quarta-feira, maio 09, 2012

Vida nova, casa nova


Música, por favor

Katie Melua - The closest ting to crazy



No dia em que chegou, depois de ter recebido a informação de que o dono tinha aceitado a contraproposta e de, nesse mesmo dia, ter obtido a chave, Ana tratou do abastecimento de gás, água, electricidade, comprou alguns electrodomésticos. No dia seguinte comprou também lençóis, um édredon, toalhas turcas, alguma louça e talheres, produtos de higiene e limpeza. A cidade era pequena, tudo muito perto umas coisas das outras e Ana também não perdeu tempo com escolhas. Chegava, pedia para ver e, em poucos minutos, estava decidido. Durante uns dias, até que tudo estivesse operacionalizado, ficou hospedada numa residencial. E todos os dias, quando saía da oficina, ia para casa limpar, esfregar, lavar, arrumar. Estava sozinha, e aparentemente sem grande esforço, a tratar da sua nova casa.

Pediu autorização para restaurar a seu gosto os móveis e o dono, alguém de idade que vivia noutra cidade, disse que fizesse o que quisesse. Então Ana comprou lixas, tintas, pincéis. Ao interrogar o empregado sobre as técnicas de pintura, ele estranhou: ‘Mas é a senhora que vai fazer o trabalho…?’. Ana disse que sim, a menos que ele a quisesse ajudar. O rapaz não estava à espera, ficou sem palavras, até corou. Ela disse-lhe que, se ele quisesse, o contrataria e pagaria um tanto por hora. O rapaz, atrapalhado, disse que nunca tinha feito isso mas, envergonhado para negar ajuda a uma senhora e também na perspectiva de ir ganhar um extra, aceitou. E, então, depois da 7 da tarde, lá estavam os dois a lixar, a pintar, no maior espírito de equipa. Pintaram as mobílias de casca de ovo ou verde água ou, até, umas pequenas cómodas que serviam de mesa de cabeceira, em alfazema muito claro, decapado. O louceiro da sala que tinha portas de vidro foi pintado de casca branco casca de ovo por fora e de verde água por dentro. Apesar da ajuda, esse foi o trabalho mais pesado para Ana. Nesses dias chegava à noite cansada.




Comprou também tecido largo, de lençol: branco, verde claro, azul muito claro, rosa claríssimo, lilás, amarelo muito claro e, também, tecido de renda (do que se usa para cortinados), perguntou onde é que havia uma modista e, falando com a senhora, deu indicações precisas, deixando desenhos, para fazer colchas, cobertas para os sofás, almofadas, com tecidos recortados, com rendas forradas, tudo muito claro, luminoso. A modista estava perplexa com os pedidos, mas no fim, já dava ideias, a criatividade à solta, e ria, nunca tinha feito nada assim.

Também tratou do pequeno quintal. Um dia viu um funcionário do município, homem já de alguma idade, a ocupar-se do jardim perto da praça central. Chegou ao pé dele e disse que tinha um pequeno quintal cheio de mato, a precisar de limpeza, se poderia ajudá-la ao fim do dia, que lhe pagaria um tanto à hora. O homem disse logo que sim. Ana explicou-lhe que queria um pequeno espaço à volta do pinheiro com relva e, no resto, queria ter uma horta: tomate, feijão verde, alfaces, cenouras, salsa, coentros, hortelã. Tudo em pequena escala que o quintal era pequeno. E ali andaram os dois, Ana de mãos na terra e perguntando, aprendendo e o jardineiro, satisfeito, ensinando, ajudando-a.

A vizinhança interrogava-se sobre a nova habitante daquela casa. Viam-na chegar com sacos, viam entregar frigorífico, televisão, coisas assim. Viam-na de janelas abertas a sacudir panos, tapetes, a despejar baldes de água, a varrer, ouviam o barulho de móveis a serem arrastados, viam o rapaz da loja de tintas, viam a modista, viam o jardineiro.




E viam Ana, à noite, sair e ir-se embora.


À noite, por aí sozinha? Parece que está habituada a andar à noite na rua... e a maledicência aflorava aos lábios das vizinhas, reticências na voz, um grãozinho de suspeição...


E todos: Quem é? De onde veio? O que lhe terá acontecido para aparecer aí, assim? É viúva, solteira, divorciada? Estará a fugir a uma marido ciumento? Terá tido problema de dívidas? Terá perdido a casa para o banco? Uma mulher destas a trabalhar em bordados...? Ná...

A vizinhança especulava entre si, cada um tinha a sua teoria. Espiavam-na por detrás das cortinas, tentavam ver algum vulto suspeito, alguma coisa que pudesse desvendar o mistério e a notícia já tinha corrido, já se falava. Mas a verdade é que, de facto, ninguém sabia. Ela entrava e saía em casa, entrava e saía da oficina e ninguém conseguia perceber quem era semelhante personagem.

Até que um dia, pouco tempo depois, não mais que duas semanas, deu a casa por habitável, a seu gosto.

Convidou, para lá irem jantar, a modista e o marido, o jardineiro e a mulher, o rapaz da loja de tintas e a namorada.

Quando saíu da oficina, foi para casa preparar a refeição. De avental, numa azáfama, com mil cuidados, esmerou-se nas entradas, no assado, na salada. Pôs a mesa no quintal. Depois arranjou-se com simplicidade mas, ainda assim, com o cuidado de quem vai receber convidados importantes; e esperou por eles com alguma ansiedade, tomara que o tempero do assado esteja bom, tomara que gostem.





Deviam ter combinado para virem juntos, chegaram ao mesmo tempo, muito aperaltados, tímidos, não estavam habituados a coisas assim. Ana recebeu-os sem grande efusividades mas com muita naturalidade, com afabilidade. Andou a mostrar a casa a todos, elogiou-os com sinceridade, agradeceu-lhes e viu, feliz, como eles estavam orgulhosos e reconhecidos pelo reconhecimento dela.


Música, de novo, por favor
Respighi - Pini di Roma


Depois foram lá para fora. Pôs uma música de que um amigo, em boa hora, lhe tinha falado, uma música muito apropriada para um jantar junto ao pinheiro que já lhe parecia ser seu e serviu o jantar. Já estavam todos à vontade, a conversarem uns com os outros, a contarem histórias da terra, contentes por Ana os ouvir com tanta atenção e Ana ouvia-os mesmo com muita atenção, muito gosto. Quanta genuinidade, quanta simplicidade.

No final, os homens levantaram a mesa e levaram algumas cadeiras que eram de dentro e as mulheres ajudaram na lavagem da louça e na arrumação da cozinha. Ana estava contente.

