segunda-feira, março 08, 2021

A beleza dos cogumelos, a absurda flor pélvica da Cristina Ferreira e outras coisas pouco relacionadas

 


Quem me acompanhava antes desta segunda leva de confinamento sabe da minha paixão por aquela parcela de terra a que aqui chamo heaven. Tudo ali me fascina. De uma terra seca, coberta por pedras e mato rasteiro, transformámo-la numa terra fértil onde tudo medra e onde as árvores, que plantámos com cerca de palmo de tamanho, se tornaram altas e frondosas. A terra no inverno está coberta de folhagem húmida e musgo e dela brotam cogumelos de todas as cores, tamanhos e feitios. E eu, que me habituei a deslizar silenciosamente por aqueles caminhos, vou descobrindo pequenos seres que não são gente nem bicho nem flor e que nascem perfeitos, espantando as pedras que se afastam para os deixar exibir a sua glória de existir. Outros nascem dos troncos e parecem folhos delicadamente matizados, ornamentos perfeitos e inesperados. Sejam como forem e nasçam onde nascerem são sempre inesperadas aparições, milagres.

Agora, com o confinamento, com o teletrabalho e com a proibição de mudar de concelho entre a sexta ao fim do dia e a madrugada de domingo, não conseguimos lá ir com a frequência desejada. Por isso, não tenho podido assistir ao devir da natureza que sempre tanto me encanta. Na última vez que lá conseguimos ir, na terça-feira de carnaval, ainda havia cogumelos. Menos em quantidade e menos em exuberância mas sempre perfeitos e inexplicáveis. Parte considerável do imenso fascínio que sinto pela natureza tem a ver com a maravilha que são os líquenes, os cogumelos. 

Mesmo agora aqui, e isto aqui não é exactamente campo, ando atenta à terra, tentando descobrir alguns. E, para minha sorte e alegria, tenho descoberto uns quantos. Não são tão efusivos mas, ainda assim, são surpreendentes. Alguns parecem a madeira do tronco a que se encostam, outros parecem pequenas flores brancas, outros são tão discretos que mal se dá por eles. 

Tenho uma certa tendência natural para deixar a natureza escolher o seu destino e é isso que tem acontecido in heaven. O rosmaninho, o alecrim, os orégãos, as aroeiras tudo nasce por si e os perfumes propagam-se de uma maneira límpida. Isso não é compatível com este jardim que foi pensado, desenhado e alimentado para acolher espécies que são belas mas que se vê não serem espontâneas e onde os espaços estão harmoniosamente delimitados. Penso que um dia que tenha tempo, ou seja, que não esteja tão absorvida pelo trabalho, talvez comece por desconstruir um pouco a zona da horta para que, aí, a natureza possa ganhar algum espaço.

Quando penso nisso geralmente ocorre-me ter patos que andem livremente por ali. Julgo que isso também é incompatível com este espaço mas é uma coisa que me ocorre. Lembro-me de ser pequena e de andar a brincar com o meu grande amigo e ter como incumbência atribuída pela minha avó -- que, naquela altura, na casa em que vivia, tinha um espaço campestre em volta -- ir descobrir os ovos postos nesse dia. Era uma verdadeira caça ao tesouro. Que alegria sentia quando descobria um ovinho. Também me lembro de uma outra coisa. A minha avó também tinha uma grande capoeira, num lugar longe da casa, onde tinha perus. Enquanto os patos andavam à solta, tenho ideia que os perus, em regra, não. Não sei porquê mas acho que era assim. Lembro-me que a minha avó fazia umas papas para os perus. Apanhavam-se ervas, tenho ideia que urtigas, que eram migadas e misturadas com sêmeas e água. Ficava uma paga grossa que era levada aos perus. Aqui na horta, estão a nascer urtigas e eu penso que é pena não ter perus para as poder aproveitar.

E comecei a escrever isto pois vi um vídeo que me encantou. Já vos mostro. Mas, lá está, comecei nos cogumelos e já vou nos perus. E não é para falar numa receita de peru com cogumelos porque, se ainda fosse, talvez houvesse alguma lógica.

Mas adiante.

Sobre o meu dia apenas posso dizer que, por razões que não vêm ao caso, fui a casa de uma pessoa que mora perto de mim, uma pessoa muito simpática. Fui convidada e, porque gosto de ver outras casas, fui. Fui sozinha, claro. Por vezes fico surpreendida pois, em minha opinião, a casa não 'joga' com as pessoas que lá vivem. Mas, depois, pensando bem, uma casa nasce numas circunstâncias e com umas expectativas. Se as circunstâncias mudam e as expectativas se goram, as pessoas ficam a sentir-se peixe fora de água e é natural que percam parte da sua motivação. No fundo, sabem que ficam a viver uma situação transitória, a casa em que vivem já não as representa.

Tivemos também uma conversa remota com um simpático casal sobre umas ideias para uns arranjos que queremos fazer no jardim. Depois tive que ir fazer umas medições para ir ver a que distância fica a laranjeira da romãzeira. Tenho pena de sacrificar o que quer que seja e, às tantas, a equação fica impossível. O meu marido não é disso. Quando perguntei: 'E a laranjeira?', disse logo: 'Vai abaixo'. Não aceito isso assim, de mão beijada. As belas laranjas que ela dá são uma bênção. É uma coisa que tem que ser muito bem pensada. Mas já estava a anoitecer, estava um frio. A amplitude térmica está demais. Tanto frio.

Tirando isso, posso acrescentar que, porque a minha mãe me disse que ia começar um programa na TVI que talvez fosse bom, fui ver. E vi uma exibicionista Cristina Ferreira com um vestido inenarrável de mau gosto e despropósito, coisa como não há memória. De saia curta e perna aberta, uma flor disparatada à frente, um vestido que lhe acentuava o rabo -- tudo nela é mau gosto. Uma gaiteira. Quanto às gargalhadas e à boca escancarada acho que já nem vale a pena falar. Em frente de quem actuava, um painel de gente a dizer coisas parvas. O meu marido disse que era um big brother em versão musical. E tem razão, era o que parecia. Mudámos de canal, pois claro.

E, para finalizar, devo dizer que, sempre que escrevo um post destes, acho que o que estou a fazer é pura parvoíce. Bem podia fazer um post pequenino sobre cogumelos lindíssimos e sobre as saudades que tenho ir vê-los in heaven, outro sobre casas de pessoas a quem a vida trocou algumas voltas, outro sobre a ridícula, narcisista e kitsch desbocada da Malveira. Agora assim tudo misturado resulta numa miscelânea sem ponta por onde se pegue. Mas fazer o quê? Não me dá para planear ou fazer coisas com pés e cabeça: sou mais de me pôr para aqui a escrever e seja o que deus quiser ('seja o que deus quiser' que é como quem diz, claro, porque uma agnóstica invocar o sagrado nome de deus a propósito de coisa tão deslustrada também não faz qualquer sentido). 

