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quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Antídoto para as vertigens. E não só.


Bem. Vou já avisando: não sei se é antídoto se é intensificador. Mas já lá vou. Antes, uns ligeiros preliminares.



Quando tenho reuniões em dose cavalar ou maçadas ou dias longos demais, chego aqui ao sofá e ponho-me a ver coisas para rir. Aliás, para ser mais precisa, não foi de imediato: antes ainda tentei informar-me; mas as notícias são de tal calibre que votei vencida. Desisti e passei para o que me faz rir.

Tenho isto de me rir. Ainda hoje estava numa reunião a ouvir uma criatura com quem, decididamente, não vou à bola. Estava a dizer coisas que deveriam arreliar-me e, que, há tempos atrás, fariam com que me saltasse fortemente a tampa. Pois hoje foi o oposto: dei comigo a gozar o pratinho, a rir de gosto. O sujeito até se enervou: 'Não ria!'. Mas não pude evitar. Aquilo pareceu-me quase hilariante. E agora, enquanto escrevo, ainda me dá vontade de rir: a cara dele, desconcertado, quase a atirar um olho para cada lado.

Hoje foi de tudo. Até um songamonga parece que tirou o dia para me afeliar: entrou-me no gabinete com uma conversa de coitado, a apelar ao sentimentalismo, todo vítima. E armado em parvo, com reivindicações de não querer fazer isto e aquilo à conta daquela coitadice. Noutras alturas, tentaria convencê-lo, acharia que era minha obrigação dar-lhe a volta. Agora desceu em mim aquele pragmatismo que já veio foi tarde. Não quer fazer, não faça. E logo instruí os outros que não forcem, que se ele não quiser, deixem. Os outros perplexos. E eu a pensar: deve estar a querer dinheiro para se pôr a milhas e não vou ser eu a estragar-lhe os planos.

Mas depois não tive com quem comentar. Apetecia-me imitá-lo, imitar-me a mim, desconstruir a cena. Apetecia-me ouvir palpites, gozações, talvez até conselhos. E nada: não tive palco nem espectadores. Uma frustração.

Faltam-me parceiros para a risota, é isso. Falta de gente divertida. Há agora uma excessiva concentração de gente preocupada com a vida, revoltada com o mundo, injustiçada face a incertos, focada nos seus próprios objectivos e nas suas próprias razões. Gente auto-centrada é gente chata. Só sabem falar de trabalho, falar a sério e deles próprios. Um desinteresse. Não há espaço para oxigénio ou para flores. muito menos para gargalhadas francas.

O que sinto falta dos tempos em que a minha secretária me vinha contar como tinha o seu domingo a bordo do barcalhão do namorado de uma amiga, por acaso a secretária de um colega meu, justamente o dito namorado. Dizia-me ela: 'Tudo nu. Nem queira saber. Não fazia ideia. Ela convidou-me, insistiu. Fui. Mas não me avisou. Tive que me despir também. Não me deu jeito nenhum. Não imagina, o senhor director a falar comigo ali de pila ao léu. Eu a tratá-lo por Sô Tôr e ele ali, felpudo, tomates e pila à vista. Passei o dia inteiro a esforçar-me para não me apanharem a olhar para as pilas. Nunca mais vou. Eu com as mamas meio penduradas e a ver que alguém ainda vinha oferecer-se para as levantar. Não imagina o que foi aquilo. Champanhe e marisco, champanhe e fruta. Já tudo ria, minha gente, tudo jogado pelos cantos, na maior pouca vergonha' -- e eu, curiosa, a fazer perguntas e ela, uma pândega, a contar os pormenores e, às tantas, as duas já perdidas de riso, eu a chorar de tanto rir com o picante e o amalucado das situações que ela, uma verdadeira comediante, relatava.  

