Conheço uma pessoa que tem algumas particularidades e esclareço, desde já, que estou a falar de uma pessoa real.
Volta e meia, quando quer dizer alguma coisa que, segundo ele, requer mais coragem, dissocia-se de si próprio e começa a falar na terceira pessoa. Por exemplo, diz assim: 'É pa dizer a verdade? É que, se é, atão o Nuno vai dizer a verdade'. E, a seguir, diz uma mão cheia de coisas óbvias. E o ridículo é que as diz com ar de quem está a revelar os planos para deitar abaixo as Torres Gémeas. Depois remata com sorrisinho satisfeito: 'Se calhar, não gostaram de ouvir. Mas, já sabem, o Nuno é assim, se é para falar, o Nuno diz tudo o que tem a dizer.'. E percebemos que, lá no entendimento dele, marcou uma data de pontos.
No outro dia, depois de mais um chorrilho de banalidades, saiu-se com esta: 'Se calhar não tavam à espera que o Nuno viesse aqui atirar uma bomba pa cima da mesa, mas, desculpem lá, tinha que ser'. Quem o ouve fica sem perceber se o tipo é parvo ou se come alguma porcaria às colheres. É que, para além da atitude quase apatetada, revela sistematicamente que não percebe nada do que se passa. Atira com aquelas grandes verdades com ar de quem atirou uma granada e a gente fica sem saber o que dizer. Não vamos dizer que vá dar banho ao cão. É que nem valeria a pena dizer isso pois não perceberia, iria concluir que não tínhamos aguentado com a força do petardo. Vê-se como um paladino da verdade quando não passa de um asno retardado.
A semana passada contaram-me que, depois de mais uma daquelas suas intervenções tontas em petit comité, veio cá para fora gabar-se que tinha avançado com a artilharia toda e que 'Paciência, se calhar ouviram o que não queriam ouvir... mas teve que ser. Se não gostarem, não comam, mas depois não venham dizer que o Nuno não avisou'. Ouvi isto e nem fui capaz de dizer nada pois a única coisa que me ocorria dizer era imprópria para consumo. Suspirei e fui piedosa. Limitei-me a dizer: 'Ah... foi? Ele fez isso tudo...? Olhe... pois não dei por nada...'
Mas isto para dizer que, perante a chacina que a Rússia tem vindo a levar a cabo na invasão da Ucrânia, perante a malvadez que Putin tem demonstrado, perante o banho de sangue e perante a destruição de pessoas e bens que tem provocado, perante os brutais atentados ao direito internacional e perante a total desumanidade que assassinamente ostenta, ainda por aí há uns quantos Nunos (e Nunas) que não apenas mostram que o seu lado é o dos criminosos como não percebem nada, nada, nada... e, como se não bastasse, gostam de se armar em espertos. Julgam que tiram cartas da manga ou da cartola e exibem-nas com aquele ar ufano que os mentecaptos exibem quando lhes dão palco. Vê-los provoca aquilo que vulgarmente se designa por vergonha alheia.
A guerra, esta guerra, há-de acabar, Putin há-de ir para o esgoto da História, a Ucrânia há-de levantar-se das cinzas... e estas araras continuarão acantonadas em torno dos ditadores deste mundo -- com o PCP autisticamente ensarilhado ali pelo meio --, caladinhas que nem ratas a propósito do tirano assassino e, pelo contrário, a dizerem mal dos Estados Unidos, a gozarem com a Ursula von der Leyen e a desfiarem brilhantes teorias da conspiração que não lembram ao careca.
A entrevista a Nina Khrushcheva é muito interessante e reveladora e, por isso, permito-me recomendá-la.
Quer a mentalidade de Putin, um KGB de quinta categoria que se rodeou de outros KGBs e que, inculta, psicopata e narcisicamente, gere um país da dimensão da Rússia, quer o sentimento da maioria dos russos perante o que está a passar-se são abordados de uma forma contida e informada pela professora Nina Khrushcheva.
Hear what professor who just visited Russia noticed
Professor Nina Khrushcheva discusses Russian President Vladimir Putin's mindset and her observations during her recent visit to Russia
Ultimamente pouco tenho falado do Presidente Marcelo pois a sensação que tenho é que entrou em derrapagem num plano descendente. Portanto, não precisa que o empurrem pois ele próprio já ganhou o balanço suficiente.
Mas a verdade é que, contra o que a vulgar prudência aconselharia, ele próprio continua a acelerar em direcção ao fim da rampa por onde desce, embalado. Não sei se, aí, no fim, haverá uma parede ou um precipício mas, seja o que for, não será boa coisa para quem se atira, à força toda, para lá.
Não há dia em que ele não nos apareça: ora anda em campanha pelo Brasil, ora anda em tournée pelos States, ora opina sobre o orçamento ora sobre as previsões ou sobre a ausência delas, sobre os carros da TAP, sobre o défice, sobre o que calha. Pelo meio insinua que pode dissolver a assembleia (e, não nos esqueçamos, em tempos mais passados, no meio das habituais tropelias, até já conseguiu a proeza de pegar no João Miguel Tavares e o apresentar como pessoa respeitável nas cerimónias do Dia de Portugal).
Li (ou sonhei que li?) que vai a Fátima de duas em duas semanas. Mas isso também não será nada demais pois também vai regularmente beber uma ginjinha à tasca do Zé da Gatinha, dar um mergulho em Carcavelos ou ao Guincho, à feira do livro aqui e ali e onde houver, dar um beijinho à velhinha mais fofa do lar, fazer festinhas na cabeça do bebé chorão e tirar uma selfie com duas gordas, com três carecas, com uma magra e outra assim-assim, com quatro domésticas, com cinco catedráticos, com seis enfermeiras, com uma dúzia de bombeiros e com uma senhora que vai a passear um cão.
Claro que, acelerado e em tal rodopio, não podia deixar de ficar como está: almareado. Portanto, parece já não medir o que diz ou faz.
Isto dos 400 casos, coisa pouca segundo ele, é outra nódoa de que jamais se livrará. Poderá engendrar mil leituras criativas para tornar a coisa menos escabrosa. Mas, por mais que vire do avesso o que disse, não conseguirá que alguém o volte a ver de camisa lavada. Há nódoas que não saem nem por mais uma e esta é uma delas.
Aliás, em todo o tema da pedofilia, por razões que certamente não lembrarão ao diabo, Marcelo tem feito de tudo para se manchar. Percebe-se que, ao querer desvalorizar os encobrimentos ou a dimensão do crime, quer absolver a Igreja... mas quem é ele para, perante tantas acusações tão graves, pretender absolver a organização que tem andado a encobrir tão graves crimes?