Resumindo: calo-me já para não estragar ainda mais. E passo ao maravilhoso vídeo dos cogumelos.

Stephen Axford: How fungi changed my view of the world

Stephen Axford has a unique expertise in macro images and time-lapse photography of fungi. The beauty and scientific accuracy of Stephen’s fungi photography have captivated national and international media, fungi experts and the general public.


Desejo-vos uma boa semana.
Saúde. Ânimo. Boa disposição.

domingo, março 07, 2021

Um dia dedicado a montagens, a trabalhos esforçados e a suaves acalmias

 


Calorzinho, algum sol, tempo amável. Dia bom. Qualquer dia ainda começo a gostar de viver neste regime.

Acordei a ouvir barulhos não identificados. Geralmente acordo envolta em silêncio ou com passarinhos a cantarem na cameleira ou no beiral. Enfiei umas calças e uma blusa rápida e fui investigar. No terraço lateral, o meu marido tinha tirado da caixa umas mil pièces détachées e estava de joelhos, furioso, que não tinha paciência para aquilo, que aquilo era tudo uma porcaria, tudo mal feito, tudo mal explicado. E já estava de martelo em punho, não percebi a fazer o quê. Avisei-o que, se partisse aquilo, ia tudo à vida. Furioso, que não dissesse nada. Pedi que ficasse sossegado, que me deixasse lavar e tomar o pequeno almoço que já ia ajudar. Furioso, disse que achava que tinha colocado umas peças ao contrário e que agora não as conseguia desencaixar. Era nessa operação que estava de chave de fendas e martelo. Temi o pior. Se partisse algum bocado aquilo, o que faríamos? 

Lá fui à minha vida, inquieta. Mas, noblesse oblige, primeiro as minhas abluções matinais seguidas da minha fruta, kefir com frutos secos e um café longo. Só depois disso consigo funcionar.

Quando lá cheguei, já nem se podia falar com ele. Nestas ocasiões, é como se a culpa de tudo fosse minha, como se, ao encomendar online um par de cadeirões e uma mesa, fosse expectável que viesse tudo por montar e que montar fosse um quebra-cabeças. Claro que, na volta, algures na descrição do produto, deveria dizer que vinha desmontado. Mas quem ia imaginar tal coisa? Que os cadeirões poderiam vir desmanchados...?

Mas, então, com a minha calma, lá passei por cima daqueles desacatos e pus-me, em conjunto com ele, a tentar perceber o que se tinha passado para ver se conseguia ajudar. O manual, de facto -- e aí ele tinha razão -- era muito pouco explícito, nada a ver com os do ikea. Não percebi o que era suposto ter feito pelo que nem sequer concluía que aquelas peças estavam montadas ao contrário mas ele insistiu que, para prosseguir, as peças tinham que estar ao contrário. Olhei, olhei e fiquei na mesma.

Até que, não sei como, com uma pancada pela lateral, uma peça se soltou. Era o truque: uma simples pancada de desencaixe pela lateral. Começámos, então, do início, com calma. E percebemos que ele tinha feito outra coisa mal, não tinha seguido escrupulosamente a sequência indicada, embora o que ali estava fosse dúbio. Sou pouco dada a construções e pior ainda se há muitas peças quase iguais mas, de facto, todas diferentes e o manual é mal explicado.

Claro que, quando vi dois bocadinhos no chão e exclamei :'olha, conseguiste mesmo partir qualquer coisa!', ele disse que não, que um dos bocadinhos já vinha partido, que caiu quando tirou as peças da caixa, e que o outro nem sabia se fazia parte. Respondi: 'Deves estar a gozar'. Mas achei que não valia a pena, os bocadinhos eram ínfimos, nem se deveria notar, não justificavam um acareação.

A seguir, em equipa, tentando desvendar o sentido das coisas, um segurando, outro encaixando, sempre com aquele manual mal engendrado à vista, lá fomos entrando na lógica da coisa e dando conta do recado.

Já ali estão, bem bonitos. Já lá estive sentada. Bem agradável. Um recanto tranquilo e simpático. 

Claro que, nessa altura, a disposição da fera já estava um pouco melhor. Por isso, ousei: agora é o espelho. 

Não reagiu mal de todo mas que não, que estava era na hora de irmos caminhar, que estava era já com dores nas costas, que não sei quê, que não sei que mais. Fomos andar, na boa. Uma caminhada longa, bem disposta, um solzinho à maneira.

Quando chegámos, com calminha, com receio de estar a abusar da minha sorte, disse: 'Então, pronto, agora vamos pôr o espelho...'. E ele: 'Vamos...? Ou vou eu?'. Anuí: 'Sim, vais tu. Mas eu ajudo: digo onde é...'.

Tirei os dois quadrinhos que estavam naquela parede, disse onde era para pôr o espelho, ele fez os buracos na moldura e passou o arame para pendurar, furou e pendurou. Quando estava a bater em retirada, eu disse: 'Agora são os quadrinhos...'. Ele, deveras zangado: 'Olha, vai...'. Por acaso, não concluiu. Mas disse que não ia fazer mais buracos. E estava decidido e, pior ainda, cheio de fome. Eu disse que ia eu. Ele ficou furioso, que eu o pressiono, que o faço fazer o que ele não quer. Eu perguntei: 'Pressiono... eu? Então se estou a dizer que os ponho eu...?'. E ele: 'Pões, pões...'. Mas lá perguntou onde é que era para os pôr. E lá ficaram postos. Trabalhinho todo feito. 

O que me valeu é que já tinha o almoço pronto da véspera: iscas de cebolada, com batatinhas. Foi só aquecer.

A seguir ao almoço, fomos os dois para o jardim, apanhar sol. Levei um livro, Milena, para ler. Mas o sol estava de frente, não deu.

Depois ele foi para casa e eu fiquei. Resolvi, então, ir à horta buscar uns paus grandes com um V na ponta para segurar uns troncos grandes de um filodendro gigante que quase impede a nossa passagem. 

E tentei. Tentei arduamente. Mas os ramos são grossos e pesados e não conseguia segurá-los e ao mesmo tempo sustê-los com o pau. Então voltei a casa. Estava ele já deitado no sofá a ver futebol. Quando me viu, percebeu logo que euqueria qualquer coisa: 'O que é que foi agora?'. Disse: 'Estou ali a fazer uma coisa mas não tenho força, não consigo sozinha'. Levantou-se, irritado: 'Já estava aqui há dez minutos, de facto já era muito.'. Enquanto íamos, ia-se zangando: 'E estiveste a tentar tu levantar aquilo...? Se amanhã não te puderes mexer, não te admires'. 

