das águas do mar em vários lugares, não tarda muito que a vida, tal como a conhecemos, seja inviável.

Já se sabe que a maltinha da Porta dos Fundos se diverte a dar com força nas convicções religiosas e gosta de causar urticária a quem olha com fundamentalismo para os ensinamentos e para as figuras mais icónicas do catolicismo.

Desta vez, Noé e Deus estabelecem uma parceria à maneira. Tanto que, na minha vida profissional, tenho tentado estabelecer recompensadoras parcerias e nunca consegui uma assim, com retorno tão proveitoso e tão imediato.

Parceria 

Noé foi o primeiro a topar uma parceria com Deus em troca de visibilidade. Sua história é contada em 4 capítulos do livro de Gênesis, ou seja, 0,33% de toda a Bíblia. Valeu a pena?


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Um dia bom
Saúde. Bom humor. Paz.

segunda-feira, dezembro 05, 2022

Um ouriço-cacheiro, um ninho na roseira, uma avenida com árvores que têm pombas brancas suspensas, duas pessoas iguais. E etc.

 

Este meu fim de semana foi muito atípico, com alguns imprevistos francamente dispensáveis. Pelo que intuo, as coisas poderão não ser o que parecem e todos os transtornos poderão ter sido (e estar a ser) em vão. Mas, enfim, se eu tiver razão, menos mal. 

Por seu lado, os meninos finalmente parece que estão em fase de recuperação depois de se terem ido contagiando uns aos outros e depois de se estarem a livrar de todas as sequelas destas mal arraçadas gripes A (se é que tem sido isso que tem andado de uns para outros). Mas este fim de semana apenas os vimos por fotografias e vídeos. Apesar de se dizerem bem, estão fanhosos, ranhosos e com tosse. Mas já não há nenhum com febre ou com diarreias e, por isso, já se sentem bem. Espero que a partir de agora estejam bem e que a minha vida também se simplifique (e, claro, que a minha mãe fique bem) para que possamos estar outra vez todos juntos.

Apesar de tudo, antes de irmos para os nossos afazeres de ir buscar isto e aquilo, levar isto e aquilo, estar lá, voltar a ir levar isto e aquilo, conseguimos ir num saltinho até à Avenida da Liberdade, para um passeio com flavour natalício. Uma coisa é passar de carro e outra, bem diferente, é andar a pé a ver as montras, a ouvir as diferentes línguas de quem passa (muitos italianos!). As árvores estão lindas com pombas brancas suspensas. Muito bonito, simbólico. 

As grandes marcas estão lá todas a preços galácticos (ou seja, com preços à altura da carteira do Ronaldo e da sua Georgina do rabo alçado, mas muito aquém das carteiras dos vulgares mortais). Acho que, mesmo que me saísse o euromilhões, não quereria dar mil euros por uns pirosos ténis de plástico dourado ou dois mil por um vestidinho da treta, curto e de alças. Não gosto de gastar dinheiro mal gasto. Claro que poderia abrir uma ou outra pequena excepção como, por exemplo, num casacão largo de veludo muito fino em profundo azul marinho, quiçá Armani. Mas, enfim, preços à parte, há montras bem apelativas e é engraçado olhar lá para dentro, para os clientes. Como o zoom da minha máquina fotográfica não funciona, não tenho motivação para fazer as minhas habituais reportagens. Tenho que ver se arranjo tempo para ir ver se tem reparação.

Tive vontade de ficar por lá numa esplanada mas não apenas o nosso urso (antes felpudo e agora um fininho dog quase skinhead) estava connosco e costuma fazer má vizinhança pois, quando assentamos arraiais, seja onde for, acha que tem que nos guardar e em cada pessoa vê um possível agressor, como estava chuviscoso, pouco convidativo para esplanar (não confundir com explanar). Além de mais, o nosso programa de festas para depois de almoço estava carregadinho. Por isso, fomos comprar uma pizza e viemos despachá-la a casa antes de nos pormos a caminho.

Por tudo isto e porque quase nenhum tempo tive para mim, pouco tenho a dizer. 

