É o que já aqui disse e que muitas vezes penso: eu devia era ter um diário a sério onde pudesse contar tudo. Assim, tudo o que é mais relevante eu que permitiria identificar alguém é omisso ou ocultado.
Se falo, tenho o cuidado de usar abstracções ou de passar ao lado de referências geográficas ou biográficas. Por exemplo, apetecia-me relatar ipsis verbis todo o meu dia. Mas, com muita pena minha, não posso.
Hoje saí e estive fora cerca de seis horas. E, durante essas seis horas, presenciei cenas indescritíveis. Presenciei não: participei. Vi-me dentro de um cenário que merecia ser filmado. À noite, ao falar com o meu filho, eu disse que gostava de conhecer um realizador que se predispusesse a filmar aquilo. Só visto. Que magnífico filme ali se faria. E teria de tudo: ambiente underground, vilões, desgraçados, disfarces, intriga. E o ambiente, a luz, a forma como os personagens se movimentam, os labirintos... tudo é incomum, surreal. Uns olham-me de lado, outros simulam normalidade, outros baixam a cabeça para me cumprimentar. Um, com ar descarado, perguntou-me: 'E você quem é?'. Disse o meu nome. Ele fez um sorriso e disse: 'Ah... já ouvi falar...'. Uns passos depois perguntei quem era, Disseram-me o nome. Nunca tinha ouvido falar. Mas o que soube a seguir ainda mais intrigada me deixou.
Quando ia a sair, um veio ter comigo, disse que queria falar comigo, que não seriam mais que uns minutos. Disse: 'Diga'. E ele: 'Aqui não, é melhor irmos falar lá para fora'. Tudo do além. Fui. Estava muito nervoso, muito estranho, parecia assustado. Ouvi-o mas sem perceber bem tudo o que me estava a dizer.
Outra pessoa, depois, perguntou-me. Disse-lhe por alto. Juntou os dedos várias vezes. 'O quê? Não percebo'. E ele: 'Está com medo'. Não disse nada. Também não percebi. Medo de quê?
Quando estava a visitar outro local, recebi uma chamada. Queria saber como tinha corrido. Disse que ligava depois. Liguei do carro. Contei-lhe mas não é possível contar tudo. Contei, por exemplo, a bizarra indumentária duma. E a forma como tinha falado, e a forma como outros tinham reagido. E tudo muito bizarro. Contei algumas coisas do resto. De vez em quando, ao relatar cenas mirabolantes, do lado de lá uma gargalhada. E eu, por fim, também a rir, parece que tinha assistido a um filme de Fellini ou a um teatro maluco.
Assim não dá para perceber porque, neste caso, eu deveria ser literal, descritiva. Um diário com todas as letras. Assim, tudo vago e abstracto, não dá para perceber.
Ao chegar ao computador, tarde, e ao ver o ror de mails que entretanto tinham chegado, vi uns quantos que voltaram a tirar-me do sério. Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar, já lá dizia o outro (e eu concordo tantas vezes com ele).
E, com isto, já é sexta-feira e vai ser dia de festa na comunicação social. Vamos ver que rato a montanha vai parir. E não, Senhora Dona Kina, isto não tem a ver com o Sócrates ser o Sócrates mas com o Sócrates ser um cidadão do meu País que está a ser vítima da má Justiça do meu País. Nem tem a ver com o PS. Se há coisa que aqui tem a ver com partidos só se for por termos partidos cobardes que fecham os olhos à pouca vergonha a que, neste caso, talvez mais do que em qualquer outro, se assistiu com as fugas de informação, as perseguições ad hominem (digamos assim),a devassa em regime de vasos circulantes entre Justiça e Comunicação Social. A si nada disto a choca? Ou, por ser o Sócrates a ser vítima, a gente deve juntar-se aos cobardes e ficar calada? Not me, Kina, not me. Todas as pessoas são inocentes até prova em contrário -- e esse é um princípio do qual não abdico. E mesmo os condenados merecem ser tratados com a dignidade devida a todos os seres humanos. E é isto que penso, trate-se do Sócrates, trate-se de si, Caríssima Lady Kina.
Mas, dizia eu, já é sexta-feira e vai ser um dia grande. Eu, pela parte que me toca, tenho a agenda preenchida e ainda quero arranjar tempo para, ao fim do dia, para tratar de umas coisas cá minhas.
Um dia que acabou sombrio apesar do sol da tarde. Tento racionalizar: é apenas mais um. Mas sei que não é. Ninguém é.
A manhã foi complexa. Penso muitas vezes naquilo: é melhor ser amado ou ser temido? Apesar de não ser uma princesa, tento relembrar as observações ou conselhos. Aconselhei: guarde alguma distância, tem que conseguir ter amplitude de movimentos para decisões difíceis, não queira ser popular. No ecrã do computador vejo, em grande plano, o rosto daquele a quem exprimo o meu desagrado. Em ponto pequeno, em baixo, poderia ver o meu rosto. Mas não olhei. Por um lado, estava concentrada no que dizia e em ouvir e dirimir nos argumentos do outro lado e, por outro, não sei se é essa a minha face que mais gosto de ver. Talvez me assustasse, se me visse. Sei que o meu semblante não esconde o que sinto.
Aquele que durante anos foi o meu melhor amigo (e que apenas já não o é porque as circunstâncias profissionais e da vida nos afastaram geograficamente tanto que aquele contacto quotidiano se foi esbatendo) dizia, meio a brincar meio muito a sério, que eu, como adversária, era temível. E davam-lhe razão. Eu ouvia, divertida mas sem contestar. E lembro-me de um dia, em casa de amigos comuns, já há uns anos, um outro me ter perguntado de quem eu, na altura, dependia. Quando respondi, ele, o meu amigo, soltou uma gargalhada. Os outros voltaram-se para ele, tendo ele esclarecido a propósito do meu chefe de então: 'Ele pensa que manda nela. Mas mais ninguém acha isso, toda a gente acha que ela é que manda nele. Aliás, acho que ele próprio tem consciência disso.'. O meu marido ainda hoje, de vez em quando, me lembra isso como testemunho de que não acato ordens ou sigo orientações. Não é verdade. Acato, sigo. Mas apenas quando acho que fazem sentido. Mas, reconheço, tenho em mim uma natural tendência para ser eu a ditá-las. Não serei autoritária mas sei que, se vejo um caminho, não penso duas vezes antes de apontá-lo e, se alguma coisa não me parece bem, não consigo escondê-lo nem consigo enrolar a conversa ou dourar a pílula. Muitas vezes penso: 'bruta como as casas'. Mas, nessas situações, não sei ser de outra maneira.
