sábado, dezembro 11, 2021

Cesar

 

Durante muito tempo o meu marido viu o programa. Eu nunca vi. Nem prestava atenção nem, sequer, sabia ao certo de que se tratava. É como ele ver futebol. Se me perguntarem que equipas estão a jogar ou qual o resultado não tenho nem ideia. 

A minha mãe também via e também gostava. Ela dizia que gostava, ele dizia que gostava. E eu nem sabia bem de que estavam a falar.

Tinha a ideia que era daqueles programas americanos em que filmam uns a irem a casa de outros ou para lhes arrumarem a casa ou para os ensinarem a vestir-se. Nada que me interesse, portanto.

Mas agora, ao procurar vídeos que ensinem a lidar com situações específicas de cães, dei com ele. E tem sido uma agarração. Gosto de ver. Acho incrível a forma como, em três tempos, ele lida com cães, como os interpreta e acalma e controla. Com um gesto, com uma palavra, com a atitude.

Lembro-me sempre de uma vez em que estávamos na bela praia do Castelejo. Nós, uns primos e respectivos filhos. Por ali praticava-se muito nudismo. Nós duas, as mulheres, estávamos apenas em topless. Tenho ideia que a menina adolescente e a menina-menina  estavam de biquini. Os homens e os rapazes estavam como sempre, ou seja, com os seus calções. Lembro-me também de uma beldade, louríssima, alta, escultural, completamente nua e com um fio dourado em volta da cintura. Passeava um grande cão. Não sei de que raça. A esta distância diria que um braco alemão. Passeavam, entravam na água, saltavam sobre as ondas. Os homens olhavam e sorriam com a graciosidade da louríssima e nós duas, não tão esculturais, não tão despidas, apreciávamos a cena, sabendo que há situações em que nem vale a pena tentar competir.

Nisto, vindos de longe, aproximaram-se dois grandes pastores alemães. Vinham a ladrar, a ladrar a bom ladrar, ar feroz, a grande velocidade. Fiquei transida, adivinhando tragédia. Pensei logo nos meus filhos. Não sei se os cães vinham prontos para devorar o cão da sílfide, se a própria sílfide, se era pelos miúdos que por ali andavam a jogar à bola e a brincar. O que sei é que o meu primo -- um homem barbudo, possante, algum peso a mais mas bastante ágil -- se levantou, se virou aos cães, soltou um berro. Os cães estacaram, estupefactos, certamente não menos do que eu e que nós todos, deram meia volta e desataram a correr em sentido oposto. Já não ladravam. Iam em silêncio. Fugiam a bom fugir, como se estarrecidos de medo. O meu primo, a correr atrás deles, a gritar-lhes, e eles, a mil à hora, a porem-se a milhas.

Nunca me hei-de esquecer desse momento incrível. 

Cesar Millan não precisaria de fazer isso. Provavelmente ficaria imóvel, faria 'Schhhh', mostrar-lhes-ia o dedo espetado -- e os cães estacariam, tranquilos.

Os vídeos abaixo não mostram essas inacreditáveis conversões de cães ferozes em cães bem comportados que não me canso de ver. Aqui, Cesar conversa como se conversasse com o seu cão e, enquanto fala, vê-se a profunda ligação que os une. Ou presta-lhe um sentido tributo, poucos dias depois da sua morte. Ou fala de um outro, um cão espiritual, com quem teve longa e profunda ligação. 

O amor profundo que revela pelos animais é tocante. Gosta-se de um cão como se gosta de uma pessoa, disso não tenho qualquer dúvida. Quem me lê e tem ou teve um cão compreende isso. Talvez quem nunca tenha tido a extraordinária experiência de ter um cão não perceba, talvez pense que é exagero, talvez pense que se projecta no animal sentimentos que não se sentem por pessoas. Mas não é isso, não é uma sublimação. É afecto verdadeiro, retribuído, vivido em permanência. É um vínculo intenso que se estabelece.



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Sobre o pequeno urso peludo a ver se falo amanhã. Claro que ainda vive connosco. O meu menino mais novo até se queixa que parece que agora só prestamos atenção à pequena fera. 

É terrível, ele, o animal cabeludo. Faz coisas que nos deixam doidos. Do que tenho aprendido com o Cesar, não são os cães que são doidos, são os donos que não sabem lidar com eles. Se calhar estávamos mal habituados com a nossa dócil cãzinha. Este não tem nada a ver. Nada, nada, nada. Este faz disparates que ela nunca na vida fez. Por vezes quer virar-se a nós, mostra os dentes e rosna, ameaçando morder. Outras vezes, no maior descaramento, salta para cima dos sofás e recusa-se a sair de lá, ou arrasta tapetes mesmo que pesados e grandes, ou rouba meias e sapatos, ou aparece com um pequeno prato decorativo na boca... enfim... faz de tudo um pouco. É teimoso como um burro, é forte como um touro, é escapista como Houdini, é incivilizado como um selvagem. Mas é também meigo e fofo como um peluche, inteligente como uma pessoa, brincalhão como uma criança. 

Não falo hoje com mais detalhe pois não tenho fotografias desta semana (e, nestas tenras idades, uma semana faz diferença), apenas vídeos que faço com o telemóvel e que não dão para colocar aqui, e acho que, ao falar dele, teria mais piada mostrar como está agora. Por isso, a ver se o fotografo e se falo dele. Me aguardem.

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Desejo-vos um belo sábado

Saúde. Ânimo. Boa disposição.

sexta-feira, dezembro 10, 2021

Eram novos e não sabiam.
[Se bem que agora ainda estejam bastante benzinho*]

 


Eu tinha um gira-discos só meu. Era um aparelho praticamente portátil. Não era uma aparelhagem como a que os meus pais tinham na sala, com colunas em separado, amplificador em separado. O meu fechava-se com uma tampa e tinha uma pega. Estava no meu quarto. A mobília do meu quarto era clara, de linhas direitas, moderna para a época. Foi feita a feitio numa marcenaria, certamente desenho do meu pai com mão da minha mãe. Havia uma superfície em L que ocupava uma parede e meia. Na meia parede estava também a minha cama. A zona da secretária era ampla. Não havia computador. Tudo era analógico. Livros, cadernos. E, ao lado, o gira-discos. 

A bridge over troubled waters tocava muito por essa altura. Era daquelas baladas que enlevava a alma da menina que eu ainda era e se iniciava na adolescência. 

Depois havias as festas de anos. Éramos um grupo de miúdos muito unidos que, em conjunto, descobriam a ternura da aproximaçao da atracção sexual. Tinha treze, depois catorze, depois quinze, depois dezasseis anos. Nuns casos, as festas eram no quarto ou na sala do aniversariante. Outras vezes em garagens que eram transformadas em discotecas dançantes. Os adultos mal se viam. Deixavam o espaço para os jovens. 

Nesse grupo havia dois rapazes que viriam a entrar para o Técnico e tornar-se engenheiros electrotécnicos. Na altura eram apenas miúdos habilidosos. Montavam amplificadores, levavam colunas, montavam luzes que piscavam e perdiam vigor, quase se apagavam. 

Havia muitos discos. Vários do nosso grupo tinham muitos irmãos, alguns irmãos mais velhos. Entre todos, apareciam discos e discos com grupos ou cantores que eu ia conhecendo e aprendendo a 'curtir'. 

Um de que eu também gostava muito era o Cat Stevens. Morning has broken. Por exemplo.

Gostava de dançar, ora juntinha ora gingando abraçadinha. Podia ser ao som do Morning has broken ou de qualquer outra música. 