E, a meias, lá tratámos do assunto, não sem que ele, no fim, tivesse tentado cortar muito mais do que as quatro big folhas que cortou. 

Depois de se ter ido embora, de novo por minha conta, fui ainda arranjar um esconderijo para os contentores de lixo. Podem não estar no sítio mais prático mas mal se vêem e, portanto, não são uma mancha estética naquele acesso lateral que quero ver mais desimpedida e com flores.


E depois fui apanhar tangerinas, fui apanhar pinhas e pu-las em volta de um tronco, e fui fazer fotografias, estas e mais um monte de outras, e fui falar à família e fui fazer chá e... assim foi passando o tempo nesta doce tranquilidade que o anúncio de primavera ainda torna mais aprazível.

E depois, à noite, a seguir ao jantar, pus-me para aqui na moleza, a dar-me o sono, a ver vídeos de casas, de jardins, de música, de entrevistas. 

Partilho um vídeo. É uma mulher de forte personalidade, ela, e, curiosamente, nesta altura da sua vida, ainda cheia de dúvidas e de vontade de descobrir novos interesses.


Marília Gabriela de frente com Lázaro Ramos | Espelho



A todos os que por aqui passam desejo um belo dia de domingo


sábado, março 06, 2021

Cenas, descasos, cansaços. Mitos. Deuses.

 



Estou aqui com o computador à minha frente há uma porção de tempo e cansada demais para puxar assunto. Vários problemas para resolver ao longo do dia. Por vezes cansa ter uma profissão que, em grande parte, consiste em resolver problemas: ou se vende menos do que se devia, ou há mais gastos do que se devia, ou há alguém a querer abandonar o barco e não queremos que isso aconteça, ou há alguém que queremos contratar e que não se decide a vir, ou há alguém que queríamos ver pelas costas mas que, em vez de sair pelo seu próprio pé, insiste em ficar a arranjar complicações. Claro que, pelo meio, há coisas boas. Mal fora. Mas, por vezes, tanta animação também cansa.

De vez em quando, saturada, aborreço-me. Não sei disfarçar. Sou áspera, dura, mostro escancaradamente a minha irritação. Acontece, por vezes, ao fim do dia, pensar que, se calhar, magoei alguém com as minhas reacções. Ou, quando me aparecem a falar no desagrado de alguém perante algumas decisões, acontece já não conseguir aturar mais chatice. Fico impaciente, digo que já chega, quem não estiver bem que se mude. Não estavam habituados. Durante muito tempo fizeram o que quiseram com os resultados que se viram; e agora, perante medidas duras, a ver se se consegue endireitar as coisas, sentem-se incomodados, não querem aceitar. Quantas vezes me ocorre: que se lixe, que vão ao fundo com o barco, se é isso que querem. Mas dura uma fracção de segundo -- logo reajo e vou à luta.

Hoje falaram-me numa pessoa que anda a ter problemas há vários anos, burnouts, depressões, baixas. Não reconhece que tem problemas, pensa que os outros é que a tratam mal e que não valorizam as suas qualidades. Na verdade, face a isto, ninguém a quer nas suas equipas pois não se pode contar com ela para nada. Tivemos agora a maior atenção tentando descobrir uma função em que pudesse sentir-se valorizada, função de pouca pressão, função que sentisse como um desafio. Aceitou, aparentemente sem problemas. Pois bem. Para meu espanto, agora apareceu a dizer que não aguenta mais, que nunca esperou que lhe fizessem isto, quer ir-se embora, acha que andou de cavalo para burro, que é demais, que não pode aceitar. E vieram contar-me isto como se fosse um caso perdido, que cenas destas já ela fez mais de cem vezes, sempre num desespero absoluto. E que pouco há mais a fazer se ela não reconhece que tem que se tratar. Mas aí fiquei a pensar: mas uma pessoa neste estado, vai para casa? Sem se tratar? Outro emprego dificilmente vai arranjar. A minha primeira reacção foi mandar tudo à fava, mandá-la a ela ir dar banho ao cão e deixar-nos em paz, que lhe fizessem as contas, se quer ir, já vai é tarde. A minha segunda reacção foi ficar passada com os que lhe dão ouvidos, os que alimentam tamanha pancada. Se lhe dissessem a verdade, as coisas como elas são em vez de andarem a dar troco... Mas a minha terceira reacção foi ficar preocupada, ligar a pedir que a convençam a aceitar apoio, a empresa suportará os custos. E agora estou aqui a pensar nisto. Não deve haver pior doença do que esta das pancadas depressivas. 

E isto tem-me ocupado a mente. Ocupado e cansado. Como se lida como uma pessoa assim? Não sei. Notoriamente, deveria tratar-se a sério, tratar-se até estar boa. Como é possível que uma pessoa assim não perceba que tem que procurar apoio? Como se faz para convencer uma pessoa assim a tratar-se?

Chegou, entretanto, o espelho que encomendei para colocar na salinha-biblioteca que está virada a norte e precisa de luz. Depois de ter estado mais de um mês à procura de um espelho bonito, simples, de bom tamanho e que merecesse o consenso entre ambos, eis que, semanas depois de o ter encomendado e dois dias antes da data de entrega, me ligam a dizer que está esgotado sem indicação de se volta a ser produzido. Portanto, depois de tanta escolha, veio outro qualquer, já não tive paciência para voltar a passar por novo processo de escolha. 

Chegou também, um dia depois, o conjunto de dois cadeirões e mesa para o terraço de onde tirei o vaso gigante. Pensei que iam chegar em má hora, logo debaixo de chuva. Mas eis que tocam à campainha e, quando vou ao portão, entra um brasileiro alto, espadaúdo e belo, com umas jardineiras em que uma das alças estava caída e que, por baixo, tinha uma tshirt de manga curta e com uma abertura, desabotoada à frente, e me pergunta onde deixa a caixa. E eu, hesitante, sem saber o que pensar de tudo aquilo, pergunto: 'A caixa...? Mas qual caixa...?' E ele, apontando a caixa que tinha pousado a seus pés: 'Esta'. Eu, lenta de raciocínio, 'Mas eu estou à espera é de uns cadeirões e de uma mesa'. Ele apontou o desenho que estava na caixa: 'Não é isto?'. E eu, duplamente estupefacta, tentando olhar para a caixa e não para ele: 'Mas vem desmontado?'. E ele, certamente pensando que há clientes burras demais: 'Deve vir'. Pois. 

Não é do ikea, se fosse eu esperaria que viesse tudo decomposto em partículas elementares. Mas, pelos vistos, virou moda. Claro que o meu marido, quando viu a caixa, antevendo que a coisa ia sobrar para ele, perguntou com ar de quem não queria acreditar: 'Isto são os cadeirões e a mesa que encomendaste...?' E vi que fez um ar quase ostensivamente contrariado.

