terça-feira, fevereiro 21, 2012

Eu, mulher trabalhadora numa empresa privada, eu ex-professora, eu mãe de família (parte II) - Just like a Woman (na voz de Nina Simone) e acompanhada pelas mulheres de Guy Bourdin


Música, por favor.
Nina Simone - Just like a woman

Recebi comentários muito interessantes ao texto que ontem escrevi sobre a minha experiência como mulher trabalhadora nos tempos de hoje. Poderia responder a cada um individualmente mas prefiro, hoje, escrever um novo texto sobre o assunto pois, desta forma, complemento o meu relato e comento os comentários que tanto gostei de ler e que, aqui, agradeço.


Trabalho por conta de outrem, sou uma assalariada, sou uma mulher trabalhadora - mas sou uma privilegiada. Tenho um cargo de alguma responsabilidade, tenho um ordenado razoável (e do qual parte considerável me é surripiada logo à nascença, nem o chego a ver). O que tenho consegui-o por mim mesma, progredi profissionalmente graças, apenas, ao meu mérito profissional. Não beneficiei de favores de qualquer espécie. Sou uma mulher que vive do fruto do seu trabalho.

Trabalho, pois, como forma de subsistência mas, no entanto, trabalho também como forma de realização profissional. Respeito em absoluto as mulheres que optam por trabalhar apenas em casa mas essa nunca foi uma opção para mim. Desde que me conheço que pensava em emancipar-me, ter a minha independência e fazer um trabalho de que gostasse.

Quando eu estava a estudar na faculdade, a minha mãe alimentava o sonho de que eu fosse professora. Dizia ela que podia ter uma vida descansada, trabalhar apenas meio dia, estar numa escola perto de casa, ter muito tempo de férias, ter tempo para os filhos, para a casa.


De facto, quando concluí o bacharelato, 20 anos acabados de fazer, concorri para ser professora, na altura acho que se chamavam professores provisórios. Tinha uma média relativamente alta, fiquei logo na escola que tinha colocado em 1º lugar e pude escolher horário, ficando com horário completo, 22 horas por semana na altura.

Entretanto continuei a estudar na faculdade, casei, e tudo na maior das calmas.

No segundo ano, resolvi fazer a coisa ainda mais aligeirada pois estava no último ano do curso, com as últimas cadeiras e com um trabalho de fim de curso bem complexo e a precisar de tempo: escolhi horário completo mas um misto de horário nocturno a pegar com as últimas diurnas do fim de tarde. Também era directora de uma turma. E, portanto, se não estou enganada, o horário completo limitava-se a 16 horas por semana, uma maravilha.

Claro que tinha que preparar as aulas pois era a primeira vez que leccionava, claro que tinha que fazer e corrigir testes, e as reuniões de avaliação, e vigiar e corrigir exames mas, tudo junto, uma maravilha. Ainda não tinha filhos, estava casada de fresco e tinha uma vida que era um regalo. Acabei a licenciatura e no meu 3º ano lectivo como professora concorri para fazer estágio e fiquei colocada. Tudo na boa.

E no entanto.


E, no entanto, havia qualquer coisa no ensino que me parecia muito pouco para as minhas ambições. Era um meio muito fechado, as professoras e os professores eram um grupo que me parecia desligado, sem sentimento de pertença, sem motivação (e isto há quantos anos foi….!), uns muito acomodados, outros muito desinteressados, nada de trabalho em equipa e eu gosto de trabalhar em equipa, acho imprescindível o trabalho em equipa. Eu imaginaria os professores a preparem aulas em conjunto, a arranjarem maneira de que as matérias de uns se articulassem com as dos outros, eu imaginaria que os professores da mesma disciplina mas de turmas distintas conjugassem as matérias e os testes entre si, escolhessem em conjunto exercícios interessantes, que houvesse passagem de testemunhos entre professores de um ano para o outro, imaginaria trabalhos preparados em conjunto com os alunos, um verdadeiro comprometimento partilhado. Enfim, imaginava um ensino em que os professores cuidassem dos seus alunos de uma forma personalizada, dedicada, carinhosa, em que os professores se sentissem co-responsáveis por objectivos comuns. E que, detectando que havia lacunas na formação de alguns jovens, se organizassem para lhes ensinar essas matérias. Mas não era isso – mas nem pouco mais ou menos. E depois nas poucas reuniões de professores a que assisti, já nem me lembro se eram convocadas pelo conselho pedagógico ou coisa do género, as questões que se afloravam eram tão básicas, tão desinteressantes, nada a ver com o que eu idealizava. E depois havia rivalidades parvas, pequenas intrigazecas, coisinhas miúdas e espúrias para as quais nunca tive paciência. E havia muita acomodação, muita pose. Alguns professores mais velhos diziam para eu me deixar de ideias, que estivesse sossegada, que era ainda muito verdinha.


O ano de estágio então estava a ser um pesadelo. O professor que me estava a orientar fazia tudo ao contrário do que eu achava que seria pedagógico. Depois, havia uma panóplia de trabalho absurdo de preparação e planificação, uma coisa burocrática, despropositada, tudo conduzido com uma aflitiva mediania. 

Gosto de coisas que me estimulem, que constituam desafios para os quais eu tenha que me esforçar minimamente, gosto e aprender com quem é melhor que eu, gosto de sentir que estou a fazer o melhor possível e que posso contribuir com as minhas ideias e trabalho. Gosto de partilhar, gosto de ensinar tudo o que sei, queria que a escola fosse um espaço fervilhante de aprendizagem e saber mas ali era tudo tão limitado. Nada do que eu desejava se concretizava, nada.

Depois, quando ouvia os professores reivindicarem mais benesses, eu ficava calada, embasbacada. Eu achava que trabalhava tão pouco, mal percebia como poderia ter direito a tanto fazendo tão pouco.

Dar aulas era uma coisa a meio caminho entre trabalhar a sério e ficar em casa, ocupada com a lida da casa e sem maçadas de maior 


Digo isto sem ter nada contra a profissão. A minha mãe é uma professora reformada e tenho na família mais próxima mais pessoas que são professoras. Algumas das minhas amigas são também professoras. Sei, até porque conheço estes casos muito próximos, que há profissionais excepcionais mas, no conjunto, há uma inércia, uma acomodação, uma desmotivação, uma desarticulação que acho que minam a qualidade do ensino neste País.

E assim, pouco tempo decorrido de estar a fazer o estágio, respondi a um anúncio para uma empresa e, após umas quantas entrevistas, fui escolhida. Foi um desgosto que dei à minha mãe, ‘tens uma vida tão sossegada e vais abrir mão disso, nem sabes o que vais perder, vais arrepender-te, podes crer que vais’. Mas não hesitei nem por um segundo. Larguei o estágio e mudei de vida.


De repente, a minha vida mudou. Passei a sair de casa antes das 8 da manhã e a chegar a casa depois das 7 da tarde, passei a ter que fazer trabalhos relativamente aos quais nem sonhava que tinha conhecimentos que me permitissem fazê-los, passei a deparar-me com dificuldades que, por vezes, me pareciam intransponíveis, passei a ter que entregar trabalho feito (e sem margem para errar) em datas fixas, passei a ter que ir à luta, a descobrir com quem devia falar, quem me podia ensinar, passei a ter que usar o que tinha aprendido na faculdade mas em grande escala, a ter que tentar descobrir nas sebentas e livros soluções para os problemas complexos que tinha pela frente, passei a ter um chefe, a ter colegas e, mais tarde, a ter subordinados. Passei a trabalhar em equipa, a ser solidariamente responsável por resultados, passei a participar em reuniões de trabalho, reuniões duras, negociações complicadas, questões difíceis de dirimir. Mas isso enchia-me as medidas.

E, no meio desta reviravolta, tive os meus filhos e gozei a licença de maternidade e a licença de amamentação (amamentei os meus filhos ao peito, no caso da minha filha até aos 13 meses - em qualquer lado lá estava eu a dar-lhe de mamar, ela já a andar e falar, parecíamos mãe e filha ciganas), e andava com eles de um lado para o outro, ao colo, pela mão, em transportes públicos, e andava tantas vezes completamente estourada – e a minha mãe sempre a lembrar-me ‘o disparate’ que eu tinha feito: 'podias estar descansada, ser professora, e aí andas cheia de preocupações, cansada'.


Ao longo destes anos tive algumas vezes que fazer noitadas de trabalho, do género de chegar a casa às 4 da manhã, outras tantas vezes a ter que ficar fora de casa, idas ao estrangeiro, tantos momentos difíceis, com fusões de empresas pelo meio, reestruturações violentas, extinções de muitos postos de trabalho, discussões, desafios complicados – mas tudo tem valido a pena.

Houve vezes em que, em reuniões ou momentos de agitação ou discussão, diziam de mim que, daqueles homens todos, eu era a única que tinha tomates (os homens falam assim, vocês sabem…). Nunca me senti menos feminina por isso. Sou feminina, 100% feminina, disso não tenho dúvidas. Sou feminina na minha essência e na minha aparência (raramente uso tailleurs de calça e casaco e nunca com camisas de corte masculino. Pelo contrário usos frequentemente saia e sempre saltos altos).