Sabendo-se que, por cada vítima que ganha coragem para denunciar um abuso, há muito mais vítimas que preferem manter o sofrimento bem enterrado no passado, a única coisa que se pode dizer é que se as denúncias são 400, então, as vítimas serão milhares. Não é coisa pouca. É uma monstruosidade.
E mesmo que fosse apenas 1 criança abusada por um padre só isso já seria um escândalo imperdoável.
Portanto, a única coisa que, em minha opinião, Marcelo pode fazer é pedir desculpa às vítimas por ter dito que 400 até são poucas e prometer-nos que no próximo mês se vai abster de comentar o que quer que seja.
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Em alternativa, poderá falar por anagramas pois assim não apenas ninguém perceberá nada como poderá sempre vir dizer que o que ouvimos não foi aquilo, foi outra coisa e que as palavras que pensámos que eram afinal eram outras. Casos? Eu não queria dizer casos, queria dizer sacos. 400 sacos são poucos. Ou não? Se calhar, são muitos, querem lá ver? Ou socas. 400 socas, o que é isso? Nada, peanuts.
The man who speaks in anagrams - Monty Python's Flying Circus
Não sou fada do lar nem tenho ambição de vir a ser. Sei dar conta de uma casa e fazer de tudo (acho eu) mas tudo na versão básica e acelerada. Durante muitos anos não tive empregada pelo que tive que aprender a despachar serviço.
Depois de anos de auto-suficiência, quando tive o meu filho reconheci que estava a ser um pouco de trabalho a demais. Com um bebé que dava trabalho que se fartava, com uma menina de três anos que levava horas a comer, nós dois a trabalhar e não era pouco, com trânsito entre a casa, a escola dela, a ama dele, ter que andar a levar e buscar um e outro e chegar a casa e ter roupa e comida para tratar e banhos e papas... era muito. Por essa altura o meu marido trabalhava numa multinacional tendo que se deslocar com alguma frequência, não apenas dentro como fora do país e, quando não, mesmo assim não conseguia chegar muito cedo. Era dureza.
Arranjámos, então, uma senhora para nos ajudar. Não se lhe percebia a idade, era de tipo matrona. Nunca simpatizei com ela, era sonsa e sombria. Mas não conhecíamos outra.
Ao fim de pouco tempo comecei a dar por falta de fraldas, de babygrows, de casaquinhos, falta de tudo. Não sou especialmente atenta pelo que não saberia validar que mais faltava. Dava por falta das coisas do bebé pois eram de uso diário. Devia ter algum filho da idade do meu, presumi. Nunca reconheceu que só poderia ser ela. Mandámo-la embora, bastante incomodados por termos uma ladra dentro de casa.
A seguir veio uma outra. Muito faladora, muito prestável. E simpática. Ofereceu-se para fazer sopas para me facilitar a vida -- e fazia sopa de maçãs, sopa de ovos. Eram sabores novos mas agradáveis. Não arrumava grande coisa mas, enfim, lá ia fazendo. O pior é que um dia não podia vir pois tinha uma prima no hospital e não podia deixar de ir vê-la, outro era um irmão que ia para fora e ela tinha que levá-lo, outro era a mãe doente e tinha que acompanhá-la. Faltava muito e não queria que eu descontasse pois dizia que compensava. Eu ia na conversa. Se eu mostrava aborrecimento com tanta ausência, era ela que aparecia doente, tinha que ir fazer exames. Uma vez calhou eu chegar mais cedo a casa. Vozes, risos. Entrei quase a medo, não percebia o que poderia estar a acontecer. Umas repimpadas nos sofás a ver televisão, ela na conversa com outras na cozinha. Eu com o menino ao colo e a menina pela mão e a casa cheia de gente desconhecida, usando-me a casa no maior dos à-vontades. Como se a casa fosse dela, informou-me que eram conhecidas que tinham resolvido fazer-lhe uma visita. Enchi-me de coragem e mandei-a embora.
Até que, não sei como, descobrimos uma senhora já não muito nova mas que nos pareceu uma escolha acertada. Pequenina, esperta como um alho, toda mexida. Trabalhou connosco uns bons anos. O meu filho já estava no mesmo colégio em que andava a irmã e, por isso, a logística já estava relativamente facilitada. Ela arrumava e limpava a casa, ia buscá-los, dava-lhes lanche se eles quisessem, por vezes levava-os à ginástica, ficava a tomar conta até que regressássemos. Não era especialmente 'apurada' na lida da casa nem cozinhava. Mas, a olho nu, a casa parecia minimamente arrumada e limpa, a roupa estava lavada e engomada e, sobretudo, era carinhosa e cuidadosa com os miúdos.
Era também cheia de histórias. Ia no terceiro marido, viúva dos dois anteriores. Um morreu de doença, outro num acidente. Caiu ou atiraram-no de um grua, dizia ela. Falava deles com desapego. Do que morreu de acidente contou: "Trabalhava no estaleiro, ganhava bem, fazia muitas horas, mas uma vez descobri o que ele fazia para ganhar ainda mais. Quando fui lavar as cuecas, descobri". Não sei se eu já tinha trinta anos nessa altura mas sei que ainda sabia pouco dessas coisas. Não percebi. Ela esclareceu: 'Sujas de cocó na parte da frente'. Fiquei na mesma. Contrariada por ter que entrar em pormenores, esclareceu: 'Desculpe o que vou dizer mas, se não percebe, não há outra maneira de dizer: ia ao cu aos que chegavam nos barcos'. Eu ficava sempre perplexa com o que ela contava.
Mais tarde, o marido, o terceiro, adoeceu, não me lembro de quê. Começou a faltar muito pois ia vê-lo ao hospital ou, depois dele ir para casa, ou era o médico que lá ia ou era o marido que piorava e ela não queria deixá-lo sozinho ou outra coisa qualquer. Era muito complicado conciliar a nossa rotina doméstica com estas ausências mas, para ela não se ir embora, aceitávamos tudo. Não parecia especialmente preocupada com o marido, falava sempre de forma desprendida. Andava simplesmente mais atarefada. Começou a preparar-me para nos ir deixar. Pedi-lhe que aguentasse até os miúdos serem mais autónomos mas ela estava mais virada para a sua liberdade. Falava abertamente dos seus planos. Ia 'meter os papéis' para a reforma e, como o marido já não devia durar muito (falava assim, quando se referia ao marido), depois recebia também a pensão de viuvez e ficava bem, já não precisaria de trabalhar. Até que o marido morreu mesmo. Pareceu aliviada, ainda mais cheia de planos, ainda mais mexida do que o costume. Mal a reforma se concretizou, bye, bye, aí vai ela. Desapegadamente, foi-se embora. Nós preocupados, os miúdos a sentirem a falta dela e ela já toda ufana com o seu estado de viuvez.