Os anos foram avançando e eu acompanhando o Simons and Garfunkel, o Cat Stevens, a Janis Joplin e tantos outros. 

Até que hoje o meu amigo algoritmo do Youtube me propõe um vídeo. Art Garfunkel. 

Estavam dois homens desconhecidos, um tocando, outro cantando. A voz, agora mais trémula, parecia, de facto, a de Art. Mas onde os caracóis, onde o homem da testa alta e cabelo arruivado e hirsuto? Pensei: não pode ser. 

Fiquei a ouvir. Agora é um homem quase velho... e não dava tempo a ele, de repente, se ter tornado assim quase tão velho. Ná. 

Olhei melhor. O nariz parece, a voz parece. Mas poderia alguém ficar assim tão velho de um momento para o outro? Não, nem pensar.

Fui googlar. Vi fotografias actuais. É ele, de facto. É ele. Não sei como mas é. Revi o vídeo. O sorriso é jovem. A atitude é jovial. Fui ver a idade. 80 anos. Revi. Oitenta anos. Oitenta? Como? Mas depois pus-me a fazer contas de cabeça e a racionalizar. Qual de repente...? Onde é que eu tenho andado com a cabeça para não ter percebido que já passaram estes anos todos...?

E, então, lembrei-me de ir ver como está agora o Yusuf, ex-Cat Stevens. Apesar de tudo parece que não está tão diferente. Fui ver a idade. 73. Já setenta e três. Já? 

Até me lembrei de um amigo que encontrei há pouco tempo. Conheço bem a mulher com quem vive, embora continue casado com a primeira. Perguntei-lhe por ela. A rir, respondeu-me: 'Vai ser operada às cataratas. Imagine... Fui eu deixar a minha mulher para arranjar uma velha...'. Desatámos os dois a rir. 

A gente ri, ri, mas a verdade é que é assim mesmo: se nos formos mantendo vivos, os anos vão passando por nós e, quando damos por ela, os que conhecemos jovens aparecem-nos já velhos e nós mesmos um dia vamos olhar para o espelho e também vamos perceber que, se deixarmos de ser condescendentes para com a imagem que observamos, também não fomos poupados. 

Mas isso não é grave. Grave é quando começam a morrer os da nossa idade ou mais novos que nós. Isso faz-me muita impressão.

Estou a ler o 'Para quê tudo isto?', a biografia de Manuel António Pina escrita por Álvaro Magalhães. Era um autor que muito admirava (e admiro). Quer através da sua poesia quer das suas crónicas, eu acompanhava a forma elegante e inspirada como cerzia as palavras. Fez-me impressão quando partiu. Se me tivessem perguntado teria dito que para aí há uns quatro ou cinco anos. Pois. 

Não ando a medir bem o tempo. Já há nove. Também não percebo. O que fiz durante estes seus nove anos de ausência? Não sei. Não percebo.

Com este livro, comecei como tantas vezes faço: a ler do fim para o princípio. Não sei porque é que, num caso assim, o faço. Já sei como é que acaba. Só se involuntariamente quero poupar-me já que, ao caminhar ao contrário da linha do tempo, irei conhecendo os seus anos de boa saúde, de motivação e descoberta, os tempos em que não havia fim à vista nem dores nas costas nem internamentos.

E aqui estão os que, em tempos, foram jovens. Não que hoje estejam fisicamente piores. Estão é fisicamente alterados pelas areias do tempo. Bonitos como sempre. Bastante benzinho, até.



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Pinturas da Paula Rêgo.

(* o asterisco na palavra benzinho no título, naquele contexto, não é acidental)

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Desejo-vos um dia bem feliz

quinta-feira, dezembro 09, 2021

A belíssima casa de Iman e David Bowie

 



Se as coisas baterem certo e a vida de uma pessoa não estiver descompassada da sua maneira de ser, a sua casa dirá muito de si. Eu sei, eu sei que ontem disse que o nome e o signo são o código de entrada na personalidade de qualquer um. Mantenho. Mas há os sinais exteriores. E a casa é um deles.

Uma pessoa disfuncional ou desmotivada ou que se sente a flutuar sobre a própria vida terá uma casa que será totalmente diferente da de alguém que gosta de viver, de estar com os outros, de criar ambientes  para si a para os demais. A primeira parecer-se-á com uma natureza morta, a segunda será acolhedora, viva.

Dir-me-ão que isto sou eu a falar, que é a única realidade que conheço -- eu, burguesinha (P. Rufino dixit), bem acomodada, habituada aos ambientes lisboetas onde se bebe do fino e alheada das dificuldades económicas dos que mal têm para comer quanto mais para arranjar ambientes. Talvez. Mas, mesmo perante a miséria, há que reconhecer que se encontram atitudes distintas: nuns casos percebe-se que a pessoa se entregou ao infortúnio e noutros é fácil intuir-se que a pessoa tenta fazer das tripas coração e, no meio da pouca sorte, descobrir o caminho de saída.

Por casas. Por imaginar casas. 

No outro dia, quando veio passar o dia comigo por estar de férias intercalares, a minha menina mais linda apareceu com uma grande caixa de cartão. Estava a fazer uma casa miniatura. Tinha um piso intermédio, algumas divisões, um beliche. Achei uma graça que ela estivesse a conceber a sua casa. 

Fez-me lembrar as maquetes cuja construção acho o máximo. Dantes os estudantes de arquitectura ou faziam as suas ou mandavam-nas fazer. Lembro-me de ir de carro, a uma daquelas ruas estreitinhas e íngremes de Campolide, acompanhar quem ia buscar algumas que, por ali, se faziam. (Não era eu a autora do projecto, não sou arquitecta). Agora o que se fazem já são sobretudo maquetes virtuais, 3D, animações, vídeos que mostram com o sol banha a casa ao longo do dia, como as sombras são um elemento construtivo. Já não é preciso ter estiradores ou bancadas para as maquetes. 

Não é saudosismo. É assim. Também dantes, para se telefonar, havia um aparelho sobre um móvel com um mostrador com buracos em cima de cada algarismo. Enfiava-se o dedo em cada algarismo do número e rodava-se. Uma vez, a passear ali para os lados da Rue de Rivoli, vi um homem que ia no carro ao telefone. Aquilo de que tinha ouvido falar já era realidade em Paris. Cheguei cá a contar, entusiasmada, que tinha visto uma pessoa a telefonar de um carro. Quando apareceu por cá, era uma caixa que parecia um tijolo que se punha no carro. Era uma novidade. Tempos longínquos. Coisas boas, coisas más. Mas este é o tempo em que vivemos e eu gosto.

Voltando às casas. Gosto de casas. Quantas vezes já aqui falei da minha, da dos outros? Tantas vezes. 

A minha casa é o meu ninho, a minha verdadeira pátria. É aqui que reconheço os meus, os que falam a minha língua, é aqui o lugar das memórias partilhadas, o lugar em que as minhas raízes se expandem. Mesmo aqui, nesta casa em que vivo há pouco mais de um ano, eu sinto-me como se cá vivesse desde sempre. Do sofá em que me sento a escrever, olho em volta e vejo os quadros com pinturas que comprei numa manhã de domingo na Plaza Mayor, vejo as meninas bailarinas e os anjunhos suspensos que já nos sobrevoavam na outra casa, a carpete de Arraiolos que comprei na Tricana quando ainda os não sabia fazer, a pequena estante com portas de vidro com os álbuns de fotografias que contêm a cronologia dos dias em que ainda não havia fotografia digital. 

Uma casa é feita não apenas de paredes, do movimento entre os espaços, dos materiais visíveis e invisíveis, da luz e dos sons, mas também dos objectos que a habitam e das memórias, boas e menos boas, que lhes estão associadas.