Ou os que achavam que um outro era um leva e traz e, à socapa, o tratavam por concièrge. À frente dele, por ser todo poderoso, todos a fingirem que o respeitavam e, por trás, 'viste a concièrge?'. E depois ele, quando estava só comigo: 'São uns gozões... mas a ver se se metem comigo... ah metem metem... Respeitinho é bom e eu gosto. Eles sabem com quem é que podem meter, está bem, está...'. E eu a conter o riso. Por fim já era a Claudette. 'Sabes onde anda a Claudette?'. E, por fim, já era: 'Ela passou por aqui? Viste-a?' e eu já sabia que era dele que estavam a falar. O meu marido, sabendo disso, passou a  tratá-lo por 'a tua amiga'. E contavam anedotas brejeiras que, depois, quando ele estava presente, davam lugar a toda a espécie de trocadilhos e sub-entendidos que me deixavam à beira de desatar a rir à gargalhada.

Mas, enfim, na volta é assim que o mundo vai evoluir: cada vez mais chato, mais perigoso, mais desengraçado, sem espaço para brincadeiras, para galhofas. Um mundo afogado em sensaborias, depressões, problemas que não se aguentam de chatos que são.


Mas, pronto, o que queria dizer é que, à falta de coisas interessantes, me desloquei para os vídeos da risota. E o google, sabendo que ando nesta disposição, avança logo com algumas sugestões infalíveis. Charlie Chaplin à cabeça. Ponho-me aqui a ver e a rir (e o tapete, no chão, abandonado). Como os mails: abandonados. Não dá. O meu tempo deveria ser objecto de estudo pois não deve estar sujeito às leis da relatividade. Não estica, não se encolhe, nada. Regra geral, gasta-se. Passa.

As vezes que eu já cabeceei enquanto escrevo estas tristes linhas. Uma soneira. Ainda quero ir ver que filmes bons há aí, se é que os há, que ando com vontade de ir ao cinema, e ainda queria fazer mais umas fiadas no tapete.


Estou a precisar de férias. Há que séculos que as não tenho. Enfim. Dado que acredito piamente naquilo da teoria da relatividade, vou relativizar o meu sono e vou passar para o turno da bordadagem. O tapetinho me aguarda.

Pronto, já estava a divagar. O que queria mesmo era partilhar convosco o vídeo que me fez até gritar, aflita de vertigens. Não sei se isto me cura, se me agudiza. Mas é uma graça.


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As pinturas são de Josef Šíma e são acompanhadas pela Natalie Merchant com Kind and Generous

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Be happy, minha gente.

7 comentários:

bea disse...

Pode ser do inverno. Do frio. Mas o riso está cada vez mais caro e difícil. As pessoas gostam de se queixar muita vez da mesma coisa. A gente atira o anzol a ver se, mas vem sempre o mesmo peixe. Não contam um filme que viram, uma qualquer coisa engraçada que lhes aconteceu. Contam que a profissão assim. E assado. E nem acredito que não haja, profissionalmente, coisas boas. Que o mundo está para lá de ruim, que não aguentam. E abaixo delas há ainda tanto degrau cheinho de gente em que pouco pensam. Têm vidas familiares invejáveis, mas são infelizes por natureza e feitio, quase assim uma coisa do querer não querendo, um pendor de ver o lado negro e se deixarem assolapar por ele. Mas por vezes também julgo que é assim uma lástima mais de conversa porque verifico que continuam a ir onde gostam, fazer a sua vida normal, não descuram a família...e o sol está sempre lá, alguém mo disse e eu acredito.

A situação que refere não me faria rir, nudismo de grupo, num barco e de surpresa... dava-me uma coisinha má, ficava mesmo muito mal disposta; eram capazes de ouvir o que não queriam e iam-me pôr a terra. Charlot é melhor opção. Mas é que ele patinava a valer:) Tenha um dia bom UJM.

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

Ai UJM, já nem quadrilhice, corte e costura, histórias escabrosas, piadolas, risotas? Que deserto, que seca! Percebo a sua necessidade de serões animados pelos mestres do humor.

Entre avanços e recuos, penso que o saldo evolutivo acaba por ser sempre positivo, creio que mais cedo ou mais tarde este culto da omnipotência vai esbarrar com a realidade.

Boas risadas!

Um abraço.


Isabel disse...

Estou com a Bea: demasiada pouca vergonha para o meu gosto, no tal barco. São opções de vida que me ficam muito muito longe, por todos os motivos. Confesso que não acho graça. Agora o Charlot! É sempre uma boa escolha para nos levantar o astral! Gosto tanto!