Perdi a vontade de ter outra pessoa em casa. Habituámo-nos. Distribuíamos tarefas entre os quatro. Melhor ou pior, um ficava com a limpeza do pó, outro com a aspiração, outro com casas de banho, o meu marido estendia a roupa, eu engomava, eu cozinhava, ele lavava a louça. Os vidros ficavam para quando o rei fazia anos. Fomo-nos governando assim.
Mas não era opção consensual. Pelo contrário, muito, muito pelo contrário. Os miúdos já não estavam para isso, o meu marido também não. Mas eu não me imaginava a ter uma outra mulher a partilhar o nosso espaço, talvez a roubar, talvez a levar gente para nossa casa, talvez a baldar-se a torto e a direito.
Até que há cerca de dez anos, ao ser submetida a artroscopia aos joelhos, tive que me render. Não podendo eu trabalhar, não seria justo deixar o trabalho todo para o meu marido. Por essa altura já éramos só os dois mas a casa era grande e nem pensar ficar eu de perna estendida e ele cheio de trabalho.
Por isso, a partir daí temos quem nos ajude. Vem apenas uma tarde por semana e mais do que chega. Mas agora já não nos imagino a ter que fazer tudo só por nós. Gosto de lavar o chão, de lavar casas de banho e cozinha, gosto de cozinhar, de tratar da roupa. Mas não tenho nem um bocadinho de pachorra para limpar o pó. E há os vidros -- muito menos. E todas essas coisas para as quais é preciso disciplina para fazer assiduamente. Nem sei de truques, daqueles que as fadas do lar sabem e têm orgulho em saber.
Mas, porque nunca é tarde para aprender, aqui ficam algumas dicas que podem ser bem úteis a quem queira fazer boa figura e surpreender amigos e familiares quando lá forem a casa.
Nobody Believes But It Really Works!!!
9 Brilliant (2+ Free) Home Tricks That Work BETTER Than Magic
Quando escolhi a área no secundário (ciências e não económicas ou letras ou [não me lembro do nome das outras]) não fiz testes psicotécnicos nem conhecia todas as possibilidades que tinha ao meu dispor. Foi muito pelos gostos imaturos de miúda de catorze anos. Dois anos depois, quando escolhi o curso superior também estava mal informada e não sabia como informar-me. Hoje, com a informação disponível, omnipresente, este desconhecimento parece improvável. Mas era assim.
Tinha várias vocações, muito opostas, e outras que não sabia que poderiam ser concretizáveis e, certamente, outras que desconhecia.
Aboli a psiquiatria, que seria a primeira escolha, porque não conseguiria ver mortos nas aulas de anatomia do curso de medicina. Só de pensar nisso sentia terror. Aboli, depois, psicologia porque o curso não era reconhecido ou, pelo menos, aquele a cuja porta fui bater, à época, não era. Acresceu a isso o facto de ter lido o currículo do curso e me ter parecido embaraçosamente básico. Arquitectura estava fora de questão pois tinha enveredado pela alínea de ciências e porque achava que era muito assente em desenho e em geometria descritiva e isso pareceu-me, por um lado, fora das minhas competências e, por outro, uma seca. Não pensava, na altura, na profissão em si mas nos escolhos que o curso me traria. Identicamente não optei por economia pois forçosamente teria história e, pelos péssimos professores tidos até aí, abominava história. E em gestão também não pensei pois parecia-me uma coisa às três pancadas, um pot pourri de matérias em que nada seria aprofundado. E, na minha cabeça e segundo os meus conhecimentos, não haveria outras possibilidades.
Acabei por optar por um curso que me garantiram que dava para tudo e que, segundo me diziam, eu faria com uma perna às costas pois assentava na disciplina em que tinha notas mais altas. Foi, na verdade, um curso horrível, pesado, com colegas marrões, sensaborões. Não me revia em nada daquilo: professores que carregavam, sem prazer, o peso desmedido da sua cátedra e alunos precocemente envelhecidos que ansiavam por ser génios. A ausência de companheirismo e de gosto pelo lado lúdico da vida por parte deles quase me faziam atirar a toalha ao chão. Os primeiros anos daquele curso eram uma máquina trituradora que deixava a maioria dos alunos para trás. Aguentei-me e, felizmente, os dois últimos anos foram aliciantes, um grande desafio. Como arranjei logo emprego e foi para fazer uma coisa que adorava e ainda por cima com o melhor acompanhamento que poderia esperar, nunca me arrependi. Sempre senti que estava na profissão certa apesar de ter mudado algumas vezes. Fui fazendo sempre coisas novas, fui sendo posta à prova, fui sentindo que estava sempre a aprender, fui formando equipas, e, por isso, fui sempre sentindo a motivação de que necessito para me mover. O mundo das empresas provou ser a minha praia.
Contudo, um dia destes, esta minha jornada profissional estará a chegar ao fim. Poderei, nessa altura, não fazer nada. Depois de uma intensa vida de trabalho, talvez seja mais do que justo que me conceda a mim própria o direito ao descanso e à liberdade de movimentos.
No entanto ocorre-me que, em vez disso, poderei experimentar outras praias.
Já pensei: porque não vou tirar o curso de psicologia? E, depois, trabalhar nessa área? Porque não? Ou porque não vou aprender a fazer joias, por exemplo? Arquitectura já não dará, já é tarde demais para começar arquitectura. Mas para psicologia acho que vou a tempo, tenho experiência de vida que, se calhar, ajudará. A psicologia sempre me atraiu, sempre.
Claro que há aquilo de escrever. Gostaria de ter a concentração, a disciplina e a disponibilidade mental necessárias para escrever... mas não sei se as tenho. Escrever continua a aparecer na minha cabeça como quase um hobby. E, na minha cabeça, parece que continuo a pensar que devo ter uma ocupação 'a sério', uma profissão.
Sei que isto, para quem me lê, deve soar muito parvo. E, se calhar, é mesmo parvo. Mas estou formatada para trabalhar e para ser remunerada a partir do meu trabalho. Ficar sentada a olhar para o boneco ou ocupar-me com frescuras e depois receber uma pensão, parece-me uma coisa que não tem a ver comigo.
Portanto, tenho que pensar nisto.
Hoje, cá em casa, ao falarmos nisto, na perspectiva de um dia vir a reformar-me, a minha neta disse: Ah, boa, depois podes ir buscar-me à escola... Ao ouvir isso, senti mixed feelings. Por um lado, fico contente que ela goste que eu vá buscá-la à escola. Mas, por outro, não me imagino a não ter ocupações a 'sério' para além disso. Penso que me sentiria frustrada se passasse o dia na maior indolência tendo por única ocupação ir buscar as crianças à escola.