E é isto. A ver se este sábado se pendura o espelho e se montam os cadeirões e a mesa. A ver se também venço o tédio e pego num livro. Talvez consiga disposição para ir arranjar a horta ou varrer o jardim. 

Tantas, tantas, tantas vezes desejei ter tempo, poder descansar, não ter afazeres, ter tempo para mim. E agora que o tenho fico sem saber o que fazer dele. Não estou mais descansada do que estava quando não tinha tempo para descansar. É estranho isto. Por vezes penso: será que as pessoas, quando deixam de trabalhar, ficam assim, desasadas, sem energia, sem saber o que fazer?

Enfim. 

E é isto. Nada mais a dizer.

_____________________________________________________________

Ponho-me a ouvir. Agora é Eduardo Galeano. Gosto de ouvi-lo.

Eduardo Galeano: Mitos, Dios


___________________________________________

As jarras provêm da Vogue e para o acompanhamento musical Mari & Hakon Samuelsen trazem Einaudi Divenire

___________________________________________

Desejo-vos um sábado feliz.
Saúde. Ânimo.

sexta-feira, março 05, 2021

Homens & Mulheres

 



Grande parte da minha vida profissional tem sido passada maioritariamente entre homens. Conheço bem a sua maneira de agir, em geral. Em lugares de gestão ou de poder, a larga maioria, a esmagadora maioria, é de homens. Durante muitos anos eu era a única mulher numa equipa de gestão totalmente masculina. Aliás, toda a sociedade foi, até há não muito, uma sociedade maioritariamente dominada por homens. Se calhar até deveria dizer: até aos dias de hoje. Basta ver a percentagem de mulheres que, por cá, já ocuparam os primeiros lugares da hierarquia de Estado. Se arredondar às unidades, zero. Na Igreja, então, o atraso de vida é ainda maior. Nas Forças Armadas, idem.

No entanto, tenho que reconhecer que, apesar de tudo, tem havido consideráveis avanços. Custa até pensar como, até não há muito, as mulheres não podiam votar ou careciam de autorização do marido para exercer direitos que hoje parecem básicos.

Mesmo se me situar no domínio das artes, ao longo dos tempos, quantas mulheres artistas ocultaram a sua identidade pois também não era aceitável que as mulheres pudessem ombrear com os homens na criação artística?

Como foi possível que os homens exercessem tão absurdo domínio durante séculos é enigma dificilmente explicável.

Com o pretexto da sua maior força física e com notável espírito de corpo, os homens blindaram todo o espaço que tinham ocupado recusando a entrada das mulheres. No fundo, os homens sentem-se intimidados perante as mulheres. Sentem-nas imprevisíveis, destemidas, versáteis, ousadas, persistentes, determinadas e sabem que, perante uma mulher desinibida e focada num objectivo, pouco podem. Temem-nas, não o duvido. Sabem que, além disso, as mulheres encerram mistérios, sabem de manhas ancestrais e sabem fazer uso de forças que lhes nascem das entranhas. Os homens temem as mulheres por tudo o que elas são.

Podem os homens, nos bastidores, fazer grupo, uns com os outros, fingir que desdenham delas, ensaiar ares de superioridade, gozar com o que dizem ser os seus humores ou hormonas. Mas é tudo disfarce. No fundo, sabem que jamais terão pior adversário do que uma mulher que lhes faça frente.

Pretextos, enredos, intrigas, tudo tem servido para manter as mulheres a bom recato, inofensivas à força. Quando penso que tempos houve em que o sangue menstrual era pensado como impuro, motivo de repulsa, motivo para o afastamento das mulheres... Como é possível? Impuro o sangue que sai do ventre de uma mulher? Como pode ser impuro? Quando penso que talvez ainda hoje se preterem mulheres para algumas funções por poderem ter filhos, afectando a sua produtividade... Como é possível...? Há lá mérito maior do que poder gerar uma vida? Como falar de improdutividade a propósito de alguém que produz uma vida? 

Só por ignorância, obscurantismo ou muito medo alguém pode pensar assim. 

Gostava de ainda poder ver, no meu País, uma mulher como Primeira-Ministra ou como Presidente da República. Ou, no mundo, uma mulher como Papisa, talvez não entre os luxos do Vaticano mas num lugar modesto.

O mundo seria um lugar tão mais de paz, tão melhor, haveria tanta mais criatividade e generosidade se houvesse mais mulheres em lugares de poder. 

Eu sei que a própria palavra 'poder' tem más conotações, como se fosse sinónimo de ganância, prepotência, nepotismo, coisas que tais. No masculino, de facto, muitas vezes é bem assim, Mas 'poder', no sentido que aqui refiro, significa apenas influir ou determinar o rumo das coisas. 

Por isso, foi com particular prazer que ouvi as palavras de Eduardo Galeano no vídeo abaixo. E a música que acompanha as palavras também é de se lhe prestar atenção.


La vida según Galeano



________________________________

Fotografias de Alba Yruela ao som de O viridissima virga, Hildegard Of Bingen

_______________________________

Uma boa sexta-feira.

quinta-feira, março 04, 2021

Paulina e Ric, a bela e o monstro ou uma história de amor e dinheiro

 

Só a conhecia de vista e, para dizer a verdade, já me tinha esquecido da sua existência. Não era a única naquela altura. Havia várias, todas fantásticas. Ia aparecendo mas não fazia parte das super cinco pelo que nunca lhe prestei muita atenção. 

Hoje apareceu-me um vídeo com ela. Tem agora cabelo grisalho e como, segundo diz, nunca foi operada ou, melhor, intervencionada, tem também algumas rugas e uma certa flacidez é também já evidente no seu belo rosto. As marcas do tempo não avançam apenas sobre as mulheres normais. Avançam sobre toda a gente. Por vezes, avançam de forma mais generosa, outras de forma mais inclemente. Fui ver a sua idade. Pois. Como haveria de estar ainda igual àquela jovem esbelta que me fazia lembrar a minha grande amiga Sílvia? Cabelo liso, nariz estreito e bem desenhado, lábios perfeitos. Era assim -- e ainda é, só que, agora, com a erosão que muita vida vivida fez nela. Num dos vídeos ela diz que ainda bem que está assim, com idade: significa que ainda não morreu. Exacto.

Depois de ver o vídeo fui informar-me. Ganhou milhões, foi capa de muitas revistas. E, como aconteceu com a minha amiga Sílvia, também ela caiu de amores como se não houvesse outros homens à superfície da terra, como se nunca tivesse havido paixão igual à dela, como se aquele homem fosse o mais belo, o mais amoroso, o único. Ou seja, sem pensar duas vezes, apaixonou-se por um homem mais velho e, como tantas vezes acontece às mulheres bonitas, com um homem que fisicamente não valia um caracol. Olha-se para a criatura e uma pessoa não percebe o que é que uma jovem tão bela e tão bem sucedida viu naquela coisa. Talvez fosse inteligente ou qualquer coisa mas, francamente, para o meu gosto até dói. Mas, enfim, as lentes do amor às vezes distorcem as imagens. E não me refiro apenas ao aspecto físico. 