Depois os convidados saíram, bem dispostos, que noite bem passada, que senhora tão simpática. Mas ninguém ficou a saber nada dela e, se saíram de lá contentes, orgulhosos, saíram não menos intrigados. Quem será esta mulher? Tão fina, tão simples. Mas que veio ela fazer para cá? Alguma coisa se passa com ela... Será que está doente? Coitada...

Essa foi a primeira noite que Ana lá dormiu. Feliz, tranquila, indiferente às dúvidas que pairavam em torno de si.


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Por hoje é isto, meus Amigos. Hoje cheguei a casa já passava das 11 da noite. Apenas tive tempo para responder aos vossos comentários e para escrever isto que acabaram de ler. Não tive tempo para escolher uma música nem um poema nem de escrever nada lá para o meu Ginjal. Estou aqui a sentir-me em falta até porque gosto imenso das minhas andanças por aquelas bandas. Mas hoje não deu mesmo, é tardíssimo, estou cansada.

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E, tenham, meus Caros, uma bela quarta feira, está bem? 


terça-feira, maio 08, 2012

Recomeço


Música, por favor

Tracy Chapman - Be careful of my heart



Algum tempo atrás, num dia como o de hoje - uma névoa espessa, uma chuva miúda e incessante, uma humidade branca, opressiva - fez uma mala de roupa, empacotou algumas coisas, carregou tudo para a mala do pequeno automóvel que tinha ido levantar na véspera, e fez-se à estrada.

Tinha pensado num destino possível mas sem grandes cuidados, sem prudência, muito menos planeamento, e foi para lá que se dirigiu.

Ainda perto de casa, encostou o carro ao pé duma estação de correios e aí colocou uns envelopes.

Inexpressiva, jeans, ténis, uma tshirt vulgaríssima, um blusão de ganga, o capelo descuidado, conduzia como se não tivesse nenhum objectivo concreto.

Quase uma hora depois reparou que não tinha ligado o rádio nem o leitor de CDs. Ia em silêncio, janela aberta, distraída com os seus pensamentos. Mas tentou retomar o assunto em que tinha estado a pensar e não se lembrou. Ligou então a rádio na Antena 2.

Mais tarde, quando se deu conta, já estava perto da saída da estrada que tinha a placa com o nome da localidade. Saíu e dirigiu-se ao centro da pequena cidade (ou seria vila?). Deu uma volta a pé, saco pelo ombro, turista acidental. Andou sem pressa. Numa estreita rua na zona antiga, central, viu uma casa, uma espécie de prédio estreito e pequeno, com uma tabuleta de uma imobiliária para venda ou aluguer. Ligou para o número e disse que queria ver a casa.

Entretanto, dirigiu-se a uma das oficinas de bordados e pediu para falar com o gerente. Lá de dentro saíu um homem com ar de quem tinha estado a fazer contas, ainda com os olhos cansados.




‘Diga’. Ela disse que gostava de trabalhar lá. O homem abriu os olhos de espanto. Depois tirou os óculos, esfregou os olhos, alisou o pouco cabelo. ‘Essa tem graça’, disse. Ela não estranhou a resposta nem alterou a compostura. Explicou que podia trabalhar lá sem vínculo, que podia fazer uma coisa diferente usando a mesma técnica, que podia ser uma coisa à experiência, sem compromisso, ganhar à comissão sobre o que conseguisse vender. O homem ouvia-a admirado, ‘Então mas para que é que quer vir para aqui? Isso podia fazer na sua casa’. Inexpressiva, esclareceu, ‘É para ter companhia durante o dia’ e nem reparou que o homem estava cada vez mais admirado. ‘E também porque aqui há contactos, tem venda ao público, está ligado a uma associação. Vi na internet’. O homem estava sem jeito, sem saber bem como sair desta. Achava muito estranho mas, enfim, sem vínculo, sem compromisso, mal não podia haver. Mas, ainda assim, nunca fiando, ‘Então, à experiência, mas você assina um papel em como não vai haver nada disso que disse, nem vínculo nem compromisso’. Ela disse secamente, ‘Você escreve e eu assino’. O homem, discretamente, olhou-a de alto abaixo, alguma coisa devia haver, queria ver se descobria algum defeito na mulher, alguma coisa que justificasse isto. Só confirmou que devia mesmo haver razões para estar desconfiado. ‘Então e quer começar quando?’. Ela disse, ‘Amanhã’. Quando ia a sair, o homem perguntou: ‘E afinal como é que você se chama’. Ela virou-se, ‘Ana’.

A seguir voltou à casa que estava para alugar ou para vender. Já lá estava uma rapariga. A efusividade da vendedora contrastava com a apatia de Ana.

A casa era composta por um rés de chão e por um primeiro andar que não tinham ligação entre si. Quando se abria a porta da rua havia uma porta à esquerda e uma escada de madeira que levava ao piso de cima. A rapariga explicou que o piso de cima era igual, com a diferença que o rés do chão tinha um pequeno quintal nas traseiras e que, no primeiro andar, as janelas vinham até ao chão, dando para minúsculas varandas. Ana disse que queria começar pelo primeiro andar. Era uma casa muito pequena mas bem conservada - cozinha, casa de banho uma salita razoável, dois quartinhos. Cheirava a casa fechada, um misto de pó, de sombra, de desolação. O chão era de soalho, as portas interiores estavam pintadas de verde água, muito claro. As janelas eram altas e estreitas e tinham portadas de madeira pintadas da mesma cor. A vendedora abriu as janelas que davam para a pequena rua. A chuva continuava branda, triste. Depois abriu as janelas das pequenas divisões das traseiras que davam para outros pequenos prédios e olhando para baixo viu o pequeno quintal, um pinheiro a escorrer, o resto cheio de mato, tudo a pingar. A cozinha tinha chão de mosaico, armários de madeira pintada da mesma cor, bancada de mármore rosado.

Ainda tinha as mobílias, embora incompletas. A vendedora explicou que o rés do chão estava vazio mas que, do primeiro andar, o dono tinha retirado apenas algumas coisas mas, se quem comprasse ou alugasse, quisesse ele deixava ficar, caso contrário esvaziaria também aquele piso. Ana perguntou quanto era o aluguer de cada andar. A vendedora disse quanto era e acrescentou que o valor era o mesmo para cada um mas que o dono estava na disposição de negociar. Ana respondeu, como se nem tivesse pensado, que alugava os dois pisos desde que o dono fizesse um desconto de 40% e que o recheio podia lá ficar, acrescentando que esperava uma resposta do dono até às 3 da tarde. A vendedora engoliu em seco, não estava à espera de uma coisa destas, aquilo estava para alugar ou vender há mais de 1 ano e, agora, do pé para a mão, alugava logo os dois pisos de uma vez. Perguntou: ‘mas não quer ver o rés do chão? Nem o quintal?’. Ana respondeu secamente, ‘Não é preciso, obrigada’.