Mas o facto de ser assim a nível profissional, não significa que descure as minhas verdadeiras prioridades. Muitas vezes, no trabalho, sabem que não quero ser interrompida – mas se a chamada for de alguém da família, aí interrompo tudo.

Ontem disse que nunca me senti prejudicada por ser mulher. Mas também nunca fui chamada à atenção para 'ser mulher' porque o sou. E sou-o na minha maneira de estar profissionalmente. Ouço as preocupações de toda a gente, sei dos problemas pessoais que têm, aconselho, ajudo no que posso. Actuo como mulher (tentando consensos quando aconselhável, trabalhando em equipa, estimulando a partilha, não tendo medo de arriscar). Uso da minha franqueza em qualquer situação mesmo quando isso causa embaraços, ou causa clivagens. Dizem, por vezes, que tenho anti corpos. Sei que os tenho mas nunca consigo calar a minha consciência - ela fala sempre mais alto do que qualquer conveniência. E nunca guardo rancores, ressentimentos. Defendo o que tenho a defender e sigo o meu caminho.


Tenho nas minhas amizades e na minha família mulheres que não trabalham e que acham que eu sou ‘de outro mundo’ porque aparento ser uma mulher normal e, afinal, trabalho como os homens costumam trabalhar. Mas sou mesmo absolutamente normal e, geralmente, quando estamos juntas, elas acabam por se esquecer desta minha ‘particularidade’. Sou capaz de falar de receitas de culinária, maçadas com a limpeza da casa, problemas médicos, coisas da escola dos miúdos, lojas onde se vendem coisas interessantes ou a bom preço, e faço tapetes de arraiolos e já antes fiz tricot ou crochet (porque gosto imenso de fazer trabalhos manuais), assuntos gerais que interessam a qualquer mulher. Faço tudo o que faz uma mulher que não trabalha fora de casa. A diferença é que faço tudo à pressa e, provavelmente, com menos rigor e perfeição do que se o fizesse com mais tempo. Habituei-me de tal forma a ter pouco tempo para fazer as coisas que, se tenho um dia inteiro para arrumar a casa, fico a empatar, parece que me sobra tempo. Ainda ontem tive que coser uma coisa. Cosi mas de pé, num instante. Se tivesse mais tempo, sentar-me-ia e faria as coisas com vagar. A minha mãe, antes de ter desistido de me educar, dizia muitas vezes que eu fazia 'tudo à pressa e sem preceito'. Mas eu achava que o resultado era o mesmo, portanto estava tudo bem.


E há coisas que nunca estão arrumadas como deveriam: os livros por aqui andam sempre, uns em cima da mesa, outros ao lado do sofá, uma pilha junto à cama, outros fora das estantes; o sítio dos meus sapatos: eterno motivo de paródia. Mas não considero que isso seja grave.


Foi desde sempre uma opção de vida. E sempre me pareceu perfeitamente compatível com a vida de família. Nem nunca senti a tentação de me masculinizar ou de aparentá-lo para melhor me impor. 

Em síntese: de acordo com a minha experiência, que cada mulher aja de acordo com a sua vocação, a sua vontade, sem tabus, sem inibições, sem medos. Que aja de acordo com a sua consciência, de acordo com os seus desejos, e com equilíbrio, com uma avaliação das verdadeiras prioridades a cada momento da sua vida. 


Quem opte por ficar em casa que o faça por gosto e não por impotência ou por desistência, que o assuma com orgulho e mantendo o interesse em aprender e descobrir sempre novos interesses; quem opte por trabalhar fora de casa, que o faça sem complexos de culpa, que não pense que está a descurar a família ou a casa porque é possível conciliar tudo.


A vida é curta. Não deve ser desperdiçada, não deve ser adiada. Que as mulheres vivam a vida como a querem viver. Que tomem as rédeas da vida nas suas próprias mãos.

Quanto aos homens, volto a dizê-lo: os que são inteligentes, sabem que as mulheres mais completas são as que são verdadeiramente parceiras (seja a nível profissional, seja a nível sentimental, seja a nível sexual ou social). Os que são pouco dotados julgam que as mulheres são seres inferiores, menos capazes, criaturas que nasceram indefesas, que precisam de ser cuidadas e que pouco mais podem do que ficar em casa, de roda do fogão e a coser meias; mas enganam-se nisso, como se enganam em quase tudo na vida. Problema deles, portanto.


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As fotografias são todas de Guy Bourdin (França, 1928 - 1991)

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E tenham, meus Caros, um belo Carnaval.  Obviamente não trabalho, é dia de folga e vou aproveitá-lo. Divirtam-se que eu tentarei fazer o mesmo.
  

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

Ser mulher hoje - com imagens de Man Ray e com acompanhamento musical de Jessica Rabbit


O que é uma mulher? É um ser que se resume a ser o feminino de homem? E qual o papel da mulher nos tempos que correm?

É um tema que me ocorreu no outro dia ao ouvir as bafientas palavras do Cardeal D. Manuel Monteiro de Castro, recomendando que, especialmente nestas épocas de crise, as mulheres fiquem em casa ou, pelo menos, trabalhem apenas em part time para melhor se poderem dedicar à família.


A autora de um blogue que muito aprecio, A Matéria dos Livros, de certa forma aborda este assunto ao referir um livro que tenho agora também aqui ao meu lado, Humilhação e Glória (O acidentado percurso de algumas mulheres) da autoria de Helena Vasconcelos, da Quetzal, um livro com uma bela capa de Rui Rodrigues sobre fotografia de Man Ray. Já o comecei a ler como costumo começar por ler os livros: em diagonal, de trás para a frente. Irei certamente agora retomar algumas das partes que, desta amostragem, maior interesse me despertaram.

Mas, enquanto não tenho material para me pronunciar de forma fundamentada sobre o livro, permito-me aqui apresentar a minha opinião baseada no meu caso pessoal.


Gosto muito de ser mulher. Acho que sou bastante feminina em tudo o que isso costuma querer dizer, mesmo no lado mais superficial: gosto de me arranjar bem, gosto de écharpes longas e macias de cores quentes ou suaves, gosto de perfumes, especialmente de perfumes Chanel, gosto de me enfeitar com jóias ou bijouteria, gosto de usar sapatos de salto alto, gosto de me maquilhar, gosto de ter vários batons, de cores variadas para condizer com o tom da roupa. Enfim, essas coisas de mulher.

E sempre senti o apelo do 'acasalamento'. Sempre namorei, casei cedo e cedo senti o forte apelo da maternidade. Sou toda protectora dos meus meninos, dos grandes, dos pequeninos.


E gosto muito da casa, da casa no sentido de lar. E, por isso, a minha casa é o lugar dos meus afectos, dos meus objectos, que arranjo com gosto e gosto de descobrir coisas que trago para casa mesmo que não façam falta nenhuma, como uma caixinha bonita, umas velas cheirosas, uma moldura rendilhada, uma almofada de um veludo macio, uma mantinha quente e de belo colorido.

E, no entanto.

E, no entanto, sempre vivi mais entre homens que entre mulheres. No meu trabalho, os meus colegas são quase todos homens. Até há muito pouco tempo era eu no meio de apenas homens.

E, no entanto, nunca me senti condicionada por ser mulher. Trabalhei enquanto estava grávida (na primeira vez, calhou até trabalhar sob 'orientação' de um alto e exigente especialista do Banco Mundial, tendo que me sujeitar a horários e calendários rígidos), trabalhei enquanto os meus filhos eram pequenos e enquanto amamentava, trabalhei tentando conciliar a dedicação familiar, a dedicação profissional e não descurando os meus interesses pessoais e a minha aparência.


E, se foram momentos de grandes ginásticas e canseiras (trabalhar em Lisboa, com trânsito constante, com distâncias demoradas, muitas vezes a ter que me deslocar para fora, inclusivamente para o estrangeiro, foi um exercício de permanente equilíbrio), em que nunca me senti sacrificada por ser mulher, ou preterida do ponto de vista profissional por ser mulher, tenho que reconhecer que muito o devo ao facto de, em casa, sempre termos sido uma equipa, em que há suporte e respeito mútuos e, também, à sorte de, no trabalho, ter tido superiores hierárquicos inteligentes e pessoas do seu tempo.

Os meus filhos cresceram a saber que a mãe trabalha, que gosta de trabalhar, e que gosta de ter outras actividades. Os meus filhos cresceram habituados a perceber que, por vezes, em certos momentos, algumas coisas deixavam de ser prioritárias ou de ter grande importância. Mas sempre contaram com a disponibilidade da mãe para ir às reuniões na escola, para os acompanhar nos estudos, para os acompanhar com atenção e carinho (e ralhetes) em todos os momentos da sua vida.

E, no trabalho, toda a gente sabe que sou responsável, cumpridora, exigente, etc, mas que, ao primeiro telefonema porque uma das crianças estava doente na escola, eu largaria tudo porque, antes de tudo, estavam eles, sempre estiveram e sempre estarão. E, apesar disso, nunca senti que esta minha disposição me prejudicasse talvez porque todos sempre souberam também que, se for necessário, trabalho em casa, à noite, ao fim de semana, em férias - sempre que tal, efectivamente, é preciso.