Contudo, ao ter constatado o que lhe aconteceu depois de trinta e cinco anos de vida em conjunto, acredito que já caiu na real e que já mil vezes terá pensado: quem me mandou a mim embeiçar-me por uma tal estafermo? 

Ou não. Sabe-se lá. Segundo lhe ouvi, ainda não sabe se ele fez o que fez por pura maldade ou se por acto irreflectido.  

O que aconteceu, segundo ela conta, foi isto: nunca quis saber de gerir o seu próprio dinheiro, milhões. Confiava que ele, homem, mais velho, apaixonado por ela, trataria bem de tudo.

Até que todo esse tempo depois, trinta e cinco anos, separaram-se mas, porque, segundo ela diz, não imaginava a sua vida sem ele, continuaram a viver juntos. E a vida continuou normal. Começaram a tratar do divórcio. Mas sempre a viverem juntos. Até que ele adoeceu e, um dia, estranhando ele não se ter levantado, foi ver o que se passava. E deu com ele, morto. 

E aí a vida dela desabou. Ao terem decidido separar-se ele tinha feito testamento e, nesse testamento, ele deserdou-a. A razão terá sido que ela o tinha abandonado. Ela diz que nunca o abandonou, até porque ficaram a viver juntos até ao fim da vida dele e que o que aconteceu foi que, simplesmente, o casamento já não tinha significado. 

O que sucedeu, então, depois de ter ficado viúva? O óbvio: não tendo conta em seu nome, ela viu-se sem dinheiro. Teve que vender a casa em que tinha vivido toda a vida e, enquanto não se desfez dos seus haveres, viveu mal, viveu da generosidade alheia.

Agora, segundo percebo, está a refazer a sua vida. Mostra-se descomplexada, espontânea, bem humorada. 

E tem explicado, alto e bom som, que o que fez foi pura estupidez: pensava que amor e dinheiro não se misturavam, achava que estabelecer regras sobre o dinheiro era coisa pouco romântica. Achava que querer acautelar a sua situação poderia ser visto como mostrar ao marido, Ric Ocasek, membro dos The Cars, que desconfiava dele ou que tencionava deixá-lo. Não quis que ele sequer pudesse suspeitar de coisa tão infundamentada. Confiou que a união entre ambos seria para sempre. Confiou que jamais haveria problema. Acreditou que confiança era sinónimo de não ser preciso precaver-se. 

A gente pensa que burrice assim só acontece com gente burra. Mas não. Pelo que vê, burrice acontece com toda a gente. Uma mulher bem sucedida deixar que o dinheiro que ganha seja integralmente gerido pelo marido, que vá para a conta do marido e que dessa conta ele faça o que quiser é coisa que não lembra ao careca. Mas lembrou à bela Paulina Porizkova.

Se o que ela agora tem contado pode servir de aprendizagem a algumas incautas mulheres só é de louvar que fale.

E eu que, aqui enfiada em casa, pouco tenho que contar e que das notícias pouco vejo que me mereça proseado nocturno, aqui deixo nota de tema que, apesar de poder parecer coisa de antanho, é bem capaz de ser coisa que ainda acontece nestes dias de hoje, dias não menos estúpidos do que quaisquer outros.

____________________


Paulina e o orgulho na sua idade. 

Aos 55 anos despe-se para apoiar Elizabeth Hurley que foi criticada por posar quase nua aos 55 anos. E, como a bela Liz, também Paulina foi criticada. As redes sociais caíram-lhe em cima a pés juntos. Diz ela: nunca me criticaram por me despir para as câmaras quando era nova, agora todos me criticam. E sorri, orgulhosa do seu corpo.

E dá conselhos sobre como bem aceitar a idade que se tem


Um dia feliz a todos, novos ou velhos, feios ou bonitos.


quarta-feira, março 03, 2021

Velharias e outras coisas do Olano, culinária, pássaros esvoaçantes e um jasmim escorraçado

 


Mais um dia em que o pé fora de casa foi apenas para caminhar a meio do dia e, de quando em quando, ao atender uma chamada, ir até ao jardim. Tirando isso: reuniões, telefonemas, análise de documentos, mails e mais mails. 

Uma vida assim. E, apesar de tudo, os telefonemas de trabalho foram até às sete e tal da tarde. Não me parece normal. Horas e mais horas de trabalho. Acho que vou ter que me sindicalizar. Ou ir ao psiquiatra -- porque ninguém normal, sendo dona e senhora do seu horário e estando em sua casa, fica assim tão refém do seu trabalho. Chega a ser ridículo, acho eu.

Bem. Adiante.

O almoço foi sopa e o que ainda havia de arroz de tomate, pimento e salmão do outro dia. 

Fiz o arroz assim:

Num tacho coloquei azeite a cobrir o fundo, duas cebolas grandes grosseiramente cortadas e um bocadinho de bacon cortados aos cubinhos. Depois de tudo alouradinho, juntei duas folhas de louro, uma quantidade generosa de salsa e um alho francês, a parte branca, aos bocados. Depois, quatro tomates grandes e maduros e dois pimentos daqueles pequenos e bicudos, encarnadinhos. Deixei amolecer. Quando amolecido, juntei dois copos de água. Juntei feijão verde às ripinhas fininhas. Deixei ferver. Juntei um pouco de sal e um copo de arroz basmati. Envolvi com os legumes meio desfeitos. Por cima, coloquei três lombos de salmão. Quando ferveu, baixei o lume. Antes de concluído, envolvi o peixe no arroz. O tacho tapado, claro. Quando o caldo começou a escassear, desliguei. Ficou a apurar.

Estava bem bom (modéstia à parte). Acompanhámos com salada de alface, cenoura e couve roxa.

De manhã, tinha deixado a descongelar uns peitos de frango. Depois de almoço, fiz o jantar. O meu marido perguntou: 'Como é que vais fazer?' e eu disse a verdade: 'Não sei'. Quando já estava ao lume, voltou a perguntar: 'Então, afinal, como é que estás a fazer?' e voltei a responder: 'Não sei dizer, estou ainda a fazer'. Ele não insistiu pois sabia que eu não sabia mesmo.