***

Hoje no Ginjal as minhas palavras voam em volta de um belo poema de Frederico Lourenço que fala de uma certa última dança, e tudo se pode passar ao som de Carmen de Bizet. Gostava de vos ter por lá.

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E tenham, meus caros, uma bela terça feira. 

segunda-feira, maio 07, 2012

Vive la France! (Com a vitória de François Hollande, a Europa pode, de novo, ter esperança no futuro. Vamos é perder aquelas fantásticas imagens da Popota Merkel com o seu papagaio de estimação, Sarkozy, pela mão)


Vejam, por favor: é uma boa metáfora do que se passou nas eleições francesas


La Marseillaise - excerto de Casablanca


Penso que este excerto do Casablanca é tão eloquente que vou tentar não dizer muito mais. 

Apenas umas palavrinhas
(... já sabem que sou opiniosa: teria dificuldade em não dizer nada, num dia destes, não é...?)


Talvez pela primeira vez desde que a União Europeia se formou, todos sentimos que a política já se joga em todos os estados membros e não, apenas, naquele em que vivemos. Por todo o lado, toda a gente tem acompanhado com uma atenção preocupada a evolução das sondagens e, hoje, os resultados

As eleições em França, na Grécia, na Alemanha e no Reino Unido, embora de âmbitos diferentes, revelaram, de forma sonora e clara, a onda de profundo descontentamento que alastra na Europa. 

Se na Grécia o que é patente é a descrença enorme relativamente aos partidos do agora chamado 'arco do poder', descrença essa que abre a porta a toda a espécie de radicalismos, já em França o que houve, sobretudo, foi uma afirmação no orgulho nacional contra a colagem e subserviência de Sarkozy perante a Alemanha liberal da coligação encabeçada por Merkel e, também, um murro na mesa contra a austeridade imposta pelos 'mercados' que, um pouco por todo o lado, estrangula o desenvolvimento.

Hollande pode não conseguir mudar o mundo de um dia para o outro mas vai fazer diferente e a diferença, neste momento, já não é pouco. 

E está a abrir a porta à esperança e isso também não é pouco. A vida para ser vivida com qualidade precisa de confiança, precisa de esperança, precisa de motivação. A motivação é (quase) tudo - que o diga José Mourinho.

Merkel perdeu o seu petit papagaio, o seu homenzinho de mão, que lhe dizia amén a tudo. Merkel viu também o seu partido de coligação perder numas eleições regionais e arrisca-se, portanto, a vir a perder o seu parceiro de coligação quando forem as eleições 'a sério'. Merkel começa, certamente, a sentir o peso da solidão que vai abater-se sobre ela. 

Cameron, no Reino Unido, também levou um abanão. Se juntarmos a isso as afirmações da dupla de Marios, os italianos Monti e Draghi, que têm pugnado por colocar o crescimento no centro da agenda, veremos que, finalmente, temos motivos para esperar que o bom senso, a racionalidade, a boa gestão, a competência e a política séria e ao serviço das populações volte a figurar entre as virtudes da governação.

Quanto a Passos Coelho, acho que não conta, não tem voz própria, não tem cabeça para tanto. Irá atrás de quem lhe parecer que manda. A pena é que o fará sempre de forma incompetente e trapalhona. Até um dia.


Resumindo: Fiquei contente com a vitória de Hollande.

E o homem tem uma voz grossa, convincente, e tem um discurso democrático, republicano, digno, coerente. Dá gosto ouvi-lo.

(Ressalva: Mas olho para ele e só me apetece reformular aquele look. O homem poderia melhorar bastante se cortasse o cabelo bem curtinho, se usasse uns fatos mais leves e se deixasse de usar aquelas gravatas quase pretas que lhe dão um ar tão carregado. Não é velho mas, da forma como se apresenta, parece que tem mais 10 do que, na realidade, tem, e tem um ar fora de moda o que lhe acentua, ainda mais, a falta de carisma, credo. A namorada é que tem pinta.)

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Bom. Hoje no Ginjal e Lisboa, a love affair , em dia de vitória dos socialistas em França, apeteceu-me dizer bem também do meu país que sabe a amoras. Por isso, as minhas palavras voam em volta de um belo poema de Eugénio de Andrade que fala disso. Hoje também se inicia, por lá, a semana dedicada a Bizet e, como diz a Mary, num país azul nada como pescadores de pérolas mergulhados num cenário azul. Permito-me ainda chamar a vossa atenção para os comentários: não deixem, por favor, de os ver.

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E tenham, meus Amigos, uma bela semana. Vivamo-la com ânimo, com energia, com alegria. 

E viva a esperança!

domingo, maio 06, 2012

Árvores sempervirens e outras, esculturas e rochas, flores, frutas e nuvens in heaven


Música, por favor


O canto dos pássaros



Uma das agradáveis descobertas que associo à minha vida in heaven é a de que os ciprestes são uma das mais belas de todas as árvores.

Neste fim de tarde, no caminho, paisagem com ciprestes

Até então, para mim, os ciprestes eram apenas árvores confinadas a espaços de ausência, espaços habitados por espíritos. 

Mas, quando começámos a vir para aqui, descobri a beleza destas árvores que se desenham na paisagem. Não conheço nenhuma outra zona no País em que existam tantos, tão belos. São elegantes, melancólicos. Elevam-se, escuros, dramáticos, aparentemente severos.

Claro que conhecia também os ciprestes de Van Gogh e aí não havia tristeza, eles eram apenas um contraponto de verticalidade numa paisagem sensual mas tinham um aspecto ondulante, quase macio.

Vincent van Gogh - Seara com ciprestes 

Nas paisagens de Van Gogh, tal como aqui, há uma montanha protectora que se desenha azul, recortada no horizonte, mas lá havia searas com as cores do sol da Provence. Aqui os tons dominantes são outros: o verde da vegetação, o verde acinzentado das oliveiras e as cores de pedra das rochas omnipresentes.

Nessa altura resolvi que também deveria ter estas misteriosas árvores aqui, perto de mim. Quando os comprei, aprendi que têm um nome igualmente belo, cupressus sempervirens. Eram, então, minúsculos. Agora alguns já são enormes, cheirosos, e, quando está vento (que isto aqui, in heaven, é muito ventoso), eles quase se dobram, belíssimos, flexíveis. É nessas alturas que se ouve o canto do vento nos ciprestes (como escreveu uma vez a Maria do Rosário Pedreira)

É aqui que estou esta noite, nesta terra pedregosa, dominada pelos ventos que por vezes sopram agrestes, vindos da serra, mas na qual o cheiro é sempre doce, onde os pássaros cantam à vontade porque estão em casa, onde as frutas nascem sem que eu faça o que quer que seja e, por isso, são frutas saudáveis, limpas, com a cor das searas de Van Gogh.