Só me ocorre contar que, no outro dia, quando passeávamos à noite, o nosso amigo deu uma corrida sobressaltada em direcção a um muro. Lá chegado, estacou a ladrar, posto assim naquela posição de quem descobriu coisa, de quem está à espera que lhe deem pretexto para saltar em cima (quando aprender a falar, em ocasiões destas, certamente dirá 'make my day'). Olhei espantada e não vi nada. E, aqui chegada, repito em minha defesa: era de noite. Além disso, sou míope e não uso óculos. O meu marido ao princípio também não percebeu. Depois disse: é um ouriço. Aproximei-me. Há montinhos de caruma nos passeios e era isso que me tinha parecido. Mas, vendo bem, era mesmo: um ouriço! Usei o telemóvel e dei-lhe uma flashada a ver se o apanhava. E apanhei. Aqui o têm, abaixo. Até parece que era de dia, tal a luz que lhe foi despejada em cima. Ali estava encostadinho, certamente assustado com o ladrar e os saltos da fera, com a nossa presença.

No dia seguinte passei lá de dia e nem sinal dele. Aquilo que podemos observar, de dia, é uma pálida parte da animação que é a vida nocturna.


Também posso referir que no outro dia tive uma agradável surpresa. No meio dos ramos da roseira trepadeira junto à nossa entrada, um ninho. Um ninho relativamente pequeno mas, reparem abaixo, uma graça. Penso que deve ter sido feito relativamente depressa pois não tenho ideia de o ter visto antes. Ainda não tinha ovinhos lá dentro. Fiquei encantada. Os pássaros confiam no nosso pacifismo e isso deixa-me feliz. Costumo ver os ninhos nas árvores, em cima, e aqui também temos dois encostados à parede da casa, perto do telhado. Devem ser feitos com lamas e ramos pois parece que estão mesmo colados à casa. Este aqui não, este está pouco mais que à altura da minha cabeça, à altura das nossas mãos.


Também posso contar que hoje, quando íamos a passar na Avenida, vi um amigo nosso sentado numa esplanada. Ri-me, tirei os óculos escuros para me aproximar e cumprimentar. Espantei-me por ele ter ficado impassível e até surpreendido a olhar para mim. Em situações normais, ter-se-ia levantado e vindo a rir para nos cumprimentar. Foi nessa altura, quando estava mais próxima, que percebi que era uns palmos mais alto do que o nosso amigo. Disfarcei, segui, e disse ao meu marido: 'Viste? Não é igual, igualzinho ao Zé?'. O meu marido limitou-se a dizer: 'O dobro do Zé'. Rebati: 'Igual, igual. Só que é mais alto que o Zé. Só percebi isso quando me aproximei'. O meu marido acabou por me dar razão: 'Ao princípio também pensava que era ele'. 

Mas fiquei impressionada. Como é que é possível? Duas pessoas com caras iguais. Iguais. Que coisa tão estranha, tão estranha.

A mim já me aconteceu confundirem-me com outra pessoa e jurarem a pés juntos que era igual e que até a voz era igual. Uma coisa nos limites da improbabilidade. 

Enfim. 

E não me ocorre mais nada para contar.

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A música com que me despeço não tem propriamente a ver com o que escrevi. Mas agrada-me e quero ficar com ela aqui a acompanhar-me.

Lea Desandre interpreta Handel: 

The Triumph of Time and Truth, HWV 71: "Guardian Angels, Oh, Protect me"


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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira
Saúde. Confiança. Boa sorte. Paz.

domingo, dezembro 04, 2022

Dez magníficas bibliotecas

 

Vou confessar umas coisas que, antevejo desde já, vão publicamente comprovar a minha ignorância. Não faz mal, não é surpresa para ninguém que tenho muito para aprender.

E são coisas tão simples quanto isto: 

  • todos os livros que estão naquelas bibliotecas fabulosas que o mundo aclama podem ser consultados pelo público? Livros centenários podem ser requisitados?
  • como se limpa o pó aos livros naquelas estantes que estão a metros e metros de altura?

Quer a Biblioteca Joanina quer a do Palácio de Mafra parecem ser sobretudo monumentos para serem observados, de preferência de longe, e não para poderem ser usufruídos. 

Gosto imenso de ver bibliotecas mas quase que prefiro vê-las em vídeo pois, in loco, ou estamos no meio de muita gente, turistas que circulam, não dando jeito que fiquemos por ali parados a empatar o fluxo, ou, se são mais usáveis, não podemos nem piar, parecem templos destinados a gente perturbada que não consegue suportar outra presença humana. 

