Já contei aqui muitas vezes mas, com vossa licença, vou repetir-me: durante uma parte significativa da minha vida profissional tive que negociar. Não negociações políticas, nisso nunca participei, mas em negociações ligadas a transacções comerciais ou a grandes contratos ou ligadas à gestão de processos transformacionais.
Ter que lidar com quem queria o oposto do que eu queria era parte da minha ocupação diária. Posso dizer que era a minha praia. Sempre gostei de fazê-lo. É uma sensação de desafio que activa a minha adrenalina. Apela ao poder de argumentação, apela à análise lógica, sobretudo para desmontar os argumentos dos outros, apela à autoconvicção e à assertividade, apela à paciêcia, apela a um certo sentido de liderança. Durante essas liças tinha sempre presente aquele velho e útil lugar comum: um bom acordo é um acordo que é bom para as partes envolvidas. Um acordo em que uma parte vergue, derrube, desautorize ou humilhe a outra parte é um mau acordo. Sempre fiz de tudo para que, no fim, ambas as partes sentissem que tinham ganho, que tinham conseguido um bom acordo.
Sempre me dei lindamente com alemães. Os meus preferidos. Muito pragmáticos. Também com holandeses. Minuciosos, rigorosos, afáveis. Também com franceses. Querendo levar o clima para o bom entendimento pessoal, o que a mim nem sempre me agradava pois poderia ter que ser implacável mesmo com pessoas com quem me desse bem, e tive casos de franceses que achavam que, por amizade, eu poderia aliviar a pressão. Já contei várias vezes daquele (por sinal, um homem muito interessante) que se meteu num avião em Paris para me entrar no gabinete ao fim da tarde, furioso, vociferando e dizendo que eu era uma mulher infiel, petit nom que, na boca dele, passou a estar associado ao meu nome. Cansaram-me um bocado os japoneses. Com uma atenção insólita aos detalhes, com um comportamento desconcertante, por vezes quase me parecendo infantil; mas, quando gostam, não se poupam, pagam bem a atenção que recebem. Cansaram-me bastante os marroquinos. Chegava a ficar tonta, com a tensão baixa. Falavam horas a fio, uma conversa que voltava ao princípio, com uma voz muito baixa, sempre muito amáveis, sempre a puxarem a brasa à sua sardinha, que eram da família do príncipe, muito cerimoniosos. Horas e horas. Depois mostravam-se muito agradecidos por chegarmos a um bom acordo, diziam que eu dava muita luta. Mas, se, no fim, eu respirava de alívio e satisfação pelo bom acordo, a verdade é que acabava quase sem uma pinga de sangue. Um dos piores, um horrível, foi um israelita. Prepotente, intransigente, bruto, arrogante, quase mal educado. Uma vez estive a ponto de o pôr fora do gabinete. Um dos colegas que estava comigo, quando eu comentei em voz baixa: 'mais uma e ponho-o no olho da rua', disse-me: 'força, conte comigo para o que for preciso', e parecia estar capaz de lhe ir às trombas. Dos espanhóis, e lidei com muitos, não gostei especialmente. Não eram muito fiáveis, com excessiva facilidade davam o dito por não dito. Os australianos. Muito queridos. Traziam a família para aproveitar o bom tempo e a beleza de Portugal. E queriam que eles me conhecessem. E fazíaam fotografias em conjunto, e traziam-me lembranças. Uma negociação sempre muito fácil, parecíamos estar do mesmo lado. E etc.
Mas se eu tivesse que negociar com o Eurico Brilhante Dias passava-me. Aquele tipo tira-me de sério, completamente. E felizmente só o vejo à distância, via televisão, mas, mesmo assim, dá-me conta do juízo. Eh pá, não suporto. Fala, fala, fala, interrompe, faz esgares, gesticula, abana a cabeça, e fala, fala, fala... e não diz nada. Caraças. Nada se aproveita. Um daqueles tipos que se deve achar um belo tribuno, quiçá à antiga. Mas, em minha opinião, nem isso. Posso estar injusta mas do que lhe conheço, muita parra e zero uvas.
Nunca percebi o protagonismo que as direcções do PS lhe deram. Em minha opinião representa o lado mais dispensável do PS. Não lhe vejo ideias inteligentes, não lhe vejo capacidade para ouvir, para pensar, para negociar. Dá ideia que lhe enfiam uma cassette e que o tipo se põe a debitar a cassette sem pensar no que diz. Não aguento.
Quando penso que José Luís Carneiro está sobretudo apoiado por dois tipos que não têm a mínimo das mínimas das competências indispensáveis à negociação porque não são empáticos, não são flexíveis, não sabem dar a volta ao texto de forma inteligente, não têm golpe de rins, não tem punch -- a saber, Eurico Brilhante Dias e António Mendonça Mendes --, penso que mais valia que os sacudisse para cargos de rectaguarda. Não têm competências para estar na linha da frente. Criam anticorpos e não contribuem para uma visão moderna da política destes novos tempos.
Eu, se estivesse no lugar de José Luís Carneiro, não saberia o que fazer com o Brilhante Dias, pois quereria tê-lo bem longe de mim. Pessoas como o Brilhante Dias dão cabo de mim, cansam-me até à décima casa. Não se calam e conseguem a proeza de não conseguir contribuir para qualquer solução. Se fosse numa empresa pensava-se em mandá-lo para a Qualidade, para os Serviços Administrativos, para a Gestão da Frota, para coisas assim. Num partido não sei para onde se mandam aqueles que devem estar onde não chateiem muito os outros, em áreas em que não façam grande estrago. O Mendonça é diferente, é peixe da fundura. Esperto, fino como um alho. Mas se tecnicamente é bom, já na parte relacional, de saber construir consensos ou de saber convencer adversários, é para esquecer. Obstinado, seco, fechado. Lá está: bom no backoffice, a fazer análises, a preparar propostas, e passar a pente fino propostas dos outros, a elaborar pareceres. Não a ir a reuniões em que há que ter inteligência emocional, empatia, versatilidade (para além da agilidade intelectual e integridade -- que isso acredito que tenha).
Nisto da crise da habitação, a posição do PS tem sido um desastre. Nem se percebe. Parece que não estão a usar a cabeça. O advogado Magalhães e Silva, no Expresso da Meia-Noite, deu uma lição ao Brilhante e ao PS. Mas o Brilhante não ouviu, estava a mostrar papéis. Uma coisa constrangedora. Espero que alguém no PS tenha ouvido.
Já ontem o disse: neste caso da habitação, a portar-se como se tem portado, com tiradas demagógicas e com uma inabilidade total, incapaz de perceber que a população quer ver o PS a influenciar favoravelmente a política, o PS corre o risco de erodir o seu capital político. Face ao comportamento balofo do PS, o Hugo Soares até parece um tipo com maturidade política e com um sentido cívico e de Estado. Imagine-se! E, como sempre, o Ventura esfrega as mãos.
Se o José Luís Carneiro não redefinir a sua equipa e não escolher melhor os seus braços direitos, depois não se queixe se as pessoas começarem a recuar no seu apoio ao PS.
Avisei.
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Desejo-vos um bom sábado
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