Era lourinha, lourinha, olhos tão claros que pareciam cor de um mar muito transparente. Muito bonita, muito elegante. Um rosto diferente, bom para ser fotografado.
Depois rapou o cabelo e mostrou-se rebelde e andrógina.
Depois assumiu a homossexualidade e mostrou-a de forma por vezes provocadora.
Depois o cabelo aclarou ainda mais enquanto as sobrancelhas se destacavam pela espessura e escuridão.
Modelo requisitadíssima, versátil, um perfume a modernidade, o pé fora da banalidade, a atitude a ilustrar bem l'air du temps. A moda, a publicidade, as câmaras não a largavam. Compreende-se: a sua presença magnetizante atraía.
Duas irmãs e um irmão, todos bonitos. Já algumas vezes falei dela aqui, creio que, uma das vezes, para mostrar a casa que partilha(va) com uma das irmãs. A casa como ela: fora da caixa.
Até que confessou que as nuvens andavam a cercá-la. Começou a falar da sua depressão, das suas crises de ansiedade, de problemas que vinham desde os tempos da infância, da mãe tão perturbada. Falava disso sem rebuço, sem se vitimizar, e, ao mesmo tempo, sem meias palavras e com uma certa candura.
E depois as drogas. De mal a pior. Foi fotografada no aeroporto descalça, despenteada, errática, perdida de todo. Tempos de descida aos infernos. A moda e as câmaras talvez tenham sugado a sua alma até às últimas gotas de resistência.
E, durante algum tempo, desapareceu de cena.
Reapareceu morena, mais tranquila, bem encarada, rosadinha e dedicada à música.
Cara Delevingne tem agora 33 anos e já mil vidas vividas. Na entrevista que aqui partilho conduzida pelo icónico Louis Theroux, ela não rodeia, não evita. E ele, com os seus silêncios e as suas subtis interjeições, leva-a pela mão. Uma entrevista que mostra bem como as coisas são quando se vive o pesadelo da dependência, como tudo foge ao controlo, como se causa dor naqueles que se amam e como, por fim, subsiste uma vergonha que parece não ter limite.
Cara Delevingne: “Eu sabia que precisava de ficar sóbria” | The Louis Theroux Podcast
Para a nossa mais recente coleção de alta-costura sonora, apresentamos a atriz, cantora, música, musa e modelo Cara Delevingne — a desfilar na nossa passerelle virtual para falar sobre a vida sob os holofotes, amigos famosos, traumas familiares, o lado negro da moda, Karl Lagerfeld, vício, recuperação e como transformou a sua jornada de sobriedade em arte musical… Mesmo que não consiga diferenciar a alta-costura do farelo de aveia (desculpem, piada velha)… prêt-à-porter de prêt-à-manger… Coco Chanel de cereais de chocolate… Estou a ficar sem fôlego…
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