Mas não faço, nem nunca fiz, género nem concessões de qualquer espécie. Não fico até às tantas, evito ficar a trabalhar à hora de almoço, evito almoços de trabalho, odeio reuniões intermináveis, odeio show offs, não faço de conta, não digo sim quando acho que devo dizer não.

Tenho visto muitas mulheres que acabam por ficar, profissionalmente, pelo caminho. Essencialmente são as que se queixam, as que vitimizam, as que se acham subalternas, as que não sabem gerir as suas prioridades. 

Sei que poderia 'ser' mais do que sou, sei que, por exemplo, gostaria de fazer política - ou seja, sei que o que faço está aquém do que poderia e gostaria de fazer. Mas é um balanceamento. Se o fizesse teria que abdicar de algumas coisas de que, até aqui, não quis abdicar e teria que fazer concessões que, até aqui, não quis fazer. 


Conheço muitas mulheres que, talvez fruto da educação que receberam e da qual nunca se conseguiram libertar, têm medo da opinião dos outros, têm medo de fazer valer a sua opinião ou a sua vontade, sentem que se devem mostrar submissas, tímidas, inseguras, passivas. Isso é, de facto, o maior obstáculo. As mulheres não têm que ter vergonha de se afirmar ambiciosas, exigentes, determinadas e, ao mesmo tempo, sensuais, sedutoras, femininas. Não são faces opostas: são complementares.

No entanto, há um aspecto que tenho que reconhecer. As mulheres conseguem impor-se mais facilmente e viver mais felizes, mais apoiadas e reconhecidas quando têm a sorte de viver rodeadas por homens inteligentes.

Em contrapartida, homens limitados, medíocres, mesquinhos, insignificantes, são frequentemente misóginos, acham-se superiores às mulheres, evitam-nas (num claro sinal de cobardia).

É um conselho que dou, não sem alguma ironia: sempre que possível, mulheres inteligentes e ambiciosas (ambiciosas no sentido de quererem ser como são, de quererem fazer o que lhes apetece) evitem ambientes em que pululem homens ignorantes, estúpidos, parvos, porque homens assim são um atraso de vida. 

E, nunca por nunca, devem as mulheres abrir mão dos seus sonhos, dos seus desejos, da sua feminilidade. Ser mulher não é defeito, não é castigo, não é uma cruz. Ser mulher é uma coisa extraordinária que deve ser festejada a cada instante.


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Dado o adiantado da hora não me apeteceu fazer pesquisa aturada que me conduzisse a um tema porventura mais apropriado


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E, por falar em Man Ray (1890 - 1976): as fotografias são dele, um americano que viveu grande parte do tempo em Paris, um modernista, e retratam mulheres também elas modernas, Lee Miller, Remy Durval, Kiki de Montparnasse, Comptesse de Saint Exupery, nomes que por si só recriam todo um ambiente feminino.

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E tenham, meus Caros, uma boa segunda feira!
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(E, se estiverem numa de palavras à solta, e de poesia de António Ramos Rosa, e de fotografia e de Schumann, não quererão dar uma saltada ali ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, a love affair?)
   

domingo, fevereiro 19, 2012

O Homem de Luís Veiga Leitão; As Gaivotas e as Palavras Interditas de Eugénio de Andrade; Maria Bethânia e o Poema Azul de Sophia de Mello Breyner; e o Circo du Soleil debaixo de água


É no silêncio do caminho aberto:

Quanto maior a alma maior o deserto
maior a sede e a miragem
do mundo à nossa imagem


['Homem' de Luís Veiga Leitão'

Ginjal, este sábado pela manhã


As gaivotas. Vão e vêm. Entram
pela pupila.
Devagar, também os barcos entram.
Por fim o mar.
Não tardará a fadiga da alma.
De tanto olhar, tanto
olhar.


['As gaivotas' de Eugénio de Andrade]

Este sábado, gaivota atravessa a rua numa passagem de peões junto ao Tejo










Tenham, meus Amigos, um belo Domingo - se possível, rodeados de beleza.
  

sábado, fevereiro 18, 2012

Passos Coelho e o desemprego; Cavaco Silva, os meninos da Escola António Arroio e um apelo a que se façam mais (meninos); Pedro Reis do AICEP e as buzzwords mais maçadoras e inúteis que há. E, a seguir, Nigel Farage, as marionetas e os vilões que governam a Europa; a declaração do político gay; e Rudolph Nureyev e o Muppet Show


Sou assim. Sou optimista, lutadora, gosto de defender vigorosamente o meu ponto de vista, sou bem disposta, adoro rir à gargalhada, até as lágrimas de preferência, entusiasmo-me com os desafios, sempre curiosa com o que é novo, sempre predisposta a encarar com tolerância a maluquice desde que pacífica (que me atrai mais que a vulgaridade comezinha) – mas sou assim se estiver bem. E geralmente estou. 

Acho sempre que há solução para tudo: fecha-se uma porta, abre-se uma janela, chega-se ao fim de um caminho, dá-se a volta e vai-se por outro, e raramente desisto ou desanimo. 

Por pouco cinéfilos ou pouco literários que estes estados de alma sejam, é assim que sou. Mas se algum rude golpe me atinge onde sou mais vulnerável, então fico com a energia no nível mínimo. E isso prende-se sempre com a morte, aí quando não há mesmo nada a fazer, em que a única saída é aceitar, é reajustar a vida encaixando essa perda, e depois seguir em frente.

Foi o que aconteceu esta semana. Down, down, down. Uma tristeza muito grande seguida de um cansaço devastador. 

Mas eis que, ao fim de três dias e de nove horas de sono profundo (de quinta para sexta-feira), me sinto a recuperar e a voltar ao normal.

Submersa por uma situação que absorveu todo o meu tempo e disponiblidade, mal dei pelas notícias.

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Sei que o desemprego oficial já está nos 14%, não contabilizando umas centenas de milhares de pessoas - ouvi mesmo falar num milhão de pessoas. Uma tragédia. Passos Coelho diz que ainda vai ser pior. Um País a ser governado contra o povo. Um País de velhos, reformados, de pobres, de desempregados, de espoliados, a ser governado por um grupo de pessoas que faz tudo ao contrário do que devia e que, mais grave ainda, não faz a mínima ideia do que anda a fazer. Um perigo. Mais um buraco negro na história deste País.

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Um dia à noite, a esse respeito, acho eu, ouvi o Luís Filipe Menezes, com ar compenetrado de grande político e com aquele seu ar vagamente chorão, a dizer que era normal que isto acontecesse e que ainda ia piorar e que era natural que assim fosse, que aos anos de regabofe se seguisse agora este período de punição e sofrimento (bom… ele, obviamente, não usou estes termos). Mas eu, apesar do estado em que estava, ainda consegui sentir um incómodo. 

Mas quem é este senhor para falar assim? À frente de uma autarquia altamente endividada, quem é ele para vir agora falar assim? E que sabe ele de políticas económicas ou de história económica para andar por aí a perorar a favor destas políticas miserabilistas?

Esta gente ainda não percebeu que não é com miserabilismo que se corrige a situação de desequilíbrio em que vivemos? Que não sabem a teoria já nós damos de barato. Mas não conseguem perceber com a observação dos casos práticos? Não vêem o que se está a passar na Grécia e em todo lado em que a economia é sorvida pela austeridade?

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Também me dei conta que, sabendo que havia uma manif à porta da António Arroio, Cavaco Silva deu meia volta e recolheu aos aposentos. E se não foi isso, também não se sabe o que foi. Um faits divers sem importância que apenas é chato porque deveríamos ter um presidente forte (face à fraqueza do governo que temos) e não um personagem que se desgastasse em sucessivas peripécias infelizes. Mas enfim, poupemo-lo para ver se um dia que seja preciso, ainda podemos contar com ele.

Hoje parece que andou, à porta fechada, a discutir com uns artistas convidados, a melhor forma de incentivar os portugueses a procriar. Fica-lhe bem e é uma causa inteligente. Mas, uma vez mais, são coisas ad hoc, desintegradas, que acontecem no meio das maiores contradições. Cavaco quer que se façam filhos, o Governo diz que os filhos mal estejam criados devem pôr-se ao fresco. É a chamada soma nula.

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Há pouco estava na SIC N a ver o Expresso da Meia-Noite e ouvi um pouco aquele senhor, um gémeo separado à nascença (embora com alguns anitos de diferença, coisa que, para o caso, pouca diferença faz) de Freitas do Amaral, Pedro Reis de seu nome, actual responsável pelo AICEP, e que, só de ouvir, se percebe logo que pouco mais sabe do que citar jargões, buzzwords estafadas, e tudo com ar blasé, voz de betinho afectado: um desastre. Quem fala assim não merece confiança de quem se move no mundo dos negócios reais e as notícias do que se está a passar no País fazem mesmo temer o pior (ainda hoje a Peugeot revela que vai despedir mais 350 pessoas). O País precisa de acção e de inteligência e só vejo disto.