Por isso, acho que tenho algumas coisas em que pensar nos próximos tempos. Tenho, tenho.
De manhã fomos à segunda aula de comportamento canino. Tranquilo, cordato (refiro-me à fera; mas o professor também é assim). O urso felpudo já interiorizou que o professor não vai atacar-nos e, portanto, já o cooptou. O prof. goza connosco, diz que o seu aluno vai ficar a gostar mais dele do que de nós. Eu já não digo nada. De tpc, mais técnicas, mais tácticas e estratégias para praticarmos, por nós, nos próximos quinze dias.
Depois da aula, passeámos no parque, visitámos outro jardim -- um lindo jardim de um palácio --, e regressámos. No caminho, pensámos que, em vez de comermos a comida que lá tínhamos em casa, melhor faríamos se fossemos buscar uma daquelas maravilhosas pizzas de forno de lenha. Bem o dissemos, melhor o fizemos.
De tarde, deitei-me no sofá do terraço e estou convencida que adormeci instantaneamente. Agora há moscas por todo o lado, incomodativas como melgas. Pois o sono foi tão profundo que nem dei por elas. Um calorzinho bom, absurdo para esta época do ano. De chuva nem sinais. Em pleno outubro, vestida à verão, dormi uma bela sesta ao ar livre.
Quando acordei, retomei 'O acontecimento'.
Lá está: se calhar isto é literatura. Não há palavras caras, não há jogos de palavras ou de estilo, não há enredos do caraças. Nada. tudo simples. Há apenas uma escrita pessoal, sincera, tão pessoal e tão sincera que chega a ser íntima e que, de forma discreta, como se nada fosse, nos vai mantendo presos.
Aos meus pés, dormia o meu amigo cabeludo. De vez em quando, levantava-se e ia pegar-se com o do lado que também se pica com este. Estão separados por um muro mas, totós como fingem ser, portam-se como se um pudesse invadir o território do outro.
Passado um bocado chegou o meu marido que provavelmente tinha estado a dormir na sala, quiçá enquanto via algum jogo de futebol.
Fomos, então, para a parte da frente do jardim para os trabalhos que tínhamos em carteira. A casa tem ali, naquela zona, pouca luz. Quando chegamos à noite, se não tivermos deixado a luz acesa, não é fácil. Muitas vezes tenho que ligar a lanterna do telemóvel. O meu marido recusa-se a fazer buracos nas paredes da casa para pendurar novos candeeiros ou a fazer puxadas de electricidade ou seja o que for que lhe dê mais trabalho. Ele diz que não é isso, até se ofende com a minha insinuação, que não quer é desfear a casa. Se calhar, é mesmo e, verdade, verdadinha, não lhe tiro a razão. Por isso, não quer instalar daqueles projectores com sensores de movimento nem quer substituir os candeeiros que lá estão a menos que tenham furação compatível, o que ainda não encontrámos. Mas tudo bem: se não tens cão, caça com gato ou se, te dão limões, faz limonada. Ou coisa do género. Pensámos, pois, que, nesse caso, partiríamos para o capítulo seguinte: luz solar.
E, então, andámos a ver onde pendurar os projectores e as demais iluminações que comprámos no outro dia em sítios que apanhem sol e em que os pudéssemos prender com arame (na vedação, na armação metálica em volta de uma janela por onde cresce uma trepadeira, no tubo que está na esquina da casa e que desce do algeroz, etc). Não foi fácil. Nem sempre concordamos com a abordagem, com o processo ou com a perfeição da obra. Além do mais, nestas coisas o meu marido prende-se a minudências que não lembram ao careca (no pun intended) como não querer que eu corte o arame verde pois acha que não puxo com o cuidado devido, posso enleá-lo, ou refila porque, segundo ele, corto bocados demasiado grandes e não apenas no tamanho necessário. Depois eu quero mais acima mas, para lá chegar, só com a escada grande e pesada que está na garagem e ele não quer, diz que não é preciso ser tão acima, e eu acho que tem que ser. Visto de fora não sei se não parecemos os marretas.
Estivemos ainda a pôr uns arames a partir de uma rede para ver se a glicínia se orienta por ali, criando um túnel florido no corredor lateral, e estivemos a puxar umas guias gigantes que já vão pelos ares no jardim da vizinha para ver se seguem estas novas orientações.
A seguir, já ao fim da tarde, fomos fazer uma caminhada alargada. Gosto de caminhadas longas, sem pressa, gosto de ver as casas ao fim do dia, as luzes já acesas, gosto de ver os jardins já com ar de outono, alguns muros cobertos por vinha virgem, linda, rubra. Há plantas que exalam um perfume agradável, doce, bem aventurado. Não sei quais são mas creio que ainda haverei de descobrir.
Regressámos já de noite.
E, milagre, as luzinhas já estavam acesas! Não estávamos à espera pois mal apanharam sol. Fiquei surpreendida e contente. O jardim iluminado, os sensores de movimento em acção, tudo funcional e bonito. O meu marido também gostou, notei isso. Por mim punha mais umas luzinhas mas ele é conservador, diz que não é natal para enfeitar o jardim com luzes. Seja. (Também já não falta muito para o natal).
Aliás, ontem, quando estava no shopping, ao passar pelo Gato Preto nem queria acreditar: árvores de natal, pais natal, presépios. Pensei: já estamos no natal. Entrei para me certificar de que não estava a ter visões (e, confesso, para ver se havia algum presepiozinho pequenino, fora da caixa, daqueles que não têm nada a ver, de que gosto). Saí sem figurinhas mas com a sensação de que o tempo anda acelerado e que a vida mal consegue acompanhá-lo.
E agora vou partilhar um vídeo que acho o máximo, uma daquelas coisas que me enche as medidas. Vejam bem e, se vos apetecer, aproveitem também para dançar. É do caraças. E tem um final feliz.
Haute saison com Gordon Tracks & Giorgio Poi, dirigido por Natalie Portman e produzido por Rob & Jack Lahana
Comecei o dia a fazer análises. Agora, de vez em quando, para aí uma ou duas vezes por ano, tenho que ser vigiada. O que vale é que não me faz impressão nenhuma que me tirem sangue. Aliás, já fui dadora. Só deixei de ser por mero comodismo. Quando iam lá à empresa, era só descer até ao posto médico. Quando deixaram de ir, perdi a noção de onde ir ou quando.
Pensei que aproveitaria para ir, a seguir às análises, num instante, tentar descobrir livros da Annie Ernaux.
Mal me levantei, organizei-me. Tudo arquitectado: arranjei um saquinho de papel da farmácia para levar o frasquinho com a primeira urina da manhã e pus o saquinho à vista para não correr o risco de me esquecer da urina.