Nos meus cozinhados uso sempre muita cebola. Gosto, acho que dá bom paladar. Então, fiz assim:

No tacho, o tal fio de azeite no fundo e duas cebolas grandes aos bocados e também umas folhas de louro e também salsa. Uso os ingredientes que tenho em casa que não são muito variados. E estes tento ter sempre. Quando tudo estava ligeiramente amolecido, juntei dois tomates também aos bocados e coloquei por cima os peitos de frango um pouco abertos para não ficarem excessivamente secos. Coloquei um pouco de sal e por cima coloquei duas maçã royal gala não muito grandes, aos bocados. E, ainda, a parte branca de um alho francês. Coroei com mais um fio de azeite. Quando ouvi que tinha começado a ferver, baixei e, com o lume no mínimo, o tacho sempre tapado, ali ficou. Passado um bocado, virei os peitos de frango mas virei só porque sim pois já estavam imersos no caldo que se formou. 

Quando percebi que a carne estava cozinhada, desliguei. Passado um bocado, tudo isto entre reuniões ou telefonemas, tirei a carne para um prato e recuperei o louro para o deitar fora. Com a varinha mágica, moí todo o caldo. Ficou um molho espesso, quase uma papa. Inseri, então, os peitos de frango nesse molho e ali ficou a apurar. 

Antes de jantar, depois de falar com a minha mãe e com a minha filha, fiz o acompanhamento. Fervi água. Num recipiente, coloquei couscous (têm que ser de boa qualidade) e reguei-os com um fio de azeite e salpiquei-os com orégãos e um pouco de sal. Por cima, deitei a água que quase tinha fervido. Mexi com um garfo. Passado um bocado, voltei a mexer.

Tive que aquecer o frango antes de servir. Empratei assim: os couscous em volta, como uma coroa. A meio a carne com o molho. De volta, alface. 

Devo dizer que o meu marido -- que estava altamente céptico pois não estava a ver como é que um molho no qual estavam contidas duas maçãs e mais dois tomates, cebolas, alho francês e salsa poderia ser bom -- comeu, repetiu e molhou pão e mais pão no molho. Só lhe faltou fazer sopinhas de pão. Perguntei-lhe: 'Então?' e ele disse: 'Está bom. Reconheço'. 

Pelo menos, acho que faço comida saudável, sem frituras, sem molhos repuxados ou meio queimados. Tudo simples, as proteínas sempre com legumes, tudo cozinhado a baixas temperaturas. E acompanhamos com saladas, comemos fruta, comemos geralmente uma sopa por dia. 

E mais...?

Só se for que, ao fim da tarde, enquanto andava a falar ao telefone, apanhei uns ramos de jasmim. Depois fui à vitrina, peguei numa jarrinha pequena de cristal, enchi-a de água e coloquei as flores. Coloquei-a no aparador da copa e voltei à rua. Às tantas, vi o meu marido, em língua gestual, a querer dizer-me qualquer coisa. Aproximei-me. Estava a apontar para um vaso. Olhei e só não soltei uma interjeição, alto e bom som, pois estava ao telefone. Tinha posto a bela jarrinha de cristal com uns perfumados pés de jasmim em cima da terra de um vaso. Disse-me: 'Tem um cheiro que não se aguenta'. Quando acabou o telefonema tentei negociar: ponho-a na escrivaninha, ponho no andar de cima, ponho no móvel do corredor. Não aceitou nenhuma hipótese: 'Tresanda. Nem penses em pôr aquilo dentro de casa'. Fiquei desolada. Agora está em cima da mesa de vidro que está sob o telheiro.

Hoje o meu marido viu o gato preto em cima dessa mesa, a olhar para dentro de casa. Chamou-me. Um gato esfíngico, negro e de belos olhos verdes. Fui a correr buscar a máquina mas, quando me aproximei, saltou e fugiu (refiro-me ao gato). Portanto, a ver se amanhã a minha jarrinha ainda está inteira, em cima da mesa.

E, tirando estas coisas de nada, que mais posso dizer? Não sei. Acho que nada. Os meus dias correm assim, sem história. 

__________________________________________________

Ontem descobri aquele rapaz dado a decorações. E eu tenho mais paciência para conversas destas do que para comentário político esquentado e requentado ou para jornalistas-dominatrixes que acham que, já que apanharam uma ministra à frente, têm o direito de acusar, insinuar, duvidar, tentar apanhar em falso. Não aguento. Para peditório revertendo para gente prepotente e estúpida eu já dei. Prefiro disto: o Arvin Olano até olha para livro como bibelot -- o verde lindo da capa, o dourado que dá tanto glamour. E eu isso perdoo. O que não perdoo é gente parva, populistas, justiceiros, cagões. Tudo menos isso. Ouço o Olano e farto-me de rir. Se fosse ao vivo, adoraria ouvi-lo em directo e a cores ou ir às compras com ele. Haveria de andar sempre a rir. No meio de coisas acertadas (acertadas dentro do género, claro), há com cada maluqueira... 

E eu, tal como ele, também gosto de andar a ver velharias. Tenho na minha casa in heaven algumas peças adquiridas assim. Fascinam-me. Por vezes, quando morava mesmo na cidade, ia a um antiquário que tinha pinturas, porcelanas, livros, móveis, estatuetas, caixinhas, molduras. Ficava por lá, sempre tentada a trazer peças únicas. O meu marido recusava-se, dizia que não suportava aquele cheiro a mofo. Melhor para mim: podia ver as coisas com mais vagar. Mas já não tenho onde meter mais coisas, ainda por cima agora que estou a virar minimalista. Já pensei arranjar um barracão e transformá-lo em museu e, assim, já teria onde ter peças que me acho que merecem ser estimadas.

Custa-me muito ver peças que se vê que foram escolhidas e guardadas com carinho pelos seus donos e que, por qualquer fatalidade, acabam assim, tantas vezes amontoadas, entre restos de outras vidas, tristemente à procura de novo dono. 

Penso muitas vezes que, se calhar, assim acabarão um dia as minhas coisas. E não será por mal ou descaso, será porque não terão onde ser guardadas ou porque são coisas de um género que não tem cabimento no meio de outros estilos. E, até por isso, para não criar mais problemas futuros, acho que não devo adquirir mais nada. Mas, confesso, fico com pena de já não ter qualquer incentivo a ir visitar antiquários. Portanto, contento-me em ver o Olano a cirandar por entre objectos vintage, em imaginar como uma daquelas cadeiras de madeira suave e antiga poderia ficar bem aqui ao pé de mim.

_______________________________________

Fotografias feitas hoje aqui em casa, enquanto andava a telefonar.

(Será que voltarei a ser capaz de estar fechada numa torre de vidro, sem ter flores ou pássaros para fotografar enquanto trabalho...? Duvido...

___________________________________________________________

Desejo-vos um bom dia.