Nêsperas in heaven

Hoje descobrimos que as nêsperas já tinham nascido, pequenas crias coloridas, quase doces. Fiquei toda contente, não estava nada à espera que já estivessem assim tão bonitas.

Esta é a terra amada de onde nascem frutas como nascem pedras, sem que nós façamos nada por isso, nascem pelo puro amor de conhecerem a luz.

Quando se cava esta terra encontram-se pedras que têm que ser levantadas com um ferro, como se fosse uma alavanca. Há tempos apareceu uma que a meio tinha uma forma arredondada, saliente, quase como se fosse um seio, uma forma orgânica. Pedi a um senhor aqui da aldeia para lhe fazer um pedestal. Ele já está habituado às minhas coisas, não estranhou.

Rochas in heaven


E a pedra agora aqui está em destaque no meio das rochas que adquirem cores lindas, especialmente nos sítios em que a água escorre, e no meio das flores do campo. São as minhas esculturas naturais, aquelas que a terra e o tempo, artistas carinhosos que se entretêm a amaciar as pedras, esculpem e que eu, agradecida, tudo faço para que sejam admiradas.

E depois há os pinheirinhos cujas extremidades ondulam ao vento como elegantes searas e as flores do campo, suavemente coloridas, cheirosas, tão cheirosas, como o rosmaninho que, agora, está lindo, todo enfeitado com lacinhos lilases.

Pinheiros e rosmaninho in heaven


Aqui, no meio da terra, rodeada de árvores, de mato, de ervas aromáticas que nascem espontaneamente, no meio de pedras, ouvindo os pássaros, adorando a luz e as sombras que se desenham nos muros, eu quase me esqueço das palavras absurdas proferidas pelos governantes deste país, quase me esqueço de que, por vezes, há coisas que me aborrecem. Tudo isso me parece improvável e longínquo quando estou aqui.

Uma sala with a view
A minha corda de estender a roupa: um arame esticado entre duas árvores e, a seguir,
a  vista que se prolonga pelo horizonte onde o sol se põe


Do sítio onde me sento vejo os verdes vivos, próximos, vejo depois, ao fundo, a terra que se levanta, vejo o céu imenso, vejo as nuvens que escondem o sol, ou vejo o sol que se deita, ou vejo as estrelas.

Castelos imensos de gotas de água ou de sonhos avistadas entre um cupressus sempervirens e um cedro (cupressus lusitanica)


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Daqui onde estou, in heaven, vos envio, a todos, os meus votos de que tenham um belo domingo!

(E, Caras Leitoras que são mães: peço desculpa por não vos desejar a vocês, em especial, um bom Dia da Mãe; é que, sabem?, embirro um bocado com isto dos 'dias de' porque me parece uma invenção comercial e porque, quem é mãe, é mãe todos os minutos de cada dia do ano e mal fora que os filhos, para se lembrarem das mães, tivessem que ser compelidos a isso por ser dia da mãe - mas, enfim, isto são coisas minhas, não liguem)

sexta-feira, maio 04, 2012

De que serve um Estado se nele há cada vez mais mulheres que arrancam do seu ventre as crias antes de se tornarem gente? De que serve um Estado se nele as pessoas morrem mais de mágoa do que de acidentes de viação?


Música, por favor


Chopin - Nocturno nº8, interpretado por Maurizio Pollini



Frida Kahlo - O abraço amoroso entre o Universo, a Terra, eu,  o Diego e o Señor Xólotl


Nenhuma sociedade é perfeita e sempre haverá pessoas que, por circunstâncias diversas, são levadas a praticar actos limite. Não haverá nunca sociedades em que nenhuma mulher aborte voluntariamente ou em que nenhuma pessoa se suicide. Distúrbios, desenlaces trágicos, infelicidades, sempre haverá.

Por isso, o que permite aferir a ‘saúde’ de uma sociedade não são os indicadores em valor absoluto observados num único momento mas, sim, a evolução das ocorrências em valor relativo (ou seja, se, de ano para ano, a percentagem da população em que acontece o fenómeno que se observa aumenta ou diminui).

Os grandes objectivos de quem é responsável pela gestão da ‘coisa’ pública devem ser, entre outros, garantir o avanço civilizacional, a melhoria das condições da população, a melhoria do bem estar das pessoas.

Uma sociedade em que as pessoas perdem direitos alcançados ao longo de gerações, em que o nível de confiança e segurança decresce, em que a renovação geracional regride, havendo cada vez mais velhos e menos novos, em que há cada vez menos trabalho, em que o número de interrupções voluntárias da gravidez (IGV) aumenta (especialmente entre a camada das mulheres desempregadas), em que o número de suicídios já é maior do que o número de mortes por acidente de viação – é uma sociedade que não está a ser bem gerida. É uma vergonha de sociedade. É uma vergonha para nós que nos habituámos a aceitar esta vergonha.


Hieronymus Bosch - parte de O jardim das Delícias

É escusado haver um Estado e um Governo se é para isto: para a maioria da população viver cada vez pior, com menos dignidade, sem esperança.

E só não escrevo isto completamente angustiada porque não sou muito de me dar a angústias mas, como será fácil de perceber, isto revolta-me.


Fui e continuo a ser convictamente a favor da despenalização da IGV.

Pablo Picasso - Maternidade

Se há traço dominante em mim é o da maternidade. Sempre quis ter filhos, tive-os muito cedo e só não tive muitos mais porque não tinha a vida nada facilitada; ter-me-ia sido quase impossível ter disponibilidade para criar mais filhos da forma condigna e dedicada que entendo como indispensável.

Ter dentro de mim duas células que, milagrosamente, se foram desdobrando uma e outra e outra e outra vez - e eu sentindo que havia um serzinho a tomar forma e, depois, já era uma pessoazinha que eu sentia dentro de mim, os seus movimentos, as suas cabriolices e, no fim desse período de nidificação, senti-los a sair de dentro de mim - é qualquer coisa de transcendente que eu, e nenhuma mãe, trocaria por nada deste mundo.

Quando se tem uma criança a formar-se dentro de nós, todas nós nos sentimos portadoras do mundo, do futuro, da esperança, da alegria. E preparamos com infinito desvelo a sua chegada e tudo fazemos para que esteja bem tratado, bem agasalhado, bem arranjado, muito acarinhado, tudo, tudo de melhor.