Gosto imenso de me rir e todos os dias me rio. Com as minhas irmãs, temos sempre risota. E as minhas melhores amigas também são divertidas. Agora tenho é pouco tempo para me encontrar com elas (amigas).
Não quer dizer que tudo seja cor-de-rosa, mas acho que é também uma questão de feitio.

Beijinhos e boa sexta-feira:))

bea disse...

eh lá, Isabel, eu não acho que seja pouca vergonha. Cada um faz como quer e nem levo a mal ou critico. E também não sou aquela puritana de não mostrar o corpo e tal, até porque, para falar verdade, nem lhe ligo assim tanto. O que não gostaria era de ser metida num grupo desses de surpresa. Pode até ser preconceito social, mas gosto de andar vestida no dia a dia e a minha diversão não é a prática de nudismo.
Eu gostaria de rir todos os dias, mas nem sempre acontece.

Um Jeito Manso disse...

É isso aí, Bea, parece que ninguém gosta de falar de coisas boas ou que, quem gosta de se rir ou de falar de ligeirezas, é vista como pobre de espírito. Eu, cá por mim, não quero saber. Sou de lágrima fácil tal como sou de garagalada espontânea.

Acho que a vida é uma coisa tão fantástica que passar-lhe ao lado, sem a louvar e celebrar a cada instante de todas as maneiras, é pecado.

Quanto àquela cena do barco, aquilo de que nos rimos a bom rir foi com a descrição que ela fazia, com mímica, das situações, tudo nu, bem animado, bem bebido, ao sol. Conhecendo algumas das pessoas e imaginando as cenas, era mesmo muito divertido. Passado tanto tempo, volta e meia ainda me rio com algumas das coisas que ela contou.

Mas lá por me rir com essas cenas não quer dizer que eu me imagine num barco com gente nua, ainda por cima pessoas conhecidas do trabalho, nem, de resto, ela gostou de lá estar.

Mas são coisas que acontecem... e de que não se esquecem.

Desde adolescente que eu ouvia falar em surdina daquelas cenas naquele barco. O irmão da modista onde íamos era quem conduzia o barco e lembro-me bem dela, entre risos, contar coisas que faziam a minha mãe fartar-se de rir. Nunca imaginaria que passados muitos anos iria saber quem era o dono do barco e ouvir relatar aquelas cenas por uma outra pessoa. A vida dá voltas.

Uma boa sexta-feira, Bea

Um Jeito Manso disse...

Olá Francisco,

Sou moça simples, do campo, da beira do rio. Por isso, quando passo dias a fio em salas herméticas, em reuniões, tudo gente focada e preocupada, sem um minuto de diversão, ou com viagens longas e chatas pelo meio, chego ao fim do dia cansada, saturada, e só me apetece rir ou recordar coisas que me fizeram rir. Recordo outros ambientes profissionais em que vivi, mais informais, muito mais, mais descontraídos, muito mais, mais alegres, muito mais, e mais produtivos do que hoje.

Mas os tempos mudaram. Outra coisa que mudou: o nível médio de cultura. Agora pouca gente lê e estranhamente não se envergonham de confessá-lo. Isso também me incomoda um bocado. Mas, enfim, é o que é.

Abraço, Francisco.

Um Jeito Manso disse...

Olá Isabel,

Pode ser pouca vergonha e, como referi acima, não me imagino, nem de longe nem de perto, numa situação dessas. Mas não me incomoda saber que existem. Ter o sol na pele do corpo é coisa boa. O que já não me parece tão bom é, para além do sol, ter também outros olhares sobre a pele.

E, do que ouvi contar, quer à minha secretária quer, anos antes, do que percebi nas conversas entre a minha mãe e a irmã do homem que era contratado para guiar o barco, aquilo era mesmo um fartote que, contando, dava imensa vontade de rir.

Quanto à predisposição para a tristeza ou para a alegria acredito que é coisa genética. E também nisto, pelos vistos, somos parecidas: gostamos de gostar da vida, não é?

Abraço, Isabel, e uma boa e sorridente sexta-feira.