Mas isso foi até à hora de almoço. Nessa altura, fizemos a nossa caminhada e, depois, almoçámos. A meio da tarde, num little break, fui plantar, no canteiro do pequeno varandim, umas plantinhas que tinha comprado no outro dia. Sardinheiras e umas outras que descaem e de que não fixei o nome. E outra coisa: naquela acção da distribuição de árvores, calharam-me não romãzeiras ou medronheiros mas três ciprestes e uma azinheira. Parece que nunca viram tanta procura de medronheiros. Trouxe, pois, quatro projectos de arvorezinhas. Pequeninas, um ou dois palminhos. Alertada para o irritado comentário do Leitor que, no outro dia, aqui dizia que nunca tinha visto tamanha ignorância, que plantar árvores nesta altura seria condená-las à morte, validei: 'E podem plantar-se agora? Têm que ser regadas, não...?'. O senhor esclareceu: 'Não plante na terra. Coloque-as num vaso e vá cuidando. No Outono, lá mais para Outubro, quando começarem as chuvas, muda-as para a terra'. E, portanto, assim fiz. O que eu gosto de fazer mudas de plantas, de mexer na terra, de regar, de observar o seu crescimento, de me deslumbrar com a sua beleza. Depois voltei ao trabalho. Uma tarde cheia de surpresas e quase todas negativas. Irritações, telefonemas. Até que, estando ao telefone com a minha filha, soube da notícia. À noite, na televisão, os testemunhos foram-se sucedendo. Emocionados, tomados pela surpresa e pela comoção. Estes tempos vão assim, inclementes, tantas vidas sendo ceifadas, tantos desgostos para quem fica.
Depois ainda outro telefonema. Estava a fazer o jantar. Queria saber como tinha sido. Escandalizado com o que contei. Que tínhamos que averiguar, ir até às últimas consequências. Por fim, já nos ríamos os dois a bom rir. Há coisas tão estupidamente escabrosas e parvas que, começando por nos chocar e irritar, acabam por nos dar uma irresistível vontade de rir. E foi ainda a rir que ajeitei o tacho com a janta.
_____________________________________________
E, por falar em flores, as pinturas são de Georgia O'Keeffe. Lá em cima não posso dizer que o vídeo esteja pela música. Como é bom de ver, está pelas imagens do National Geographic: Time-Lapse: Watch Flowers Bloom Before Your Eyes
_____________________________________________
E agora aquilo com que, para espairecer, me entretenho enquanto vejo o House: o maravilhoso e assustador mundo dos contrastes: natureza versus robots. Contudo, nem sempre, no fim, me sinta muito espairecida. O mundo vai divergindo e não sei como vai ser.
Growing a Greener World Episode 1111: Creating Paradise Through a Shared Passion for Gardening
Já vos contei que estou outra vez viciada no House...? Pois... confesso: estou... E isso está a colidir à força toda com a escrita no blog. Coexistem no espaço e no tempo. Trabalhei até perto da meia-noite. Quando me despachei e confirmei que nada de transcende aconteceu no mundo (para além das desgraças e irrelevâncias do costume) fui ver o episódio de ontem. Só agora que acabou peguei nisto. E, entretanto, estou a ver o episódio de hoje. Não sei se são episódios recentes ou se são antiquíssimos. Poderia averiguar mas não me interessa. Gosto de ver. Aquele raciocínio agudo, aquele sentido de humor intragável e aquela insolência aberrante do House são um cocktail que me prende do princípio ao fim.
Só que, com isto, consumo o cada vez menos tempo livre que tenho.
Queria dizer qualquer coisa sobre a imoralidade que é a maneira como a Justiça funciona neste país. Em qualquer outro lugar do mundo decente e civilizado alguém poria fim à incompetência que lavra de A a Z na Justiça portuguesa.
A comunicação social já começou a salivar para a decisão que aí vem sobre o Caso Marquês. Há anos que esta pouca vergonha dura: começaram por prender o homem com as televisões a acompanharem em directo o indecoroso e indigno ataque à privacidade de uma pessoa num momento tão delicado. Interrogaram-no, divulgaram escutas, divulgaram bocados das peças processuais, mandaram-no preso para Elvas, devassaram-lhe a vida pessoal, a vida da mãe, da ex-mulher, da ex-namorada, dos amigos, impediram-no de viver uma vida normal, obrigaram-no a viver como um acossado. Anos disto. Uma verdaeira pouca vergonha. Pelo meio, foram arregimentando mais gente, mais suspeitos, o caso foi engrossando, engrossando, virou o paquiderme judicial do regime. Quando penso naquele que começou por ser o intrépido e irreverente advogado de defesa, o João Araújo, que, coitado, não viveu o tempo suficiente para assistir ao desenlace de tão fatídico caso, tenho tanta pena. Mas também me mói a ideia de que o principal suspeito tenha a vida em suspenso há tantos anos. Anos, anos disto. Anos disto sem sequer se saber se o caso tem sustentação ou não. Uma vergonha. A Justiça não pode funcionar assim. Os culpados vêem a vida parada sem pena decidida e acabam na prisão quando já estão no fim da sua vida, muitas vezes a dar as últimas. E os inocentes vêem a sua vida anulada, desgraçada. Enquanto isso, os ilustres juízes, alguns com forte pancada na cabeça e sem admitirem o escrutínio de ninguém, continuam a fazer o que muito bem querem e lhes apetece. E o resto das instituições assobiam para o lado. Separação de poderes muito bem, tem que ser. Mas bandalheira a céu aberto, não. Alguma coisa deve e tem que ser feita.
A nossa democracia tem dois cancros: a Justiça e as Redes Sociais. E com metáteses na Comunicação Social. Claro que isto das redes sociais não é coisa só nossa assim como a comunicação social também não. Só que isso, conjugado com a grave doença na Justiça, pode minar a nossa democracia que, sendo recente, tem ainda muitas vulnerabilidades.
Mas, enfim, queria falar sobre isto mas não é às duas da manhã que estou em condições para dizer coisa que se aproveite. Dirão as más línguas que nem às dez da manhã o estou. Mas para o que as más línguas dizem eu também não tenho tempo.
Portanto, para ver se durmo alguma coisa antes da manhã que me espera que é daquelas em que até tremo com o que vou ter que fazer, calo-me já.