O vídeo que hoje aqui partilho mostra uma casa extraordinária. Ampla, aberta ao exterior e, ao mesmo tempo, um ninho, um ninho repleto de memórias. Habita-a uma mulher muito bela e habita-a, também, o amor que ali se viveu e o rasto que dele ficou. 

Íman tem agora sessenta e seis anos e já não é a gazela magra de outros tempos. É agora uma bela mulher de formas generosas e sorriso sereno. 

Está quase a fazer seis anos que o seu amado marido, David Bowie, se foi. Estava doente mas escondeu-o do mundo e, em segredo, preparou um álbum que, após a sua morte, haveria de surpreender o mundo.

Íman mostra a casa que foi a casa de ambos -- e é uma casa espantosa! Vejam e ajuízem. As pinturas de David Bowie, os objectos de ambos, o afecto partilhado que a casa acolheu e ainda tão presente, a almofada que Naomi ofereceu a Iman, o enquadramento paisagístico de se perder o fôlego. Uma maravilha.

Inside Iman & David Bowie’s Scenic Home Filled With Wonderful Objects | Vogue

In this edition of Objects of Affection, supermodel Iman takes us inside her Catskills home that is full of beautiful, artistic odes to David Bowie. From a self-portrait he painted in 1980 to a Lynn Chadwick sculpture she gave Bowie for their first wedding anniversary, watch as Iman shares some of the items most important to herself. 


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Desejo-vos uma boa quinta-feira
Tudo de bom!

quarta-feira, dezembro 08, 2021

Spell on you

 


Já não quero ter pois tenho de sobra para o que preciso. Mas ainda move a minha atenção. Spell on you. A sedução começa no nome. What's in a name. 

O nome é a chave de tudo. A minha filha não poderia ter outro nome senão o que tem. Cai-lhe bem seja qual for a declinação que se use. O meu filho não poderia ter outro nome senão o que tem. Aliás, se, no caso da minha filha, o nome estava definido desde sempre, o do meu filho começou por ser negado. Eu dizia: qualquer nome menos esse. Era o nome do meu marido, o do primo mais chegado, o do filho do primo, o do tio, o que tinha sido do avô. Tentámos todos os nomes e mais alguns e, em todos, achávamos defeitos. No último dia, rendemo-nos: não podia ser outro senão aquele nome e foi assim que foi registado. É agora também o nome do filho mais velho da minha filha e o do filho mais velho do meu filho. Nas nossas casas, chama-se por esse nome e há vários a responderem. Mas cai-lhes bem esse nome. Não poderia ser outro senão esse.

Quando me apaixonei pelo meu marido sem o conhecer foi sem surpresa que a amiga especial dele da altura me disse como é que ele se chamava. Foi como se obviamente tivesse que ser esse o nome. Como se isso comprovasse a razão de ser da minha paixão. Nunca tinha falado com ele nem nunca o tinha ouvido falar. E, no entanto, estava apaixonada por ele e, no meu íntimo, sabia que o seu nome não poderia ser outro senão esse. Quando ela me falou dele e me disse qual o seu nome, eu tive a certeza que ela estava a falar do desconhecido por quem me tinha apaixonado.

Já o meu primeiro namorado se chamava assim. Estávamos a entrar na adolescência, eu nada sabia da vida, e, no entanto, ele tinha tudo o que eu gostava ou haveria de gostar num homem. Não sabia, então, mas sei agora: tudo o que há a saber sobre uma pessoa está contido no seu nome.

O meu nome. Eu não seria eu se não me chamasse como me chamo. Sou chamada pelo menos em quatro declinações e em qualquer delas me revejo. A minha mãe tinha dúvidas, pôs a hipótese de me chamar Helena. Mas eu não teria tido a vida que tive, seguido as opções que segui, não seria a que sou hoje, não escreveria aqui o que escrevo se me chamasse Helena. Gosto muito do nome mas a mim não me assentaria tão naturalmente quanto o meu me assenta. Eu sou o que sou porque este é o meu nome e porque as pessoas com o meu nome são assim.

Nem todas as pessoas com o mesmo nome serão exactamente iguais. Claro que não. Aí entra a questão do signo. O nome mais o signo definem e calibram com precisão tudo o que há a saber sobre uma pessoa.

Aqui chegados, imagino que muitos dos que me lêem acham que nada disto faz sentido. Mas ainda estamos no início dos tempos. Tudo o que se sabe não é nada comparado com o que há para saber. Se não nos apressarmos a chegar ao fim dos tempos talvez, até lá, consigamos descobrir alguns dos mistérios que hoje nos parecem insondáveis.

Mas, dizia eu, que é o nome. Spell on you. Isso e a descrição, o nome das flores, os sentidos despertos para receberem odores de terras longínquas, as palavras que hipnotizam e seduzem. Transcrevo:

An ode to the iris pallida from Florence, its composition exalts the duality of a precious flower that symbolizes feminine seduction. The iris insinuates its violet notes into a radiant bouquet of rose and Sambac jasmine, then unfurls the force of its powdery notes within the honeyed accents of acacia flower. Evolving from carnal seduction and an intimate impression, Spell on You has a hypnotic, heady aura, like an unforgettable refrain...

Ou, numa perspectiva mais técnica, as notas

Top notes are Green Notes, Violet and Tuscan Iris; middle notes are Rose, Chinese Jasmine and Tuscan Iris; base notes are Peach, Acácia and White Musk.

E depois há a embalagem, a elegância do exterior. As proporções. Os pormenores. 

E há a forma como se apresenta. Se há sensualidade, intimidade, sedução, malícia, segredo, mistério, se há qualquer coisa de inexplícito, se há a possibilidade de ser outra coisa e não aquilo que parece... então eu identifico-me. E tenho vontade de me aproximar, de experimentar. 

Por isso, logo que possa, fá-lo-ei. É inevitável. What's in a name...? E, de resto, para quê mudar...?


Spell On You with Léa Seydoux ||| Louis Vuitton

[ao som de Nina Simone: « I put a spell on you »]


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Fotografias de David Sims na companhia de Fiona Apple que interpreta Why Try To Change Me Now 

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Desejo-vos um dia feliz
Saúde. Sorte. Esperança. afecto.

terça-feira, dezembro 07, 2021

Homens do meu país, toca a tomar Viagra!

 

Escusava de o dizer mas digo na mesma: não sou médica. Nem farmacêutica. Nem bióloga. Em matérias destas sou leiga da cabeça aos pés. Por isso, no título deste post dirigi-me aos homens mas, na volta, vale também para as mulheres. 

Li que um estudo demonstra que há 69% menos de probabilidade de ter Alzheimer por parte de quem toma Viagra.

Ao ler, instintivamente, exclamei: 'Olha... boas notícias!'. 

O meu marido, no sofá ao lato, olhou-me, curioso: 'O que é?'. 

Elucidei: 'Com um único comprimido resolvem-se dois problemas.' 

Ele ainda mais curioso: 'Estás a falar de quê?'. 

Expliquei: 'Os homens que tomam Viagra não apenas ficam funcionais como menos taralhoucos'. 

Olhou para mim como se temesse que o meu entusiasmo encerrasse alguma indirecta.

E eu, de repente, sem ter tempo para o tranquilizar, assustei-me: 'Não me digam que o mundo vai ser um lugar de velhas monas e taralhoucas e de velhos espevitados e bons da cabeça'. 

Uma perspectiva muito pouco inspiradora, convenhamos. 