Pablo Picasso - Mãe e Filho


Mas se, por desconhecimento dos métodos de planeamento familiar ou desestruturação da vida, quando engravidei, eu estivesse sem trabalho, sem dinheiro para sustentar uma casa, se o pai da criança estivesse nas mesmas circunstâncias, se estivéssemos sem esperança de ter uma vida melhor, só antevendo, na melhor das hipóteses, trabalhos precários que não dariam para poder pagar casa, creche, leite, enfim, para poder proporcionar ao bebé uma vida condigna – talvez, então, no meio da maior angústia e desespero, eu arrancasse de mim esse embriãozinho de gente porque mãe que é mãe não quer que o seu filho ande ao deus-dará, com fome, com frio, com doenças.


Paula Rego - da série dedicada ao aborto

Por isso, respeito quem interrompe a gravidez e sinto-me incapaz de julgar quem, em momento de desespero, assim decide.

Quanto ao suicídio é uma situação igualmente complexa. Amo a vida, abençoo todos os dias o dom de estar viva, eu e todos os que amo. Amo a vida, a terra, o mar, o céu, as árvores, os animais, as palavras – e amo em especial as pessoas, prodigiosos acontecimentos da natureza.

Renée Magritte - Memória


Mas, talvez, se estivesse doente, a sofrer, sem meios de subsistência, sem capacidade para viver dignamente, sem haver organismos ou instituições que me pudessem valer e na contingência de ter que causar transtornos continuados a outros, nomeadamente, prejudicando a vida dos meus filhos, aí, não sei.


Ou seja, não consigo fazer juízes de valor em relação a decisões tão pessoais, tão íntimas, decisões tomadas sempre em momentos de aflição e desespero. Mas consigo, isso sim, desejar que deixem de existir as condições que levam a essas decisões angustiadas.

Por isso, também, digo que Estado que é Estado zela pela sua população, por toda a sua população, evitando que aumente o número de pessoas para quem viver ou dar vida se torna insustentável. Senão mais vale não existir.

E interrogo-me: o que se está a passar em Portugal e em outros países do dito mundo desenvolvido para que a população esteja a ser saqueada, empobrecida, violentada nos seus direitos, a perder a esperança, a perder a vontade de se reproduzir, a perder a capacidade de sonhar - e tudo isto aparentemente apenas para o Estado pagar juros (que nem a dívida se está a amortizar)?


Hieronymus Bosch - O inferno



Como chegámos aqui?

Que monstros criámos?

Que sociedade é esta?

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Em momentos assim é mais difícil:
não dá para disfarçar o peso do mundo.
A angústia enrola-se na garganta como um agasalho usado,
e há toda uma vida (que pretensão!) a clamar por dentro
'porque me abandonaste?'


Em momentos assim é mais difícil
fingir que só se está a escrever um poema.

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O poema acima chama-se Momento, é de Luís Filipe Castro Mendes e pertence ao livro Lendas da Índia.

E: por falar em poesia, hoje o poeta que está de visita o Ginjal e Lisboa, a love affair é Bernardo Pinto de Almeida. Em volta dele voaram as minhas palavras ao som de Puccini, hoje pela voz de Andrea Bocelli.

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Bom... hoje isto não me saíu muito animado (aquelas duas notícias, a do aumento dos suicídios e a do aumento de abortos entre as mulheres desempregadas, incomodaram-me muito). Mas não deixem que isto estrague o vosso dia. Animem-se, vá... Afinal já é sexta feira! Tenham um bom dia, está bem?


quinta-feira, maio 03, 2012

Das cenas do 1º de Maio no Pingo Doce ao Ensaio sobre a Cegueira de Saramago, com brevíssima dissertação sobre as fragilidades humanas. Das estatísticas desgraçadas relativas ao desemprego em Portugal que já vai em 15,3% ao artigo de Min Zhu do FMI, passando pela teoria de Sinatra sobre o casamento e o amor. Começa com uma verdade inquestionável: uns vão bem e outros mal e não sou eu que o diz, é Fausto.


Música, por favor

Fausto - Uns vão bem e outros mal 



Hoje, quando bebia o meu café matinal, ao meu lado um cliente dizia ao gerente do pequeno estabelecimento que, na véspera, quando tinha estado no Pingo Doce, não tinha havido distúrbios de maior, que as pessoas é que não sabiam comportar-se. 

À saída de um Pingo Doce


Contava, com ar de quem tinha ido à guerra e saído vitorioso, que tinha compensado. Que tinha comprado 10 garrafas de litro de azeite, que agora tinha azeite para 2 anos e olhava sorridente à volta, orgulhoso pelo feito. O gerente dizia que também tinha comprado muito azeite mas que tinha optado por garrafões de plástico, vários, que também lhe iam dar para 2 anos, pelo menos, que o prazo de validade é grande. Quando eu saí ainda eles comparavam o volume de compras que tinham feito.


À saída de um Pingo Doce


Claro que, vivendo com dificuldades, as pessoas não pensam duas vezes e disparam, por vezes sem racionalidade, quando lhes acenam com metade das compras à borla. Claro que, para isso, teriam que efectuar compras no valor de 100 euros, coisa que, já de si, não é pouco mas nem devem ter avaliado o impacto no seu orçamento doméstico de compras da ordem dos cento e tal ou duzentos euros num único dia (numa reportagem de televisão vi um senhor orgulhoso dos 400 euros que tinha gasto, em vez dos 800 que seriam).

Questões de vária ordem poderiam ser analisadas sobre este facto mas quero apenas referir que este é, na sua maioria, o povo votante deste país, o povo que decide o sentido de voto. Pessoas que procuram uma instantânea melhoria nas suas condições de vida, sem se deterem a analisar o porquê, o como, o até quando, etc., pessoas que agem por impulso, sem fazerem cálculos ou sem se deterem em considerações de carácter filosófico.

Foi assim - porque gostaram da cara de quem lhes prometia uma política de verdade, que lhes dizia que não era admissível que se aumentasse mais os impostos ou que se sonhasse sequer em mexer nos subsídios de natal - que deram a vitória nas eleições a uma pessoa como Pedro Passos Coelho, colocando-o a ele e  ao Relvas, ao Gaspar e a outros neófitos, ex-jotas e aprendizes à frente da governação deste país.

É fácil, muito fácil, manipular pessoas que, de alguma forma, se encontram fragilizadas (ou porque se sentem inseguras, ou carentes, ou revoltadas, ou doentes, ou desempregadas ou o que for).