Quando me vê tão debaixo de trabalhos e maçadas, a minha filha diz que não tenho necessidade disto. E há uma perspectiva sob a qual talvez não tenha. Mas a verdade é que tenho este espírito de missão, de mulher da classe trabalhadora, toda a ter que cumprir com deveres e obrigações, mulher que mais depressa verga que parte, que não cede nem abranda até que ache que fez o que julga que tem que ser feito. Não é que queira: é involuntário, é coisa genética. Ou seja, vejo-me cercada de uma canseira da qual tenho dificuldade em fugir porque parece que sou eu que não consigo passar sem viver assim, no limite do que posso.
Enfim.
_____________________________
As pinturas são de Gerhard Richter e vêm ao som do magnífico Jacob Collier & Yebba interpretando Bridge Over Troubled Water
___________________________________________
E despeço-me com um outro grande momento musical que espero que seja do vosso superior agrado
Sou uma pessoa de casa. É onde me sinto melhor: na minha casa. Quando estou fora, de férias, ao fim de alguns dias já me apetece voltar para casa. E, se estou em casa alheia, chego sempre ao ponto em que começa a bater a vontade de sair de lá, de regressar à minha.
E gosto de ver casas bonitas. Dantes comprava revistas de decoração. Com que prazer as via. E guardo-as todas, acho que encerram tantas intimidades e tantas boas ideias.
Tenho conhecido casas muito bonitas. Uma das mais bonitas situa-se em Sintra. Uma casa de pedra em que um dos lados está encostado à serra. Os muros estão cobertos de hera. Tem um pátio interior com grandes vasos de pedra. Tem escadarias exteriores com varandas de pedra e te escadas interiores, E tem salas que comunicam com salas que comunicam com salas. Há salas com lareiras gigantes e com grandes mesas de madeira em torno da qual as pessoas se sentam a conversar. E tem janelas altas com bancos de pedra dentro de casa, de cada um dos lados. É tão bonita e tão bem decorada que não há uma coisa que eu mudasse.
Uma outra casa de que gosto muito é a casa de uns amigos. Ela foi-se há pouco tempo, o que muito me abalou. A casa era a casa dela, a cara dela. Há lá conjuntos de peças de que ela se tinha tornado quase coleccionadora. Peças simples ou bonitas ou ímpares. Crucifixos, por exemplo. Muitos. Pintei um quadrinho com um, que lhe ofereci. E, no alpendre, havia vasos e peças de terracota e flores e trepadeiras. Uma casa com surpresas e muito para ver, coisas de que ela falava com gosto e de que fazia gosto em mostrar, referindo onde as tinha arranjado, por vezes envoltas em histórias. Gosto de casas que são assim, em que se vê que há ali muito da alma de quem lá vive. Não sei como estará a casa agora, sem a presença e a voz e o riso dela.
Conheci também uma casa que era a casa dele e não dela. Era uma casa masculina mas a casa de um homem que é um bon vivant. A mulher, segundo ele, gosta de estar com amigas, de estar na esplanada a conversar, não em casa. E, por deus, o que ela conversa. Uma vez vi-me entre ela, a que acima referi e uma outra que falava pelas duas juntas. Ao princípio eu estava divertida a assistir aquela desgarrada, por vezes espantada. Algum tempo depois estava exausta. Falavam tanto, tanto, tanto, tanto que eu não conseguia energia sequer para abrir e boca e dizer alguma coisa. Mas ele, pelo contrário, era homem de receber, de conversar em torno de um bom vinho. A casa era a casa dele, com zonas de sombra, com subtilezas, ironias e recantos.
Havia também a casa de uma amiga meio doida. Completamente doida, dizia o meu marido. Já aqui falei dela algumas vezes. Ilustre psiquiatra. Toda ela era uma figura. Bonita, elegante, uma voz e tanto, inteligente. Mas, de facto, tenho que reconhecer, com uma pancada das valentes. A casa era como se fosse a casa da bisavó. Uma casa antiga que não tinham restaurado nem modernizado e com mobílias que herdara da família, móveis enormes e sombrios, tapeçarias tristes, espaço vazio e melancólico. Nada naquela casa era acolhedor. Parecia que se tinham instalado numa casa abandonada. Uma vez estava lá a mãe, a tocar piano. Tocava lindamente. Mulher lindíssima mas completamente alienada. O marido tinha uma amante da idade das filhas. Toda a gente na família o sabia, incluindo ela. Sempre que lá chegávamos, esses nossos amigos estavam zangados um com o outro. Tudo o que ele queria ela achava estranho. Era incapaz de um gesto de ternura ou compreensão porque o achava anormal e fazia questão de lho dizer. Ele não se queixava dela; apenas, na brincadeira, dizia que ela não tinha jeito para cozinhar. Um dia, quando lá chegámos, pergunta-me ela: 'Olha lá, disseste que cozer peixe não tinha nada que saber, que era pôr as batatas e o peixe em água. Pois olha, tenho a informar que ficou incomestível, espinhas e tripas tudo misturado'. E ele: 'Porque é que não lhe perguntas se não era preciso tirar as tripas...?'. E ela: 'É?'. Eu, atónita: 'Bolas. Que é que fizeste? Que peixe é que era?'. Ela: 'Fanecas. Comprei-as ali no mercado, pu-las no tacho com as batatas'. 'Fanecas cozidas? Inteiras? Com a tripa?'. Ele, rindo: 'Eu não te disse?'. E eu: 'Caraças. Não se cozem fanecas. Fritam-se. É peixe que se desfaz. Quanto muito, punhas por cima, no fim. Mas, bolas, tem que se amanhar...'. A casa era como ela, uma coisa entre o desesperado, o incompreendido, o ansioso. Uma vez estava toda enervada, as coisas estavam a correr muito mal entre eles. Contava-me coisas, perguntava-me coisas, queria concluir que ele é que tinha toda a 'culpa'. Mas coisas do género: 'Olha lá. Ele quer que eu me ponha de costas. Achas normal?. Eu desatava-me a rir. Nesse dia estávamos no quarto dela, as duas sentadas na cama, ela a arrumar uma gaveta. Quando me fez aquela pergunta, lembro-me de me ter atirado para trás, a rir. Nisto apareceram eles e viram-me perdida de riso e ela espantada com o meu riso. 'O que foi?', perguntaram. E eu ainda mais perdida de riso, sem querer contar o que ela me tinha perguntado.
Enfim. Cada casa reflecte quem lá vive dentro, O pior é quando não, quando a gente vê a casa e não reconhece nela a pessoa que julgamos conhecer. Aí ficamos sem saber qual reflecte melhor o que a pessoa é de verdade, se a casa se a imagem que formámos do nosso provável desconhecido.
__________________________________
Permitam que partilhe duas casas a que achei uma graça não apenas pela decoração mas pela arquitectura e enquadramento paisagístico. Gostei das casas mas também da forma como os donos falam delas.