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Passeei pela blogosfera e também poucas novidades. Aqui e ali uns apontamentos mas nada de muito entusiasmante porque nada de entusiasmante acontece por estas bandas. Divagações, recordações, dissertações, acomodações, alienações, provocações e pouco mais. 

Mas como outra coisa quando o País definha entediadamente?

O País envelhece, deprime-se, empobrece - e tudo pacificamente, no meio do maior spleen.

Por delicadeza deixamos que nos estraguem a vida, é o que é (quase como aconteceu ao outro, ao Rimbaud, o que dizia que par délicatesse j'ai perdu ma vie). Assim estamos nós. Que maçada.
  
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Ora bem. Apetece-me gente que parta a louça. Ou que faça qualquer outra coisa com piada. Vamos?



Não haverá por cá nenhum dissidente do género do Nigel que parta a louça toda nas sessões com o Doce Coelho, com o Relvas, com o engenheiro civil Moedas (que gosta de se travestir de expert económico-financeiro) e com o Gas-pa-ri-to?


Oh senhores....não? Mas nem um ministro ou deputado que venha assumir publicamente, com uma mulher matrafona ao lado, um deslize numa casa de banho...? Nada? Não temos por cá ninguém que nos faça rir?


Por amor da santa... !
Ok, já nem peço políticos...
Mas nem ao menos um bailarino que pegue na Popota Merkel e a faça rodopiar assim....?
Estamos assim tão mal?
Já batemos mesmo no fundo? Ui....
.....

Divirtam-se meus Caros e tenham um bom sábado!
  

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Tristesse num Teatro às Escuras e Caravaggio - Chopin, Pedro Tamen, Elena Pris e Vladimir Malakhov

Chopin - Tristesse

        - Pressinto um outro mundo.

        - Terá que passar a história inteira
        até que o dia de hoje chegue aos olhos.

        - Aos olhos que persistem...

        - ...que hão-de ver as brumas sobre os rios
        que as transportam ao coração da terra.

        - Estamos aqui parados
        até que a luz nos veja.


                                            Vem a luz.
                                      O Teatro ilumina-se.
                                      O palco está deserto


['Ela e Ele, alternadamente' de Pedro Tamen in 'Um teatro às escuras] - Em memória de um Homem bom


Lembrei-me de aqui usar esta fotografia do último post no meu Ginjal e Lisboa; a paz, as aves em volta, o mar, o silêncio.


Staatsballett Berlin, Música de Monteverdi, Coreografia de Claudio Bigonzetti
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Aos meus Caros Leitores desejo uma boa quarta feira

(Peço desculpa por hoje não ter conseguido responder aos comentários)

terça-feira, fevereiro 14, 2012

O meu amigo está longe e, patrão fora, dia santo na loja - a mulher está a tramar alguma...e com a minha colaboração....

 NOTA AOS MEUS LEITORES



Por precaução retirei as fotografias da Kristin Scott Thomas deste post pois uma das que tinha colocado parece ter pertencido a um site referenciado pela Google como portador de vírus.

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Ah, meu amigo, estás longe, ocupado, não vais ler o que vou escrever e isso deixa-me à vontade pois vou poder contar o que se passou hoje, sem correr o risco de leres. Daqui por uns dias, antes de estares de volta, apago este post. Não será por mim que o vais saber.

Como resposta ao teu mail de ontem, escrevi-te simplesmente: "Que ideia a tua, meu amigo. Não estou nada hostil, porque haveria de estar? Tiveste mais um ataque de carência por pensares que alguém à superfície da terra não está em estado de permanente sorriso na tua direcção. Isso já te passa. Mal te vejas rodeado de sorridentes cortesãos, voltas de novo a sentir-te o maior e nem te lembrarás mais do que escreveste. Boa viagem e sucessos."


Sei que, no intervalo de qualquer coisa importante, deitarás uma vista de olhos ao teu blackberry, verás que é apenas um mail meu, nada de crítico e provavelmente apagá-lo-ás, desinteressado. O normal.

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Música, por favor.

Janis Joplin - Woman left lonely

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Pois bem. Mais cedo do que estava à espera, ligou-me a minha amiga, queria saber se dava para ser hoje. Ia despachar a empregada mais cedo e a filha só voltava à hora de jantar, lá para as 9, pelo que o terreno ia ficar livre dentro em pouco. Lá me replanifiquei, consegui sair do trabalho um pouco antes das seis e, como mora ali por perto, decorrido pouco tempo já eu lá estava.

Foi ela que me abriu a porta, já estava sozinha. Lembrei-me do que me disse no sábado, 'nem vais acreditar'. E, de facto, se não visse, não acreditava.
Era outra. Tinha um fato verde muito escuro, meias de rede preta, sapatos altos de veludo. E, na cabeça, um pequeno chapéu de feltro e, mais curioso ainda, o rosto estava coberto por um véu de rede preta. Fiquei de boca aberta, calada, pregada ao chão. Ela ria-se, aquele seu sorriso etéreo, 'Entra, não podemos perder tempo'.

Estava elegante, misteriosa. 'Queres que abra os cortinados?'. Tinha-os corrido. Mas a luz já escasseava, era indiferente. Ficaram corridos, davam um ambiente mais íntimo. Acendi um candeeiro de pé mas já estavam acesos outros dos lados do sofá maior.

'Vou pôr música, não achas melhor?', estava segura, tinha pensado em tudo. Eu é que estava sem acção, não estava à espera de vê-la assim.

Avançou para a aparelhagem, colocou um cd. A Janis Joplin, imagine-se. Depois perguntou-me: 'Queres uma bebida?'. Claro que não quis, não costumo beber fora das refeições. Mas ela arranjou uma para ela 'ajuda a descontrair'.

Ainda tentei que me esclarecesse, 'mas porque queres tu fazer isto?'. Mas ela não estava para conversas, 'deixa, logo te conto, agora anda'.

Confiante, bem disposta, nem parecia a mesma. E então começou a dançar. 'Onde achas melhor que seja?', perguntou-me. E, como eu hesitasse, ela adiantou logo que achava que podia ser ali mesmo, que ali estava quentinho (tinha a lareira acesa o que dava uma bela luminosidade à sala).

E então sorridente, apressou-me, 'Vamos começar, senão atrasamo-nos e ainda somos apanhadas'.  E eu ainda sem saber bem o que devia fazer, por onde começar. E era ela, hoje toda decidida, que assumia o comando, 'Despe-te, ainda estás com o casaco vestido, com o casaco não dá jeito nenhum... acho eu...'

Lá tirei o casaco e ela 'tira também os sapatos, não deve dar jeito nenhum estares de sapatos'. Tirei, ainda estava com os meus saltos de agulha, desapropriados para as circunstâncias. 

E então, sentou-se à minha frente num sofá e, olhando-me nos olhos, ordenou convicta: 'Vá, começa.'

Mas eu é que ainda não estava in the mood. Nunca tinha feito isto, não sabia como me iria sair. Mas ela encorajou-me, 'Vá, não hesites, não penses, começa'. E eu, então, comecei.

E comecei a tomar-lhe o gosto. Aproximei-me, olhei-a bem de frente e não parei. 'Tira o chapéu, quero ver bem os olhos', disse-lhe e ela assim fez. 'E tira os sapatos e essas meias' e ela assim fez e soergeu-se a olhar para mim. 'Assim mesmo, deixa-te estar', disse-lhe eu.

Comecei a ganhar o gosto, entusiasmei-me, afinal gostava disto. E tive uma ideia, 'levanta-te e segura o cabelo' 
Mas depois tive outra ideia: 'despe essa roupa, anda ver se tens um vestido decotado, simples'. Fomos até ao quarto e ajudei-a a escolher, ajeitei o decote, ficava linda. 'Arranja aí uns ganchos, apanha mesmo o cabelo', ajudei-a, sempre gostei de ser cabeleireira.

'Agora vem, apoia-te aí nessa mesa. Olha bem para mim. Não, assim não, olha antes para o lado'. E ela olhou para o lado, com aqueles seus grandes olhos inocentes.
Fotografei-a de vários ângulos, a luz iluminava o rosto de uma forma suave e ela sorria, aquele seu sorriso irreal. 'achas que está a ficar bem?', perguntou com ar de quem sabia que estava óptima.

E ela própria já dava ideias, circulava a fazer poses, ágil, desenvolta. 'Olha, agora aqui' e encostou-se a uma porta, soltou o cabelo, deixou descair o vestido para que o ombro ficasse todo de fora, passou as costas da mão pelos lábios para ficar mais natural.

Uma maravilha, as fotografias estavam a ficar uma maravilha e eu mal podia esperar para vir para casa, passar para o computador, ver como ficaram.

No fim ainda lhe pedi que se despenteasse, que pusesse um ar pensativo, que queria um grande plano e ela, disposta, coquette, assim o fez. Mas ao ver agora a fotografia, noto que uma sombra, ainda que talvez ligeira, já parecia toldar-lhe o olhar.

À saída, voltei à carga, 'Mas oh menina, conta lá para que é isto'. E ela, sorriso ainda malandro, tão diferente do ar bem comportado de dona de casa exemplar, 'Um dia destes conto-te mas, vá lá...eu conto um bocadinho: quero oferecer a uma pessoa' e eu a tentar que ela dissesse mais.

