Não sou fixada nele. Simplesmente, em certa medida, a minha vida, tal como a vida de grande parte do mundo (em alguns casos, desgraçadamente), depende dos humores dele. Dizem que esta 'brincadeira' das ameaças de bomba a bordo de aviões por todo o lado, com as nefastas consequências disso, é obra dos iranianos. Não sei se é, se não é, mas percebe-se que os iranianos queiram mostrar que têm o poder de perturbar o mundo. E, se estão tão assanhados, a Trump o devemos. Só um estúpido muito estúpido se montaria na perfídia de Netanyahu e iria atacar o Irão. E já nem falo na destruição que lá causou, não se percebe exactamente a que propósito, falo da profunda desestabilização do mercado do petróleo, que tem estado a puxar a inflação para cima e a dar cabo da vida das pessoas, com a corda na garganta, com as prestações da casa a subir devido à subida das taxas de juro, e com o preço dos combustíveis a puxar todos os preços para cima. Obra de Trump.
Acontece que o que se passa com Trump excede em toda a linha a narrativa mais delirante que algum hipercriativo pudesse inventar. Tudo, em volta dele, parece uma comédia. Não vale a pena tentar perceber qual a estratégia dele, qual o pensamento político que o move. Tal não existe. Nele tudo é improviso, é entretenimento, é acto de puro narcisismo, é loucura. E, em background, é interesse pessoal, corrupção, descaramento, falta de vergonha, ignorância profunda.
Um dia, quando se estiverem a ver documentários sobre os seus tempos na Casa Branca, será como se se estivesse a ver um filme de humor, humor do princípio ao fim, gags improváveis, tiradas da mais pura comédia, uma paródia desbagada. Os comícios em que diz as coisas mais esdrúxulas que se poderiam imaginar, as conferências de imprensa em que insulta jornalistas e opositores, os momentos na sala oval em que dorme profundamente com uma maltosa estranhíssima atrás dele, a forma como bajula uns e humilha outros, a pancada em dar sapatos aos seus 'colaboradores, por vezes uns números acima, a sua obsessão por corpos masculinos, em particular por rabos, os disparates que profere em catadupa, a mania em dar o nome a tudo, o surrealismo de querer anexar outros países ou partes de outros países e de ir raptar um presidente à cama e depois roubar o petróleo desse país e publicamente e à cara podre gabar-se disso, ou loucura por decoração do mais piroso que se possa imaginar, as figurinhas de série de 5ª categoria de que se rodeia, a sua venalidade desavergonhada... e por aí vai, uma lista interminável. Um palhaço de primeira. Como podem os Estados Unidos ter um presidente assim é daqueles momentos em que a História resolveu gozar com o pagode, colocando um doido varrido na lista de presidentes que figuram no wall of fame da Casa Branca.
As eleições de terça-feira passaram por cima dele com uma violência que deixaria qualquer um de rastos.
Qualquer um. Só que ele não é qualquer um.
Veio logo dizer que se o nome dele estivesse nos boletins de voto teria tido uma vitória estrondosa. Portanto, de certa forma, na cabeça dele, ganhou. Quem perdeu foram os losers que não lhe chegam aos calcanhares. E, para provar que se está a marimbar para o significado do sentido de voto, convocou a imprensa para lhes falar do futuro salão de baile.
Há vários meses que Michael Wolff vinha dizendo que a purga iria acontecer e que o primeiro a ser corrido seria Susan Wiles (um aparte: supostamente a pessoa que deveria garantir o sigilo e a discrição mas que, segundo Michael Wolff, era uma das que vazavam informação para fora da Casa Branca). Dizia ele, que isso aconteceria em Novembro, a seguir às eleições. E assim foi. Uma precisão absoluta.
Segundo Michael Wolff, Trump, que já andava farto dela, culpou-a de arranjar o maestro da campanha eleitoral, e, portanto, se a campanha não deu bons frutos, a responsabilidade era também de Susie. E por mais de uma vez, em público, gritou com ela. Até que ela se fartou, virou costas, bateu com a porta. E, uma vez mais, vazou a informação de que tinha virado as costas a Trump. Ou seja, Susie consumou o acto.
Ora, ninguém vira as costas a Trump. Por isso, Trump teve que arranjar rapidamente alguém para o lugar dela para poder dizer que tinha sido ele a fazer umas mudanças. E o único que é puxa-saco a ponto de aceitar o convite sem pestenar é o tarado, engraxador-mor, Stephen Miller. Stephen Miller, um dos tipos mais odiados dos Estados Unidos, uma criatura louca, pérfida, uma cobra rasteira e perigosa.
Claro que toda a gente ficou passada com a estapafúrdia decisão, coisa para a qual Trump se está bem nas tintas. E está por preencher o cargo de porta voz da Casa Branca e parece que o maluco terá convidado a figura mais improvável: Dana White. Tão estúpido seria que toda a gente ficou na dúvida se não seria uma provocação. Mas parece que o próprio Dana White já fez saber que não aceita. Vá lá...
Tudo doido para além da conta.
Mas nada como ver a sempre interessante conversa entre Michael Wolff e Joanna Coles
Porque é que Miller é a jogada mais perigosa de Trump até agora | Dentro da cabeça de Trump
Michael Wolff e Joanna Coles examinam a impressionante humilhação de Donald Trump nas eleições intercalares e porque é que, em vez de mudar de rumo, está a reforçar as mesmas forças que o derrubaram. Com a saída de Susie Wiles e a ascensão de Stephen Miller a chefe de gabinete, Trump sinaliza uma Casa Branca ainda mais extremista, e Wolff revela o explosivo drama dos bastidores que levou à reformulação. Além disso, o rompimento cada vez mais amargo de Tucker Carlson com Trump, o futuro político cada vez mais incerto de JD Vance e se Ron DeSantis se posiciona para 2028. De seguida, o novo e bizarro trailer do documentário de Melania Trump levanta uma nova série de questões incómodas, enquanto Wolff se defende das suas ameaças legais. E enquanto os multimilionários de Silicon Valley e os poderosos escritórios de advogados se esforçam por se distanciar de Trump, a questão é saber se o panorama político mudou mais drasticamente do que qualquer pessoa do seu círculo próximo está disposta a admitir.
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