Mas a questão é que não sei qual o efeito que o Viagra tem nas mulheres. Posso imaginar mas, enfim, como dizê-lo...?, imagino em ponto pequeno. 

Mas não há-de ser problema. Estando aberta esta porta do conhecimento, tudo o resto é pormenor que se há-de resolver. Melhor: duplamente espero que se resolva. 

E agora, para acabar, ia reforçar o apelo que fiz no título mas lembrei-me que tenho ideia que o dito comprimido azul deve ser usado com moderação por quem padeça de doença cardíaca. Portanto, se alguns dos meus caros Leitores homens está capaz de mandar de imediato a mulher à procura da primeira farmácia de serviço para que ela vá comprar Viagra (com a desculpa que é para um tio que está num Lar), calma aí. A sua mulher que tenha paciência por mais algum tempo: pergunte primeiro ao seu médico se o pode tomar.

E é isto. E quem não me leve a sério e queira tirar o assunto a limpo, pode conferir aqui: 

Viagra could be used to treat Alzheimer’s disease, study finds

US scientists say users of sildenafil – the generic name for Viagra – are 69% less likely to develop the form of dementia than non-users (...)

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E um belo dia!

segunda-feira, dezembro 06, 2021

Desta vez foi a Pfizer. No braço esquerdo. A da gripe no braço direito.
Fui à black friday das vacinas

 



No sábado madrugámos para irmos até a um espaço grande onde há vacinas à discrição e onde não era suposto haver muita gente. Fica numa das cidades perto da nossa casa de campo. Uma vez, estávamos a passar uns dias in heaven e o meu marido auto agendou-se para lá. E aquele lugar ficou-lhe associado pois agora recebeu um sms para ir levar lá a 3ª dose. 

Como na outra vez lhe correu bem, despachou-se rapidamente, resolvi ligar a saber se eu, mesmo sem marcação, poderia ir à boleia. Expliquei que levei a Janssenn. Perguntaram-me a idade. Disseram, então, que estavam com casa aberta para os que levaram Janssenn e têm mais de cinquenta. Encaixo. Então, lá fomos.

Muita gente. Muita gente de idade, muita gente com 'ar de campo'. Todos entusiasmados por estarem a levar a 3ª dose e vários como eu, que antes também tinham sido contemplados com a água pé das vacinas. Uma coisa que quase parecia a black friday das vacinas. Chega a ser quase tocante ver como toda a gente adere tão bem a uma coisa ainda tão cheia de incógnitas. Uns mais racionalmente, outros por medo, outros numa de maria vai com as outras. Não interessa. Toca a reunir e as pessoas reúnem-se.

O meu marido, como era com marcação, ficou despachado por volta das dez e eu perto do meio-dia. 

Pfizer no braço esquerdo e a da gripe no direito. Vim de lá aviada e espero que protegida.

Disseram para tomar ben-u-ron à noite e ben-u-ron de manhã. E para pôr gelo no braço. Como não sou obediente e não me parecia necessário, não tomei o ben-u-ron nem pus gelo. Mas dormi mal com o braço a doer-me bastante.

E passei o domingo cansada, com o braço dorido, com dores musculares, com frio, a sentir-me murcha. Éramos para ir ao campo e não fomos. Nem fui a casa da minha mãe. Só me apetecia estar agasalhada e sossegada. 

O meu marido, que também estava com o braço dorido, atalhou logo de manhã com o dito ben-u-ron mas eu resisti até depois de almoço. Mas depois teve que ser. 

Melhorei mas, ainda assim, não me sinto propriamente em grande forma.

Quando foi da outra, dessa coisa esperta que dá pelo nome de Janssenn e que pelos vistos não é carne nem é peixe e que só dá um bocadinho de imunidade durante menos de três meses, não me doeu braço nem corpo nem fiquei cansada. Mas tive, nesse dia, um acidente isquémico relativamente ao qual não está descartado que não tenha sido provocado pela vacina. 

Mas, pronto, o que lá vai, lá vai. E das sequelas que ficaram trato-me -- e bola para a frente. 

E, supostamente, agora, com este reforço, já estarei mais protegida. Não sei é se o estou da Ómicron mas, enfim, parece que o dito rafeiro de corona não é tão coisa ruim como os manos que o antecederam. 

Mas sabe-se lá. 

O que temos como certo em tudo isto é que temos que ser humildes e ir aceitando que estamos a atravessar um processo de aprendizagem que está em curso, no qual não há muitas certezas e em que o que há para saber á mais do que o que se sabe.

Mas há coisas que são iguais. Enquanto estava à espera, ao meu lado uma senhora falava comigo. Tenho quase a certeza que não abri a boca. Estava com máscara e com óculos escuros. Não estava a fazer-me de diva mas, como receava que chamassem, preferi estar com óculos graduados para ver melhor ao longe. E são escuros. Como estava com franja, pouco ou nada da minha cara estava à vista. E, no entanto, a senhora confiou em mim. Contou-me tudo, o que faz, onde trabalha, a Covid que teve no princípio, os sintomas, como foi de ambulância, como lhe custou cara a ambulância, o que a filha lhe disse, como as senhoras para quem trabalha reagiram. Falou constantemente. Depois da triagem e de ter preenchido o documento, fomos para outra sala. Aí fiquei ao lado de uma outra que me contou o que tinha acontecido ao carteiro de cinquenta anos que não tinha querido levar a vacina, agora o pai que já é tão velho ainda está vivo e o filho, que ainda era novo e saudável, já se foi. Eu ouvia-a e pensava, intrigada, o que se passará comigo que faz com que as pessoas comecem a conversar e a contar-me tudo e mais alguma coisa. Creio que também não abri a boca para falar com a segunda. Sabia que não haveria tempo e não quereria depois interromper uma conversa mais pessoal.

Contei ao meu marido. Ele desvalorizou. Disse: 'O tipo que estava à minha frente também falou comigo'. Fiquei admirada. Não apenas ele é de poucas palavras como parece que as pessoas adivinham pois parece que quase nunca ninguém mete conversa com ele. 

Perguntei o que o senhor lhe tinha dito. Disse-me: 'Pediu que quando chamassem Joaquim Sebastião eu o avisasse porque ele era surdo'. Perguntei: 'Só isso?' E ele: 'Sim'. Esclareci: 'Mas não tem nada a ver. Ele fez-te um pedido, a mim contam-me a vida'. Já não disse mais nada. Acho que não está muito interessado na vida dos outros nem percebe porque ma contam.

A mim o que me intrigou mais foi eu estar de cara praticamente toda tapada. E, mesmo assim, foi o que foi. 

Tenho a certeza que, se eu tivesse feito algumas observações ou perguntas, a conversa resvalaria para o patamar das confidências.

É certo que tenho uma curiosidade infinita e provavelmente isso manifesta-se através da atenção que presto. E sinto também uma profunda simpatia pelas pessoas que, de forma tão espontânea, me dão a conhecer os seus problemas ou as suas vivências. Penso sempre que, se não andasse sempre com o tempo contado, faria verdadeiras entrevistas às pessoas, deixá-las-ia falar de si, dos seus, dos seus assuntos. Mas eu pensava que a confiança que as pessoas depositavam em mim vinha da atenção que me percebiam, do meu olhar, das minhas expressões. Agora com a cara tapada...

Mas não interessa. As coisas são como são, nós podemos é não as compreender. E isso é um problema nosso, não das coisas.

[Na volta isto de me estar a dar para filosofar é outro dos efeitos secundários da vacina... não...?]


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E agora, antes de me despedir, partilho mais um daqueles vídeos bonitos da Green Renaissance..