Adriana Calcanhotto abre as portas da sua para mostrar seus livros e gatos
Marisa Orth e Gringo Cardia mostram casa com vista para cartão-postal do RJ
Quando acordei percebi logo que estava melhor. Portanto, foi só o tempo de me arranjar e de comer a minha fruta, kefir com cereais e beber um café -- longo, índice 8 e, obviamente, sem açúcar -- para dizer ao meu marido que tínhamos muito que fazer. Como é costume, estava a pé há séculos, já tinha feito o seu passeio matinal e estava a ler um livro gigante de história. Pôs-se logo en garde. Teme estes meus rompantes. Mas, antes de ir atirar-me ao que me ocorreu ao pôr o pé no chão, tive que ir atirar-me ao anho pascal.
Tinha ficado de véspera a descongelar. Antes de o ter congelado, tinha-o limpo de gorduras. Então, fiz assim (a atentem que, ao contrário do que era em tempos de grandes comezainas e lambanças, desta feita o repasto era apenas para dois):
Num tacho coloquei uma mini (cerveja, bem entendido), duas cebolas grandes aos bocados, duas folhas de louro, um generoso fio de azeite, os bocados lavados do anho e, por cima, uma boa quantidade de salsa, coentros e um pouco de sal. Ficou com o lume no máximo até ferver. Depois baixei. Tapadinho, lume mínimo, a carne mergulhada no caldo.
Comuniquei, então, que queria ir limpar aquela espécie de estufa que está no meio da horta. É uma coisa precária que precisa de ser arranjada e que, por ter chão de terra, estava cheia de erva até uma altura desmesurada. A natureza a desafiar a mão humana, quando deixada à sua sorte, rapidamente toma a dianteira. Pensei que quero limpá-la e usá-la.
O meu marido, alertou-me: 'Vais, outra vez, dar cabo do ombro'. E ofereceu-se para ser ele a fazer o que houvesse a fazer. Mas não, apetecia-me mesmo deitar mãos à obra. Disse-lhe que esforçaria o outro braço. Então ficou ele, com o sacho, a dar cabo de uma verdadeira moita de erva alta que circundava a dita estufa. E eu, lá dentro, a arrancar à mão, com a mão esquerda (para poupar o ombro direito). Puxei e puxei e puxei. Arranquei erva verde, erva seca, descobri vasos e pedras rústicas debaixo das ervas.
Os montes de erva que ambos arrancámos foram impressionantes. Depois transportámo-los para o monte de sobrantes que vai compostando. Não conseguimos foi dar conta da manta de urtigas que se formou ao fundo. O meu marido diz que só com roçadora.
Andámos também a varrer as folhas secas da nespereira. Está carregadinha de nêsperas mas estão tão altas que não sei como vamos conseguir lá chegar.
Pelo meio, de vez em quando ia a casa vigiar o cozinhado. Cheiroso.
Com a colher fui virando a carne para que ficasse bem envolvida no caldo.
Depois, como a carne já estava a mostrar querer desprender do osso, sinal de que estava a ficar macia, desliguei. Ficou a maturar enquanto fomos fazer a nossa caminhada. Talvez por ser caminhada pascal, foi mais longa do que habitualmente.
Quando regressámos, descasquei duas cenouras grandes, um belo molho de feijões verdes, umas batatas normais e uma batata doce grande (das cor-de-laranja). Depois de tudo descascado e lavado, tirei a carne para um prato, juntei um pouco de água (o caldo estava já um pouco reduzido). Coloquei a cenoura às rodelas no fundo, o feijão verde aos bocados largos, as batatas aos cubos e, por cima, a carne. Deixei que fervesse e, depois, coloquei de novo do mínimo.
Quando pensei que deveria estar quase, coloquei o forno no máximo. Quando admiti que o forno estivesse quente, coloquei o conteúdo do tacho num tabuleiro grande de forno. Ficou tudo bem espalhado e assim ingressou no calor. Nessa altura, aliviei e passei para cerca de 180º.
Antes de servir, ao ver que estava tudo a ficar com aspecto quase crepitoso e douradinho de dar gosto, coloquei por cima umas fatias grossas de pão rústico para ficar quentinho.
Quando o tabuleiro foi para a mesa, tirei as fatias de mão para um pratinho à parte pois estavam ali mesmo apenas para aquecerem e ficarem com o cheirinho do cozinhado. Servi.
Devo dizer: a clientela foi escassa mas devo dizer que aprovou. O pãozinho marchou todo, molhadinho no molho grossinho e saboroso do estufadinho do anho pascal. Sobrou ainda o suficiente para outra refeição, o que me agrada pois isto de estar a cozinhar todos os dias há um ano também cansa.
Depois fomos apanhar sol para o jardim.
A meio da tarde recebemos uma mensagem, se estávamos em casa, queriam vir deixar-nos folar. Claro que sim. Passado um bocado, chegou a trupe primaveril e animada. A menina com um vestidinho de cavas, cada vez mais bonita. Os meninos brincalhões, sorridentes, crescidos, bonitos.
Trouxeram o excelente folar feito pela excelente doceira, mãe dos meninos, um folar recheado com doce de abóbora, requeijão e nozes. Bom, bom, bom. Trouxeram ainda folar, também muito bom, creio que recheado com maçã, feito pela sua mãe, outra doceira de mão cheia. E trouxeram um bocado de cabrito do almoço, provavelmente feito pelo chef que, tal como a mãe, é mais dado a salgados que a doces. Prová-lo-emos amanhã.
Trouxeram também ovinhos de chocolate com os quais fizeram caça ao tesouro no jardim. Os meninos correram, brincaram, jogaram às escondidas, os pais estenderam-se e descansaram ao sol na relva.
Andei sempre de máscara e eles também, excepto o mais pequenino, não resisti a abraçá-los. Meninos queridos.
Quando o sol de pôs, esfriou e foram para casa, eu com pena de não poder despedir-me, abraçando-os e dando montes de beijinhos como na era pre-covid.
O meu jantar foi simples: uma maçã, um pouco de cheddar maturado e, adivinhem, uma fatia de cada folar. Por mais que queira fugir às tentações, nada a fazer, elas vêm ter comigo.
Resumindo: tive um dia de Páscoa bem melhor do que esperaria. E o dia esteve ensolarado, um sol amável, cheio de pássaros cantando, as rosas, as glicínias, o jasmim perfumando o ar, os sorrisos adoçando-me o coração. O mês de Abril é sempre um mês generoso.