Mas não, de repente voltou a ser a outra, compenetrada, que a filha estava a chegar dentro de pouco tempo e que jantava sempre à pressa para sair logo depois, que o marido ainda não lhe tinha ligado, que devia andar muito ocupado, que anda tão cansado, que nem se devia lembrar de telefonar e que também não gostava que ela lhe ligasse, tomara que se deitasse a horas - e era já uma mulher habituada a tantas noites de solidão que falava. Mas acrescentou, com o ar mais natural do mundo: 'Ah, a propósito, não lhe contes nada, estás a ouvir...? Aliás, não contes a ninguém.'

Claro, sei guardar um segredo.

Aquele ar inocente, de quem peca sempre na maior candura, sempre me intrigou, sempre me cativou. Mas talvez seja por ser assim que a tenho por minha amiga. Consegue, desta forma, não ser uma insuportável chata.

E aqui estou agora, a ver as fotografias, satisfeita com o meu trabalho (afinal gosto de fazer retratos, pensava que não gostava de poses, que apenas gostava de andar de volta das pessoas, a apanhá-las em movimento, naturais). E estou muito intrigada com o que andará ela, a bela modelo, a fazer. Tenho que tentar descobrir pois intuo que vou ter uma bela surpresa...!


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E tenham, meus Caros, uma bela terça feira!

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[Para os que não têm acompanhado esta história: o primeiro capítulo foi este, pelo meio houve uns dois ou três e o último foi este. A mulher fotografada é, como é sabido, Kristin Scott Thomas e o 'marido' é Patrick Dempsey]
  

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

O meu amigo enviou-me um mail (e não queria que eu falasse nisso - por isso, por favor, deixem-me contar com a vossa reserva).


Música, por favor

 Leonard Cohen - If it be your will

«»«»«»




Sem mais palavras, reproduzo a seguir o mail que me enviaste. Não me condenes. Isto é apenas uma história e nós somos personagens fictícios. Ninguém nos relacionará com ninguém. Descansa, pois,  meu amigo.

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Não sei porque andas a fazer isto, justamente tu. Melhor do que ninguém deverias saber a pressão a que estou submetido, as exigências brutais, os resultados que têm que aparecer aconteça o que acontecer. Se não aparecem e queremos justificar, já dizem que não querem desculpas, querem é soluções. Mas também não é isto que eu próprio digo aos meus colegas e aos meus directores? 

Tu, melhor que ninguém, não sabes da solidão que me rodeia, sempre rodeado de gente, sempre de uma reunião para outra, sem tempo para me preparar, sempre a ter que confiar na minha capacidade de improviso? Julgas que não percebo a quantidade de vezes que digo frases circulares, sem acrescentar nada, palavras ocas, julgas que não sei disso? Não sabes o que me enervo de cada vez que tenho que dar uma entrevista, não sabes o quanto gostaria de poder furtar-me a isso? Não sabes? Não sabes que sou eficiente, bem sucedido, um gestor modelo, premiado e que, portanto, não posso falhar? Não sabes o que custa saber que não se pode falhar? 

E não sabes que há dias em que já nem consigo olhar na cara tantos assessores, tantos consultores, tantos yes men? E que, apesar disso, tenho que os aturar e com boa cara, sempre com boa cara? E que há dias em que já não consigo aturá-los e continuo a rir, a dizer piadas, a exigir, a ser o mais exigente de todos os administradores exigentes que já passou por aquela casa?

E julgas que não sei o quanto os que me rodeiam desejam que eu falhe? Não sabes o quanto tantos desejam o meu lugar? Não sabes tu isso?

E com quem é que posso falar sobre isto? Com quem? Quando cá estavas, falava contigo, ajudavas-me, eu achava que tu me ajudavas a ser melhor, e agora, que te foste, com quem é que eu posso aconselhar-me?

E tu sabes que não é com a minha mulher que eu posso falar disto, tu conhece-la bem, tu sabes, ficava preocupada, não percebia, ficava atormentada, não me ajudava nada, ainda tinha que ser eu a descansá-la. 

Tantas cruzes que eu carrego. E quem me ajuda a mim?

Conheces-me. Mas sabes que ando agora sempre com um aparelho de medir a tensão, ando sempre com medo de ter um problema de coração, ando sempre a avaliar os sinais, se a pulsação acelera, se sinto um aperto no peito? Sabes que tenho que tomar ansiolíticos? Eu não era assim. Mas ninguém sabe disto, disfarço, não quero que saibam, que especulem - ia ser uma festa, se soubessem, não tardava um dia que não aparecesse nos jornais. E sabes que tenho cada vez mais medo de andar de avião? Mas a quem posso eu confessar isto, sempre a ter que andar de um lado para o outro?

É verdade que ganho milhões e tanto que se fala nisso, é verdade que acho que o mereço, é verdade que me tranquiliza ter aplicações de milhões, mas, sabes, tantas vezes que penso que um dia alguma coisa me vai acontecer, que vou ser dispensado como lixo, ou que não vou aguentar e me vou abaixo e me vou afastar. Tenho dias em que mal tenho força para me levantar mas depois lembro-me de quem sou e vou correr e, ao correr, parece que tudo passa.

Mas agora tu começaste a fazer isto, a escrever tudo nesse blogue, não sei o que te deu, para que fazes isso? E porquê toda essa frieza? Porquê essa hostilidade?

Tinha pensado escrever que não falasses neste meu mail lá no blogue, pensei em implorar em nome de tudo, mas não vou fazer isso. Vou apenas apelar ao teu bom senso. Não o faças. 

Ficaste impressionada com aquela cena do carro lá na Cidade Universitária mas já te disse que não é o que estás a pensar. Não posso negar que tenho tido os meus pequenos romances mas são pequenos, insignificantes. Não sabes tu como é indispensável algum toque de humanidade nestes dias de gelo, de números, de gráficos, de spreads, de cotações? Não sabes tu que, em tantos dias de sufoco, de aflição, é tão necessário algum toque de pele, por leve que seja, por ocasional que seja?  Um sorriso, um afago? Não sabes? 

Estou de saída. Vamos em bando, como de costume. Uma agenda preenchida como de costume, um stress, uma correria. Queria ir ao meu alfaiate lá em Londres mas agora apareceu uma porcaria à última hora, nem devo ter tempo. Sé regresso daqui por uns dias, horas enfiado dentro do avião, chineses por todo o lado, negócios, parcerias, dossiers e mais dossiers e à noite, cansado, ainda a ter que ver aquilo tudo. Não sabes tu o que é esta minha vida? Então porquê essa desconfiança, essa hostilidade, essa crispação? Quando todos se afastarem de mim, o que me restará?

Volto a dizer que acho que seria muito mau, muito imprudente, se te referisses a este meu mail lá no teu blogue. 

Falamo-nos depois.

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Tenham, meus Amigos, uma boa segunda feira!

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PS1: Se quiserem saber o que penso deste novo acordo na Grécia e do que nos espera, desçam, por favor, até ao post abaixo.

PS2: Para quem não acompanha esta história desde há alguns dias, refiro que a 'cena' anterior está já ali abaixo. E a ver se manhã vou aos posts anteriores, fazer um link como fiz agora aqui.

domingo, fevereiro 12, 2012

Atenas em chamas - ou como todos nós deveríamos estar solidários com a atormentada população grega


O Parlamento grego aprovou mais um plano de resgate para a Grécia. O acordo consiste em emprestar mais dinheiro sendo que apenas aquele que se destina às necessidades mais básicas é que é posto à disposição do governo grego. O resto fica numa conta que se destina a salvar o dinheiro dos credores.

A Grécia, perde pois a sua autonomia mais essencial: a de poder administrar os recursos mais primários.

Em contrapartida, novo e ainda mais doloroso plano de austeridade é imposto à população.

Pelo meio o Governo perdeu vários ministros. Tinha sido dito de forma clara que, quem não estivesse disposto a aplicar o veneno, deveria saltar fora. Saltaram, salvo erro, seis: disseram que a Grécia estava a ser sujeita à mais inadmissível humilhação.

Não questiono os exageros que aconteceram antes, porque aconteceram com a conivência de todos, especialmente daqueles que, por isso acontecer, venderam para lá que se fartaram e, para que eles tivesse dinheiro, emprestaram sem olhar a garantias (os alemães à cabeça). Aconteceu e todos são tão culpados quanto eles. Além disso, é sabido que geneticamente é um povo temperamental, dado a efusividades, explosões emocionais, prazeres. Mas por serem assim é que são tão criativos, tão afáveis. E devem ser respeitados. Têm direito à sua dignidade e é um crime atentar contra isso.

Com juros agiotas a devorarem toda a já escassa riqueza, a fustigarem até à exaustão a débil economia grega, não é possível a Grécia reconquistar a sua soberania.

E não é com mais medidas de austeridade que as coisas se vão resolver pois tem sido esta receita que tem estado a matar a Grécia.