What Makes You Happy

Most of us have been taught to believe that happiness is linked to our accomplishments. We think that we’ll be happy when we get married, or we’ll be satisfied when we get a promotion at work. We are convinced that we’ll find joy when we finally buy that luxury car.

But happiness is better linked to contentment. It’s about being content with what we have - not hunting for anything more than what we need. The abundance of the present is enough to lead a happy and healthy life.

Of course, this doesn’t mean that we should settle for things as they are. We should continue to dream, set goals, and work towards them. We just need to remember to enjoy the journey and not rush to make it happen.

Being grateful for everything we do have instead of spending most of our time thinking about what we don’t have, makes life a lot more beautiful. So take that first step toward happiness. 

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Pinturas de Evelyn Malgil na companhia de Carminho e Chico Buarque com Falando de Amor 

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.
Tudo de bom para todos quantos por aqui me acompanham.

domingo, dezembro 05, 2021

Sai Eduardo Cabrita e meio mundo aplaude e diz que já vai tarde.
Lamento se vos desiludo mas eu não me junto a esse coro.

 

Devo dizer que não conheço particularmente a actuação de Eduardo Cabrita pelo que não posso dizer que é alguém por quem nutra especial especial admiração ou simpatia. Contudo, tenho ideia que é um todo o terreno, pau para toda a obra, trabalhador, dedicado ao país e sem ambição pessoal -- e isso não é pouco.

Vejo toda a gente encarniçada contra ele mas eu, sou franca, não sei bem porquê.

É certo que aconteceu aquela vergonha com o assassinato de Igor às mãos do SEF. Mas não aconteceu seguramente por ordens dele; e desgraças e acidentes acontecem quando se lida com realidades nem sempre fáceis. Contudo, o SEF era coisa de seu pelouro e, portanto, responsabilidade política havia. 

Ora, quando acontece uma desgraça ou acidente, a comunicação social, comentadores e redes sociais salivam e espumam exigindo a demissão. 

Para mim, não é claro que essa seja a atitude mais responsável, mais digna ou mais corajosa. Pelo contrário, assumir a responsabilidade e continuar de pé, de cabeça erguida, zelar pela independência dos inquéritos, ficar a a enfrentar as críticas e a tentar resolver os problemas, isso, sim, parece-me corajoso e louvável. 

Claro que se o problema acontecer por acção directa, negligência grosseira ou intenção comprovada, aí, a conversa seria outra. Se o próprio não se demitisse, quem estivesse acima dele deveria correr com ele a pontapé. 

Mas se o não é, se as coisas acontecem por um azar dos távoras, força maior, acts of god, ou por mau funcionamento de serviços sobre os quais ainda não houve tempo de fazer a devida limpeza, então o responsável deve aguentar firme e resolver o problema.

Por exemplo, se acontecer uma desgraça ou acidente numa coisa sob minha responsabilidade não me passa pela cabeça, nesse momento de aperto ou angústia bater em retirada e deixar o problema nas mãos de quem não teve nada a ver com isso. 

Além disso, acredito que Cabrita até deve ter posto o lugar à disposição e acredito que o Costa deve ter feito o que eu faria: deve tê-lo mandado bugiar, a ele mais a demissão, e que ficasse era a fazer limpeza radical no SEF, integrando-o noutra coisa qualquer para ver se acabava de vez com aquele regabofe de seguranças privados e escumalha a rebentar de testosterona e aditivos para ficarem com os músculos a bombar e a cabeça vazia de neurónios. E ele aguentou. Debaixo de apupos, debaixo dos insultos permanentes.

E agora esta pouca sorte do acidente na autoestrada...

Vou contar só para que, quem pouco conduz, melhor possa contextualizar. 

Durante anos desloquei-me regularmente ao norte (e a outros locais mas, preponderantemente, ao norte). Como geralmente não ia sozinha e como nisto (e na dança) gosto mais de ser conduzida do que de conduzir, ia muitas vezes no lugar do morto. 

Um dos mais assíduos conduzia cautelosamente e, por isso, saíamos de Lisboa bem cedo, bem mais cedo do que outros que, por vezes, também iam daqui. Acontecia irmos a meio de caminho e passar por nós algum dos nosso colegas, nas horas de estalar. Nem nos viam. Iam na faixa da esquerda como uma flecha.

Claro que fui muitas vezes com alguns desses. Detestava. Lembro-me que uma vez ia com um -- um daqueles que vai a abrir quase até passar por cima do carro da frente, desviando-se à última hora, o que me deixava com o estômago e o credo na boca -- e eu ia a dizer que na semana anterior tinha ido com um outro e que até tinha tido medo, que tinha ido quase sempre acima dos 180, que nunca tinha feito a viagem tão depressa. E ele riu-se e perguntou: 'Não é verdade. Consigo já fui várias vezes acima disso.' Como eu duvidasse, ele disse: 'Garanto-lhe. Mas, se duvida, olhe'. Eu nem queria acreditar. Íamos acima dos 190. Não sei como não apanhavam mais multas do que as que apanhavam. 

Quando se tem uma reunião em Lisboa a uma hora, uma escritura ou uma cerimónia qualquer pouco depois noutro lado e uma reunião no Porto pouco depois e quando se tem um carro potente, carregar no pedal torna-se um hábito. 

Está mal? Claro que está. Tem riscos? Porra, se os tem. Deviam ser apanhados e levar pela medida grossa? Pois, se calhar, sim. 

Mas as solicitações são inúmeras, as pessoas que estão fora da capital querem ter a presença de quem está a Sede, querem sentir que o seu trabalho é reconhecido. Vir alguém de Lisboa para o testemunhar é importante. E, portanto, muitas vezes debaixo de cansaço, há quem voe para atender todos os pedidos. Voa-se já sem se dar conta que se está a voar.

Que o carro do ministro fosse a 163 km/h não me parece escandaloso. Está fora de lei, é certo. Mas quem faça a A1 sabe que, com carros que andam bem, o difícil é ir abaixo disso. 

O ministro deveria ter imposto os 120? Claro que podia e se calhar, de vez em quando, alertou o motorista para não se alargar. 

Ainda hoje alertei várias vezes o meu 'motorista' para ir mais devagar. Respondeu o que sempre responde: 'Porque é que não conduzes tu? Conduz. Não me importo... Conduz tu para ires à tua vontade' 

Mas o ministro, no carro, deve ir a ler papéis ou notícias ou mails, não deve ir a olhar para o conta-quilómetros. E, num carro bom, nem se dá pelos cento e sessenta e tal. 

E depois um peão a atravessar uma autoestrada é daqueles riscos em que escapar é como escapar à roleta russa. A minha filha no outro dia perguntava se, caso o carro fosse a 120 e um peão atravessasse a autoestrada no momento em que o carro ia passar, o peão escapava incólume. Obviamente a pergunta era retórica pois claro que dificilmente escaparia com vida.

Portanto, uma vez mais, o que aconteceu a Eduardo Cabrita é daquelas coisas que não se desejam a ninguém. Claro que desgraça maior foi a do trabalhador que atravessou a autoestrada quando um carro estava a passar. Mas alguém estar num carro que atropela mortalmente uma pessoa é cruz que se carregará para o resto da vida. 

Uma vez mais, claro que o mais óbvio seria que apresentasse a demissão não porque a morte da pessoa resultasse da velocidade a que o carro ia mas porque, mesmo que não tivesse havido acidente algum, ia em excesso de velocidade.

E acredito que o tenha feito mas provavelmente Costa pediu-lhe que se aguentasse à bronca, esperasse pelos resultados do inquérito e continuasse a trabalhar.