Tinha também pensado guardar uma banana e uma maçã lavada para comer enquanto conduzia, a caminho da livraria. Contudo, estava na dúvida: onde guardar a banana e a maçã? A maçã estaria lavada, tinha que ir num saquinho de plástico, daqueles de congelação. Estando num saco, talvez também pudesse ir no saco de papel da farmácia. Mas a banana? Não ia à solta dentro do saco de papel, ao lado do frasquinho da urina. Portanto, por via das dúvidas, coloquei o frasquinho da urina dentro de um saco e dei-lhe um nó. Portanto, seria assim: um saco de plástico com o boiãozinho da urina, um saco de plástico com a maçã. E, à solta no saco de papel, a banana.
Também não podia esquecer-me da prescrição. Fui à procura, guardei-a na carteira. Nem da chave do carro. Fui buscar.
Arranjei-me. Disse ao cãobeludo: 'A dona já vem. Fica a tomar conta da casa que a dona já vem'. Estava enroscado a dormir, levantou uma orelha e deixou-se ficar.
Saí apressada a ver se o tempo me dava para tudo.
Quando ia a meio do caminho, dei por ela: com tanta dúvida, esqueci-me de guardar a maçã e a banana. Caraças. Detesto andar em jejum. Mas já não dava para voltar a atrás.
Portanto, lá fui.
Quando me despachei, saí com o carro do parque na dúvida: iria em jejum ou voltaria para casa? Abrandei. Avaliei a situação. Fome, fomeca, a tensão certamente baixa. Sem uma bananinha, sem uma maçã, sem um aconchego. Voltei para casa.
Tomei o pequeno almoço, trabalhei, telefonei, fiz o que tinha a fazer. À hora de almoço, fui fazer o passeio higiénico com o dog.
Almocei a correr e ala moça, lá vai ela, antes que se fizesse tarde. A caminho do shopping. Quando estacionei, tomei nota do lugar, da cor, do piso e enviei uma mensagem para mim própria. Não quero correr o risco de ficar no mato sem cachorro, sem saber onde deixei o carro e sem ter quem me ajude. Quando frequentava assiduamente estes locais, já tinha lugares mais ou menos orientados. Agora não, agora é onde calha e, por isso, tomo providências.
Encontrei o 'Acontecimento'.
Lá, para rentabilizar a ida, resolvi entrar numa ou noutra loja. A ideia é a de sempre: 'Não é para levar, é só para ver, não preciso de nada'. Mas, no canto da consciência, a vozinha matreira do costume: 'Só se for uma oportunidade imperdível'. E assim foi. Encontrei duas blusinhas bonitas, tecido com bom cair, padrão bonito e... a cinquenta por cento do preço. Quase black fruday. Negócio irrecusável. Fui provar. Ah, céus, que sensação boa: estar sozinha às compras, num provador... Ainda assim, a santa-madre poupadeira que existe no tal canto sacristeiro da minha mente alertou: 'Mas que falta é que isso faz?'. Respondi de mim para mim: 'Nenhuma'. Beatamente, pendurei-as nos respectivos cabides e fui devolvê-las ao expositor. Mas eis que passa a empregada e me tenta: 'Hoje está com dez por cento adicionais'. Pronto. Varreram-se-me as dúvidas existenciais. Trouxe-as. Baratíssimas. Vou ter aí umas reuniões presenciais, coisa decisiva de ou vai ou racha. E tudo num sítio todo xpto, tudo gente ultra xptosíssima, e agora vou parecer toda elegante com umas calcinhas brancas, saltinho alto e umas blusinhas todas fashion a preço de uva mijona. Ou seja, regressei contente com a vindima.
(E há bocado comecei a ler 'O acontecimento'. Escrita corrida, a gente pela mão da Annie.)
E é isto.
Contar mais o quê? Fomos caminhar para a praia, o entardecer lindo, imensos bichos negros na água a cavalgar as ondas, os areais cheios de gente, tudo na maior boa onda. O sol a mergulhar nas águas e um mundão de gente a curtir a paz do mar e da maresia e da vida ao ar livre.
Enquanto caminhávamos, telefonei à minha mãe que me contou que viu a entrevista à Júlia Pinheiro conduzida pelo marido. Muito amorosos, amigos um do outro, disse-me ela. Há bocado a minha filha enviou mensagem a dizer que tinha posto para trás e estava a ver o mesmo, para eu ver também.
Deu luta. O meu marido não queria alinhar, que era bater no fundo: entrevista de Júlia Pinheiro e marido, tema sentimental, coisa lamechas, era o que faltava pormo-nos a ver coisa mais brega. Não disse brega. Deve ter dito pior. Mas não sou de desistir tão facilmente. Vimos. Gostei de ver. E acho que ele também pois não adormeceu nem se levantou nem dirigiu impropérios nem ao casal ali derretido nem a mim por estar a querer ver aquilo.
No fim, quando se levantou e ia a sair da sala, disse-lhe que ele devia ser como o Rui Pêgo, assim romântico, a dar presentinhos, a ser amoroso e fofo. Ele disse que também não viu a Manuela a mandar vir com o marido. Perguntei: 'A Manuela?'. Já ia no corredor. Voltou atrás: 'Ao que chegámos, a ver uma entrevista ao casal Pinheiro'. E lá foi.
E agora, porque nada melhor que rir, aqui ficam momentos de atrapalhação e risota nas gravações do The good doctor.
Algumas pessoas da minha família, umas de forma directa, outras de forma menos directa, trabalham na área da Saúde. Quando assim é, sabe-se de casos, sabe-se de situações. A medicina não é ciência exacta. Longe, longe disso. É técnica, é saber. É inteligência, em especial a forma mais aguda de inteligência: a intuição. Ver para além do que se vê, ver antes de ver, ver sem precisar de ver. E é ter criatividade. E ter coragem. E ter capacidade de arriscar. É ter sangue frio no momento em que mais dele se precisa.
Para um doente muitas vezes a sorte está em acertar com o médico. E, para o médico, muitas vezes o mais importante é ter sorte (isto dito por um deles, pelo mais experiente e intuitivo de todos): sorte em reparar no pormenor, sorte em pedir o exame certo no momento certo, sorte em conseguir conjugar os exames com uma observação dita casualmente pelo doente. Sorte.
Comecei no outro dia a ver na Netflix a série The Good Doctor. Como cheguei tarde à Netflix e como chego às coisas por acaso e não porque siga recomendações (presumo que as recomendações de séries apareçam nos Faces e Instas desta vida, coisa que, sabido é, não frequento), se calhar já toda a gente conhece esta série.
