Começo a perceber que se calhar a matriz da minha natureza se ajusta bem à cultura japonesa.
O meu avô paterno tinha ares orientais e, à medida que foi envelhecendo, mais oriental foi parecendo. E era uma pessoa admiravelmente serena. Nunca o vi alterado. A minha avó era o oposto dele, uma pessoa geralmente ansiosa, preocupava-se com tudo, aborrecia-se facilmente, implicava com alguma frequência com ele. Ele encarava a maneira de ser dela com uma absoluta tranquilidade.
Embora trabalhasse numa empresa, os seus momentos livres eram passados ou na sua horta ou à pesca. A minha avó aborrecia-se com ele porque trazia terra nos sapatos ou porque trazia muito peixe para ela amanhar. Ele não se importava. Acho que até sorria. Se estava em casa, sentava-se a ler. Sempre calmo. Eu adorava-o. Quando estava em casa desses meus avós, era atrás dele que eu gostava de andar. E ele gostava da minha curiosidade, das minhas perguntas. Chamava-me a atenção para as florezinhas dos morangueiros, depois para o olhinho vermelho que despontava, depois o frutinho já formado. E, quando estava madurinho, apanhava-os, passava-os por água e dava-mo. Ao longo de dias eu observava o devir da natureza.
O meu tio, irmão do meu pai, herdou esses traços orientais. O meu pai sempre foi mais parecido com a mãe. E eu, segundo dizem, fisicamente, tenho muito do meu pai. Portanto, enquanto a minha prima também tem alguns traços orientais, eu nada. Mas, se calhar, na minha apetência para a contemplação das nuances da beleza que se podem encontrar na natureza haja um pouco dessa veia.
Ainda ontem, a meio da tarde, parecia que havia uma aberta, fomos caminhar para uma zona de arvoredo que há não muito longe daqui. O meu marido foi contrariado, olhava o céu carregado e sentia o vento a acelerar e dizia que não estava tempo para nos metermos no meio do arvoredo. Mas eu queria ver as poças de água, gosto de ver as árvores reflectidas na água, e gosto de ver a água tingida pelas cores ocre da terra. Lá fomos. Afinal havia mais que poças, havia quase um lago. Lindo. Umas cores transcendentalmente lindas, variadas, uns reflexos maravilhosos. Tentei fotografar, filmar. Só que desatou a chover com uma força enorme e o vento e a chuva faziam um rugido um bocado assustador. Claro que nos viemos logo embora, até porque havia muitos bocados de árvores caídas e porque o nosso cão estava um pinto, assustado com o trovejar.
Mas vim maravilhada, uma daquelas sensações em que nos sentimos transportados para espaços de beleza, em que nos sentimos imersos num mundo limpo, despoluído, absolutamente natural, benéfico, puro, imaculado.
Se digo estas coisas, o meu marido diz: 'És maluca. Debaixo de um temporal e, em vez de te despachares, ainda queres parar para tirar fotografias.'. Reconheço o ponto de vista dele mas não consigo de deixar de pensar que todos os dias as coisas são diferentes, os verdes nunca são os mesmos, os reflexos nunca são iguais, e que quero testemunhar isso, quero captar isso.
Mais de 16 milhões de cores, aprendi hoje. Imagine-se. Na prática, uma infinidade.
O vídeo que aqui partilho (legendado) é mais um daqueles que me encantam do princípio ao fim. O nome dos momentos, o nome das cores, a forma como mudam de umas para outras, o efeito que tem um tecido transparente arejando sobre outra superfície. Tudo isso me parece transcendente de tão simples e perfeito e efémero que é.
Mesmo que pensem que 'não são destas coisas' -- e que o vosso pensamento esteja mais virado para as preocupações da actualidade, como as fantochadas do Ventura ou como a situação cada vez mais complexa nos Estados Unidos, a violência a alastrar nas ruas, a revolta e o desespero de muitos que os leva a enfrentar as perigosas milícias do ICE, ou com os receios de que comece a desenhar-se uma nova crise financeira com a retaliação de alguns países face à estupidez e à prepotência desbragada de Trump que está a traduzir-se na venda de títulos de dívida americana ou de fundos ou, até, a quererem a devolução do ouro --, mesmo assim sugiro que tentem ver o vídeo. Acho-o não apenas muito belo como nos mostra como o mundo pode ser tão mais rico se estivermos despertos e disponíveis para aprofundar e diversificar a visão das coisas.
A filosofia japonesa da cor e da imperfeição
Em português, o céu ao amanhecer pode ser simplesmente chamado de "azul" que se transforma em "laranja". No Japão, esta transição fugaz tem inúmeros nomes.
Porque é que o Japão deu mais de mil nomes às cores do silêncio? Neste vídeo, exploramos a profunda filosofia por detrás das cores tradicionais japonesas. Da estética proibida do período Edo ao antigo "algoritmo" de sobreposição de seda, descubra como o Japão não criou apenas cores — captou momentos antes de desaparecerem.
Aprofundamos em:
As Coordenadas da Memória: Porque é que nomes como "Moegi" (Amarelo Broto) funcionam como cápsulas do tempo.
48 Sombras de Castanho e 100 Sombras de Grey: A história da rebelião contra as proibições de luxo no século XVII.
Kasane (Sobreposição): O sistema ótico de mistura de luz, muito antes do design digital.
A Beleza do Desbotamento: Porque é que o Índigo (Azul Japão) se torna mais valioso com o tempo.
"Dá-lhe um nome. E ele viverá para sempre."
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