________________________
Há pouco, ao começar a escrever, lembrei-me de que, em tempos, por estas alturas, nos púnhamos a caminho. Uma vez fomos visitar Alhambra e a Mesquita-Catedral de Córdoba. Mas, quase tanto como visitar estes locais maravilhosos, eu gostava de andar pelas ruas das cidades, pelas ruelas floridas. E agora que escrevo penso também em Marbelha, as ruas e os restaurantezinhos bons, o El Balcon de la Virgen, por exemplo. Tem é que ser fora da época da confusão. Na primavera, por exemplo, é bom. Voltámos lá depois mas curiosamente é da primeira vez que mais me lembro. Foi um passeio tão bonito. Gostava de lá voltar, gostava de ver os pátios floridos.
_____________________________________
As fotografias são de Katerina Plotnikova e são estas e não outras apenas porque as acho muito bonitas
Não me importaria de ter vários dias assim. Uma tranquilidade envolta em canto de passarinhos, olhando as flores, varrendo, cozinhando, lendo.
Não dormi bem na noite anterior. Como já percebi que acontece quando ando com muito trabalho, muita pressão de decisão difíceis a toda a hora, reuniões de sol a sol, o meu corpo dá de si mostrando que estou a puxá-lo ao limite. Pelo menos, assim interpreto. Do nada, apareceu-me uma tendinite num ombro. Que me lembre não fiz esforço nem dei mau jeito. E, no entanto, o ombro está dorido, o movimento bastante limitado. Então, de noite, sem poder deitar-me de lado ou doendo-me ao mínimo movimento, a coisa não esteve fácil.
Durante o dia, sempre que estive parada, coloquei um daqueles sacos de gel congelado. O gelo ajuda bastante. Espero que, assim como apareceu, assim desapareça.
Apesar de estar assim, consegui ter um dia quase normal. Mantenho o braço junto ao corpo, contendo os movimentos, e a coisa vai dando. Pior movimentos que envolvam alguma torção ou levantar o braço. Abotoar o soutien atrás é para esquecer.
Mas um efeito colateral foi que, por ter dormido pouco de noite, passei o dia a querer adormecer de cada vez que me sentei sossegada. Agora à noite, aqui no sofá, não tem conta as vezes em que caí no sono.
Mas foi um dia bom. Estive muito tempo no jardim e na horta. Gosto tanto. Aqui, sossegada, não há ruído, poluição. Aqui tudo é paz e natureza.
A anterior proprietária da casa vendo o meu gosto por árvores, flores e arbustos aconselha sempre que eu me inscreva nos cursos de jardinagem de agronomia, ali na Tapada da Ajuda. Digo-lhe sempre que ainda não dá, não consigo ter tempo. Mas reconheço que a minha ignorância é muita. Penso sempre que a minha intuição me leva onde for preciso mas, claro, sei bem que era bom, era, que isso fosse sempre verdade. Mas não é.
Hoje, o comentário do Amofinado levou-me até aos ensinamentos da Carol Costa. Diz ele que eu, se estivesse a ensinar jardinagem, deveria ser assim. Acho que tem razão. Ela ensina tudo com cuidado, vai ao pormenor, quer mesmo ensinar. Gosto dessa maneira de ensinar. E é divertida. E fala com carinho das plantas. Já vi vários vídeos dela. Como sempre acontece quando aprendo matérias muito novas para mim fico com muita vontade de experimentar.
Andámos a ver, no jardim, se há algum lugar pouco intrusivo onde se possa colocar uma pequena greenhouse. Digo assim, com sotaque british pois os vídeos que andei a ver são britânicos, gardens, romantic gardens. Pensei num sítio, fiz marcações, pareceu-me perfeito. Chegou o meu marido, achou mal. Aborreci-me, achei que estava a contrariar-me gratuitamente. Mas pouco depois já estava a dar-lhe razão e, então, andámos os dois a ensaiar, a espetar paus no chão, eu a ver de longe, ele a dar sugestões, eu a dar-lhe razão. O trabalho em equipa é sempre mais proveitoso.
Agora estou a ver o Dr. House. No outro dia vi e voltei a ficar viciada. Sempre achei graça a bad boys. São os que valem a pena. Os outros tendem a ser uma maçada. Mas já é tarde. Tenho que ir. A minha mãe bem me diz que eu aproveite estes três dias para descansar, para dormir. Se vivesse num outro tempo, se fossem outras as minhas circunstâncias, haveria de ter uma vida boémia, tendencialmente desregrada. Assim, limito-me a ter horários impróprios para dormir. No outro dia estava a dizer à minha mãe que ela passar umas duas semanas numas termas era capaz de ser uma boa coisa. Volta e meia parece que fica com um bocado de bronquite. Ela concordou que era capaz de ser boa ideia. Depois disse que, se calhar, também para mim, para relaxar músculos e afins. Fiquei a pensar nisso. Capaz de ser boa ideia, sim. Vou pensar nisso. Mas quando é que as termas voltarão a estar abertas? Uma seca isto da porcaria da covid.
Bem.
Já é domingo de Páscoa. Não me lembro como foi a Páscoa do ano passado. Mas também não me lembro como foi a Páscoa nos outros anos. Tanto faz.
Quero é que venha o bom tempo para podermos estar na rua. O que me chateia é a perspectiva de, mesmo ao ar livre, termos que andar de máscara. E a perspectiva de não poder agarrar-me aos meus meninos. Que saudades de lhes dar abraços a sério sempre que me apeteça, sem medo de ser contagiada, sem que o meu marido me recorde que devo ser mais cuidadosa. Domingo de Páscoa, na prática, é apenas mais um domingo. Estamos em Abril, o mês da esperança. E eu gostava que pudesse ser o mês da liberdade. Infelizmente ainda não descobriram o tratamento milagroso para nos libertarmos desse corona de uma figa. E essa é que é essa.
Pensavam que a Páscoa suculenta tinha a ver com gastronomia, não...? Lamento, não tem. Se o anho me correr bem, à noite logo conto como fiz. Agora, antes de o fazer, não faço ideia de como vai ser.
Por isso, a suculência tem a ver com a jardinagem de suculentas, essa coisa que, como li, anda a deixar a mulherada ao rubro. Pudera: florzinhas tão bonitas e gordinhas inspiram o lado maternal que há em nós. Hoje vou partilhar um dos muitos vídeos que há a explicar como se podem fazer coisas que vão para além de deixá-las em vasos a serem fofas como são.