Hoje ficámos a saber que Georges Soros criticou severamente na imprensa alemã a conduta de Merkel,  defendendo aquilo que vem clamando há algum tempo: que a Alemanha está a conduzir a Grécia para maus caminhos. Explicou que aquilo de que a Europa precisa é de injecções de capital para reanimar a economia e não de austeridade porque isso pára a economia.

Mas duvido que a obstinada Merkel perceba. Nestas alturas dava jeito ter gente com uma cabeça arejada, com cultura, com conhecimentos, à frente das instituições. Mas parece também que em toda a Europa esse tipo de gente desapareceu e que apenas existe uma luterana ortodoxa que nem contabilista é. Sorte macaca esta.

Face a tudo o que se está a passar, Passos Coelho e companhia, sem perceberem a relação causa-efeito do que pode ser presenciado, continuam cegamente a advogar a mesma política para Portugal e afirmam aos sete ventos que querem fazê-lo de forma exemplar. A coisa mais desesperante que há é ver uma pessoa a querer fazer correctamente, com muita determinação, uma coisa horrível, uma coisa que, de todo, não devia ser feita (por exemplo, uma pessoa a cometer um crime de uma forma muito eficiente e determinada).

Tomara que Sarkozy caia em breve, tomara que Merkel caia a seguir. Acho que, neste momento, é a única esperança que podemos ter.

Um sábado feliz, Tejo pela manhã, almoço no Largo, Dama de Ferro no Londres


Música, por favor

E, já que vamos passar junto ao S. Carlos, Maria Callas - Norma de Bellini

.......

Sábado, dia de descanso, de passeio, de amigos. 

De manhã, passeio junto ao rio, um frio, um frio azul, quase ninguém, apenas algumas pessoas que passam encolhidas junto a paredes destruídas, e eu fotografo uma vez mais as paredes, as janelas, as portas por onde, em tempos, passaram pessoas e que hoje são apenas uma ruína, uma recordação.

Ginjal numa fria manhã de sábado

Raros pescadores, o frio custa a aguentar nestas manhãs assim. Vou andando, aspirando esta maresia gelada, observando as gaivotas que fazem grandes voos, descendo até ao rio, e fotografo-as, são minhas irmãs, seres livres que invejo (um dia hei-de transformar-me numa).

Pescador e gaivota, este sábado no Ginjal, com Lisboa, a bela, em fundo


Durante o passeio matinal, telefonemas, combinações, um almoço, cinema, lanche. E então, o que se desenhava como uma tarde no aconchego da sala, em casa, o Expresso lido em sossego e com tempo, veio a ser uma bela tarde entre amigos.

Por sugestão nossa fomos ao Largo e, se me desculparem a publicidade (desinteressada, que, como é óbvio, não tenho participação no restaurante), a quem possa, recomendo uma ida lá. É ao pé do S. Carlos, mesmo ali no coração do Chiado, tem uma decoração muito agradável, tem uma comida óptima. Optei pelo Menu de Almoço (18 euros pela entrada e prato principal, que, com o couvert, sobremesa e bebidas sobe facilmente para o dobro) e escolhi, de entrada, umas lulinhas fritas com molho tártaro, deliciosas, e, de prato, um risotto de polvo, saboroso. De sobremesa, partilhei uma sopa de frutos vermelhos com creme de mascarpone.

Como poderão ver no filme que acima linkei, uma das paredes tem embutido um aquário de vidros pretos e, lá dentro, deslizam,  transparentes, intangíveis, medusas de vários tamanhos. Tentei fotografar para vos mostrar.

As medusas do Largo


No entanto, ao fotografar, as paredes do aquário funcionam quase como um espelho e reflectem, na fotografia, a parede do fundo, o tecto, o candeeiro, o meu braço a segurar a máquina, mas, felizmente, também uma grande medusa à direita e um pouco de umas mais pequenas à esquerda. Mas, de facto, a beleza daqueles bailados etéreos, só vista ao vivo.

[Durante o almoço foi aquela animação, conversas cruzadas, risos, anedotas, um dos amigos todo, todo pró Governo e os outros, claro, a darem-lhe na cabeça. As senhoras, com excepção de moi-même, não se pronunciam sobre o tema, estão fartas de política, preferem conversar de casos da sociedade, deste, daquele e do outro, de sítios visitados e a visitar, de lojas, de marcas, de perfumes, enfim, coisas importantes e eu participo também nestas conversas, geralmente com curiosidade, pois aprendo sempre imensas coisas.]

Depois demos uma voltinha por ali, toda a gente sabe da minha pancada pelas fotografias, e, tal como diz uma das minhas amigas, o Chiado é a minha cara.


Livraria Bertrand, um lugar de muitas recordações

Tunas académicas, os escuteiros do costume, as pessoas elegantes, as alternativas, e a música, sempre, tão agradável andar a passear e a ouvir música, tão agradável.

E a música eleva-se no ar,
 embelezando ainda mais um Chiado cosmopolita


[Entretanto, as duas outras madames, elegantes e simpáticas, aproveitaram para ir ver algumas novidades de algumas lojas das quais são habituées.] E eu fico-me pela rua, fotografando as lojas tradicionais, sentindo o movimento, vivendo o momento.

Ourivesaria Aliança

A tarde estava fresca, o sol iluminava o ar, Lisboa em toda a sua beleza. Dali seguimos para o Londres.

No percurso vi uma parede que me pareceu espantosa.

Fachada sem casa 

É com certeza um prédio que vai ser construído de novo, mantendo, no entanto, o aspecto antigo. Mas, ao ver, pensei que é uma boa metáfora para tantas situações com que nos deparamos. Uma fachada apenas, sem nada por dentro, ou, no futuro, quando a obra estiver concluída, uma aparência que não vai corresponder à realidade. Adiante.


Fomos ver A Dama de Ferro. O Cinema Londres, para quem não conhece Lisboa, situa-se na Avenida de Roma, em tempos um dos centros burgueses da cidade. Ainda é um pouco mas as pessoas envelheceram e, por isso, esta zona é ainda um agradável local, com uma população que se vê que é abastada mas já de uma certa idade. Ou seja, é uma zona com patine.

Entra-se no foyer do Londres e há um simpático cheirinho a galão, a torradas - junto à bilheteira há um acolhedor barzinho onde as pessoas lancham e tudo aquilo tem um aroma bom, familiar. Aqui não há pipocas, juventude ruidosa, calças de ganga desfiadas e pele com tautagens à vista. Nada disso. Aqui há muitas senhoras com bons casacos de pele, senhores de sobretudo e cachecol a quem as mulheres ajeitam a gola, gente bem vestida e bem agasalhada. Lá estava também um ex-candidato à Presidência da República com a bonita mulher.

Já sentados, às tantas, o meu marido segredou-me ' Estou sentado ao lado da Margaret Thatcher'. Espreitei e, por pouco, não dava uma gargalhada. Era uma senhora de uma certa idade, de porte imponente, casaco de pele preta, pulseira de pérolas, cabelo louro muito armado, lábios pintados, tal e qual ela.

Gostei do filme mas não achei extraordinário. A Meryl Streep tem um desempenho inacreditável, uma caracterização perfeita, mas o filme em si deixou-me um pouco decepcionada. Para já, tem o foco no que ela é hoje: uma mulher que desliza entre estados de alucinação, momentos de recordação, curtos instantes de lucidez. Ou seja, há uma forte componente de tristeza no filme pois custa ver uma pessoa assim, tanto mais quanto nos lembramos dela enérgica, poderosa. Mas acho que o filme não evidencia tão bem como se calhar podia o papel que Thatcher teve na vida política inglesa (e mundial), penso que poderia ter sido um pouco mais reforçada a componente histórica (embora vejamos alguns trechos da sua actuação em Downing Street - a última reunião é um momento marcante, o verdadeiro momento da disrupção -, a revolta nas ruas, os apupos). Além disso, aquelas idas para trás no tempo, que acompanham a sua memória, criam uma certa interrupção emocional, se é que assim me posso exprimir. No entanto, é um filme que se vê muito bem e a toda a composição da Meryl Streep é uma daquelas coisas que ficará para a história do cinema. A ida dela ao médico, pela interpretação e pelas palavras ditas, é uma cena fantástica.

[Éramos para, a seguir, ir lanchar mas um dos meus amigos tinha que ir para casa, fazer a mala, ia para Londres de onde, depois, seguia para a China e, por isso, depois, cada casal foi à sua vida.

A mulher ia ajudá-lo, anda preocupada com ele, contou-me, quando estávamos no Chiado, que ontem chegou a casa numa neura, esteve que tempos fechado no escritório a telefonar, quase não falou, depois recebeu outro telefonema e voltou a fechar-se, nem quis contar o que se passa, mal dormiu, e depois estas viagens, estas maçadas. Na opinião dela devem ser chatices com os novos accionistas. Eu disse-lhe que se calhar é isso.

Quando, depois do cinema, nos despedimos, ela disse-me, 'Olha, não te esqueceste, pois não?'. Pelo canto do olho reparei que o marido se espevitou logo, tentando perceber. 'Não, claro que não, estou em pulgas, até tenho andado a ver umas coisas, quero ir já com algumas ideias.'. Ela riu, doce, quase em segredo 'Vamo-nos sair bem, vais ver, já comprei até umas pecinhas, nem vais acreditar...'. Marota.