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Parábola dos Cegos - Pieter Brueghel, 1568

Estavam muito perto do supermercado, em algum destes sítios se deixou ela cair, a chorar, naquele dia em que se viu perdida, grotescamente ajoujada ao peso dos sacos de plástico cheios, valeu-lhe um cão para a consolar do desnorte e angústia, este mesmo que aqui vai rosnando às matilhas que se chegam demasiado.
(...)
A claridade do dia iluminava até ao fundo o amplo espaço do supermercado. Quase todos os escaparates estavam tombados, não havia mais do que lixo, vidros partidos, embalagens vazias.
(...)
O cão das lágrimas ganiu baixinho. Tinha outra vez o pêlo eriçado. Disse a mulher do médico, Há aqui um cheiro, Sempre cheira mal, disse o marido. Não é isso, é outro cheiro, o da putrefacção, Algum cadáver que estará por aí, Não vejo nenhum, Então será impressão tua. O cão tornou a gemer. 
(...)
Atravessaram o supermercado até à porta que dava acesso ao corredor por onde se chegaria ao armazém da cave. O cão das lágrimas seguiu-os, mas de vez em quando parava, gania a chamá-los, depois o dever obrigava-o a continuar. Quando a mulher do médico abriu a porta, o cheiro tornou-se mais intenso.


[Excertos de uma das cenas pungentes de Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago, cena em que os cegos tinham invadido o supermercado e depois se tinham precipitado, escada abaixo, caindo uns sobre os outros... e mais não digo porque o que vos aconselho a ler é o livro todo, um dos livros que mais me impressionou desde que me tenho por gente. Digo-vos apenas que é um documento impressionante sobre as baixezas mais torpes e vis de que as pessoas são capazes em situações limite - e que, ao ler, sentimos que nós próprios - bem falantes, bem pensantes - também o faríamos se nos víssemos naquelas circunstâncias]

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Imagem do filme Ensaio sobre a cegueira (Julianne Moore como a mulher do médico, um dos muitos cegos)


Hoje soube-se que o emprego continua a subir. Já vai em 15,3% (e em mais de 36,1% nos jovens) e estes são os números oficiais que são inferiores aos números reais.

Pois ia eu no carro à hora de almoço quando ouço, perplexa, o Secretário de Estado do Orçamento, Luís Morais Sarmento a mostrar-se muito admirado com estes números inesperados (inesperados dizia ele, claro)...!

E concluía a "inteligente" criatura que o que era preciso para resolver isto era liberalizar o mercado de trabalho, flexibilizar ainda mais.

Fiquei de boca aberta. É que, meus Amigos, o problema maior não é só estarmos a ser governados por quem não sabe o que faz: o problema maior é que nem sabem tirar conclusões face às consequências do que fizeram...! Então se o problema é o desemprego estar a aumentar a um ritmo que nem eles percebem, o remédio que lhes ocorre é, justamente... facilitar ainda mais  os despedimentos...?!

Ou isto não é nabice da mais pura que há mas, sim, coisa deliberada? Maldade pura?! Defesa de interesses inconfessáveis?! Já nem sei que diga, perante coisas destas.

Quanto ao Álvaro ou a alguém do Ministério das Falências e do Desemprego, nada: estão noutra. Economia e Emprego é coisa que não lhes assiste.

Portugal é o 3º país ex-aequo com o maior desemprego num conjunto de 29 países ditos desenvolvidos, li num artigo do FMI. 



O autor, o chinês Min Zhu, questiona-se: ‘desenvolvidos na miséria?’ pois é nestes países que o desemprego mais se acentua e, de entre eles, para nossa vergonha e sofrimento, Portugal, só é antecedido (na desgraça) pela Espanha e pela Grécia (e igual à Irlanda). 

Logo no início do artigo, Min Zhu parafraseia uma frase de Frank Sinatra - em que este diz, referindo-se ao casamento e ao amor, que não existem um sem o outro - dizendo que é a mesma coisa em relação ao crescimento económico e ao emprego. Não há emprego sem crescimento, nem crescimento sem emprego.  

E mais uma vez recomenda moderação na aplicação de ajustamentos e, também, garantia de liquidez no sistema financeiro. Injecções de liquidez, políticas de desenvolvimento, abrandamento nas políticas de austeridade – só assim se evitará o suicídio.

Mas, claro, nem Passos Coelho nem nenhum do seu grupo lêem este género de artigos. E, mesmo que lessem, duvido que percebessem. 

No dia 1 de maio, com ar ligeiro de quem pronuncia uma banalidade irrelevante, Passos Coelho disse que os portugueses se deveriam preparar para mais uns anos de desemprego alto. Ainda não percebeu o buraco em que está a enfiar Portugal nem a miséria para que está a atirar os portugueses.

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Não me apetece falar mais disto que fico indisposta.

Por isso, com vossa licença, para terminar, um bocado mais de Ensaio sobre a Cegueira para que saibam, meus Caros Leitores, que há cegueiras de que se recupera e que há histórias que acabam bem (e, se há lágrimas no final deste excerto, não se admirem, elas são de compreensível emoção de descompressão).

Eu acredito nisso.


Então o médico disse o que todos estavam a pensar, mas que não ousavam pronunciar em voz alta, É possível que esta cegueira tenha chegado ao fim, é possível que comecemos todos a recuperar a vista, a estas palavras a mulher do médico começou a chorar, deveria estar contente e chorava, que singulares reacções têm as pessoas, claro que estava contente, meu Deus, se é tão fácil de compreender, chorava porque se lhe tinha esgotado de golpe toda a resistência mental, era como uma criancinha que tivesse acabado de nascer e este choro fosse o primeiro e ainda insconsciente vagido. O cão das lágrimas veio para ela, este sempre sabe quando o necessitam, por isso a mulher do médico se agarrou a ele, não é que não continuasse a amar o marido, não é que não quisesse bem a todos quantos se encontravam ali, mas naquele momento foi tão intensa a sua impressão de solidão, tão insuportável, que lhe pareceu que só poderia ser mitigada na estranha sede com que o cão lhe bebia as lágrimas.


A tradução destas legendas é pavorosa mas, enfim, foi o que arranjei...
O filme é uma adaptação da obra de José Saramago, e foi realizado pelo brasileiro Fernando Meirelles

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Bom. Caso ainda tenham paciência, não quererão os meus Amigos ir dar uma espreitadela lá ao meu Ginjal e Lisboa? Hoje as minhas palavras voam em volta de um poema de que gosto muito de Maria Sousa. Acompanha com Puccini, La Bohème... mas oh que encenação!... Só mesmo visto. A sério.

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E, claro está, desejo-vos uma bela quinta feira, de olhos bem abertos... 
(para verem as coisas boas desta vida!)

quarta-feira, maio 02, 2012

Um 1º de Maio de trabalho, tentando domar os meus queridos livros e a assistir ao desatino nacional causado pela campanha dos 50% do Pingo Doce. Vida tão estranha, diria o Rodrigo Leão.