Uma vez entrei numa destas com dois miúdos. Avisaram-me logo que não se podia fazer barulho. Um dos miúdos perguntou qualquer coisa e fizeram-nos logo sinal. Alguns dos leitores deitavam-nos olhares reprovadores como se fosse óbvio que não pertencíamos àquela sacristia. Dei uma circulada só para ficar com uma ideia e veio logo o funcionário a avisar que não podia mexer em nada. E seguiu-nos, desconfiado.  Deve ter percebido que tenho pouco de rata de biblioteca. Com crianças pela mão, o risco de perturbarmos o ambiente deve ter parecido excessivo. Saí logo, incomodada. Esperava que houvesse um recanto para os miúdos, uma mini-biblioteca para eles consultarem e desfrutarem e, afinal, parecia que ali imperava a rejeição.

Mas isto é um dos aspectos. O outro, o segundo que acima referi, tem a ver com o meu lado prático. É como quando vejo uma casa daquelas modernas cheia de painéis de vidro com metros de altura, alguns até ao telhado. Penso logo: como se limpa uma coisa assim? Não se podem limpar à mão. Tem que se contratar uma empresa que venha com escadas, guindastes, máquinas industriais. Nestas biblioecas ocorre-me a mesma dúvida: como limpam tantos livros? em especial, como limpam os que estão lá em cima? com aspiradores voadores? com alpinistas com espanejadores? How? What?

O vídeo abaixo mostra bibliotecas maravilhosas, magníficas, lindas, e, para nosso orgulho, duas delas são em Portugal e uma outra relaciona-se connosco. As músicas são também de primeira água, se é que assim posso dizer. 

Contudo, vendo-as, as duas minhas comezinhas dúvidas redobram-se. Respondam-me se souberem (e se quiserem, claro).

10 Magnificent Historical Libraries

Over the course of history wealthy rulers, institutions and private patrons have spent massive sums of money building magnificent libraries. In this video we take a look at 10 of the most beautiful results of this.


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Desejo-vos um belo dia de domingo
Saúde. Boas notícias. Paz.

sábado, dezembro 03, 2022

A pedido de várias famílias, eis a ex-fera cabeluda antes e depois da tosquia

 

Era um monte de pelo. Não se viam os olhos. Não se percebe como conseguia ver mas a verdade é que via tudo. Quando estava especialmente feliz, adivinhávamos que estava a rir pela boca. Apesar de quase desaparecida entre barbas e bigodes, nessas alturas era mesmo a boca de quem ri.

Nesta primeira fotografia, aqui abaixo, estava sentado na sala em que agora estou, junto aos meus pés. Quando era pequenino, gostava de se aninhar no cadeirão pequeno que está atrás, aquele em quadrados em tom rosa. Agora, como mal lá cabe, prefere ficar no chão, muitas vezes ao pé de mim.


Aqui abaixo estava in heaven, lugar de mil cheiros.


E aqui abaixo está deitado ao lado do meu marido, de barriga para cima. Todo ele pelo, mal se percebia onde estava a cabeça. Uma fera cabeluda muito fofa. Muitas vezes é assim que dorme. Significa que confia inteiramente no que o rodeia, está indefeso, à mercê, sabe que aqui está em paz.

(A mancha cor de rosa à esquerda na fotografia é o meu dedo. Para o apanhar assim, saquei do telemóvel e esqueci-me de retirar o dedo.)

E se as fotografias acima são do 'antes', esta aqui abaixo é já durante. Mal se vê mas tem uma fita de gaze em volta do focinho para o groomer poder actuar em total liberdade. Nunca fiando. Mas, quando foi para retocar em volta dos olhos, nariz e em volta da boca, tirou-lhe a fita e a fera manteve-se civilizadamente condescendente.


O monte de lã que ficou no chão daria para mil capachinhos, quiçá uns quantos para o dono. E digo uns quantos pois poder-se-iam escolher os pelos pretos para um, os grisalhos para outro, os brancos para outro, e uns em comprido, outros em curto. Desta maneira, consoante a disposição, assim escolheria o penteado. (Espero que ele não leia isto, senão é capaz de não achar muita graça à gracinha.)

Só fotografei quando reparei que a groomer (suponho que a mulher do groomer) estava a varrer o chão pelo que já só apanhei a parte restante. 


Quando saímos, tal como contei, o bichinho vinha incomodado, andava à volta à procura do seu eu anterior. E punha-se no chão, a tentar com a boca perceber onde tinha ido parar a manta que antes o cobria. Em contrapartida, a genitália, antes envolta em pelo, agora está chocantemente à vista e, segundo me pareceu, isso também lhe causou alguma estranheza. Os dedos agora também estão quase a descoberto o que, em tempo frio, também não deve vir muito a propósito: está tempo para pantufinhas quentinhas e não para havaianas de dedo ao léu.