Beijinho, beijinho.

Quando já estávamos despedidos, voltei-me para trás e lembrei-o: 'Olha lá, não me enviaste o número de telefone daquela tal advogada.'. Até corou. A mulher percebeu a atrapalhação (as mulheres são rápidas): 'Qual advogada?'. 'Uma sujeita que parece que é muito boa'. Disse eu com o ar mais profissional do mundo. 'Mas deixa, na segunda ligo para a tua secretária, tal como falámos'.

No carro, contive-me para não me rir. Bad, bad girl. Mas, tirando isto, no resto do tempo portei-me sempre muito bem.  Mesmo quando ela, no restaurante, me disse, quase em segredo, 'Sempre arranjei o livro' e ele ficou de ouvido alerta a ver se ouvia mais, limitei-me a perguntar 'Ah, sim, e estás a gostar...? (ao que ela me respondeu a rir: 'Que ideia...Achaste que era para mim? Tens coisas...').

Mas durante o tempo todo fomos três casais felizes, bem dispostos, sem nada a esconder.]

. &.

Tenham, meus Amigos, um belo domingo!

sábado, fevereiro 11, 2012

Eu e o marido da minha amiga, ao telefone


Uma leitora amiga deixou-me ontem nos comentários um prudencial conselho: que eu estou a 'cutucar a onça com vara curta', que eu devia ter mais cuidado com a mulher do meu amigo, que as mulheres são perigosas. 

É verdade, eu sei, sou mulher, sei como somos. Mas penso que não há problema, a mulher do meu amigo, minha amiga também, é uma querida. E eu também sou, ora essa.

Por isso, não se assustem, acho que não corro riscos de maior. E, de qualquer forma, o risco, na dose certa, dá um picantezinho gostoso à nossa existência.

[].[].[]

Música, por favor.


Natalie Merchant - Motherland

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Como seria de prever, hoje voltaste a ligar-me, cedíssimo. 


Eu estava ainda no carro, ia para o trabalho, tu tinhas estado a correr, disseste-me e, pela respiração  ofegante, dava para perceber que era verdade e eu gostava de esclarecer se a tshirt era preta ou azul escura mas fiquei-me com a dúvida; depois ias para o duche na casa de banho do gabinete, antes de começares a tua jornada de trabalho. E eu pensei que a seguir colocarias Acqua di Gio mas não disse nada, longe de mim atrapalhar-te o raciocínio. Que tinhas estado a fazer horas para eu sair de casa, que és decente - arfaste possesso. 

Eu caladinha, já estava à espera desta reacção, nestas coisas primárias és muito previsível. Que eu pare com isto, que brincadeira de mau gosto vem a ser esta?, que não estás a perceber qual a ideia, que não devo estar a ver bem os danos que posso causar a ti e à tua família e também a mim própria, e mais isto, aquilo e o outro.

Mas, meu amigo, já te expliquei, gosto de escrever, isto é ficção, é uma historiazita à toa. E, de resto, quem lê estas singelas palavras? Apenas umas centenas de pessoas e, como falámos ontem, as probabilidades de alguém ser nosso conhecido são remotas. Sabes bem disso. Mas que mal tem? Ficarem a saber que começas a beber chá e acabas a beber cerveja? Que drama...!

No entanto, como andas stressado - a tua mulher bem se queixa disso -, o teu sentido de humor é inexistente. Furioso, já me gritavas: mas que estupidez, parece um ajuste de contas! - e eu ri-me, inocente, mas que contas em comum é que nós temos, homem de deus?, que parvoíce a tua, já eu não posso dar largas à minha verve?, olha que tu…!

Depois, fulo da vida mas apreensivo (embora disfarçando – só que eu conheço-te bem, escusas de disfarçar), querias saber o que a tua mulher queria comigo. Deves mesmo estar muito cansado e enervado para perderes, desta forma, a compostura habitual. Orgulhoso e convencido, sempre a achares que és o maior (e os prémios que tens recebido ainda mais te alimentam o ego), eis-te agora a descer do pedestal, mostrando insegurança. Então isso é coisa que se pergunte, meu amigo...? Achaste, porventura, que eu te ia dizer? Não me conheces?

Mas, pensa, qual o espanto? Não sabes que sou amiga dela há tanto tempo? Trocamos confidências, e embora sejamos tão diferentes como o dia é da noite, gostamos de conversar, o tempo passa a correr quando estamos juntas. Não sabes isso?

E continuei: Tem é que ser só eu e ela porque, em grupo, como sabes melhor que eu, parece que fica possuída pelo espírito da tia condessa, um sorriso permanente, uma leveza que a torna ainda mais aérea, conversas soltas, uma simpatia que quase se liquefaz de tão doce. Mas, quando estamos só nós duas, é outra coisa; não que seja muito diferente mas, pelo menos, é mais focada, menos radiosa. De qualquer forma, apesar do longo convívio, sinto sempre que ainda não a conheço na totalidade. Aliás, nunca compreenderei como é possível ser-se assim como ela é, leve, aérea, etérea, permanentemente predisposta ao pecado mas sempre na mais cândida das inocências.

O quê?! O que é que disseste?! Pecado?!– perguntaste, sem perceber o alcance da minha afirmação, mas já incomodado.


(Fingi que não ouvi e continuei o monólogo). E depois, de vez em quando, aparecem umas pontinhas soltas. Imagina que ontem, antes de nos separarmos, tirou da carteira um post it, a letra não era a dela, com o nome de um livro, A Democracia e os Mercados na Nova Ordem Mundial, do Chomsky. Dá para acreditar?! Queria saber se eu conhecia. Fiquei espantada. Quando lhe perguntei para que era, se ia comprar, se era para ela, quem lhe tinha recomendado, riu-se, aquelas gargalhadas dela, cristalinas, tão cristalinas que não conseguimos perceber se são de alegria genuína ou se aquilo é uma qualquer forma de canto.

Irritaste-te: que diabo de história é essa? Chomsky, sabe lá ela quem é Chomsky? Estás a inventar!, já gritavas. Com muita calma perguntei-te qual seria a razão para inventar uma coisa destas. Mas como os homens são muito primários, tive que te avisar: olha, não lhe fales nisto, não vá ser algum livro para te oferecer…

Chomsky? – perguntaste admirado e já a aceitar isso como provável. Os homens são mesmo infantis.

Disse-te ainda que para a semana, quando estiveres na China, vou lá um dia a tua casa para estar com ela, só nós duas, vamos fazer uma coisa, uma experiência nova para as duas. Aqui sorri, tenho este lado de bad girl, e aguardei pacientemente o fim do silêncio que se fez do outro lado.

Durou algum tempo, devias estar a equacionar hipóteses, até que perguntaste, irritado: estás parva? Esclareci que não. Então que raio de conversa é essa!? Educadamente lembrei-te que estava no carro, a caminho do trabalho, que estar num carro fechado a receber telefonemas em alta voz com gente aos gritos não faz parte dos meus hábitos de higiene auditiva e mental; além disso estava a chegar, ia entrar no parque de estacionamento subterrâneo, ia perder a rede, (senti que não acreditaste mas olha que era verdade), desejei-te boa viagem para a China e sucesso nos negócios e pedi que não quebrasses a confiança que tenho em ti, que não comentasses nada com a tua querida mulher.

Silêncio, não foi? Ficaste imenso tempo calado.


Insisti: Espero que cumpras. Senão processo-te (e ri-me)... Olha, a propósito: por causa de outra coisa, podes dar-me o número de telemóvel da tua amiga advogada? Agora tenho que desligar, manda-me por mail ou por sms, ok? Se não tiveres tempo, deixa, eu ligo para a tua secretária. Beijos.

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E tenham, meus Caros, um belo fim-de-semana!
  

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

A vida das pessoas, a que se vê


No post abaixo escrevi sobre um Gaspar dobrado, balbuciando agradecimentos a um chefe enfadado, Wolfgang Schäuble de seu nome - uma coisa infeliz, que até dá vergonha. Se quiserem podem lá ir dar uma espreitadela. A mim, agora, apetece-me escrever sobre outra coisa.
 ......  ...... 

Música, por favor.


[Natalie Merchant - If no one ever marries me]
....... .......

Ligaste-me aborrecido dizendo que nem querias acreditar no que escrevi no outro dia, que tudo aquilo era surpreendente, despropositado, desagradável. Referias-te sobretudo a eu ter andado a seguir-te, a fotografar-te, e, como se não bastasse, a ter depois descrito publicamente a situação.

Desculpei-me: foi imprudente, de facto.

Na altura, pensei que podia parecer uma coisa ficcionada; sem eu mencionar nomes, quem te identificaria?

Mas, afinal, identificaste-te tu (para minha surpresa, segues este blogue); e estás com receio que mais pessoas tuas conhecidas te identifiquem, que isto ainda te traga sarilhos. Lamento. Tomara que não. Não era minimamente essa a minha ideia, acredita.