Seja. Nesse caso não estarei a dar novidade. Apenas o meu testemunho. Acho The Good Doctor das séries mais extraordinárias que tenho visto. Estou agarrada. Os meus posts têm sido mais pequenos pois começo a ver The Good Doctor e custa-me a parar. Volta e meia dou por mim a chorar. Outras a sorrir. Outras aflita. Outras a torcer para que corra bem.
Os argumentos são óptimos, os personagens óptimos, o desempenho e a realização óptimos. Shaun Murphy, o interno de cirurgia, autista e savant, é um personagem extraordinário interpretado por Freddie Highmore, actor de quem nunca tinha ouvido falar e que é extraordinário.
Se já conhecem a série, concordarão certamente comigo. Se não, digo-vos: do melhor que há.
Não faço apostas, nem sobre os Nobel nem sobre o que quer que seja. Acho que nunca fiz uma única. Creio que, tal como não gosto de jogos -- nem de cartas nem de damas nem de máquinas nem de roleta -- também não gosto de apostar. Não estou interessada em perder em coisas para as quais tanto se me dá.
Nisto do Nobel nunca me deito a adivinhar. Tenho como certo que sempre haverei de ser surpreendida. Geralmente não conheço.
Este ano voltou a acontecer. Não conheço Annie Ernaux. Não faço ideia de quem seja, nunca tinha ouvido falar.
A minha ignorância é infinita e isso é tranquilizante para mim pois, sabendo-a infinita, sei, de antemão, que jamais poderei derrubá-la e, portanto, sou condescendente para comigo quando tenho evidências da sua imensa amplitude.
Mas já vi uma fotografia dela e hei-de ler alguma coisa dela para tentar perceber a razão de ser do Nobel. Devo dizer que muitas vezes não percebo mas, na minha humildade, admito sempre que o problema é capaz de ser meu. Mas, seja ou não seja, também tanto faz.
Para já, vou ver uns vídeos só para ganhar algum contacto.
Não sou ninguém nem o meu cabelo, inteiro ou cortado, tapado ou à vista, tem qualquer significado ou importância. Mas, ainda assim, é um gesto. Perante o preconceito absurdo, a ditadura da moral e dos costumes, a tirania da impostura sobre o corpo e sobre a vontade das mulheres, muitas iranianas se têm arriscado cortando os cabelos na rua, desafiando a repressora ordem vigente.
E, um pouco por todo o mundo, muitas mulheres têm manifestado o seu apoio às mulheres que, no Irão, são obrigadas a viver atrofiadas, como se o seu mundo tivesse recuado ao tempo das trevas -- ou melhor, como se os homens que governam o seu país tivessem saído das trevas.
Duas semanas depois da morte de Mahsa Amini, Juliette Binoche, Marion Cotillard, Angèle, Isabelle Adjani, Isabelle Huppert, Juliette Armanet, Jane Birkin, Charlotte Gainsbourg, Julie Gayet e outras são algumas das artistas francesas que se juntam no seu apoio às mulheres iranianas, cortando o seu cabelo em público.
Também:
Uma eurodeputada sueca cortou o cabelo durante um discurso no Parlamento Europeu, em solidariedade com as mulheres iranianas e com os protestos das últimas semanas, que começaram na sequência da morte de uma jovem detida pela chamada “polícia da moralidade” e se tornaram a maior onda de contestação ao regime dos últimos anos.
“Até que o Irão seja livre, a nossa fúria será maior do que a dos nossos opressores. Até que as mulheres do Irão sejam livres iremos apoiar-vos”, disse Abir Al-Sahlani, que nasceu no Iraque, num discurso em Estrasburgo, França, na terça-feira.
Em seguida, cortou o cabelo que tinha apanhado e disse em curdo: “Jin, Jiyan, Azadi” — Mulher, Vida, Liberdade.
Saímos depois do trabalho, já não era nada cedo. No caminho, ele apontou para o céu e disse: 'patos'. Olhei. Um bando em formação. Um V perfeito. Mais atrás, uma linha perpendicular em relação ao eixo central do V, perfeita. Voavam numa elegante geometria. Ocorreu-me que ver uma coisa assim justifica que estejamos vivos. E senti-me feliz.
Quando estávamos quase a chegar, o meu marido perguntou se eu tinha trazido o computador. Não, não tinha trazido. Antes de sairmos, ele tinha dito que a mala do computador estava aberta, com fios a sair, e que não se arriscava a levá-la para o carro, que a levasse eu. Quando passei por lá, fechei-a. Estava no meio das outras coisas que eram para trazer. Ele é que costuma levar as coisas para o carro. Eu fico a fechar as janelas, ver se as luzes estão desligadas, e, no fim, fecho a porta e ligo o alarme.
Portanto, ele não trouxe pois tinha dito que não trazia e não pensou mais nisso e eu não trouxe pois pensava que o problema era a mala estar aberta e, como a fechei, nem pensei mais nisso.
Já anoitecera quando demos por ela. Como hoje tinha reuniões e muita coisa para despachar, tivemos que voltar atrás. Passou-me a felicidade que me tinha chegado do céu. Fiquei furiosa. Discutimos durante um bocado e depois ele calou-se e eu calei-me também.
Chegámos já passava das dez e meia da noite. Arrumámos as coisas, ele tomou banho. Jantámos tarde e felizmente tinha trazido restos pelo que foi apenas aquecer. Quando aqui cheguei à sala, já me tinha passado a arrelia. Aliás, já nem me lembrava de tal coisa. Tenho isto. Dão-me fúrias mas passam-me quase instantaneamente.
Hoje trabalhámos todo o dia, ambos. Cada um no seu sítio. O cão anda entre um e outro e, pelo meio, ladra quando ouve algum carro a passar na estrada. Felizmente só passa um de muito quando em quando pelo que, na maior parte do tempo, é o silêncio e o canto dos pássaros.
Quando fui andar lá em baixo, vi que que na quinta que num dos extremos fica pegada a um dos extremos da nossa estava um carro mas, como o meu sentido de observação para carros é nulo, fiquei na dúvida se era o mesmo de sempre. Perguntei ao meu marido. Disse que sim, claro, há anos que têm aquele carro.
A minha dúvida veio do facto de, na última vez que cá estivemos, os vizinhos terem cá vindo despedir-se de nós. Claro que não puderam entrar pois a fera de guarda fica possessa quando alguém que não conhece se abeira de nós. Falámos, pois, eles na estrada, do lado de fora do portão, nós no lado de dentro e o cabeludo aos saltos, no meio, a ladrar. Ao princípio mal ouvíamos o que nos diziam. Depois o urso percebeu que era gente de bem e acalmou-se. Os vizinhos vinham despedir-se. Venderam a quinta, quiseram contar-nos, desejar-nos saúde, felicidades.