Arranjos de Páscoa com suculentas
Se passar em um supermercado, esqueça a prateleira de ovinhos de páscoa e corra direto pra gôndola de suculentas. Nossa jardineira Carol Costa ensina neste vídeo como fazer arranjos de páscoa lindos usando mini cestinhas e suculentas. Sim, aquelas plantinhas gordinhas que você encontra em hipermercados, pet shops, home centers e, claro, gardens centers.
Pra que seu arranjo tenha bastante estilo e seja gracioso, não precisa de uma quantidade enorme de plantas. Nossa louca das plantas sugere três espécies de suculentas, a que tiver à mão, mas elas precisam ser diferentes entre si, tanto na altura, quanto nas cores e no formato.
Como materiais pro arranjo, cestinhas de vime servirão de recipiente pra plantar as suculentas e ainda dão aquela cara de utensílio onde o coelhinho da Páscoa carrega os ovinhos. Mas, a proposta é usar o que tem à mão: serve caminhõezinhos de brinquedo, taças, xícaras ou alguma tigelinha interessante. Pra proteger a cestinha e segurar o substrato, Carol a reveste com um pedaço de saco plástico.
De manhã o meu marido perguntou qual era o programa. Disse-lhe que era ir comprar suculentas e uma taça. Torceu-se, que me deixasse disso. Protestei: não basta não irmos a lado nenhum, ainda protesta quando quero fazer uma coisa de nada. Disse que não lhe apetecia usar máscara. Bela desculpa... Mas fomos. Gosto imenso de ir aos viveiros. Contudo, acho que só me satisfarei quando for sozinha. Aquilo é enorme, têm imensas plantas, algumas que desconheço. Ele fica impaciente quando me vê a cirandar. Quer que eu me limite a ver aquilo que quero e, depois de ter escolhido oq ue quero, acha que é pagar e desandar. Eu, por mim, ficava a ver tudo e mais alguma coisa e, se alguma coisa despertasse a minha atenção, não me faria rogada. Ele é o oposto. E tem sempre pressa mesmo que por nenhuma razão em particular.
Ainda me lembro de quando trabalhava num sítio no tempo em que havia telefonistas. Aquela telefonista era uma figura. Uma verdadeira Miss Piggy: baixa e bem fornecida, perna torneada, anca bem redonda, seios generosos sempre quase a saltarem dos indiscretos decotes, salto alto, cabelo aos cachos pintados de louro espalhados pelas costas. Ela gostava de mim e eu dela. Belas conversas que tínhamos. Metade do tempo eu estava de boca aberta e a outra metade a rir. Surpreendia-me com as suas revelações. Sabia de tudo. Não havia movimentações que lhe passassem despercebidas. Era telefonista e recepcionista em simultâneo. Era tão maliciosa, tão brejeira, tão atrevida que os homens até tinham medo das saídas dela. Mas falo dela pois naquela altura o meu marido, se queria falar comigo, passava por ela. Havia telemóveis mas devia ser para ocasiões especiais pois ele ligava para o geral e ela é que transferia a chamada para mim. Para gozar com as pressas dele, ela imitava-o. Não vou reproduzir na íntegra pois quase se limitava ao meu nome e não vou dizer aqui o meu nome mas era assim, a abrir: 'Nome Apelido, se faz favor', mas tão à pressa era que comia metade das sílabas. Ela contava que bem queria meter conversa, cumprimentá-lo, mas que ele não dava abébia. Quando eu lhe contavaele não ligava patavina e dizia: 'Ia pôr-me na conversa com ela...'. Não tem paciência para conversas. Bem o ouço nas suas reuniões habituais. Cumprimenta as pessoas assim: 'Está tudo bem, não está?' e passa à frente. Já lhe disse mil vezes para perguntar: 'Está tudo bem? e esperar pela resposta. Diz que não, não vá a resposta ser longa ou requerer comentário.
Portanto, lá fomos. Até não há muito eu desconhecia a designação 'suculentas' e confundia-as com cactos e, na minha cabeça, cactos eram aqueles bichos com folha gorda e picos, coisa imprópria para ter numa casa com crianças. Por isso, ignorava-as. Até que, há pouco, as descobri. E ando encantada. Já aqui tinha plantado quatro numa taça e tão bonitas elas se estão a fazer que fiquei com vontade de ter mais. No outro dia, quando fomos comprar um vaso de terracota, trouxe logo a taça à espera das plantinhas.
Uma tentação. Trouxe umas quatro de tamanhinho pequeno e depois descobri uns mini vasinhos com umas mini mini. Trouxe cinco dessas. Pensei que, assim, precisaria de outra taça. Só que as taças que tinha eram grandes demais. Vi um tabuleiro em cerâmica esmaltada em bordeaux mas pareceu-me baixo e, sobretudo, caro demais.
Pensei que este sábado iríamos à loja dos vasos. O meu marido detesta lá ir. Há sempre muita gente, uma certa confusão para estacionar. A caminho de casa, ele a dizer que não ia e eu a dizer que tínhamos que ir. E então diz ele: 'Vi lá uma taça redonda parecida com o tabuleiro'. Pedi que descrevesse. Pareceu-me bem. Então demos meia volta e voltámos. Afinal não gostei, era grande demais, achei deselegante. Pedi que desse a opinião sobre o tabuleiro. Como já estava impaciente e sobretudo não queria ir à loja dos vasos, trouxemo-lo.
A seguir ao almoço, estivemos no jardim ao sol, a conversar, a ouvir os pássaros.
Depois, estivemos a mudar os vasos. O tabuleiro é baixo, é usado para bonsais. Espero que não seja baixo demais para as minhas suculentinhas. Ficou em cima da mesa que está ao pé de dois cadeirões no terraço pequeno de lado. A outra taça ficou no chão, de um dos lados.
Gosto tanto de plantar, de regra, de aconchegar a terra às plantas...
Ao fim da tarde, veio a anterior proprietária. Estivemos a conversar. Estive a mostrar-lhe as suculentinhas. Gostou. Estivemos a ver as árvores, as flores. É um jardim romântico, disse ela. É isso. Nunca tinha pensado nesses termos mas é mesmo.
Para o jantar mandámos vir uma pizza feita em forno de lenha, daquelas de base fininha e estaladiça. O meu marido, lembrou-se das mostardas que a filha lhe tinha dado no cabaz de petiscos com que o presenteou pelos anos. Abrimos o da mostarda em grão. Óptima. Depois lembrou-se da compota de figo e vinho do Porto. Melhor ainda. Pus um pouco de cada no prato e passava cada bocado de pizza por ambos antes de o degustar. Delícia.
É o que ontem dizia: parece que estou de férias. Bem bom.