Saúde. Sorrisos.

terça-feira, março 02, 2021

Depois de um dia banal, mais um, conselhos de decoração: os piores erros, o que é preciso parar de fazer

 


Bom. Dia nem sim nem sopas. Aliás: sopa, sim. Logo de manhã, antes do expediente, fiz uma suculenta sopa. Base que depois de cozida, moo: courgette, abóbora, cenoura, cebola, chuchu, nabo e, claro, como um certo crazy guy uma vez me ensinou, uma maçã. Confirmo: faz toda a diferença. Às vezes até ponho duas para que a diferença seja ainda maior. Com casca. Só lhe tiro o pé e as sementes. Depois retiro parte do caldo e nele, noutro tachinho,  cozo feijão verde aos bocadinhos e, quando estou quase a retirar, espinafres. No fim, antes de moer a base, junto generoso fio de azeite. A base moída, junto o feijão verde e os espinafres.

Depois desta obrigação, fui às restantes. 

Assustou-me um bocado começar a semana no dia 1 e logo um mês tão comprido. Gosto de meses que começam a uma sexta feira para, na segunda seguinte, o mês já ir com algum avanço. É absurdo, bem sei. Contraproducente. Despachar o mês para quê? Não faz sentido. Mas aconteceu-me pensar nisso com susto. Dei até por mim a contar os meses que faltam até ao verão. Tanta coisa para fazer em tão pouco tempo e eu a começar a semana a pensar em férias. Logo a seguir, ligou-me um jovem muito motivado, transbordante de energia. Tive que esconder o que me ia na alma para tentar estar à altura da sua garra.

Antes da caminhada do almoço, fui despejar as cascas dos legumes usados na sopa no lugar da compostagem na horta. Mas, porque mulher prevenida vale por duas, peguei na máquina e, de caminho, fui cheirar o jasmim e as rosas. E fotografar as rosas. Eram encarnadas, dantes. Sempre foram, diz a anterior proprietária que ainda não acredita em milagres. Agora são multicores. Uma loucura. Amarelas, lindas. Cor-de-rosa. Uma quase branca. E tão perfumadas que mal consigo deixar de cheirá-las. Um encantamento e, pelos vistos, um milagre.

Na horta uma flor branca, imaculada. E uma árvore toda em flor. Será macieira? Não sei. Mas umas florzinhas virgens e radiantes. Fotografei, maravilhada. Andavam abelhas em volta. Ainda consegui apanhar parte de uma. Cherchez l'abeille.

O almoço foi uma tigela de sopa e uma sandes com isca que tinham sobrado do outro dia. Pão quentinho, isca quentinha. E alface e rúcula dentro da sandes. De trás da orelha. No fim, laranja fresca e doce, a seiva ainda vibrante, viva. Para terminar ainda melhor, um little quadrado de chocolate preto.

A tarde foi de reuniões e telefonemas. 

Combinámos não arranjar compromisso para o fim da tarde. E cumprimos. Assim, mal nos despachámos, fomos ao supermercado. Dizia-me ele: despacha-te para ver se não apanhamos lá muita gente. Há algum tempo que não íamos. E o que tenho a dizer é que, uma vez mais, fiquei beige. Muita impressão me fez: muita gente. Tudo de máscara mas já sem que ninguém se desviasse de quem quer que fosse. Estava à procura de kefir e com uma pessoa a estibordo, outra a bombordo, mas mesmo a rasar. Só não fui abalroada porque sou velejadora atenta. Estava a escolher o pão e havia gente à ré e gente a querer pôr-se à proa. Tudo a poucos centímetros. Muita impressão. Não sei o que deu naquela gente toda. Já ninguém guarda distância. Tudo alegre, falando alto, chamando uns pelos outros. Já lá vai o tempo em que nos supermercados quase não havia ninguém, todos fugindo uns dos outros. Qualquer dia chego lá e já andam todos sem máscara, aos beijinhos e abraços. Será que acabou a covid e eu não sei?

Lá viemos com as nossas coisas. Aqui chegados, lavámos, limpámos, separámos, arrumámos. E, mal me vi livre dessa faena, peguei na máquina fotográfica e fui para a rua. Claro que o jardim já estava envolto em penumbra e frio. Ainda hesitei. Não quis reentrar para ir buscar um casaco senão ia perder tempo e quando voltasse já estaria noite-noite. Portanto, aguentei firme. Em momentos assim penso que o frio é psicológico.

Acabei por falar com a minha filha. A noite já pousada nas árvores, nos arbustos. Ainda pensei ligar, de seguida, à minha mãe. Mas impossível. Já estava a enrelejar. Até espirrei. Portanto, foi já em casa que falei com ela. O meu filho só ligou depois de jantar. Tudo de boa saúde, nas suas vidas. E isso é que é preciso. 
Não contei que, no sábado, tivemos calls com todos, os meninos crescidos, bem dispostos. E a minha mãe, milagre!, já a entrar à primeira. Agora as dúvidas concentram-se no telemóvel. É novo, mais sofisticado. Então, estranha tudo. O bisneto mais velho partilhou  a sessão e deu-lhe uma aula. Não sei se ela assimilou pois as tecnologias servem para a baralhar. Diz ela.

Foi assim este meu dia. 

Ah, já me esquecia. Quando tinha o cabelo molhado, de manhã, pensei que devia cortá-lo. Mas, com a preocupação de fazer a sopa, esqueci-me. Quando, mais tarde, passei em frente de um espelho desgostei-me: já estava seco e nitidamente comprido demais. Com a juba seca fica difícil mas não estive para me despir e voltar a molhar o cabelo. Fui buscar a tesoura grande da costura e foi assim mesmo, a olho, a eito. Talvez uns quatro dedos de altura. Custou: muito atrito. A tesoura não deve estar especialmente afiada e o cabelo seco apresenta um volume indomável. Mas nada que não se resolvesse em três tempos. Agora já me sinto mais leve. 

Se calhar estou a precisar de férias. No verão quase não tive férias. E se o ano passado foi dureza... Entre o natal e o ano novo não tive férias. Mas férias sem mudar de sítio serão férias? Penso que não. Portanto mais vale não pensar nisso.

Penso antes em pinturas e remodelações na casa in heaven. A minha filha tinha dito que o primeiro passo seria tirar a overdose de coisas que estão na zona da lareira. Há livros, há esculturinhas, velas. Sobretudo, livros. Se calhar terei que aliviar a concentração de livros que por ali há. Mas não sei onde colocá-los. Se calhar terei que trazer alguns para cá. 

Ah, ainda outra coisa: acho que o ninho das andorinhas ainda está vazio. Já o mostrei? Não me lembro. Quando será que elas vêm? E... se não vierem? Serão sempre as mesmas, ano após ano? Andorinhas já velhas voando por aí em busca de ninhos que ficam vazios durante meses, esperando que regressem. Será?

Bom. Voltando ao tema. Nisto de ver decorações, apareceu-me um vídeo que a-do-rei... A-do-rei!