Música, por favor


Vida tão estranha - Rodrigo Leão



Este 1º de Maio foi dia de trabalho pesado: limpezas e arrumações.

Não sem antes, claro, darmos uma caminhada pelos lugares tão queridos, pelos espaços mais largos e azuis onde as aves voam junto aos deuses .

Bando de pássaros voa em volta do Cristo Rei

Num recanto, na rua, vi este pequeno ramo de flores murchas. Senti alguma pena, nem sei se pelas flores, se por alguém que não as quis ou por alguém que não teve a quem as dar. Um ramo de flores abandonado é sempre uma coisa triste de se ver.


Flores do campo, um bouquet improvisado que não chegou a casa do destinatário(a)


Mais à frente, numa parede, um graffiti engraçadíssimo. 'Atirem-me areia para os olhos' mas o rosto não tinha olhos. Alguém desenhou, então, uns.

Atirem-me areia para os olhos, diz esta figura no dia em que o Pingo Doce fez um 1º de Maio à sua maneira


Era costume o Pingo Doce estar fechado no Dia do Trabalhador mas hoje, de regresso do passeio, verificámos que estava aberto. Como dava jeito uma salada, dirigimo-nos lá. Uma multidão à porta e as portas fechadas. Como desconhecíamos a promoção, perguntei a uma senhora que aguardava o que se estava a passar. Respondeu-me que estava cheio, tinham fechado a porta. Espreitei. Um policia vigiava a porta do lado de dentro. Viemos intrigados com aquilo.

Mais tarde veio, então, a explicação: por todo o lado havia um delírio. Multidões esvaziavam as prateleiras, pagando apenas metade. As televisões mostravam o impensável. Gente gastando dinheirões com a sofreguidão de pagar metade, gente em apertos durante horas, gente aborrecida e zangada, gente envolvida em confrontos, gente que teve de sair dali de ambulância.

Hoje à tarde junto a um Pingo Doce e, durante o espaço de tempo que observei, foi sempre assim


Perguntei-me logo se não estaríamos perante um caso de dumping (prática proibida que consiste em vender abaixo dos custos). Mas agora à noite ouvi que provavelmente quem vai pagar esta generosidade são os fornecedores. Não sei. Sei é que isto é que ver estas imagens e logo no Dia do Trabalhador me causa algum incómodo. Há aqui qualquer coisa que me faz lembrar algumas passagens de Ensaio sobre a Cegueira. É fácil pôr as pessoas a agir de forma estranha. Basta accionar mecanismos que têm que ver com a subsistência ou com a ganância ou com coisas assim, bem intrínsecas à natureza humana.

Adiante.

Depois foi tempo de faxina.

E, depois da faxina, tempo de pôr alguma ordem nos livros que saltaram das estantes ou que ainda não foram lá parar.

Livros tresmalhados, em cima de uma mesa de apoio, na sala em que agora me encontro
(ao fundo, parte de uma tela pintada por mim)


Mas, afinal, ainda não foram colocados no sítio devido, foram apenas melhor organizados para mais fácil localização. 


Livros em cima da mesa em que estou a escrever antes de serem postos na ordem


Parece que, quando são arrumados nas estantes, lhes perco o rasto pelo que, enquanto não os lemos ou não nos conformamos com a ideia de que tão cedo não os vamos ler, ficam em pilhas, em montinhos, fazendo-me companhia. Gosto de os ter à mão, desordenados, mal comportados, irrequietos. Pode parece o caos mas não é. 

Agora que estou a escrever já estão amontoados com alguma lógica, já os consigo localizar sem ter que dar a volta a todos.

Peguei na Ler de Janeiro e reli a entrevista de Carlos Vaz Marques (CVM) a Manuel António Pina (MAP), uma pessoa que vem até ao UJM com uma certa frequência.

Transcrevo um pequeno excerto no qual se fala do mundo dos escritores.

Pergunta CMV: O que é que esse mundo tem de errado?

Responde MAP: É um mundo de intrigas. Vive muito dessa coisa da posteridade. Valoriza coisas ridículas: se aquele tipo teve mais linhas de crítica do que eu. É muito triste, o mundo dos escritores. É igual ao dos músicos, aos dos professores, ao dos jornalistas.


O mundo dos escritores pode ser assim mas eu não quero saber, o que eu quero saber é dos livros que eles escrevem, meus companheiros silenciosos.

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Se estiverem para isso, gostaria de vos ver lá no meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras voam em volta de um poema de Ricardo Gil Soeiro e a música é de Puccini pela voz de Renata Tebaldi, uma maravilha.

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E tenham, meus Caros, uma bela quarta feira, cheia de esperança.

terça-feira, maio 01, 2012

As mulheres revolucionárias de Skapinakis. Maio, maduro Maio e é o Zeca, claro. O 1º de Maio de 2012, o dia a seguir a saber-se pelo Vítor Gaspar e pelo Passos Coelho que o dinheiro subtraído ao rendimento de tantos e tantos trabalhadores e pensionistas apenas será reposto em 2018 (data tão longínqua que se torna improvável). Mas um dia isto muda... e parece que já está em curso o início da mudança. Tenhamos esperança e não baixemos os braços. E, ainda, 'O momento de' segundo António Ramos Rosa e, finalmente, 'Por vos muero'.


Pintura de Nikias Skapinakis - actualmente no Museu Berardo, CCB


Música, por favor

Maio Maduro Maio - José Afonso



Celebra-se esta terça feira o dia de uma das espécies mais ameaçadas dos últimos tempos: o trabalhador.

Esta espécie é vista pelos actuais governantes, na sua maioria uns académicos de pacotilha, como boa para abater.

Relembro: quando alguém começa a trabalhar, celebra um contrato no qual se estabelecem direitos, deveres, garantias, compromissos.

Ora os contratos servem para regulamentar o cumprimento recíproco do que mutuamente foi acordado ou, então, para estabelecer a forma ordeira de os romper.

O que este governo tem vindo sistematicamente a fazer com os que, directa ou indirectamente, estão sob sua alçada, é romper unilateralmente esses contratos - e fá-lo de forma arbitrária e amoral.

Dou um exemplo (e, nem estou a falar de mim pois, repito-me, trabalho numa empresa privada). Um funcionário público ou, mesmo, um trabalhador de uma empresa detida por uma empresa pública - mesmo sendo uma empresa que está no mercado em situação de concorrência tal e qual como uma empresa privada, uma empresa lucrativa em que os trabalhadores não têm quaisquer regalias ou direitos que os funcionários público – pode ter tido um corte de ordenado de 10%. Em cima disso foi-lhe retirado os subsídios de Natal e férias. Só aí já vai um corte unilateral de 23%. Poderá dizer-se que, se levou um corte de 10%, é porque tinha um ordenado muito alto. Falso. Isto aconteceu com quadros médios, mediamente remunerados, pessoas que tinham compromissos assumidos na assumpção dos rendimentos contratados.