E, uma vez mais, falo por mim: imagino o stress, a angústia, a dificuldade em continuar a enfrentar o fogo contínuo por parte da comunicação social e das redes sociais e a incompreensão por parte de quem nem sonha com as ameaças diárias, as crises e as múltiplas dificuldades com que um ministro da Administração Interna tem que enfrentar, imagino a vontade de largar tudo e ter uma vida simples e descansada.

Aguentou até onde conseguiu aguentar e Costa pediu-lhe que continuasse até ao ponto em que percebeu que estava a pedir demais.

Sai Eduardo Cabrita, um homem que se sacrificou pelo país, incompreendido e mal amado, um homem que acredito ser corajoso e digno e que teve a pouca sorte de ter que enfrentar por duas vezes dois casos de morte que se cravaram na sua reputação como certamente na sua mente e coração.

Demitiu-se -- e todos batem palmas. Eu não. Acho que quem bate palmas perante o infortúnio alheio e salta em cima de quem está no chão é gente cobarde.

Mas a comunicação social está cheia de jornalistas e comentadores cobardes e que fazem da crueldade e da maledicência o seu modo de vida. E as redes socias, salvo uma ou outra excepção, são o palco onde desfilam rebanhos de gente que vai atrás de tudo o que os raivosos desta vida atiram para a rua, enlameando-a.

Caminhamos lentamente para uma sociedade lamacenta, conduzida por gente medíocre e cobarde, a única que a populaça tolera. Todos os outros, os que exibem orgulhosamente alguma inteligência, valentia ou dignidade são carne para canhão e alvo da sistemática tentativa de neutralização através de públicos enforcamentos, apedrejamentos, injúrias e difamação.

Seja como for, daqui envio votos de boa sorte a Eduardo Cabrita nesta nova fase da sua vida. E obrigada pelo que deu de si tendo recebido tão pouco em troca.

sábado, dezembro 04, 2021

O Vice-Almirante foi ao castigo e, como não podia deixar de ser, o Daniel pô-lo com a lagriminha no canto do olho

 

Depois da Susana Pombo a falar da gripe das aves, só me faltava mesmo ver Gouveia e Melo a chorar em frente ao Daniel Oliveira. Não é possível, isto. Só emoções fortes. 

Mas, pergunta a minha insana curiosidade: o que é que ele ali foi fazer? Não sabe que, com aquele ali, quem ajoelha tem que rezar?

Não sei qual a sucessão de perguntas que pôs o homem naquele estado, de voz embargada, os olhos marejados, a tentar conter a indómita lágrima. Na volta, o senhor acabou a falar do dia mais difícil da sua vida, do bisavô de cuja falta ainda não se refez, do bullying de que foi alvo em pequeno, do excesso de peso que em tempos teve, da fome que passou antes de começar a dar vacinas, do estaladão que a madrinha lhe deu num dia de anos, da nostalgia da fraternidade no quartel, de quando pôs o joelho em terra para pedir a mulher em namoro, da emoção de quando nasceu o primeiro filho, de onde deixou ficar o coração ou, simplesmente, de que falam os seus olhos.

Não vou ver o programa todo porque não vejo televisão durante o dia e à noite tenho mais que fazer do que pôr a box a andar para trás. Por isso, tenho que me ficar pelo anúncio. O Vice que quase ia sendo não sei o quê nas Forças Armadas antes que as vizinhas e as comadres tivessem arranjado maneira de não, ali, a ser como é no Alta Definiçao. Garboso, de farda, a fazer o gostinho ao Daniel e às audiências. 

A mulherada adora ver um homem a chorar. Se bem que agora consta que tudo o que é homem e vai dar entrevistas (daquelas a que chama de vida) sejam ao Daniel, à Júlia ou ao Goucha desata a chorar. A lágrima masculina banalizada, mainstream, déjà-vu. Eu, se calha ver, sabendo que estão ali para isso, acho sempre que, para a coisa ficar mais composta, era aparecer alguém da produção a dar-lhes um lencinho de papel e a pôr-lhes uma chucha na boquinha.

Gosto de homens altos, de barba, bonitos, com classe e charme, sóbrios, vestidos de oficiais de marinha. Gosto. É uma coisa cá minha. Mas não sei se o Vice, um fulano que está para os jornalistas e comentadores das televisões como o Cesar Millan para os cães raivosos, tinha necessidade de se ir para ali pôr a jeito, prontinho para o justo correctivo.

Não sei. Acho que não havia necessidade.

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De qualquer maneira não sei se a sua presença no Alta Definição conseguirá superar a sua participação na reunião da task-force "Para Resolver os Problemas da Humanidade"


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E queiram descer caso vos apeteça ir arrulhar com a Susana Pombo

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Um bom e divertido sábado
Saúde. Sorte. Amor.

Susana Pombo, especialista em gripe das aves

 

Depois de um dia assaz maçador, com o jantar já feito e mesmo, mesmo, mesmo a precisar de desligar, resolvi sentar-me no sofá a ver as notícias. Falava-se da gripe das aves. Olhei. Na legenda, Susana Pombo. Who else? Quem melhor para falar da gripe das aves do que Susana Pombo. Cada um é para o que nasce. Susana Pombo nasceu predestinada a dar entrevistas sobre a gripe das aves. 

Não sei se, caso volte a haver crise com as vacas loucas, arranjam uma Susana Vitela e se, para a peste suína, arranjam uma Susana Leitão. Mas o que sei é que agora, para a gripe das aves, a Susana Pombo está bem. 

Só não sei é porque é que, para lidar com a crise Covid, em vez da Graça Freitas não arranjam uma Graça Corona. Mas, pronto, gosto dela, acho bem que se abra uma excepção. Até porque, para lidar com a temível pandemia, tiveram o bom senso de arranjar para ministra da Saúde a extraordinária Marta Temido.

What's in a name, já dizia o outro.

sexta-feira, dezembro 03, 2021

As moçoilas do cabelo às cores dizem: escute os sinais e respeite seu momento.
E eu não posso estar mais de acordo.
E claro que a culinária aqui vem completamente a despropósito. Mas fazer o quê...?]

 


Estes dias estão a transbordar. Muito trabalho e, em cima de uma agenda demasiado preenchida, há a campainha a tocar com entregas, telefonemas das mais diferentes proveniências, o urso cabeludo a precisar de atenção -- e eu sozinha em casa. 

Chego ao fim do dia com a cabeça feita em água. Por vezes, aqui à noite, penso que, no dia seguinte, deveria pensar nos presentes de natal. Uns já despachei mas, na verdade, uma ínfima minoria. Mas depois, durante o dia, falta o tempo. Claro que agora, em vez de estar para aqui feita carpideira, bem podia estar a puxar pela cabeça e a navegar, de site em site, escolhendo presente para um, presente para outro. Só que esta cabeça aqui, a esta hora, já não deita sumo, só palavras desasadas. E escolher presentes sem inspiração nem energia não é boa coisa. A escolha de presentes requer uma boa vibe, uma boa onda, a good mood, senão vira burocracia, coisa falha de validade.

Há-de aparecer a vontade. Portanto, adiante.