A minha filha vai ficar cheia de prosa: é o que eu digo... é o que eu digo...

A palavra a Arvin Olano:


10 things you should stop doing to your house | the worst interior design mistakes



STOP THIS! 

1. Mirrors that look like windows
2. Matchy matchy accent colors
3. Copying showrooms
4. Too much texture
5. Painted arches
6. Over decorating
7. Themed rooms
8. Artificial scents
9. Crowded sofas
10. Wrong size rugs

Conselhos mais sábios. Muitos já estou a seguir. Outros estou quase.

____________________________________________________________

Desejo-vos um dia feliz

Saúde. Amor. 
Melhores dias virão.

segunda-feira, março 01, 2021

O que é preciso para se ser feliz?

 


Foi mais um domingo. Teve, contudo, um elemento altamente diferenciador: foi o primeiro último domingo de Fevereiro em confinamento. Não sei se haverá segundo. Espero que não mas, lá dizia o outro, nunca digas nunca.

Quando fomos fazer a nossa caminhada diária deparámo-nos com uma situação que nos deu ideias. Aliás, já andávamos a prevê-la e o meu marido já tinha tido a ideia. Na altura, não a acolhi favoravelmente. Zero. Rejeitei liminarmente. Hoje, ao ver a concretização da suposição, admiti como possível embora com muitas, muitas reservas. Fotografei, partilhei, ou seja, enviei por mensagem. Em parte foi acolhida, em parte desacolhida. 

É daquelas coisas que a razão desacolhe e a emoção acolhe. Mas, mesmo no domínio da emoção, há lugar para a razão e a razão alerta para tantos escolhos que não sei se a emoção sobrevive. Muitos mixed feelings and mixed thoughts. O extraordinário disto é que, ao contrário do que sempre acontece, desta vez é o meu marido que mais puxa e empurra; e isso é muito estranho. Fico ainda mais confusa.

Em alturas assim, congelo as ideias pois geralmente o tempo encarrega-se de desambiguar as situações nebulosas. Não vale a pena fazer análises swot pois, algures, do nada, algo fará acender a luz.

Tirando isso, foi um dia tranquilo. 

No entanto, tenho saudades. Saudades de pessoas, de lugares, de momentos. Mas a gente habitua-se a tudo até a conviver bem com as saudades.

E, portanto, com as saudades arrumadas e aconchegadas dentro de mim, entreguei-me às pequenas coisas do dia a dia. Cozinhei, fotografei, li, sentei-me ao sol. Só os dois, pouco desarrumamos ou sujamos. Pouco há que fazer. E, portanto, pouco ou nada há a reportar. 

Falei ao telefone. De um lado ouvi argumentos a favor, de outro argumentos contra e de um outro argumentos que nem sim nem não antes pelo contrário. Chegaram mails de trabalho mas forcei-me a não os ver. Esta situação de haver muito tempo livre pode levar-nos a ocupá-lo com trabalho profissional. E isso não. Preciso de ter algum equilíbrio. Penso que todos o precisamos embora nem todos o consigam e, porque ainda o vou conseguindo, sinto-me reconhecida e privilegiada.

Não estando já tanto frio e não havendo chuva, ouvem-se crianças a passar na rua. Umass vão a pé, outras de bicicleta, triciclo ou, até, trotineta. Quando fazem mais barulho, os cães das casas por onde passam achegam-se a ladrar. 

Continuei a olhar para as árvores a ver se descobria pássaros para os fotografar mas não consegui. Não que não os visse mas ou tinham ramos pela frente e era difícil focá-los ou, quando o conseguia, já eles iam atrás de outro rabo de penas, voando alegremente para outro poleiro. Sigo-os pelo canto: cantam, cantam. Encosto-me ao muro e fico a ouvi-los e a vê-los. Cada vez os descubro com maior facilidade. Talvez um destes dias também eu consiga voar pelo meio das árvores.

Ao fim do dia fiz o post abaixo no qual transcrevi um excerto de uma das cartas de Rainer Maria Rilke. Pensei: hoje não escrevo mais nada. Para quê? E assim fiquei, decidida. Pus-me a ler. Até me ocorreu ir buscar um tapete de Arraiolos para recomeçar a fazer. Depois comecei a ver vídeos sobre a vida no campo. Distraí-me. Fui vendo. E distraí-me tanto que, ao acabar de ver o que aqui partilho, um vídeo bastante interessante sobre a qualidade de vida e a felicidade, sem me aperceber do que estava a fazer, desatei a escrever isto. Não tenho emenda. 

Será que escrevo para ser feliz? Ou escrevo porque sou feliz?

(Não sei)


What does it take to be happy? The Nordic countries seem to have it all figured out. Finland and Denmark have consistently topped the United Nations’ most prestigious index, The World Happiness Report, in all six areas of life satisfaction: income, healthy life expectancy, social support, freedom, trust and generosity.

Each year, a group of happiness experts from around the globe rank 156 countries based on how “happy” citizens are, and they publish their findings in the World Happiness Report. Happiness might seem like an elusive concept to quantify, but there is a science to it.

When researchers talk about “happiness,” they’re referring to “satisfaction with the way one’s life is going,” Jeff Sachs, co-creator of the World Happiness Report and a professor at Columbia University, tells CNBC Make It.

“It’s not primarily a measure of whether one laughed or smiled yesterday, but how one feels about the course of one’s life,” he says.

Why Finland And Denmark Are Happier Than The U.S.?




As fotografias, como dá para perceber, são obra minha, cá em casa.

Mirrors é de Max Richter e o respectivo vídeo de Yulia Mahr

___________________________________________________________

Uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.
Saúde. Alegria. Esperança. 

Acredite num amor que está guardado para si como uma herança

 


Numa ideia criadora revivem milhares de noites de amor esquecidas que a enchem de nobreza e de altura. E os que se unem na noite e se enlaçam numa volúpia embaladora, fazem obra séria e acumulam doçuras, força e profundidade para o canto de qualquer poeta que há-de vir, que se erguerá para dizer delícias indizíveis. E convocam o futuro; e se também errarem e se abraçarem às cegas, o futuro vem na mesma, levanta-se um homem novo e, no terreno do acaso que aqui parece realizado, desperta a lei que impele uma semente forte e resistente para o óvulo que se abre ao seu encontro. Não se deixe iludir pelas superfícies; nas profundezas tudo se torna lei. 



_____________________________________________

O pequeno texto é um excerto da carta de Rainer Maria Rilke a Franz Kappus datada de 16 de Julho de 1903. Da mesma carta foi extraído o título deste post.

Fotografias feitas hoje cá em casa

Maria Callas interpreta Madame Butterfly de Puccini 

O Segredo de Maria Teresa Horta é dito por Pedro Lamares

_____________________________________________