Abaixo, na rua, já sem aspecto de pastor.


Aqui abaixo, na sala, já não um cão de montes alentejanos mas um pequeno lord que gosta de se instalar em bergères, mostrando um perfil até agora desconhecido. É que, pelas feições agora a descoberto, nem parece da família do anterior. 


E aqui abaixo, com os olhos muito redondos e brilhantes à vista, as sobrancelhas cortadas e penteadas para trás, com ar de cãozinho triste. O meu marido diz que até lhe faz impressão olhar para ele, diz que o pobre animal lhe parece infeliz. A minha filha diz que parece o Sad Sam. A mim só me apetece o mesmo de sempre, dar-lhe mimo. 


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Espero ter satisfeito a curiosidade de quem se manifestou decepcionado por eu ontem não ter mostrado o 'antes' e o 'depois' da operação de tosquia do cãobeludo.

Estava com sono, com preguiça de passar as fotografias para o computador....

E o que posso dizer sobre esta operação de tosquia é que, da parte que me toca, só espero é que o pelo cresça depressa pois agora parece um cão mais normal. Preferia-o na versão atípica, felpuda. Mas, independentemente disso, cabeludo ou bem aparado, rebelde ou com cabelinho à fod@-se (pardon my french), o meu ex-ursinho felpudo é um bom amigo, um grande companheiro, um cão como nós.

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Um dia bom
Saúde. Afecto. Paz.

sexta-feira, dezembro 02, 2022

Um dia no spa -- e não venham falar-me em vida de cão

 

No outro dia, pessoa altamente entendida na raça do nosso urso felpudo, vendo-o, considerou que deveria ser tosquiado pois estava com nós no pelo e aquilo já não ia lá com a nossa técnica heurística. Só ultimamente atinámos com a escova-cardadeira adequada. Aquilo não é pelo, é lã e como tal deve ser tratada. Mas tarde demais. Além disso, era na base 'deixa lá a dona pentear' e, quando ele resolvia que já chegava, eu, que não tenho instintos ditatoriais, deixava-o ir. Portanto, aquela farta cabeleira foi-se enleando. De vez em quando, cortávamos os nós. Por vezes, formavam-se quase bolas de pelo. O pelo externo enleado em volta do sub-pelo. 

Percebemos que nada disso, o problema tinha transcendido as nossas capacidades caseiras. Entregámo-lo, pois, nas mãos de um mestre premiado, experiente. Não sabia que os groomers também são avaliados e trofeuizados. Mas são. E este é um desses.

Nós com medo que a fera se lhe atirasse, o trucidasse, o comesse vivo. Zero. Este groomer é daqueles que não dá abébias. Macho alfa. Em poucos segundos estava a pegar na fera, a pô-la em cima da mesa, a laçá-la e a pôr-lhe uma ligadura de gaze em volta da boca. De cada vez que o pobre ursinho tentava revoltar-se, ele punha-lhe o braço em redor, dava-lhe inquestionável ordem de calma, anulava-lhe a vontade de ser rebelde. Fui filmando. O meu filho resumiu: assertividade física. Tal e qual. 

Foi penteado, a lã desensarilhada, tosquiado, foi para o banho, esteve com amaciador e hidratante, foi enxaguado, secado, penteado, novamente tosquiado, penteado de novo. E, durante todo o processo, quase dócil.

Saiu de lá com metade do volume, pelo compacto mas rasteiro, macio. Vison, seda. De vez em quando anda à volta, à procura do pelo, estranha-se a si próprio. E veem-se-lhe bem os olhos, parece outro. Imagino que ele próprio veja o mundo de outra maneira. Há bocado esteve aqui sentado a olhar para mim. E eu para ele. Depois encostou-se, quis que eu lhe fizesse festas. Claro que sim, não as regateio. Não tenho feitio para ser macho-alfa. Por isso toda a gente me diz que eu, para ele, sou uma ovelha. Felizmente, ao meu marido parece que reconhece como pastor.

De casa dos meus filhos iam chegando fotografias dos meninos já com árvores de natal e demais decorações. As casas bem bonitas. Entretenimento caseiro em tempo de viroses. Do lado da minha filha estão em recuperação, embora um ainda um pouco empanado. Gripe A, disse a médica. Fortes, tinhosas, demoradas de curar. Do lado do meu filho, foi um, agora é outro com febre. Vá lá que parece que mais ligeiras que a dos primos. Isto depois da mãe ter tido covid pela terceira vez este ano (estando vacinada e revacinada). Portanto, isto está bonito. 