Não garanto que a a menina se chame Liu Shehan nem tenho a certeza que tenha seis anos. O que sei é que acho uma graça. Se gosto de ver dançar e se gosto de ver coisas insólitas, então esta criança faz-me ficar a olhar para ela com espanto e vontade de rir.
Costumo enternecer-me com as peripécias infantis mas neste caso não é exactamente ternura o que sinto ao vê-la, é mesmo isto de ficar a imaginar como será ela quando tiver malícia aprendida e não apenas a que nasceu com ela. A genica, o ritmo, a arte de pisar, as pausas, os meneios -- tudo nela é precoce e, ao mesmo tempo, divertido.
Sinto-me como se estivesse a entrar em férias. Mas, ao contrário do que acontecia antes em que estava sempre no ir, agora as férias são no ficar. E vamo-nos habituando a isso. Se pensamos em afastar-nos nem que seja um quase nada logo nos dissuadimos: ficamos por aqui, está bem assim.
Não são férias, é apenas um dia feriado a que se segue o fim de semana mas, da forma como têm corrido estes meus dias, um dia a mais de descanso vai saber-me que nem ginjas. Já aqui tenho para ler um relatório gigante mas, se bem me conheço, contrariada como me vou sentir por queimar umas horas do meu descanso, hei-de deixar para as últimas. E, até lá, hei-de andar a pensar que tenho aquilo para ler, anotar.
Tenho ali uma taça de barro à espera de umas suculentas. A ver se nos predispomos a ir comprá-las. Agora, para tudo, temos que vencer uma grande resistência.
A ver se podemos circular para irmos uns dias para o campo: temos que limpar o tojo e as silvas mas a roçadeira está avariada. Pelo menos, assim consta. Temos que pô-la a arranjar. Não podemos contratar ninguém para cortar nada. Não confio em ninguém para o fazer. Não quero que me destruam os orégãos que haverão de estar a nascer, o rosmaninho, o alecrim, a sálvia. Além disso, sabendo como sou, ninguém se arriscaria a ir para lá sabendo que certamente iria cortar alguma coisa indevida. É que isso, para mim, é crime imperdoável.
O meu marido não está muito para aí virado: todas as semanas marca presença no trabalho, não gosta de estar mais do que isso fora da vista da sua equipa. Por isso, não está virado para teletrabalhar a partir do campo. Eu não sou tanto assim, o contacto remoto já me parece normal. Mas de vez em quando também me dá vontade de estar com gente em carne e osso. É uma improdutividade dos diabos, transporte, conversa, conversa, conversa. E isto já para não falar no risco. Mas, enfim, estar em casa a trabalhar em contínuo, sem um tempo de conversa da treta, também não é saudável.
Portanto, a ver o que resolvemos.
E estou nisto como se não estivéssemos a entrar na Páscoa. Mas nunca consegui ligar à Páscoa. Sei que, para os católicos de gema, a Páscoa é um dos momentos mais importantes do ano, o momento em que celebram a esperança e o ressurgimento. Para mim não é assim. Para mim todos os dias são de esperança e renascimento. E nunca consegui perceber bem a lógica da ressurreição de Cristo, acho uma história marada. Não era importante inventar uma cena tão macabra para dizer que devemos acreditar que o bem e quem o faz vive no meio de nós. Acredito que o bem e quem o pratica vive no meio de nós. Como o mal e quem o faz. O mundo é um local perigoso com espaços e instantes de tranquilidade e paz. Não quero arranjar metáforas estranhas para o dizer.
Hoje senti a alegria dos dias estarem maiores. Depois da última reunião fui para o jardim. Sim, já há glicínias. São lindas, lindas. Sim. Uma maravilha. A cor suave, o perfume, o zumbido. Não as fotografei mas está prometido: vou fotografá-las para ver se a sua beleza chega até vós, em especial até si, Amofinado.
E há rosas. Mudam de cor, são umas rosas mutantes. Perfumadas de dar gosto. As que estão em volta da árvore grande são cor-de-rosa e outras, do mesmo pé, brancas.
No arco, tanto nascem amarelas como cor-de-rosa ou brancas. Também do mesmo pé. Incompreensivelmente nascem de cores diferentes e, não contentes com isso, mudam de um dia para outro. Uma realidade alternativa e fascinante. Fotografo-as, intrigada e encantada. Não encontro explicação. Depois penso nos meus filhos, tão diferentes um do outro. Se calhar com as rosas acontece o mesmo.
E, no canteiro, em frente da cozinha, há uma rosa caprichosa, carmim, sumptuosa. Tem um perfume requintado. Gostava de a apanhar para a cheirar mais vezes. No entanto, acho que devo respeitá-la e deixá-la estar assim, no jardim, perfeita e bela demais.
Sinto-me feliz ao andar a ver as flores. E há muitos passarinhos, muitos. Cantam, cantam. Encosto-me ao muro e fico a olhá-los, a ouvi-los.
Gostava de ter uma estufa com vasinhos. Gostava de ir lá para dentro, regá-los, arrancar as ervinhas. Aliás, enquanto ando cá fora, ando sempre a baixar-me para apanhar ervas daninhas. Só não apanho urtigas, essas bichas maldosas.
Hoje apanhei frésias. São lindas, perfumadas, delicadas. O bouquet de casamento da minha filha era de frésias. Apanhei uns pés e coloquei numa jarrinha pequenina que coloquei num parapeito. A ver se não me esqueço de fotografar. São de uma singeleza e harmonia que me fazem sentir agradecida por assistir a tamanha perfeição.
As árvores de fruta na horta estão floridas mas não consigo identificá-las. As nêsperas estão a ganhar corpo. Já não há laranjas. Há ainda umas quantas tangerinas mas estão tão altas que não temos conseguido apanhá-las. A ver se com um escadote se consegue. Já estão um bocado secas mas não me importo.
Já passa e bem da uma da manhã e não tenho assunto que se veja. Assim de repente, só se for isto de que vos vou falar, e é mesmo por desfastio, se é que me entendem.
O tema é que, vá lá saber porquê, o youtube agora deu em propor-me vídeos sobre a rotina diária de maquilhagem de algumas pessoas. Como fico curiosa, vou ver. Na verdade tenho esperança que apareça alguém com um truque mágico.
Eu, de manhã, depois de me lavar, ponho um hidratante anti-rugas próprio para o contorno dos olhos e outro que tal, mas sem essa especificidade ocular, no resto da cara. Produtos do supermercado, coisa para cinco euros cada embalagem. Se não tenho reunião, fico-me por aí. Se tenho, faço por caprichar no visual: faço um risco com eyeliner macio em tom de cinzento esverdeado na pálpebra superior e esbato. Ponho também um baton macio em tom framboesa soft e se, ao ver-me no ecrã do computador, me acho branca demais, levanto-me e ponho um bocado de baton sob as maçãs do rosto. Depois esbato com convicção e algum arrependimento não vá, do lado de lá, aparecer ridícula, com umas rosetas infantis. Portanto, verdade seja dita, capricho mas não muito...