Some-se a este atentado, o aumento de IRS mais o aumento de IVA - cortes comuns para todos os que ainda conseguem manter-se vivos. Some-se o aumento da electricidade, do gás, dos transportes, de tudo.

Percebe-se, assim, o saque que está em curso a toda a gente mas, em especial a uma ex-classe média que está a ser desapossada da forma mais indecente que há memória, e, em geral, a quem vive de rendimentos de trabalho ou de pensões de reforma e, ainda mais, aos que directa ou indirectamente têm como patrão essa figura que deixou de ser ‘de bem’ que é o Estado.

De notar ainda que, reportando-me agora aos pensionistas, uma pensão de reforma não é uma benesse. Uma pensão de reforma é a devolução da verba actualizada relativa a descontos efectuados especificamente para esse fim ao longo da vida activa. Encarar essa verba como algo de que se pode dispor, retirando parte dela, é ilegítimo e imoral.

Um trabalhador qualificado – e agora refiro-me a todos, isto é, ligados a entidades estatais, para-estatais, empresas privadas, etc - pode hoje descontar do seu ordenado quase metade do que ganha para IRS o que, somado à verba descontada para a Segurança Social, perfaz bem mais do que metade do que ganha. Um atentado.

Ora todas as verbas retiradas desta forma às pessoas são verbas que não circulam directamente na economia. E retiradas todas estas verbas para impostos e deduções, não sobra dinheiro para aplicar em poupanças e o consumo restringe-se ao mínimo. Não havendo dinheiro para aplicar em poupanças, os sistemas financeiros vêem a sua liquidez reduzida; e, reduzindo o consumo, começa tudo a reduzir ou a fechar - e esta é a melhor forma de destruir a economia.

Finalmente, um pouco por todo o lado (com excepção de Passos Coelho e seus apaniguados que ainda não conseguiram perceber) começa a falar-se na necessidade de atenuar estas medidas de austeridade e a reconhecer-se que ajustamentos assim, abruptos, violentos, destroem a economia e impedem o ressurgimento do crescimento. Até a matrafona da Merkel já diz que não quer ser a talibã da austeridade (pudera… sem ter para onde escoar os seus excedentes, a Alemanha começa a sentir a ameaça do abrandamento económico).

Finalmente, ainda que de forma incipiente, começa a falar-se numa espécie de plano Marshall para relançar a economia. Haja Deus!

Poderá dizer-se que falta dinheiro para investir mas isso é uma falsa questão. Vejamos porquê.

De uma forma algo minimalista, o que é necessário fazer restringe-se a duas coisas muito simples.

Primeira – em vez de ter um pensamento assistencialista, atirando as pessoas para o desemprego e depois dando-lhes de comer através de subsídios de emprego ou de subsídios de integração, isenção de isto e mais daquilo, mudem-se as prioridades e empreguem-se essas verbas em actividades reprodutivas. Exemplifico: se se investir no arranjo e modernização das escolas degradadas ou se se construirem residências assistidas para idosos, centros de dias com fisioterapia, apoios médicos e de enfermagem, etc, para além da utilidade óbvia desses investimentos, estará a dar-se emprego a muita gente, desde os que trabalham em funções mais qualificadas (arquitectos, engenheiros, médicos, enfermeiros, técnicos de saúde, etc, etc) como a menos qualificadas, como ainda desenvolver empresas de materiais de construção e de equipamentos de vária ordem, que por sua vez dão emprego a muito gente, etc, etc. Essas pessoas ao terem trabalho, consumirão, terão poupanças, etc, e a economia começa a rolar. Além disso contribuirão com os seus impostos. Em contrapartida, se estiverem desempregadas, é o Estado que lhes paga directamente através de subsídios e, ganhando muito pouco, não terão poupanças e terão consumos muito baixos.

Segunda que, em parte decorre da primeira: restaure-se a confiança. A economia é a magia de, com poucos recursos, parecer que se tem muitos. Se a pessoa A paga a B, a pessoa B, tendo recebido esse dinheiro, compra e paga a C, a qual, por sua vez, compra e paga a D, a qual por sua vez …. e assim sucessivamente. A verba que anda a girar nesta cadeia pode ser sempre a mesma mas, circulando, anima a actividade de muitos elos dessa cadeia. Em contrapartida, havendo medo, insegurança, ou escassez, haverá retracção e A deixa de pagar a B que já não pode comprar a C, que, portanto, não pode comprar a D e a economia começa a paralisar, o desemprego a aumentar.


Não acontecendo isto, deparar-nos-emos inapelavelmente com o que começa a estar à vista: o aumento do desemprego, a recessão, a continuada quebra de receitas fiscais (apesar da sobrecarga individual), a impossibilidade de amortizar dívida e, até, o seu aumento - ou seja, a temível espiral recessiva que atira com os países para a bancarrota, para a miséria, para a perda de direitos, para a revolta social (e, tantas vezes, para a guerra).

Volto a dizer: isto não é ficção, nem escrita apocalíptica, nem nenhum surto de  ‘medinacarreirice’ (e isto sem sentido pejorativo): isto é aritmética simples.

Por isso, no Dia do Trabalhador o que eu quero desejar é que, em breve, se invertam as políticas estúpidas e malévolas que têm vindo a ser seguidas e que, em breve, voltemos a integrar um país viável, um país que acarinhe e retenha os jovens, que respeite os velhos, um país de progresso, um país governado por gente inteligente e competente que respeite os seus concidadãos, um país que perceba a dignidade maior que é devida a quem trabalha e a quem já trabalhou.

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Gosto de acabar com pensamentos ou imagens positivas. 

A palavra, portanto, a António Ramos Rosa


                                                            Talvez seja o momento de.
                                                            Mesmo sem esperança. E ele escreve:
                                                            nenhum impulso para ti
                                                            neste espaço deserto.

                                                           Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
                                                           Nada vê ignora. Olha.
                                                           Que traços são estes,
                                                           qual a origem destas palavras nulas?

                                                           Ele escreve. O seu desejo é o desejo
                                                           de tornar habitável o deserto.

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E agora um bailado diferente, com uma bela música de guitarra antiga, com umas belas palavras, um bailado ao som de palavras, a poesia de Garcilaso de la Vega. Não deixem de ver, peço-vos, mas vejam-no com o coração aberto que é como se devem ver as coisas belas. A coreografia é de Nacho Duato para a Compañia Nacional de Danza e chama-se 'Por vos muero'.




E tenham, meus Caros, um belo dia 1º de Maio.