Ao fim da tarde, num ápice, fui até ao supermercado. Não tinha bananas em casa e isso é coisa que não pode faltar. Desde que me lembro, ao pequeno almoço, uma banana não me escapa (entre outras coisas). E não sabia o que fazer para o jantar. Então vi um lombo de salmão à provençal, congelado. Fiz como recomendado e acompanhei com um arroz com muitos legumes. Ficou bom. Vou dizer como fiz o arroz:

Num tacho, coloquei azeite, uma cebola aos bocados, um alho francês, uma folha de louro e salsa em boa quantidade. Refogou ao de leve. Quando estava tudo molezinho, juntei três tomates maduros aos bocados, um molho de feijões verdes também cortados aos bocados, metade de uma courgette cortadas aos bocadinhos, um pouco de sal, pouco, sempre pouco. Ficou tudo a cozinhar devagarinho. Quando estava tudo bem cozinhadinho, juntei um bocadinho de abóbora também aos cubinhos. Juntei dois copos de água, deixei ferver, Juntei um copo de arroz basmati. Quando ficou quase sem caldo disponível, desliguei e deixei o tacho tapado a apurar. Modéstia à parte, estava bem saboroso. Saborosinho. Inho, inho (que isto hoje está a dar-me para os inhos -- deve ser do frio, uma pessoa até encolhe, incluindo das ideias).

O salmão foi assim: claro que, primeiro, descongelou. E a seguir:

Numa frigideira coloquei um pouquinho de azeite e cobri o fundo com uma cebola grande cortada aos bocados. Sobre essa cama generosa coloquei o lombo que tinha cortado às postas.  A pele do peixe ficou para baixo. Para cima a parte com as ervas aromáticas. Ficou para ali em fogo leve e brando, até que a cebola quase caramelizou, o peixinho cozinhou e o perfume a boa comidinha encheu a cozinha.

Quando o jantar já estava ao lume recebi um telefonema da empresa, o último do dia. Ao contrário do que é costume, boas notícias. Várias boas notícias num único telefonema. Fiquei toda contente. De repente, parece que todas as situações complicadas do dia se tinham dissipado.

E agora aqui, ao ver os vídeos do dia, uma vez mais, o das Avós da Razão chamou a minha atenção. Falam de períodos da nossa vida em que parece que estamos num impasse, improdutivas, desinspiradas, abúlicas. Uma mulher de trinta e quatro anos perguntava se as Avós já se tinham sentido assim e, em caso afirmativo, o que fizeram. E a resposta que elas deram é a que eu daria: claro que sim. Quem nunca? E, numa situação assim, não se faz nada. Espera-se que passe. A menos que a pessoa esteja doente -- com uma depressão, por exemplo, e aí deve tratar-se -- passa sempre.

Falo por mim. Sou avessa à monotonia. Essa coisa da velocidade cruzeiro não funciona comigo. Prefiro mar encapelado sem saber bem o que fazer com ele. Gosto de me sentir a desbravar caminho, a construir, a enfrentar as dificuldades do que se faz de raiz, a criar coisas, a formar equipas, a deitar obstáculos abaixo. Depois, quando está feito e apenas há que manter, eu começo a roer-me de impaciência, doida por saltar para outra. Mas nem sempre há para onde saltar. E, nesses compassos de espera em que me sinto sem pachorra para o mar flat e sem saber se me vai aparecer lugar para onde me pirar, sinto-me a aboborar, a criar raízes quando gosto é de sentir as asas a romperem das costas, impacientes por me levarem nem eu sei bem para onde.

Mas, com o tempo, aprendi. Nessas alturas, não vale a pena fazer nada. Um dia tudo se vai resolver por si. O melhor é arranjar um qualquer entretenimento mental para ajudar a aguentar. Porque é apenas uma questão de tempo. Não vale a pena forçar. Tenho para mim que o que tem que ser será. Mas só o é na altura que tiver que ser. 

A nível profissional ou pessoal sempre me aconteceu isto: depois de estar como que em hibernação mental, o próprio corpo a pedir descanso, um belo dia, sem saber porquê, acordo e aparece-me uma decisão que me vira a vida noutra direcção. Por vezes, uma ideia anda por aqui a pairar, indefinida, inconcreta, impalpável, vaga, vaga, como uma ilusão longínqua. E, do nada, aparece a cola que liga as peças, une as pontas. E, aí, é só ir atrás que a coisa se dá.

Mas eu sou eu e pouca graça tenho para falar das coisas. Agora as moçoilas aqui abaixo têm toda uma sabedoria, graça, irreverência e cabelo às cores que é impossível a gente não pensar que quando for grande quer é ser como elas. 

[Relembro: Gilda tem 79 anos, Sonia 83 anos e Helena 92 anos] 

E mais nada. O resto é conversa.

Avós da Razão: Escute os sinais e respeite seu momento


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Ao longo do texto, fotografias e montagens de Grete Stern na companhia do violinista Augustin Hadelich a interpretar Dvořák: Humoresque No. 7 in G-Flat Major

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E bora lá curtir mais uma sexta-feira
Boa disposição, boa sorte e boa saúde.

quinta-feira, dezembro 02, 2021

Parece que foi domingo mas, afinal, foi quarta-feira




Tenho estado a ver vídeos sobre treino de cães. Depois de convivermos durante quase treze anos com uma boxer obediente, meiga, dócil, agora estranhamos este cachorro que tem nos genes a vida no campo, a condução de rebanhos, a largueza e a posse de espaços. A nossa cãzinha nunca nos rosnou, nunca nos mostrou os dentes ou tentou morder. Esta fera peluda tem tanto de amorosa, brincalhona, e querida como de irrequieta, teimosa e, quando sente o seu espaço ou as suas posses ameaçadas, de agressiva.

Não apenas não estávamos habituados como não nos passava pela cabeça que um cachorro nosso, tratado com todo o mimo, pudesse ser assim. 

Por isso, resolvi instruir-me. Depois de estar há algumas horas a ver vídeos acho que amanhã já saberei lidar melhor com as reacções deste bicho maluco. Não é que sejam frequentes estes comportamentos mas, para nós, são inesperados.

Adiante.

Estivemos no campo. A casa gelada, gelada, um frio húmido e cortante. Muito tempo sozinha e temperaturas baixas à noite dão nisso. As casas são como as pessoas: sem convívio, tornam-se frias.

A terra está a rebentar de cogumelos. Muitos, gordos, uns mais exuberantes, outros disfarçados por entre a folhagem ou sob a caruma. O silêncio é apenas entrecortado pelo canto dos pássaros. A caruma está macia, molhada. De longe a longe vê-se um fio de fumo por entre as brumas da serra. A paz. Se há lugar onde me sinto visceralmente ligada à terra é ali, in heaven. As cores douradas e rubras do outono, os musgos, a natureza a seguir o seu curso em plena liberdade.

Estávamos a caminhar por lá, vi um coelhinho pequenino e fofo, deitado de lado, olhos abertos, morto. Ainda bem que o nosso ursinho peludo não o viu. Fez-me impressão. Tenho ideia que há por aí uma doença que dizima os coelhos. Não sei se terá sido isso ou outra coisa. Sozinha teria muita dificuldade em resolver a situação. Viemos para casa e o meu marido foi sozinho, com uma pá, levantar o frágil corpinho e levá-lo para longe, para onde a nossa fera não o alcançaria. 

Estive a ler mais algumas Crónicas do Zonas de Baixa Pressão António Guerreiro. Gosto muito, é inteligente, acutilante, é como se a sua inteligência fosse uma lâmina afiada que não poupa tolos, parasitas, estúpidos, gente convencida, vulgar. Uma inteligência que é, ao mesmo tempo, um radar que localiza ideias, ensinamentos, excertos, instantes. Lê-lo é um prazer. Tenho vontade de assinalar frases para reler depois ou para as trazer aqui mas são tantas que acabo por achar que não vale a pena, mais vale ter sempre o livro à mão, abrir ao acaso e ler. É sempre bom.