É um casal muito diferente de nós. Têm o terreno muito limpo, sem uma ervinha, as árvores muito bem tratadas, árvores de fruta, e, entre elas, apenas terra. O nosso tem alecrim, rosmaninho, madressilva. E há pinheiros, cedros, aroeiras, azinheiras, oliveiras selvagens, eucaliptos. E pássaros que não acabam e, agora, esquilos. Eu, se houver sol, ando meio vestida, cabelo apanhado, caminho por caminhar, faço fotografias. A vizinha não poderia ser mais o meu oposto. Anda sempre arranjada, geralmente sempre da mesma maneira, muitas vezes anda ao pé do marido e já a vi a cavar, muito aplicada. O marido dela também é o oposto do meu. Anda sempre a trabalhar. Tem um pequeno tractor e lavra a terra, anda com serra eléctrica e não há um pé de flor fora do sítio nem um ramo por desbastar. O meu marido também trabalha mas é a cortar mato ou a desbastar árvores.
Uma vez queixaram-se do filho, que não ligava a isto e que nunca cá vinha nem nunca trazia as filhas. De facto, vejo-os sempre só aos dois e não me lembro de lá ver mais carros ou o barulho de crianças. Percebi que tinham pena. Também moram em Lisboa mas, ao contrário de nós, que gostamos de cá estar só por estar ou que cá temos, com alguma frequência, companhia e o barulho alegre de crianças, parecia que eles vinham para manter o terreno limpo. Nós também andamos ocupados mas não no mesmo registo.
Então, ali no portão, disseram que já não iam para novos, que manter o terreno limpo e as árvores tratadas é coisa que dá muito trabalho e que, por isso, tinham resolvido que era melhor desfazerem-se. Nunca se sentiram emocionalmente ligados à terra e à casa e o facto do filho e das netas sempre se terem mantido desligados desmotivaram-nos.
Ainda me lembro do meu pai olhar para o terreno dos vizinhos como um exemplo que, com pena dele, nós não seguíamos. Sempre tentei explicar-lhe que eu queria uma casa no campo não para me tornar agricultora mas para ter uma parcela de natureza na qual me pudesse sentir livre, que não queria transformar o campo num terreno arado mas, pelo contrário, queria ter um bosque com sombras e sol e pássaros e lagartixas e cogumelos a rebentar do chão e musgo a atapetar a terra quando vem o tempo da chuva.
Mas fiquei a pensar, com alguma apreensão, se algum dia, mais tarde, também sentiremos que vir para cá é ter um trabalho que já não poderemos suportar. Se isso acontecer, que seja daqui por muito tempo. Para já o que me interessa é o agora e agora é um prazer muito grande estar aqui. O outono em toda a força, folhas e folhas e folhas. Este dia feriado vou ter muito que varrer. Vou também aproveitar para fazer uma máquina de roupa e para fazer uma limpeza em casa. Mas trouxe um livro que também quero poder ler e espero ainda poder sentar-me ao sol, sem fazer nada. E hoje ao fim do dia fomos ao supermercado à vila mais próxima e trouxe carnes e legumes e enchidos para fazer um cozido que, quase aposto, vai espalhar um cheirinho bom, saído pela chaminé, até lá fora.
E está tudo certo.
Shadow and light
Life consists of polarities – light and dark, good and evil, sweet and bitter. We are no different. All of us have a shadow side. And it is this shadow or dark side that allows us to gain a sense of perspective, by allowing us to truly appreciate the light side of life. The more we acknowledge what we don’t like, the easier it is to see our gifts and strengths. It makes us a whole human being.
"There was a man who was so disturbed by his own shadow that he was determined to lose it for good. So he got up and ran. But his shadow kept up with him, and so he ran faster and faster until the exertion took its toll and he dropped. If he had simply stepped into the shade, sat down and stayed still [meditated], his shadow would have vanished." -Chuang Tzu, The Way
Pode acontecer que todas as mulheres e todos os homens sejam letrados em orgasmo feminino. Se calhar longe vão os tempos em que o tema era tabu, se calhar o tema já virou mainstream ou, dizendo de outra maneira, já viralizou.
Capaz até de, levado o tema a debate na televisão, os omnipresentes Helena Matos, João Miguel Tavares, Raquel Varela, Francisco Louçã, Jovem Bugalho, Pedro Marques Lopes, Ana Drago, Manuela Ferreira Leite, Majores e Tenentes Coronéis de todos os ramos das FA opinarem erudita e convictamente sobre clitórís, lábios vaginais et al. Sabem de tudo. Aposto que tiram isto do orgasmo feminino de letra.
Ando por fora dos Faces, dos Instas, dos Tik Tok, dos Twitters e, por isso, não faço ideia dos trilhos por onde o tema já anda: capaz de haver stories, vídeos macaquinhos, danças capapé-tirolirolé, vai de ladinho e bate o pé, tudo com as perninhas do bichinho.
[Sim, que o clitóris não é só aquele botãozinho que foi cantado e recantado por poetas que se ficaram pela superfície em vez de mergulharem fundo. Não é só botãozinho, não, não é mesmo: é bichinho pernudo mesmo (pernudo e danadinho para a brincadeira)].
Mas, pronto, se por aí, desse lado, é tudo gente escolada e doutorada em prazer feminino, o vídeo abaixo não trará novidade. Mas, ainda assim, arrisco.
Arrisco porque pode acontecer que haja por aí alguém que ainda não saiba exactamente alguns pormenores. Ou pormaiores -- como quais as zonas erógenas no corpo da mulher -- e tenho cá para mim que alguns ficarão surpreendidos. Olhem, eu fiquei.
Há uma zona que a mim não me tinha ocorrido. Não vou dizer qual é pois, na volta, toda a gente já estava fartinha de saber menos eu... e algum maldoso ainda vem aqui dizer que, ignorante desta boa maneira, mais valia ingressar num convento. Ora.
Também penso ser relevante conferir se há maneira de alguém saber se a mulher atingiu ou não o orgasmo ou se é verdade isso dos orgasmos múltiplos nas mulheres. E pode um homem ser competente a ponto de também conseguir ter orgasmos de seguidinha? Pode...?
E, lá está, perdoem-me se aqui estiver a trazer matéria que já se ensina na pré-primária. Não é só das redes socias que ando desfasada, é também dos programas escolares.
Do you know how orgasm is in females? female body and biology
Ela caminha, lentamente, com a subtileza silenciosa de uma gata etérea e pouco segura.
Está quase nua. A mão oculta, sem ocultar, os seios.