Mas acho que os teus receios são infundados, quem dos nossos meios se dedica a actividades tão elaboradas como ler (mesmo que coisa pouca, como é isto)? Uns lêem os resumos executivos dos relatórios e olha lá, outras lêem sem o assumirem uma ou outra revista social, e, como literatura, um ou outro livro talvez da Rita Ferro, talvez da Margarida Rebelo Pinto, talvez um daqueles romances históricos de alguma Stilwell (e já estou a falar de mais, não é…?), e, na net, ocupam-se geralmente de sites de genealogia, sabem tudo o que há para saber sobre o quem é quem, casado com quem, descendente de quem, primo de quem. Gente culta, portanto. Nada destas excentricidades dos blogues, modernices, politiquices, muito menos elegias aos pobrezinhos, que temos que ser caridosos mas, francamente, já não há pachorra para tanta conversa sobre os pobrezinhos. Sabes como é. Portanto não te preocupes, meu amigo.

De qualquer forma, quiseste falar comigo, querias explicar-te, que nada daquilo era o que parecia e eu a dizer-te que a mim não me parecia nada, que nem queria saber, que não me diz respeito - e estava a falar verdade. Escrevi aquilo por escrever, apeteceu-me, nem avaliei bem os riscos, desculpa. Mas vieste apanhar-me à porta da torre de vidro onde me fecho durante o dia e fomos beber um chá à beira rio. Eu mantive-me no chá, tu acabaste na imperial.


Hoje estavas como quase sempre te vejo, impecável, fato e gravata, olheirento, cansado.

À chegada, passámos por uma pequena manifestação ou performance, nem reparei, estava um bocado incomodada com a situação, tu zangado comigo, no carro quase nem falámos, sentia-me quase uma menina apanhada a fazer uma maldade, situação chata.

Quando nos sentámos, num gesto rápido, desapertaste a gravata, tiraste-a pela cabeça, dobraste-a e meteste-a no bolso, movimentos rápidos e eu por dentro ai, ai....

Mas somos gente grande, civilizada. E então conversámos como se nada se passasse: contaste-me da pressão enorme, da função desgastante, do que a ‘companhia’ te exige, que não há dinheiro que pague (aqui eu sorri), das desvalorizações que não param, dos créditos mal parados que crescem assustadoramente, do serviço da dívida que galopa, do valor que não está a ser criado, dos novos accionistas que não são para brincadeiras, de tantas coisas de que aqui não poderei falar. Partilhei também as minhas preocupações, são comuns (pena é não ganhar tanto como tu, mas também para que é que é preciso tanto dinheiro...?)

Via que adiavas falar do que ali te tinha levado. Até que, finalmente, lá te decidiste. 


Falaste-me dos teus filhos que são uns queridos, fantásticos (e são mesmo!), a miúda que está em Inglaterra, o outro miúdo que está nos Estados Unidos, a mais nova a caminho também de Inglaterra, e falaste sobretudo da tua mulher que é o teu suporte, o teu esteio, a mulher perfeita, a mulher do eterno sorriso, da compreensão incondicional, a mãe mais que perfeita dos teus filhos, a decoradora fantástica da tua casa, e as acções junto da Paróquia, e os princípios sãos que instila nos miúdos, que é preciso give back, devolver à sociedade o que a sociedade nos dá a nós e que, por incrível que possa parecer ainda tem tempo para frequentar cursos de pintura e restauro. E que à noite ainda tem cabeça para ler. E debitas, com ar cansado, as maravilhosas qualidades da tua mulher, a minha sofisticada, doce e sorridente amiga.

Sei bem como reagir nestas ocasiões. Escuto atentamente, vou dizendo que sim. Isso mesmo, meu amigo. Fazemos ambos de conta. De resto, tudo o que disseste é verdade.

Depois, en passant falas numa advogada que fez uns pareceres para ‘a companhia’, umas divergências, uns desentendimentos mas coisa de trabalho apenas. Presumo que estás a referir-te à mulher do automóvel na Cidade Universitária. Mas não pergunto, não quero saber, é assunto que não me diz respeito.

Depois eu digo que está a fazer-se tarde, tu olhas o teu relógio fingindo um sobressalto, levas-me até ao meu carro e despedimo-nos.

Conheço-te bem demais e tu sabes que eu sei que a verdadeira história corre ao lado desta vida da qual, sem mentires, me estiveste a falar.

Já sei que me estás agora a ler, já sei que vais ficar outra vez sem pingo de sangue como me contaste que ficaste no outro dia. Mas que segredo estou eu a revelar à humanidade? Deixa-te disso, portanto.

Olha, já agora: sabes quem é que me ligou hoje de manhã? A tua mulher. Queria falar comigo. Almoçámos juntas. 


Ah… agora até o último pingo de sangue se te esvaíu, não…?

Não te preocupes. Sabes que eu sei guardar um segredo. 

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[As fotografias que ilustram o texto mostram-nos Kristin Scott Thomas e Patrick Dempsey]

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Tenham, meus Caros, uma boa sexta-feira e, se já agora, sigam até ao post abaixo.
  

O Vítor Gaspar todo curvado e marrãozinho, a pedir batatinhas ao ministro alemão das finanças Wolfgang Schäuble estava mesmo a pedir uma belinha naquela testa!

Aqui ainda o ministro não se tinha enfadado

Como é que se pode pretender que tudo o que é bicho careta alemão não ande por aí a dar palpites sobre o que os portugueses fazem ou deixam de fazer com uma atitude como aquela que hoje vimos ao Gaspar...?

  • Devo dizer que me fez impressão assistir a uma 'cena' destas obtida à socapa. Mas devo também reconhecer que é inegável o interesse político de que isto se reveste. 
  • Por uma questão de princípio, nunca li uma única notícia que diga respeito a transcrição de escutas ou a documentos obtidos via wikileaks. Mas hoje a conversa entre aqueles dois em Bruxelas entrou-me pelos olhos dentro e, portanto, vou deixar esta questão ética, que não é de somenos, para outro momento.

Assim, passo a opinar:

1º - Que é mais que óbvio que Portugal não consegue, mas não consegue mesmo, nem por milagre, voltar a obter financiamento sozinho em 2013, isso acho que já ninguém duvida. Estranha-se é que Passos Coelho continue a jurar a pés juntos que não precisa de renegociar o apoio da troika, que não precisa de mais dinheiro, que não precisa de dilatar o prazo. (Estranha-se? Não, eu não estranho nada e até acredito que ele ainda não tenha percebido isso. As suas capacidades de compreensão são o que são. Mas, enfim, parece que faz boas farófias.)

2º - Que o Gaspar, que é distraído, pantufou o orçamento todo, se esqueceu de parcelas e que na primeira semana do exercício, já estava ó tio, ó tio, que me enganei, acho que isso também já toda a gente percebeu. (Bem, toda a gente não: acho que Passos Coelho e o engenheiro civil Moedas ainda não perceberam mas percebe-se, economia não é bem o forte deles.)

3º - Que este Governo não tem noção do significado de palavras que lhes devem soar antiquadas, tais como orgulho nacional ou soberania, acho que disso também já ninguém duvida. (Bem, toda a gente talvez não. Passos Coelho ou Miguel Relvas, por exemplo, não estão nem aí, devem achar que isso é conversa de gente complexada ou piegas. São muito machos, eles.)


Mas, apesar de todas estas evidências, custa ver um ministro nosso, todo curvado, balbuciante, enquanto o alemão displicente que sim, que dava uma ajudinha, que logo que a chatice grega estivesse ultrapassada logo pensava nisso e o Vitinho, servil, muito agradecido, que merecemos e outro já enfastiado, a olhar para o lado, só faltou espreguiçar-se e o Vitinho a insistir que temos feito o trabalhinho todo e outro a ver-se mesmo que só pensava que sim, está bem, vê se despegas ó melga...


Que cena mais triste! Então todo o sangramento a que a população está a ser submetida apenas serve para isto? Para que um alemão, displicente, enfastiado, condesceda a dar o seu amén a mais uma esmolinha?

E, pergunto eu, agora Portugal já depende da Alemanha? A Alemanha é que vai autorizar um novo apoio a Portugal? Já não há instituições europeias? Portugal já se rendeu à Alemanha? Mas o que é isto?!

Há paciência para aturar uma coisa destas? 

Sinto-me maçada com isto. Para tudo tem que haver classe, até para pedir esmola, e esta gente não a tem. E a falta de classe é uma coisa confrangedora.

Neste momento estou a vê-lo na televisão, ao Gaspar, a falar soletradamente, sílaba por sílaba, a desdizer o que disse, a explicar com palavras redondas e vazias que não está em cima da mesa a flexibilização do programa de apoio, e já não tenho paciência para aturar gente inapta destas. 

E já nem falo aqui deste novo programa de apoio à Grécia. É ultrajante o que se está a passar. Só falta mesmo esganarem à mão os pobres gregos. Como é possível que se faça isto a uma nação?


Nota: Como me está a apetecer ir escrever outra coisa, não me alongo mais por aqui mas permito-me sugerir que se desloquem até aos comentários do post abaixo. O meu leitor JHMP escreveu um comentário muito elucidativo que explica muito bem como é que estas coisas funcionam.