Ao fim da tarde, regressámos e fomos a casa da minha filha. A casa já com as decorações de natal, luzinhas acolhedoras. Os meninos contentes. O mais novo, apesar dos chuviscos, ainda andou com o seu afilhado à trela, no pátio. Apesar do tardio da hora, ainda lanchámos na varanda, ao ar livre. É larga e abrigada. Já era de noite e chovia ao de leve mas ali estava-se bem. No fim, a bola peluda nem queria vir, só a correr e a saltar, na maior alegria com os meninos.

As cidades já estão todas natalícias. Olho estas iluminações tão bonitas com alguma nostalgia. Vai ser o segundo natal condicionado. Sempre pensei que nos teríamos visto livres do bicho neste verão uma vez que a população já estaria quase toda vacinada. Afinal, a imunidade que cai ao fim de poucos meses e as novas variantes continuam a trazer as populações no fio da navalha. 

E muitas pessoas convenceram-se que, tendo a vacina, tudo estava bem. Ainda não há muito estive num evento com umas centenas de pessoas. É certo que o espaço era amplo e arejado mas, ainda assim, a concentração era considerável. Raras eram as que estavam de máscara. Devo dizer que, a dada altura, veio uma pessoa ter comigo, alegre, abraçou-me e beijou-me, um beijinho em cada lado, ou seja, face a face, a centímetros de distância. Não tive como evitar. Tive sorte, não calhou. Mas foi um risco daqueles...

E sei de muitas reuniões presenciais em salas sem janelas em que estão todos sem máscara. Não sei o que passou pela cabeça das pessoas para acharem que o risco tinha passado.

Sei que não deve haver alarmismos. Mas há pessoas que, perante a ausência de advertências, relaxam. E uns servem de exemplos ao outros, especialmente os maus exemplos. 

E os casos começam a multiplicar-se. Portanto, estamos outra vez em Dezembro e de novo a curva começa a empinar. Os casos são menos graves mas um caso menos grave pode contagiar alguém a quem a doença bata com força.

Natal assim -- com distâncias de permeio, sem que possamos estar todos, muitos, em volta da mesma mesa, aconchegados à lareira, os miúdos encavalitados uns nos outros e nós, por perto, a vê-los -- parece que não é Natal. Pelo menos, não é bem Natal. 

E apetecia-me um Natal e um Ano Novo à vontade, sem medos, sem máscaras. E apetecia-me estar de férias, não ter horários, não ter compromissos. E apetecia-me não ter preocupações.

Raios partam a porcaria do corona. Quem o inventou, inventou bem inventado. 


E é isto. Tenho ideia que foi domingo mas, afinal, foi quarta-feira. Portanto, menos mal. Já não falta muito para ser fim de semana. 

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Pinturas de Nazmi Ziya Güran na companhia de Bernardo Sassetti & Mario Laginha & Pedro Burmester com 3 Pianos "Souvenirs pas de deux"

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Um dia bom
Força. Coragem. Esperança. 

quarta-feira, dezembro 01, 2021

Sim, o tamanho importa.
Em especial se for mesmo grande, espectacular... e para usar atrás.
[E, ainda, uma ideia para combater a Ómicron]

 

Bem... se dúvidas eu tivesse agora tê-las-ia desfeito. Claro que importa. Para o bem e para o mal, importa. 

Para os cépticos, tenho aqui uma fotografia que mostra como uma coisa destas não apenas limpa as teias de aranha dos mais conservadores como impressiona não apenas quem o usa como quem o vê. Enorme, nunca visto, de um tamanho inimaginável. Claro que não é qualquer um(a) que aguenta com uma coisa de tal calibre. Requer fôlego, presença de espírito. 

Imagino-me a dar uso a tal exagero... E, confesso, fico na dúvida. Se calhar já não tenho idade para tanto. Mas, por outro lado, porque não? Sim, caraças, porque não? Estou viva, não estou? Então, porque não?

O desconcertante no bicho é que não apenas é enorme... como, ainda por cima, tem duas cabeças. E isso não sei. Se um bicho deste tamanho já daria que fazer com uma só cabeça, imagine-se com duas. Nem sei se esteticamente é apetecível. Não sei. Talvez seja mais um daqueles casos em que primeiro se estranha e depois se entranha. Um coiso grandalhão com duas cabeças que se entranha...? É capaz disso, é capaz disso...

E estou a pôr estas reticências todas apenas porque tenho algumas dúvidas. É daqueles casos em que o tamanho importa mas, se calhar, passa um bocado da conta. Não sei. 

Só mesmo experimentando... 

E, uma vez mais, não é indiferente o que se veste para a ocasião. Costas nuas, evidentemente. E digo evidentemente mas, como é óbvio, é apenas uma questão de gosto. Claro que se pode usar estando vestida da cabeça aos pés, toda coberta como uma irmãzinha da caridade. Mas, lá está, não seria a mesma coisa. É que, para experimentar um coisão gigantão daqueles há que ter muita pele disponível. É que não é apenas uma degustação visual. Melhor: a bem dizer, a partir do momento em que se começa a usar, nem se vê. Só se vê antes e depois de usar, não enquanto se usa. Mas há que senti-lo, senti-lo bem. Dar-lhe toda a pele disponível de que ele precisa.

Aliás, agora que falo na sua utilização, até fico na dúvida: é de tal maneira que, certamente, requer ajuda. Sim, sim, mais do que certo que requer ajuda extra. Senão como é que se consegue?

Claro que, em vez de se usar atrás, se pode usar à frente. Mas aí a coisa apresentará outros desafios. Em privado, sem expectadores, capaz de arriscar na utilização frontal, talvez até desse para umas fotografias bem interessantes. Ah sim, acho que, pensando bem, para utilização frontal, as duas cabeças até viessem a propósito. Até porque as cabeças estão de boca aberta. Já as vejo, cada uma com seu mamilo na boca. 

Com tudo isto já só me falta saber onde desencantar um igual a este. Em casa não tenho nada que se pareça senão ia já experimentando.

Este que aqui exibo -- digo, partilho -- foi usado por Zendaya na gala da Bola de Ouro e, claro está, causou sensação. Dizem que hipnotizou Paris e eu acredito. O vestido sei que é um original Roberto Cavalli revisitado por Fausto Puglisi. Agora o enorme escorpião dourado com duas cabeças que se lhe cola às costas como uma espinha dorsal não sei a quem se deve. O que sei é que é uma jóia extraordinária.

Portanto, na continuação da celebração do amor que aqui ontem trouxe, cá fica a dica. Quem estiver desinspirado, sem saber como impressionar a sua namorada, agora já sabe. 

[E não venham dizer que isto aqui não é serviço público de primeira.]

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E ainda mais uma coisa: sobre isto do corona e desta gracinha da Ómicron e destas vacinas que parece que têm que se apanhar de três em três meses, ocorreu-me que o melhor era arranjarem umas coleiras repelentes para a gente usar, como a dos cães. Podiam fazê-las cravejadas a esmeraldas, a rubis ou safiras, minimalistas, alternativas, ou em couro negro para homens que só usam coisas discretas. Podiam dar-lhe um toque Cartier, Chanel, Timberland ou whatever, mas que servissem para a gente estar sempre protegida. Não é uma boa ideia?

Aquela malta da Nova que enfia transístores em folhas e papel ou que sabe como falar com moléculas não quer pegar na ideia?

É que não precisa de ser colar ou broche dorsal: pode ser pulseira, anel, brincos. Qualquer coisa que largue um cheirinho ou uns ultra sons ou o que for que enxote pulgas, coronas, mosquitos e chatos, está bom. Eu usava.

[Lá está, serviço público]

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E um bom feriado!