Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, abril 08, 2021

O admirável novo normal: mais natureza, mais robots, mais duros golpes

 

Um dia que acabou sombrio apesar do sol da tarde. Tento racionalizar: é apenas mais um. Mas sei que não é. Ninguém é.

A manhã foi complexa. Penso muitas vezes naquilo: é melhor ser amado ou ser temido? Apesar de não ser uma princesa, tento relembrar as observações ou conselhos. Aconselhei: guarde alguma distância, tem que conseguir ter amplitude de movimentos para decisões difíceis, não queira ser popular. No ecrã do computador vejo, em grande plano, o rosto daquele a quem exprimo o meu desagrado. Em ponto pequeno, em baixo, poderia ver o meu rosto. Mas não olhei. Por um lado, estava concentrada no que dizia e em ouvir e dirimir nos argumentos do outro lado e, por outro, não sei se é essa a minha face que mais gosto de ver. Talvez me assustasse, se me visse. Sei que o meu semblante não esconde o que sinto.

Aquele que durante anos foi o meu melhor amigo (e que apenas já não o é porque as circunstâncias profissionais e da vida nos afastaram geograficamente tanto que aquele contacto quotidiano se foi esbatendo) dizia, meio a brincar meio muito a sério, que eu, como adversária, era temível. E davam-lhe razão. Eu ouvia, divertida mas sem contestar. E lembro-me de um dia, em casa de amigos comuns, já há uns anos, um outro me ter perguntado de quem eu, na altura, dependia. Quando respondi, ele, o meu amigo, soltou uma gargalhada. Os outros voltaram-se para ele, tendo ele esclarecido a propósito do meu chefe de então: 'Ele pensa que manda nela. Mas mais ninguém acha isso, toda a gente acha que ela é que manda nele. Aliás, acho que ele próprio tem consciência disso.'. O meu marido ainda hoje, de vez em quando, me lembra isso como testemunho de que não acato ordens ou sigo orientações. Não é verdade. Acato, sigo. Mas apenas quando acho que fazem sentido. Mas, reconheço, tenho em mim uma natural tendência para ser eu a ditá-las. Não serei autoritária mas sei que, se vejo um caminho, não penso duas vezes antes de apontá-lo e, se alguma coisa não me parece bem, não consigo escondê-lo nem consigo enrolar a conversa ou dourar a pílula. Muitas vezes penso: 'bruta como as casas'. Mas, nessas situações, não sei ser de outra maneira.

Mas isso foi até à hora de almoço. Nessa altura, fizemos a nossa caminhada e, depois, almoçámos. A meio da tarde, num little break, fui plantar, no canteiro do pequeno varandim, umas plantinhas que tinha comprado no outro dia. Sardinheiras e umas outras que descaem e de que não fixei o nome. E outra coisa: naquela acção da distribuição de árvores, calharam-me não romãzeiras ou medronheiros mas três ciprestes e uma azinheira. Parece que nunca viram tanta procura de medronheiros. Trouxe, pois, quatro projectos de arvorezinhas. Pequeninas, um ou dois palminhos. Alertada para o irritado comentário do Leitor que, no outro dia, aqui dizia que nunca tinha visto tamanha ignorância, que plantar árvores nesta altura seria condená-las à morte, validei: 'E podem plantar-se agora? Têm que ser regadas, não...?'. O senhor esclareceu: 'Não plante na terra. Coloque-as num vaso e vá cuidando. No Outono, lá mais para Outubro, quando começarem as chuvas, muda-as para a terra'. E, portanto, assim fiz. O que eu gosto de fazer mudas de plantas, de mexer na terra, de regar, de observar o seu crescimento, de me deslumbrar com a sua beleza. Depois voltei ao trabalho. Uma tarde cheia de surpresas e quase todas negativas. Irritações, telefonemas. Até que, estando ao telefone com a minha filha, soube da notícia. À noite, na televisão, os testemunhos foram-se sucedendo. Emocionados, tomados pela surpresa e pela comoção. Estes tempos vão assim, inclementes, tantas vidas sendo ceifadas, tantos desgostos para quem fica.

Depois ainda outro telefonema. Estava a fazer o jantar. Queria saber como tinha sido. Escandalizado com o que contei. Que tínhamos que averiguar, ir até às últimas consequências. Por fim, já nos ríamos os dois a bom rir. Há coisas tão estupidamente escabrosas e parvas que, começando por nos chocar e irritar, acabam por nos dar uma irresistível vontade de rir. E foi ainda a rir que ajeitei o tacho com a janta.


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E, por falar em flores, as pinturas são de Georgia O'Keeffe. Lá em cima não posso dizer que o vídeo esteja pela música. Como é bom de ver, está pelas imagens do National Geographic: Time-Lapse: Watch Flowers Bloom Before Your Eyes

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E agora aquilo com que, para espairecer, me entretenho enquanto vejo o House: o maravilhoso e assustador mundo dos contrastes: natureza versus robots. Contudo, nem sempre, no fim, me sinta muito espairecida. O mundo vai divergindo e não sei como vai ser.

Growing a Greener World Episode 1111: Creating Paradise Through a Shared Passion for Gardening



Robots of the future at Boston Dynamics



Uma bela quinta-feira
Saúde. Sorte. Alegria. Afecto.

1 comentário:

Pôr do Sol disse...

A realidade é bem demolidora.

Fiquei triste. Sempre o considerei um politico decente. E mostrou-o bem. Agora que tinha tudo para viver a vida como queria, foi-se. Com tanto estafermo que por aqui anda e que deveria ir primeiro. A vida é injusta.

Vamos aproveitando esta primavera, mas parece ser de pouca dura. Prevê-se chuva para o fim de semana.

Continuação de boa semana