Os homens aproximam-se, cercam-na. Não a olham com curiosidade ou desejo. O olhar deles é técnico. Experimentaram muitas vezes antes o que vão fazer: tudo tem que ser rápido, eficiente e perfeito.
Bella é, agora, uma tela, a superfície sobre a qual vão trabalhar.
Bella mantém-se imóvel, o olhar distante, o corpo não tem alma, o corpo agora é apenas o objecto sobre o qual o milagre vai acontecer.
E eles revestem-lhe o corpo, aplicam o produto, vaporizam-na. Um graffiti branco, um véu, um tule que se vai transformando.
No fim, uma outra mulher aparece para os retoques finais: uma abertura na saia para que o andar flua como flui o deslizar das gatas, as alças caídas para que os ombros melhor reflictam a luz que a ilumina.
No fim, depois do momento irreal, Bella está vestida, elegante, bela, segura como uma gata feliz.
Bella Hadid closing the Coperni SS23 show in a dress sprayed onto her live on the runway
Com tantos casos de abuso sexual de menores e tanto encobrimento por parte da Igreja Católica, não será de começarmos a suspeitar de que estamos perante uma organização em que não se pode confiar, que acoita criminosos ou gente perversa?
É que é por todo o lado. Não podemos continuar a pensar que são casos isolados. São casos a mais, ao longo do tempo. Dá ideia que há um comportamento que se repete com demasiada frequência na Igreja Católica, quer em paróquias, quer em orfanatos, onde quer que haja crianças ou adolescentes, aparentemente sobretudo quando as vítimas se encontram em situação vulnerável, o que junta a cobardia à maldade, à perversidade. E não apenas se vai sabendo de toda a espécie de comportamentos desviantes por parte de padres, bispos ou arcebispos como, igualmente grave, se vai sabendo que todas as denúncias foram sistematicamente abafadas pela estrutura da Igreja, ao longo dos tempos, ao longo do país, ao longo dos países.
E é inconcebível que haja processos internos mas não denúncia junto das instâncias judiciais. Se for verdade que o Bispo José Ornelas estava sabedor de abusos e não encaminhou o assunto para a Procuradoria ficarei, uma vez mais, indignada. E enojada.
Quando ouvi sobre as suspeitas que impendem sobre Ximenes Belo fiquei petrificada. Ao mesmo tempo que recebia o Nobel da Paz estava a abusar de crianças? Não quero acreditar em tal coisa. Espero que haja investigação a sério e o mais rapidamente possível. A mancha é suja e grave demais para que a dúvida possa ficar a pairar.
Penso que a dimensão do que tem passado (e, se calhar, do que ainda se passa) justifica que nos questionemos sobre o que leva tantos membros da Igreja Católica a terem práticas pedófilas. São o celibato e a ocasião que fazem o 'ladrão'? Não me parece. Gente de bem, de bom carácter, mesmo que não consiga controlar a libido, não abusa de crianças. Alguém minimamente decente que, num dia de desvario e descontrolo absoluto violente sexualmente uma criança, não conseguiria continuar a viver pregando como se fosse um emissário de Deus. Alguém, minimamente normal, que tenha praticado tão hediondo crime, abandonaria a Igreja e entregar-se-ia à Polícia.
Alguém consegue receber a hóstia da mão de um padre depois de se ouvirem as denúncias das crianças? Alguém consegue deixar as crianças à guarda de padres depois de se saberem de tantos e tantos e tantos casos?
E os órgãos judiciais do País vão ficar passivamente à espera das queixas, sabendo que, quando as queixas ocorrem, já é geralmente tarde demais, depois dos abusos praticados e dos danos psicológicos terem ocorrido, muitas vezes muitos anos depois? Não seria de agirem proactivamente?
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* Perguntaram-me: 'Buscas para quê? Para ver se apanham alguns em flagrante delito?'
Respondo: Para pesquisarem os computadores os telefones dos padres, para ver se encontram fotografias ou vídeos suspeitos, para ver se encontram mensagens trocadas com crianças ou adolescentes, para verem se encontram qualquer outro material suspeito que indicie a prática da pedofilia.
O que está a passar-se com a Rússia ameaça a paz, ameaça os princípios mais básicos da civilização e da humanidade, ameaça o futuro de todos nós. E é tão grave, tão assustador que, para minha defesa, de vez em quando forço-me a desviar o pensamento de tamanha desgraça. Além do mais, não sei porquê, olho para o Putin e vejo uma alma penada, alguém que está de pé como se assim fosse estar para sempre, alguém a quem muitos milhões de pessoas por todo o mundo desejam que passe rapidamente à história, à história de sarjeta, que vá juntar-se à montureira onde se acumula a pior escória que o mundo produz.
Mas, para mim, hoje não é dia de dar palco a dead men walking, a zombies (corados como pêros saloios -- mas zombies), a assassinos bêbados do seu próprio veneno, a bandidos.
Hoje não consigo, hoje preciso de abrir espaço para me rir.
E um dos que sempre me faz rir, e que gosto de ver com os meus netos, rio que me farto, sempre, é o Mr. Bean. Se calhar é porque, em parte, me revejo um bocado nas atrapalhações dele, nos stresses agudos que ele sente antes dos grandes momentos.
Chegada a casa depois de termos ficado com os meninos enquanto os pais foram a uma cena, fomos dar uma volta nocturna com o dog de guarda que tinha ficado em casa. É bom andar a passear de noite. Zero pessoas na rua, claro. Os cães, em várias moradias, completamente desestabilizados e o nosso, feliz da vida, nem aí, a andar a saltitar e a correr todo contente pelo inesperado passeio com os donos regressados. Como à noite já está mais frio, tinha levado calças e, claro, os meninos andaram encostados ou por cima de mim. E devem ter deixado o seu cheirinho bom pois, uma vez regressada e a passear, a fera cabeluda andou o tempo todo a cheirar-me as pernas e a dar-me beijinhos e a cheirar e a dar saltinhos e todo ele estava radiante com o cheiro que eu trazia nas calças.
Quando, aqui chegada à sala e francamente com algum sono, abri o youtube. Claro, bingo, Putin e a sua última e macabra filha-de-putice. Não dá para acreditar no pesadelo que o mundo está a viver. Parece uma ficção estuporada, daquelas tão parvas e excessivas que chegam a ser cómicas.
Fechei.
Pus-me a ver o Pantanal e, quando dei por mim, percebi que tinha estado a dormir. Voltei a abrir a arca dos mil tesouros e escrevi Mr. Bean. O algoritmo percebeu a mensagem: a minha onda hoje não está para bandidagem, está para gente inofensiva cuja única arma é o sentido de humor.
O primeiro vídeo que me apareceu foi este fantástico que abaixo partilho convosco.