1º acontecimento
Ontem aconteceu uma coisa que me alegrou bastante. Com sol não consigo andar sem óculos escuros. Não é só o facto de a luminosidade intensa me incomodar, como, sendo eu míope, os óculos são graduados. A minha miopia reduziu-se, é baixa, mas, ainda assim, fico mais confortável usando-os a eles e não uns não graduados. Uso-os há bastante tempo, gosto da armação. São simples, mas sinto que me assentam harmoniosamente. Tenho uns outros, mais fashion, de que também gosto, mas não são tão versáteis e, sobretudo, tenho receio do prejuízo se os perder. Nestas coisas sou muito controlada. Por isso, só os uso quando vou a algum lugar especial. Manias minhas.
Pois bem. Fui ao ginásio, cheguei lá e guardei-os na mochila. Saí de lá, como sempre coloquei-os. Depois do almoço fui sair e não os encontrei. Corri tudo. Nada. No entanto, quando chego a casa, de forma mecânica, descalço-me, pouso o telemóvel, as chaves e os óculos no mesmo sítio. Portanto, não conseguia perceber como poderiam os óculos ter-se evaporado. Mas nada.
Tive que levar os óculos de reserva. Quando regressei a casa empreendi nova busca: virei e revirei tudo, mesmo os lugares mais improváveis. No dia seguinte continuei à procura, revirando o que já tinha revirado. Já estava a achar que me tinham voado da cara, quando vinha do ginásio.
Pois bem, ontem de tarde pensei: só posso ter feito um movimento não usual e, no acto, impensadamente, pousei-os sem dar por isso. E tendo pensado isto, como se fosse guiada, dirigi-me ao aparador da sala de jantar e levei a mão ao naperon, junto à taça que está a meio. Tal e qual, Teleguiada. E a mão foi pôr-se em cima dos óculos. Fiquei espantada e felicíssima. Ele há coisas, disso não há dúvidas.
Depois, recordei-me: tinha visto que uma bandeja com umas peças que, em vez de estarem no aparador, estavam numa mesinha de apoio. Tinha sido, no almoço de aniversário da minha filha, que, para colocar as bebidas, se tinha retirado parte do que estava no aparador. E, por algum motivo que não atinjo, corrigi o facto quando ainda estava com os óculos. Não consigo perceber pois, sempre, s-e-m-p-r-e, tito os óculos mal entro em casa, tal como pouco as chaves e o telemóvel. Mas não há dúvida: os óculos estavam ali. E encontrei-os, e isso é que interessa.
2º acontecimento
E hoje tive uma fantástica surpresa. Andava a ver como está frondoso o meu diospireiro. Apesar dos calores e de temporadas sem ser regado, está verdejante, farta folhagem. Já por diversas vezes pareceu estar ás portas da morte e o meu marido, como sempre, já o quis cortar não sei quantas vezes o quis cortar dizendo 'não está aqui a fazer nada'. Mas eu não sou fatalista, acredito em milagres. A forma como rejuvenesceu e se revitalizou é um fenómeno. Há uns meses deu uns belos dióspiros, que me consolaram. E estava eu a filmá-lo e ia contar que na última vez que aqui tínhamos estado, me cheirou a dióspiro e vi um no chão e um, todo madurinho, que de imediato comi. Já nessa última vez estavam a nascer fora de época. Mas não cheguei a contar isto porque dei com outro. Ainda verdinho e rijo, ainda pequeno. Ora, que eu saiba, já passou a época deles. E nisto começo a ver outro e mais outro e mais outro. O diospireiro está carregado de dióspiros. Nunca teve tantos. Mas reparem: jáé a terceira vez este ano que isto acontece. Juro, não sei que fenómeno é este.
Só me lembro de uma tia do meu marido, uma muito, muito queridíssima, por vezes lembro-me dela e custa-me a crer que já não exista. Tão alegre e querida que era. Uma vez estava cá e ela viu uma pereira pequena com umas quantas peras grandes. E eu disse: 'quando para cá viémos, estava tão raquítica, parecia que não ia vingar, e agora desatou a dar peras'. E ela riu e disse: 'as árvores percebem quando lhes querem bem'. Nunca mais me esqueci. Quando vejo a forma desabalada como tudo aqui cresce, neste terreno pedregoso, e como tudo fica carregado de fruta, penso nisso. Será que sentem que eu adoro tudo isto, que adoro a natureza, que me encanto com as árvores, com os frutos? Não sei, não tenho como saber. O que sei é o que constato.
A chatice é que ainda estes dióspiros, fruto que está entre os meus preferidos, estão pequenos e verdes. Impossíveis de comer. E quando regressarmos, já terão caído. Tenho que avaliar ainda qual a melhor opção. Por mim, ficaria aqui a vê-los fazerem-se maduros, bons para virem passear dentro de mim.
3º acontecimento
Devo ainda actualizar a situação do meu cabelo. Os meus dilemas nunca duram muito. Aliás, encaminham-se rapidamente para a resolução mal falo deles.
No dia seguinte, pensei que só um problema sem solução (se é que é um problema, diga-se). Ou seja, o magno problema do rabo de cavalo não tem que ser incompatível com um encurtanço considerável do tamanho do cabelo. Nada que não se resolva com engenharia. Engenharia capilar, mais propriamente. Então peguei na grande massa de cabelo e prendi-a em cima com uma mola das grandes. Depois puxei os cabelos de baixo, junto à nuca, para fora da mola, Tirei uma boa quantidade deles. Prendi-os, resguardadamente. Ao cabelo sobejante, apanhei num rabo de cavalo alto. Peguei nele e com a tesourona da cosutura, que é grande e corta bem, e pimbas, lá vai disto. Um pedação valente. Voltei a soltar tudo, o cortado e o resguardado. E voltei a fazer um rabo de cavalo. Funcionou, consegui, os cabelos de baixo chegaram até ao elástico lá em cima. O rabo de cabelo agora já está bem mais pequenino, nada que se pareça com o que estava, mas não está mal. Depois soltei o cabelo todo e vi como ficava. Bem. Acertei umas pontas para ficar igual dos dois lados. Como tenho muito cabelo, disfarça tudo. Claro que o meu marido ainda nem reparou. E quando lhe perguntar vai dizer que está igual. Só repararia se eu o rapasse à escovinha. Mas, pelo menos, já não vai achar que o cabelo está anos 80.
4º acontecimento
Não é um, são vários. Várias, melhor dizendo.
As minhas azinheiras estão cada vez mais lindas. Lembro-me bem de quando eram umas moitinhas informes e eu persistia em podá-las para elas ganharem forma de árvore. Foram crescendo, nós ajeitando, e elas retribuindo o nosso cuidado. Estão gigantes, dão uma sombra maravilhosa. E eu deleito-me a olhar para elas. Sentada num banco de pedra, ao pôr do sol, tudo dourado, uma temperatura amena, uma aragem leve, pensei que poder estar aqui a ver e sentir tanta beleza e tanta paz é um privilégio que não tenho como agradecer.

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