Agora à noite, depois de os dois (mais o contrapeso, outrora urso cabeludo) termos ido passear na praia e de termos jantado, senti muito frio. Isto, embora não esteja temperatura para isso. Não querendo desafiar a sorte, aqueci-me o mais que pude. Quando me senti aquecida, deu-me o sono. 

A minha filha perguntou-me se já tínhamos feito a árvore de Natal. Não. Nunca tenho paciência para isso. O meu marido é que costuma fazê-la. Eu sou mais para luzinhas. Comprei dois fios com luzinhas que acendem com pilhas. Colocá-las-ei dentro de jarrinhas de vidro ou de copos altos. Acho que farão uns belos pontos de luz em cima das mesas. Também comprei uma grinalda com umas estrelinhas. Pensei pôr à volta do corrimão do rés-do-chão para o primeiro-andar. Afinal é curta, só dá para o primeiro lanço. Mas fica bonito. Também tenho uma arvorezinha estilizada, dourada, com pontinhos de luz. Está na pedra da lareira e fica lá todo o ano. A ver se também se enfeitam as árvores no jardim com bolas grandes. Mas não eu. Quanto muito, ajudo.

Não tenho grande paciência porque é coisa efémera. Se fizesse sentido, deixaria as bolas nas árvores o ano todo, gosto de ver. Ou as luzinhas em casa. Fica a arvorezinha da lareira e se calhar também poderei usar os copos altos com as luzinhas. Mas as do corrimão ou outras não faz sentido manterem-se. Montam-se agora para desmontar a seguir. Não tenho grande paciência.

O que sei é que este feriado me soube a férias e gostava de assim continuar. Há bocado, vi notícia de uma galeria a norte e pensei que me apetecia que nos metêssemos no carro e fossemos até lá. Depois pensei que amanhã (ou melhor, hoje) é sexta-feira, dia útil. Não dia de passeio. Ah, que vontade de ser dona do meu tempo. Caraças.

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As imagens, geradas com recurso a Inteligência Artificial, são da autoria de Kevin Lamb

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Uma boa sexta-feira

Saúde. Animação. Paz.

quinta-feira, dezembro 01, 2022

Três valorosos cidadãos do mundo - corajosos, sonhadores, resistentes, poderosos

 



Parece que não é a primeira vez que acontece. Talvez alguns não tenham sobrevivido. São pessoas como eu. E, no entanto, quantas mil vezes mais destemidos, mais lutadores, mais fortes, mais intrépidos que eu.

Três homens andaram 11 dias em equilíbrio sobre o leme de um enorme cargueiro, rente ao mar. Partiram da Nigéria e foram resgatados ao largo de Las Palmas. [Men survive 11 days on rudder of ship travelling from Nigeria to Canary Islands]

Fugiam de um destino com que não se conformam e sonham com um futuro melhor e, para o atingirem, arriscam a vida de uma forma que me comove muito. 

Quando foram resgatados estavam desidratados e em hipotermia. Não sei como conseguiram sobreviver onze dias apoiados num espaço tão, tão, pequeno, tão, instável, rente à água fria, dobrados. Não sei se tinham o que comer ou beber mas, se o tinham, seria tão pouco. Nem sei como conseguiram descansar, como conseguiram manter a coragem quando as águas se agitavam, quando conseguiram superar o medo quando caía a noite, quando duvidavam se conseguiriam sobreviver até chegarem ao seu destino. 

Nem sei o que imaginam para a sua vida. Clandestinos, sem documentos, como poderão alcançar uma vida segura e feliz? 

Mas há muitos que conseguem e tomara que estes venham a ter uma vida longa e feliz, à medida do que sonham. 

Todos os países, em especial os países envelhecidos e em especial aqueles em que há falta de mão de obra, deveriam acolhê-los de braços abertos, dar-lhes casa, ensinar-lhes línguas ou ofícios ou o que eles queiram estudar, arranjar-lhes documentos, trabalho, ajudá-los a formar família, ajudá-los a construir o caminho para o futuro com que sonharam. 

E deveria ser mandatório fazer-lhes uma estátua em cada cidade para que todos tenhamos sempre bem presente o quanto se arriscam os que vêm de longe almejando uma vida como a nossa, o quanto sofrem para terem aquilo que tantas vezes desprezamos, o quanto todos tanto lhes devemos.

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Um bom dia feriado
Saúde. Solidariedade. Paz.