quinta-feira, agosto 06, 2026

Cenas da vida conjugal in heaven

 

Olho para a azinheira grande e penso: 'aquele ramo grande ali podia ser cortado, a árvore já se diversificou de uma maneira tal que aquela grande pernada já é dispensável '. Mas depois penso que aquele ramo é, em si, quase uma árvore, não podemos ser nós a ocupar-nos do assunto, não temos uma serra para coisas daquela envergadura. 

Depois, estou a varrer uma zona e penso que os ramos baixos da romãzeira e os do cedro também deveriam ser cortados senão junta-se toda a espécie de folhagem lá por baixo. Vou chamar o meu marido que refila, diz que está ocupado com outras coisas e eu sempre a pedir-lhe para interromper e vir fazer outras. Mas vem. 

Depois reparo que o tamarix tem muitos ramos secos por baixo. Peço para ele cortar também. Diz que não é só cortar, é depois levar lá para baixo, para o infinito monte que se vai formando. Refila. 

Continuo a varrer. Encho não sei quantos carrinhos de mão que depois levo para um canteiro, lá mais abaixo, e onde está caruma e folhagem ajudará a manter a terra mais húmida por baixo. Quem duvidar que espreite o meu Instagram, está lá uma ínfima amostra do muiiiito que carreguei.

Depois peço ao meu marido que tente arrancar a hera selvagem que invadiu o canteiro onde estão os alfazemas, agora já quase expulsos do recanto que lhes era devido. Peço também que tenha cuidado porque ao fundo há uma ivone e ele que não a assassine como assassinou a outra que estava num outro canteiro. Fica furioso, primeiro porque mais uma vez estou a arranjar-lhe trabalho e, segundo, porque diz que lá venho eu, outra vez, com a porcaria da ivone. Não lhe perdoo.  Responde que ela não estava ali a fazer nada. Digo que não se pode pôr fim à vida de uma ivone só porque, na maior subjetividade, se declara que não faz falta. Essa agora. E nós fazemos? 

Portanto, indisposto com a confrontação, deixou grande parte da hera selvagem. Eu acho que tem que se puxar à mão, mas ele diz que eu acho mal. 

Já o luso-fusco vinha tombando quando fui aos figos. Mas, antes de abastecer os saquitos que levava, comi mais de uma dúzia. Ainda pensei que talvez tenham proteína e fibra, que talvez seja uma dieta até interessante. Mas resolvi ser honesta: deve ser só açúcar e aquela barrigada deles deve ser o equivalente a estar a chutar açúcar directamente para a veia e para o perímetro abdominal.

Foi já de noite que vim ocupar-me dos orégãos. Já enchi alguns frascos. Desta vez, até de kombucha usei, acho-lhes piada.

Ainda há mais para esfarelar mas tenho que os deixar secar mais uns dias, pois alguns ainda não se desprendem.

Agora estou a escrever e doem-me um pouco os ombros. Penso que é da força que faço para transportar e, sobretudo, virar e despejar os carrinhos. Ou de apanhar pás e pás e pás e pás e pás de folhagem e terra. 

Ainda peguei num livro mas, ao fim de um bocado, fechei e pensei: 'Caraças, já não há editores que se aproveitem? Só publicam redações infantis?'. Feito com apoio de uma bolsa da DGLAB, ainda por cima. Está tudo doido.

E é isto. Aqui estou no telemóvel, coitada de mim. Quando leio que ainda há quem escreva coisas em papel fico espantada. Eu já só sei escrever no computador. Os dedos sabem o sítio das teclas, andam sozinhos. Aqui é um desatino, esta gaita altera grande parte das palavras que escrevo.  Por exemplo, de cada vez que escrevo 'esta' ele vai e põe-lhe um acento, fica 'está'. E como isto muito mais. Deve ser fácil descobrir onde desactivar está inteligência, mas tenho preguiça. 

Bem. Fico-me por aqui.

Fiquem bem, ok? Divirtam-se.

1 comentário:

Daniel Marques disse...

Cara Vera,

Depois desse relato de jardinagem de alta intensidade e diplomacia conjugal no limite — onde a questão do valor da Ivone devia dar direito a um ensaio filosófico por si só —, deixo-lhe um consolo sobre os mistérios da escrita moderna:

Se se sente no meio de um desatino a lutar contra o corretor automático do telemóvel, saiba que podia ser bem mais surreal. O meu padrasto, por exemplo, escreve-me textos para a revista que estou a preparar numa máquina de escrever de fita, que a minha mãe depois digitaliza cuidadosamente no scanner para me fazer chegar o PDF por e-mail.

Portanto, entre a inteligência artificial do seu telemóvel que teima em acentuar o "está" e o meu serviço pessoal de correio transgeracional de "Dactilografia-Digital", já não sei bem em que século é que estamos a vegetar.

Que esses ombros descansem do esforço dos carrinhos de mão — e que as próximas leituras venham com menos apoio da DGLAB e mais sumo!

Um abraço