Ou seja, fico sempre a pensar que deveria esmerar-me mais. Então, para ver se aprendo, vou ver os vídeos que o algoritmo me sugere. Começam sempre por dizer que têm uma rotina muito simples. Mas depois são dez ou mais minutos de vídeo em que começam com sérum, depois com outro sérum, depois uma base, depois um protector solar, depois um pó iluminador, depois um pó colorante, depois um creme nos olhos, depois mais outro, depois uma sombra, depois mais outra, depois um iluminador, depois um risco, depois uma sombra, depois um rímel, depois um hidratante nos lábios, depois uma base labial, depois um baton, depois um contornador, depois outra cor, depois um brilho. E eu chego ao fim e penso que tanto trabalho não é para mim. Mas gostava. Sobretudo gostava de me sentar numa cadeira, de preferência daquelas que dão massagens, e que me maquilhassem. Isso, sim, é que era.
Também há a rotina de desmaquilhar. Mas aí já não tenho sequer paciência para ver os vídeos. Eu o que faço é lavar a cara com água fria. Às vezes prendo o cabelo com uma mola e passo um creme de noite. Mas nem sempre. Se me lembrasse a tempo e horas, fazia isso bem antes de ir para a cama para dar tempo a absorver bem. Como geralmente não me lembro, não estou para ir para a cama com creme fresco, não vá sujar a almofada.
Por vezes, quando faço anos ou no natal, oferecem-me produtos bons. Acho que lhes faz impressão isto de eu usar cremes baratos, do supermercado. Fico contente, claro. Gosto de receber presentes, em especial se são coisas úteis e boas. Mas, para dizer a verdade, acho que os efeitos práticos são os mesmos. Penso que, essencialmente, o aspecto que a nossa pele tem resulta dos nossos genes e da vida que levamos. Acredito que quem bebe muito ou fuma muito tem isso reflectido na pele do rosto. Ou quem passa a vida ao sol ou em solários, parece que fica com a pele curtida. Mas quem tem uma vida relativamente saudável e tem genes normais terá, naturalmente, uma pele razoável. Nem boa nem má: normal. E, nesse capítulo, a normalidade não é necessariamente uma coisa má.
Conheço pessoas de cinquenta e poucos anos a quem não falta dinheiro para porem cremes de centenas de euros e que têm daquelas peles engelhadinhas que mais parecem uma renda. E conheço uma que, com cinquenta e tal anos e também dinheiro para se revestir a ouro todos os dias, o usa para se esticar para além do inimaginável. Penso que já o contei. Um amigo, algum tempo antes da pandemia, mostrava-me fotografias de um evento a que tinha ido. 'Olhe a mulher deste', 'Olhe bem como este está', 'Olhe como é simpática a mulher daquele'. Gostava deste género de fofoca, ele, e eu gosto de me rir. E, então, estando nisto, surpreende-me: 'Olhe a sua amiga...'. E eu, a olhar para a fotografia, sem reconhecer. 'Quem é?', eu, intrigada. E ele, a rir, 'Não me diga que não sabe quem é? Olhe bem... Não está a reconhecer...?'. Não, não estava. Então, com ar de gozo, disse-me quem era. Olhei e reolhei, aproximei-me da fotografia. Não reconhecia. Esticada, esticada, quase sem feições. Não sei quantas vezes já se esticou. Se não tivesse tanto dinheiro não estava sempre a caminho do Brasil para fazer aquele lindo serviço à cara. E fará os cremes e as bases e os betumes que ainda põe... Nem se percebe onde acabam os olhos e começa o nariz.
Bem. Sobre o tema das rotinas diárias e etc., é o que tenho a dizer.
Tenho ainda a dizer que também fiquei de boca aberta quando vi que Suzana Garcia, a comentadora with the big boobies, é a provável candidata do PSD à Câmara da Amadora. Não sei que competências a dita senhora tem para a função a não ser ser comentadeira televisiva, usar cabelos compridos pintados de louro e ter uns seios que farão qualquer interlocutor ter que fazer um grande esforço para não se pôr a olhar fixamente para aquele pornográfico exagero. Se se candidatar é capaz de ganhar porque o povão gosta mesmo é de votar em pessoas conhecidas da televisão; e, ademais, aquelas mamas prometem. Eu, se aqui me aparecesse o Fagundão a candidatar-se ao município onde voto, a ver se também não votava nele, ai não que não. Até ia distribuir canetas e sacos de plástico na caravana pedestre só para o ver mais de perto. Mas, claro, o Fagundão é brasileiro e vive no Brasil, não há como votar nele. Dos que aparecem agora por cá, não estou a ver nenhum que me levasse a fazer uma loucura. Só se fosse o Pedro Simas... Ah, sim, é ele candidatar-se por estas bandas a ver se não tem o meu voto garantido, ai não que não. Com sorte ainda me aplica uma vacina das boas, coisa state-of-the-art. Aplica-me a mim na qualidade de munícipe, claro; a mim e a todas as mulheres de bom gosto que se mudem para cá.
E é isto. Sobre o tema das municipais, a ver que mais mamalhudas o mangas-de-alpaca tem para tirar da cartola.
E, para terminar, a notícia mais estapafúrdia de todos os tempos. Lê-se e não se acredita. O mundo está a ficar quadrado? Em vez dos movimentos de rotação e translação, o planeta deu em andar aos saltos e às arrecuas? Só pode.
The former President of the United States, Donald Trump is now listed on 45office.com for people to book him or his wife, Melania Trump for personal appearances and greetings (...)
É a degradação da espécie levada ao limite do absurdo. Só falta mesmo o Cavaco e a sua Maria Cavaca passarem a oferecer os seus serviços para encomendarem as almas dos mortos (não sei se é assim que se diz) ou o Passos Coelho oferecer-se para montar cataventos ou exorcizar o diabo dos corpos dos possuídos.
______________________________________
Quanto ao Marcelo e ao seu tiro no pé (ou melhor, na Constituição) nada quero dizer. No melhor pano cai a nódoa. Toda a gente erra. Portanto, não vou chover no molhado. Mais do que arrependido já ele deve estar, certamente a ver como há-de sair desta argolada com um mínimo de dignidade. Portanto, nada mais vou acrescentar.